terça-feira, 31 de março de 2020

Literatura: "O Golpe" e "Lake Success"


Simon Riske vive do jeito que quer e bem entende em Londres. Faz trabalhos esporádicos para bancos, seguradoras e o governo recuperando itens e objetos roubados ou achando pessoas desaparecidas, trabalhos esses que lhe rendem uma grana bem boa no final. Oficialmente possui uma oficina mecânica onde trata da verdadeira paixão que são os carros. Tudo anda mais ou menos dentro dos conformes até que um agente norte-americano invade seu espaço e chega com uma proposta de trabalho para lá de arriscada: ir atrás de uma pasta roubada de maneira espetacular de um príncipe saudita em plena Paris. Ele não aceita o caso em um primeiro momento, entretanto quando vê que um antigo desafeto está envolvido nesse roubo, parte para a complicada caçada. “O Golpe” (The Take, no original) é uma publicação da editora Arqueiro de novembro de 2019 com 384 páginas e tradução de Marcelo Mendes. O livro do escritor Christopher Reich é um suspense de espionagem com boa quantidade de ação e algumas reviravoltas embutidas lá pelo meio. Situado principalmente em Londres, Paris e Marselha conta com várias traições e utiliza a política como motivadora dos fatos em uma trama conspiratória envolvendo Rússia, Arábia Saudita e EUA. É um thriller que mistura assaltos, perseguições e espiões na linha de grandes trabalhos do estilo, mas com um brilho bem menos intenso. Contudo esse brilho menos intenso não tira o prazer de uma leitura rápida e sem maiores atribulações para passar o tempo e nem desagrada aos fãs do estilo.

Nota: 6,0

Leia um trecho:


Ambientado nos EUA durante o fatídico ano de 2016 - o ano da eleição que levou Donald Trump a presidência - é que se desenvolve o romance mais recente do escritor Gary Shteyngart intitulado “Lake Success” que a editora Todavia publicou no Brasil em 2019 com 448 páginas e tradução do André Czarnobai. O fato de se passar durante 2016 e indo das desconfianças e receios das primárias até chegar a controversa vitória é importantíssimo na história e serve como um coadjuvante de destaque. O personagem principal é o narcisista, covarde, palerma e milionário Barry Cohen que administra um fundo multimercado perdendo de modo constante dinheiro de várias pessoas e sendo muito bem recompensado por isso. Acuado por denúncias, decisões profissionais equivocadas, com o FBI de olho, sem saber lidar com o filho pequeno que é autista e sem qualquer relação maior de afeto com a esposa, resolve infantilmente jogar tudo para cima e embarcar (quase) sem nada em um ônibus da empresa Greyhound para cruzar o país em uma busca nostálgica e sem sentido que serve para disfarçar o medo. No livro o EUA é um país que recompensa as piores (e mais imbecis) pessoas e uma sociedade onde os vilões têm mais chance de vencer. Usando de um humor bastante ácido e mordaz em busca de alguma redenção que seja, “Lake Success” narra essa história de egoísmo, abandono, superficialidade, impunidade e amor de maneira interessantíssima ainda que em determinadas partes a verborragia do protagonista quebre demais o ritmo.

Nota: 8,5

Assista ao hilário vídeo de divulgação com o autor e o Ben Stiller: 

domingo, 29 de março de 2020

Literatura: "Mulheres Empilhadas" e “Vozes de Tchernóbil - A História Oral do Desastre Nuclear”


Após ser agredida pelo namorado, uma jovem advogada paulista embarca para o Acre para acompanhar um mutirão de julgamentos de mulheres assassinadas naquele estado a pedido do escritório em que trabalha que está fazendo um estudo nesse sentido. Ao chegar para a missão e carregando dentro de si problemas pessoais tanto do presente quanto do passado se envolve no caso de assassinato de uma jovem indígena por três playboys da cidade e a partir disso as coisas entram em uma espiral gigantesca de acontecimentos que a levarão para caminhos outrora nunca imaginados. “Mulheres Empilhadas”, novo romance da escritora Patrícia Melo, usa o descrito anteriormente como ponto de partida, mas se estende por diversos prismas e por conta da maneira que isso é apresentado entra com méritos no rol dos melhores trabalhos da autora. Publicado em 2019 pela editora Leya com 240 páginas exibe uma narrativa dura e pesada com Patrícia assumindo uma postura potente e incisiva enquanto conversa sobre impunidade, hipocrisia, corrupção, feminicídio, direitos indígenas e questões de gênero. Questões essas que além de todas as desigualdades sociais e econômicas existentes no país, apresentam também uma clara constatação da facilidade com que as mulheres são mortas aqui. Como diz determinada parte do livro: “Não importa onde você esteja. Não importa sua classe social. Não importa sua profissão. É perigoso ser mulher.” Ainda mais em uma nação que nos últimos anos despreza isso de modo inconsequente e criminoso sem ações efetivas para mudar esse cenário descrito de forma avassaladora no livro.

Nota: 8,0




Existem livros em que seguir em frente é tarefa árdua, não por ser mal escrito ou tratar de um assunto irrelevante, mas sim por apresentar uma história tão implacável e dolorosa que é impossível ler com rapidez, sendo preciso parar e respirar com frequência depois de algumas páginas. É o caso do “Vozes de Tchernóbil - A História Oral do Desastre Nuclear” da vencedora do prêmio Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch, publicado em 2016 pela Companhia das Letras com 317 páginas e tradução de Sônia Branco quando completou 30 anos da catástrofe. A autora bielorussa levou 10 anos para concluir a obra que originalmente foi publicada em 1997 e optou por passar pelo fato em si e focar no universo em volta, nas histórias omitidas e na mudança drástica do cotidiano. São relatos de pessoas de diferentes profissões e classes para montar uma fotografia poderosa de uma guerra invisível contra um inimigo de aspecto completamente diferente e que eles não estavam preparados para enfrentar. Paralelamente traça um panorama político e social da época, enquanto aproveita para mostrar toda a inépcia, covardia e egoísmo do governo que escondia a verdade inundado com o medo de perder o poder e fazendo com que o povo sofresse muito e pagasse com a própria vida no decorrer dos anos. É um livro sobre memória, sobre lembranças, sobre pessoas que tiveram o medo ocupando o lugar do amor nos seus corações e que serve como lição para o momento em que passamos hoje no mundo.

Nota: 9,0

segunda-feira, 23 de março de 2020

Literatura: "Como a Democracia Chega Ao Fim" e “Barbed Wire Kisses – A História do Jesus And Mary Chain”


“Como a Democracia Chega Ao Fim” (How Democracy Ends) do escritor e professor de política da Universidade de Cambridge David Runciman foi publicado em 2018 nos USA e recebeu edição nacional no mesmo ano pela Todavia Livros com 272 páginas e tradução de Sergio Flaksman. Diferente de outros livros lançados no mesmo período, o tom do autor é levemente menos pessimista em relação aos abalos sísmicos que a democracia sofre nas mãos de indivíduos como Viktor Orbán na Hungria, Recep Erdogan na Turquia e Donald Trump nos EUA. Esse “otimismo” não é por crer nos nomes em questão, mas em outras amarras, conjunturas e cenários. Evidente que a obra foi provocada pela conturbada eleição no seu país, contudo estende-se plenamente para o restante do mundo (inclusive para nós). Na sua concepção a história não andaria para trás (mas não é o que estamos vendo) e os alvos focados como perigosos estão equivocados. A democracia só ruiria de vez por outros fatos como o mau uso da tecnologia ou uma possível calamidade. Lógico que quando escreveu o autor não imaginaria o atual cenário de pandemia e crise mundial que estamos atravessando, mas, mesmo assim com bastante fluidez ele deixa claro esboços provenientes disso. Das suas considerações, questionamentos e afirmações em meio a concordâncias e discordâncias que possamos ter, a mais importante talvez seja a colocação que a democracia pode entrar em falência mesmo permanecendo intacta na essência geral, disfarçada como tal. E em grande escala é o que presenciamos nesse momento.

Nota: 7,0


Em junho de 2019 os irmãos Reid desembarcaram no Brasil para mais um show em terras paulistas e na esteira disso a editora Sapopemba estreou no mercado com a publicação de “Barbed Wire Kisses – A História do Jesus And Mary Chain” da escritora (e baterista) escocesa Zoë Howe com 328 páginas, tradução de Letícia Lopes Ferreira e com direito a um prefácio exclusivo para a edição brasileira do baixista Douglas Hart, integrante da banda entre os anos de 1984 e 1991. Para quem é fã do som barulhento, melódico e repleto de microfonia da dupla escocesa que rendeu verdadeiras obras-primas como “Psychocandy” de 1985, “Darklands” de 1987 e “Stoned & Dethroned” de 1994 (e nenhum disco ruim na carreira, ressalte-se aqui), o livro é um prazer absoluto, daqueles que ao se ler um capítulo, volta para ler de novo. Desde adolescentes na pequena e sem futuro East Kilbride, cidade perto de Glascow, até os palcos do mundo todo passamos pelas (muitas e muitas) brigas, pela formação das ideias musicais, pelas (diversas) loucuras e bebedeiras, pela pancadaria dos shows do início que lhes deu fama, pela elaboração de uma arte feroz e doce ao mesmo tempo e por pouquíssimas concessões mercantis ao conduzir a carreira, o que soma-se ao extenso rol de coisas para se admirar desses dois esquisitões geniais. A autora ainda disponibiliza após o texto uma detalhada linha do tempo com várias notas para contextualização e a discografia completa com os créditos de cada gravação. Uma história e tanto.

Nota: 9,0

terça-feira, 17 de março de 2020

Quadrinhos: "Heróis Em Crise", "A Nova Califórnia", "Os Olhos de Barthô" e "Apanhadores de Sapos"

 

Tom King é hoje um dos melhores roteiristas das grandes editoras. São vários acertos na carreira: Batman, Senhor Milagre, Visão, O Xerife da Babilônia. Então quando ficou à frente de “Heróis em Crise”, a saga da DC publicada nos EUA entre novembro de 2018 e julho de 2019 que saiu aqui ano passado pela Panini Comics em 5 edições, a expectativa era boa, também por conta do argumento geral que reside em heróis e vilões sendo atendidos por uma “instituição” para tratar de estresse pós-traumático e depressão. No entanto, dessa vez Tom King errou e errou feio. Começa até bem nas duas primeiras revistas, mas o negócio desanda de tal maneira que além de confusa e mal alinhada, a trama força a barra mais do que o normal. A arte de Clay Mann é no máximo correta e não ajuda em nada o resultado que é para lá de decepcionante.

Nota: 2,0


Uma pequena e pacata cidade do interior onde as águas rodeiam e todos habitantes se conhecem tem a suposta tranquilidade e paz reviradas do avesso quando um novo morador chega e fica trancado em casa a sós com experiências que ninguém sabe ao certo o que são. Quando essas incursões científicas pouco a pouco passam ao conhecimento da população, a ganância e a natureza mesquinha das pessoas tomam conta das ações de modo abrupto. “A Nova Califórnia” é uma adaptação em quadrinhos escrita e desenhada pelo Daniel Araujo em cima do clássico conto de 1910 do escritor Lima Barreto. A obra que já ganhou várias releituras recebeu no ano passado uma das melhores nessa versão, tanto no que concerne a arte quanto a condução do roteiro que demonstra com certo humor embutido como as pessoas trazem consigo um egoísmo e maldade que podem emergir em qualquer momento da pior forma.

Nota: 7,0



Barthô é um cara grandão, forte, mas muito ingênuo e sem maldade no coração. Para ele tudo é bonito, todas as pessoas são legais e o mundo é um lugar sempre bacana de estar. Seu melhor amigo é Nicola que ao contrário é cheio de segundas intenções, pensamentos estapafúrdios e com uma visão de mundo mais cruel. Até que por conta disso, ao achar que está fazendo o bem, o protagonista se mete em uma grande roubada e vê a cabeça degringolar quando precisa lidar com o acontecido. É isso que vemos em “Os Olhos de Barthô” do quadrinista Orlandeli publicado de modo independente em 2019 com 97 páginas. Em mais um trabalho encantador e com uma arte exuberante o autor fala sobre bem e mal, sobre os nossos complicados dias atuais e sobre como o mundo pode ser sim um bom lugar. Nem que seja por um breve momento.

Nota: 7,5



E o Jeff Lemire conseguiu de novo. Já está até meio repetitivo elogiar o trabalho do canadense. Em “Apanhadores de Sapos” que a editora Mino publicou no final do ano passado com 112 páginas em capa dura, ele arregimenta uma fábula fascinante a respeito do envelhecimento e das memórias que ficam (ou não) quando as coisas realmente se encaminham para o final. Em conjunto a isso versa de modo singelo e delicado sobre o poder que cada escolha tem no decorrer da nossa jornada no mundo e trata dos arrependimentos que nos perseguem durante isso. É outro grande trabalho de um autor que parece ter um baú inesgotável de grandes histórias para contar (ainda bem) e que aqui se dá o direito de apresentar uma arte um pouco mais experimental. Uma obra para ler, refletir, ler de novo e dar uma olhadinha para o lado, para aqueles que vivem perto.

Nota: 9,0

Site da editora Mino: http://www.editoramino.com







sábado, 29 de fevereiro de 2020

Top Top - Os Melhores de 2019



Salve, salve minha gente amiga.

Disponho abaixo a lista dos 25 melhores discos e músicas nacionais e internacionais que passaram pelos meus ouvidos no ano de 2019. Demorou, mas saiu 😊

MELHOR DISCO INTERNACIONAL

1 – Age Of Unreason – Bad Religion
2 – I Am Easy To Find – The National
3 – Widow’s Weeds – Silversun Pickups
4 – Deceiver – DIIV
5 – There Will Be No Intermission – Amanda Palmer
6 – Modern Trash – Abhi The Nomad
7 – Hot Spring – Spencer Radcliffe
8 – Titanic Rising – Weyes Blood
9 – Cry – Cigarettes After Sex
10 – Ghosteen – Nick Cave And The Bad Seeds
11 – Trashing Thru The Passion – The Hold Steady
12 – Jueves – El Cuarteto de Nós
13 – Weird – Juliana Hatfield
14 – Debt Begins At 30 – The Gotobeds
15 – KIWANUKA – Michael Kiwanuka
16 – Rewind, Replay, Rebound – Volbeat
17 – This Is A Not Safe Place – Ride
18 – Western Stars – Bruce Springsteen
19 – Dogrel – Fountaines D.C
20 – So Removed – Wives
21 – Sound Of Fury – Sturgill Simpson
22 – Memory – Vivian Girls
23 – Hyperspace – Beck
24 – American Love Call – Durand Jones And The Indications
25 – Effluxion – Teleknesis

MELHOR MÚSICA INTERNACIONAL

1 – Touch – Cigarettes After Sex
2 – The Spark – DIIV
3 – My Sanity – Bad Religion
4 – Silicon Valley – Abhi The Nomad
5 – Here Comes The Snow – Spencer Radcliffe
6 – Where Is Her Head – The National
7 – Manic Monday – Prince
8 – Make Friends With The Morning – Stereophonics
9 – The Ride – Amanda Palmer
10 – We Are Chamaleons – Silversun Pickups
11 – Everyday – Weyes Blood
12 – Something To Hope For – Craig Finn
13 – Last Day Under The Sun – Volbeat
14 – Future Love – Ride
15 – Twin Cities – The Gotobeds
16 – Bright Horses – Nick Cave And The Bad Seeds
17 – There´s Place For Everything – Idlewild
18 – On Graveyard Hill – Pixies
19 – Rolling – Michael Kiwanuka
20 – Anônimo – El Cuarteto de Nós
21 – James Bond – Iggy Pop
22 – Mercury In Retrograde – Sturgill Simpson
23 – Boy In The Better Land – Fontaines D.C
24 – Die Waiting – Beck
25 – Morning In America – Durand Jones And The Indications

MELHOR DISCO NACIONAL

1 – Ponto Cego – Dead Fish
2 – Macumbas e Catimbós – Alessandra Leão
3 – Violeta – Terno-Rei
4 – Banda Vende Tudo – Bazar Pamplona
5 – Dreaming Fully Awake – Moons
6 – O Amor é Um Ato Revolucionário – Chico César
7 – Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos – China
8 – Rente – Jair Naves
9 – Atlantic Railroad – Churrus
10 – O Menino Velho da Fronteira – Dario Julio e Os Franciscanos
11 – Rio da Lua – Lô Borges
11 – Atrópico - Constantina
12 – Desmanche – Karina Bühr
13 – Planeta Fome – Elza Soares
14 – Besta Fera - Jards Macalé
15 – Long Time No See – Pin Ups
16 – Infectus Humanus – Deliquentes
17 – Little Eletric Chicken Hear – Ana Frango Elétrico
18 – A Invenção é A Mãe das Necessidades – Vitor Pirralho e a U.N.I.D.A.D.E
19 – Coruja Muda – Siba
20 – Abaixo de Zero: Hello Hell – Black Alien
21 – Ladrão – Djonga
22 – Rebujo – Dona Onete
23 – Humana – Fafá de Belém
24 – Hemisférios – Antiprisma
25 – Eu Você Um Nó – Laura Afranc

MELHOR MÚSICA NACIONAL

1 – Spinning – Pin Ups
2 – Sweet And Sour – Moons
3 – Messias – Dead Fish
4 – Veemente – Jair Naves
5 – O Homem Sob o Cobertor Puído – Chico César
6 – Tchau, Amor – Dario Julio e Os Franciscanos
7 – Bença – Djonga
8 – Ofertório – China
9 – Brasis – Elza Soares
10 – No Caminho – Lô Borges
11 – Bom Mesmo é Ouvir um Riff dos Stones – Bazar Pamplona
12 – Yesterday’s Park – Churrus
13 – Chão de Estrelas – Karina Bühr
14 – Viviajei – Banda Cout
15 – Amora – Tássia Reis
16 – Corre Um Rio Em Mim – Alessandra Leão
17 – Leviatã Lux – Sammliz
18 – Take Ten – Black Alien
19 – Batatas – Vitor Pirralho e A U.N.I.D.A.D.E
20 – 1001 Flamingos – Monstra
21 – Formigueiro Febril – Deliquentes
22 – Luzes de Natal – Terno-Rei
23 – Etérea – Criolo
24 – Eminência Parda – Emicida
25 – Country Clube – Giancarlo Rufatto

É isso. Paz Sempre. Mais do que nunca.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Quadrinhos: "American Jesus: O Eleito", "Cesariana", "Tabu" e "Malvados"


“American Jesus: O Eleito” que a Panini Comics publicou em 2019 com 96 páginas em edição de capa dura com extras é um dos primeiros trabalhos de Mark Millar (“Os Supremos”) e conta com a arte de Peter Gross (“O Inescrito”). Originalmente lançado nos EUA como “Chosen” pela Dark Horse foi renomeado depois. Na obra, o autor procura abordar como um conto moderno a chegada de Jesus nos nossos tempos na pele de um garoto chamado sugestivamente de Jodie Christianson. Com um argumento para lá de interessante a história não ganha maior força e é conduzida de modo regular, sendo que até mesmo a grande reviravolta não chega a surpreender o leitor mais atento. Esse tema seria abordado de modo muito mais incisivo e brilhante pelo Sean Murphy em “Punk Rock Jesus” anos depois. Aqui, vale somente a arte sempre magnífica de Peter Gross e a ideia geral. Nada além.

Nota: 5,0



A adolescência é uma fase complicada. Por mais que as alegrias estejam presentes pelas esquinas, em boa parte dos casos os dissabores, dúvidas e deslocamentos são em quantidade maior enquanto se busca achar um caminho, uma rota confiável a seguir. É nesse ponto da vida que estão Lucas, Cesar e Ana, os personagens principais de “Cesariana” do quadrinista Lucas Marques. Publicada no ano passado com incentivo do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal e exibindo a marca da Aerolito Editorial temos um trabalho pesado e bem intenso nas 154 páginas. Em uma história em preto e branco carregada de tonalidades biográficas e que levou alguns anos para ficar pronta a angústia e a dor vão de encontro a amizade, a música, a esperança, enquanto Lucas tenta entender as crises dos seus amigos e confronta a sua fé com as coisas maiores que a vida pode (e deve) oferecer.

Nota: 7,0



Em 2019 a editora Mino lançou uma coleção com 3 hq’s curtas de 40 páginas cada, escritas e desenhadas por jovens autoras que usaram como tema assuntos vistos como delicados para a sociedade de modo geral. “Tabu” é composto por “Piracema” da Jessica Groke, “Juízo” da Amanda Miranda e “Cina” da Lalo. O fato de serem curtos não diminui a energia e a impetuosidade dos trabalhos, todos elaborados em preto e branco. “Piracema” fala sobre sexualidade, descoberta e medo, “Juízo” trada de inadequação, hereditariedade, desconforto e escolhas e “Cina” - que é a mais tocante - discorre de modo inteligente sobre envelhecer, sobre a finitude do nosso tempo por esse plano e sobre o poder de decidir o que fazer com a própria vida. O projeto é daqueles que exibem virtudes de onde quer que se analise - seja pela iniciativa ou por tocar em temas melindrosos – e vale bastante.

Nota: 7,5

Instagram das autoras:


Pouca gente retratou tão bem o Brasil nos últimos 15, 16 anos como o carioca André Dahmer. E de maneira particular na tirinha dos “Malvados”. Em janeiro desse ano o autor decidiu que não ia mais publicar os personagens pois entendeu que o formato se esgotou, então o álbum lançado pelo selo Quadrinhos na Cia. com 384 páginas em 2019 se torna ainda mais relevante. Nessa coletânea de 368 tirinhas é exibido um vasto repertório temperado com escárnio, acidez e em especial com doses cavalares de realidade, uma realidade exibida sem molduras bonitas ou adereços coloridos, e sim com a essência crua exibindo sem pudor algum a bunda para fora. Nas tirinhas dos “Malvados” não há qualquer espaço para crenças bobas, frases feitas, pensamentos bonitinhos ou lugares comuns dessa sociedade que a cada dia está mais doente e contagiosa. Nenhum assunto é proibido e nada sai incólume dessa extraordinária série.

Nota: 10,0


Veja um trecho aqui: https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/65067.pdf  




terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Literatura: "Ascensão" e "Sobre Os Ossos Dos Mortos"


Castle Rock é uma cidade pequena e provinciana situada nos EUA. Altamente conservadora e satisfeita com suas rotinas e regras, não gosta de nada que altere isso. Scott Carey é um dos seus moradores há algum tempo. Com um divórcio ainda recente, busca se restabelecer e focar no trabalho quando uma coisa para lá de estranha acontece: ele está perdendo peso diariamente, ficando mais leve, no entanto suas medidas não mudam nada e o corpo continua exatamente igual. “Ascensão” (Elevation, no original) é um livro curto de Stephen King lançado em 2018 e publicado aqui no Brasil pela editora Suma no final do ano passado com 130 páginas e tradução de Regiane Winarski. É uma pequena fábula que usa a atualidade (a política americana aparece ao fundo) para versar sobre intolerância, harmonia, preconceito e a finitude da vida e o que fazemos com ela. Quando o protagonista percebe que sua condição não tem saída e os dias na face da terra estão contados opta por deixar um legado ao invés de sair aproveitando os últimos meses. O objetivo é fazer com que o casal de mulheres que passou a residir na cidade e abriu um restaurante seja aceito pela comunidade que ele jurava ser boa, mas desconhecia alguns pensamentos. “Ascensão” não passa nem perto de ser um dos melhores livros do autor, mas traz consigo uma beleza (ainda que triste) e vibração que nos servem bem, ainda mais quando passamos os dias tão absortos em notícias (cada vez mais) ruins.

Nota: 6,0




Uma professora aposentada é chamada por um vizinho que avisa que outro habitante da localidade morreu. Quando chegam lá percebem que o falecimento foi porque ele se engasgou com um osso. Depois que a polícia aparece e começa os procedimentos no meio da neve que cai nessa região isolada da Polônia, a senhora - que não tinha o finado em alta conta - entende que isso se trata de uma vingança dos animais que eram caçados por ele. “Sobre Os Ossos Dos Mortos” (Prowadź Swój Pług Przez Kości Umarłych, no original) foi publicado em 2009 e ganhou edição brasileira dez anos depois pela editora Todavia, com tradução de Olga Baginska-Shinzato e 256 páginas. Na essência um suspense que busca desvendar os assassinatos que aparecem na sequência da morte descrita acima, a obra da vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2018 caminha em várias outras ruas e atalhos. A escritora polonesa Olga Tokarczuk cria uma protagonista fascinante, que além de não ser afeita a pessoas, se dedica com afinco a astrologia, não come carne, não gosta dos caçadores da região e os sabota quando pode (sejam ilegais ou não), carrega várias efemérides e no meio disso ainda produz argutas reflexões em relação a vida e principalmente a morte. “Sobre Os Ossos Dos Mortos” é um livro que disserta sobre a crueldade com os animais e os direitos desses em troca de uma “tradição”. É estranho, carrega um humor meio macabro nas bordas, faz pensar um pouco e enfeitiça o leitor.

Nota: 8,0

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Literatura: "Essa Gente" e "Prológo, Ato, Epílogo"


Vencedor do Prêmio Camões de 2019, Chico Buarque lançou outro livro no ano passado pela Companhia das Letras com 200 páginas. “Essa Gente” tem como protagonista um escritor mergulhado em tremenda crise que atinge tanto o lado criativo, como também o amoroso e financeiro. Com o segundo casamento tendo ido para o brejo, o dinheiro acabando, uma relação inerte com o único filho e a incapacidade de escrever um novo romance pelo qual já recebeu alguns adiantamentos, a vida está na beira de um colapso. Usando o Rio de Janeiro atual como palco para contar essa história, Chico Buarque aproveita e insere a cada capítulo retratos claros de um Brasil governado pelos ineptos e energúmenos de hoje em dia e sua relação direta com a violência e intolerância que saiu do esgoto das redes sociais para o dia a dia do convívio, além, é claro, da violência física em si. Escrito quase que em forma de diário, o autor apresenta a queda do escritor Manuel Duarte alternando - como de costume em seus livros - realidade com imaginação e delírio. O resultado é melhor que os últimos trabalhos (“O Irmão Alemão” de 2014 e “Leite Derramado” de 2009) e expressa um autor em boa forma, ainda que sempre se espere algo extraordinário por ser quem é.  Indo além do personagem principal, “Essa Gente” se destaca mesmo é pelos coadjuvantes pequenos que de uma forma ou outra representam bem o tipo de pessoa que nos colocou no buraco em que estamos.

Nota: 7,5




Nunca existiu mulher como Fernanda Montenegro no Brasil. A atriz é daquelas artistas únicas que possuem um legado enorme e que além de serem imensos em termos de qualidade se tornaram igualmente ícones de uma geração, de um ofício. Seja no teatro ou no cinema (e até mesmo na televisão), foram milhares aqueles que sorriram, choraram e se emocionaram ao ver um trabalho seu. Em “Prólogo, Ato, Epílogo” publicado no ano passado pela Companhia das Letras com 392 páginas ela conta com a colaboração da Marta Góes para versar um pouco sobre esses 90 anos de vida, sendo a esmagadora parte deles dedicado a arte, a paixão por atuar. De maneira terna e afável, mas não menos forte e contundente, a autora conta sobre a infância, os antepassados, as primeiras apresentações, o amor eterno pelo companheiro Fernando Torres, os perrengues para se fazer teatro no Brasil desde sempre, as viagens, as desilusões políticas e sociais, os anos de ditatura militar, a garra de sempre promover um novo espetáculo, uma nova peça, a glória e o reconhecimento. Sempre tendo as transformações do nosso país consideradas passo a passo com reflexões curtas sobre cada momento e desdobramento, a leitura dessa biografia é daquelas que a cada página virada temos um novo deslumbre, uma nova comoção, um novo ensinamento. Dona de uma memória incrível, temos casos antigos apresentados com detalhes e a todo momento levando em conta a finitude do tempo que temos por esse plano. Um livro primoroso de uma vida gigantesca.

Nota: 9,0

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Séries: "Inacreditável", "Carnival Row" e "The Mandalorian"


2008. Aos 18 anos, Marie Adler (Kaytlin Dever) é amarrada e estuprada dentro da própria casa. Quando a polícia entra em ação ela se vê obrigada a recontar o acontecido várias e várias vezes, até que ao ser interrogada por dois policiais bem mais velhos que esbanjam ceticismo e descrença, ela acaba saindo desnorteada botando em dúvida o que lhe aconteceu. Logo depois, cancela a versão, diz que mentiu e é processada pela prefeitura por falso testemunho, o que lhe causa problemas em todas as esferas. Pulamos para 2011. Em outra cidade a detetive Karen Duvall (Merritt Wever) se depara com um caso de estupro e junta forças com a experiente Grace Rasmussen (Toni Collette). Juntas começam a ligar peças e descobrem a existência de um estuprador em série atuando há tempos na região. Esses são os pontos de partida de “Inacreditável” (Unbelievable, no original), série do Netflix de 8 episódios que estreou em setembro de 2019 na plataforma. Baseada em uma história real que aconteceu nos EUA e rendeu livro e um artigo vencedor do Pulitzer, a trama é cheia de reviravoltas e tensão e coloca no telespectador aquela sensação de revolta que a cada capítulo aumenta mais e mais. Além de ser realmente bem intensa, é sustentada pelo trio de atrizes já citadas que fazem um trabalho exuberante dosando dor, força e confiança da maneira ideal para cada personagem. “Inacreditável” é mais um retrato de um sistema totalmente despreparado para lidar com a violência as mulheres e que muitas vezes está pouco se lixando, essa é a verdade. Por isso é tão necessária.

Nota: 8,0

Depois de assistir a todos os episódios, leia o artigo vencedor do Pulitzer que deu origem a série: https://www.propublica.org/article/false-rape-accusations-an-unbelievable-story 


“Carnival Row” é uma série de fantasia em 8 episódios lançada no segundo semestre do ano passado. Com produção da Amazon Prime Video e disponibilizada integralmente na plataforma foi criada pelo René Echeverria (da saudosa “The 4400”) em conjunto com Travis Beacham (roteirista de “Círculo de Fogo”). Nela, homens e fadas lutaram lado a lado há poucos anos. No entanto, perderam a guerra e por conta disso as terras das fadas e de outras criaturas fantásticas ficaram nas mãos do Pacto, que continua espalhando terror, extraindo riquezas e escravizando seres, mesmo depois de findadas as batalhas. A cidade do Burgo - considerada a maior desse lado da terra - abriga não somente os humanos perdedores, como também milhares de refugiados de todos os lugares e raças. No meio disso um romance construído na guerra composto pelo inspetor de polícia Rycroft Philostrate (Orlando Bloom) e a fada refugiada Vignette Stonemoss (Cara Delenvigne) tenta sobreviver. Espalhada em tramas paralelas bem interessantes, “Carnival Row” se destaca com muito mais impetuosidade longe do foco principal. Além de efeitos visuais consistentes e uma vistosa fotografia é quando faz vínculos diretos a realidade dos nossos dias que acerta o alvo. O preconceito desmesurado e irracional, a violência e crueldade com os refugiados, uma polícia que escolhe quem vai defender e uma sociedade hipócrita que prega uma coisa e faz outra engatam essas subtramas em atuações quase perfeitas de outros nomes do elenco como Tamzin Merchant, Simon McBurney e Karla Crome. O avassalador episódio final deixa ainda um gancho imenso a ser explorado na segunda temporada, além daquele desejo de quero mais.

Nota: 8,5



Em “O Despertar da Força” de 2015 deixaram a gente sonhar com um belo filme. Em 2017 com “Os Últimos Jedi” serviram um prato comestível, mas com pouco sabor. E em 2019 com “A Ascensão Skywalker” jogaram praticamente tudo no lixo em uma produção fraca e sem emoção alguma. Dito isso, nesse final de década não é esforço afirmar que a melhor coisa que Star Wars entregou nesse período é disparada a série “The Mandalorian”. Entre novembro e dezembro de 2019 foi exibida pelo canal Disney Plus (e está inédita no Brasil), sendo produzida pela Lucasfilm Ltd. sob a batuta e orientação do cada vez mais extraordinário Jon Favreau. Do time de diretores escolhidos (Deborah Chow, Rick Famuyiwa, Dave Filoni, Bryce Dallas Howard e Taika Waititi) até os pequenos detalhes que fazem relação com a história da franquia, tudo é um grande regalo. Ambientada entre os filmes “O Retorno do Jedi” e “O Despertar da Força”, ou seja, após a queda do Império e antes do surgimento da Primeira Ordem, temos o protagonista (interpretado por Pedro Pascal), um esquivo caçador de recompensas, cortando o espaço atrás de dinheiro até que uma pequena criança entra no seu caminho. Essa criança (que já virou febre e foi apelidada de Baby Yoda pelos fãs) é a razão da série existir. Em sua caça está um ex-governador do antigo regime e o mandaloriano precisar ser menos solitário e fazer alguns amigos. Concebida com excelência técnica, ritmo, magia, aventura, personagens novos realmente legais, respeito ao passado e bom humor, “The Mandalorian” é um acerto memorável da Disney. Até que enfim.

Nota: 9,0

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quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Séries: “His Dark Materials: Fronteiras do Universo”, "The Witcher" e "Watchmen"


Desde que o filme “A Bússola de Ouro” foi lançado em 2007 que os fãs da obra do escritor Philip Pullman esperavam por uma sequência ou uma nova adaptação. A sequência não veio (ainda bem), mas a obra virou série pelas mãos da HBO em parceria com a BBC e está disponível no canal desde novembro do ano passado. “His Dark Materials: Fronteiras do Universo” apresenta 8 episódios adaptados pelo roteirista Jack Thorne (de filmes como “Extraordinário”) e contando com diretores como Tom Hooper (de “O Discurso do Rei”) no rol dos contratados. A história tem a jovem e destemida Lyra (Dafne Keen) como protagonista e retrata um universo paralelo ao nosso que é comandado de maneira bruta e opressora pelo Magisterium, uma organização com um poderoso braço armado que usa a religião como forma de se perpetuar no poder. Neste mundo onde ciência e magia às vezes andam de mãos dadas e em outras são ferrenhas opositoras, Lyra se mete em uma jornada de busca a um amigo desaparecido que é repleta de perigos, aprendizados e descobertas pessoais. Com um elenco recheado de bons atores como Ruth Wilson, James Cosmo, Lin-Manuel Miranda e James McAvoy, a HBO faz uma produção bem ao seu estilo, com tons escuros e indo bem nas questões técnicas, apesar dos efeitos visuais deixarem um pouco a desejar quando são mais necessários. Contudo, a forma que a história é contada é lenta demais, arrastada demais e isso faz com que o telespectador saia dessa primeira temporada sem se envolver completamente, e, principalmente, sem a certeza de que encarará a segunda.

Nota: 6,0


Geralt de Rivia é um bruxo solitário. Anda pelo mundo a esmo oferecendo seus serviços que consistem em matar criaturas e monstros em troca de dinheiro. Porém, às vezes as coisas não saem como deveriam e aceita um trabalho que não é o que parece, outro que paga mal, outro que não quer e acaba pegando, outro que nem é pago e assim vai. Ser autônomo não é fácil, sabemos disso. “The Witcher” foi criado nos anos 80 pelo escritor polonês Andrzej Sapkowski e anos depois estourou nos games, passou pelos quadrinhos, retornou a literatura e no final de 2019 ganhou série na Netflix com 8 episódios disponibilizados de uma vez só na plataforma, que mostram a rotina descrita no início do texto. Interpretado pelo Henry “Superman” Cavill de maneira às vezes com excelência, às vezes bem canhestra, a série apresenta cada episódio meio que fechado em si com um novo conto, um novo desafio, enquanto aos poucos constrói a trama principal e apresenta o universo. Com dois impérios em guerra no decorrer dos episódios o protagonista descobre sobre o passado, se apaixona, faz algumas promessas, escapa da morte e aumenta o volume de inimigos. Com ótimas cenas de luta, bons efeitos visuais no que tange aos monstros e demais seres, outros personagens com destaque como a Yennefer da atriz Anya Chalotra (que rouba a cena), bom humor e uma maneira não tão óbvia de confrontar presente e passado na trama, “The Wicther” é o tipo de série que cumpre o papel de entreter bem, sem maiores preocupações ou ambições. E parece confortável com isso.

Nota: 7,0


“Watchmen” de Alan Moore e Dave Gibbons é daquelas obras capazes de mudar as coisas. Ao lado de outras da mesma época redefiniu (para o bem e para o mal) o conceito de super-heróis e ganhou status de “intocável”, o que na cultura pop não quer dizer praticamente nada, convenhamos. Em 2009 o diretor Zack Snyder fez um filme bem fiel, os quadrinhos já revisitaram a história (e continuam revisitando), enfim, vida que segue. Nessa vida está “Watchmen”, série produzida pela HBO e idealizada por Damon Lindelof (criador de “Lost”) que conta com 9 episódios. Recentemente finalizada, manifesta como enredo um mundo imaginado mais de 30 anos depois dos eventos finais da graphic novel que culminaram com a morte de 3 milhões de pessoas. Com um elenco magistral com nomes do porte de Regina King, Jeromy Irons, Tim Blake Nelson, Louis Gossett Jr., Jean Smart e Hong Chau, a produção exibe uma robusta pegada política e social que funciona demais como uma nova história, sendo intrinsicamente ligada ao mundo de hoje e ao momento em que vivemos, retratada principalmente nos ideais estapafúrdios de supremacia branca da Sétima Kavalaria (inspirados em Rorschach e filha direta da abominável Klu Klux Klan), sendo que isso já torna bem recomendável assistir. No entanto, nem tudo são flores, e se analisarmos friamente em relação a relevância do trabalho para o mundo visualizado por Alan Moore originalmente, não se constata maiores patamares de importância. E nesse limbo entre ser uma continuação ou um remix – como o próprio Lindelof já definiu – é que Watchmen vai bem menos longe do que poderia alcançar.

Nota: 7,5

A HBO fez um site explicando vários fatos: https://www.hbo.com/peteypedia

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