segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

"Ganhar ou Ganhar: A Vida É Um Jogo" - 2011

Mike Flaherty (Paul Giamatti) parece ser um bom sujeito. Se relaciona bem com a esposa e ajuda a cuidar das duas filhas pequenas. É um advogado que trabalha mais com pessoas idosas e mantêm um escritório em uma tranquila cidade do estado de New Jersey nos Estados Unidos. Aparenta ter a típica vida do “americano médio”, sem maiores surpresas ou desejos mais profundos, a não ser fazer da New Providence High School (onde ensina nas horas vagas) uma potência da luta greco-romana.

Só que adicionado a essas primeiras impressões, constata-se que as coisas andam meio complicadas no lado financeiro. A renda anda apertada e é preciso se virar para cortar custos, nem que para isso o sistema de aquecimento fique a beira da explosão e ele tenha que desentupir a privada quase que diariamente. Com a água chegando ao pescoço, uma oportunidade com um cliente (Burt Young de “Rock, Um Lutador”) aparece e ele acaba pegando, por mais que o senso de ética fique balançado.

É no personagem de Paul Giamatti que gira “Ganhar ou Ganhar: A Vida é Um Jogo (Win Win)", filme do diretor Thomas McCarthy (do bom “O Visitante” de 2007) que chegou as locadoras no final de 2011. Em uma atuação sólida como de costume, Paul Giamatti veste roupas que lhe cabem tão bem como já visto em longas como “A Minha Versão do Amor”, “Sideways” e “Anti-Herói Americano”. Meio perdido tenta achar um método que como um passe de mágica faça as coisas voltarem ao normal.

A oportunidade na qual ele se abraça, ainda que de modo hesitante, começa a cheirar mal quando o neto (o estreante Alex Shaffer) do seu cliente aparece do nada. O garoto de 16 anos carrega consigo um fardo de problemas que envolvem diretamente o relacionamento espinhoso com a mãe (Melanie Lynskey da série “Two and a Half Men”). Mike resolve em conjunto com a esposa (Amy Ryan de “Zona Verde”) cuidar dele um tempo, ainda mais quando descobre que o moleque é um às da luta na qual é professor. 

“Ganhar ou Ganhar” é uma comédia dramática que funciona, mas escorrega quando concentra seus esforços no lado da competição. Em determinado período parece aqueles filmes de superação no esporte que passa a toda hora na tevê. A sua melhor vertente está incorporada as questões de necessidade pessoal e financeira e aos limites da ética de cada um, o que produz, não obstante, os melhores momentos de uma obra que mesmo agradando, deixa a incomoda impressão de que podia alçar voos maiores.

Nota: 7

Assista ao trailer do filme:

sábado, 31 de dezembro de 2011

Que venha 2012!


Salve, salve minha gente amiga...

Mais um ano que chega ao fim deixando para trás bons momentos para a cultura em geral. Tivemos ótimos trabalhos na música, cinema, literatura, quadrinhos e até mesmo nas séries de TV. Que no ano que bate na porta esperando para entrar, isso aconteça em uma quantidade maior, afinal coisas boas são sempre bem vindas.

Que esse último dia sirva para repensarmos a vida, as nossas atitudes e o caminho que optamos em trilhar. Que as estradas que ainda vamos pavimentar pela frente estejam repletas de realizações e alegrias e que ao construir essas novas estradas, nunca nos esqueçamos do compromisso único de fazer desse mundo um lugar melhor para as gerações futuras.

Em 2011 o Coisapop teve a maior quantidade de acessos desde que foi criado, ainda engatinhando lá em meados do ano de 2005. Por isso o meu muito obrigado a todos que passaram aqui, concordando ou não com o teor dos textos. Um abraço virtual em todos os leitores, amigos e colaboradores que fazem com que isso seja levado em frente dia a dia.

Que nesse novo ano se possa honrar nossos sonhos e ideias como eles merecem.

Que venha um grande ano.

Paz Sempre.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

"Liebe Paradiso" - Celso Fonseca e Ronaldo Bastos - 2011

O cineasta polonês Roman Polanski disse certa vez que criar e recriar eram a mesma coisa. Esse é um bom princípio para entender a decisão de Celso Fonseca e Ronaldo Bastos em reinventar seu álbum “Paradiso” lançado em 1997 e que ganha nova versão em 2011. O segundo rebento da parceria entre os cariocas, situado entre “Sorte” de 1994 e “Juventude/Slow Motion Bossa Nova” de 2002, foi revisitado em conjunto com uma vasta gama de convidados e conquistou um nome maior: “Liebe Paradiso”.

Geralmente obras com essas características têm como olhar principal o aproveitamento barato de algum nicho de mercado ou suspiros finais de quem já está com a criatividade agonizando. Definitivamente não é o caso aqui. A labuta levou dois anos e envolveu os criadores com o engenheiro de som Duda Mello e o produtor uruguaio Leonel Pereda. Com muito esmero na elaboração, as concepções sonoras foram revistas em uma roupagem diferenciada e o resultado é um trabalho bem diferente do seu guia.

No bom “Paradiso” de 1997, 10 intimistas canções se apresentavam com a levada da mpb alinhada com a da bossa nova e Celso Fonseca cantando todas as faixas compostas sempre na companhia de Ronaldo Bastos. Em “Liebe Paradiso” um time de peso passa pelos instrumentos como Marcos Valle, Arthur Maia, Sacha Amback, Domenico Lancelotti e Márcio Montarroyos, como também algumas músicas adquirem intérpretes como Luiz Melodia, Nana Caymmi, Paulo Miklos, Adriana Calcanhotto e Sandra de Sá.

Na comparação entre os dois discos, que se torna inevitável, apenas o samba triste “Alma de Pierrô” e a balada noturna “Out Of The Blues” permanecem mais ou menos parecidos. As demais sofrem alterações que combinadas com a melhor produção, as fazem nascer novamente. A ótima “Você Não Sacou”, por exemplo, vira um intrincado pop rock cantado pelo titã Paulo Miklos em toda a esperteza da letra que diz: “já subi a Penha de joelhos, mas você não mudou/já enchi um saco de conselhos, mas você não sacou”.

Outras amostras dessa mutação aparecem na divertida “Denise Bandeira”, que vira um sambão bem mais alegre, em “Polaróides” que ganha um embalo mezzo funk/soul e um surpreendente vocal de Sandra de Sá (que consegue controlar um pouco o habitual histrionismo) e principalmente em “Ela Vai Pro Mar”, que com uma interpretação arrasadora de Luiz Melodia estaciona a quilômetros de distância da anterior, encantando ao olhar mais para o jazz, com a presença notável do trombone de Vittor Santos.

A dupla ainda faz cama, mesa e banho para que Nana Caymmi assombre com extrema habilidade a climática “Flor da Noite” e insere trechos do escritor alemão Goethe na atmosfera lounge de “Paradiso”, além de musicar um poema do escritor britânico John Keats em “A Thing Of Beauty/Juventude”, que junto com “O Tempo Não Passou” (originalmente gravada em “Sorte” de 1994 e aqui interpretada corretamente pela Adriana Calcanhotto) são as únicas que não faziam parte do álbum concebido em 1997.

Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, esses dois cariocas separados por 8 anos de diferença (o primeiro nasceu em 1956 e o segundo em 1948), quebram em “Liebe Paradiso” alguns paradigmas, pois atingem um ponto bastante elevado na carreira mediante a arriscada opção de recriar um disco que já tinha um conceito de apreciação. Nas 12 canções nele inseridas provocam o antigo ao mesmo tempo em que acenam com um sorriso nos lábios para o contemporâneo, sem esquecer de honrar a qualidade da música acima de tudo.

Página do disco no Facebook: https://www.facebook.com/liebeparadiso  

Assista ao clipe de “Ela Vai Pro Mar”: 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

"Best Of The BBC Vaults" - Ella Fitzgerald - 2011


Do baú quase inesgotável da rede BBC de Londres, surge mais um interessante produto. “Best Of The BBC Vaults” traz quatro apresentações de Ella Fitzgerald na tevê, abrangendo o período de 1965 a 1977. Lançado lá fora no ano passado, ganha edição nacional em 2011 pela Som Livre em uma bonita caixinha com livreto, CD de 18 músicas e um DVD contendo 35 canções espalhadas em 4 exibições que alcançam duas horas e meia de duração.

A cantora nascida em 25 de abril de 1917 e falecida no dia 15 de junho de 1996 aos 79 anos, deixou uma carreira fecunda em grandes momentos. Consolidou a vida artística nos anos 40 e 50 apoiada em belos discos que visitavam as obras de George Gershwin, Cole Porter e Duke Ellington, porém nunca parou de produzir, elaborando uma extensa discografia. “Best Of The BBC Vaults” cobre um período de afirmação, alguns problemas pessoais e recomeço.

O registro mais raro é logo o primeiro, intitulado “Show Of The Week: Ella Fitzgerald Swings (1965)” com 25 minutos. Nele, Ella destaca boas canções do seu repertório mais habitual como “Cheek To Cheek”, “St. Louis Blues” e uma versão bem pessoal de “The Girl Of Ipanema”. Sempre bem educada com o público, entre as canções apresenta o que virá pela frente. Por ser a mais antiga, aparece em preto e branco e tem o som apenas razoável.

Em “Ella Fitzgerald Sings (1965)”, também em preto e branco, temos praticamente um prolongamento do anterior e traz o Tommy Flanagan Trio acompanhado pela orquestra de Johnny Spence. O resultado é o mais fraco de todos, com a cantora voltando para o tempo em que se apresentava com big bands nos anos 30. No entanto, temos agradáveis ocasiões como em “Too Marvellous For Words”, “Manhattan” e “That Old Black Magic”.

“Omnibus Presents Ella Fitzgerald At Roonie Scott’s (1974)” vem com o habitual trio de Tommy Flanagan (piano), preenchido excepcionalmente pela guitarra de Joe Pass, além do onipresente baixo de Ketter Bats e a bateria de Bobby Durham. No tradicional reduto do jazz britânico, a banda se sobressai bastante enquanto a artista produz boas interpretações (apesar da voz já enfraquecida) para “The Man I Love” e “The Very Thought Of You”.

Mas o melhor fica mesmo para o final. Em “Jazz From Montreaux (1977)”, Ella se aventura em arriscadas faixas como “My Man” e “Day By Day”, além de cantar novamente Tom Jobim em “One Note Samba” e encerrar de modo brilhante com “You Are The Sunshine Of My Life” de Stevie Wonder. E basta essa última canção para mostrar as razões que a levam ser apontada como a maior cantora que o jazz americano já viu em todos os seus anos de existência.


Assista ao teaser de lançamento:

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

"Missão: Impossível - Protocolo Fantasma" - 2011


“Missão: Impossível - Protocolo Fantasma” é um daqueles filmes que antes de começar já tem algumas perguntas para responder. Dentre o rol dos questionamentos destaca-se: Será que Tom Cruise aos 49 anos ainda tem fôlego para encorpar o agente Ethan Hunt? O premiado diretor de animação Brad Bird (“Os Incríveis” e “Ratatouille”) possui cacife suficiente para estar no nível de Brian de Palma, John Woo e J.J Abrams, os diretores anteriores? Será que a franquia não se esgotou nos três primeiros longas?

Depois de assistir os 133 minutos de projeção, todas essas interrogações chegam a devida conclusão. A série iniciada pelo astro na segunda metade dos anos 90 sempre se mostrou um porto seguro para continuar impulsionando sua carreira. Com o quarto filme não é diferente. Com versão em IMAX, já se mostra nos primeiros dias de exibição como um sucesso de bilheteria e o diretor Brad Bird, que estreia no comando de atores reais, capricha no que é uma constante da marca: cenas de ação com tensão e desfechos mirabolantes.

Em “Protocolo Fantasma”, Ethan Hunt está trancado em uma prisão russa quando os agentes Jane (Paula Patton de “Preciosa”) e Benji (Simon Pegg de “Missão Impossível III”) do IMF aparecem para libertá-lo. Logo em seguida o grupo precisa invadir o Kremlin para recuperar uns arquivos, no entanto, a missão vai por água abaixo e resulta na desativação da agência (o protocolo do título), no assassinato do secretário da IMF (Tom Wilkinson) e na inclusão do analista Brandt (Jeremy Renner de “Guerra ao Terror”) no time.

A partir disso começa a velha (e boa) perseguição para tentar salvar o mundo. Dessa vez de um ataque nuclear programado por um intelectual sueco desiludido (Michael Nyqvist da trilogia européia de “Millennium”). Para tanto o quarteto de agentes viaja o mundo e se mete em brigas e confusões, tal qual a frenética e exuberante sequência em cima do edifício Burj Khalifa em Dubai, o mais alto do mundo. Pendurado por fora de um prédio no 130º. andar, Ethan Hunt coloca toda sua experiência e doses calculadas de loucura em ação. 

“Missão: Impossível - Protocolo Fantasma” é um trabalho que honra o antecessor. Exibe uma gama de cenas espetaculares e lutas bem coreografadas com um roteiro encabeçado por Josh Appelbaum e André Nemec (da série “Life On Mars”) que é realista e factível no que dá pra ser, além de contar com gente grande no apoio como Paul Hirsch (de “Star Wars”) na montagem e Michael Kay (“A Origem”) nos efeitos especiais. O único senão fica por conta da quantidade de humor inserido, que acaba por diminuir a pressão em certas passagens.

Quanto as perguntas realizadas no primeiro parágrafo do texto, pode-se afirmar que Tom Cruise continua a vontade no papel de Ethan Hunt e de novo dá sobrevida a carreira. Brad Bird ainda não está no nível dos outros diretores da franquia (em produções “reais”), mas exibe um cartão de visitas bacana e forja de modo competente a difícil fórmula “blockbuster = bom filme”. Quanto ao esgotamento da série, ainda não foi com “Missão: Impossível - Protocolo Fantasma” que isso ocorreu, então, pode-se esperar por mais aventuras nos anos vindouros.

Assista ao trailer:

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

"Margin Call - O Dia Antes do Fim" - 2011

Eric Dale (Stanley Tucci) está em frente ao computador de trabalho, com olhar compenetrado no que vê. Nada parece distinguir esse dia de outro dos últimos 19 anos em que é funcionário da mesma empresa, até ser chamado por uma pessoa que nunca viu antes que vem lhe explicar que está demitido (uma pessoa como o Ryan Bingham de “Amor Sem Escalas”). Lá ele ouve sobre o desligamento, fica com raiva, mas aceita. Antes de sair do prédio encontra um dos subordinados e entrega um arquivo em que trabalhava. Pede “cuidado” quando for analisar.

Estamos em setembro de 2008 em plena Wall Street, um dia antes de emergir a pior crise da história estadunidense desde o ano de 1929. A crise que derrubou titãs do mercado financeiro como o banco de investimentos Lehman Brothers (no qual o longa parece livremente se inspirar). E é nesse calamitoso dia que o estreante diretor (e roteirista) J.C. Chandor fez nascer “Margin Call - O Dia Antes do Fim”, um filme que tem a habilidade de balancear estreitos dramas pessoais com o cenário maior que irá se desencadear para milhares de cidadãos.

O arquivo que Eric Dale trabalhava preocupado cai nas mãos do talentoso Peter Sullivan (Zachary Quinto, o Sylar da série “Heroes”) e ele por curiosidade e ambição se debruça nele para concluir. Para tanto, vara a madrugada. O resultado é que parece não ser nada animador, aliás, é completamente alarmante. Os números e projeções indicam que o patrimônio da empresa caminha para a desvalorização quase total, o que significa um desmoronamento rápido e absoluto, causado pela falta de compromisso e de zelo com as regras do mercado.

Ao pressentir a merda que se encaminha para o ventilador, Peter chama o chefe (Paul Bettany) de uma farra e depois todo o alto escalão é convocado como se fosse uma boneca russa se sobrepondo. Primeiro o diretor da seção Sam Rogers (Kevin Spacey), em seguida seu superior Simon Baker (Jared Cohen) e no final mais uma diretora (Demi Moore) e o grande leão da selva, o presidente (ou CEO, como preferir) John Tuld (Jeremy Irons). Em uma reunião farta de cobranças e medo, soluções são buscadas sem se ater a ideia do que é correto, apenas de resistir.

“Margin Call” é uma fotografia bem batida da podridão e egoísmo que o dinheiro faz despertar no ser humano. Em um lugar onde alguns lucram milhões por ano, de nada importa as pessoas que andam pelas ruas sem saber o que vai acontecer no próximo dia, como avalia em certa passagem o personagem de Zachary Quinto. Ao lado de “Trabalho Interno” de Charles Ferguson, o filme de J.C. Chandor forma um panorama abundante da linguagem que os chefões do mercado financeiro dominante no mundo conhecem. A linguagem do lucro e da sobrevivência.

Assista ao trailer:

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

"Peixe Homem" - Madame Saatan - 2011

Quem já viu um show do Madame Saatan sabe do poder do grupo ao vivo. Uma vocalista talentosa e performática comanda uma verdadeira celebração calcada em um rock pesado que usa o heavy metal tradicional para flertar com outros estilos e nuances. Junte a isso um guitarrista acima da média e dois excelentes instrumentistas no comando do baixo e da bateria e temos uma apresentação, que quase sempre, não deixa ninguém passar impune.

Faltava para Sammliz (vocal), Ed Guerreiro (guitarra e backing vocal), Ícaro Suzuki (baixo) e Ivan Vanzar (bateria) converter todo esse poderio para um disco. Se o primeiro ensaio veio com o EP “O Tao do Caos” em 2004, as ideias ganharam amplitude e força na estreia com o disco homônimo em 2007. De lá saíram canções potentes como “Devorados”, “Molotov”, “Vela” e “Cine Trash”. Entretanto, mesmo assinalando um bom registro, faltava algo mais.

Esse algo mais apareceu em 2011 com “Peixe Homem”, o mais recente trabalho do grupo de Belém agora radicado em São Paulo. São 12 faixas que sob a batuta da produção de Paulo Anhaia (Velhas Virgens) e masterização no West West Side Music nos EUA, reflete tudo aquilo que se esperava da banda em um disco. O peso continua praticamente o mesmo, mas ganha muito em qualidade, limpeza e percepção de tudo que está sendo tocado.

Abre com a estupenda “Respira” (uma das músicas nacionais do ano), que versa sobre “a cidade que mora embaixo do céu, calor, concreto, aço e lama” e daí segue fazendo a cabeça balançar. As letras novamente são todas em português (o que por si só já é um grande mérito) e escritas na totalidade pela vocalista Sammliz. Os temas passam por caos urbano (“Sonâmbula”), crenças e sacrifícios (“Sete Dias”), amores quebrados (“Invisível”) e um leve desespero (“A Cicatriz”).

Já na sonoridade, “Peixe Homem” se espalha por coisas mais tradicionais como “Moira” e “Insônia”, porrada na medida certa em “Até o Fim” e “Rio Vermelho”, além de leves experimentações em “Foice” e “Sombra em Você”. Sem nunca desprezar a pegada que dita o ritmo do trabalho e que o torna diferente do que é produzido hoje no país, resulta diretamente em um álbum que esbanja peso, melodia e energia como poucos obtiveram sucesso em fazer nos últimos anos.

A banda colocou o disco para download gratuito no site oficial: http://www.madamesaatan.com 

Assista o ótimo clipe de “Respira”: 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

"O Garoto da Bicicleta" - 2011


O jovem Cyril Catoul está aflito e ansioso. De uma hora para outra se viu morador de um orfanato, deixado lá pelo pai. Ele não consegue compreender os motivos que levaram a isso e faz a convivência com as pessoas da instituição ser repleta de conflitos e fugas. Além de procurar saber por onde anda o pai para resgatá-lo de volta, também deseja reencontrar sua bicicleta, que naquele momento lhe parece o refúgio certeiro para parte dos males que o assolam.

É focado na figura dessa criança partindo para a juventude, que os irmãos belgas Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne edificam seu mais recente filme, “O Garoto da Bicicleta”. Novamente premiado em Cannes, os irmãos continuam acreditando em um cinema com a propensão humana em primeiro lugar e que já rendeu excelentes obras como “Rosetta” (1999) e “A Criança” (2005). A simplicidade no foco da direção aparece aqui quase que inalterada.

Porém, no atual trabalho, os irmãos perdem um pouco a mão na condução do roteiro e principalmente nos motivos dos personagens. Entre as corridas e escapadas de Cyril (em uma atuação firme do estreante Thomas Doret), ele acaba se deparando com Samantha (Cécile de France de “Além da Vida”) em um consultório médico. Ao se agarrar na moça para evitar que o levem, desperta de modo não intencional uma reação que irá ditar os próximos passos da sua vida.

Samantha, com esse sentimento de bondade acordado no peito, primeiramente compra a bicicleta de volta para o garoto, para em seguida passar com ele os finais de semana. Essa tarefa é hercúlea e nada fácil, uma vez que o menino quer mesmo é achar o pai sobre todas as coisas. Logo que percebe que o pai (o velho conhecido dos diretores, Jérémie Renier) não está nem um pouco interessado em tê-lo de volta, Cyril parte para a transgressão ingênua, pura e simples. 

“O Garoto da Bicicleta” trata de temas como bondade, compaixão e escolhas, no entanto, não deixa claro as razões para que essas ações ocorram. O que leva Samantha a abdicar da vida por um garoto que mal conhece? O que aconteceu com o pai para renegar tão veemente assim o filho? Perguntas sem respostas, que dessa forma deixam a bonita embalagem com um conteúdo apenas lúdico e pueril, e que assim como Cyril em suas corridas, parece completamente perdido.

Sobre “O Silêncio de Lorna”, outro filme dos irmãos Dardenne, passe aqui.

Assista ao trailer:

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

"Contágio" - 2011



Já fazia um tempo que o competente diretor Steven Soderbergh estava devendo um filme realmente bom, pois por mais simpática que seja a trilogia dos homens e seus segredos, ela não pode receber esse adjetivo. Isso parecia que vinha com “Che” em 2008 (mas ficou distante disso) e quase chegou no razoável e divertido “O Desinformante” de 2009.

Com a recente estreia de “Contágio”, ele enfim gera um trabalho para marcar presença na linha de frente da sua carreira, junto com filmes do porte de “Sexo, Mentiras e Videotape” de 1989, “Traffic” de 2000 e “Confissões de Uma Mente Perigosa” de 2002. Usando do medo e da paranoia, cria uma trama tensa e repleta de analogias com outras frentes.

O longa começa direto no que chama de “Dia 2”, quando Beth Emhoff (Gwyneth Paltrow) está em um aeroporto esperando a hora de retornar para casa, enquanto faz confissões indecorosas ao telefone. Ao chegar começa a passar mal, tem convulsões, espuma pela boca e acaba falecendo para tristeza do esposo Mitch Emhoff (Matt Damon, muito bem).

Depois do “Dia 2” vários núcleos são apresentados e o espectador se vê diante de um vírus, que começa a se alastrar por dias a fio, causando mais mortes e pânico. Inglaterra, Japão, Hong Kong, Estados Unidos. Todo o mundo começa a perder a noção da calma e o desespero surge forte e poderoso, gerando estragos e mais dor junto com o vírus.

Steven Soderbergh usa Laurence Fishburne como o Dr. Ellis Cheever para contar o drama dentro do órgão governamental do Controle de Doenças. Jude Law é o jornalista blogueiro Alan Krumwiede que sem escrúpulo nenhum tenta se dar bem com a crise mundial. Marion Cottilard é uma doutora suíça enviada para Hong Kong que acaba raptada.

Em todos essas pequenas alas, “Contágio” se sai muito bem, mas é em cima do personagem de Matt Damon que mostra seu maior domínio. Um homem que de um dia para o outro descobre ter sido traído, vê a esposa e o pequeno enteado sucumbir e precisa juntar forças para defender com tudo que lhe resta a filha que não foi afetada ainda.

Em “Contágio” Steven Soderbergh coloca um grande elenco em um clima tenso e de falta da humanidade quando esta é ameaçada. Igualmente inicia pequenas discussões sobre o papel do governo e da imprensa em crises, como também circula pela forma que os alimentos chegam a nós. E acima de tudo, faz acreditar que tudo seria plenamente possível de acontecer.

Sobre “O Desinformante” de 2009, passe aqui.

Assista ao trailer: 


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

"Asterios Polyp" - David Mazzucchelli


Uma forte chuva despenca dos céus enquanto começa a ser mostrada uma casa imunda e bagunçada com restos de comida e contas a pagar arremessadas pelos quatro cantos. Um pouco mais adiante aparece um homem jogado na cama assistindo a um filme pornô e balançando um isqueiro na mão. Nesse momento um raio tomba em direção ao prédio de apartamentos e ao invés de lhe conceder poderes especiais como em uma velha história em quadrinhos, faz é iniciar um incêndio que irá consumir todo o edifício.

Assim começa “Asterios Polyp”, a premiada graphic novel de David Mazzuccelli (abocanhou prêmios como o Eisner e o Harvey Awards) que ganha edição nacional pelo selo Quadrinhos na Cia. da Companhia das Letras. Com 344 páginas e tradução de Daniel Pellizzari, o álbum lançado em 2009 lá fora marcou o retorno triunfal de David Mazzuccelli a cena da nona arte. Responsável junto com Frank Miller por obras do calibre de “Batman: Ano Um” e “Demolidor: A Queda de Murdock” nos anos 80, o artista andava sumido e meio recluso.

O homem na cama vendo filme pornô é o que dá nome ao álbum e está no dia do seu aniversário de 50 anos. Com a vida inteira desmoronada, ele vê o incêndio como a chance de fugir e recomeçar. Escolhe três pequenos objetos no apartamento e sai em disparada em busca de um trem que o leve até onde o dinheiro que tem na carteira consiga pagar. O destino final, bem longe da Manhattan que morava, é uma pequena cidade cravada em algum ponto ermo e distante dos Estados Unidos, onde terá a chance de ter outra vida.

A história é narrada por Ignazio, irmão gêmeo natimorto de Asterios que serve como guia para toda a carga de dualidade que é inserida. Mazzucchelli alterna os dias atuais com passados, a fim de mostrar como seu personagem chegou onde está. Professor que fez reputação como “arquiteto de papel” e nunca teve um projeto construído, conhecemos uma pessoa teimosa, egocêntrica e intransigente, que nem no casamento aprendeu a deixar isso de lado. Logo, todo processo de redenção que a trama oferecerá durante seu decorrer será bem vinda.

“Asterios Polyp” chama a atenção, além do romance repleto de arrependimento e aprendizagem, pelo tratado estético no qual o autor se ofereceu a realizar. Em torno da carga dramática da história, a arte dos quadrinhos é explorada em todas as suas formas, traços, cores, linhas e desenhos. David Mazzucchelli une todas as maneiras conhecidas e mistura fazendo nascer algo diferente e até mesmo novo. Um trabalho poético e com visual instigante de um autor que domina magistralmente o que se propõe a fazer.

P.S: O único ponto negativo da obra é a capa, que poderia ser em papel mais duro e resistente devido ao formato e grande volume de páginas.

A Companhia das Letras liberou um trecho para leitura. Veja aqui.