terça-feira, 20 de novembro de 2018

Quadrinhos: "Os Defensores - Os Diamantes São Eternos", "Starlight - O Retorno de Duke McQueen", "O Outro Lado da Bola" e "Teocrasília"

 

O encadernado “Os Defensores - Os Diamantes são eternos” que a Panini Comics publica agora compila as edições de 1 a 5 lançadas nos EUA em 2017. Conta com roteiro do Brian Michael Bendis, arte do David Marquez e cores do Justin Ponsor e foi concebido para aproveitar a série da Netflix que carrega o mesmo nome. Na trama, Jessica Jones, Luke Cage, Punho de Ferro e Demolidor juntam forças para derrotar o vilão Cascavel que ressurge poderoso e cheio de artimanhas. Em meio a essa tarefa nada fácil como o início logo atesta, o quarteto ainda tem que se preocupar com outras situações como o Justiceiro no seu encalço. Utilizando parte do rol de personagens urbanos existentes em Nova York, Bendis concebe uma aventura divertida, mas completamente esquecível logo em seguida e bem abaixo do que ele é capaz.

Nota: 5,0

O que fazer quando os maiores feitos ficaram em um passado distante e praticamente a única coisa que resta é se arrastar sobrevivendo? Em “Starlight: O Retorno de Duke McQueen” é isso que temos ao fundo da história à la Flash Gordon desenvolvida por Mark Millar com arte de Goran Parlov que a Panini Books lançou no final de 2017 com capa dura e 168 páginas. Originalmente publicada nos EUA em 2014 pela Image Comics é mais um dos projetos que levam o selo Millarworld e narra a história de um veterano que há 40 anos salvou todo um planeta de um ditador cruel, mas na Terra só a falecida esposa acreditou. Até os próprios filhos achavam loucura. Quando uma espaçonave para no jardim e o chama novamente às armas nesse outro planeta, Duke revive e parte em uma nostálgica aventura.

Nota: 6,0

Cris joga futebol em um dos maiores clubes do Brasil. É o camisa 10, o craque, o cara. Tem vida de popstar e presença constante na mídia. Mas, Cris guarda um segredo: ele é homossexual. Algo que no mundo extremamente machista da bola é mais que um pecado, chega a ser um crime. Quando um ex-namorado é assassinado a pressão explode e o faz revelar na televisão que é gay, pedindo justiça. Com roteiro de Alvaro Campos e Alê Braga e arte em preto e branco de Jean Diaz, “O Outro Lado Da Bola” da Editora Record é daqueles trabalhos que já nascem como fundamentais. Nas 216 páginas o trio mostra todo o preconceito enraizado na cultura do esporte mais amado do país, como aproveita para tratar sobre a sujeira e corrupção dos bastidores e outros temas tão fortes quanto esses.

Nota: 9,0

Imagine o nosso país daqui a alguns poucos anos governado por um regime teocrático, com um grupo de religiosos fundamentalistas na presidência ditando normas e leis e punindo todos que quiserem ter algum tipo de liberdade? Hoje isso nem parece tão distante assim e é o que torna “Teocrasília” do Denis Mello mais assustador ainda. Utilizando de financiamento coletivo e com publicação final pela editora Caligari, as 144 páginas dessa história trazem uma distopia plenamente possível pelos caminhos que o país toma. O autor mergulha fundo no trabalho e desde 2017 gera obras auxiliares para dar mais expansão a esse universo. Mescla fatos reais com imaginação futura em um traço que consegue ir do suave ao feroz de acordo com o que roteiro pede. Trabalho espetacular que abre mais os olhos para o cenário que nos espreita logo ali depois da esquina.


Nota: 9,0



segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Literatura: "O Colecionador", "Era Uma Vez Uma Mulher Que Tentou Matar o Bebê da Vizinha" e "O Sol Na Cabeça"


Publicado originalmente em 1963, “O Colecionador” (The Collector, no original) é um daqueles livros que mesmo depois de tanto tempo ainda exala frescor e perturbação. Estreia do falecido escritor inglês John Fowles (1926-2005) recebeu elogios mil na época, vendeu um bocado depois, virou filme, etc. e tal. Há alguns anos fora de catálogo volta em 2018 pelas mãos da Darkside Books em edição primorosa com 355 páginas, capa dura, tradução de Antônio Bibau e alguns extras saborosos como prefácio de Stephen King, projeto gráfico luxuoso e explicação de referências ao final. Agora é possível se deparar novamente com o confronto entre Frederick Clegg e Miranda Gray, sequestrador e sequestrada, o louco e sua loucura, o colecionador e a presa. Enquanto trava esse embate nada justo, o autor explora as mentes dos personagens em um jogo tenso e aproveita-se disso para ali na margem e sublinhas se estender em temas ainda incipientes de discussão ou em outros universais como o direito a ser livre.

Nota: 7,0

Liudmila Petruchévskaia nasceu em 1938 em Moscou. Foi criança na segunda guerra e cresceu na guerra fria e tudo que isso acarretava morando na URSS no que concerne a liberdade individual. Só começou a ser publicada a passos de cágado na segunda metade dos anos 80, contudo sofreu censura até o final dos 90. A autora que veio ao Brasil esse ano para a Flip foi publicada pela primeira vez por aqui pela Companhia das Letras em “Era Uma Vez Uma Mulher Que Tentou Matar o Bebê da Vizinha” que traz o subtítulo “Histórias e Contos de Fadas Assustadores”. Com 206 páginas e tradução de Cecília Rosas temos 21 contos divididos em quatro blocos. Neles, Liudmila conta histórias nada comuns com tons sobrenaturais para dar vazão a ideias nascidas dentro de uma vivência nervosa. Ainda que o amor apareça quase que constantemente ele não salva e contos como “A Vingança” e “Higiene” são tão assustadores quanto poderosos se sobressaindo em um fascinante conjunto.


Nota: 7,5

“O Sol Na Cabeça” do carioca Geovani Martins fez barulho nesse ano. O jovem autor nascido em 1991 recebeu elogios de nomes conceituados, foi tema de várias matérias, esteve na Flip e viu a estreia alcançar patamares elevados (está na segunda reimpressão e será publicado no exterior) além de, logicamente, inserir o cenário de expectativa para o futuro. A obra apresenta 13 contos em 120 páginas, saiu pela Companhia das Letras e é praticamente impossível sair impune dela. Seja pela linguagem contida, pelo ritmo e tensão sempre presentes ou pela veracidade que os contos exalam, “O Sol Na Cabeça” é vigoroso, um chute forte nas partes baixas. Sem definir nitidamente heróis ou vilões (apesar de deixar claro) destroça a desigualdade e racismo presentes no Rio e em tantas outras cidades do país. Contos como “Rolézim”, “Estação Padre Miguel” e “Sextou” ou mesmo os mais líricos “O Cego” e “O Mistério da Vila” nos mostram um autor afiado e cortante que deixa gosto de quero mais.


Nota: 8,0

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Literatura: "O Orangotango Marxista", "Outsider" e "O Simpatizante"


No novo romance chamado “O Orangotango Marxista”, Marcelo Rubens Paiva mistura crítica social e política com humor irônico e funcional. O livro com 112 páginas teve lançamento esse ano pelo selo Alfaguara da Companhia das Letras. O peculiar personagem principal chegou ainda criança em São Paulo capturado na selva africana e transportado para a vida no cativeiro dentro de um laboratório de pesquisa. Com inteligência elevada aprende a linguagem de sinais com Kátia, a pesquisadora que lida diretamente e até que é feliz. Contudo em um arroubo de ciúme nada convencional é expulso do laboratório e enviado a um zoológico onde precisa aprender a sobreviver e começa a bolar um plano para destroçar a humanidade e os moldes da nossa sociedade. Nesse projeto esboçado de revolução, Fidel (esse é nome do orangotango) aguça mais ainda a inteligência e ao ler mais e mais despeja curiosas considerações sobre religião, luta de classes e estruturação comportamental, divertindo o leitor nessa briga imaginária.


Nota: 6,0


A pacata cidade de Flint City nos EUA não será a mesma depois que uma criança de onze anos é encontrada assassinada no parque com crueldade inimaginável até para mentes sórdidas. Todos as pistas apontam para o professor Terry Maitland, uma das figuras mais queridas e conhecidas do local e quando a polícia encabeçada pelo detetive Ralph Anderson ordena a prisão na frente de todos a cidade entra em estado de choque e revolta. Todavia, conforme o caso avança parece que a coisa não era bem assim. Ou será que era? É em cima dessa dúvida que se desenvolve a parte inicial de “Outsider” (The Outsider, no original) publicado esse ano pela Companhia das Letras com 528 páginas e tradução de Regiane Winarski. A partir disso surge com maior intensidade novos e estranhos dados na trama policial permitindo a Stephen King desenvolver toda sua habilidade como em obras mais antigas, prendendo o leitor como poucos sabem fazer. Mestre é mestre.


Nota: 7,5


“O Simpatizante” (The Sympathizer, no original) - livro de estreia de Viet Thanh Nguyen - ganhou o prêmio Pulitzer de ficção de 2016, o que é um senhor cartão de visitas, convenhamos. A obra foi publicada aqui ano passado pelo selo Alfaguara da Companhia das Letras com 392 páginas e tradução de Cássio de Arantes Leite. Thriller político de espionagem traz uma visão dura e fora dos padrões que vimos no decorrer dos anos sobre a guerra do Vietnã, indo tanto de situações de antes dos EUA adotarem o conflito, passando pelo conflito em si e culminando no depois dos exilados fora do país, como também na luta pela sobrevivência de cultura e costumes. O protagonista é um agente duplo vietnamita que dentro do exército do Vietnã do Sul junto com os ianques repassa informação para o outro lado onde reside na verdade seus ideais e coração. É um personagem fascinante que brilha em uma história vigorosa e com tons de épico.


Nota: 9,0

domingo, 21 de outubro de 2018

Quadrinhos: "Trillium", "Batman: Gotham 1889", "Uma Irmã" e "A Vida de Jonas".

A quantidade de trabalhos disponíveis do canadense Jeff Lemire no país só vem aumentado, o que é sempre interessante. Outra obra do autor que chegou aqui esse ano foi “Trillium”, uma ficção científica ancorada em dois polos bem distintos: os anos de 1921 e o de 3797. No primeiro ponto temos o soldado William Pike atordoado com os efeitos da primeira guerra mundial, no segundo conhecemos Nika Temsmith uma cientista em busca da cura para um vírus capaz de acabar de vez com a humanidade. A edição da Panini Comics tem 208 páginas em capa cartonada reunindo a história originalmente lançada entre outubro de 2013 e junho de 2014 nos EUA pelo selo Vertigo da DC Comics. Lemire constrói uma ponte para unir esses lados e no meio fala sobre amor, medo, xenofobia, preconceito e a inesgotável estupidez humana.

Nota: 7,0


Mantendo a toada das republicações de materiais dos anos 80 e 90 da DC, a Panini Books lança “Batman: Gotham 1889” em álbum de luxo com capa dura e 120 páginas. Apresentam-se duas histórias: a primeira que dá nome ao título lançada em 1989 e a sequência chamada “Mestre do Futuro” original de 1991. Ambas já haviam sido publicadas aqui pela editora Abril no início dos anos 90, mas agora estão juntas nessa viagem do roteirista Brian Augustyn dentro da linha Elseworlds que permite essas repaginações meio malucas. O destaque fica por conta da primeira história que conta com os desenhos do grande Mike Mignola e arte final de P. Craig Russell, onde o cavaleiro das trevas se depara com Jack, o Estripador em Gotham. Com uma toada detetivesca e sem muitas invenções temos uma trama contundente e divertida.

Nota: 7,0


No que parece ser umas férias como outra qualquer, o adolescente Antoine embarca com os pais e o irmão mais novo rumo ao litoral. Mas, dessa vez as férias serão inesquecíveis, com direito a aqueles dias que para sempre irão pontuar a memória devido a presença de Hélène, a filha de uma amiga dos pais um pouco mais velha que ele. Esse é o mote de “Uma Irmã”, novo trabalho do francês Bastien VIVÈS de “O Gosto do Cloro” com lançamento nacional no primeiro semestre 2018 pela editora Nemo com 216 páginas. O autor forja um enredo ao mesmo tempo crua e terna, com o despertar do desejo como força motriz e responsável por suplantar problemas pessoais e familiares. VIVÈS usa de grande habilidade para contar a história desses dois jovens em meio a descobertas, inadequação e crescimento. Bem bonito.

Uma amostra: https://grupoautentica.com.br/nemo/amostra/1564 


Nota: 7,5



“A Vida de Jonas” dos irmãos Magno e Marcelo Costa saiu em 2014, contudo ganhou reedição em 2017 pela Zarabatana Books com 64 páginas. O protagonista que dá nome ao título é um ex-alcoólatra (e a duras penas busca ficar assim) que por conta do vício perdeu a mulher e o emprego, está com a vida ainda jogada para cima e tenta se reerguer como pode. Com o apoio de reuniões do AA e de um amigo, a esperança volta ao peito até ser novamente destroçada em um encontro com o atual namorado da ex-mulher. A partir disso temos uma sequência de acontecimentos que vão definir não somente a vida de Jonas como também daqueles a sua volta. Usando fantoches na arte (como Muppets), a dupla alivia e amplifica ao mesmo tempo questões sérias em uma história pesada e muitíssimo bem construída.

Nota: 9,0



sábado, 20 de outubro de 2018

Quadrinhos: "Huck", "Orks", "Horácio - Mãe" e "A Marcha - Livro 1"


A Panini publicou esse ano por aqui a parceira do Mark Millar (de “Kick-Ass”) com o gaúcho Rafael Albuquerque (de “Vampiro Americano”) originalmente lançada pela Image Comics entre novembro de 2015 e abril de 2016. “Huck” (nada a ver com o apresentador mala da tevê) é um cara grandão, simplório e ingênuo com um coração do tamanho do mundo. Dotado de vários poderes vive ajudando os moradores da pequena cidade em que mora. Seus dons são um segredo guardado pelos habitantes por anos, até ocorrer um vazamento que levará o protagonista a uma aventura clássica em busca das origens e de derrotar um poderoso cientista e suas crias. Com 164 páginas e capa dura, “Huck” é um trabalho leve, agradável de ler, onde Mark Millar homenageia o Superman e para tanto conta com a arte sempre impecável de Rafael Albuquerque.

Nota: 6,0



Para quem gosta de fantasia medieval e histórias de capas e espadas, “Orks” é uma obra que agrada perfeitamente. Com roteiro de Nicolas Tackian e arte de Nicolas Guénet, a edição de luxo foi publicada esse ano pela linha “Gold Edition” da Mythos Books com capa dura, 116 páginas e formato grande (23,4cm x 32,3cm). Com arte cheia de detalhes e tendo as cores com parte fundamental da engrenagem, o roteiro inverte um pouco a maneira que estamos habituados a ver os seres que transitam pela história como elfos, anões, homens, feiticeiras e, lógico, os Orks. Na trama que envolve magia e várias maquinações sombrias temos uma guerra entre os povos com aliados improváveis, enquanto devastação e morte se apresentam em demasia. Sem muitas concessões ou salvamentos improváveis, “Orks” apresenta vários méritos e alguma novidade dentro de um estilo tão explorado.

Nota: 7,0



Eis que finalmente o projeto Graphic MSP trouxe para as bancas um dos personagens mais queridos do cardápio do Mauricio de Sousa: o Horácio. O pequeno, vegetariano e bondoso Tiranossauro que despeja reflexões enquanto sobrevive em meio a um mundo onde os fortes mandam, talvez seja a criação mais interessante do autor. Seu xodó, foi deixado de propósito para mais adiante até achar o nome ideal. Isso veio através do santista Fabio Coala. O quadrinhista já expunha em seus trabalhos algo parecido com a pegada do personagem e casou perfeitamente. “Horácio – Mãe” é sobre se sentir sozinho, sobre obstinação, sobre amizade, sobre superar obstáculos. Enquanto procura a mãe que nunca conheceu o miúdo dinossauro precisa ter mais coragem que nunca para encarar todas as descobertas a que é apresentado, enquanto joga aqui e ali alguma pitada sobre a vida.


Nota: 7,0



John Lewis foi uma das principais figuras no processo de conquista dos direitos civis para os negros nos EUA e se manteve como um farol de competência na luta pela igualdade e justiça dos anos 60 até hoje. Com Andrew Yadin e o quadrinhista Nate Powell concebeu “A Marcha”, primeira série em quadrinhos a vencer o prestigiado National Book Award.  O volume inicial saiu esse ano pela editora Nemo com 128 páginas e tradução do Érico Assis. Começando em 20 de janeiro de 2009 na posse de Barack Obama, o roteiro volta no tempo para contar o crescimento do congressista até chegar ao início da briga (pacífica ou não) contra um sistema estúpido e imoral de segregação racial. Uma história poderosa, mais que necessária para os dias tão sombrios em que vivemos e que serve como fonte de inspiração.

Site oficial do John Lewis: https://johnlewis.house.gov

Nota: 9,5






domingo, 29 de julho de 2018

Quadrinhos: "Crononautas", "Hell, No!" e "Nada a Perder"


Olha essa escalação: Mark Millar (Kick-Ass) no roteiro e criação, Sean Gordon Murphy (Punk Rock Jesus) na arte e criação e o mestre Matt Hollingsworth responsável pelas cores. Não tem como dar errado, correto? Pois é, é difícil de acreditar mas deu em “Crononautas”. Se deu. Lançado nos EUA em 4 edições entre março e junho de 2015 ganhou edição nacional em 2018 pela Panini Books com capa dura, 120 páginas e tradução de Eric Novello. A história é uma ficção científica que não ambiciona detalhamento ou expandir conceitos, o que passa longe de ser um problema, diga-se aqui, porém a caracterização e condução da trama é rasa demais até para esse tipo de modelo, parecendo ter sido feita com pressa e com certa preguiça. Bancados pelo governo os amigos Corbin Quinn e Danny Reilly conseguem desvendar a viagem do tempo e depois do sucesso das primeiras tentativas partem para uma missão tripulada. Seus trajes lhe permitem passear por qualquer momento da história e isso causa um problema danado depois que a dupla simplesmente resolve mandar o governo às favas e viver a própria vida. Para dizer que não tem nada que se salve, a arte de Sean Murphy rende bons momentos. E só.

Nota: 3,0


Lúcio é um garoto no mínimo peculiar. Ele é filho do Diabo com uma humana. Sim, o Diabo mesmo. O próprio. Como ele é - por assim dizer – mestiço, tem que aguentar a convivência nada tranquila com os dois irmãos enquanto frequenta a escola que logicamente fica no inferno. Para complicar mais as coisas, seu melhor amigo é um pequeno demônio que curte Deus e só anda com a bíblia. Esse é o mote de “Hell No!”, criação do quadrinista brasileiro Leo Finocchi (de “Nem Morto”) que já tem duas edições (uma de 2017 e outra de 2018), ambas viabilizadas através de financiamento coletivo em conjunto com a Balão Editorial. Cada uma tem 30 e poucas páginas e com uma pegada bem jovem, tem no humor a grande força. A história é bem divertida explorando tanto a parte visual quanto piadas do cotidiano e quando os irmãos se colocam no meio de um diabólico (ok, não me controlei, foi mal) plano que visa destituir o Diabo do comando e são enviados a Terra para viver no meio dos humanos a coisa passa a render mais ainda. Publicado também de modo online no site Tapastic, “Hell No!” é uma aventura despretensiosa no melhor sentido e bem bacana.

Nota: 7,0


Nascido em 1976 o canadense Jeff Lemire é provavelmente o quadrinista mais interessante da atualidade. Com grandes trabalhos autorais no currículo como a obra-prima “Condado de Essex”, exibe também passagens relevantes nas editoras maiores como DC, Marvel e Dark Horse. Tudo (ou quase tudo) que carrega o seu nome é digno de nota e não é diferente com “Nada a Perder” (Roughneck, no original), publicação nacional desse ano da editora Nemo com 272 páginas e tradução de Jim Anotsu. Com o habitual traço e dessa vez se utilizando de tons mais azuis aliados ao preto e branco, Lemire conta a história de Derek Ouelette, um ex-jogador profissional de hóquei que tinha um futuro promissor, mas que ferrou com tudo devido ao temperamento. Hoje vive na pequena cidade que nasceu, mora em um buraco e trabalha na cozinha de uma lanchonete. É um cara difícil, amargurado e violento que tem o álcool como melhor amigo. Um babaca brigão, em resumo. Porém, quando alguém que já parecia perdida reaparece, as coisas tomam um inesperado caminho. Explorando recursos já usados anteriormente como frio, neve, dor, arrependimento e culpa, o autor constrói um triste e silencioso balé que tem origens profundas e parece não oferecer nenhum tipo de redenção ou esperança.

Nota: 9,0



sábado, 28 de julho de 2018

Quadrinhos: "Todos Os Santos", "Sem Volta" e "A Propriedade"


“Talco de Vidro”, “Hinário Nacional” e principalmente “Tungstênio” (que virou filme esse ano) fazem do carioca nascido em Niterói Marcelo Quintanilha, um dos quadrinistas mais relevantes e importantes do cenário nacional com obras publicadas em vários países com sucesso. Mesmo morando em Barcelona na Espanha desde 2002 continua versando como poucos sobre as coisas da vida nacional, principalmente do estado natal. “Todos Os Santos”, publicação da editora Veneta desse ano com 114 páginas em capa dura e zeloso trabalho editorial é um compêndio bem amplo das coisas que o autor já fez desde que começou em 1988 desenhando histórias de terror e artes marciais para a Bloch Editores. Temos alguns textos, partes de entrevistas, páginas dos primeiros trabalhos, ilustrações em revistas e tiras publicadas no Estado de São Paulo, onde já mostrava a toada que estaria presente nas suas obras mais conhecidas e respeitadas. Além disso, apresenta impressa pela primeira vez a história “Acomodados!! Acomodados!!” que ganhou a primeira Bienal Internacional de Quadrinhos do Rio de Janeiro lá no já longínquo ano de 1991. “Todos Os Santos” é um preciso atestado de versatilidade e construção de uma carreira, contudo se faz interessante somente para aqueles que já conhecem o autor e querem ir mais além.

Nota: 7,0


Se fosse só por “Black Hole”, Charles Burns já teria um merecido lugar no panteão dos grandes autores de quadrinhos de todos os tempos. Mas o norte-americano não se contentou com isso e criou outro trabalho intenso e perturbador em “Sem Volta” que ganha edição nacional pelo selo Quadrinhos na Cia. da Companhia das Letras, com 176 páginas, formato grande (20.8x27cm) e tradução do quadrinista Diego Gerlach. A edição nacional compila as três edições lançadas lá fora em 2010 (X´ed Out), 2012 (The Hive) e 2014 (Sugar Skul) que trazem o jovem Doug como confuso e imperfeito personagem central. Ambientada na segunda metade dos anos 70 com a efervescência do punk em segundo plano, Charles Burns traz uma história sobre amadurecimento, primeiros amores, inquietude, decisões erradas e muita culpa. Como de costume embala os temas usando bichos e criaturas estranhas, delírios e devaneios complexos e situações incomuns. O protagonista inicia a obra jogado em uma cama, com curativos na cabeça e sem se lembrar de quase nada dos motivos de estar ali. Na busca de lembrar e entender o que aconteceu, temos um desfile do que o autor sabe fazer de melhor (dessa vez em cores) e de onde o leitor nunca sairá ileso.

Nota: 8,5

Leia um trecho gratuitamente, aqui.



Mica Segal é uma israelense que decide acompanhar a avó em uma viagem para a Polônia que tem como objetivo principal recuperar um imóvel perdido durante a segunda guerra mundial, quando as tropas de Hitler tomavam conta do país. A avó chamada Regina conseguiu fugir e se salvar, enquanto pessoas da família e conhecidos sucumbiram ao terror imposto pelo nazismo. No contato não muito fácil com a avó, Mica descobre aos poucos que a questão do imóvel pode ser apenas um falso pretexto para essa viagem encoberta por mais segredos que ela ousaria pensar. “A Propriedade” da quadrinista israelense Rutu Modan ganhou o prêmio Eisner de melhor novela gráfica original em 2014, tendo edição nacional no ano seguinte pela editora WMF Martins Fontes com tradução de Marcelo Brandão Cipolla e 224 páginas. A autora de “Exit Wounds” (ainda inédito no Brasil) que também lhe rendeu um Eisner, elabora uma história que consegue não somente ser sobre família, como também envolve um amor antigo e a ambição desmesurada das pessoas, sem esquecer de algum humor para aliviar o quadro geral pesado e destrutivo em que é construído. Uma bela obra com ótimo uso das cores e carregada de sutilezas e emoções.

Nota: 9,0

domingo, 24 de junho de 2018

Quadrinhos: "Ragemoor", "Bipolar - Volume 1" - "Os Flintstones - Volumes 1 e 2"


Um castelo antigo, enfiado no meio do nada, repleto de estranhezas e que esconde muito mais do que se pode imaginar. Uma construção que se contorce, se contrai e se expande ao próprio gosto e necessidade tanto para afastar visitantes indesejados e se proteger quanto para confinar uma família entre as paredes por várias gerações. Herbert é o mais novo integrante dessa família quando recebe a visita de um tio e uma prima cheios de segundas intenções. Morando apenas com o mordomo e o pai completamente ensandecido, além de uns serviçais bem peculiares, o anfitrião vê as coisas literalmente desmoronarem na noite que se segue a essa visita. Essa é a história básica de “Ragemoor”, publicação desse ano da editora Mino com capa dura, 122 páginas, formato 16,8x25,9cm em preto e branco e contendo vários extras. Com roteiro de Jan Strnad e arte do mestre Richard Corben (de “Espíritos dos Mortos” lançado aqui no ano passado) a obra traz um horror à moda antiga, com monstros, castelos e entidades misteriosas envolvidas em um pano de fundo de provação, superação, loucura e romance. Um tipo de terror que foge um pouco dos lançamentos mais comuns do estilo atualmente e por conta disso agrada bem.

Nota: 7,0


Estamos no futuro. Uns 40 anos antes o mundo se partiu após um conflito mundial de enormes proporções onde pouco mais de 20% da população sobreviveu. As antigas nações acabaram e se fundiram em apenas dois lados: a União Ocidental e o Governo Popular Oriental. Ocidente contra Oriente. Esse é o cenário de “Bipolar - Volume 1”, primeira metade da história concebida por Renan Rivero com arte de Diogo Torres e capa de Ramon Saroldi. Com 84 páginas, em preto e branco, e produção independente alcançada através de financiamento coletivo, é ficção científica das boas, bem articulada e construída, em um leve nível acima da média da produção nacional. Nesse panorama todo está Charlie, uma jovem criptóloga que serve as forças ocidentais, mas além dos propósitos implícitos da sua atividade, busca saber mais sobre o pai que morreu misteriosamente quando ela era criança. Quando aparece um estranho e misterioso objeto com propriedades e fabricação oculta, ela tem a possibilidade de atingir os dois objetivos. Usando de maneira habilidosa diversas influências do universo da ficção científica futurista (o clássico “Neuromancer” de William Gibson é bem presente, por exemplo), “Bipolar” é uma hq que merece muito sair em uma edição que atinja um alcance maior.

Nota: 8,0


A série animada “Os Flintstones” criada nos anos 60 nos EUA teve mais de 160 episódios e se tornou sucesso em vários outros países. Obra da lendária dupla William Hanna e Joseph Barbera, também cativou milhares de crianças e jovens no Brasil. A DC Comics que possui os direitos sobre os personagens os reimaginou em quadrinhos em 12 edições que saíram originalmente entre setembro de 2016 e agosto de 2017 e que a Panini Books lançou aqui em dois volumes publicados no ano passado e agora em 2018, com capa cartonada e alguns extras. Vivendo na idade da pedra na cidade de Bedrock, mas com tecnologias que remetem diretamente a nossa época que são construídas ou por animais ou por estranhas geringonças, Fred Flintstone, sua esposa Wilma e a filha Pedrita vivem em harmonia com os vizinhos e demais habitantes da cidade. Em cima desse cotidiano é que o roteiro de Mark Russell se expande e atravessa de modo satírico e mordaz temas como trabalho, religião, costumes, guerras, política e relações pessoais. A arte de Steve Pugh com as cores de Chris Chuckry são mais que eficientes para amplificar essa pegada inserido um humor visual no meio dos absurdos e críticas afiadas da história.

Nota: 9,0



segunda-feira, 18 de junho de 2018

Quadrinhos: "Deuses Americanos - Sombras", "Cadafalso" e "Jeremias - Pele"


“Deuses Americanos” é provavelmente o melhor livro de Neil Gaiman. Entre tantos que o consagrado autor já fez é o que mais se destaca. Lançado originalmente em 2001, ganhou uma excelente adaptação em formato de série televisiva (está disponível na Amazon Prime Video) e agora também se aventurou para os quadrinhos, seara que Gaiman domina como poucos e concebeu obras-primas. Publicada originalmente nos EUA pela Dark Horse, a Intrínseca lançou recentemente aqui o primeiro dos três volumes previstos chamado “Sombras”. Com 264 páginas em formato 17x26cm, a obra tem tradução de Fernando Scheibe e Leonardo Alves e apresenta diversos extras como esboços e capas alternativas que dão um plus e tanto. A adaptação ficou sob a responsabilidade de P. Craig Russell (Doutor Estranho) e Scott Hampton (Sandman) que nesse primeiro arco trazem Shadow Moon saindo da prisão e tendo que lidar com a morte da esposa e o encontro com o misterioso Wednesday que o insere em uma misteriosa guerra travada entre os deuses antigos das mitologias de cada país que chegaram aos EUA através dos imigrantes e os novos deuses dos dias atuais (como internet, mídia, etc.). Com algumas mudanças sutis no texto e na formatação, essa nova investida fica bem abaixo do esperado para quem já conhece a obra (seja do livro ou série), devendo funcionar melhor para os neófitos.

Nota: 6,0



“Composto no ano de 2017, durante a longa noite que se abateu sobre o país, período de vigência do golpe de agosto de 2016. Ainda que não verse sobre ele, sua sombra pode ser notada em todo o canto”. É o que escreve Alcimar Frazão no final do novo trabalho “Cadafalso” e realmente percebemos que essa sombra permeia tudo. Com 128 páginas, formato grande (21x27cm) e uma edição caprichada da editora Mino, o quadrinista viaja por Florença, Barcelona, São Paulo e Porto Alegre em anos e épocas distintas em contos que tratam da vida, do existir e dos absurdos que circundam isso. A arte em preto e branco alcança níveis ainda mais elevados do que em “O Diabo e Eu”, obra anterior do autor, e os contos trazem parcerias com nomes como Lourenço Mutarelli, Magno Costa e Dalton Cara. Do artista renascentista obcecado com a própria arte e religião, passando pelo motoboy que corre sem parar pela capital paulista, temos histórias que não são fáceis, carregam um cunho existencial, às vezes com poucas palavras e em outras usando projeções mentais, mas sempre com o impacto poderoso da arte. A história final que traz um velho recluso, cheio de delírios de grandeza e paranoia carregando dentro de si um moralismo demasiado e nocivo é a cereja do bolo de um álbum pesado e vigoroso.

Nota: 8,5


Jeremias é um raro personagem negro dentro do mundo concebido por Mauricio de Sousa. Estreou em 1960 e desde então tem sido mero coadjuvante nas histórias da turminha, encabeçando poucas aventuras solo nesses anos. Isso muda com “Jeremias - Pele”, mais um trabalho dentro do projeto Graphic MSP (o 18º) desta vez comandado por Rafael Calça e Jefferson Costa, e, talvez, o mais importante até agora. Com 98 páginas e publicação pela Panini Comics, os autores apresentam o protagonista no convívio com a família e na sua escola, onde depois de um dever sobre profissões encaminhado de maneira desastrosa pela professora, começa a sofrer preconceito mais severamente, por mais que este sempre estivesse presente ao redor. O texto insere situações cotidianas que os autores já passaram ou presenciaram na escola, no trabalho, na esquina, na rua. Situações que também vimos quando crianças - em maior ou menor escala - e temos a missão de não deixar que essas atitudes sejam feitas pelos nossos filhos, irmãos e sobrinhos. É por isso que “Jeremias - Pele” é tão importante. Mesmo que fale sobre racismo ainda sem toda a intensidade desejada, pelo alcance que tem poderá entrar na vida de milhares de jovens no momento certo, antes que o preconceito chegue e fique enraizado para o resto da vida.

Nota: 9,5