segunda-feira, 18 de junho de 2018

Quadrinhos: "Deuses Americanos - Sombras", "Cadafalso" e "Jeremias - Pele"


“Deuses Americanos” é provavelmente o melhor livro de Neil Gaiman. Entre tantos que o consagrado autor já fez é o que mais se destaca. Lançado originalmente em 2001, ganhou uma excelente adaptação em formato de série televisiva (está disponível na Amazon Prime Video) e agora também se aventurou para os quadrinhos, seara que Gaiman domina como poucos e concebeu obras-primas. Publicada originalmente nos EUA pela Dark Horse, a Intrínseca lançou recentemente aqui o primeiro dos três volumes previstos chamado “Sombras”. Com 264 páginas em formato 17x26cm, a obra tem tradução de Fernando Scheibe e Leonardo Alves e apresenta diversos extras como esboços e capas alternativas que dão um plus e tanto. A adaptação ficou sob a responsabilidade de P. Craig Russell (Doutor Estranho) e Scott Hampton (Sandman) que nesse primeiro arco trazem Shadow Moon saindo da prisão e tendo que lidar com a morte da esposa e o encontro com o misterioso Wednesday que o insere em uma misteriosa guerra travada entre os deuses antigos das mitologias de cada país que chegaram aos EUA através dos imigrantes e os novos deuses dos dias atuais (como internet, mídia, etc.). Com algumas mudanças sutis no texto e na formatação, essa nova investida fica bem abaixo do esperado para quem já conhece a obra (seja do livro ou série), devendo funcionar melhor para os neófitos.

Nota: 6,0



“Composto no ano de 2017, durante a longa noite que se abateu sobre o país, período de vigência do golpe de agosto de 2016. Ainda que não verse sobre ele, sua sombra pode ser notada em todo o canto”. É o que escreve Alcimar Frazão no final do novo trabalho “Cadafalso” e realmente percebemos que essa sombra permeia tudo. Com 128 páginas, formato grande (21x27cm) e uma edição caprichada da editora Mino, o quadrinista viaja por Florença, Barcelona, São Paulo e Porto Alegre em anos e épocas distintas em contos que tratam da vida, do existir e dos absurdos que circundam isso. A arte em preto e branco alcança níveis ainda mais elevados do que em “O Diabo e Eu”, obra anterior do autor, e os contos trazem parcerias com nomes como Lourenço Mutarelli, Magno Costa e Dalton Cara. Do artista renascentista obcecado com a própria arte e religião, passando pelo motoboy que corre sem parar pela capital paulista, temos histórias que não são fáceis, carregam um cunho existencial, às vezes com poucas palavras e em outras usando projeções mentais, mas sempre com o impacto poderoso da arte. A história final que traz um velho recluso, cheio de delírios de grandeza e paranoia carregando dentro de si um moralismo demasiado e nocivo é a cereja do bolo de um álbum pesado e vigoroso.

Nota: 8,5


Jeremias é um raro personagem negro dentro do mundo concebido por Mauricio de Sousa. Estreou em 1960 e desde então tem sido mero coadjuvante nas histórias da turminha, encabeçando poucas aventuras solo nesses anos. Isso muda com “Jeremias - Pele”, mais um trabalho dentro do projeto Graphic MSP (o 18º) desta vez comandado por Rafael Calça e Jefferson Costa, e, talvez, o mais importante até agora. Com 98 páginas e publicação pela Panini Comics, os autores apresentam o protagonista no convívio com a família e na sua escola, onde depois de um dever sobre profissões encaminhado de maneira desastrosa pela professora, começa a sofrer preconceito mais severamente, por mais que este sempre estivesse presente ao redor. O texto insere situações cotidianas que os autores já passaram ou presenciaram na escola, no trabalho, na esquina, na rua. Situações que sim, provavelmente já fizemos quando crianças em maior ou menor escala, conscientes ou não, e agora temos a missão de não deixar que isso ocorra também com nossos filhos, irmãos e sobrinhos. É por isso que “Jeremias - Pele” é tão importante. Mesmo que fale sobre racismo ainda sem a intensidade desejada, pelo alcance que tem poderá entrar na vida de milhares de jovens no momento certo, antes que o preconceito chegue e fique enraizado para o resto da vida.

Nota: 9,5



terça-feira, 5 de junho de 2018

Literatura: "Hippie", "Os Beneditinos" e "Fechado Por Motivo de Futebol"


Paulo Coelho chegou ao vigésimo livro. Chama-se “Hippie” o novo rebento de 288 páginas e lançamento pela Paralela, selo da Companhia das Letras. Dois anos depois de lançar “A Espiã” ele agora mergulha nas lembranças da juventude no final dos anos 60 e início dos anos 70 onde tateava ainda sem muita convicção o seu futuro. Extremamente autobiográfico, o livro foi escrito em terceira pessoa, permitindo assim que os demais personagens tivessem maior destaque. Paulo é um jovem que viaja junto com a namorada mais velha pela América do Sul, até que uma prisão na cidade de Ponta Grossa no Paraná em 1968 em plena ditadura faz com que esse amor termine. Do outro lado já encontramos Paulo em 1970 chegando a Amsterdã com algumas expectativas na mochila e a cabeça aberta para novas experiências. Quando Karla, uma holandesa forte e bela surge no seu caminho, embarcam em um ônibus intitulado Magic Bus com destino ao Nepal. Nessa aventura pelo desconhecido temos um romance de descoberta, de pessoas querendo achar o lugar no mundo. Ao deixar um pouco de lado toda a espiritualidade e os chavões que tanto gosta de usar (ainda que eles apareçam em boa dose), Paulo Coelho faz em “Hippie” um de seus melhores trabalhos em muito tempo.

Nota: 6,0

Leia um trecho aqui: https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/88283.pdf 





O que fazer quando o emprego vai embora, a vida já não oferece grandes atrativos no pequeno apartamento em que se mora sozinho e para completar a saúde já não anda lá essas coisas e requer privações e cuidados mil? Bom, para o narrador de “Os Beneditinos” a saída é reunir os velhos amigos do tempo de colégio primário e propor a eles uma última aventura em Londres para disputar o primeiro campeonato de Walking Football, um jogo feito para veteranos onde não é permitido correr, somente andar com a bola nos pés. Nas 152 páginas do romance publicado recentemente pelo selo Alfaguara da Companhia das Letras, o jornalista carioca José Trajano finaliza uma espécie de trilogia involuntária composta antes por “Procurando Mônica” de 2014 e “Tijucamérica” de 2015. Assim como eles, “Os Beneditinos” carrega em si vários pontos autobiográficos de um autor que durante muito tempo foi odiado e amado nas mesas de debate esportivo e no comando nacional de um grande canal de esportes. De opinião forte, às vezes até mesmo irascível, mas inteligente e bem-humorado, Trajano versa belamente no novo trabalho sobre o envelhecer e as boas lembranças que guardamos dentro do peito, ao mesmo tempo em que cutuca levemente os tempos sombrios em que vivemos.

Nota: 7,0




O escritor uruguaio Eduardo Galeano (de “As Veias Abertas da América Latina”) sempre foi um apaixonado por futebol. Falecido em 2015 costumava pregar um aviso na porta de casa em época de Copa do Mundo que dizia “cerrado por fútbol”. Nada mais direto e claro. A paixão era tanta que escreveu “Futebol ao Sol e à Sombra” onde se debruçava magistralmente sobre o esporte fazendo as correlações que lhe eram possíveis. Em 2018 a L&PM Editores publica aqui no Brasil nas vésperas de mais uma Copa do Mundo, “Fechado Por Motivo de Futebol”, coletânea com textos que não entraram no livro anterior e saíram em jornais, revistas e livros, compilando até mesmo coisas inéditas. O escritor que como tantos outros queria ser jogador de futebol, mas como ele mesmo afirmava só conseguia fazer isso dignamente nos sonhos, usou as mãos e a mente para produzir a arte que os pés não permitiram. Em um livro extremamente aprazível, Galeano conta saborosos casos sempre margeando os mesmos com política e história, o que faz com que pequenos textos de uma página apenas, por exemplo, se tornem ainda mais. Passando da seleção uruguaia pelos craques que admirava como Pelé, Maradona e Zidane até desconhecidos brilhantes, “Fechado Por Motivo de Futebol” é leitura mais que recomendável.

Nota: 8,5

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Quadrinhos: "Uma Dobra no Tempo", "Salto" e "Open Bar - Edição Definitiva"


Escrito por Madeleine L’Engle em 1962, “Uma Dobra no Tempo” abocanhou prêmios na época e se manteve relevante depois. A história juvenil de ficção científica e fantasia se estendeu por mais volumes e invadiu outras áreas como o cinema (em uma produção bem sem graça comandada pela Disney lançada este ano). Os quadrinhos também tiveram sua versão pelas mãos da Hope Larson (de “Batgirl”) que em 2012 adaptou a obra nos EUA. Essa adaptação ganha edição nacional agora em 2018 pela Darkside Books com o habitual capricho que a editora tem com seus produtos. Com 394 páginas, capa dura e tradução de Érico Assis é uma edição belíssima. Nela, Meg é uma adolescente com problemas típicos dessa idade e não consegue transitar bem entre aqueles ditos “normais”. Junto com Charles - o sagaz irmão mais novo - embarca em uma tremenda viagem em busca do pai desaparecido. Nessa tresloucada e surreal aventura pelo universo são acompanhados de um garoto tão “estranho” quanto eles e atravessam o tempo e o espaço conhecendo criaturas das mais diversas estirpes. Usando uma paleta de cores reduzida, mas que produz bons efeitos, Hope Larson conversa sobre diferenças e convivência em harmonia com eficácia, porém, com pouco brilho.

Nota: 6,0


O carioca Rapha Pinheiro começou a fazer quadrinhos em 2014. Estudou na Inglaterra e na França, onde concebeu “Salto”, graphic novel viabilizada através de financiamento coletivo que em 2017 ganhou distribuição pela Avec Editora. Nela, concebeu um mundo fantástico onde são permitidas analogias com nossa vida em sociedade. Em formato grande (21,3 x 27,7 cm) e 96 páginas conhecemos Intos, uma cidade escondida debaixo da terra devido a eventos naturais que forçaram os habitantes a migrarem para uma situação única de salvação. Guiada por informações do governo e do dono da fábrica que emprega a maior parte da população, todos vivem no piloto automático, sempre com um pequeno temor inserido no peito de que algo desande novamente e, por conta disso, seguem fielmente as regras. Mas no meio disso existe o jovem Nü. Ousado, inquieto e diferente acaba se envolvendo por acidente em algo maior do que imaginaria e cabe a ele revelar a todos que as coisas não são exatamente como pensavam. Com arte exuberante e cores que agravam mais as nuances que o texto questiona, temos um trabalho que agrega diversas influências e explode no fundo da aventura que narra em crítica social e comportamental, além de versar muito bem sobre preconceitos.

Nota: 8,0


Existem amizades que estão ali desde o início da vida e lá permanecem até quando passamos dos 30, dos 40 anos. São raras, isso é fato, mas existem. Amizades com cumplicidade e liberdade total entre as partes que ajudam a seguir em uma vida cada vez mais complexa e dinâmica. Barba e Leo se conhecem desde pequeno e formataram um desses casos em “Open Bar - Edição Definitiva” do quadrinista Eduardo Medeiros de “Sopa de Salsicha”. Essa nova edição lançada no final do ano passado pela Stout Club através da Panini Comics tem 272 páginas e apresenta os dois volumes da história concebida por esse gaúcho radicado em Florianópolis. O ponto de partida é um bar que Barba recebe de herança do pai e chama Leo para entrar de sócio nesse empreendimento que está amarrado a algumas pequenas regras de posse. Enquanto trata dessa nova jornada dos amigos com humor e leveza, o autor esconde ao fundo temas bem mais complicados como relacionamento familiar, casamento, paternidade e culpa. É uma história arrebatadora que na sua sutileza puxa o leitor cada vez mais para dentro da trama, fazendo este se apegar aos personagens enquanto caminha para um final surpreendente e devastador.

Nota: 9,0



quinta-feira, 17 de maio de 2018

Quadrinhos: "O Bestiário Particular de Parzifal", "Thanos Retorna" e "Potestade - Homem-Aranha"


“O Bestiário Particular de Parzifal” de Hiro Kawarara surgiu através de uma campanha de financiamento coletivo, mas depois ganhou o apoio da editora Sesi-SP e foi publicado no final do ano passado com 80 páginas. O autor nascido em Mogi das Cruzes no estado de São Paulo em 1965 é ilustrador, diretor de arte e professor. Nesse trabalho usa o mito de Parsifal - o “cavaleiro tolo” da Távola Redonda do Rei Arthur - para inspirar sua protagonista. Parzifal é uma garota que viveu com a mãe isolada e escondida em uma floresta para fugir de uma profecia. Para suprir a solidão criou vários amigos imaginários e um universo próprio, contudo isso chega ao fim aos 24 anos com a mãe já falecida e a saída dela da floresta para a “vida real”. Sem traquejo social algum para sobreviver no mundo sofre bastante para se estabelecer. Anos depois, com uma filhinha bem doente retorna para a floresta atrás da ajuda mágica dos antigos amigos, o que não caminha muito bem. Passando por três períodos de tempo distintos e com arte fofinha e boas cores, a obra agrada sem maiores pretensões com uma história de fantasia, família, amizade, escolhas e o peso delas quando a vida bate fortemente.

Nota: 6,0

Site do autor: http://www.hiro.art.br


Thanos, Thanos, Thanos. Nunca o vilão criado por Jim Starlin nos anos 70 esteve tão presente na cultura pop como agora devido não somente ao novo filme dos Vingadores onde é o destaque, como também por ser peça atuante dentro dos quadrinhos da equipe nos últimos anos. Em janeiro de 2017 uma nova tríade criativa formada pelo excelente Jeff Lemire no roteiro, o brasileiro Mike Deodato Jr. na arte e Frank Martin nas cores assumiu o título do personagem. O resultado podemos ler agora em “Thanos Retorna”, volume encadernado de 140 páginas que reúne as edições 1 a 6 lançadas nos EUA durante o primeiro semestre do ano passado. Devido a acontecimentos não muito interessantes para si, o seu território está agora sob o comando de Corvus Glaive, um antigo subordinado e membro da Ordem Negra. Ao voltar para retomar o controle do Quadrante Negro, Thanos percebe que mesmo que esse controle volte até facilmente para si, as coisas não serão tão simples no futuro próximo. Um interessante grupo formado por familiares, inimigos e uma antiga paixão se forma para acabar de vez com a história do Titã Louco, que cada vez mais frágil e mortal se vê metido em algo que nunca esteve antes.

Nota: 7,0


Virou moda nos últimos anos coleções de quadrinhos em capa dura que formam mosaicos, etc. e tal. Naquela que ostenta ser a “coleção definitiva” do Homem-Aranha, temos na edição 11 uma grande obra subestimada. Trata-se de “Potestade”, originalmente publicada em 4 edições e que aqui já tivera edição em 2007, antes dessa do início de 2018. É uma das histórias mais fortes que o aracnídeo já teve, ainda com humor, mas pesada e cheia de sombras, com claras referências a “O Cavaleiro das Trevas” do Frank Miller. O roteiro é de Kaare Andrews em arte conjunta com José Villarubia. Em um futuro alternativo Peter Parker mora num minúsculo apartamento 30 anos após a aposentadoria. Mary Jane está morta, assim como todas as pessoas próximas e ele tenta se virar como pode, sendo que sua própria sobrevivência gerou o maior sofrimento. A cidade está livre de vilões graças a um governo fascista que com o apoio da mídia engana a população lhes prometendo segurança enquanto lhes corta a liberdade. Porém, quando um velho “amigo” aparece na porta de Parker as coisas começam a tomar outro rumo. Com 164 páginas, capa dura e arte quase toda horizontal permeando uma visão de cinema temos uma obra obrigatória para os fãs do amigão da vizinhança.

Nota: 9,0



segunda-feira, 9 de abril de 2018

Quadrinhos: "Lua do Lobo", "O Sinal" e "Castanha do Pará"


Lançamento de 2017 da Panini Comics, “Lua do Lobo” (Wolf Moon, no original) recria o mito do lobisomem que passa a ser uma espécie de entidade que se transfere de corpo em corpo através dos tempos realizando atos horríveis nesse período em hospedeiros que escolhe meramente ao acaso e toma por possessão. Criação de Cullen Bunn com arte de Jeremy Haun e cores de Lee Loughridge, a história passou anos engavetada até que o selo Vertigo da DC bancou a aposta em 6 edições publicadas no primeiro semestre de 2015 nos EUA. O trabalho recebeu elogios contundentes e desembarcou no Brasil em um encadernado de 162 páginas com direito a esboços como extras. O condutor da história é Dillon Chase que quando estava possuído pela fera causou danos mortais a diversas pessoas, inclusive algumas próximas e queridas. A maneira que busca para aliviar toda culpa que carrega consigo é caçar cegamente essa besta pelos quatro cantos do país e quando a grande chance surge descobre que outros estão interessados na questão, o que dificulta muito mais as coisas. Com bom ritmo, arte funcional e cores bem adicionadas, “Lua do Lobo” é uma boa hq, mas distante dos grandes elogios que recebeu.

Nota: 6,0


Afrânio sempre esperou que a vida lhe proporcionasse algo mais. Parado no quarto já no alto dos 40 e poucos anos e levando uma vida sem muita graça, continua esperando que em um dia qualquer por algum desmando do destino sua existência sofrerá uma drástica guinada e enfim será um protagonista no mundo. Quando sonhos estranhos começam a invadir as noites, entende isso como a mensagem que aguardou por tanto tempo e passa a tomar atitudes que levarão as coisas por outro caminho. De início até que essas decisões remetem a coisas positivas, no entanto, depois tudo fica nublado. “O Sinal” é mais um bonito trabalho do quadrinista, cartunista e ilustrador Orlandelli (de “Grump” e “Chico Bento: Arvorada”). Com 96 páginas foi lançado no final do ano passado na CCXP através da Jupati Books, selo da Marsupial Editora. Como de costume Orlandelli mescla vida real e questões imaginárias para gerar uma história que pode ser entendida de outras formas e maneiras. Com o traço sempre agradável e a ótima maneira que direciona as cores, mantêm a sensibilidade ali escondida no meio do caos enquanto versa sobre a relação de cada um com as conquistas, anseios, ambições e decepções que norteiam a estrada que percorremos diariamente.

Nota: 7,5


Em 2017 o tradicional Prêmio Jabuti incluiu a categoria de quadrinhos e o primeiro trabalho a levar essa honraria foi “Castanha do Pará”, produção independente do professor e artista visual Gidalti Jr. que foi financiada através de crowdfunding e tem 84 páginas, capa dura e formato grande (22,5 x 30,5cm). Nascido em Belo Horizonte, mas criado em Belém, o autor criou uma fábula suja e atual que pode ser visualizada em qualquer estado do país além do mercado do Ver-O-Peso onde passa a maior parte da história. Castanha é um garoto que vive na rua, completamente marginalizado e sem suporte. Deixou a família para trás depois de uma tragédia praticamente anunciada e se vira entre as vielas do bairro da Cidade Velha. Com arte esplendorosa, toda pintada em aquarela e com as cores vibrantes tão presentes na cidade, o trabalho foi inspirado na obra “Adolescendo Solar” de Luizan Pinheiro. A narração feita por uma vizinha em conversa com a polícia acrescenta tons de humor a um drama real que conta com o descaso do poder público para se alongar acintosamente nos últimos anos não somente na vida do imaginário Castanha com sua cabeça de urubu, mas também em inúmeros outros jovens arremessados a própria sorte por aí.

Nota: 8,5


segunda-feira, 2 de abril de 2018

Quadrinhos: "Lembranças", "O Planta - Um Bípede Entre Plantas" e "Future Quest"


Chegou a hora dos irmãos Cafaggi se despedirem (pelo menos por enquanto) da Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali. Depois de presentearem velhos e novos fãs com “Laços” e “Lições” no projeto Graphic MSP é a vez do último “L” aparecer e encerrar a trilogia. Lançado no final de 2017 pela Panini Comics com 100 páginas, “Lembranças” apresenta a turminha já se deparando com situações como convívio social, namoricos e aceitação entre os pares, onde a amizade é novamente a força condutora para solucionar os desafios que surgem. Entre a construção de uma nova casa da árvore e a ansiedade e esforço para ir em uma festa daquelas imperdíveis, os autores utilizam personagens do vasto universo criado por Mauricio de Sousa e deixam pelo caminho diversas referências para serem descobertas calmamente. Com o mesmo tom geral das edições anteriores e a arte novamente sendo um dos pontos fortes, “Lembranças” fica aquém dos antecessores. A história que foca em questões corriqueiras do crescimento das crianças, infelizmente não prende tanto quanto das outras vezes e parece que falta algo que dê aquele charme maior. Não chega a ser ruim, longe disso, mas os Cafaggi acostumaram a se esperar sempre algo mais deles.

Nota: 6,0


“Os Contos do Planta” de 2015 chamou a atenção logo de entrada pela exuberante capa animada em 3D. O personagem era uma planta que queria mais da vida e com a ajuda de um cientista consegue isso com um corpo projetado para suas aventuras. A obra do escritor e ilustrador curitibano Gustavo Ravaglio era um campo fértil para metáforas sobre a vida real e convencia bastante. Em 2017 ele partiu em uma desafiadora missão e o resultado foi “O Planta – Um Bípede Entre Plantas” que contou com o apoio de financiamento coletivo além de incentivo cultural governamental. O zelo pela apresentação da edição está ainda mais forte, em capa dura com tintas douradas as 178 páginas estão contidas em papel de textura especial, entre outros luxos. Todavia, isso por si só não se sustentaria caso o roteiro não fosse divertido e interessante, o que também é. O protagonista se perde em outro universo e tem que lidar com as mais estranhas figuras para voltar para casa. No decorrer disso - e sem ser piegas o que é mais importante - se amplificam os questionamentos embutidos e as alegorias que estão escondidas ali no meio dessa jornada com tons de fantasia e ficção científica.

Nota: 8,0


A DC Comics possui os direitos sobre os personagens clássicos da Hanna-Barbera que embalaram a infância de tantas pessoas então a empresa resolveu conceber novas histórias em quadrinhos desses personagens fazendo algo como um reboot. O primeiro desses trabalhos foi “Future Quest” que saiu aqui em duas edições da Panini Books no ano passado. Essas edições reúnem em 336 páginas no total o ano completo publicado nos EUA entre julho de 2016 e julho de 2017 em doze revistas. Com roteiro a cargo de Jeff Parker (Shazam!) temos uma história que além de ter muita nostalgia e saudosismo embutidos, consegue a proeza de ir além e faz a aventura valer mesmo para quem nunca ouviu falar de Space Ghost, Jonny Quest, Mightor, Homem-Pássaro, Herculóides e Os Impossíveis. A turma da ficção científica da Hanna-Barbera é convocada para cuidar do OMNIKRON, uma entidade poderosa que tem como intuito destruir o mundo. Mesmo usando uma premissa tão clichê em revistas de super-heróis, Jeff Parker consegue criar algo saboroso e viciante. A arte de Evan Shaner, Steve Rude e Ron Randall e mais Steve Lieber e Ariel Olivetti completam esse quadro em um dos trabalhos mais divertidos que a DC colocou no mercado nos últimos anos.

Nota: 8,5



domingo, 1 de abril de 2018

Quadrinhos: "Trindade - Volume 1", "Thor - Vikings" e "Alho-Poró"


Mais um encadernado cobrindo o “renascimento” da DC Comics chegou nas bancas no início desse ano. Como já visto com várias revistas da editora, agora é a vez de “Trindade” ganhar o primeiro volume com 140 páginas e capa cartonada. Traz as seis primeiras edições dessa fase publicadas nos EUA entre setembro de 2016 e abril de 2017, escritas e desenhadas pela estrela em ascensão Francis Manapul (“Flash”) com auxílio de outros artistas. Na edição temos Batman, Mulher-Maravilha e Superman contra dois antigos rivais onde seus poderes e habilidades não valem quase nada para vencer. Os heróis repaginados dessa empreitada da DC estão dispostos a se conhecer melhor e superar algumas desconfianças, sendo que para tanto fazem uma refeição juntos na casa do Superman quando são surpreendidos em uma briga que é mais psicológica do que física (ainda que essa parte apareça). Mesmo com a participação dos principais nomes do seu panteão de histórias e contar com dois vilões clássicos, a história proposta por Manapul em nenhum momento empolga o leitor, o que é bastante desanimador pois esperava-se mais do autor ao mexer com tais personagens. “Trindade - Volume 1” é indicado somente para os fãs mais fervorosos. E olhe lá.

Nota: 4,0


Entre os meses de setembro de 2003 e janeiro de 2004 foi publicada nos EUA uma aventura mais visceral do Deus do Trovão. Com roteiro de Garth Ennis e arte de Glenn Fabry (ambos de “Preacher”), Thor recebeu em cinco edições uma história com muita magia, maldições, zumbis (antes de estarem tão na moda assim) e, claro, muita violência e o humor ácido do autor. No ano passado a Panini Books lançou isso por aqui em um encadernado de capa dura com 124 páginas. Ambientada na época dentro do selo “Marvel Max” que permitia enfoques mais adultos e violentos em cima dos personagens da editora, Garth Ennis criou uma trama repleta de bons momentos. Quando vikings zumbis desembarcam de surpresa sobre New York e destroçam todos os heróis que passam pela frente (até mesmo o Thor), o Dr. Estranho entra na jogada e expõe um plano mirabolante para acabar com a maldição que os invasores receberam e trazer paz novamente para a cidade. “Thor - Vikings” é contada de um modo que se torna um prato cheio para quem gosta da pegada do autor, além de contar com a exuberante arte de Glenn Fabry em todas as edições.

Nota: 7,5


O trabalho da quadrinista Bianca Pinheiro se caracteriza - entre outras coisas - pela sensibilidade e doçura que expôs em trabalhos como “Bear”, “Mônica: Força” e “Dora”. Já nas 56 páginas de “Alho-Poró” que foi publicado no finalzinho do ano passado pela editora La Gougoutte e teve financiamento através de crowdfunding a artista se aventura em uma história diferente daquilo que nos habituamos a ler dela. A trama reúne três amigas chamadas Márcia, Denise e Brenda que estão na missão de comprar os ingredientes necessários para fazer uma quiche de alho-poró. Peregrinando por supermercados atrás do que é preciso conversam sobre amenidades e sobre casos do passado. Nada demais até aí. E a história vai caminhando assim, sem parecer que vai decolar em algum momento, parecendo ser mais um trabalho sobre o cotidiano. Bom, isso até as páginas finais, onde a coisa muda completamente de figura. Em “Alho-Poró”, Bianca Pinheiro ousa ir por outros caminhos e faz isso muito bem. Tudo nessa nova empreitada é diferente: o traço, as cores, o papel, o tom (ainda que certa afabilidade permaneça ao fundo). É uma história que pede sequência e tem poder para se tornar algo bem maior.

Nota: 7,5




quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Top Top - Os Melhores de 2017


Salve, salve minha gente amiga...

Como de costume disponho abaixo uma lista dos 25 melhores discos e músicas nacionais e internacionais que passaram por aqui no ano passado. Vamos a eles:

MELHOR DISCO NACIONAL

1) “Galanga Livre” – Rincon Sapiência
2) “Nômade” – Renato Godá
3) “Looking For The Big Star” – The Baudelaires
4) “Todas as Bandeiras” – Maglore
5) “Fogos de Artifício” – Motormama
6) “Letrux em Noite de Climão” – Letrux
7) “Plush” – Lava Divers
8) “Deserter” - Loomer
9) “Elã” - Kalouv
10) “As Lembranças São Escolhas” – Vários Artistas
11) “Adiante” – Nevilton
12) “Tudo Arbitrário” – Beto Cupertino
13) “Caravanas” – Chico Buarque
14) “Nem Tudo Pode Se Ver” – Picassos Falsos
15) “Pé No Chão” – Rodrigo Ogi
16) “Radiola NZ, Vol. 1” – Nação Zumbi
17) “Pássaros – Vol. 1” – Elder Effe
18) “Deixa Quieto” – Macaco Bong
19) “Roteiro Pra Aïnouz, Vol. 3” – Don L.
20) “Tudo Que Dissemos que Não Era” – Meio Amargo
21) “Futuro do Pretérito” – Garotas Suecas
22) “Campos Neutrais” – Vitor Ramil
23) “Animal Sensacional” – Aeroplano
24) “Catto” – Filipe Catto
25) “Bluchanga” – João Donato

MELHOR MÚSICA NACIONAL

1) “Amor” – Nação Zumbi e Ney Matogrosso
2) “Vida longa” – Rincon Sapiência
3) “Atalho clichê” – Camila Barbalho (do disco “Lembranças São Escolhas”)
4) “Classe média losers” – Molho Negro
5) “Hash and weed” – Lava Divers
6) “Last man on earth” – The Baudelaires
7) “Go where people sleep and see if they” – This Lonely Crowd
8) “Supermegaultrahiperfuckingciumenta” – Turbo
9) “Memes” – Beto Cupertino
10) “Te amo Disgraça” – Baco Exú do Blues
11) “Pra Nós Dois” – Meio Amargo
12) “Pedra Bruta” - Kalouv
13) “Não sou mais o mesmo sujeito” – Motormama
14) “Menino mimado” – Criolo
15) “Que estrago” – Letrux
16) “Nuvens” – Rodrigo Ogi
17) “Me deixa legal” – Maglore
18) “Another round” - Loomer
19) “Chegada” – Renato Godá
20) “Dança de doido” – Bratislava
21) “Eu não quero mais” – Filipe Catto
22) “Terrível” - Curumin
23) “Tua cantiga” – Chico Buarque
24) “Vai Chover” – Tibério Azul
25) “Amarela” – Nevilton

MELHOR DISCO INTERNACIONAL

1) “Damage And Joy” – The Jesus And Mary Chain
2) “Brilliant Light” – Danny & The Champions Of The World
3) “A Short History Of Decay” – John Murry
4) “Bandwagonesque” – Benjamin Gibbard
5) “Prophets of Rage” – “Prophets of Rage”
6) “Invitation” – Filthy Friends
7) “Antisocialites” - Alvvays
8) “Prisioner” – Ryan Adams
9) “Need To Fell Your Love” – Sheer Mag
10) “The Far Field” – Future Islands
11) “Last Place” - Grandaddy
12) “Don´t Be a Stranger” – Nervous Dater
13) “Navigator” – Hurray For The Riff Raff
14) “Hot Thoughts” – Spoon
15) “Sleep Well Beast”- The National
16) “Lotta Sea Lice” – Courtney Barnett & Kurt Vile
17) “Colors” - Beck
18) “Thawing Dawn” – A. Savage
19) “Burn Something Beatiful” – Alejandro Escovedo
20) “Trouble Marker” – Rancid
21) “Star Roving” – Slowdive
22) “IN.TER A.LI.A” – At The Drive In
23) “The Nashville Sound” – Jason Isbell And The 400
24) “Losing” – Bully
25) “Every Country’s Sun” – Mogwai

MELHOR MÚSICA INTERNACIONAL

1) “Party in the dark” – Mogwai
2) “Under a darker moon” – John Murry
3) “Tijuana sunrise” – Goldfinger
4) “Up all night” – David Bazan
5) “Waiting on a song” – Dan Auerbach
6) “Dreams tonite” – Alvvays
7) “Unfock the world” – Prophets Of Rage
8) “Day I Die” – The National
9) “All things pass” – The Jesus And Mary Chain
10) “Waiting for the right time” – Danny & The Champions Of The World
11) “Ran” – Future Islands
12) “Living in the City” – Hurray For The Riff Raff
13) “Come back Shelley” – Filthy Friends
14) “Green light” – Lorde
15) “Milk and honey” – Sheer Mag
16) “Sign of the times” – Harry Styles
17) “Way we won’t” – Grandaddy
18) “Sunsetz” – Cigarettes After Sex
19) “No wolf like the presente” – At The Drive In
20) “World of glass” – Liam Gallagher
21) “Bad Spanish” – Nervous Dater
22) “Ladies from Houston” – A. Savage
23) “Everything now” – Arcade Fire
24) “Call me anti-social” – New Found Glory
25) “The way you used to go” – Queens Of The Stone Age

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Séries: “Manhunt: Unabomber” e "American Gods"


Entre 1978 e 1995, Ted Kaczynski (Paul Bettany) espalhou terror nos EUA com bombas enviadas por via postal. Para expor ideias e inconformidade com o rumo que a sociedade estava tomando matou 3 pessoas e feriu outras 23. Conhecido como Unabomber foi uma pedra e tanto no sapato do FBI até finalmente ser preso em 1995 devido a uma nova técnica de investigação chamada linguística forense, baseada em cartas fornecidas pelo irmão depois que leu um manifesto publicado nos jornais. Essa técnica foi criada meio na marra e na necessidade pelo agente Jim Fitzgerald (Sam Worthington), especializado em criar perfis de criminosos. Andrew Sodroski aproveitou a onda de produções sobre crimes reais na televisão e criou pelo canal Discovery “Manhunt: Unabomber” que estreou ano passado e está disponível no Netflix. Não confundir com “Mindhunter”, que apesar de ter o mesmo teor em linhas gerais caminha com outra pegada, outro ritmo e outros objetivos. Como é uma produção do Discovery os 8 episódios têm um ar de documentário inerente, contudo passa longe daquelas produções horríveis feitas para a tevê em outras épocas. Tudo nela é pensado com cuidado e as atuações são competentes, mesmo sem ser brilhantes. Situada principalmente nos anos de 1995 e 1997, quando Jim Fitzgerald entra na força-tarefa e precisa provar a todo momento que aquilo que percebe é válido quando todos dizem o contrário, “Manhunt: Unabomber” tem a capacidade de prender na frente da tela, apesar de já se saber o final. Explorando a conexão do agente do FBI com os questionamentos feitos por Kaczynski no manifesto a série mergulha em águas mais profundas, porque apesar da maneira brutal e covarde que foi usada para propagá-lo, o texto traz pontos interessantes, ainda mais em tempos como o nosso onde a tecnologia é cada vez mais senhora de tudo.

Nota: 7,5


“Deuses Americanos” (American Gods) é a obra mais completa do britânico Neil Gaiman na literatura. Publicada em 2001 teve edições nacionais no decorrer dos anos, inclusive uma excelente “edição preferida do autor” em 2016 pela Intrínseca. Versando sobre a formação dos EUA e usando os deuses e lendas que os milhões de imigrantes trouxeram nos corações e bolsos, criou um trabalho repleto de nuances como a relação do país com seus formadores, o combate do velho contra o novo e a maneira que esse novo molda a sociedade, entre outras coisas. Mesclando realidade e fantasia como poucos sabem fazer - além do peculiar humor - era difícil imaginar como transportar isso para a televisão quando foi anunciada uma série sobre o livro. Produzida pelo canal Starz e criada por Bryan Fuller (de “Hannibal”) e Michael Green (roteirista de “Logan” e “Blade Runner 2049”) com Gaiman participando ativamente do processo, a série é um acerto fenomenal. Disponível no Brasil na Amazon Prime Video, a primeira temporada tem 8 episódios e direção precisa de nomes como David Slade (“30 Dias de Noite”) e Floria Sigismondi (“The Runaways”). A história tem como protagonista Shadow Moon (Ricky Whittle) que prestes a sair da cadeia descobre que a esposa Laura (Emily Browning) faleceu. Na sequência é abordado pelo misterioso e intrigante Mr. Wednesday (Ian McShane) que após dura negociação o convence a trabalhar para ele. No decorrer disso Shadow se vê inserido em algo que não passa nem perto de entender e conhece estranhas figuras. Na briga dos deuses antigos contra os novos (como tecnologia, internet, etc.), “American Gods” reluz a cada momento, a cada cena.  Também merecem destaque a entidade irlandesa conhecida como Mad Sweeney (Pablo Schreiber) e Gillian Anderson estupenda como a deusa moderna Media, onde é responsável pela melhor cena do ano vestida de Marilyn Monroe.

Nota: 9,0

Sobre o livro, passe aqui.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Literatura: “Noturnos – Histórias de Música e Anoitecer” e "À Sombra de Gigantes"


Kazuo Ishiguro nasceu no Japão, mas ainda criança se mudou para a Inglaterra com a família. Lá virou escritor e produziu obras como “Os Vestígios do Dia”, “Não Me Abandone Jamais” e “O Gigante Enterrado”, vendendo alguns milhões de exemplares pelo mundo com eles. Em 2017 ganhou o prêmio Nobel de literatura o que levou a Companhia das Letras republicá-lo no decorrer do ano passado por aqui. Uma dessas republicações foi “Noturnos – Histórias de Música e Anoitecer” (Nocturnes – Five Stories of Music and Nightfall), lançado originalmente em 2009. O livro é um “Ishiguro menor”, digamos assim, composto por cinco contos apresentando a música como condutora seja por um praticante em início de carreira, por um artista calejado fazendo o impensável para obter sucesso ou um amante de velhas canções americanas perdido pela vida e jogado no meio de uma complicada situação. Com tradução de Fernanda Abreu e 216 páginas essa nova edição (a editora já havia lançado aqui em 2010) dá chance para novos leitores conhecerem um trabalho que se não carrega o tom sublime das obras mais famosas do autor, apresenta uma prosa repleta de melancolia que por mais triste que possa ser ainda sim carrega alguma beleza embutida. Em todos os contos temos a vida passando e deixando feridas abertas, algumas que já doeram tanto que hoje já nem se sente mais nada, o tempo cuidou de amortecer tudo. Dos cinco contos os maiores destaques ficam com “Crooner” e “Celistas” onde essa melancolia assume tons de acentuada desilusão e que a música retrata isso de maneira tão delicada. “Noturnos” serve também para que novos leitores se aproximem mais da obra de Kazuo Ishiguro, buscando ir além. É um livro para ler com uma bebida na mão e um disco antigo tocando na vitrola suavemente.

Nota: 7,5


Em tempos de um futebol tão globalizado (e gourmetizado) onde é cada vez mais frequente um adolescente encher a boca afirmando ser torcedor do Real Madrid, do Barcelona, do PSG ou de quem quer seja no seleto grupo dos biliardários times do esporte, ainda assim existem aqueles que optam por um time menor, de tradição, que hoje está lá pela segunda ou terceira divisão e que vão para o estádio ver os jogos que (quase) ninguém mais quer ver. Isso acontece tanto em Madrid, Barcelona e Paris, quanto em Belém, São Paulo, Rio de Janeiro ou outra cidade do país. O futebol é algo inexplicável e mesmo com o clichê gasto que já cansamos de ouvir realmente não é só futebol. O jornalista gaúcho Leandro Vignoli que usa o Twitter para de modo bem humorado ir contra os superlativos e excessos desse futebol tão alardeado do velho continente se lançou no final de 2017 em uma campanha de financiamento coletivo para publicar um livro que narra 50 dias de viagem onde visitou 13 clubes em 10 cidades diferentes da Europa. No cardápio somente clubes que habitam a mesma cidade ou localidade de gigantes do mundo da bola. “À Sombra de Gigantes” tem 224 páginas e já nasce com status de leitura obrigatória para quem gosta de futebol, pois além de falar muito disso com o jeito de corneta do autor, é uma viagem também pela história e costumes de cada local. Ao assistir o Rayo Vallecano em Madrid pela segunda divisão da La Liga ou o St. Pauli pela segunda divisão da Bundesliga apresenta um passeio extremamente prazeroso em estádios históricos, torcidas apaixonadas e um futebol que insiste em sobreviver mesmo após cada venda de zagueiro mais ou menos por milhões e milhões de libras. “À Sombra de Gigantes” é um libelo de resistência.

Nota: 8,5