sexta-feira, 5 de julho de 2019

Cinema: Divino Amor

Baseado nos últimos quatro anos do cenário político, econômico e social brasileiro alguns futuros se apresentam como possíveis, sendo que nenhum deles é muito animador. Não se trata de pessimismo ou terrorismo precoce, mas a verdade é que nossa nação retrocedeu demasiadamente nesse período, mesmo considerando as situações propícias para tanto. Desses futuros um dos que mais assusta é a implantação de um governo baseado e ancorado em doutrinas religiosas acima de tudo e de todos. Inclusive do próprio Deus.

É nesse cenário que o diretor pernambucano Gabriel Mascaro mergulha em “Divino Amor” que estreou recentemente nos cinemas. Ambientado em 2027 apresenta um país na beira do fundamentalismo e que não recebe em cena quaisquer sinais de revoluções ou insatisfações tão inerentes nesse estilo de ficção. Quando esses sinais aparecem são mais por conta da burocracia extremada para servir aos interesses do governo (retratada de modo excelente em uma cena de um arquivo de pastas), do que por reclamações do estilo de vida.

A protagonista é Dira Paes, que vive Joana, uma funcionária de Cartório que atende a casais querendo se divorciar. Como acredita fielmente no governo e suas crenças (para ela não se trata de distopia e sim de utopia), ela usa de todos os artifícios para interferir na vida desses casais, dando opiniões e colocando empecilhos mil para que eles não se divorciem. E se vangloria para tudo e todos quando consegue “salvar” algum casamento que na maioria das vezes recebe o auxílio da igreja que dá nome ao filme e frequenta com o marido Danilo (Júlio Machado).

Narrado em off por uma voz de criança quase robótica, “Divino Amor” mostra sinais da intervenção do estado na vida pessoal como na cena da praia onde as mulheres estão cobertas e os homens de sunga, na maneira que fala dos “desgarrados” ou nos scanners espalhados nas entradas de lojas e repartições. Exibe alguns alívios cômicos que usam da sátira como o Drive-Thru de oração comandado por um pastor interpretado por Emílio de Mello, a festa do Amor Supremo - uma espécie de rave nacionalista religiosa que substitui o carnaval - ou nas práticas para lá de peculiares da igreja frequentada por Joana.

Gabriel Mascaro traz do seu filme anterior (“Boi Neon” de 2015) as cores, luzes, estilo sonoro e o sexo como força representativa da trama, além da exploração individual de pequenas características dos personagens. Com uma atuação brilhante de Dira Paes tem na fotografia de Diego Garcia e na direção de arte de Thales Junqueira, outros fortíssimos pontos técnicos. Por não ser um filme longo, algumas situações apresentadas que poderiam ser mais discutidas acabam ficando meio no ar, contudo isso não afeta o resultado.

“Divino Amor” é um filme que pode ser interpretado de diversas maneiras, partindo simplesmente da distopia apresentada que é plenamente possível – onde até os absurdos geram risadas meio tensas - ou indo para discussões sobre individualismo, mística e o uso da religião como força de coação dos pobres e vulneráveis para o ganho de poucos. Mas, sobretudo, expõe brilhantemente que em um sistema fascista por mais devoto que você seja, basta um pequeno erro ou desentendimento para que esse sistema se volte contra você e o esmague. Simples assim.

Nota: 9,0

sábado, 22 de junho de 2019

Música: Telekinesis, Idlewild e Bad Religion


O Telekinesis é um projeto do músico e compositor Michael Benjamin Lerner que desde 2011 é conduzido individualmente por ele assumindo todos os instrumentos e vocais. Em fevereiro deste ano tivemos o lançamento do quinto disco chamado “Effluxion” com 10 músicas em 31 minutos, distribuído pela Merge Records com gravação e mixagem do próprio Lerner e masterização de Jeff Lipton (Magnetic Fields). É um trabalho com muita unidade que se aproxima do “12 Desperate Straight Lines” de 2011 e se distancia da inconstância de “Dormarion” de 2013 e dos timbres eletrônicos de “Ad Infinitum” de 2015, registros antecessores bem medianos. O álbum começa com violões, uma bonita melodia e letra com toques de desesperança da faixa-título e vai até o pop espacial de “Out For Blood” com teclados no comando e leves considerações sobre se encontrar e sobre o tempo. No meio disso temos diminutas joias como a cantarolável “Cut The Quick”, a doce “Running Like A River” e a viciante “Suburban Streetlight Drunk”. Mesclando indie pop e powerpop, o Telekinesis tem em “Effluxion” provavelmente o melhor álbum da carreira.


Nota: 7,0



O último álbum de estúdio da banda escocesa Idlewild foi em 2015 (“Everything Ever Written”). “Interview Music” vem suprir essa ausência de alguns anos com 13 músicas em 52 minutos e conta com mixagem e produção do competente Dave Eringa que esteve por trás do ótimo “The Remote Part” de 2002. O Idlewild é uma daquelas raras bandas que dificilmente decepciona e novamente essa premissa se repete. Rod Jones (guitarra) e Roddy Woomble (vocal e letras) estão entre os melhores da sua geração e logo em “Dream Variations” que abre o disco com a participação classuda de Laura Burheenn isso fica evidente. A melodia, os vocais, a simplicidade do instrumental funcionando em torno da canção e a mudança de andamento são marcas bem características do grupo. Destaques maiores para a mais dançante “There’s a Place For Everything”, o indie rock de “Same Things Twice” e a bela “Lake Martinez” que encerra a experiência. Mesmo caindo um pouco de qualidade na segunda metade, “Interview Music” é para ser ouvido sem dosagem, um registro que faz bonito na discografia da banda.


Nota: 7,0




Vivemos tempos preocupantes, muito preocupantes. Nos EUA, no Brasil e em parte relevante do mundo as coisas caminham de maneira sombria. Alguns músicos como sempre buscam se posicionar, se opor a esses fatos e retratar esses tempos. E o punk, na sua essência mais pura e clara, apresenta isso através do Bad Religion e seu “Age Of Unreason”, lançado esse ano com 14 faixas pela Epitah Records. Uma banda punk de verdade que honra a história e o estilo e que depois de tantos e tantos anos ainda soa (muito) relevante. “My Sanity” (uma das músicas da temporada) e “Lose You Head” são perfeitas para quem está na corda bamba todo dia com notícias ruins e comentários nefastos invadindo a mente, “The Approach”, “Old Regime” e “Downfall” são excelentes e “Chaos From Within” e “Do The Paranoid Style” é para escutar em volume altíssimo. Com ótimas baterias de Jamie Miller, o trio de fundadores Jay Bentley, Brett Gurewitz e Greg Graffin lideram os outros dois guitarristas em um trabalho poderosíssimo que não pode de forma alguma ser desassociado das letras.

Nota: 9,0

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Literatura: “Valsa Brasileira: Do Boom ao Caos Econômico” - Laura Carvalho



“Como a economia de um país continental evoluiu, em apenas sete anos, da euforia de um cenário de crescimento bem acima da média das últimas décadas, com vigorosa geração de empregos formais e alguma redução das desigualdades, para uma das maiores crises de sua história?”

O questionamento acima está no início de “Valsa Brasileira: Do Boom ao Caos Econômico”, primeiro livro da Laura Carvalho, doutora em economia pela New School for Social Research e professora da USP. Publicação da Todavia Livros de 2018 com 192 páginas tenta não somente responder a essa primeira pergunta, como também elucidar para o leitor os anos da nossa economia do final do segundo governo FHC até o governo de Michel Temer.

A autora divide a parte principal em três pontos: 1) O Milagrinho Brasileiro, onde versa sobre esse final do FHC e os ótimos anos de Lula como presidente, 2) A Agenda Fiesp, sobre os primeiros quatro anos de Dilma Rousseff e 3) A Panaceia Fiscal, tratando do segundo governo da presidenta Dilma interrompido pela palhaçada do impeachment e a transição para o governo Temer. Nos capítulos “Acertando os Passos” e “Dançando com o Diabo” traz considerações, reflexões e possíveis caminhos para o futuro.

“Valsa Brasileira” é um livro importantíssimo para expor e explicar os fatos que levaram a (provavelmente) pior crise econômica que atravessamos (e ainda não saímos). Com foco na parte econômica, mas sem deixar de levar em consideração toda política, como também a influência de alguns setores poderosos nas tomadas de decisões, Laura Carvalho coloca de modo didático e da maneira mais simples possível suas colocações, estendidas ainda em mais de 120 notas de rodapé, tão interessantes quanto o texto principal.

Passa pelo grande avanço que o país obteve na década passada ancorado na alta dos preços das commodities exportadas (petróleo, minério e soja), mas não somente por isso. A política econômica do governo Lula distribuiu renda na base da pirâmide (via o Programa Bolsa Família, por exemplo, que em 2010 atendia a mais de 12 milhões), proporcionou mais acesso a crédito, valorizou o salário mínimo e aumentou consideravelmente os investimentos públicos em infraestrutura tanto física quanto social (que em contrapartida estimularam investimentos privados). A redução da pobreza e da desigualdade de renda mudaram o padrão de consumo da sociedade, com a inclusão de uma parcela significativa da população nesse mercado.

O ciclo de alta das commodities encerrou em 2011 contribuindo para a trágica performance da economia nacional nessa década, junto com uma instabilidade política apavorante e medidas do governo de Dilma Rousseff que para a autora se provaram desastrosas como a contenção de investimentos públicos, desvalorização da moeda, redução da taxa de juros, dezenas e estapafúrdias desonerações tributárias e o BNDES expandido em demasia agindo como ator principal. Foram decisões que cumpriram exigências das elites empresariais e financeiras e pioraram a situação mais e mais (elites que depois tiraram a presidenta do poder de modo circense e patético para capturarem de novo o país).

O descrito no parágrafo acima aumentou de modo alarmante com o advento do governo Temer – e depois a extensão calamitosa para o atual mandatário da nação –  criando o que a autora chama de “hipocrisia fiscal” onde tivemos vendas de ilusões, mentiras institucionais, punição direta das classes mais baixas que estão novamente sufocadas e a aprovação de legislações sem reflexo permanente para o processo de retomada, deixando o país ainda patinando e caindo. Uma crise não tem causa única e é preciso rever o que deu errado até aqui, mas isso não parece ser do interesse de quem comanda, já que os ricos estão mais ricos e os remédios mágicos que vivem alardeando nos seus planos não trazem quaisquer resultados.

Em determinada passagem no final do livro Laura Carvalho fala que “a política de desenvolvimento produtivo, assim como todos os demais elementos da política econômica, não deve ser moldada pelo interesse de grupos econômicos específicos, e sim por uma análise dos benefícios gerados para o conjunto da sociedade”. Nada mais justo e verdadeiro e que deveria ser o sustentáculo inviolável de todo governo e seus órgãos, contudo, tirando alguns anos da nossa história isso foi feito de modo esporádico e excepcional. E sofremos por isso.

Nota: 9,5

domingo, 12 de maio de 2019

Literatura: "Os Salgueiros" e “The Underground Railroad – Os Caminhos Para a Liberdade”


Dois amigos se aventuram pelo extenso Rio Danúbio em uma pequena embarcação apreciando as paisagens e conhecendo novos lugares num ritmo lento e tranquilo de aventura. Ao atracar para passar a noite em uma ilha pequena afastada de tudo o cenário passa a mudar e pequenas coisas vão acontecendo aqui e ali lentamente o que leva os dois perceberem (ainda que de modo relutante em certos momentos) que não estão sozinhos como imaginavam, existe alguém ou algo circundando temerosamente ao redor. Esse é mote de “Os Salgueiros” (The Willows, no original), obra clássica do britânico Algernon Blackwood (1869 - 1951) publicada pela primeira vez em 1907 e que H.P Lovecraft considerou como “a melhor weird story que já lera”. A editora Empíreo fez uma cuidadosa edição nacional bilíngue e ilustrada que passou por um processo de financiamento coletivo e saiu esse ano com capa dura, 152 páginas e tradução conjunta de Stefano Danin e Anna Civolani. Com um texto elegante o autor insere gradativamente o medo, um medo que não tem forma, não se exibe, não se apresenta para que o leitor possa ter um alvo a quem destinar o foco. É um medo do desconhecido que aparece sem explicação podendo tanto ser uma pessoa, um animal, um alienígena ou forças sobrenaturais que não se tem a mínima ideia do que sejam. A escolha dos salgueiros na paisagem natural tanto do caminho navegado quanto na própria ilha aumenta ainda mais a sensação desse pânico silenciado explorado habilmente pelo autor.

Nota: 7,5



“The Underground Railroad – Os Caminhos Para a Liberdade” é o livro que deu ao escritor Colson Whitehead o consagrado prêmio Pulitzer de 2017. Publicado nos EUA em 2016 ganhou edição nacional pela Harper Collins Brasil no ano seguinte com 320 páginas e tradução de Caroline Chang. Ambientado no século XIX assume ao pé-da-letra a história da “ferrovia subterrânea” - uma rede constituída por brancos e negros livres que ajudava escravos que fugiam a migrar para as terras livres do país ao norte – e cria nas páginas efetivamente uma estrada com trilhos funcionando debaixo da terra. Usando a jovem Cora como protagonista, nascida escrava em uma fazenda de algodão, onde sua mãe também era escrava, assim como a avó, o autor traça uma narrativa muito bem escrita de um período histórico para lá de sombrio. Withehead que esteve no Brasil para a Flip do ano passado constrói uma trama que ao cortar os estados americanos provoca sentimentos diversos ao leitor tais como a raiva pelos atos cometidos e a emoção pelas parcas vitórias conseguidas. É uma constante ficar inquieto na leitura, largar um pouco as páginas para respirar ao mesmo tempo em que se envolve mais e mais com os personagens. Passagens como a estadia de Cora trabalhando em um museu enquanto tem um pequeno alívio na fuga ao caçador de recompensas no seu encalço, como também o final apresentado exibem situações (ainda mais) revoltantes, situações que se olharmos com precisão infelizmente não estão tão distantes assim dos nossos dias.

Nota: 8,5

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Quadrinhos: "Frankestein 200", “Capitã Marvel: Mais Alto, Mais Longe, Mais Rápido e Mais", "Escapo" e “Vagabundos no Espaço – Volume Um”


Usando a obra-prima escrita por Mary Shelley e publicada originalmente em 1818, um grupo de quadrinistas se uniu para fazer um trabalho com seis histórias que tomam por base esses escritos e exploram essa base além. Organizada por Jorge de Barros, Alex Mir e Hector Lima, “Frankestein 200” passou por campanha de financiamento coletivo no final de 2018 e no início desse ano saiu pela editora Clepsidra em edição luxuosa de formato grande (29,7cm), capa dura e 108 páginas em preto e branco com arte de capa de João Pirolla. Nas histórias que compõe a obra três merecem destaques: “Jurupari” de Ana Fiori (roteiro) e Alex Genaro (arte), “A Noiva de Shelley” de Hector Lima (roteiro) e Gio Guimarães (arte) e “Francis” de Lexy Soares (roteiro) e Ton Albuquerque (arte). Apesar do resultado inconstante com histórias bem boas e outras nem tanto, “Frankestein 200” é iniciativa agradável, principalmente para fãs de terror/horror.

Nota: 6,0

“Capitã Marvel: Mais Alto, Mais Longe, Mais Rápido e Mais” aproveita o sucesso obtido pelo filme e a obtenção de grande quantidade de novo público. Com 136 páginas, capa dura, roteiro de Kelly Sue DeConnick e arte de David Lopez, a Panini Comics publica uma trama balanceada entre o humor e a força da personagem enquanto heroína e dona do próprio nariz. A arte apenas funcional não produz maiores efeitos, mas conta com cores bem utilizadas. Essa publicação resgata uma fase que saiu nos EUA em 2014 e apresenta Carol Danvers equilibrando vida pessoal, amor e as questões de heroína com o desejo de querer mais. Por conta disso vai para o espaço onde se envolve em uma trama libertadora para vários envolvidos. Com a participação incisiva dos Guardiões da Galáxia, todo seu poder é demonstrado nessa história divertida e emocionante que fica bem longe de ser banal ou piegas.

Nota: 7,0


“Escapo” é uma publicação da editora Mino de março desse ano. A obra do quadrinista americano Paul Pope foi lançada originalmente em 1999, com histórias concebidas entre 1996 e 1998. Elaborada em várias cidades mostra o autor de “Batman: Ano 100” na busca por um caminho na sua arte enquanto mistura o tradicional com o experimental. O protagonista é um artista circense que se livra das mais improváveis situações e perigos, mas vive atormentado e deslocado no meio de tudo. Com capa dura, em preto e branco, 96 páginas e tradução de Dandara Palankof, “Escapo” nasceu no meio de um turbilhão de sentimentos que inundavam o coração e a mente do autor na época e que se confundem diretamente com as do personagem que se ilude no amor, tem um encontro vívido com a morte, se questiona sobre a estrada que segue e busca uma nova definição de futuro enquanto vai adiante.

Nota: 7,0


Seres desajustados e esquisitos em uma mistura de aventura, espaço sideral, acidez, crítica comportamental e humor. Só isso já seria interessante, mas adicione que é uma história criada, escrita e desenhada pelo Raphael Salimena de “Na Linha do Trem” e temos algo interessante e mais ainda. Com lançamento no final de 2018 pela editora Draco com 104 páginas, “Vagabundos no Espaço – Volume Um” reúne a parte inicial do trabalho que o autor publica online desde 2015. Zix é um adulto que não faz nada da vida a não ser jogar videogame, comer (muita) besteira e ter um conhecimento absurdo de cultura inútil. Justamente por conta disso acaba selecionado para estrelar um reality show interplanetário, onde conhece os improváveis Margo e Soha. Às vezes usando uma arte exagerada para espelhar as maluquices e absurdos, cerca estas de realidade na essência o que diverte e assusta por conta dos rumos que a sociedade atual opta.

Twitter do autor:  https://twitter.com/linhadotrem 

Nota: 8,0




domingo, 14 de abril de 2019

“Captain Fantastic – A Espetacular Trajetória de Elton John nos Anos 70” - Tom Doyle


“Your Song”, “Tiny Dancer”, “Rocket Man”, “Mona Lisas And Mad Hatters”, “Bennie And The Jets”, “Goodbye Yellow Brick Road”, Don’t Let The Sun Go Down On Me”, “Bitter Fingers”, “Someone Saved My Life Tonight”. Essas são só algumas das canções que Elton John compôs nos anos 70, sendo a maioria ao lado do parceiro Bernie Taupin. Sem dúvida a década foi o momento mais brilhante do artista que por meio de canções como essas gravou discos excepcionais.

A fase contida nesses anos virou livro e teve publicação nacional no ano passado em edição da editora Benvirá com 320 páginas e tradução de Irenêo Baptista Netto. “Captain Fantastic – A Espetacular Trajetória de Elton John nos Anos 70” (Captain Fantastic – Elton John’s Stellar Trip Trough The ´70s, no original) é escrito por Tom Doyle e foi desenvolvido e forjado depois de uma série de entrevistas realizadas para uma matéria na revista Mojo sobre o referido período.

Foram anos loucos e esplêndidos regados com inseguranças, afirmações, criatividade e excessos. Reginald Dwight era um garoto prodígio tímido e gordinho, fascinado pelo rock de nomes como Jerry Lee Lewis e Little Richard e ouvinte voraz das coisas ao redor. Com início periclitante pensou em desistir de tudo, mas as coisas mudaram na excursão aos EUA em 1970. Então com 23 anos (re)nasceu para a vida artística em shows antológicos no palco do lendário Troubadour.

O músico administrava a constante briga da personalidade introvertida com aquela extremamente oposta que exibia nos palcos e que fazia com que a música parecesse suprimida, jogada para segundo plano em detrimento do espetáculo. Todo o caminho até virar um popstar é narrado por Tom Doyle de maneira calma, mas sem deixar de ser incisivo. Um retrato de um outro mundo onde um show importava, uma resenha positiva tinha peso e a rádio tinha as gravadoras atuando fortemente na divulgação.

De 1970 a 1976 ele colocou 7 discos consecutivos no topo das paradas americanas e 14 singles entre os 10 mais. Foi musicalmente influente no mesmo patamar de nomes como Led Zeppelin, Rolling Stones e David Bowie. Depois do álbum duplo “Captain Fantastic And The Dirty Brown” de 1975 as coisas começaram a degringolar e do alto em que se encontrava a queda foi considerável. Devorado pela cocaína e pelo excesso de trabalho uma crise emocional se instaurou e até a parceria com Taupin teve ruptura. Discos bem mais fracos vieram (como “Victim Of Love”).

A associação com Bernie Taupin é um dos vários pontos emblemáticos nessa história toda. A maneira como ele aparece na vida do músico é coisa do destino. Daquelas coisas maravilhosas do destino. Outro ponto fascinante são os encontros narrados com figuras como John Lennon, Neil Diamond, Leon Russell, Brian Wilson, Iggy Pop, Groucho Marx e Rod Stewart. O de Lennon é um caso a parte em 1974 antes de tocarem juntos no Madison Square Garden em Nova York.

No meio dos questionamentos constantes que martelavam sua mente, Elton John passou por um processo imenso de afirmação, não só da própria capacidade técnica em menor instância, mas principalmente da questão pessoal com a sexualidade vindo finalmente à tona em relacionamentos complexos e protetores. E durante esse percurso que resultou em conquistas gigantescas e fracassos retumbantes deixou músicas boas, músicas realmente muito, muito boas.

Nota: 8,5

Aqui uma playlist com 37 canções e quase três horas dessa frutífera década:



quarta-feira, 27 de março de 2019

Quadrinhos: "Crossed - Volume 1: A Primeira Vez", "Vazio", “Astro City – Volume 11: Vidas Privadas" e "Luzes de Niterói"


“Crossed – Volume 1: A Primeira Vez” que a Panini publica em 2019 com 256 páginas e capa dura, traz as dez primeiras edições comandadas pelos criadores Garth Ennis e Jacen Burrows (que depois deixaram a série). Lançada nos EUA entre 2009 e 2010 pela Avatar Press mostra um Garth Ennis forçando os limites que explorou em obras-primas como “Preacher” e “The Boys”. O autor libera as poucas amarras que ainda exibia para contar a história de um mundo onde uma praga ou vírus desconhecido se espalhou transformando a população em uma espécie de zumbis com inteligência, ainda que básica. Chamados de cruzados distribuem atrocidades e mais atrocidades enquanto o mundo definha e um pequeno grupo tenta sobreviver. A arte limpa de Burrows ressalta ainda mais as insanidades do roteiro e faz de “Crossed” um trabalho que mostra a verve de Ennis, mas acaba parecendo gratuita demais no que almeja contar.

Nota: 5,0


A vida deixou de fazer sentido. Todo dia é uma batalha já perdida onde o único momento de alívio é o álcool, companheiro constante nessa ladeira que cada vez é descida com mais e mais velocidade. É nesse ponto que encontramos o protagonista de “Vazio”, obra do quadrinista João Vitor Palermo (de “Solidão”) que foi impressa no final do ano passado. Viabilizada por financiamento coletivo e com posterior impressão da AVEC Editora com 96 páginas, a arte é em preto e branco e não há texto que é justamente para realçar o duro momento que o personagem passa. Se arremessando com afinco na direção do próprio aniquilamento, aos poucos é apresentado o motivo que provocou tudo, um motivo extremamente pesado que o assombra até por alucinações do meio para o final. “Vazio” discorre sobre depressão, auto-destruição, dor, erros, culpa e sobre a importância de tentar seguir em frente apesar de tudo.


Nota: 7,0


“Astro City” é uma estupenda série de quadrinhos. Concebida pelo trio Kurt Busiek (roteiro), Brent Anderson (arte) e Alex Ross (capas e concepção visual) desde 1995 encanta ao mostrar uma cidade onde heróis e vilões são rotineiros com seus poderes e trajes coloridos, fazendo parte do cotidiano das pessoas. É pela visão dessas pessoas normais que a série se constrói e se desenvolve a exemplo do que Busiek e Ross fizeram na clássica “Marvels”. Claro que brigas e cenas de ação estão presentes nas histórias em uma homenagem declarada e apaixonada a todo universo de supers e seus ícones, contudo o viés avança por outro lado. Desde 2015 a Panini Comics publica ela por aqui e em 2019 outro volume chega às bancas com 180 páginas que reúne edições lançadas em 2014 nos EUA. “Astro City – Volume 11: Vidas Privadas” é coisa fina e mais uma etapa desse processo de encantamento.

Nota: 8,0


Marcello Quintanilha fabricou obras do porte de “Tungstênio”, “Talco de Vidro” e “Hinário Nacional” o que o coloca como um dos nomes mais importantes dos quadrinhos nacionais, reconhecido por prêmios e mais prêmios (internacionais, inclusive). Essas obras ganham esse ano uma ilustre companhia chamada “Luzes de Niterói”, parcialmente financiado coletivamente no final de 2018 pela Editora Veneta que publica o trabalho com capa dura e 232 páginas. O autor volta para a cidade de Niterói onde cresceu e ambienta a história nos anos 50 em um Rio de Janeiro (e um país) que parece que ficou para trás há mais tempo. Focado em dois amigos conta uma história sobre amizade acima de tudo, mas que no meio tem momentos de tensão, aventura, raiva e amadurecimento misturando futebol, pescadores, família e responsabilidades com arte e roteiro casados perfeitamente que fazem o leitor mergulhar de cabeça nesse outro gol de placa do autor.


Nota: 9,0




quinta-feira, 21 de março de 2019

Quadrinhos: "Últimos Deuses", "Adagio", "Gideon Falls - Volume 1: O Celeiro Negro” e "Bone 1 - O Vale ou Equinócio Vernal"


Com campanha de financiamento coletivo na viabilização, “Últimos Deuses” foi publicado em 2018 de maneira independente, com roteiro e letras de Eric Peleias (de “Até o Fim”) e Hiro Kawarara (de “O Bestiário Particular de Parzifal”) na arte e cores. Os dois conduzem bem o trabalho, com destaque maior para os planos e soluções visuais desenvolvidos por Hiro. A trama tem como alicerce deuses antigos que já não são o que eram e se encontram sozinhos, enfraquecidos e passando por perrengues que nunca imaginariam. Alguns deles insatisfeitos com isso embarcam em uma missão nada nobre de acordar uma forte divindade que lhes promete devolver o brilho de outrora, desde que lhe deem a chance de se vingar de Odin. Mesmo que a premissa de deuses perdendo divindade não seja tão original assim, a dupla criadora narra uma boa aventura em quadrinhos com ação e alguns questionamentos, indicando uma possível sequência no final.

Nota: 6,0

Instagram dos autores:


Lançado em dezembro de 2018 na CCXP, “Adagio” do Felipe Cagno (de “The Few And Cursed”) tem 112 páginas em papel couché. A obra teve campanha de financiamento coletivo, publicação posterior pela AVEC Editora e foi incentivada pelo ProacSP. Com arte de Sara Prado e Bräo, cores da Natália Marques e letras de Deyvison Manes, o roteiro mergulha de cabeça na ficção científica em uma história que tem relevantes correlações com os caminhos que nossa sociedade vem trilhando. Os fatos são ambientados em 2067 onde uma rede social chamada Adagio toma conta do mundo. Nela, os usuários postam os sonhos e correm desesperadamente atrás de interações sendo esse o entretenimento quase absoluto dessa era. Kaya é uma das pessoas que buscam virar sucesso a qualquer custo, mas quando isso acontece não é bem como ela pensava. Conversando sobre solidão, futilidade social e vazio espiritual temos mais um ótimo trabalho nacional.

Nota: 8,0

Twitter do criador: https://twitter.com/Felipe_Cagno


Jeff Lemire é provavelmente o maior nome dos quadrinhos da atualidade, conseguindo se destacar tanto com heróis conhecidos como em trabalhos autorais. No Brasil, o autor aparece com frequência nos últimos anos (e isso é excelente), sendo que “Gideon Falls - Volume 1: O Celeiro Negro” é mais um exemplo disso. Sucesso nos EUA, o trabalho feito com Andrea Sorrentino na arte - repetindo a parceria que brilhou em “O Velho Logan” -  ainda conta com as cores do grande Dave Stewart. Com 160 páginas, capa dura e publicação em 2018 pela Editora Mino o trio apresenta uma trama de terror onde os fatos são apresentados sem muita pressa, dando ao leitor aquela sensação tensa de suspense sobre o que virá. Entrelaçando os destinos de um jovem com uma estranha mania e um padre que tem a derrota como fiel amiga, apresentam uma história envolvente que só tende a crescer mais.

P.S: O segundo volume será publicado pela Mino mês que vem.

Nota: 8,5



E lá vamos nós de novo e outra vez para mais um capítulo da saga de “Bone” no Brasil (e que ao que tudo indica parece ser o final feliz). A obra-prima do quadrinista Jeff Smith já foi publicada no Brasil pela Via Lettera e HQM Editora, mas nunca de maneira completa. Agora a casa nacional dos primos Fone, Phoney e Smile é a Todavia Livros que em 2018 lançou uma edição com as cores de Steve Hamaker e 448 páginas reunindo os 20 primeiros números da série que saíram nos EUA entre julho de 1991 e outubro de 1995. Vencedora de dezenas de prêmios importantes, “Bone” é o tipo de obra que agrada e emociona até mesmo quem não gosta de quadrinhos. A aventura dos primos no misterioso Vale é repleta de ação, humor variado, fantasia e tragicomédia enquanto apresenta personagens repletos de brilho e criaturas pra lá de exóticas. Obra imprescindível.

P.S: A Todavia lançará o restante da série em mais dois volumes.

Nota: 9,5





quinta-feira, 7 de março de 2019

Literatura: "Como As Democracias Morrem"


“Como as Democracias Morrem” (How Democracies Die, no original) foi publicado nos EUA em 2018 e ganhou edição nacional no mesmo ano por aqui através da Editora Zahar com 272 páginas, tradução de Renato Aguiar e prefácio de Jairo Nicolau, professor de Ciência Política da UFRJ. O livro virou best-seller rapidamente no exterior e foi uma das obras mais comentadas no Brasil desde que foi lançado. E não faltam motivos para isso.

Os autores são Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, pesquisadores e professores de Ciência Política na prestigiosa Universidade Harvard. No livro versam sobre o retorno do autoritarismo no mundo, que na visão deles está passando por uma recessão democrática. O olhar é mais voltado para os EUA, analisando historicamente a democracia no país, como também a sucessão de atos e decisões que tornaram possível a eleição de Donald Trump para Presidente, contudo, também se estendem a outros países tanto no passado quanto no presente.

A pesquisa da dupla para concepção da obra foi extremamente abrangente, baseada em mais de 800 referências espalhadas nas notas constantes nas últimas páginas. Demonstram detalhadamente que nos EUA as tradições que sustentam as instituições democráticas estão se desintegrando já há algum tempo e isso culminou no atual presidente que com as grades de proteção enfraquecidas chegou ao poder, o que certifica que a democracia americana não é mais tão forte como outrora se imaginava.

O texto invade o mundo com o olhar crítico e passa por governos recentes (de 90 em diante) como os de Alberto Fujimori no Peru, Hugo Chávez na Venezuela, Vladimir Putin na Rússia e Recep Erdogan na Turquia e para mais recentes ainda como os de Viktor Orbán na Hungria e Jaroslaw Kaczynski na Polônia. Mas também olham para casos antigos como Adolf Hitler na Alemanha e Benito Mussolini na Itália, correlacionando e amarrando as características comuns de todos eles.

Os autores apontam quatro caminhos de comportamentos autoritários que podem facilmente despencar para um governo ditatorial, a saber: rejeição das regras democráticas do jogo (ou compromisso débil com elas), negação da legitimidade dos oponentes políticos, tolerância ou encorajamento a violência e, propensão a restringir liberdades civis, de oponentes, inclusive a mídia. E aí? Percebe alguma semelhança com os tempos atuais no ar? Pois é, isso mesmo.

Fica límpido que não se precisa mais de golpes militares para arruinar uma democracia. Há outra maneira tão destrutiva quanto que é quando líderes eleitos subvertem em grande escala o poder e o sistema que os levou até lá, fazendo a democracia desaparecer – na maioria das vezes – devagarzinho, em etapas, utilizando os recursos descritos acima, entre outros. É assim que as democracias morrem hoje. A sua própria defesa é muitas vezes usada para essa deturpação de ideais e conceitos.

E quando há polarização o risco é sempre maior. A ideia de colocar um outsider para concorrer por conta de apoio popular no momento, com o intuito de controlá-lo depois de eleito é um verdadeiro tiro no pé. Acreditar que a retórica de campanha não será cumprida depois é um grave erro. Esse tipo de demagogo existe em todo país, contudo os demais líderes políticos percebem o que virá e tomam medidas para garantir que esses autoritários fiquem longe do poder. Se unem, apesar das diferenças, em um esforço orquestrado para derrotá-los, o que atualmente não vem sendo feito da maneira que se espera.

“Como as Democracias Morrem” é aquele livro que invariavelmente recebe as alcunhas de obrigatório e necessário e isso não poderia – nesse caso – estar mais correto. Em tempos em que as nuvens estão cada vez mais cinzas pairando sobre nossas cabeças e ideais nefastos circundam de conversas de bares a redes sociais, nada melhor do que ler um trabalho desse nível que serve como precioso alerta e constatação de que como diz o velho adágio, a cura para os males da democracia é mais democracia. Sempre.

Leia um trecho no site da editora: https://tinyurl.com/y9lbs985  

Nota: 10,0

segunda-feira, 4 de março de 2019

Literatura: "Ingresia" e "A Uruguaia"


Franciel Cruz nasceu na pequena Irecê na Bahia e ainda adolescente se mudou para Salvador onde virou torcedor apaixonado do Vitória e seguiu na sina de pecar e ficar do lado dos deserdados como ele mesmo diz. Com publicação da P55 Edição e viabilizado através de financiamento coletivo em 2018, “Ingresia” é o primeiro livro do jornalista e faz um compêndio de crônicas publicadas em jornais, revistas, redes sociais e blogs. Insere constantemente um humor cortante e muita ironia em textos que utilizam gírias regionais e palavrões e que frequentemente conversam diretamente com o leitor sobre música, carnaval, política, desigualdade econômica, exclusão social e segregação racial no estado que tanto ama e defende. Achincalhando tudo e todos (inclusive ele próprio) o autor apresenta um olhar revelador sobre a Bahia que, por conseguinte, podemos estender para o Brasil nos escritos mais acintosos e sérios. Entre causos, memórias e um punhado de história preenchendo o recheio atravessa da galhofa pura e mordaz para a acidez mais crítica sempre tratando o leitor como um parceiro de copo no meio de um boteco qualquer da primeira capital do país que trata visitantes da melhor e mais lúdica maneira enquanto destrata os habitantes locais por conta de cor, classe social ou local de moradia. Entre as mais de 90 crônicas espalhadas nas 260 páginas do livro algumas das mais interessantes são as que falam da música e do amor do autor por nomes como Luiz Gonzaga, Odair José, Gilberto Gil, Lazzo Matumbi e Belchior.

Siga o autor no Twitter: https://twitter.com/fsmcruz

Nota: 7,0


A crise da meia-idade masculina já foi explorada em várias obras na literatura e no cinema, é aquele momento em que a juventude definitivamente ficou para trás e a velhice começa a aparecer no horizonte, o que algumas vezes gera decisões estapafúrdias e irresponsáveis, para dizer o mínimo. É nesse momento da vida que está Lucas Pereyra, o protagonista de “A Uruguaia” (La Uruguaya, no original), romance que a Todavia Livros publicou aqui em 2018 com 128 páginas e tradução de Heloisa Jahn. Sucesso nos países de língua espanhola a obra do autor argentino Pedro Mairal absorve esse tema dando um verniz tragicômico a história. Em crise financeira, conjugal e até mesmo espiritual, Pereyra consegue depois de um bom tempo um adiantamento para dois novos livros. Por conta da situação econômica delicada da Argentina resolve sacar os dólares provenientes do contrato no vizinho Uruguai onde aproveita para rever uma bela mulher mais nova que entrou na sua vida em uma feira literária. Casado e com um filho criança cada decisão que surge na cabeça de Pereyra é um infeliz e burlesco erro que rende situações trágicas com um viés engraçado envolvido que apesar da gravidade da coisa torna-se permissível sucumbir as risadas. Com um protagonista que tende a não arrebatar maiores paixões pelas escolhas e alguns pensamentos, Pedro Mairal envolve o leitor nessa sequência de fatos que versam sobre o destino, a consequência dos atos de cada um e a interminável busca por uma insignificante dose de felicidade que seja.

Nota: 7,5