quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Quadrinhos: "Bloodshoot Renascido Vol. 1", "Devaneios: A Estrada Até Aqui", “Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro” e "Os Últimos Dias do Xerife"


Bloodshot foi criado nos anos 90 por Kevin VanHook, Don Perlin e Bob Layton. Inserido no universo da Valiant Comics é uma “arma” criada por um projeto privado que ao despejar vários nanites no sangue o tornaram super-humano com diversos poderes como o da regeneração.  “Bloodshoot Renascido Vol. 1 – Colorado” que a editora Jambô publicou no final de 2018 com 144 páginas apresenta as cinco primeiras edições lançadas em 2015 nos EUA com roteiro do Jeff Lemire e arte do Mico Suayan e Raúl Allén, trazendo o personagem escondido em uma cidade pequena onde tenta levar uma vida normal depois que os nanites saíram da corrente sanguínea. Lógico que isso não dura e ele volta a caçada com toda a violência que tem direito. É um reinício mediano comandado por Lemire que serve para quem não conhece e preparar para o filme do ano que vem com Vin Diesel estrelando.

Nota: 6,0


Yorhán Araújo é carioca de Volta Redonda e desde 2015 faz a tirinha “Devaneios com Sigmund e Freud” onde um cachorro, um raposo, uma capivara e um gato muito diferentes entre si conversam em poucos quadros sobre questões cotidianas, de comportamento e existenciais, indo também para outras esferas de vez em quando. Com quase 500 mil seguidores espalhados entre Facebook e Instagram o autor promoveu uma bem-sucedida campanha de financiamento coletivo no ano passado para publicar a primeira coletânea física do trabalho. O resultado foi “Devaneios: A Estrada Até Aqui” com 140 páginas que reúne conversas humoradas sobre as nossas neuroses diárias e pequenos e simples prazeres da vida como comer e dormir. A diferença das personalidades dos personagens é que transforma a dinâmica em algo bacana, contrastando de modo interessante o cachorro meio preguiçoso, o raposo intelectual, o gato mal-humorado e irônico e a simpática e prestativa capivara.


Nota: 6,5


Daniel Clowes publicou na revista Eightball entre os anos de 1989 e 1993 os 10 capítulos de “Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro” que a editora Nemo lançou aqui no ano passado com tradução de Jin Anotsu e 144 páginas. A obra do conceituado autor de “Ghost World”, “Wilson” e “Paciência” já tinha recebido uma edição nacional anteriormente pela Conrad. Na trama, Clay Loudermilk assiste a um filme sado-masoquista no cinema com uma ex-namorada como atriz, o que o deixa intrigado para saber mais sobre a produção. Essa busca envolve o protagonista em situações estranhas e bizarras ao extremo, com figuras excêntricas ao seu redor. Underground e nonsense até a alma com o surrealismo ditando as ações sem qualquer tipo de pudor ou controle, a obra até hoje é citada como influência por diversos autores no meio dos quadrinhos alternativos e só por isso já vale a conferida.


Nota: 7,0


“Os Últimos Dias do Xerife” traz o quadrinista e músico paulista Thiago Ossostortos se debruçando sobre o relacionamento com o pai seja no decorrer da vida ou nos últimos momentos passados com ele antes do seu falecimento. Bem diferente do clima de “Kombi 95” de 2017 que trazia o humor como carro-chefe, o novo trabalho publicado de maneira independente por financiamento coletivo no finalzinho de 2018 tem a contemplação e o lirismo como condutores de uma história pautada por silêncios, pequenas brigas, diferenças de pensamento, mas com o amor sempre por trás. Nas 200 páginas em preto e branco o autor analisa uma relação que exibia poucos pontos em comuns com o pai como o gosto por filmes e questiona a validade de tudo até ali. É uma obra poética que encontrará identificação em vários e vários leitores com o poder de fazer algumas lágrimas caírem no meio da leitura.


Nota: 8,5




segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Literatura: "Manual da Demissão" e “Bem-vindo à Casa dos Espíritos”


A crise que se instalou por aqui nos últimos cinco anos causou demissões em grandes quantidades nos quatro cantos do país. Milhões estão desempregados. É dentro desse panorama desanimador que a escritora carioca Julia Wähmann concebeu “Manual da Demissão”, publicado em 2018 pela editora Record com 144 páginas. Com uma pegada autobiográfica, a autora narra com muito bom humor e sarcasmo as idas e vindas ocorridas depois da demissão, o que transforma a obra em extremamente aprazível mesmo que alguns dos risos venham da tensão ou do desespero. Enquanto trata dos procedimentos normais do processo como retirar as coisas do escritório, receber a rescisão, sacar o FGTS em horas e mais horas quase intermináveis na Caixa Econômica, ainda tem que lidar com o namoro que acabou quase que no mesmo momento inserindo uma atmosfera não muita boa ao redor. Involuntariamente trazendo um leve tom político temos um singelo retrato de uma geração que está entre os 35 e o 40 anos e fica na encruzilhada entre se dedicar a uma empresa ou meter a cara no próprio negócio, enquanto o mundo do trabalho muda constantemente e é preciso pagar as contas de qualquer jeito. Seja na hora em que precisa preencher papéis, toma uma bebida na praia no meio da semana ou quando a depressão chega e se instala apresenta o humor a que se propõe. No quarto livro (os anteriores são: “Diário de Moscou”, “André Quer Transar” e “Cravos”), Julia Wähmann diverte e ajuda de maneira simples e tocante sobre um tema complicado.

Mais sobre a autora aqui: https://medium.com/@juliaveman

Nota: 7,0

O problema de se esconder do passado é que em algum momento ele bate na porta e reaparece. É o que acontece com Andrew Ranulf, protagonista de “Bem-vindo à Casa dos Espíritos” (The Necromancer’s House, no original), publicação de 2018 da DarkSide Books no Brasil com capa dura, 382 páginas e tradução de Carolina Caires Coelho. Lançado nos EUA em 2013, o livro do poeta, dramaturgo e escritor Christopher Buehlman ganha edição primorosa no país (como é costume das publicações da editora) com uma trama que mistura fantasia com terror em doses atraentes. Ranulf é um mago, um bruxo que vive isolado em uma grande casa que por conta das proteções só pode ser vista por aqueles que ele definir. O lar tem praticamente vida própria e é cheio de encantos, feitiços, armadilhas e artefatos perigosos (uma espécie da Casa dos Mistérios de John Constantine). Com magia espalhada pelos cantos e personagens bizarros - como a sereia que é apaixonada por ele e o cachorro redivivo que serve de mordomo - leva uma vida entre seus afazeres, visitas ao Alcoólicos Anônimos e uma relação que flutua entre amizade, tesão e amor por Anneke. Quando o passado chega feito um trem desgovernando na varanda é preciso sobreviver e proteger os mais próximos de uma antiga e poderosa entidade, o que rende momentos de combate e apreensão. Para os amantes do gênero, “Bem-vindo à Casa dos Espíritos” é um livro que satisfaz e pode interessar mesmo a leitores não tão convertidos assim a esse tipo de literatura.

Aqui um trecho disponibilizado pela editora: https://bit.ly/2SQWL2o  

Nota: 7,0