quinta-feira, 21 de março de 2019

Quadrinhos: "Últimos Deuses", "Adagio", "Gideon Falls - Volume 1: O Celeiro Negro” e "Bone 1 - O Vale ou Equinócio Vernal"


Com campanha de financiamento coletivo na viabilização, “Últimos Deuses” foi publicado em 2018 de maneira independente, com roteiro e letras de Eric Peleias (de “Até o Fim”) e Hiro Kawarara (de “O Bestiário Particular de Parzifal”) na arte e cores. Os dois conduzem bem o trabalho, com destaque maior para os planos e soluções visuais desenvolvidos por Hiro. A trama tem como alicerce deuses antigos que já não são o que eram e se encontram sozinhos, enfraquecidos e passando por perrengues que nunca imaginariam. Alguns deles insatisfeitos com isso embarcam em uma missão nada nobre de acordar uma forte divindade que lhes promete devolver o brilho de outrora, desde que lhe deem a chance de se vingar de Odin. Mesmo que a premissa de deuses perdendo divindade não seja tão original assim, a dupla criadora narra uma boa aventura em quadrinhos com ação e alguns questionamentos, indicando uma possível sequência no final.

Nota: 6,0

Instagram dos autores:


Lançado em dezembro de 2018 na CCXP, “Adagio” do Felipe Cagno (de “The Few And Cursed”) tem 112 páginas em papel couché. A obra teve campanha de financiamento coletivo, publicação posterior pela AVEC Editora e foi incentivada pelo ProacSP. Com arte de Sara Prado e Bräo, cores da Natália Marques e letras de Deyvison Manes, o roteiro mergulha de cabeça na ficção científica em uma história que tem relevantes correlações com os caminhos que nossa sociedade vem trilhando. Os fatos são ambientados em 2067 onde uma rede social chamada Adagio toma conta do mundo. Nela, os usuários postam os sonhos e correm desesperadamente atrás de interações sendo esse o entretenimento quase absoluto dessa era. Kaya é uma das pessoas que buscam virar sucesso a qualquer custo, mas quando isso acontece não é bem como ela pensava. Conversando sobre solidão, futilidade social e vazio espiritual temos mais um ótimo trabalho nacional.

Nota: 8,0

Twitter do criador: https://twitter.com/Felipe_Cagno


Jeff Lemire é provavelmente o maior nome dos quadrinhos da atualidade, conseguindo se destacar tanto com heróis conhecidos como em trabalhos autorais. No Brasil, o autor aparece com frequência nos últimos anos (e isso é excelente), sendo que “Gideon Falls - Volume 1: O Celeiro Negro” é mais um exemplo disso. Sucesso nos EUA, o trabalho feito com Andrea Sorrentino na arte - repetindo a parceria que brilhou em “O Velho Logan” -  ainda conta com as cores do grande Dave Stewart. Com 160 páginas, capa dura e publicação em 2018 pela Editora Mino o trio apresenta uma trama de terror onde os fatos são apresentados sem muita pressa, dando ao leitor aquela sensação tensa de suspense sobre o que virá. Entrelaçando os destinos de um jovem com uma estranha mania e um padre que tem a derrota como fiel amiga, apresentam uma história envolvente que só tende a crescer mais.

P.S: O segundo volume será publicado pela Mino mês que vem.

Nota: 8,5



E lá vamos nós de novo e outra vez para mais um capítulo da saga de “Bone” no Brasil (e que ao que tudo indica parece ser o final feliz). A obra-prima do quadrinista Jeff Smith já foi publicada no Brasil pela Via Lettera e HQM Editora, mas nunca de maneira completa. Agora a casa nacional dos primos Fone, Phoney e Smile é a Todavia Livros que em 2018 lançou uma edição com as cores de Steve Hamaker e 448 páginas reunindo os 20 primeiros números da série que saíram nos EUA entre julho de 1991 e outubro de 1995. Vencedora de dezenas de prêmios importantes, “Bone” é o tipo de obra que agrada e emociona até mesmo quem não gosta de quadrinhos. A aventura dos primos no misterioso Vale é repleta de ação, humor variado, fantasia e tragicomédia enquanto apresenta personagens repletos de brilho e criaturas pra lá de exóticas. Obra imprescindível.

P.S: A Todavia lançará o restante da série em mais dois volumes.

Nota: 9,5





quinta-feira, 7 de março de 2019

Literatura: "Como As Democracias Morrem"


“Como as Democracias Morrem” (How Democracies Die, no original) foi publicado nos EUA em 2018 e ganhou edição nacional no mesmo ano por aqui através da Editora Zahar com 272 páginas, tradução de Renato Aguiar e prefácio de Jairo Nicolau, professor de Ciência Política da UFRJ. O livro virou best-seller rapidamente no exterior e foi uma das obras mais comentadas no Brasil desde que foi lançado. E não faltam motivos para isso.

Os autores são Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, pesquisadores e professores de Ciência Política na prestigiosa Universidade Harvard. No livro versam sobre o retorno do autoritarismo no mundo, que na visão deles está passando por uma recessão democrática. O olhar é mais voltado para os EUA, analisando historicamente a democracia no país, como também a sucessão de atos e decisões que tornaram possível a eleição de Donald Trump para Presidente, contudo, também se estendem a outros países tanto no passado quanto no presente.

A pesquisa da dupla para concepção da obra foi extremamente abrangente, baseada em mais de 800 referências espalhadas nas notas constantes nas últimas páginas. Demonstram detalhadamente que nos EUA as tradições que sustentam as instituições democráticas estão se desintegrando já há algum tempo e isso culminou no atual presidente que com as grades de proteção enfraquecidas chegou ao poder, o que certifica que a democracia americana não é mais tão forte como outrora se imaginava.

O texto invade o mundo com o olhar crítico e passa por governos recentes (de 90 em diante) como os de Alberto Fujimori no Peru, Hugo Chávez na Venezuela, Vladimir Putin na Rússia e Recep Erdogan na Turquia e para mais recentes ainda como os de Viktor Orbán na Hungria e Jaroslaw Kaczynski na Polônia. Mas também olham para casos antigos como Adolf Hitler na Alemanha e Benito Mussolini na Itália, correlacionando e amarrando as características comuns de todos eles.

Os autores apontam quatro caminhos de comportamentos autoritários que podem facilmente despencar para um governo ditatorial, a saber: rejeição das regras democráticas do jogo (ou compromisso débil com elas), negação da legitimidade dos oponentes políticos, tolerância ou encorajamento a violência e, propensão a restringir liberdades civis, de oponentes, inclusive a mídia. E aí? Percebe alguma semelhança com os tempos atuais no ar? Pois é, isso mesmo.

Fica límpido que não se precisa mais de golpes militares para arruinar uma democracia. Há outra maneira tão destrutiva quanto que é quando líderes eleitos subvertem em grande escala o poder e o sistema que os levou até lá, fazendo a democracia desaparecer – na maioria das vezes – devagarzinho, em etapas, utilizando os recursos descritos acima, entre outros. É assim que as democracias morrem hoje. A sua própria defesa é muitas vezes usada para essa deturpação de ideais e conceitos.

E quando há polarização o risco é sempre maior. A ideia de colocar um outsider para concorrer por conta de apoio popular no momento, com o intuito de controlá-lo depois de eleito é um verdadeiro tiro no pé. Acreditar que a retórica de campanha não será cumprida depois é um grave erro. Esse tipo de demagogo existe em todo país, contudo os demais líderes políticos percebem o que virá e tomam medidas para garantir que esses autoritários fiquem longe do poder. Se unem, apesar das diferenças, em um esforço orquestrado para derrotá-los, o que atualmente não vem sendo feito da maneira que se espera.

“Como as Democracias Morrem” é aquele livro que invariavelmente recebe as alcunhas de obrigatório e necessário e isso não poderia – nesse caso – estar mais correto. Em tempos em que as nuvens estão cada vez mais cinzas pairando sobre nossas cabeças e ideais nefastos circundam de conversas de bares a redes sociais, nada melhor do que ler um trabalho desse nível que serve como precioso alerta e constatação de que como diz o velho adágio, a cura para os males da democracia é mais democracia. Sempre.

Leia um trecho no site da editora: https://tinyurl.com/y9lbs985  

Nota: 10,0

segunda-feira, 4 de março de 2019

Literatura: "Ingresia" e "A Uruguaia"


Franciel Cruz nasceu na pequena Irecê na Bahia e ainda adolescente se mudou para Salvador onde virou torcedor apaixonado do Vitória e seguiu na sina de pecar e ficar do lado dos deserdados como ele mesmo diz. Com publicação da P55 Edição e viabilizado através de financiamento coletivo em 2018, “Ingresia” é o primeiro livro do jornalista e faz um compêndio de crônicas publicadas em jornais, revistas, redes sociais e blogs. Insere constantemente um humor cortante e muita ironia em textos que utilizam gírias regionais e palavrões e que frequentemente conversam diretamente com o leitor sobre música, carnaval, política, desigualdade econômica, exclusão social e segregação racial no estado que tanto ama e defende. Achincalhando tudo e todos (inclusive ele próprio) o autor apresenta um olhar revelador sobre a Bahia que, por conseguinte, podemos estender para o Brasil nos escritos mais acintosos e sérios. Entre causos, memórias e um punhado de história preenchendo o recheio atravessa da galhofa pura e mordaz para a acidez mais crítica sempre tratando o leitor como um parceiro de copo no meio de um boteco qualquer da primeira capital do país que trata visitantes da melhor e mais lúdica maneira enquanto destrata os habitantes locais por conta de cor, classe social ou local de moradia. Entre as mais de 90 crônicas espalhadas nas 260 páginas do livro algumas das mais interessantes são as que falam da música e do amor do autor por nomes como Luiz Gonzaga, Odair José, Gilberto Gil, Lazzo Matumbi e Belchior.

Siga o autor no Twitter: https://twitter.com/fsmcruz

Nota: 7,0


A crise da meia-idade masculina já foi explorada em várias obras na literatura e no cinema, é aquele momento em que a juventude definitivamente ficou para trás e a velhice começa a aparecer no horizonte, o que algumas vezes gera decisões estapafúrdias e irresponsáveis, para dizer o mínimo. É nesse momento da vida que está Lucas Pereyra, o protagonista de “A Uruguaia” (La Uruguaya, no original), romance que a Todavia Livros publicou aqui em 2018 com 128 páginas e tradução de Heloisa Jahn. Sucesso nos países de língua espanhola a obra do autor argentino Pedro Mairal absorve esse tema dando um verniz tragicômico a história. Em crise financeira, conjugal e até mesmo espiritual, Pereyra consegue depois de um bom tempo um adiantamento para dois novos livros. Por conta da situação econômica delicada da Argentina resolve sacar os dólares provenientes do contrato no vizinho Uruguai onde aproveita para rever uma bela mulher mais nova que entrou na sua vida em uma feira literária. Casado e com um filho criança cada decisão que surge na cabeça de Pereyra é um infeliz e burlesco erro que rende situações trágicas com um viés engraçado envolvido que apesar da gravidade da coisa torna-se permissível sucumbir as risadas. Com um protagonista que tende a não arrebatar maiores paixões pelas escolhas e alguns pensamentos, Pedro Mairal envolve o leitor nessa sequência de fatos que versam sobre o destino, a consequência dos atos de cada um e a interminável busca por uma insignificante dose de felicidade que seja.

Nota: 7,5

sábado, 2 de março de 2019

Séries: "A Louva-a-deus", "Collateral" e "The Umbrella Academy"


Jeanne Deber (Carole Bouquet de “007 – Somente Para Seus Olhos”) é uma serial killer fria e segura das suas habilidades e ideologias que está presa há anos pelo assassinato de vários homens. Quando consultada pela polícia para auxiliar a desvendar crimes que copiam exatamente os seus decide participar da investigação desde que seu filho Damien (Fred Testot) que é policial esteja na força-tarefa. Está montado o cerne de “A Louva-a-deus” (La Mante, no original), minissérie francesa de 2017 com 6 episódios produzida pela TF1 e disponível no Netflix. Criada por Alice Chegaray-Breugnot, Nicoles Jean e Grégorie Demaison, todos os capítulos têm direção de Alexandre Laurent, o que sem dúvida ajuda para o bom andamento. O trabalho vai além do suspense e do thriller policial para se estender a um drama familiar repleto de segredos e (literalmente) esqueletos grandiosos escondidos. Com atuação firme de Carole Bouquet, que mesmo sem ser a protagonista é quem comanda o (bom) elenco, vemos uma história com resultado tenso e surpreendente que transita entre o sadismo e o amor, entre a violência e a insegurança.

Nota: 7,0


“Collateral” é uma minissérie de 2018 produzida pela BBC em conjunto com a Netflix está disponível na plataforma com 4 episódios de quase uma hora de duração cada. Escrita por David Hare (roteirista de ótimos filmes como “O Leitor” e “As Horas”) traz a diretora S. J. Clarkson (das séries “Jessica Jones” e “Orange Is The New Black”) na chefia. A trama inicia quando um motoboy é assassinado por tiros depois de entregar uma pizza em Londres. A polícia da cidade com a detetive Kip Glaspie (Carey Mulligan de “As Sufragistas” e “Drive”) assume a frente da investigação e logo descobre que a vítima era um imigrante ilegal, ao que tudo indica um sírio. Apesar de ter a investigação policial como guia vai muito além disso e se expande pela questão do tratamento do Reino Unido a refugiados e imigrantes e passa sobre abusos no exército, tráfico ilegal de pessoas, política e religião. Muita coisa para ser tratada em pouco tempo, correto? Sim, correto, e esse é o maior mérito do trabalho que mesmo sem se alongar profundamente consegue dar ênfase crítica a esses temas.

Nota: 7,5


Irmãos com habilidades especiais (e bem bizarras) se reúnem novamente debaixo do mesmo teto depois de um longo tempo e descobrem que precisam deixar as diferenças de lado e juntar forças para salvar o mundo de um apocalipse iminente. Essa é premissa básica de “The Umbrella Academy”, série que é uma produção original da Netflix e se baseia nos quadrinhos vencedores do Prêmio Eisner criados por Gerard Way (ex-vocalista do My Chemical Romance) e o brasileiro Gabriel Bá (da obra-prima “Daytripper” em conjunto com o irmão Fábio Moon). Com maciça campanha de divulgação os 10 episódios não decepcionam e por mais que apresente uma ideia geral não tão original assim, o que realmente conta e faz valer a pena é o caminho pautado por desastres pessoais e familiares de personagens extremamente singulares e desestruturados. Inspirado por X-Men e principalmente Patrulha do Destino, Gerard Way criou com Gabriel Bá algo muito divertido e intrigante que se transpõe com a mesma força para a telinha (mesmo com caminhos diversos) e exibe cenas fantásticas e grandes atuações de Robert Shehan e Ellen Page.

Nota: 8,5

Assista aos trailers: