quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Quadrinhos: "Lenora", "Justin", "Desafiador - Retorno à Eternidade" e "David Boring"

 

Edgar Allan Poe faleceu em 1849 na cidade de Baltimore nos EUA aos 40 anos e não viu sua obra fazer sucesso e ganhar a imensa amplitude que exibe até hoje. A hq “Lenora” da ilustradora e quadrinista Juliana Fiorese (de “Clara Carcosa”) é mais uma prova disso. Concebida de maneira independente e viabilizada através de uma campanha de financiamento coletivo é uma adaptação do poema “Lenore” de 1843, trabalho menos conhecido do autor de “O Corvo”. Com 48 páginas e uma edição muito cuidadosa e bonita temos a história de Guy de Vere que perde sua paixão cedo demais e procura aceitar isso de alguma maneira, sendo esse processo de aceitação que o poema exibe e aparece na tradução de Pedro Mohallem que colabora com um texto bem interessante no final. “Lenora” é outra iniciativa caprichada em cima da obra do bardo americano com uma arte detalhista e admirável.

Nota: 6,0



Em 26 de maio de 1983 nascia Justine Claude Adélaïde, mas logo aos 4 anos percebeu que na verdade não era menina e sim, um menino. Esse é mote de “Justin”, trabalho da quadrinista Anne-Charlotte Gauthier (de “O Enterro das Minhas Ex”) publicado na França em 2016 e que recebeu edição nacional pela editora Nemo no ano passado com 104 páginas. Em uma sociedade ridícula e preocupantemente conservadora, a autora narra os desafios que a protagonista percorre para conseguir se sentir bem e a vontade. A transexualidade abordada na trama é espelhada em ações da família, da escola, do círculo social e dos psiquiatras que não tem habilidade ou conhecimento. “Justin” apresenta as dificuldades de ser entendido como se quer, mas sem se aprofundar muito, deixando a trama até suave de certo modo, enquanto brinda o leitor com as conquistas de alguém que não se deixou vencer em momento algum.

Nota: 7,0 


A DC Comics tem uma quantidade relevante de personagens de terceiro (ou até mesmo quarto) escalão que são interessantíssimos e apresentam características distintas dos mais famosos nomes da editora, principalmente se adentrarmos o campo mágico e/ou místico. O Deadman – no Brasil conhecido como Desafiador – é um deles. Criado em 1967 pelos estupendos Arnold Drake e Carmine Infantino é o fantasma do acrobata circense Boston Brand que consegue possuir corpos e fazer estes agirem como se fossem ele. Dono de um senso de humor bem afiado é aquele tipo de coadjuvante que sempre abrilhanta a história. Agora em 2019 a Panini Comics publicou em edição bacanuda de capa dura uma minissérie de 1986 com roteiro de Andrew Helfer e arte do magistral José Luis García-López. “Desafiador – Retorno à Eternidade” conta com 108 páginas de puro deleite da nona arte em uma história que une aventura, humor, honra, família, misticismo e mistério.

Nota: 7,5


“David Boring” do Daniel Clowes originalmente publicado em 2000 nos EUA pela Pantheon Books retrata com habilidade esse momento de final de século para um jovem do país. No meio da apatia, da infelicidade e da falta de perspectiva, o autor insere quantias generosas de fetiche, obsessão e uma respeitável e gloriosa falta de amor por convenções sociais. A editora Nemo que já havia lançado “Paciência”, “Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro” e “Ghost World”, coloca mais esse título no mercado em uma edição com capa brochura e 144 páginas. O personagem principal que sai da cidade pequena para basicamente fugir da mãe se envolve em um fluxo de sexo, violência e alívios temporários para mascarar os desgostos existenciais que traz consigo. Dividida em 3 atos, “David Boring” explica parte das razões que levam o autor a ser um dos maiores nomes dos quadrinhos alternativos dos últimos anos.

Nota: 8,0






segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Quadrinhos: "Busker", "Golias", "Squeak The Mouse" e "Lume"


Clay circula por São Paulo com o violão debaixo do braço e tocando pelas ruas, como tantos outros. No peito o anseio de viver de música, de mostrar a arte para uma quantidade maior de pessoas, de vencer usando o talento. É com essa trama que o designer e ilustrador Ryan Smallman estreou no final de 2018 com “Busker”, publicação independente de 48 páginas em preto e branco. A obra trata de um tema abordado várias vezes e poderia passar batida se não fosse pela suavidade e esmero que o autor utiliza no texto e arte. Mesmo com uma certa previsibilidade nos rumos, agrada e serve para aplacar um pouco o dia a dia tão permeado de notícias ruins. “Busker” é sobre sonhos, sobre acreditar, sobre seguir em frente mesmo quando o mundo diz não (como fala aquela música). E acima de tudo isso é sobre o poder das canções.

Nota: 6,0



A história de Davi e Golias é universalmente conhecida não somente por aqueles que leram a bíblia, mas por várias outras pessoas. A vitória da inteligência contra a força bruta, do pequeno contra o grande, do impossível contra o normal é retratada constantemente como analogia em diversas situações. Só que o quadrinista escocês Tom Gauld deu uma bela revertida nesse conceito, recontando as coisas de maneira diferente. Em “Golias” que a editora Todavia publicou esse ano no Brasil com 96 páginas, o gigante não quer saber de guerra ou briga, prefere a burocracia do que ir para a batalha. Contudo, devido ao seu tamanho e porte físico é deslocado para resolver os problemas da guerra, guerra aliás que é retratada com as irracionalidades e incoerências que lhe são inerentes. Usando poucas cores e traços simples, Tom Gauld faz uma releitura da parábola com fineza, humor e relevância aos nossos tempos.

Nota: 7,0

Instagram do autor: https://www.instagram.com/tomgauld/    


Massimo Mattioli nasceu na Itália em 1943 e faleceu em agosto desse ano. O cartunista e quadrinista foi um dos fundadores de revistas underground como “Frigidaire” e “Cannibale” e aqui teve trabalhos publicados na extinta e saudosa revista “Animal”. No primeiro semestre de 2019 (e antes da sua morte), a editora Veneta publicou uma edição de luxo com capa dura, 160 páginas e vários esboços de extras compilando tudo da dupla mais demente e desvairada já imaginada. “Squeak The Mouse” começou a sair no início dos anos 80 unindo violência, sexo e subversão com muita desordem e depravação sempre repetindo a mesma diagramação básica dos quadros. Como se Tom e Jerry estivessem sobre efeito de todas as drogas possíveis e existentes numa espiral de carnificina e libertinagem extremada indicada única e exclusivamente para leitores adultos. Por mais que algumas coisas tenham envelhecido mal ainda é uma obra com grande valor.

Nota: 7,5



O tempo passa, a juventude fica para trás e no meio da correria louca do processo de sermos adultos e pagar os boletos esquecemos de pessoas e momentos importantes que permearam essa fase complicada da vida. É sobre isso que a artista visual e quadrinista paulista Luiza Nasser conversa em “Lume”, trabalho independente de 68 páginas lançado no ano passado. Em preto e branco alternando os tipos e estilos de quadros e a força do próprio desenho a autora conta com extrema delicadeza uma relação que é bem provável que já tenha acontecido com você ou com algum amigo. Na busca por afirmação, por encontrar um lugar no mundo, por ter um ombro para recorrer quando a vida sai do trilho, de saber que você não está sozinho na vida é que “Lume” se destaca e vai um pouco mais além da sua premissa inicial e brilha de maneira ímpar.

Nota: 8,0





sábado, 23 de novembro de 2019

14o. Festival Se Rasgum - Belém (PA) - 31/10 a 3/11/2019



Vivemos tempos desanimadores, com nuvens mais e mais carregadas a cada dia que passa. As penosas vitórias conseguidas em busca de um país mais justo e igualitário para todos são derrubadas com uma velocidade impressionante e é só dar uma passeada nas redes sociais ou conversar com um grupo que não seja a própria bolha para a cabeça pesar e uma tristeza assumir o comando das ações. Mas, para tempos assim, existe a arte como alívio, a arte como instrumento de força. Sempre existiu e sempre existirá.

E foi isso que presenciei no 14º Festival Se Rasgum em Belém.

Realizado em 4 dias – fora as festas surpresas, aberturas, oficinas, cursos e bate-papos – o festival que é sinônimo mais do que nunca de resistência tendo em vista a longevidade e constante busca de melhora, exibiu em termos estruturais e de conforto algo igual ou maior do que estamos acostumados a ver em produções de grande porte país afora e finca assim de vez o pé no topo desse mercado. Com uma curadoria diversa e bem pensada, tivemos dias de risos, posicionamentos, afirmações, abraços, boas conversas, imposições e – claro - música, muita música.

Longe de querer passar uma varredura completa e detalhada de todas as atrações me concentro naquelas que mais me animaram, acalmaram ou chamaram a atenção, já registrando aqui o imenso pesar que foi perder o show do Suzana Flag tocando o disco “Fanzine” na íntegra no Pier da Casa das 11 Janelas em dia gratuito (31.10), que de acordo com todos os comentários que ouvi foi emocionante. Difícil acontecer isso novamente no futuro, infelizmente. Então, parto do dia seguinte que passou para o Espaço Náutico Marine Club e que no dia primeiro de novembro iniciou com um show do paraense Pratagy.

Logo depois, ainda antes das 21hs o Bazar Pamplona subiu ao palco para tocar as canções de um dos melhores discos do ano, o “Banda Vende Tudo”, que ainda contou com a participação luxuosa da Ana Clara e sua encantadora voz e persona em faixas como “Prumar”. Anna Suav & Bruna BG – que eu não conhecia – fizeram na sequência um show poderoso, com banda repleta de vigor e discurso forte e preciso. Na sequência os mineiros do Moons promoveram um dos shows mais bonitos do festival para mim, intercalando músicas dos dois últimos álbuns encheram o ar com melodia.

Talvez a atração mais esperada dessa edição e com um disco ao vivo recentemente lançado que recebe críticas positivas a todo momento, Gal Costa adentrou ao palco logo com “Dê um Rolê” e pouco depois com “Vaca Profana”, para já mostrar que a banda renovou as versões e deu gás em novas canções como “Motor” dos baianos no Maglore. Mesmo com um pequeno deslize cometido e consertado ao final com grande maestria e humildade, Gal encantou, fez dançar, cantar junto, abraçar a pessoa desconhecida ao lado. Fez o que se espera de uma artista do porte dela. A sexta ainda teria a energia do Mulamba e a malemolência dos Amantes (Jaloo & Strobo).

No sábado cheguei na hora do Dingo Bells (com um show bem insosso) e não vi o Nic Dias e Rakta. Na sequência veio a Brvnks que mesmo sem empolgar tanto o público fez um show do bom e velho indie rock e alegrou o coração por algumas dezenas de minutos. Com um clima totalmente diferente vieram os mineiros do Black Pantera, um rolo compressor em forma de power trio que aliou pancadaria sonora, simpatia e discurso enfático. Um dos shows da edição, sem dúvida. Depois do constrangimento que foi o show do Joe Silhueta, veio o combo do Mastodontes para trazer novamente as coisas para seu devido lugar. Outro grande show do festival, saíram do palco deixando o público ainda sem saber muito bem o que tinha acontecido. A Nação Zumbi que há tempos não vinha na mangueirosa encerrou a noite com um bom show, com Lúcio Maia reafirmando o músico fantástico que é, mas deixou a sensação que podia ter sido melhor.

Domingo - para o meu gosto - era o dia que menos animava. Festival é assim mesmo, você não tem como conhecer todos os artistas, admirar todos os estilos, curtir todas as atrações, você tem é que ir com a mente aberta para o que vier pela frente e estar disposto a se divertir acima de tudo. E assim foi o domingo desde o início com o brega (e outras cositas mais) do Farofa Tropikal com a presença do ícone Tonny Brasil. Depois foi a Larissa Luz que encantou com uma força tão imensa que não se sabia da onde estava vindo tanta massa sonora. Muito, mas muito mais potente que os discos, sem dúvida. Outro show para figurar entre os melhores dessa edição.

Na sequência os cariocas do Heavy Baile fizeram literalmente o chão tremer com o funk que estourava das caixas de som. Divertido a beça. Na apresentação seguinte a Tássia Reis que está com um belo disco lançado esse ano, não conseguiu transportar isso para o palco e ficou no meio termo. A noite de domingo e o festival se encerraria com os experimentalismos do Teto Preto e o vigor do Àttooxxá que subiu ao palco com a bandeira paraense estirada para receber a Keila (ex-Gang do Eletro).

O Se Rasgum é como aquele velho amigo que você passa o ano todo sem ver, mas sabe que quando se encontrarem vai rolar aquele abraço grande e virão sorrisos e novas histórias para serem contadas no futuro. É aquele amigo que você sabe que pode contar para aliviar a mente ao mesmo tempo em que reafirma suas posições enfaticamente e percebe que existem outras pessoas ao seu lado, que você não está só na briga. E ao sair do Espaço Naútico Marine Club durante o último show a sensação já era de saudade, mas também de expectativa para edição de 15 anos. Afinal, sobreviveremos a tudo e a arte será uma das forças do processo.

Por fotos do festival é só ir aqui: http://www.festival.serasgum.com.br/ 

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Literatura: "Serotonina" e "Economia Donut"


No ótimo “Submissão” de 2015 o escritor francês Michel Houellebecq abordava política, religião e costumes com um viés propositadamente conservador que servia para impactar o leitor e criar discussões e polêmicas sobre o que espelhava no texto. Em “Serotonina” (Sérotonine) de 2019 que a editora Alfaguara publica aqui com 239 páginas e tradução conjunta de Ari Roitman e Paulina Wacht ele mergulha na depressão e nas consequências provocadas pelos remédios, sem deixar de aludir sobre alguns assuntos recorrentes nas suas obras anteriores e adotando a mesma tática de provocar o maior espanto possível para causar controvérsia e, lógico, repercussão. O protagonista é Florent-Claude Labrouste de 46 anos que é um ser humano que beira o desprezível, embora aqui e ali alguma boa vontade apareça embaixo do niilismo que carrega. Tomando um remédio para a depressão que ajuda, mas em contrapartida causa impotência e falta de libido, joga tudo para o alto (emprego desestimulante, esposa que lhe trai de várias formas, convívio social) e resolve viver dentro de um hotel com o resto do dinheiro que tem de uma herança enquanto visita um velho amigo de escola que virou fazendeiro e ex-namoradas/mulheres em uma espiral de antipatia, confrontos e tendências doentias. No que concerne ao objetivo específico de provocar, ele foi atingido sabiamente já que o livro (novamente) causou estardalhaço na França, todavia não pode se dizer isso do ponto de vista da qualidade da obra que peca em vários aspectos, principalmente na repetição de formatos e na forçada excessiva de mão.

Nota: 5,0

Leia um trecho aqui:


Uma outra economia é possível? Uma que consiga aliar o crescimento econômico com questões ambientais, sociais, comportamentais e igualitárias, sem esgotar os recursos do planeta e diminuindo as desigualdades de toda e qualquer estirpe? Para a britânica Kate Raworth a resposta é sim, mesmo que seja um processo bem complicado. Além de economista, a autora é professora e pesquisadora da universidade de Oxford com grande experiência em outras instituições. Em “Economia Donut” (Doughnut Economics) que a editora Zahar publicou no país esse ano com 368 páginas e tradução de George Schlesinger ela propõe um modelo econômico diferente que venha a substituir o que guia a humanidade nos últimos séculos e se tornou além de obsoleto, bem prejudicial. Para que esse modelo tivesse como ser visualizado ela criou um gráfico que parece com a famosa rosquinha e daí vem o nome. O livro propõe ideias e discussões que buscam quebrar essas teorias há muito estabelecidas para gerar um pensamento econômico que seja repassado desde já para a nova geração a fim de que seja possível definir metas de longo prazo para a humanidade como um todo, humanidade que hoje está na casa dos 7 bilhões de habitantes e tende a bater 10 bilhões em 2050. Desaprender o que sabemos e reaprender novamente por outro viés é necessário na visão da autora. O resultado é um trabalho expressivo que carrega a virtude de poder ser entendido mesmo por quem não tem muita sapiência na área. Um dos livros do ano, sem dúvida.

Nota: 9,0

Leia um trecho aqui:
https://zahar.com.br/sites/default/files/arquivos/trecho_-_economia_donut.pdf

Eis o donut:

domingo, 13 de outubro de 2019

Literatura: "Fogo & Sangue - Volume 1" e "Hibisco Roxo"


Quando Aegon, o Conquistador chegou em Westeros com seus dragões a tiracolo toda a história do(s) reino(s) mudou drasticamente. Em “Fogo & Sangue – Volume 1” (Fire And Blood), George R. R. Martin conta um pouco mais sobre os 300 anos de reinado dos Targaryen até que a rebelião comandada por Robert Baratheon matasse Aerys II, o Rei Louco e desse início a saga que fez estrondoso sucesso tanto nos livros quanto na televisão. Lançado pela editora Suma no final do ano passado com 598 páginas e tradução de Regiane Winarski e Leonardo Alves, o livro - que apresenta partes anteriormente publicadas em 2013, 2014 e 2017 em outras obras - é narrado bem depois que os fatos aconteceram e são baseados em relatos de um septão, um meistre e um bobo da corte (que rende as melhores passagens). “Fogo & Sangue” apresenta em farta quantia coisas que o autor explorou de forma competente em “Game Of Thrones”, tais como mentiras, traições, intrigas, guerras, religião e sexo, mas aqui com um pouco de humor. O livro amarra algumas coisas, explica outras e até levanta alguns novos questionamentos, no entanto não ultrapassa aquilo que realmente é: um subproduto voltado para fãs e devotos da história “original” que serve para suprir a ausência do próximo livro que não chega nunca. Em determinadas pedaços a leitura fica tão arrastada e desenxabida que é difícil seguir adiante. O ponto alto acaba sendo as ilustrações de Doug Wheatley (Superman, Hulk, Conan) que acrescentam bastante ao texto.

Nota: 4,0

Leia um trecho aqui:
https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/28000580.pdf 


“Hibisco Roxo” de 2003 é o primeiro livro da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie que depois se tornaria uma das relevantes autoras da atualidade com livros como “Americanah” e famosas palestras. “Hibisco Roxo” (Purple Hibiscus) ganhou edição nacional em 2011 pela Companhia das Letras que constantemente faz reimpressões como agora em 2019 com tradução de Julia Romeu e 328 páginas. Nele somos apresentados a jovem Kambili e a um país que está permanentemente na corda bamba, na luta entre manter tradições e crenças e/ou se adequar as mudanças trazidas pela colonização branca, enquanto os processos políticos e sociais são instáveis e geram corrosivos efeitos. O pai de Kambili é um empresário de sucesso que ao mesmo tempo em que ajuda bastante a comunidade e pessoas estranhas gere com mão de ferro a família, formada além dela pela mãe e por um irmão. O pai que assumiu a religiosidade dos colonizadores despreza os deuses antigos e guia os passos dos seus quase como um diretor de presídio. Sufocada e sem conhecer outra realidade, as coisas mudam para a jovem quando vai passar um tempo com a tia, professora de universidade e residente em outra cidade. E aí ela começa a perceber que o mundo não era o que pensava. Com a realidade nigeriana de pano de fundo (que em alguns aspectos não difere muito da nossa), a autora mistura autobiografia e ficção em um relato que por mais simples e sensível que possa parecer de início, carrega uma força arrebatadora junto consigo.

Nota: 8,0

Leia um trecho aqui:
https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/12753.pdf


sábado, 12 de outubro de 2019

Literatura: "A Mulher Na Janela" e "Marrom e Amarelo"


Um dos livros mais vendidos de 2018 nos EUA foi “A Mulher Na Janela” (The Woman In The Window) que logo teve os direitos vendidos para um filme que chega provavelmente no início do ano que vem com a estupenda Amy Adams no papel da protagonista. A editora Arqueiro publicou nacionalmente a obra no ano passado com 352 páginas e tradução de Marcelo Mendes. Com elogios de autores consagrados como Gillian Flynn e Stephen King, o trabalho causou burburinho também por conta do autor. Creditado no livro como A. J. Finn, na verdade descobriu-se depois que se tratava de Dan Mallory, escritor que conta com um histórico de mentiras e invenções na bagagem (mas, isso é outra história). Na trama, Anna Fox sofre de agorafobia e vive trancada em casa com pouco contato real além do psiquiatra e da fisioterapeuta. Tem como principal passatempo espionar os vizinhos pela janela se dedicando a pesquisas virtuais sobre cada um deles, enquanto mistura seus remédios com (muito) vinho, assiste filmes antigos e conversa em um fórum da internet com pessoas que sofrem da mesma doença. Com uma rotina quase que totalmente estabelecida vai muito levemente superando os medos, mas vê as coisas mudarem quando uma nova família muda para a rua. Da curiosidade e excitação inicial a trama gira para uma sequência de ardis, farsas e trapaças embaladas com muita paranoia. Com reviravoltas interessantes a leitura é daquelas capazes de prender o leitor, contudo ao término é esquecida tão rapidamente quanto foi consumida.

Nota: 6,0

Leia um trecho aqui: http://www.editoraarqueiro.com.br/media/upload/livros/amulhernajanela_trecho.pdf


O racismo está entranhado na cultura nacional, por mais que alguns rebolem com argumentos mirabolantes ou comparações esdrúxulas tentando negar esse fato. Está na escola, na rua, na universidade, no escritório, em casa, na festa. Vai desde o apelido “inofensivo” até atos e injúrias que desestruturam e são espelhados em maior grau para o resto da vida em oportunidades de trabalho, promoções, reconhecimento, etc. É sobre isso (e mais um monte de coisa) que o escritor gaúcho Paulo Scott fala em “Marrom e Amarelo”, lançamento desse ano da editora Alfaguara com 160 páginas. Na base é a história dos irmãos Federico e Lourenço em diversos momentos da vida que se entrelaçam do meio para o final, porém vai além disso e é – em algum nível - a história de milhares de pessoas espalhadas pelo país. Começa com Federico entrando em uma comissão federal de um novo governo espúrio que tem como missão rever o processo do ingresso de jovens negros no ensino superior pelo sistema de cotas, retorna para a adolescência em Porto Alegre e deságua no confronto da sobrinha com a Polícia em um protesto. De absurdos maiores como a criação de um software para definir quem é negro ou não até coisas menores do cotidiano, a obra de Paulo Scott é Brasil em estado puro. Com uma narrativa que alterna o tipo de escrita, mas nunca deixa de ser direta, clara e simples, temos um trabalho poderosíssimo e mais atual e relevante do que nunca. Uma pedrada daquelas.

Livro: 9,5

Leia um trecho aqui:
https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/28000141.pdf

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Literatura: “Ordem Vermelha: Filhos da Degradação (Vol. 1)" e "Praia de Manhattan"


Um sistema opressor que massacra a população de todas as formas possíveis e imaginárias incluindo uma violenta repressão que descamba para a tortura pura e simples quase que sempre. No apoio a esse regime além de um forte braço militar estão a religião, ciência e a manipulação de fatos e verdades com informações que favoreçam aos que estão no poder e espalhem o medo. Essa é a realidade de Unthreak, a última região habitada do mundo apresentada em “Ordem Vermelha: Filhos da Degradação (Vol. 1)” do escritor paulista Felipe Castilho. A obra foi lançada na CCXP em dezembro de 2017 com participação direta da empresa e teve publicação pela editora Intrínseca com 448 páginas. Fantasia onde transitam seres fantásticos e criaturas assombrosas tem como grande inspiração “O Senhor dos Anéis” e outras obras correlatas, contudo exibe brilho próprio não somente pelo universo que cuidadosamente cria em termos de ambientação e dinâmica visual, mas particularmente pelo teor do texto que insere uma sólida pegada política ainda que mascarada e encoberta por várias camadas. Os indivíduos que se atrevem a derrubar e desmascarar o governo corrosivo da deusa Una, precisam lidar com táticas e nuances que quando tiramos as espadas, bestas, escudos e bichos grotescos não são tão diferentes das que hoje vemos por aí tanto no Brasil quanto em alguns países do mundo. Dosando aventura, tensão e humor com essa dose camuflada de crítica política e social o primeiro volume de “Ordem Vermelha” é um trabalho que exibe vários bons atributos.


Nota: 7,0

Se atualmente as mulheres ainda se deparam com os mais diversos tipos de preconceito e ouvem absurdos mil, imagine isso na década de 40? É onde Anna Kerrigan, a protagonista de “Praia de Manhattan” (Manhattan Beach, no original) da escritora Jennifer Egan se encontra e lida diariamente com isso para conseguir o que deseja enquanto sustenta o crescimento pessoal junto com os erros, dúvidas e afirmações decorrentes. Publicado nos EUA em 2017 a obra recebeu edição nacional em 2018 pela editora Intrínseca com 448 páginas e tradução de Sergio Flaksman. A vencedora do Pulitzer de 2011 com o magistral “A Visita Cruel do Tempo” aqui navega por uma narrativa mais convencional (mas não menos elegante), usando a ficção histórica como condutora. Desenvolvido sobretudo na Nova York da época em que a segunda guerra mundial se desenrolava, mas também tendo uma relevante parte nos anos 30, no cenário pós-crise financeira de 1929, o trabalho versa sobre escolhas, consolidação, luta, inquietação, risos e lágrimas, sejam no mar ou em terra. Entramos de cabeça na vida da personagem principal que trabalha no Arsenal da Marinha e anseia por ser mergulhadora quando mulheres eram proibidas disso. Vivendo sozinha com a mãe e com a irmã que carrega sérios problemas de saúde, Anna Kerrigan fica sempre a um pé de desmoronar enquanto toma uma decisão difícil ou quando se entrega aos prazeres da vida. Com ambientação histórica que beira a perfeição, Jennifer Egan mostra de novo suas habilidades e o que é capaz de construir.


Nota: 8,0


quarta-feira, 31 de julho de 2019

Literatura: "Elza" e "Ideias Para Adiar O Fim do Mundo"


Antes da palavra resiliência aparecer diariamente em status e perfis de redes sociais (sem muito sentido na maioria delas, convenhamos), ela já encontrava há muito tempo relação direta com a carioca Elza Gomes da Conceição, a Elza Soares. Desde criança, passando pelo ano de 1953 onde teve a “audácia” de subir em um auditório comandado por Ary Barroso encantando o apresentador e o público até a última revigorada na carreira iniciada com o estupendo disco “A Mulher do Fim do Mundo” de 2015, a vida dela é uma constante de retomadas, quedas, adaptação, mudanças e novas retomadas. Em “Elza” que a editora Leya lançou em 2018 com 384 páginas, o jornalista Zeca Camargo se debruçou sobre essa vida tão ampla e tão marcante que já atravessa oito décadas com a missão de contar parte de tudo que aconteceu baseado em pesquisas e principalmente nos olhos e memória da própria artista. De sair na rua quando criança catando coisas do chão e do lixo para vender depois e ajudar em casa, de ser forçada a casar aos 13 anos com um homem que também não era mais que um garoto, da morte do primeiro filho, do relacionamento mais que intenso com Garrincha, das diversas baixas e dos recomeços que vieram em sequência, Elza sempre renasceu mais e mais forte. Com o caminho sempre marcado pela violência e o preconceito temos uma história de vida espetacular, que apesar de ser escrita com um tom talvez leve demais, ainda assim vale cada página.

Nota: 8,0



Ailton Alves Lacerda Krenak nasceu na década de 1950 na região do Vale do Rio Doce em Minas Gerais, no território do povo que carrega no nome e onde a mineração continua de modo incisivo até hoje. Ativista, escritor, pensador e um dos líderes mais renomados dos povos indígenas no Brasil, tem esse ano pela Companhia das Letras outro livro publicado, chamado “Ideias Para Adiar o Fim do Mundo”. Em formato pequeno (pocket) e com apenas 88 páginas, o trabalho se destaca pela força inversamente proporcional ao tamanho. Emprestando o nome do título de uma palestra proferida em uma universidade portuguesa em março desse ano, se baseia ainda em outra palestra e uma entrevista, ambas efetuadas em Lisboa no ano de 2017. Naquilo que apresenta e se propõe a discutir, Krenak cumpre o objetivo de fazer o leitor pensar, se indagar e questionar não somente os caminhos do mundo, mas os próprios passos. Em determinado momento pergunta no texto: “Somos mesmo uma humanidade?” E aí? Será que somos mesmo? Difícil acreditar nisso depois de passar um dia lendo as notícias atuais. Conversando sobre passado, presente e futuro, “Ideais Para Adiar o Fim do Mundo” é uma obra que ganha ainda mais força depois dos absurdos e posicionamentos cometidos pelos atuais mandatários da nossa nação e se torna um convite para que possamos contar mais uma história, sermos mais conscientes, nos posicionar a favor da natureza e adiar assim a cada dia - um pouco mais que seja - o fim.

Nota: 8,5

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Quadrinhos: "Nori e Eu", "Na Quebrada - Quadrinhos de Hip Hop", "O Fio do Vento" e "Punk Rock Jesus"

 

Masanori Ninomiya hoje com 33 anos foi diagnosticado quando criança com características de espectro autista. Não se expressava com palavras, mas encontrou no desenho uma maneira de absorver o que acontecia ao seu redor. Em “Nori e Eu”, ele conta essa história junto com a mãe Sônia Ninomiya, professora aposentada de literatura e cultura japonesa. Sob supervisão e edição de arte do Caeto, o trabalho em preto e branco escrito a quatro mãos têm 92 páginas e publicação esse ano da editora WMF Martins Fontes. O álbum é um retrato de luta e amor incondicional entre mãe e filho que a cada conquista faz o leitor vibrar junto. Da busca pela identificação maior da sua situação, passando pela convivência na escola e chegando em processos claros de evolução como sair sozinho e se expressar de modo claro, temos uma história que além de bastante inspiradora é extremamente bonita e forte.

Nota: 7,5

Existem iniciativas que só pela temática e concepção já merecem destaque. Se isso for aliado a material de qualidade, essa iniciativa ganha amplitude e se estende além desse destaque inicial. É o caso de “Na Quebrada – Quadrinhos de Hip Hop” da editora Draco com 184 páginas publicada esse ano. É uma coletânea de oito histórias organizada pelo versátil Raphael Fernandes (que também assina um dos roteiros) versando diretamente (mas não somente) para o público amante do rap e do hip-hop e para os moradores das periferias do país. A obra usa o cotidiano como inspiração sem esquecer de adicionar como pano de fundo o preconceito e a falta de oportunidade que andam do lado desse cotidiano. “Sampleador”, “Meu corpo, minhas regras” e “Um conto de duas cidades” exibem uma carga maior de intensidade, enquanto “O rei do groove” do Guabiras fecha a obra em alto estilo e (muito) bom som.

Nota: 8,0

A chegada de um novo trabalho do Camilo Solano é motivo para comemoração. O autor de “Desengano” e “Semilunar” é dono de uma das vozes mais interessantes do quadrinho nacional e em “Fio do Vento” - publicação de 2019 da editora Veneta com 100 páginas – isso se reafirma. Nas duas histórias que se entrelaçam cuidadosamente na trama e abrem espaço para que outras sejam contadas paralelamente, Solano faz o leitor ir com calma e até voltar para ler de novo. Os personagens carregam aquela diretriz que apesar das porradas da vida e dos caminhos escolhidos, ainda se deve ter alguma vontade de ir em frente nem que seja para um mísero alívio qualquer. Um desses personagens quando fala que está esgotado apesar do ano ter apenas começado ou vê que a vida passou e não andou como desejava rende momentos brilhantes apoiados sempre no traço vigoroso e expressivo do artista.

Nota: 8,5

“Punk Rock Jesus” foi escrita e desenhada pelo Sean Gordon Murphy que recentemente fez a ótima “Batman: Cavaleiro Branco”. Originalmente publicada nos EUA em 6 edições dentro do hoje extinto selo Vertigo da DC Comics entre 2012 e 2013, a série ganhou uma especialíssima edição de luxo pela Panini Books no ano passado com 364 páginas, onde mais de cem são esboços e excelentes considerações do autor sobre os rumos e decisões que tomou na trama. Abordando uma temática bem espinhosa conversa com voracidade com os dias atuais por mais absurdo que as premissas possam parecer logo de entrada. Com uma arte feroz e provocativa o texto ataca religião, conservadorismo e a manipulação da mídia para afirmar narrativas mentirosas (lembra algo?) enquanto apresenta um jovem tentando entender o seu verdadeiro lugar no mundo. Fácil uma das melhores obras dos anos 2000, “Punk Rock Jesus” é para se ter na estante.

Nota: 10,0




sexta-feira, 5 de julho de 2019

Cinema: Divino Amor

Baseado nos últimos quatro anos do cenário político, econômico e social brasileiro alguns futuros se apresentam como possíveis, sendo que nenhum deles é muito animador. Não se trata de pessimismo ou terrorismo precoce, mas a verdade é que nossa nação retrocedeu demasiadamente nesse período, mesmo considerando as situações propícias para tanto. Desses futuros um dos que mais assusta é a implantação de um governo baseado e ancorado em doutrinas religiosas acima de tudo e de todos. Inclusive do próprio Deus.

É nesse cenário que o diretor pernambucano Gabriel Mascaro mergulha em “Divino Amor” que estreou recentemente nos cinemas. Ambientado em 2027 apresenta um país na beira do fundamentalismo e que não recebe em cena quaisquer sinais de revoluções ou insatisfações tão inerentes nesse estilo de ficção. Quando esses sinais aparecem são mais por conta da burocracia extremada para servir aos interesses do governo (retratada de modo excelente em uma cena de um arquivo de pastas), do que por reclamações do estilo de vida.

A protagonista é Dira Paes, que vive Joana, uma funcionária de Cartório que atende a casais querendo se divorciar. Como acredita fielmente no governo e suas crenças (para ela não se trata de distopia e sim de utopia), ela usa de todos os artifícios para interferir na vida desses casais, dando opiniões e colocando empecilhos mil para que eles não se divorciem. E se vangloria para tudo e todos quando consegue “salvar” algum casamento que na maioria das vezes recebe o auxílio da igreja que dá nome ao filme e frequenta com o marido Danilo (Júlio Machado).

Narrado em off por uma voz de criança quase robótica, “Divino Amor” mostra sinais da intervenção do estado na vida pessoal como na cena da praia onde as mulheres estão cobertas e os homens de sunga, na maneira que fala dos “desgarrados” ou nos scanners espalhados nas entradas de lojas e repartições. Exibe alguns alívios cômicos que usam da sátira como o Drive-Thru de oração comandado por um pastor interpretado por Emílio de Mello, a festa do Amor Supremo - uma espécie de rave nacionalista religiosa que substitui o carnaval - ou nas práticas para lá de peculiares da igreja frequentada por Joana.

Gabriel Mascaro traz do seu filme anterior (“Boi Neon” de 2015) as cores, luzes, estilo sonoro e o sexo como força representativa da trama, além da exploração individual de pequenas características dos personagens. Com uma atuação brilhante de Dira Paes tem na fotografia de Diego Garcia e na direção de arte de Thales Junqueira, outros fortíssimos pontos técnicos. Por não ser um filme longo, algumas situações apresentadas que poderiam ser mais discutidas acabam ficando meio no ar, contudo isso não afeta o resultado.

“Divino Amor” é um filme que pode ser interpretado de diversas maneiras, partindo simplesmente da distopia apresentada que é plenamente possível – onde até os absurdos geram risadas meio tensas - ou indo para discussões sobre individualismo, mística e o uso da religião como força de coação dos pobres e vulneráveis para o ganho de poucos. Mas, sobretudo, expõe brilhantemente que em um sistema fascista por mais devoto que você seja, basta um pequeno erro ou desentendimento para que esse sistema se volte contra você e o esmague. Simples assim.

Nota: 9,0