terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Literatura: "Ascensão" e "Sobre Os Ossos Dos Mortos"


Castle Rock é uma cidade pequena e provinciana situada nos EUA. Altamente conservadora e satisfeita com suas rotinas e regras, não gosta de nada que altere isso. Scott Carey é um dos seus moradores há algum tempo. Com um divórcio ainda recente, busca se restabelecer e focar no trabalho quando uma coisa para lá de estranha acontece: ele está perdendo peso diariamente, ficando mais leve, no entanto suas medidas não mudam nada e o corpo continua exatamente igual. “Ascensão” (Elevation, no original) é um livro curto de Stephen King lançado em 2018 e publicado aqui no Brasil pela editora Suma no final do ano passado com 130 páginas e tradução de Regiane Winarski. É uma pequena fábula que usa a atualidade (a política americana aparece ao fundo) para versar sobre intolerância, harmonia, preconceito e a finitude da vida e o que fazemos com ela. Quando o protagonista percebe que sua condição não tem saída e os dias na face da terra estão contados opta por deixar um legado ao invés de sair aproveitando os últimos meses. O objetivo é fazer com que o casal de mulheres que passou a residir na cidade e abriu um restaurante seja aceito pela comunidade que ele jurava ser boa, mas desconhecia alguns pensamentos. “Ascensão” não passa nem perto de ser um dos melhores livros do autor, mas traz consigo uma beleza (ainda que triste) e vibração que nos servem bem, ainda mais quando passamos os dias tão absortos em notícias (cada vez mais) ruins.

Nota: 6,0




Uma professora aposentada é chamada por um vizinho que avisa que outro habitante da localidade morreu. Quando chegam lá percebem que o falecimento foi porque ele se engasgou com um osso. Depois que a polícia aparece e começa os procedimentos no meio da neve que cai nessa região isolada da Polônia, a senhora - que não tinha o finado em alta conta - entende que isso se trata de uma vingança dos animais que eram caçados por ele. “Sobre Os Ossos Dos Mortos” (Prowadź Swój Pług Przez Kości Umarłych, no original) foi publicado em 2009 e ganhou edição brasileira dez anos depois pela editora Todavia, com tradução de Olga Baginska-Shinzato e 256 páginas. Na essência um suspense que busca desvendar os assassinatos que aparecem na sequência da morte descrita acima, a obra da vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2018 caminha em várias outras ruas e atalhos. A escritora polonesa Olga Tokarczuk cria uma protagonista fascinante, que além de não ser afeita a pessoas, se dedica com afinco a astrologia, não come carne, não gosta dos caçadores da região e os sabota quando pode (sejam ilegais ou não), carrega várias efemérides e no meio disso ainda produz argutas reflexões em relação a vida e principalmente a morte. “Sobre Os Ossos Dos Mortos” é um livro que disserta sobre a crueldade com os animais e os direitos desses em troca de uma “tradição”. É estranho, carrega um humor meio macabro nas bordas, faz pensar um pouco e enfeitiça o leitor.

Nota: 8,0

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Literatura: "Essa Gente" e "Prológo, Ato, Epílogo"


Vencedor do Prêmio Camões de 2019, Chico Buarque lançou outro livro no ano passado pela Companhia das Letras com 200 páginas. “Essa Gente” tem como protagonista um escritor mergulhado em tremenda crise que atinge tanto o lado criativo, como também o amoroso e financeiro. Com o segundo casamento tendo ido para o brejo, o dinheiro acabando, uma relação inerte com o único filho e a incapacidade de escrever um novo romance pelo qual já recebeu alguns adiantamentos, a vida está na beira de um colapso. Usando o Rio de Janeiro atual como palco para contar essa história, Chico Buarque aproveita e insere a cada capítulo retratos claros de um Brasil governado pelos ineptos e energúmenos de hoje em dia e sua relação direta com a violência e intolerância que saiu do esgoto das redes sociais para o dia a dia do convívio, além, é claro, da violência física em si. Escrito quase que em forma de diário, o autor apresenta a queda do escritor Manuel Duarte alternando - como de costume em seus livros - realidade com imaginação e delírio. O resultado é melhor que os últimos trabalhos (“O Irmão Alemão” de 2014 e “Leite Derramado” de 2009) e expressa um autor em boa forma, ainda que sempre se espere algo extraordinário por ser quem é.  Indo além do personagem principal, “Essa Gente” se destaca mesmo é pelos coadjuvantes pequenos que de uma forma ou outra representam bem o tipo de pessoa que nos colocou no buraco em que estamos.

Nota: 7,5




Nunca existiu mulher como Fernanda Montenegro no Brasil. A atriz é daquelas artistas únicas que possuem um legado enorme e que além de serem imensos em termos de qualidade se tornaram igualmente ícones de uma geração, de um ofício. Seja no teatro ou no cinema (e até mesmo na televisão), foram milhares aqueles que sorriram, choraram e se emocionaram ao ver um trabalho seu. Em “Prólogo, Ato, Epílogo” publicado no ano passado pela Companhia das Letras com 392 páginas ela conta com a colaboração da Marta Góes para versar um pouco sobre esses 90 anos de vida, sendo a esmagadora parte deles dedicado a arte, a paixão por atuar. De maneira terna e afável, mas não menos forte e contundente, a autora conta sobre a infância, os antepassados, as primeiras apresentações, o amor eterno pelo companheiro Fernando Torres, os perrengues para se fazer teatro no Brasil desde sempre, as viagens, as desilusões políticas e sociais, os anos de ditatura militar, a garra de sempre promover um novo espetáculo, uma nova peça, a glória e o reconhecimento. Sempre tendo as transformações do nosso país consideradas passo a passo com reflexões curtas sobre cada momento e desdobramento, a leitura dessa biografia é daquelas que a cada página virada temos um novo deslumbre, uma nova comoção, um novo ensinamento. Dona de uma memória incrível, temos casos antigos apresentados com detalhes e a todo momento levando em conta a finitude do tempo que temos por esse plano. Um livro primoroso de uma vida gigantesca.

Nota: 9,0

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Séries: "Inacreditável", "Carnival Row" e "The Mandalorian"


2008. Aos 18 anos, Marie Adler (Kaytlin Dever) é amarrada e estuprada dentro da própria casa. Quando a polícia entra em ação ela se vê obrigada a recontar o acontecido várias e várias vezes, até que ao ser interrogada por dois policiais bem mais velhos que esbanjam ceticismo e descrença, ela acaba saindo desnorteada botando em dúvida o que lhe aconteceu. Logo depois, cancela a versão, diz que mentiu e é processada pela prefeitura por falso testemunho, o que lhe causa problemas em todas as esferas. Pulamos para 2011. Em outra cidade a detetive Karen Duvall (Merritt Wever) se depara com um caso de estupro e junta forças com a experiente Grace Rasmussen (Toni Collette). Juntas começam a ligar peças e descobrem a existência de um estuprador em série atuando há tempos na região. Esses são os pontos de partida de “Inacreditável” (Unbelievable, no original), série do Netflix de 8 episódios que estreou em setembro de 2019 na plataforma. Baseada em uma história real que aconteceu nos EUA e rendeu livro e um artigo vencedor do Pulitzer, a trama é cheia de reviravoltas e tensão e coloca no telespectador aquela sensação de revolta que a cada capítulo aumenta mais e mais. Além de ser realmente bem intensa, é sustentada pelo trio de atrizes já citadas que fazem um trabalho exuberante dosando dor, força e confiança da maneira ideal para cada personagem. “Inacreditável” é mais um retrato de um sistema totalmente despreparado para lidar com a violência as mulheres e que muitas vezes está pouco se lixando, essa é a verdade. Por isso é tão necessária.

Nota: 8,0

Depois de assistir a todos os episódios, leia o artigo vencedor do Pulitzer que deu origem a série: https://www.propublica.org/article/false-rape-accusations-an-unbelievable-story 


“Carnival Row” é uma série de fantasia em 8 episódios lançada no segundo semestre do ano passado. Com produção da Amazon Prime Video e disponibilizada integralmente na plataforma foi criada pelo René Echeverria (da saudosa “The 4400”) em conjunto com Travis Beacham (roteirista de “Círculo de Fogo”). Nela, homens e fadas lutaram lado a lado há poucos anos. No entanto, perderam a guerra e por conta disso as terras das fadas e de outras criaturas fantásticas ficaram nas mãos do Pacto, que continua espalhando terror, extraindo riquezas e escravizando seres, mesmo depois de findadas as batalhas. A cidade do Burgo - considerada a maior desse lado da terra - abriga não somente os humanos perdedores, como também milhares de refugiados de todos os lugares e raças. No meio disso um romance construído na guerra composto pelo inspetor de polícia Rycroft Philostrate (Orlando Bloom) e a fada refugiada Vignette Stonemoss (Cara Delenvigne) tenta sobreviver. Espalhada em tramas paralelas bem interessantes, “Carnival Row” se destaca com muito mais impetuosidade longe do foco principal. Além de efeitos visuais consistentes e uma vistosa fotografia é quando faz vínculos diretos a realidade dos nossos dias que acerta o alvo. O preconceito desmesurado e irracional, a violência e crueldade com os refugiados, uma polícia que escolhe quem vai defender e uma sociedade hipócrita que prega uma coisa e faz outra engatam essas subtramas em atuações quase perfeitas de outros nomes do elenco como Tamzin Merchant, Simon McBurney e Karla Crome. O avassalador episódio final deixa ainda um gancho imenso a ser explorado na segunda temporada, além daquele desejo de quero mais.

Nota: 8,5



Em “O Despertar da Força” de 2015 deixaram a gente sonhar com um belo filme. Em 2017 com “Os Últimos Jedi” serviram um prato comestível, mas com pouco sabor. E em 2019 com “A Ascensão Skywalker” jogaram praticamente tudo no lixo em uma produção fraca e sem emoção alguma. Dito isso, nesse final de década não é esforço afirmar que a melhor coisa que Star Wars entregou nesse período é disparada a série “The Mandalorian”. Entre novembro e dezembro de 2019 foi exibida pelo canal Disney Plus (e está inédita no Brasil), sendo produzida pela Lucasfilm Ltd. sob a batuta e orientação do cada vez mais extraordinário Jon Favreau. Do time de diretores escolhidos (Deborah Chow, Rick Famuyiwa, Dave Filoni, Bryce Dallas Howard e Taika Waititi) até os pequenos detalhes que fazem relação com a história da franquia, tudo é um grande regalo. Ambientada entre os filmes “O Retorno do Jedi” e “O Despertar da Força”, ou seja, após a queda do Império e antes do surgimento da Primeira Ordem, temos o protagonista (interpretado por Pedro Pascal), um esquivo caçador de recompensas, cortando o espaço atrás de dinheiro até que uma pequena criança entra no seu caminho. Essa criança (que já virou febre e foi apelidada de Baby Yoda pelos fãs) é a razão da série existir. Em sua caça está um ex-governador do antigo regime e o mandaloriano precisar ser menos solitário e fazer alguns amigos. Concebida com excelência técnica, ritmo, magia, aventura, personagens novos realmente legais, respeito ao passado e bom humor, “The Mandalorian” é um acerto memorável da Disney. Até que enfim.

Nota: 9,0

Assista aos trailers:




quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Séries: “His Dark Materials: Fronteiras do Universo”, "The Witcher" e "Watchmen"


Desde que o filme “A Bússola de Ouro” foi lançado em 2007 que os fãs da obra do escritor Philip Pullman esperavam por uma sequência ou uma nova adaptação. A sequência não veio (ainda bem), mas a obra virou série pelas mãos da HBO em parceria com a BBC e está disponível no canal desde novembro do ano passado. “His Dark Materials: Fronteiras do Universo” apresenta 8 episódios adaptados pelo roteirista Jack Thorne (de filmes como “Extraordinário”) e contando com diretores como Tom Hooper (de “O Discurso do Rei”) no rol dos contratados. A história tem a jovem e destemida Lyra (Dafne Keen) como protagonista e retrata um universo paralelo ao nosso que é comandado de maneira bruta e opressora pelo Magisterium, uma organização com um poderoso braço armado que usa a religião como forma de se perpetuar no poder. Neste mundo onde ciência e magia às vezes andam de mãos dadas e em outras são ferrenhas opositoras, Lyra se mete em uma jornada de busca a um amigo desaparecido que é repleta de perigos, aprendizados e descobertas pessoais. Com um elenco recheado de bons atores como Ruth Wilson, James Cosmo, Lin-Manuel Miranda e James McAvoy, a HBO faz uma produção bem ao seu estilo, com tons escuros e indo bem nas questões técnicas, apesar dos efeitos visuais deixarem um pouco a desejar quando são mais necessários. Contudo, a forma que a história é contada é lenta demais, arrastada demais e isso faz com que o telespectador saia dessa primeira temporada sem se envolver completamente, e, principalmente, sem a certeza de que encarará a segunda.

Nota: 6,0


Geralt de Rivia é um bruxo solitário. Anda pelo mundo a esmo oferecendo seus serviços que consistem em matar criaturas e monstros em troca de dinheiro. Porém, às vezes as coisas não saem como deveriam e aceita um trabalho que não é o que parece, outro que paga mal, outro que não quer e acaba pegando, outro que nem é pago e assim vai. Ser autônomo não é fácil, sabemos disso. “The Witcher” foi criado nos anos 80 pelo escritor polonês Andrzej Sapkowski e anos depois estourou nos games, passou pelos quadrinhos, retornou a literatura e no final de 2019 ganhou série na Netflix com 8 episódios disponibilizados de uma vez só na plataforma, que mostram a rotina descrita no início do texto. Interpretado pelo Henry “Superman” Cavill de maneira às vezes com excelência, às vezes bem canhestra, a série apresenta cada episódio meio que fechado em si com um novo conto, um novo desafio, enquanto aos poucos constrói a trama principal e apresenta o universo. Com dois impérios em guerra no decorrer dos episódios o protagonista descobre sobre o passado, se apaixona, faz algumas promessas, escapa da morte e aumenta o volume de inimigos. Com ótimas cenas de luta, bons efeitos visuais no que tange aos monstros e demais seres, outros personagens com destaque como a Yennefer da atriz Anya Chalotra (que rouba a cena), bom humor e uma maneira não tão óbvia de confrontar presente e passado na trama, “The Wicther” é o tipo de série que cumpre o papel de entreter bem, sem maiores preocupações ou ambições. E parece confortável com isso.

Nota: 7,0


“Watchmen” de Alan Moore e Dave Gibbons é daquelas obras capazes de mudar as coisas. Ao lado de outras da mesma época redefiniu (para o bem e para o mal) o conceito de super-heróis e ganhou status de “intocável”, o que na cultura pop não quer dizer praticamente nada, convenhamos. Em 2009 o diretor Zack Snyder fez um filme bem fiel, os quadrinhos já revisitaram a história (e continuam revisitando), enfim, vida que segue. Nessa vida está “Watchmen”, série produzida pela HBO e idealizada por Damon Lindelof (criador de “Lost”) que conta com 9 episódios. Recentemente finalizada, manifesta como enredo um mundo imaginado mais de 30 anos depois dos eventos finais da graphic novel que culminaram com a morte de 3 milhões de pessoas. Com um elenco magistral com nomes do porte de Regina King, Jeromy Irons, Tim Blake Nelson, Louis Gossett Jr., Jean Smart e Hong Chau, a produção exibe uma robusta pegada política e social que funciona demais como uma nova história, sendo intrinsicamente ligada ao mundo de hoje e ao momento em que vivemos, retratada principalmente nos ideais estapafúrdios de supremacia branca da Sétima Kavalaria (inspirados em Rorschach e filha direta da abominável Klu Klux Klan), sendo que isso já torna bem recomendável assistir. No entanto, nem tudo são flores, e se analisarmos friamente em relação a relevância do trabalho para o mundo visualizado por Alan Moore originalmente, não se constata maiores patamares de importância. E nesse limbo entre ser uma continuação ou um remix – como o próprio Lindelof já definiu – é que Watchmen vai bem menos longe do que poderia alcançar.

Nota: 7,5

A HBO fez um site explicando vários fatos: https://www.hbo.com/peteypedia

Assista aos trailers:




terça-feira, 31 de dezembro de 2019

E que venha 2020.


Salve, salve minha gente amiga.

Os grandes e geniais Liniers (https://twitter.com/porliniers) e Odyr Bernardi (https://twitter.com/odyrbernardi) ilustram a última postagem desse ano de 2019.

Obrigado a todos que por mais um ano passaram por aqui. De coração. Já são 14 anos de Coisapop. Entre trancos e barrancos, mas sempre com muita paixão. 

Que tenhamos sanidade mental para suportar a distopia real que vivemos e que - da maneira que der - lutemos para mudar o cenário em que estamos inseridos. A esperança sempre existirá e é através dela que temos que buscar fazer da nossa rua, do nosso bairro, da nossa cidade, do nosso país, um lugar de mais inclusão, amor, tolerância, compaixão, criatividade, diversidade e generosidade. Com menos desigualdade e principalmente menos ódio e mau-caratismo. 

E que em 2020 a cultura sirva, como sempre, para aplacar as dores, forjar amores e instigar o pensamento.

Vamos juntos.

Paz Sempre.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Quadrinhos: "Corenstein - Volume Dois", "Cannabis", "Entre Cegos e Invisíveis" e "Homem-Aranha: Azul"

 

A quadrinista e ilustradora carioca Cora Ottoni passou a contar as vergonhas que passava em tirinhas autobiográficas na internet, o que culminou com a publicação independente de uma coletânea em formato físico durante o ano de 2017. Em 2019 - novamente de maneira independente - lança “Corenstein - Volume Dois” que reúne tirinhas feitas durante esse intervalo. O teor desse segundo volume é diferente do anterior pois mostra a artista entrando de vez na vida adulta e tendo que lidar com as responsabilidades que são inerentes a esse processo. Responsabilidades, que de maneira extremamente divertida, ela conta como faz para lidar (ou absolutamente não lidar). No entanto, as relações pessoais ainda se fazem presentes e retratam constrangimentos seja no trabalho, no namoro, na família ou onde quer que seja. Tudo servido ao leitor de bandeja para extrair alguns sorrisos e aliviar aquele dia ruim nem que seja por um tempo.

Nota: 7,0

Instagram da autora: https://www.instagram.com/corottoni 


Box Brown é quadrinista e ilustrador residente na Filadélfia nos EUA, onde tem editora própria, a Retrofit Comics. Sem ser publicado ainda no Brasil estreia pela editora Mino em 2019 com “Cannabis – A Ilegalização da Maconha nos Estados Unidos”, com 256 páginas em preto e branco e tradução de Diego Gerlach. Como o nome já leva a induzir o autor faz uma peregrinação sobre a entrada da maconha nos EUA, até voltando para outras épocas para contextualizar os pontos de vista. No seu entendimento todo o movimento a que se refere ao uso da maconha no país foi permeado por inverdades sempre ancoradas em interesses próprios, preconceitos e como ferramenta de controle de poder. Da campanha falsa que gerou a famigerada e improdutiva “guerra às drogas” americana e passando por comentários irônicos e sagazes, temos uma visão bem interessante sobre um tema para lá de polêmico e repleto de desinformação.

Nota: 7,5

Site do autor: www.boxbrown.com 




Brasil, início dos anos 70. A ditadura vem há alguns anos corroendo sonhos e direitos de uma nação que ousara sonhar com mais. Os irmãos Jonas e Leona saem de carro do enterro do pai, um coronel turrão que nunca os reconheceu como filhos. Junto estão a esposa de Jonas e um misterioso passageiro. Enquanto estão na estrada pequenos acontecimentos estimulam fatos maiores que chegam em uma enxurrada de dor e rancor. Em “Entre Cegos e Invisíveis”, o quadrinista André Diniz constrói um drama sobre família, preconceito, aparências e natureza pessoal utilizando o fenômeno da super-Lua e o cenário político e social do país como importantes coadjuvantes. Publicado primeiramente em Portugal - onde esse carioca reside - teve edição nacional agora no final de 2019 pelo selo Café Espacial com 128 páginas e é mais um trabalho de alto nível de um autor que não cansa de forjar ótimas obras.



Nota: 8,0



“Homem-Aranha: Azul” é sobre se apaixonar, sobre perder e sobre seguir em frente. Uma história simples e singela no seu cerne como tantas outras, mas que por conta da delicadeza, condução e arte se tornou um pequeno clássico do aracnídeo. A Panini Comics publicou a obra da primeira metade dos anos 2000 por aqui em vários formatos, porém lançou esse ano uma nova (e bonita) edição de 168 páginas e capa dura com textos e esboços. Jeph Loeb e Tim Sale, responsáveis por obras com tônicas parecidas (“Demolidor: Amarelo”, “Hulk: Cinza” e “Capitão América: Branco”) contaram com as cores de Steve Buccelatto para mostrar um Peter Parker que de acostumado a ser invisível passa a se destacar mais e acaba se apaixonando por Gwen Stacy. Entre brigas com vilões, diminutas lições de vida e sonhos feitos e desfeitos, “Homem Aranha: Azul” ainda é um trabalho que carrega um sólido charme.


Nota: 8,5




domingo, 22 de dezembro de 2019

Literatura: "Através do Vazio" e "Slumberland"


Então é natal. Natal de 2067. É nesse ponto que começa “Através do Vazio” (Across The Void, no original) que a editora Suma publicou esse ano aqui com 376 páginas e tradução de Renato Marques. O livro de S.K. Vaughn (na verdade um pseudônimo do escritor e roteirista americano Shane Kuhn) é ambientado em um futuro onde a humanidade definitivamente alcançou as estrelas com toda pompa e os interesses privados e públicos (além dos pessoais) continuam conflitantes e interferindo na vida das pessoas em troca de benefícios e vantagens. Nada de novo, convenhamos. O livro começa com a comandante May Knox acordando dentro de uma nave perto de Júpiter sem memória e companhia quase nenhuma buscando entender o que aconteceu. Na ponta do outro lado – na terra – está o marido Stephen Knox, cientista brilhante responsável pela tecnologia que fez a NASA investir milhões e mais milhões na missão em uma das luas do gigante gasoso. “Através do Vazio” é no seu âmago, sobretudo uma história de sobrevivência no meio do espaço sideral sem muita ajuda e contra várias adversidades sejam elas naturais ou não. Se assim fosse mantida durante as páginas seria uma obra bem mais interessante do que se tornou, pois quando o autor opta em dividir o palco com um drama romântico com características de novelão mexicano (no pior sentido) reduz bastante a qualidade do trabalho. Isso faz com que o livro se situe naquele limiar entre não seduzir o leitor completamente, como também não desagradar na totalidade.

Nota: 5,0

Leia um trecho aqui:


“O Vendido” lançado aqui em 2017 e vencedor do aclamado Man Booker Price de 2016 na Inglaterra foi o primeiro livro do americano Paul Beatty publicado no Brasil. Em 2019 a Todavia Livros lança também dele o “Slumberland”, originalmente de 2008 nos EUA, mas que carrega a mesma vivacidade apesar de ser anterior. O tom ácido, satírico e mordaz que causa incômodo ao leitor desavisado está lá presente, ainda que em menor proporção e não tão bem desenvolvido como seria posteriormente. O protagonista é o DJ Darky, nome artístico de Ferguson W. Sowell, morador de Los Angeles que após compor uma batida que todos julgam como perfeita se manda para a Berlim do final dos anos 80 a fim de encontrar um jazzista genial e ao mesmo tempo excêntrico que sumiu faz muito, muito tempo. O intuito é que ele adicione uma frase original a essa batida, deixando assim inegavelmente perfeita essa criação. Na busca por Charles Stone – o jazzista em questão – DJ Darky deságua no bar que empresta o nome ao livro como sommelier de jukebox (sim, é isso mesmo), que é frequentado na maioria por negros imigrantes e onde o autor no meio da guerra fria insere as colocações impertinentes e corrosivas que lhe são peculiares. Trazendo a paixão pela música como grande timoneira da obra, Paul Beatty fala sobre racismo de um jeito que tem o intuito claro de provocar – ainda mais vindo de um autor negro – e embala esses acintes com canções, canções e mais canções.

Nota: 7,0

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Quadrinhos: "Lenora", "Justin", "Desafiador - Retorno à Eternidade" e "David Boring"

 

Edgar Allan Poe faleceu em 1849 na cidade de Baltimore nos EUA aos 40 anos e não viu sua obra fazer sucesso e ganhar a imensa amplitude que exibe até hoje. A hq “Lenora” da ilustradora e quadrinista Juliana Fiorese (de “Clara Carcosa”) é mais uma prova disso. Concebida de maneira independente e viabilizada através de uma campanha de financiamento coletivo é uma adaptação do poema “Lenore” de 1843, trabalho menos conhecido do autor de “O Corvo”. Com 48 páginas e uma edição muito cuidadosa e bonita temos a história de Guy de Vere que perde sua paixão cedo demais e procura aceitar isso de alguma maneira, sendo esse processo de aceitação que o poema exibe e aparece na tradução de Pedro Mohallem que colabora com um texto bem interessante no final. “Lenora” é outra iniciativa caprichada em cima da obra do bardo americano com uma arte detalhista e admirável.

Nota: 6,0



Em 26 de maio de 1983 nascia Justine Claude Adélaïde, mas logo aos 4 anos percebeu que na verdade não era menina e sim, um menino. Esse é mote de “Justin”, trabalho da quadrinista Anne-Charlotte Gauthier (de “O Enterro das Minhas Ex”) publicado na França em 2016 e que recebeu edição nacional pela editora Nemo no ano passado com 104 páginas. Em uma sociedade ridícula e preocupantemente conservadora, a autora narra os desafios que a protagonista percorre para conseguir se sentir bem e a vontade. A transexualidade abordada na trama é espelhada em ações da família, da escola, do círculo social e dos psiquiatras que não tem habilidade ou conhecimento. “Justin” apresenta as dificuldades de ser entendido como se quer, mas sem se aprofundar muito, deixando a trama até suave de certo modo, enquanto brinda o leitor com as conquistas de alguém que não se deixou vencer em momento algum.

Nota: 7,0 


A DC Comics tem uma quantidade relevante de personagens de terceiro (ou até mesmo quarto) escalão que são interessantíssimos e apresentam características distintas dos mais famosos nomes da editora, principalmente se adentrarmos o campo mágico e/ou místico. O Deadman – no Brasil conhecido como Desafiador – é um deles. Criado em 1967 pelos estupendos Arnold Drake e Carmine Infantino é o fantasma do acrobata circense Boston Brand que consegue possuir corpos e fazer estes agirem como se fossem ele. Dono de um senso de humor bem afiado é aquele tipo de coadjuvante que sempre abrilhanta a história. Agora em 2019 a Panini Comics publicou em edição bacanuda de capa dura uma minissérie de 1986 com roteiro de Andrew Helfer e arte do magistral José Luis García-López. “Desafiador – Retorno à Eternidade” conta com 108 páginas de puro deleite da nona arte em uma história que une aventura, humor, honra, família, misticismo e mistério.

Nota: 7,5


“David Boring” do Daniel Clowes originalmente publicado em 2000 nos EUA pela Pantheon Books retrata com habilidade esse momento de final de século para um jovem do país. No meio da apatia, da infelicidade e da falta de perspectiva, o autor insere quantias generosas de fetiche, obsessão e uma respeitável e gloriosa falta de amor por convenções sociais. A editora Nemo que já havia lançado “Paciência”, “Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro” e “Ghost World”, coloca mais esse título no mercado em uma edição com capa brochura e 144 páginas. O personagem principal que sai da cidade pequena para basicamente fugir da mãe se envolve em um fluxo de sexo, violência e alívios temporários para mascarar os desgostos existenciais que traz consigo. Dividida em 3 atos, “David Boring” explica parte das razões que levam o autor a ser um dos maiores nomes dos quadrinhos alternativos dos últimos anos.

Nota: 8,0






segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Quadrinhos: "Busker", "Golias", "Squeak The Mouse" e "Lume"


Clay circula por São Paulo com o violão debaixo do braço e tocando pelas ruas, como tantos outros. No peito o anseio de viver de música, de mostrar a arte para uma quantidade maior de pessoas, de vencer usando o talento. É com essa trama que o designer e ilustrador Ryan Smallman estreou no final de 2018 com “Busker”, publicação independente de 48 páginas em preto e branco. A obra trata de um tema abordado várias vezes e poderia passar batida se não fosse pela suavidade e esmero que o autor utiliza no texto e arte. Mesmo com uma certa previsibilidade nos rumos, agrada e serve para aplacar um pouco o dia a dia tão permeado de notícias ruins. “Busker” é sobre sonhos, sobre acreditar, sobre seguir em frente mesmo quando o mundo diz não (como fala aquela música). E acima de tudo isso é sobre o poder das canções.

Nota: 6,0



A história de Davi e Golias é universalmente conhecida não somente por aqueles que leram a bíblia, mas por várias outras pessoas. A vitória da inteligência contra a força bruta, do pequeno contra o grande, do impossível contra o normal é retratada constantemente como analogia em diversas situações. Só que o quadrinista escocês Tom Gauld deu uma bela revertida nesse conceito, recontando as coisas de maneira diferente. Em “Golias” que a editora Todavia publicou esse ano no Brasil com 96 páginas, o gigante não quer saber de guerra ou briga, prefere a burocracia do que ir para a batalha. Contudo, devido ao seu tamanho e porte físico é deslocado para resolver os problemas da guerra, guerra aliás que é retratada com as irracionalidades e incoerências que lhe são inerentes. Usando poucas cores e traços simples, Tom Gauld faz uma releitura da parábola com fineza, humor e relevância aos nossos tempos.

Nota: 7,0

Instagram do autor: https://www.instagram.com/tomgauld/    


Massimo Mattioli nasceu na Itália em 1943 e faleceu em agosto desse ano. O cartunista e quadrinista foi um dos fundadores de revistas underground como “Frigidaire” e “Cannibale” e aqui teve trabalhos publicados na extinta e saudosa revista “Animal”. No primeiro semestre de 2019 (e antes da sua morte), a editora Veneta publicou uma edição de luxo com capa dura, 160 páginas e vários esboços de extras compilando tudo da dupla mais demente e desvairada já imaginada. “Squeak The Mouse” começou a sair no início dos anos 80 unindo violência, sexo e subversão com muita desordem e depravação sempre repetindo a mesma diagramação básica dos quadros. Como se Tom e Jerry estivessem sobre efeito de todas as drogas possíveis e existentes numa espiral de carnificina e libertinagem extremada indicada única e exclusivamente para leitores adultos. Por mais que algumas coisas tenham envelhecido mal ainda é uma obra com grande valor.

Nota: 7,5



O tempo passa, a juventude fica para trás e no meio da correria louca do processo de sermos adultos e pagar os boletos esquecemos de pessoas e momentos importantes que permearam essa fase complicada da vida. É sobre isso que a artista visual e quadrinista paulista Luiza Nasser conversa em “Lume”, trabalho independente de 68 páginas lançado no ano passado. Em preto e branco alternando os tipos e estilos de quadros e a força do próprio desenho a autora conta com extrema delicadeza uma relação que é bem provável que já tenha acontecido com você ou com algum amigo. Na busca por afirmação, por encontrar um lugar no mundo, por ter um ombro para recorrer quando a vida sai do trilho, de saber que você não está sozinho na vida é que “Lume” se destaca e vai um pouco mais além da sua premissa inicial e brilha de maneira ímpar.

Nota: 8,0





sábado, 23 de novembro de 2019

14o. Festival Se Rasgum - Belém (PA) - 31/10 a 3/11/2019



Vivemos tempos desanimadores, com nuvens mais e mais carregadas a cada dia que passa. As penosas vitórias conseguidas em busca de um país mais justo e igualitário para todos são derrubadas com uma velocidade impressionante e é só dar uma passeada nas redes sociais ou conversar com um grupo que não seja a própria bolha para a cabeça pesar e uma tristeza assumir o comando das ações. Mas, para tempos assim, existe a arte como alívio, a arte como instrumento de força. Sempre existiu e sempre existirá.

E foi isso que presenciei no 14º Festival Se Rasgum em Belém.

Realizado em 4 dias – fora as festas surpresas, aberturas, oficinas, cursos e bate-papos – o festival que é sinônimo mais do que nunca de resistência tendo em vista a longevidade e constante busca de melhora, exibiu em termos estruturais e de conforto algo igual ou maior do que estamos acostumados a ver em produções de grande porte país afora e finca assim de vez o pé no topo desse mercado. Com uma curadoria diversa e bem pensada, tivemos dias de risos, posicionamentos, afirmações, abraços, boas conversas, imposições e – claro - música, muita música.

Longe de querer passar uma varredura completa e detalhada de todas as atrações me concentro naquelas que mais me animaram, acalmaram ou chamaram a atenção, já registrando aqui o imenso pesar que foi perder o show do Suzana Flag tocando o disco “Fanzine” na íntegra no Pier da Casa das 11 Janelas em dia gratuito (31.10), que de acordo com todos os comentários que ouvi foi emocionante. Difícil acontecer isso novamente no futuro, infelizmente. Então, parto do dia seguinte que passou para o Espaço Náutico Marine Club e que no dia primeiro de novembro iniciou com um show do paraense Pratagy.

Logo depois, ainda antes das 21hs o Bazar Pamplona subiu ao palco para tocar as canções de um dos melhores discos do ano, o “Banda Vende Tudo”, que ainda contou com a participação luxuosa da Ana Clara e sua encantadora voz e persona em faixas como “Prumar”. Anna Suav & Bruna BG – que eu não conhecia – fizeram na sequência um show poderoso, com banda repleta de vigor e discurso forte e preciso. Na sequência os mineiros do Moons promoveram um dos shows mais bonitos do festival para mim, intercalando músicas dos dois últimos álbuns encheram o ar com melodia.

Talvez a atração mais esperada dessa edição e com um disco ao vivo recentemente lançado que recebe críticas positivas a todo momento, Gal Costa adentrou ao palco logo com “Dê um Rolê” e pouco depois com “Vaca Profana”, para já mostrar que a banda renovou as versões e deu gás em novas canções como “Motor” dos baianos no Maglore. Mesmo com um pequeno deslize cometido e consertado ao final com grande maestria e humildade, Gal encantou, fez dançar, cantar junto, abraçar a pessoa desconhecida ao lado. Fez o que se espera de uma artista do porte dela. A sexta ainda teria a energia do Mulamba e a malemolência dos Amantes (Jaloo & Strobo).

No sábado cheguei na hora do Dingo Bells (com um show bem insosso) e não vi o Nic Dias e Rakta. Na sequência veio a Brvnks que mesmo sem empolgar tanto o público fez um show do bom e velho indie rock e alegrou o coração por algumas dezenas de minutos. Com um clima totalmente diferente vieram os mineiros do Black Pantera, um rolo compressor em forma de power trio que aliou pancadaria sonora, simpatia e discurso enfático. Um dos shows da edição, sem dúvida. Depois do constrangimento que foi o show do Joe Silhueta, veio o combo do Mastodontes para trazer novamente as coisas para seu devido lugar. Outro grande show do festival, saíram do palco deixando o público ainda sem saber muito bem o que tinha acontecido. A Nação Zumbi que há tempos não vinha na mangueirosa encerrou a noite com um bom show, com Lúcio Maia reafirmando o músico fantástico que é, mas deixou a sensação que podia ter sido melhor.

Domingo - para o meu gosto - era o dia que menos animava. Festival é assim mesmo, você não tem como conhecer todos os artistas, admirar todos os estilos, curtir todas as atrações, você tem é que ir com a mente aberta para o que vier pela frente e estar disposto a se divertir acima de tudo. E assim foi o domingo desde o início com o brega (e outras cositas mais) do Farofa Tropikal com a presença do ícone Tonny Brasil. Depois foi a Larissa Luz que encantou com uma força tão imensa que não se sabia da onde estava vindo tanta massa sonora. Muito, mas muito mais potente que os discos, sem dúvida. Outro show para figurar entre os melhores dessa edição.

Na sequência os cariocas do Heavy Baile fizeram literalmente o chão tremer com o funk que estourava das caixas de som. Divertido a beça. Na apresentação seguinte a Tássia Reis que está com um belo disco lançado esse ano, não conseguiu transportar isso para o palco e ficou no meio termo. A noite de domingo e o festival se encerraria com os experimentalismos do Teto Preto e o vigor do Àttooxxá que subiu ao palco com a bandeira paraense estirada para receber a Keila (ex-Gang do Eletro).

O Se Rasgum é como aquele velho amigo que você passa o ano todo sem ver, mas sabe que quando se encontrarem vai rolar aquele abraço grande e virão sorrisos e novas histórias para serem contadas no futuro. É aquele amigo que você sabe que pode contar para aliviar a mente ao mesmo tempo em que reafirma suas posições enfaticamente e percebe que existem outras pessoas ao seu lado, que você não está só na briga. E ao sair do Espaço Naútico Marine Club durante o último show a sensação já era de saudade, mas também de expectativa para edição de 15 anos. Afinal, sobreviveremos a tudo e a arte será uma das forças do processo.

Por fotos do festival é só ir aqui: http://www.festival.serasgum.com.br/