quinta-feira, 21 de março de 2019

Quadrinhos: "Últimos Deuses", "Adagio", "Gideon Falls - Volume 1: O Celeiro Negro” e "Bone 1 - O Vale ou Equinócio Vernal"


Com campanha de financiamento coletivo na viabilização, “Últimos Deuses” foi publicado em 2018 de maneira independente, com roteiro e letras de Eric Peleias (de “Até o Fim”) e Hiro Kawarara (de “O Bestiário Particular de Parzifal”) na arte e cores. Os dois conduzem bem o trabalho, com destaque maior para os planos e soluções visuais desenvolvidos por Hiro. A trama tem como alicerce deuses antigos que já não são o que eram e se encontram sozinhos, enfraquecidos e passando por perrengues que nunca imaginariam. Alguns deles insatisfeitos com isso embarcam em uma missão nada nobre de acordar uma forte divindade que lhes promete devolver o brilho de outrora, desde que lhe deem a chance de se vingar de Odin. Mesmo que a premissa de deuses perdendo divindade não seja tão original assim, a dupla criadora narra uma boa aventura em quadrinhos com ação e alguns questionamentos, indicando uma possível sequência no final.

Nota: 6,0

Instagram dos autores:


Lançado em dezembro de 2018 na CCXP, “Adagio” do Felipe Cagno (de “The Few And Cursed”) tem 112 páginas em papel couché. A obra teve campanha de financiamento coletivo, publicação posterior pela AVEC Editora e foi incentivada pelo ProacSP. Com arte de Sara Prado e Bräo, cores da Natália Marques e letras de Deyvison Manes, o roteiro mergulha de cabeça na ficção científica em uma história que tem relevantes correlações com os caminhos que nossa sociedade vem trilhando. Os fatos são ambientados em 2067 onde uma rede social chamada Adagio toma conta do mundo. Nela, os usuários postam os sonhos e correm desesperadamente atrás de interações sendo esse o entretenimento quase absoluto dessa era. Kaya é uma das pessoas que buscam virar sucesso a qualquer custo, mas quando isso acontece não é bem como ela pensava. Conversando sobre solidão, futilidade social e vazio espiritual temos mais um ótimo trabalho nacional.

Nota: 8,0

Twitter do criador: https://twitter.com/Felipe_Cagno


Jeff Lemire é provavelmente o maior nome dos quadrinhos da atualidade, conseguindo se destacar tanto com heróis conhecidos como em trabalhos autorais. No Brasil, o autor aparece com frequência nos últimos anos (e isso é excelente), sendo que “Gideon Falls - Volume 1: O Celeiro Negro” é mais um exemplo disso. Sucesso nos EUA, o trabalho feito com Andrea Sorrentino na arte - repetindo a parceria que brilhou em “O Velho Logan” -  ainda conta com as cores do grande Dave Stewart. Com 160 páginas, capa dura e publicação em 2018 pela Editora Mino o trio apresenta uma trama de terror onde os fatos são apresentados sem muita pressa, dando ao leitor aquela sensação tensa de suspense sobre o que virá. Entrelaçando os destinos de um jovem com uma estranha mania e um padre que tem a derrota como fiel amiga, apresentam uma história envolvente que só tende a crescer mais.

P.S: O segundo volume será publicado pela Mino mês que vem.

Nota: 8,5



E lá vamos nós de novo e outra vez para mais um capítulo da saga de “Bone” no Brasil (e que ao que tudo indica parece ser o final feliz). A obra-prima do quadrinista Jeff Smith já foi publicada no Brasil pela Via Lettera e HQM Editora, mas nunca de maneira completa. Agora a casa nacional dos primos Fone, Phoney e Smile é a Todavia Livros que em 2018 lançou uma edição com as cores de Steve Hamaker e 448 páginas reunindo os 20 primeiros números da série que saíram nos EUA entre julho de 1991 e outubro de 1995. Vencedora de dezenas de prêmios importantes, “Bone” é o tipo de obra que agrada e emociona até mesmo quem não gosta de quadrinhos. A aventura dos primos no misterioso Vale é repleta de ação, humor variado, fantasia e tragicomédia enquanto apresenta personagens repletos de brilho e criaturas pra lá de exóticas. Obra imprescindível.

P.S: A Todavia lançará o restante da série em mais dois volumes.

Nota: 9,5





quinta-feira, 7 de março de 2019

Literatura: "Como As Democracias Morrem"


“Como as Democracias Morrem” (How Democracies Die, no original) foi publicado nos EUA em 2018 e ganhou edição nacional no mesmo ano por aqui através da Editora Zahar com 272 páginas, tradução de Renato Aguiar e prefácio de Jairo Nicolau, professor de Ciência Política da UFRJ. O livro virou best-seller rapidamente no exterior e foi uma das obras mais comentadas no Brasil desde que foi lançado. E não faltam motivos para isso.

Os autores são Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, pesquisadores e professores de Ciência Política na prestigiosa Universidade Harvard. No livro versam sobre o retorno do autoritarismo no mundo, que na visão deles está passando por uma recessão democrática. O olhar é mais voltado para os EUA, analisando historicamente a democracia no país, como também a sucessão de atos e decisões que tornaram possível a eleição de Donald Trump para Presidente, contudo, também se estendem a outros países tanto no passado quanto no presente.

A pesquisa da dupla para concepção da obra foi extremamente abrangente, baseada em mais de 800 referências espalhadas nas notas constantes nas últimas páginas. Demonstram detalhadamente que nos EUA as tradições que sustentam as instituições democráticas estão se desintegrando já há algum tempo e isso culminou no atual presidente que com as grades de proteção enfraquecidas chegou ao poder, o que certifica que a democracia americana não é mais tão forte como outrora se imaginava.

O texto invade o mundo com o olhar crítico e passa por governos recentes (de 90 em diante) como os de Alberto Fujimori no Peru, Hugo Chávez na Venezuela, Vladimir Putin na Rússia e Recep Erdogan na Turquia e para mais recentes ainda como os de Viktor Orbán na Hungria e Jaroslaw Kaczynski na Polônia. Mas também olham para casos antigos como Adolf Hitler na Alemanha e Benito Mussolini na Itália, correlacionando e amarrando as características comuns de todos eles.

Os autores apontam quatro caminhos de comportamentos autoritários que podem facilmente despencar para um governo ditatorial, a saber: rejeição das regras democráticas do jogo (ou compromisso débil com elas), negação da legitimidade dos oponentes políticos, tolerância ou encorajamento a violência e, propensão a restringir liberdades civis, de oponentes, inclusive a mídia. E aí? Percebe alguma semelhança com os tempos atuais no ar? Pois é, isso mesmo.

Fica límpido que não se precisa mais de golpes militares para arruinar uma democracia. Há outra maneira tão destrutiva quanto que é quando líderes eleitos subvertem em grande escala o poder e o sistema que os levou até lá, fazendo a democracia desaparecer – na maioria das vezes – devagarzinho, em etapas, utilizando os recursos descritos acima, entre outros. É assim que as democracias morrem hoje. A sua própria defesa é muitas vezes usada para essa deturpação de ideais e conceitos.

E quando há polarização o risco é sempre maior. A ideia de colocar um outsider para concorrer por conta de apoio popular no momento, com o intuito de controlá-lo depois de eleito é um verdadeiro tiro no pé. Acreditar que a retórica de campanha não será cumprida depois é um grave erro. Esse tipo de demagogo existe em todo país, contudo os demais líderes políticos percebem o que virá e tomam medidas para garantir que esses autoritários fiquem longe do poder. Se unem, apesar das diferenças, em um esforço orquestrado para derrotá-los, o que atualmente não vem sendo feito da maneira que se espera.

“Como as Democracias Morrem” é aquele livro que invariavelmente recebe as alcunhas de obrigatório e necessário e isso não poderia – nesse caso – estar mais correto. Em tempos em que as nuvens estão cada vez mais cinzas pairando sobre nossas cabeças e ideais nefastos circundam de conversas de bares a redes sociais, nada melhor do que ler um trabalho desse nível que serve como precioso alerta e constatação de que como diz o velho adágio, a cura para os males da democracia é mais democracia. Sempre.

Leia um trecho no site da editora: https://tinyurl.com/y9lbs985  

Nota: 10,0

segunda-feira, 4 de março de 2019

Literatura: "Ingresia" e "A Uruguaia"


Franciel Cruz nasceu na pequena Irecê na Bahia e ainda adolescente se mudou para Salvador onde virou torcedor apaixonado do Vitória e seguiu na sina de pecar e ficar do lado dos deserdados como ele mesmo diz. Com publicação da P55 Edição e viabilizado através de financiamento coletivo em 2018, “Ingresia” é o primeiro livro do jornalista e faz um compêndio de crônicas publicadas em jornais, revistas, redes sociais e blogs. Insere constantemente um humor cortante e muita ironia em textos que utilizam gírias regionais e palavrões e que frequentemente conversam diretamente com o leitor sobre música, carnaval, política, desigualdade econômica, exclusão social e segregação racial no estado que tanto ama e defende. Achincalhando tudo e todos (inclusive ele próprio) o autor apresenta um olhar revelador sobre a Bahia que, por conseguinte, podemos estender para o Brasil nos escritos mais acintosos e sérios. Entre causos, memórias e um punhado de história preenchendo o recheio atravessa da galhofa pura e mordaz para a acidez mais crítica sempre tratando o leitor como um parceiro de copo no meio de um boteco qualquer da primeira capital do país que trata visitantes da melhor e mais lúdica maneira enquanto destrata os habitantes locais por conta de cor, classe social ou local de moradia. Entre as mais de 90 crônicas espalhadas nas 260 páginas do livro algumas das mais interessantes são as que falam da música e do amor do autor por nomes como Luiz Gonzaga, Odair José, Gilberto Gil, Lazzo Matumbi e Belchior.

Siga o autor no Twitter: https://twitter.com/fsmcruz

Nota: 7,0


A crise da meia-idade masculina já foi explorada em várias obras na literatura e no cinema, é aquele momento em que a juventude definitivamente ficou para trás e a velhice começa a aparecer no horizonte, o que algumas vezes gera decisões estapafúrdias e irresponsáveis, para dizer o mínimo. É nesse momento da vida que está Lucas Pereyra, o protagonista de “A Uruguaia” (La Uruguaya, no original), romance que a Todavia Livros publicou aqui em 2018 com 128 páginas e tradução de Heloisa Jahn. Sucesso nos países de língua espanhola a obra do autor argentino Pedro Mairal absorve esse tema dando um verniz tragicômico a história. Em crise financeira, conjugal e até mesmo espiritual, Pereyra consegue depois de um bom tempo um adiantamento para dois novos livros. Por conta da situação econômica delicada da Argentina resolve sacar os dólares provenientes do contrato no vizinho Uruguai onde aproveita para rever uma bela mulher mais nova que entrou na sua vida em uma feira literária. Casado e com um filho criança cada decisão que surge na cabeça de Pereyra é um infeliz e burlesco erro que rende situações trágicas com um viés engraçado envolvido que apesar da gravidade da coisa torna-se permissível sucumbir as risadas. Com um protagonista que tende a não arrebatar maiores paixões pelas escolhas e alguns pensamentos, Pedro Mairal envolve o leitor nessa sequência de fatos que versam sobre o destino, a consequência dos atos de cada um e a interminável busca por uma insignificante dose de felicidade que seja.

Nota: 7,5

sábado, 2 de março de 2019

Séries: "A Louva-a-deus", "Collateral" e "The Umbrella Academy"


Jeanne Deber (Carole Bouquet de “007 – Somente Para Seus Olhos”) é uma serial killer fria e segura das suas habilidades e ideologias que está presa há anos pelo assassinato de vários homens. Quando consultada pela polícia para auxiliar a desvendar crimes que copiam exatamente os seus decide participar da investigação desde que seu filho Damien (Fred Testot) que é policial esteja na força-tarefa. Está montado o cerne de “A Louva-a-deus” (La Mante, no original), minissérie francesa de 2017 com 6 episódios produzida pela TF1 e disponível no Netflix. Criada por Alice Chegaray-Breugnot, Nicoles Jean e Grégorie Demaison, todos os capítulos têm direção de Alexandre Laurent, o que sem dúvida ajuda para o bom andamento. O trabalho vai além do suspense e do thriller policial para se estender a um drama familiar repleto de segredos e (literalmente) esqueletos grandiosos escondidos. Com atuação firme de Carole Bouquet, que mesmo sem ser a protagonista é quem comanda o (bom) elenco, vemos uma história com resultado tenso e surpreendente que transita entre o sadismo e o amor, entre a violência e a insegurança.

Nota: 7,0


“Collateral” é uma minissérie de 2018 produzida pela BBC em conjunto com a Netflix está disponível na plataforma com 4 episódios de quase uma hora de duração cada. Escrita por David Hare (roteirista de ótimos filmes como “O Leitor” e “As Horas”) traz a diretora S. J. Clarkson (das séries “Jessica Jones” e “Orange Is The New Black”) na chefia. A trama inicia quando um motoboy é assassinado por tiros depois de entregar uma pizza em Londres. A polícia da cidade com a detetive Kip Glaspie (Carey Mulligan de “As Sufragistas” e “Drive”) assume a frente da investigação e logo descobre que a vítima era um imigrante ilegal, ao que tudo indica um sírio. Apesar de ter a investigação policial como guia vai muito além disso e se expande pela questão do tratamento do Reino Unido a refugiados e imigrantes e passa sobre abusos no exército, tráfico ilegal de pessoas, política e religião. Muita coisa para ser tratada em pouco tempo, correto? Sim, correto, e esse é o maior mérito do trabalho que mesmo sem se alongar profundamente consegue dar ênfase crítica a esses temas.

Nota: 7,5


Irmãos com habilidades especiais (e bem bizarras) se reúnem novamente debaixo do mesmo teto depois de um longo tempo e descobrem que precisam deixar as diferenças de lado e juntar forças para salvar o mundo de um apocalipse iminente. Essa é premissa básica de “The Umbrella Academy”, série que é uma produção original da Netflix e se baseia nos quadrinhos vencedores do Prêmio Eisner criados por Gerard Way (ex-vocalista do My Chemical Romance) e o brasileiro Gabriel Bá (da obra-prima “Daytripper” em conjunto com o irmão Fábio Moon). Com maciça campanha de divulgação os 10 episódios não decepcionam e por mais que apresente uma ideia geral não tão original assim, o que realmente conta e faz valer a pena é o caminho pautado por desastres pessoais e familiares de personagens extremamente singulares e desestruturados. Inspirado por X-Men e principalmente Patrulha do Destino, Gerard Way criou com Gabriel Bá algo muito divertido e intrigante que se transpõe com a mesma força para a telinha (mesmo com caminhos diversos) e exibe cenas fantásticas e grandes atuações de Robert Shehan e Ellen Page.

Nota: 8,5

Assista aos trailers:



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Quadrinhos: "Bloodshoot Renascido Vol. 1", "Devaneios: A Estrada Até Aqui", “Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro” e "Os Últimos Dias do Xerife"


Bloodshot foi criado nos anos 90 por Kevin VanHook, Don Perlin e Bob Layton. Inserido no universo da Valiant Comics é uma “arma” criada por um projeto privado que ao despejar vários nanites no sangue o tornaram super-humano com diversos poderes como o da regeneração.  “Bloodshoot Renascido Vol. 1 – Colorado” que a editora Jambô publicou no final de 2018 com 144 páginas apresenta as cinco primeiras edições lançadas em 2015 nos EUA com roteiro do Jeff Lemire e arte do Mico Suayan e Raúl Allén, trazendo o personagem escondido em uma cidade pequena onde tenta levar uma vida normal depois que os nanites saíram da corrente sanguínea. Lógico que isso não dura e ele volta a caçada com toda a violência que tem direito. É um reinício mediano comandado por Lemire que serve para quem não conhece e preparar para o filme do ano que vem com Vin Diesel estrelando.

Nota: 6,0


Yorhán Araújo é carioca de Volta Redonda e desde 2015 faz a tirinha “Devaneios com Sigmund e Freud” onde um cachorro, um raposo, uma capivara e um gato muito diferentes entre si conversam em poucos quadros sobre questões cotidianas, de comportamento e existenciais, indo também para outras esferas de vez em quando. Com quase 500 mil seguidores espalhados entre Facebook e Instagram o autor promoveu uma bem-sucedida campanha de financiamento coletivo no ano passado para publicar a primeira coletânea física do trabalho. O resultado foi “Devaneios: A Estrada Até Aqui” com 140 páginas que reúne conversas humoradas sobre as nossas neuroses diárias e pequenos e simples prazeres da vida como comer e dormir. A diferença das personalidades dos personagens é que transforma a dinâmica em algo bacana, contrastando de modo interessante o cachorro meio preguiçoso, o raposo intelectual, o gato mal-humorado e irônico e a simpática e prestativa capivara.


Nota: 6,5


Daniel Clowes publicou na revista Eightball entre os anos de 1989 e 1993 os 10 capítulos de “Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro” que a editora Nemo lançou aqui no ano passado com tradução de Jin Anotsu e 144 páginas. A obra do conceituado autor de “Ghost World”, “Wilson” e “Paciência” já tinha recebido uma edição nacional anteriormente pela Conrad. Na trama, Clay Loudermilk assiste a um filme sado-masoquista no cinema com uma ex-namorada como atriz, o que o deixa intrigado para saber mais sobre a produção. Essa busca envolve o protagonista em situações estranhas e bizarras ao extremo, com figuras excêntricas ao seu redor. Underground e nonsense até a alma com o surrealismo ditando as ações sem qualquer tipo de pudor ou controle, a obra até hoje é citada como influência por diversos autores no meio dos quadrinhos alternativos e só por isso já vale a conferida.


Nota: 7,0


“Os Últimos Dias do Xerife” traz o quadrinista e músico paulista Thiago Ossostortos se debruçando sobre o relacionamento com o pai seja no decorrer da vida ou nos últimos momentos passados com ele antes do seu falecimento. Bem diferente do clima de “Kombi 95” de 2017 que trazia o humor como carro-chefe, o novo trabalho publicado de maneira independente por financiamento coletivo no finalzinho de 2018 tem a contemplação e o lirismo como condutores de uma história pautada por silêncios, pequenas brigas, diferenças de pensamento, mas com o amor sempre por trás. Nas 200 páginas em preto e branco o autor analisa uma relação que exibia poucos pontos em comuns com o pai como o gosto por filmes e questiona a validade de tudo até ali. É uma obra poética que encontrará identificação em vários e vários leitores com o poder de fazer algumas lágrimas caírem no meio da leitura.


Nota: 8,5




segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Literatura: "Manual da Demissão" e “Bem-vindo à Casa dos Espíritos”


A crise que se instalou por aqui nos últimos cinco anos causou demissões em grandes quantidades nos quatro cantos do país. Milhões estão desempregados. É dentro desse panorama desanimador que a escritora carioca Julia Wähmann concebeu “Manual da Demissão”, publicado em 2018 pela editora Record com 144 páginas. Com uma pegada autobiográfica, a autora narra com muito bom humor e sarcasmo as idas e vindas ocorridas depois da demissão, o que transforma a obra em extremamente aprazível mesmo que alguns dos risos venham da tensão ou do desespero. Enquanto trata dos procedimentos normais do processo como retirar as coisas do escritório, receber a rescisão, sacar o FGTS em horas e mais horas quase intermináveis na Caixa Econômica, ainda tem que lidar com o namoro que acabou quase que no mesmo momento inserindo uma atmosfera não muita boa ao redor. Involuntariamente trazendo um leve tom político temos um singelo retrato de uma geração que está entre os 35 e o 40 anos e fica na encruzilhada entre se dedicar a uma empresa ou meter a cara no próprio negócio, enquanto o mundo do trabalho muda constantemente e é preciso pagar as contas de qualquer jeito. Seja na hora em que precisa preencher papéis, toma uma bebida na praia no meio da semana ou quando a depressão chega e se instala apresenta o humor a que se propõe. No quarto livro (os anteriores são: “Diário de Moscou”, “André Quer Transar” e “Cravos”), Julia Wähmann diverte e ajuda de maneira simples e tocante sobre um tema complicado.

Mais sobre a autora aqui: https://medium.com/@juliaveman

Nota: 7,0

O problema de se esconder do passado é que em algum momento ele bate na porta e reaparece. É o que acontece com Andrew Ranulf, protagonista de “Bem-vindo à Casa dos Espíritos” (The Necromancer’s House, no original), publicação de 2018 da DarkSide Books no Brasil com capa dura, 382 páginas e tradução de Carolina Caires Coelho. Lançado nos EUA em 2013, o livro do poeta, dramaturgo e escritor Christopher Buehlman ganha edição primorosa no país (como é costume das publicações da editora) com uma trama que mistura fantasia com terror em doses atraentes. Ranulf é um mago, um bruxo que vive isolado em uma grande casa que por conta das proteções só pode ser vista por aqueles que ele definir. O lar tem praticamente vida própria e é cheio de encantos, feitiços, armadilhas e artefatos perigosos (uma espécie da Casa dos Mistérios de John Constantine). Com magia espalhada pelos cantos e personagens bizarros - como a sereia que é apaixonada por ele e o cachorro redivivo que serve de mordomo - leva uma vida entre seus afazeres, visitas ao Alcoólicos Anônimos e uma relação que flutua entre amizade, tesão e amor por Anneke. Quando o passado chega feito um trem desgovernando na varanda é preciso sobreviver e proteger os mais próximos de uma antiga e poderosa entidade, o que rende momentos de combate e apreensão. Para os amantes do gênero, “Bem-vindo à Casa dos Espíritos” é um livro que satisfaz e pode interessar mesmo a leitores não tão convertidos assim a esse tipo de literatura.

Aqui um trecho disponibilizado pela editora: https://bit.ly/2SQWL2o  

Nota: 7,0

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Top Top - Os Melhores de 2018

Salve, salve, minha gente amiga.

Como de costume disponho abaixo uma lista dos 25 melhores discos e músicas nacionais e internacionais que passaram por aqui no ano passado. Vamos a eles:

MELHOR DISCO NACIONAL

1) “Levante” – Daniel Groove
2) “Breu” - Lestics
3) “A Dança Dos Não Famosos” – Mundo Livre S/A
4) “Normal” – Molho Negro
5) “Consertos em Geral” – Manoel Magalhães
6) “Precariado” - Wado
7) “Thinking Out Loud” - Moons
8) “Libertá” – Os Replicantes
9) “Desastre Solar” – Laura Lavieri
10) “Afastamento” – Juliano Gauche
11) “Fake News” – Phillip Long
12) “Crise” - Rashid
13) “Um Grito Que Se Espalha” – Vários Artistas
14) “A Era do Vacilo” - Violins
15) “Solar” – Jéf
16) “Dona de Mim” - IZA
17) “Libido” - Autoramas
18) “OK OK OK” – Gilberto Gil
19) “Norte” - Superquadra
20) “Desmanche” – Craca e Dani Nega
21) “Dendê” – Janine Mathias
22) “O Menino Que Queria Ser Deus” - Djonga
23) “Relax” - Kassin
24) “Amar É Para Os Fortes” – Marcelo D2
25) “Amenidades” – Lê Almeida

MELHOR MÚSICA NACIONAL

1) “Herói Fabricado” - Violins
2) “Ginga” – IZA e Rincon Sapiência
3) “Se Você Disser” – Daniel Groove
4) “Tóxico” – Mundo Livre S/A
5) “O Jeito de Errar” – Molho Negro
6) “Respeito” – Laura Lavieri
7) “Pedaço de Mim – Juliano Gauche
8) “Banho de Chuva” – Drik Barbosa
9) “Motoradio” – Elder Effe e Lari Xavier
10) “Canção Pro Meu Filho” - Djonga
11) “Resistência Cultural” – Marcelo D2 e Gilberto Gil
12) “Frenesi” - Superquadra
13) “Pérola Negra” – Janine Mathias     
14) “Homem-Clichê” - Autoramas
15) “Boca de Lobo” - Criolo
16) “Ameno” – Jéf e Ana Caetano
17) “Rota de Colisão” - Josyara
18) “Parque de Diversões” – Ronei Jorge
19) “Vivo Tendo Fogo” – Banda Eddie
20) “Balada de Um Compositor Amargo” – Phillip Long
21) “Onda Permanente” – Wado e Teago Oliveira
22) “Espelho” – Manoel Magalhães
23) “Punk de Boutique” – Os Replicantes
24) “Blilhete 2.0” – Rashid e Luccas Carlos
25) “Um Idiota” – Lê Almeida

MELHOR DISCO INTERNACIONAL

1) “Back Roads And Abondoned Motels” – The Jayhawks
2) “Heaven And Earth” – Kamasi Washington
3) “Tell Me How You Really Feel” – Courtney Barnett
4) “Quiet And Piece” – Buffalo Tom
5) “All Nerve” – The Breeders
6) “Dirty Computer” – Janelle Monáe
7) “Elastic Days” – J. Mascis
8) “There’s a Riot Going On” – Yo La Tengo
9) “Destilar” – Vela Puerca
10) “Beyondless” - Iceage
11) “Thank You For Today” – Death Cab For Cutie
12) “Love In The Modern Age” – Josh Rouse
13) “Tranquility Base Hotel And Casino” – Arctic Monkeys
14) “Soundtrack - Spider-Man: Into The Spider-Verse” – Vários Artistas
15) “American Utopia” – David Byrne
16) “World’s Strongest Man” – Gaz Coombes
17) “Bought To Rot” – Laura Jane And The Devouring Mothers
18) “Rare Birds” – Jonathan Wilson
19) “Historian” – Lucy Dacus
20) “Soul Flowers Of Titan” – Barrence Whitfield And The Savages
21) “Burn It Down” – The Dead Dasies
22) “Record” – Tracey Thorn
23) “Filter” – The Perfect Kiss
24) “Sparkle Hard” – Stephen Malkmus And The Jicks
25) “Rewamp: The Songs Of Elton John & Bernie Taupin” – Vários Artistas

MELHOR MÚSICA INTERNACIONAL

1) “Sunflower” – Post Malone and Swae Lee
2) “Testify” – Kamasi Washigton
3) “Charity” – Courtney Barnett
4) “The Kids Are All-Right” – Bad Religion
5) “This Is America” – Childish Gambino
6) “For Out Of Five” – Arctic Monkeys
7) “Roman Cars” – Buffalto Tom
8) “All The Stars” – Kendrick Lamar And SZA
9) “Middle America” – Stephen Malkmus And The Jicks
10) “Screwed” – Janelle Monáe and Zöe Kravitz
11) “Come Cryin’ To Me” – The Jayhawks
12) “Everbody’s Coming To My House” – David Byrne
13) “Don’t Make Me Wait” – Sting And Shaggy
14) “Archangel’s Thunderbird” – The Breeders
15) “Deep Pockets” – Gaz Coombes
16) “Apocalypse Now (& Later) - Laura Jane And The Devouring Mothers
17) “I Can´t Get No Ride” - Barrence Whitfield And The Savages
18) “Wastelands” - Suede
19) “There´s a Light” – Jonathan Wilson
20) “Queen” – Tracey Thorn
21) “Yours & Mine” – Lucy Dacus
22) “Nubes In Saturnia” – Las Luces Primeras
23) Northern Lights - Death Cab For Cutie
24) “La Revancha” – La Vela Puerca
25) “Ordinary People, Ordinary Lives” – Josh Rouse

É isso. Paz Sempre.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Melhores Quadrinhos de 2018

Salve, salve, minha gente amiga.

Segue a listinha do que teve de melhor de quadrinhos em 2018 por aqui.  A única regra é ter sido lançado no país em 2018 seja pela primeira vez ou em reedições. Para ficar claro, me baseei no lançamento nacional e não do original em outro país, quando for o caso.

Novamente foi um grande ano e a maioria das obras citadas tem resenha aqui no blog:

MELHORES HQ’S DE 2018 - NACIONAL

1 – Teocrasília – Denis Mello (Editora Caligari)
2 – O Outro Lado da Bola – Alvaro Campos, Alê Braga e Jean Diaz (Editora Record)
3 – Ar Condicionado – Gustavo Piqueira (Editora Veneta)
4 – Jeremias: Pele – Rafael Calça e Jefferson Costa (Panini)
5 – Cadafalso – Alcimar Frazão (Editora Mino)
6 – Até Aqui Tudo Bem – Rafael Corrêa (Independente)
7 – Garotos do Reservatório – Celio Cecare e Fábio Cobiaco (Editora Mino)
8 – Silas – Raphael Pinheiro (AVEC Editora)
9 – Bipolar – Renan Rivero, Diogo Torres e Ramon Saroldi (Independente)
10 – Todos Os Santos – Marcelo Quintanilha (Editora Veneta)

Menção honrosa:  “Hell No - 2” do Leo Finocchi. Publicação da Balão Editorial.

MELHORES HQ’S DE 2018 – INTERNACIONAL

1 – A Marcha: Livro 1 – John Lewis, Andrew Yadin e Nate Powell (Editora Nemo)
2 –  Nada a Perder – Jeff Lemire (Editora Nemo)
3 –  Sem Volta – Charles Burns (Companhia das Letras)
4 – Uma Irmã – Bastien VIVÉS (Editora Nemo)
5 – Blacksad, Vol. 4: O Inferno, O Silêncio – Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido (SESI-SP Editora).
6 – Sala Imaculada – Gail Simone e Vários (Panini Comics)
7 – Black Hammer: O Evento – Jeff Lemire, Dean Ormston, David Rubín e Dave Stewart (Intrínseca)
8 – Orks – Nicolas Tackian e Nicolas Guénet (Mythos Books)
9 – Flinch: Horror e Desespero – Vol. 1 e 2 – Vários (Panini)
10 – Ragemoor – Jan Strnad e Richard Corben (Editora Mino)

Menção honrosa:  “Gavião Arqueiro: Rio Bravo”, último encadernado do Matt Fraction e David Aja pela Panini.

MELHORES SÉRIES CONTÍNUAS DE 2018

1 – Batman: Cavaleiro Branco – Sean Murphy e Matt Hollingsworth (Panini)
2 – Demolidor – Charles Soule e Vários (Panini)
3 -  Exterminador – Christopher Priest e Vários (Panini)
4 – Império Secreto – Vários (Panini)
5 – Homem-Aranha e Os Campeões – Mark Waid, Brian Michael Bendis e outros (Panini)

É isso. Paz sempre.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Cinema: "Homem-Aranha no Aranhaverso"


Com grandes poderes vêm grandes..., não, não, espera aí. Já deu né? Deu mesmo, convenhamos. Depois da origem de Peter Parker ser contada e recontada diversas vezes as coisas ficaram meio enfadonhas, não tem jeito. E em “Homem-Aranha no Aranhaverso”, longa de animação que estreou nos EUA no final de 2018 e aqui no Brasil em 10 de janeiro de 2019, isso é encarado de maneira diferente, sendo esse apenas um dos incontáveis acertos da produção.

O filme é uma parceria da Sony com a Marvel e funciona como a introdução de Miles Morales (o Homem-Aranha negro e latino) no cinema. Miles Morales foi criado por Brian Michael Bendis e Sara Pichelli e estreou dentro no universo Ultimate (uma realidade paralela) da editora em 2011, ou seja, o personagem tem menos de 10 anos e já tem destaque relevante, hoje inserido na realidade principal e constantemente cativando leitores e fãs ao redor do mundo.

Levar a história do Aranhaverso para as telas não era tarefa das mais fáceis, fazer funcionar a trama dos quadrinhos na telona onde inúmeras versões do personagem se reúnem, utilizando as prerrogativas do multiverso era algo hercúleo, bem hercúleo. Porém, os diretores Bob Persichetti (Gato de Botas), Peter Ramsey (A Origem dos Guardiões) e Rodney Rothman (Ajuste de Contas) conseguiram o feito apoiados no roteiro de Rothamn com Phil Lord (Uma Aventura Lego) que concebe também a história geral.

Miles Morales vive em uma realidade onde o Homem-Aranha carrega os padrões que todos conhecem, concebidos lá atrás por Stan Lee e Steve Ditko. Heroico, destemido e cheio de piadinhas na manga, Peter Parker já salvou o mundo e a cidade de Nova York algumas vezes, contudo, é novamente posto à prova quando o Rei do Crime planeja ligar uma máquina que pode estraçalhar com a cidade ao invadir outras realidades. Ao buscar impedir isso, Peter sucumbe.

Miles que foi picado recentemente por uma aranha e então ganhou os poderes, precisa assumir o encargo de impedir que a máquina seja novamente ligada. E não está só para isso. A engenhoca que havia sido iniciada brevemente antes trouxe para essa realidade algumas versões do herói, sendo uma impetuosa Gwen Stacy, um outro Peter Parker acabado e desiludido, o Homem-Aranha Noir direto dos anos 30, a jovem nipo-americana Peni Parker e o extraordinário Porco-Aranha (esqueça os Simpsons).

“Homem-Aranha no Aranhaverso” acaba sendo uma história de origem na essência mesmo que isso não seja o ponto principal. É uma animação com muito, muito mesmo de quadrinhos, abraçando estes de maneira exemplar (via os balões de conversa, onomatopeias e homenagens a cenas clássicas), além de exibir diversos estilos de animações como o anime e um mais cartunesco como os Looney Tunes. Na tradução, nomes como Mahershala Ali dublando o tio de Miles, Nicolas Cage como o Homem-Aranha Noir e Liev Schreiber como o Rei do Crime.

O filme é uma ode especular ao aracnídeo e em consequência aos quadrinhos e as histórias de super-heróis. É lírico, divertido, inspirador, representativo e emocionante. Espalhando trocentas referências pelo caminho sem soar pedante, o roteiro apresenta o néctar do amigão da vizinhança em várias e estimulantes cores e com destaque para todos os personagens inseridos. Uma coesão que chega a assustar e nutre no peito a vontade de assistir de novo e mais uma vez.

P.S: As cenas pós-créditos são simplesmente sensacionais.

P.S: O roteiro do filme foi liberado oficialmente. Só ir aqui (em inglês): http://origin-flash.sonypictures.com/ist/awards_screenplays/SV_screenplay.pdf

Nota: 9,5


Assista ao trailer: