quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Quadrinhos: "Bloodshoot Renascido Vol. 1", "Devaneios: A Estrada Até Aqui", “Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro” e "Os Últimos Dias do Xerife"


Bloodshot foi criado nos anos 90 por Kevin VanHook, Don Perlin e Bob Layton. Inserido no universo da Valiant Comics é uma “arma” criada por um projeto privado que ao despejar vários nanites no sangue o tornaram super-humano com diversos poderes como o da regeneração.  “Bloodshoot Renascido Vol. 1 – Colorado” que a editora Jambô publicou no final de 2018 com 144 páginas apresenta as cinco primeiras edições lançadas em 2015 nos EUA com roteiro do Jeff Lemire e arte do Mico Suayan e Raúl Allén, trazendo o personagem escondido em uma cidade pequena onde tenta levar uma vida normal depois que os nanites saíram da corrente sanguínea. Lógico que isso não dura e ele volta a caçada com toda a violência que tem direito. É um reinício mediano comandado por Lemire que serve para quem não conhece e preparar para o filme do ano que vem com Vin Diesel estrelando.

Nota: 6,0


Yorhán Araújo é carioca de Volta Redonda e desde 2015 faz a tirinha “Devaneios com Sigmund e Freud” onde um cachorro, um raposo, uma capivara e um gato muito diferentes entre si conversam em poucos quadros sobre questões cotidianas, de comportamento e existenciais, indo também para outras esferas de vez em quando. Com quase 500 mil seguidores espalhados entre Facebook e Instagram o autor promoveu uma bem-sucedida campanha de financiamento coletivo no ano passado para publicar a primeira coletânea física do trabalho. O resultado foi “Devaneios: A Estrada Até Aqui” com 140 páginas que reúne conversas humoradas sobre as nossas neuroses diárias e pequenos e simples prazeres da vida como comer e dormir. A diferença das personalidades dos personagens é que transforma a dinâmica em algo bacana, contrastando de modo interessante o cachorro meio preguiçoso, o raposo intelectual, o gato mal-humorado e irônico e a simpática e prestativa capivara.


Nota: 6,5


Daniel Clowes publicou na revista Eightball entre os anos de 1989 e 1993 os 10 capítulos de “Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro” que a editora Nemo lançou aqui no ano passado com tradução de Jin Anotsu e 144 páginas. A obra do conceituado autor de “Ghost World”, “Wilson” e “Paciência” já tinha recebido uma edição nacional anteriormente pela Conrad. Na trama, Clay Loudermilk assiste a um filme sado-masoquista no cinema com uma ex-namorada como atriz, o que o deixa intrigado para saber mais sobre a produção. Essa busca envolve o protagonista em situações estranhas e bizarras ao extremo, com figuras excêntricas ao seu redor. Underground e nonsense até a alma com o surrealismo ditando as ações sem qualquer tipo de pudor ou controle, a obra até hoje é citada como influência por diversos autores no meio dos quadrinhos alternativos e só por isso já vale a conferida.


Nota: 7,0


“Os Últimos Dias do Xerife” traz o quadrinista e músico paulista Thiago Ossostortos se debruçando sobre o relacionamento com o pai seja no decorrer da vida ou nos últimos momentos passados com ele antes do seu falecimento. Bem diferente do clima de “Kombi 95” de 2017 que trazia o humor como carro-chefe, o novo trabalho publicado de maneira independente por financiamento coletivo no finalzinho de 2018 tem a contemplação e o lirismo como condutores de uma história pautada por silêncios, pequenas brigas, diferenças de pensamento, mas com o amor sempre por trás. Nas 200 páginas em preto e branco o autor analisa uma relação que exibia poucos pontos em comuns com o pai como o gosto por filmes e questiona a validade de tudo até ali. É uma obra poética que encontrará identificação em vários e vários leitores com o poder de fazer algumas lágrimas caírem no meio da leitura.


Nota: 8,5




segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Literatura: "Manual da Demissão" e “Bem-vindo à Casa dos Espíritos”


A crise que se instalou por aqui nos últimos cinco anos causou demissões em grandes quantidades nos quatro cantos do país. Milhões estão desempregados. É dentro desse panorama desanimador que a escritora carioca Julia Wähmann concebeu “Manual da Demissão”, publicado em 2018 pela editora Record com 144 páginas. Com uma pegada autobiográfica, a autora narra com muito bom humor e sarcasmo as idas e vindas ocorridas depois da demissão, o que transforma a obra em extremamente aprazível mesmo que alguns dos risos venham da tensão ou do desespero. Enquanto trata dos procedimentos normais do processo como retirar as coisas do escritório, receber a rescisão, sacar o FGTS em horas e mais horas quase intermináveis na Caixa Econômica, ainda tem que lidar com o namoro que acabou quase que no mesmo momento inserindo uma atmosfera não muita boa ao redor. Involuntariamente trazendo um leve tom político temos um singelo retrato de uma geração que está entre os 35 e o 40 anos e fica na encruzilhada entre se dedicar a uma empresa ou meter a cara no próprio negócio, enquanto o mundo do trabalho muda constantemente e é preciso pagar as contas de qualquer jeito. Seja na hora em que precisa preencher papéis, toma uma bebida na praia no meio da semana ou quando a depressão chega e se instala apresenta o humor a que se propõe. No quarto livro (os anteriores são: “Diário de Moscou”, “André Quer Transar” e “Cravos”), Julia Wähmann diverte e ajuda de maneira simples e tocante sobre um tema complicado.

Mais sobre a autora aqui: https://medium.com/@juliaveman

Nota: 7,0

O problema de se esconder do passado é que em algum momento ele bate na porta e reaparece. É o que acontece com Andrew Ranulf, protagonista de “Bem-vindo à Casa dos Espíritos” (The Necromancer’s House, no original), publicação de 2018 da DarkSide Books no Brasil com capa dura, 382 páginas e tradução de Carolina Caires Coelho. Lançado nos EUA em 2013, o livro do poeta, dramaturgo e escritor Christopher Buehlman ganha edição primorosa no país (como é costume das publicações da editora) com uma trama que mistura fantasia com terror em doses atraentes. Ranulf é um mago, um bruxo que vive isolado em uma grande casa que por conta das proteções só pode ser vista por aqueles que ele definir. O lar tem praticamente vida própria e é cheio de encantos, feitiços, armadilhas e artefatos perigosos (uma espécie da Casa dos Mistérios de John Constantine). Com magia espalhada pelos cantos e personagens bizarros - como a sereia que é apaixonada por ele e o cachorro redivivo que serve de mordomo - leva uma vida entre seus afazeres, visitas ao Alcoólicos Anônimos e uma relação que flutua entre amizade, tesão e amor por Anneke. Quando o passado chega feito um trem desgovernando na varanda é preciso sobreviver e proteger os mais próximos de uma antiga e poderosa entidade, o que rende momentos de combate e apreensão. Para os amantes do gênero, “Bem-vindo à Casa dos Espíritos” é um livro que satisfaz e pode interessar mesmo a leitores não tão convertidos assim a esse tipo de literatura.

Aqui um trecho disponibilizado pela editora: https://bit.ly/2SQWL2o  

Nota: 7,0

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Top Top - Os Melhores de 2018

Salve, salve, minha gente amiga.

Como de costume disponho abaixo uma lista dos 25 melhores discos e músicas nacionais e internacionais que passaram por aqui no ano passado. Vamos a eles:

MELHOR DISCO NACIONAL

1) “Levante” – Daniel Groove
2) “Breu” - Lestics
3) “A Dança Dos Não Famosos” – Mundo Livre S/A
4) “Normal” – Molho Negro
5) “Consertos em Geral” – Manoel Magalhães
6) “Precariado” - Wado
7) “Thinking Out Loud” - Moons
8) “Libertá” – Os Replicantes
9) “Desastre Solar” – Laura Lavieri
10) “Afastamento” – Juliano Gauche
11) “Fake News” – Phillip Long
12) “Crise” - Rashid
13) “Um Grito Que Se Espalha” – Vários Artistas
14) “A Era do Vacilo” - Violins
15) “Solar” – Jéf
16) “Dona de Mim” - IZA
17) “Libido” - Autoramas
18) “OK OK OK” – Gilberto Gil
19) “Norte” - Superquadra
20) “Desmanche” – Craca e Dani Nega
21) “Dendê” – Janine Mathias
22) “O Menino Que Queria Ser Deus” - Djonga
23) “Relax” - Kassin
24) “Amar É Para Os Fortes” – Marcelo D2
25) “Amenidades” – Lê Almeida

MELHOR MÚSICA NACIONAL

1) “Herói Fabricado” - Violins
2) “Ginga” – IZA e Rincon Sapiência
3) “Se Você Disser” – Daniel Groove
4) “Tóxico” – Mundo Livre S/A
5) “O Jeito de Errar” – Molho Negro
6) “Respeito” – Laura Lavieri
7) “Pedaço de Mim – Juliano Gauche
8) “Banho de Chuva” – Drik Barbosa
9) “Motoradio” – Elder Effe e Lari Xavier
10) “Canção Pro Meu Filho” - Djonga
11) “Resistência Cultural” – Marcelo D2 e Gilberto Gil
12) “Frenesi” - Superquadra
13) “Pérola Negra” – Janine Mathias     
14) “Homem-Clichê” - Autoramas
15) “Boca de Lobo” - Criolo
16) “Ameno” – Jéf e Ana Caetano
17) “Rota de Colisão” - Josyara
18) “Parque de Diversões” – Ronei Jorge
19) “Vivo Tendo Fogo” – Banda Eddie
20) “Balada de Um Compositor Amargo” – Phillip Long
21) “Onda Permanente” – Wado e Teago Oliveira
22) “Espelho” – Manoel Magalhães
23) “Punk de Boutique” – Os Replicantes
24) “Blilhete 2.0” – Rashid e Luccas Carlos
25) “Um Idiota” – Lê Almeida

MELHOR DISCO INTERNACIONAL

1) “Back Roads And Abondoned Motels” – The Jayhawks
2) “Heaven And Earth” – Kamasi Washington
3) “Tell Me How You Really Feel” – Courtney Barnett
4) “Quiet And Piece” – Buffalo Tom
5) “All Nerve” – The Breeders
6) “Dirty Computer” – Janelle Monáe
7) “Elastic Days” – J. Mascis
8) “There’s a Riot Going On” – Yo La Tengo
9) “Destilar” – Vela Puerca
10) “Beyondless” - Iceage
11) “Thank You For Today” – Death Cab For Cutie
12) “Love In The Modern Age” – Josh Rouse
13) “Tranquility Base Hotel And Casino” – Arctic Monkeys
14) “Soundtrack - Spider-Man: Into The Spider-Verse” – Vários Artistas
15) “American Utopia” – David Byrne
16) “World’s Strongest Man” – Gaz Coombes
17) “Bought To Rot” – Laura Jane And The Devouring Mothers
18) “Rare Birds” – Jonathan Wilson
19) “Historian” – Lucy Dacus
20) “Soul Flowers Of Titan” – Barrence Whitfield And The Savages
21) “Burn It Down” – The Dead Dasies
22) “Record” – Tracey Thorn
23) “Filter” – The Perfect Kiss
24) “Sparkle Hard” – Stephen Malkmus And The Jicks
25) “Rewamp: The Songs Of Elton John & Bernie Taupin” – Vários Artistas

MELHOR MÚSICA INTERNACIONAL

1) “Sunflower” – Post Malone and Swae Lee
2) “Testify” – Kamasi Washigton
3) “Charity” – Courtney Barnett
4) “The Kids Are All-Right” – Bad Religion
5) “This Is America” – Childish Gambino
6) “For Out Of Five” – Arctic Monkeys
7) “Roman Cars” – Buffalto Tom
8) “All The Stars” – Kendrick Lamar And SZA
9) “Middle America” – Stephen Malkmus And The Jicks
10) “Screwed” – Janelle Monáe and Zöe Kravitz
11) “Come Cryin’ To Me” – The Jayhawks
12) “Everbody’s Coming To My House” – David Byrne
13) “Don’t Make Me Wait” – Sting And Shaggy
14) “Archangel’s Thunderbird” – The Breeders
15) “Deep Pockets” – Gaz Coombes
16) “Apocalypse Now (& Later) - Laura Jane And The Devouring Mothers
17) “I Can´t Get No Ride” - Barrence Whitfield And The Savages
18) “Wastelands” - Suede
19) “There´s a Light” – Jonathan Wilson
20) “Queen” – Tracey Thorn
21) “Yours & Mine” – Lucy Dacus
22) “Nubes In Saturnia” – Las Luces Primeras
23) Northern Lights - Death Cab For Cutie
24) “La Revancha” – La Vela Puerca
25) “Ordinary People, Ordinary Lives” – Josh Rouse

É isso. Paz Sempre.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Melhores Quadrinhos de 2018

Salve, salve, minha gente amiga.

Segue a listinha do que teve de melhor de quadrinhos em 2018 por aqui.  A única regra é ter sido lançado no país em 2018 seja pela primeira vez ou em reedições. Para ficar claro, me baseei no lançamento nacional e não do original em outro país, quando for o caso.

Novamente foi um grande ano e a maioria das obras citadas tem resenha aqui no blog:

MELHORES HQ’S DE 2018 - NACIONAL

1 – Teocrasília – Denis Mello (Editora Caligari)
2 – O Outro Lado da Bola – Alvaro Campos, Alê Braga e Jean Diaz (Editora Record)
3 – Ar Condicionado – Gustavo Piqueira (Editora Veneta)
4 – Jeremias: Pele – Rafael Calça e Jefferson Costa (Panini)
5 – Cadafalso – Alcimar Frazão (Editora Mino)
6 – Até Aqui Tudo Bem – Rafael Corrêa (Independente)
7 – Garotos do Reservatório – Celio Cecare e Fábio Cobiaco (Editora Mino)
8 – Silas – Raphael Pinheiro (AVEC Editora)
9 – Bipolar – Renan Rivero, Diogo Torres e Ramon Saroldi (Independente)
10 – Todos Os Santos – Marcelo Quintanilha (Editora Veneta)

Menção honrosa:  “Hell No - 2” do Leo Finocchi. Publicação da Balão Editorial.

MELHORES HQ’S DE 2018 – INTERNACIONAL

1 – A Marcha: Livro 1 – John Lewis, Andrew Yadin e Nate Powell (Editora Nemo)
2 –  Nada a Perder – Jeff Lemire (Editora Nemo)
3 –  Sem Volta – Charles Burns (Companhia das Letras)
4 – Uma Irmã – Bastien VIVÉS (Editora Nemo)
5 – Blacksad, Vol. 4: O Inferno, O Silêncio – Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido (SESI-SP Editora).
6 – Sala Imaculada – Gail Simone e Vários (Panini Comics)
7 – Black Hammer: O Evento – Jeff Lemire, Dean Ormston, David Rubín e Dave Stewart (Intrínseca)
8 – Orks – Nicolas Tackian e Nicolas Guénet (Mythos Books)
9 – Flinch: Horror e Desespero – Vol. 1 e 2 – Vários (Panini)
10 – Ragemoor – Jan Strnad e Richard Corben (Editora Mino)

Menção honrosa:  “Gavião Arqueiro: Rio Bravo”, último encadernado do Matt Fraction e David Aja pela Panini.

MELHORES SÉRIES CONTÍNUAS DE 2018

1 – Batman: Cavaleiro Branco – Sean Murphy e Matt Hollingsworth (Panini)
2 – Demolidor – Charles Soule e Vários (Panini)
3 -  Exterminador – Christopher Priest e Vários (Panini)
4 – Império Secreto – Vários (Panini)
5 – Homem-Aranha e Os Campeões – Mark Waid, Brian Michael Bendis e outros (Panini)

É isso. Paz sempre.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Cinema: "Homem-Aranha no Aranhaverso"


Com grandes poderes vêm grandes..., não, não, espera aí. Já deu né? Deu mesmo, convenhamos. Depois da origem de Peter Parker ser contada e recontada diversas vezes as coisas ficaram meio enfadonhas, não tem jeito. E em “Homem-Aranha no Aranhaverso”, longa de animação que estreou nos EUA no final de 2018 e aqui no Brasil em 10 de janeiro de 2019, isso é encarado de maneira diferente, sendo esse apenas um dos incontáveis acertos da produção.

O filme é uma parceria da Sony com a Marvel e funciona como a introdução de Miles Morales (o Homem-Aranha negro e latino) no cinema. Miles Morales foi criado por Brian Michael Bendis e Sara Pichelli e estreou dentro no universo Ultimate (uma realidade paralela) da editora em 2011, ou seja, o personagem tem menos de 10 anos e já tem destaque relevante, hoje inserido na realidade principal e constantemente cativando leitores e fãs ao redor do mundo.

Levar a história do Aranhaverso para as telas não era tarefa das mais fáceis, fazer funcionar a trama dos quadrinhos na telona onde inúmeras versões do personagem se reúnem, utilizando as prerrogativas do multiverso era algo hercúleo, bem hercúleo. Porém, os diretores Bob Persichetti (Gato de Botas), Peter Ramsey (A Origem dos Guardiões) e Rodney Rothman (Ajuste de Contas) conseguiram o feito apoiados no roteiro de Rothamn com Phil Lord (Uma Aventura Lego) que concebe também a história geral.

Miles Morales vive em uma realidade onde o Homem-Aranha carrega os padrões que todos conhecem, concebidos lá atrás por Stan Lee e Steve Ditko. Heroico, destemido e cheio de piadinhas na manga, Peter Parker já salvou o mundo e a cidade de Nova York algumas vezes, contudo, é novamente posto à prova quando o Rei do Crime planeja ligar uma máquina que pode estraçalhar com a cidade ao invadir outras realidades. Ao buscar impedir isso, Peter sucumbe.

Miles que foi picado recentemente por uma aranha e então ganhou os poderes, precisa assumir o encargo de impedir que a máquina seja novamente ligada. E não está só para isso. A engenhoca que havia sido iniciada brevemente antes trouxe para essa realidade algumas versões do herói, sendo uma impetuosa Gwen Stacy, um outro Peter Parker acabado e desiludido, o Homem-Aranha Noir direto dos anos 30, a jovem nipo-americana Peni Parker e o extraordinário Porco-Aranha (esqueça os Simpsons).

“Homem-Aranha no Aranhaverso” acaba sendo uma história de origem na essência mesmo que isso não seja o ponto principal. É uma animação com muito, muito mesmo de quadrinhos, abraçando estes de maneira exemplar (via os balões de conversa, onomatopeias e homenagens a cenas clássicas), além de exibir diversos estilos de animações como o anime e um mais cartunesco como os Looney Tunes. Na tradução, nomes como Mahershala Ali dublando o tio de Miles, Nicolas Cage como o Homem-Aranha Noir e Liev Schreiber como o Rei do Crime.

O filme é uma ode especular ao aracnídeo e em consequência aos quadrinhos e as histórias de super-heróis. É lírico, divertido, inspirador, representativo e emocionante. Espalhando trocentas referências pelo caminho sem soar pedante, o roteiro apresenta o néctar do amigão da vizinhança em várias e estimulantes cores e com destaque para todos os personagens inseridos. Uma coesão que chega a assustar e nutre no peito a vontade de assistir de novo e mais uma vez.

P.S: As cenas pós-créditos são simplesmente sensacionais.

P.S: O roteiro do filme foi liberado oficialmente. Só ir aqui (em inglês): http://origin-flash.sonypictures.com/ist/awards_screenplays/SV_screenplay.pdf

Nota: 9,5


Assista ao trailer:



segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Quadrinhos: “Surfista Prateado: Novo Alvorecer”, “Dinâmica de Bruto II”, “Blacksad – Vol. 4: O Inferno, O Silêncio” e "Silas"


O Surfista Prateado foi criado em 1966 por Stan Lee e Jack Kirby e desde então mesmo sendo um dos mais poderosos do universo Marvel teve altos e baixos com poucos momentos debaixo de holofotes maiores. Além de sagas espaciais onde costumeiramente tem destaque também esteve em algumas histórias magistrais levantando questões filosóficas, existenciais e pacifistas. O ex-arauto de Galactus entrou em uma dessas fases quando passou para as mãos de Dan Slott e Michael Allred, que a partir de 2014 inseriram novo frescor nas tramas. A primeira parte disso está em “Surfista Prateado: Novo Alvorecer”, encadernado de 2019 da Panini Comics, com 128 páginas e tradução de Érico Assis. As histórias já haviam saído antes nas mensais da editora, mas agora ganham uma caprichada edição onde o Surfista conhece a terráquea Dawn Greenwood e embarca em aventuras psicodélicas, surreais e com muito humor, como um verdadeiro gibi deve ser.

P.S: A história após esse tomo fica ainda melhor. É torcer para a Panini botar esse produto no mercado também nesse formato.

Nota: 7,0

Bruno Maron é carioca e nutria a vontade de ser quadrinista, o que concretizou quando fez nascer em 2008 o blog Dinâmica de Bruto. A decisão foi um acerto já que hoje foi publicado em diversos veículos importantes do país como Folha de São Paulo e O Globo, entre outros. Em 2018 lançou “Dinâmica de Bruto II” que nasceu do financiamento coletivo e teve posterior publicação pela editora Maria Nanquim (assim como o primeiro volume de 2014), com 168 páginas. Se na edição anterior se abrangia o período de 2010 a 2012, agora temos um apanhado de 2013 a 2017 e mais coisas inéditas. O trabalho de Maron incomoda, achaca, zomba constantemente e carrega um pessimismo com humor próprio. Ataca com grande categoria a estupidez humana, a mesquinharia, as relações modernas, a futilidade das coisas que nos cercam, os filósofos de araque da esquina e mais um bocado de coisas.


Nota: 7,0


John Blacksad é uma criação dos espanhóis Juan Díaz Canales (roteiro) e Juanjo Guarnido que começou a ser publicado na França em 2010 pela editora Dargaud. Aqui no Brasil a editora Sesi-SP vem lançando o título com frequência (depois de uma rápida passagem pela Panini) desde 2017. Em “Blacksad – Vol. 4: O Inferno, O Silêncio” vemos o protagonista atuando como detetive particular depois de ter saído da polícia nas edições anteriores. Mesmo com uma sequência existente de fatos, são álbuns que podem ser lidos isoladamente sem problema. A trama dessa vez se passa em New Orleans, com todas as peculiaridades e cores da cidade espelhadas belamente na arte, que como de costume é detalhada com ênfase nos cenários de fundo. Com 64 páginas, tradução da escritora Carol Bensimon e lançamento em 2018 temos outro trabalho da dupla que mantêm o nível bem lá em cima. Corra atrás, é classe pura.

Nota: 7,5


Em 2017 o carioca Rapha Pinheiro publicou “Salto” uma história fantástica inserida dentro de um universo com várias nuances e inúmeras correlações com os nossos dias. Em 2018, esse universo se expande mais com “Silas”, que é um dos habitantes da cidade escondida debaixo da terra ambientada na trama que por conta de um problema sério de saúde quando criança acaba sendo moldado pelos poderosos da cidade para ser o capitão de uma polícia que serve somente aos interesses da elite. Embrutecido e com bastante dificuldade de se expressar aos poucos conhece coisas novas e mais sobre seu passado e como as coisas realmente funcionam na cidade. Novamente via financiamento coletivo e com publicação pela AVEC Editora as 96 páginas mantêm o climaço steampunk anterior e apresentam metáforas e analogias mais vigorosas em um mundo criado com esmero e habilidade pelo autor, onde a vida sempre pode ser bem mais.

Nota: 8,0





terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Literatura: "Os Éguas" e "O Clube dos Jardineiros de Fumaça"


Edyr Augusto Proença é paraense e começou a carreira nos anos 70 no teatro como diretor e escritor, sendo também jornalista, radialista e publicitário antes se dedicar a prosa. Seu primeiro romance foi “Os Éguas” em 1998, obra que no ano passado ganhou nova edição atualizada pela editora Boitempo com 200 páginas. Edyr Augusto é um autor ímpar no cenário literário nacional, seu texto é ágil, visceral, vibrante, sem deixar o leitor sequer pensar em respirar e pegar um fôlego qualquer. Com um pé na literatura noir expõe nos cenários de fundo dos romances o desmando político, a violência, a desigualdade e abusos existentes no seu estado com um domínio absurdo. É assim em “Os Éguas” e também em romances posteriores como “Moscow” de 2001, “Casa de Caba” de 2004 e “Pssica” de 2015, todos com a mesma intensidade e força. Para quem não conhece o autor essa estreia reeditada agora exibe tudo que sua literatura tem de melhor, com realismo, violência e lirismo coexistindo espetacularmente. Nesse thriller policial em questão o delegado Gil se torna a força condutora da história quando se depara com um suicídio que se transforma em homicídio logo em seguida. Alcoólatra e, convenhamos, não tão esperto como pensa, ele precisa desvendar uma trama que invade a alta sociedade, atravessa as áreas pobres da cidade e desembarca dentro do tráfico, com personagens interessantíssimos e fascinantes ao redor, sem ter qualquer teor de perdão no texto. É um livro extremamente vigoroso de um autor que merecia muito ser mais conhecido no país.

Nota: 9,0


A busca por um caminho, por um destino, por um rumo, está presente na vida de uma imensidão de pessoas e não distingue raça, idade, cor, credo, classe social ou qualquer coisa. É nessa situação que se encontram os personagens de “O Clube dos Jardineiros de Fumaça” da gaúcha Carol Bensimon, vencedor do prêmio Jabuti de melhor romance em 2018. Esse quarto livro da autora tem edição pela Companhia das Letras do finalzinho de 2017 com 368 páginas. Arthur é um brasileiro que se exilou nos EUA após um escândalo em Porto Alegre que culminou em demissão e desconfiança. Isso ocorreu devido ao cultivo de maconha em casa, primeiro para aplacar as dores provocadas por uma doença na sua mãe, mas que depois foi continuado e teve apreensão policial com todo estardalhaço possível. O lugar para que se manda é o condado de Mendocino na Califórnia, área que tem uma das maiores produções (legais ou não) de maconha dos EUA. Em uma época imediatamente anterior a liberação da droga para uso recreativo no estado (o que ocorreu em 01.01.2018), ele se envolve aos poucos na cidade costurando relações com pessoas que partilham – conscientes ou não – da mesma procura por algum sentido. A autora passou 8 meses na localidade se inserindo e misturando (e recentemente voltou para lá), o que foi imprescindível para tornar o romance tão real. Construindo magistralmente essas relações e inserindo todo um contexto histórico da região na trama, Carol Bensimon é responsável por um trabalho primoroso. O Jabuti ficou em excelentes mãos.

Nota: 9,5


sábado, 12 de janeiro de 2019

Quadrinhos: "Cebolinha - Recuperação", "Garotos do Reservatório", "Até Aqui Tudo Bem" e "Ar Condicionado"


Em 2018 foi a vez do Cebolinha ganhar edição solo dentro do projeto Graphic MSP. A responsabilidade ficou com Gustavo Borges, quadrinista que mesmo jovem já tem no currículo trabalhos bem interessantes como “Pétalas” e “Escolhas”. O roteiro envolve um dos mais cativantes personagens do Mauricio de Sousa em uma disputa ferrenha com um novo aluno para saber quem é o mais legal da escola, o que o leva a ficar de recuperação. No meio disso o autor insere problemas mais sérios dos pais que ele custa a entender (é uma criança, afinal) e isso dá o tom emocional junto com lições de perseverança e tolerância, além de muitos e muitos planos infalíveis. Mesmo carente de uma profundidade maior, “Cebolinha - Recuperação” honra tanto o projeto, quanto criador e personagem nas suas 96 páginas e duas opções de capa como de costume.

Nota: 6,5




“Garotos do Reservatório” é uma publicação da editora Mino do primeiro semestre de 2018, com formato um pouco diferente do usual (20 x 15,4cm), 208 páginas e arte em preto e branco. O trabalho trata daquele período complicado na vida da maioria das pessoas: a adolescência e início da fase adulta. Ainda mais quando você não tem os gostos culturais ou se interessa pelas mesmas coisas que todos. Narrando com calma a construção da amizade entre Hector e Victor, a obra invade os anos inserindo um grande hiato de convivência entre os dois e um retorno para essa amizade com pessoas totalmente distintas e estranhas. Tudo bem que esse tema já foi tratado zilhões de vezes antes, contudo a maneira que o roteiro de Celio Cecare e a arte de Fábio Cobiaco passam por isso é pulsante e ferozmente silenciosa.

Nota: 8,0



O gaúcho Rafael Corrêa faz humor desde adolescente. Cartunista, ilustrador e quadrinista ganhou prêmios no Brasil e em mais um catatau de países. Em 2018 fez campanha de financiamento coletivo na plataforma Catarse para viabilizar a publicação de uma coletânea onde reunisse boa parte da produção dos últimos 10 anos. Deu certo e “Até Aqui Tudo Bem” ganhou vida e chegou entre nós. Com edição do experiente S. Lobo temos uma obra majestosa. Ele tem o poder de dizer muito usando poucas palavras ou às vezes nenhuma mesmo. Com capacidade de síntese desconcertante vemos cartuns, tirinhas e quadrinhos atravessando com humor e crítica segmentos como política, relacionamento social, dramas pessoais, comunicação nos dias atuais, meio ambiente e o que mais der na telha, sempre com olhar atento e deixando fácil a compreensão da mensagem para quem quer que seja.

Nota: 8,5

Mais sobre o autor: https://www.instagram.com/rafael_correa_cartum 



Uma das coisas mais loucas da vida é quando alguém consegue ir além. Quando ousa andar por caminhos que mesmo não sendo inéditos, poucos arriscaram meter os pés. É o que acontece com Gustavo Piqueira em “Ar Condicionado”, publicação de 2018 da editora Veneta com formato grande, 128 páginas e capa dura. Designer de extrema qualidade com mais de 20 livros e vários prêmios conquistados na área, o autor inova nesse trabalho colocando as falas dos personagens e, principalmente os pensamentos, dentro da silhueta de cada um. Se esse instigante enlace entre linguagem visual e escrita já é suficiente para destaque, o texto por trás exibe preocupações individuais mesquinhas de vidas sem graça espalhadas nas ruas de qualquer grande metrópole por aí. E é usando isso que o trabalho brilha ainda mais e faz com que “Ar Condicionado” seja (quase) obrigatório.

Nota: 9,0

Mais sobre o autor: https://www.instagram.com/gustavopiqueira