domingo, 29 de julho de 2018

Quadrinhos: "Crononautas", "Hell, No!" e "Nada a Perder"


Olha essa escalação: Mark Millar (Kick-Ass) no roteiro e criação, Sean Gordon Murphy (Punk Rock Jesus) na arte e criação e o mestre Matt Hollingsworth responsável pelas cores. Não tem como dar errado, correto? Pois é, é difícil de acreditar mas deu em “Crononautas”. Se deu. Lançado nos EUA em 4 edições entre março e junho de 2015 ganhou edição nacional em 2018 pela Panini Books com capa dura, 120 páginas e tradução de Eric Novello. A história é uma ficção científica que não ambiciona detalhamento ou expandir conceitos, o que passa longe de ser um problema, diga-se aqui, porém a caracterização e condução da trama é rasa demais até para esse tipo de modelo, parecendo ter sido feita com pressa e com certa preguiça. Bancados pelo governo os amigos Corbin Quinn e Danny Reilly conseguem desvendar a viagem do tempo e depois do sucesso das primeiras tentativas partem para uma missão tripulada. Seus trajes lhe permitem passear por qualquer momento da história e isso causa um problema danado depois que a dupla simplesmente resolve mandar o governo às favas e viver a própria vida. Para dizer que não tem nada que se salve, a arte de Sean Murphy rende bons momentos. E só.

Nota: 3,0


Lúcio é um garoto no mínimo peculiar. Ele é filho do Diabo com uma humana. Sim, o Diabo mesmo. O próprio. Como ele é - por assim dizer – mestiço, tem que aguentar a convivência nada tranquila com os dois irmãos enquanto frequenta a escola que logicamente fica no inferno. Para complicar mais as coisas, seu melhor amigo é um pequeno demônio que curte Deus e só anda com a bíblia. Esse é o mote de “Hell No!”, criação do quadrinista brasileiro Leo Finocchi (de “Nem Morto”) que já tem duas edições (uma de 2017 e outra de 2018), ambas viabilizadas através de financiamento coletivo em conjunto com a Balão Editorial. Cada uma tem 30 e poucas páginas e com uma pegada bem jovem, tem no humor a grande força. A história é bem divertida explorando tanto a parte visual quanto piadas do cotidiano e quando os irmãos se colocam no meio de um diabólico (ok, não me controlei, foi mal) plano que visa destituir o Diabo do comando e são enviados a Terra para viver no meio dos humanos a coisa passa a render mais ainda. Publicado também de modo online no site Tapastic, “Hell No!” é uma aventura despretensiosa no melhor sentido e bem bacana.

Nota: 7,0


Nascido em 1976 o canadense Jeff Lemire é provavelmente o quadrinista mais interessante da atualidade. Com grandes trabalhos autorais no currículo como a obra-prima “Condado de Essex”, exibe também passagens relevantes nas editoras maiores como DC, Marvel e Dark Horse. Tudo (ou quase tudo) que carrega o seu nome é digno de nota e não é diferente com “Nada a Perder” (Roughneck, no original), publicação nacional desse ano da editora Nemo com 272 páginas e tradução de Jim Anotsu. Com o habitual traço e dessa vez se utilizando de tons mais azuis aliados ao preto e branco, Lemire conta a história de Derek Ouelette, um ex-jogador profissional de hóquei que tinha um futuro promissor, mas que ferrou com tudo devido ao temperamento. Hoje vive na pequena cidade que nasceu, mora em um buraco e trabalha na cozinha de uma lanchonete. É um cara difícil, amargurado e violento que tem o álcool como melhor amigo. Um babaca brigão, em resumo. Porém, quando alguém que já parecia perdida reaparece, as coisas tomam um inesperado caminho. Explorando recursos já usados anteriormente como frio, neve, dor, arrependimento e culpa, o autor constrói um triste e silencioso balé que tem origens profundas e parece não oferecer nenhum tipo de redenção ou esperança.

Nota: 9,0



sábado, 28 de julho de 2018

Quadrinhos: "Todos Os Santos", "Sem Volta" e "A Propriedade"


“Talco de Vidro”, “Hinário Nacional” e principalmente “Tungstênio” (que virou filme esse ano) fazem do carioca nascido em Niterói Marcelo Quintanilha, um dos quadrinistas mais relevantes e importantes do cenário nacional com obras publicadas em vários países com sucesso. Mesmo morando em Barcelona na Espanha desde 2002 continua versando como poucos sobre as coisas da vida nacional, principalmente do estado natal. “Todos Os Santos”, publicação da editora Veneta desse ano com 114 páginas em capa dura e zeloso trabalho editorial é um compêndio bem amplo das coisas que o autor já fez desde que começou em 1988 desenhando histórias de terror e artes marciais para a Bloch Editores. Temos alguns textos, partes de entrevistas, páginas dos primeiros trabalhos, ilustrações em revistas e tiras publicadas no Estado de São Paulo, onde já mostrava a toada que estaria presente nas suas obras mais conhecidas e respeitadas. Além disso, apresenta impressa pela primeira vez a história “Acomodados!! Acomodados!!” que ganhou a primeira Bienal Internacional de Quadrinhos do Rio de Janeiro lá no já longínquo ano de 1991. “Todos Os Santos” é um preciso atestado de versatilidade e construção de uma carreira, contudo se faz interessante somente para aqueles que já conhecem o autor e querem ir mais além.

Nota: 7,0


Se fosse só por “Black Hole”, Charles Burns já teria um merecido lugar no panteão dos grandes autores de quadrinhos de todos os tempos. Mas o norte-americano não se contentou com isso e criou outro trabalho intenso e perturbador em “Sem Volta” que ganha edição nacional pelo selo Quadrinhos na Cia. da Companhia das Letras, com 176 páginas, formato grande (20.8x27cm) e tradução do quadrinista Diego Gerlach. A edição nacional compila as três edições lançadas lá fora em 2010 (X´ed Out), 2012 (The Hive) e 2014 (Sugar Skul) que trazem o jovem Doug como confuso e imperfeito personagem central. Ambientada na segunda metade dos anos 70 com a efervescência do punk em segundo plano, Charles Burns traz uma história sobre amadurecimento, primeiros amores, inquietude, decisões erradas e muita culpa. Como de costume embala os temas usando bichos e criaturas estranhas, delírios e devaneios complexos e situações incomuns. O protagonista inicia a obra jogado em uma cama, com curativos na cabeça e sem se lembrar de quase nada dos motivos de estar ali. Na busca de lembrar e entender o que aconteceu, temos um desfile do que o autor sabe fazer de melhor (dessa vez em cores) e de onde o leitor nunca sairá ileso.

Nota: 8,5

Leia um trecho gratuitamente, aqui.



Mica Segal é uma israelense que decide acompanhar a avó em uma viagem para a Polônia que tem como objetivo principal recuperar um imóvel perdido durante a segunda guerra mundial, quando as tropas de Hitler tomavam conta do país. A avó chamada Regina conseguiu fugir e se salvar, enquanto pessoas da família e conhecidos sucumbiram ao terror imposto pelo nazismo. No contato não muito fácil com a avó, Mica descobre aos poucos que a questão do imóvel pode ser apenas um falso pretexto para essa viagem encoberta por mais segredos que ela ousaria pensar. “A Propriedade” da quadrinista israelense Rutu Modan ganhou o prêmio Eisner de melhor novela gráfica original em 2014, tendo edição nacional no ano seguinte pela editora WMF Martins Fontes com tradução de Marcelo Brandão Cipolla e 224 páginas. A autora de “Exit Wounds” (ainda inédito no Brasil) que também lhe rendeu um Eisner, elabora uma história que consegue não somente ser sobre família, como também envolve um amor antigo e a ambição desmesurada das pessoas, sem esquecer de algum humor para aliviar o quadro geral pesado e destrutivo em que é construído. Uma bela obra com ótimo uso das cores e carregada de sutilezas e emoções.

Nota: 9,0

domingo, 24 de junho de 2018

Quadrinhos: "Ragemoor", "Bipolar - Volume 1" - "Os Flintstones - Volumes 1 e 2"


Um castelo antigo, enfiado no meio do nada, repleto de estranhezas e que esconde muito mais do que se pode imaginar. Uma construção que se contorce, se contrai e se expande ao próprio gosto e necessidade tanto para afastar visitantes indesejados e se proteger quanto para confinar uma família entre as paredes por várias gerações. Herbert é o mais novo integrante dessa família quando recebe a visita de um tio e uma prima cheios de segundas intenções. Morando apenas com o mordomo e o pai completamente ensandecido, além de uns serviçais bem peculiares, o anfitrião vê as coisas literalmente desmoronarem na noite que se segue a essa visita. Essa é a história básica de “Ragemoor”, publicação desse ano da editora Mino com capa dura, 122 páginas, formato 16,8x25,9cm em preto e branco e contendo vários extras. Com roteiro de Jan Strnad e arte do mestre Richard Corben (de “Espíritos dos Mortos” lançado aqui no ano passado) a obra traz um horror à moda antiga, com monstros, castelos e entidades misteriosas envolvidas em um pano de fundo de provação, superação, loucura e romance. Um tipo de terror que foge um pouco dos lançamentos mais comuns do estilo atualmente e por conta disso agrada bem.

Nota: 7,0


Estamos no futuro. Uns 40 anos antes o mundo se partiu após um conflito mundial de enormes proporções onde pouco mais de 20% da população sobreviveu. As antigas nações acabaram e se fundiram em apenas dois lados: a União Ocidental e o Governo Popular Oriental. Ocidente contra Oriente. Esse é o cenário de “Bipolar - Volume 1”, primeira metade da história concebida por Renan Rivero com arte de Diogo Torres e capa de Ramon Saroldi. Com 84 páginas, em preto e branco, e produção independente alcançada através de financiamento coletivo, é ficção científica das boas, bem articulada e construída, em um leve nível acima da média da produção nacional. Nesse panorama todo está Charlie, uma jovem criptóloga que serve as forças ocidentais, mas além dos propósitos implícitos da sua atividade, busca saber mais sobre o pai que morreu misteriosamente quando ela era criança. Quando aparece um estranho e misterioso objeto com propriedades e fabricação oculta, ela tem a possibilidade de atingir os dois objetivos. Usando de maneira habilidosa diversas influências do universo da ficção científica futurista (o clássico “Neuromancer” de William Gibson é bem presente, por exemplo), “Bipolar” é uma hq que merece muito sair em uma edição que atinja um alcance maior.

Nota: 8,0


A série animada “Os Flintstones” criada nos anos 60 nos EUA teve mais de 160 episódios e se tornou sucesso em vários outros países. Obra da lendária dupla William Hanna e Joseph Barbera, também cativou milhares de crianças e jovens no Brasil. A DC Comics que possui os direitos sobre os personagens os reimaginou em quadrinhos em 12 edições que saíram originalmente entre setembro de 2016 e agosto de 2017 e que a Panini Books lançou aqui em dois volumes publicados no ano passado e agora em 2018, com capa cartonada e alguns extras. Vivendo na idade da pedra na cidade de Bedrock, mas com tecnologias que remetem diretamente a nossa época que são construídas ou por animais ou por estranhas geringonças, Fred Flintstone, sua esposa Wilma e a filha Pedrita vivem em harmonia com os vizinhos e demais habitantes da cidade. Em cima desse cotidiano é que o roteiro de Mark Russell se expande e atravessa de modo satírico e mordaz temas como trabalho, religião, costumes, guerras, política e relações pessoais. A arte de Steve Pugh com as cores de Chris Chuckry são mais que eficientes para amplificar essa pegada inserido um humor visual no meio dos absurdos e críticas afiadas da história.

Nota: 9,0



segunda-feira, 18 de junho de 2018

Quadrinhos: "Deuses Americanos - Sombras", "Cadafalso" e "Jeremias - Pele"


“Deuses Americanos” é provavelmente o melhor livro de Neil Gaiman. Entre tantos que o consagrado autor já fez é o que mais se destaca. Lançado originalmente em 2001, ganhou uma excelente adaptação em formato de série televisiva (está disponível na Amazon Prime Video) e agora também se aventurou para os quadrinhos, seara que Gaiman domina como poucos e concebeu obras-primas. Publicada originalmente nos EUA pela Dark Horse, a Intrínseca lançou recentemente aqui o primeiro dos três volumes previstos chamado “Sombras”. Com 264 páginas em formato 17x26cm, a obra tem tradução de Fernando Scheibe e Leonardo Alves e apresenta diversos extras como esboços e capas alternativas que dão um plus e tanto. A adaptação ficou sob a responsabilidade de P. Craig Russell (Doutor Estranho) e Scott Hampton (Sandman) que nesse primeiro arco trazem Shadow Moon saindo da prisão e tendo que lidar com a morte da esposa e o encontro com o misterioso Wednesday que o insere em uma misteriosa guerra travada entre os deuses antigos das mitologias de cada país que chegaram aos EUA através dos imigrantes e os novos deuses dos dias atuais (como internet, mídia, etc.). Com algumas mudanças sutis no texto e na formatação, essa nova investida fica bem abaixo do esperado para quem já conhece a obra (seja do livro ou série), devendo funcionar melhor para os neófitos.

Nota: 6,0



“Composto no ano de 2017, durante a longa noite que se abateu sobre o país, período de vigência do golpe de agosto de 2016. Ainda que não verse sobre ele, sua sombra pode ser notada em todo o canto”. É o que escreve Alcimar Frazão no final do novo trabalho “Cadafalso” e realmente percebemos que essa sombra permeia tudo. Com 128 páginas, formato grande (21x27cm) e uma edição caprichada da editora Mino, o quadrinista viaja por Florença, Barcelona, São Paulo e Porto Alegre em anos e épocas distintas em contos que tratam da vida, do existir e dos absurdos que circundam isso. A arte em preto e branco alcança níveis ainda mais elevados do que em “O Diabo e Eu”, obra anterior do autor, e os contos trazem parcerias com nomes como Lourenço Mutarelli, Magno Costa e Dalton Cara. Do artista renascentista obcecado com a própria arte e religião, passando pelo motoboy que corre sem parar pela capital paulista, temos histórias que não são fáceis, carregam um cunho existencial, às vezes com poucas palavras e em outras usando projeções mentais, mas sempre com o impacto poderoso da arte. A história final que traz um velho recluso, cheio de delírios de grandeza e paranoia carregando dentro de si um moralismo demasiado e nocivo é a cereja do bolo de um álbum pesado e vigoroso.

Nota: 8,5


Jeremias é um raro personagem negro dentro do mundo concebido por Mauricio de Sousa. Estreou em 1960 e desde então tem sido mero coadjuvante nas histórias da turminha, encabeçando poucas aventuras solo nesses anos. Isso muda com “Jeremias - Pele”, mais um trabalho dentro do projeto Graphic MSP (o 18º) desta vez comandado por Rafael Calça e Jefferson Costa, e, talvez, o mais importante até agora. Com 98 páginas e publicação pela Panini Comics, os autores apresentam o protagonista no convívio com a família e na sua escola, onde depois de um dever sobre profissões encaminhado de maneira desastrosa pela professora, começa a sofrer preconceito mais severamente, por mais que este sempre estivesse presente ao redor. O texto insere situações cotidianas que os autores já passaram ou presenciaram na escola, no trabalho, na esquina, na rua. Situações que também vimos quando crianças - em maior ou menor escala - e temos a missão de não deixar que essas atitudes sejam feitas pelos nossos filhos, irmãos e sobrinhos. É por isso que “Jeremias - Pele” é tão importante. Mesmo que fale sobre racismo ainda sem toda a intensidade desejada, pelo alcance que tem poderá entrar na vida de milhares de jovens no momento certo, antes que o preconceito chegue e fique enraizado para o resto da vida.

Nota: 9,5



terça-feira, 5 de junho de 2018

Literatura: "Hippie", "Os Beneditinos" e "Fechado Por Motivo de Futebol"


Paulo Coelho chegou ao vigésimo livro. Chama-se “Hippie” o novo rebento de 288 páginas e lançamento pela Paralela, selo da Companhia das Letras. Dois anos depois de lançar “A Espiã” ele agora mergulha nas lembranças da juventude no final dos anos 60 e início dos anos 70 onde tateava ainda sem muita convicção o seu futuro. Extremamente autobiográfico, o livro foi escrito em terceira pessoa, permitindo assim que os demais personagens tivessem maior destaque. Paulo é um jovem que viaja junto com a namorada mais velha pela América do Sul, até que uma prisão na cidade de Ponta Grossa no Paraná em 1968 em plena ditadura faz com que esse amor termine. Do outro lado já encontramos Paulo em 1970 chegando a Amsterdã com algumas expectativas na mochila e a cabeça aberta para novas experiências. Quando Karla, uma holandesa forte e bela surge no seu caminho, embarcam em um ônibus intitulado Magic Bus com destino ao Nepal. Nessa aventura pelo desconhecido temos um romance de descoberta, de pessoas querendo achar o lugar no mundo. Ao deixar um pouco de lado toda a espiritualidade e os chavões que tanto gosta de usar (ainda que eles apareçam em boa dose), Paulo Coelho faz em “Hippie” um de seus melhores trabalhos em muito tempo.

Nota: 6,0

Leia um trecho aqui: https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/88283.pdf 





O que fazer quando o emprego vai embora, a vida já não oferece grandes atrativos no pequeno apartamento em que se mora sozinho e para completar a saúde já não anda lá essas coisas e requer privações e cuidados mil? Bom, para o narrador de “Os Beneditinos” a saída é reunir os velhos amigos do tempo de colégio primário e propor a eles uma última aventura em Londres para disputar o primeiro campeonato de Walking Football, um jogo feito para veteranos onde não é permitido correr, somente andar com a bola nos pés. Nas 152 páginas do romance publicado recentemente pelo selo Alfaguara da Companhia das Letras, o jornalista carioca José Trajano finaliza uma espécie de trilogia involuntária composta antes por “Procurando Mônica” de 2014 e “Tijucamérica” de 2015. Assim como eles, “Os Beneditinos” carrega em si vários pontos autobiográficos de um autor que durante muito tempo foi odiado e amado nas mesas de debate esportivo e no comando nacional de um grande canal de esportes. De opinião forte, às vezes até mesmo irascível, mas inteligente e bem-humorado, Trajano versa belamente no novo trabalho sobre o envelhecer e as boas lembranças que guardamos dentro do peito, ao mesmo tempo em que cutuca levemente os tempos sombrios em que vivemos.

Nota: 7,0




O escritor uruguaio Eduardo Galeano (de “As Veias Abertas da América Latina”) sempre foi um apaixonado por futebol. Falecido em 2015 costumava pregar um aviso na porta de casa em época de Copa do Mundo que dizia “cerrado por fútbol”. Nada mais direto e claro. A paixão era tanta que escreveu “Futebol ao Sol e à Sombra” onde se debruçava magistralmente sobre o esporte fazendo as correlações que lhe eram possíveis. Em 2018 a L&PM Editores publica aqui no Brasil nas vésperas de mais uma Copa do Mundo, “Fechado Por Motivo de Futebol”, coletânea com textos que não entraram no livro anterior e saíram em jornais, revistas e livros, compilando até mesmo coisas inéditas. O escritor que como tantos outros queria ser jogador de futebol, mas como ele mesmo afirmava só conseguia fazer isso dignamente nos sonhos, usou as mãos e a mente para produzir a arte que os pés não permitiram. Em um livro extremamente aprazível, Galeano conta saborosos casos sempre margeando os mesmos com política e história, o que faz com que pequenos textos de uma página apenas, por exemplo, se tornem ainda mais. Passando da seleção uruguaia pelos craques que admirava como Pelé, Maradona e Zidane até desconhecidos brilhantes, “Fechado Por Motivo de Futebol” é leitura mais que recomendável.

Nota: 8,5

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Quadrinhos: "Uma Dobra no Tempo", "Salto" e "Open Bar - Edição Definitiva"


Escrito por Madeleine L’Engle em 1962, “Uma Dobra no Tempo” abocanhou prêmios na época e se manteve relevante depois. A história juvenil de ficção científica e fantasia se estendeu por mais volumes e invadiu outras áreas como o cinema (em uma produção bem sem graça comandada pela Disney lançada este ano). Os quadrinhos também tiveram sua versão pelas mãos da Hope Larson (de “Batgirl”) que em 2012 adaptou a obra nos EUA. Essa adaptação ganha edição nacional agora em 2018 pela Darkside Books com o habitual capricho que a editora tem com seus produtos. Com 394 páginas, capa dura e tradução de Érico Assis é uma edição belíssima. Nela, Meg é uma adolescente com problemas típicos dessa idade e não consegue transitar bem entre aqueles ditos “normais”. Junto com Charles - o sagaz irmão mais novo - embarca em uma tremenda viagem em busca do pai desaparecido. Nessa tresloucada e surreal aventura pelo universo são acompanhados de um garoto tão “estranho” quanto eles e atravessam o tempo e o espaço conhecendo criaturas das mais diversas estirpes. Usando uma paleta de cores reduzida, mas que produz bons efeitos, Hope Larson conversa sobre diferenças e convivência em harmonia com eficácia, porém, com pouco brilho.

Nota: 6,0


O carioca Rapha Pinheiro começou a fazer quadrinhos em 2014. Estudou na Inglaterra e na França, onde concebeu “Salto”, graphic novel viabilizada através de financiamento coletivo que em 2017 ganhou distribuição pela Avec Editora. Nela, concebeu um mundo fantástico onde são permitidas analogias com nossa vida em sociedade. Em formato grande (21,3 x 27,7 cm) e 96 páginas conhecemos Intos, uma cidade escondida debaixo da terra devido a eventos naturais que forçaram os habitantes a migrarem para uma situação única de salvação. Guiada por informações do governo e do dono da fábrica que emprega a maior parte da população, todos vivem no piloto automático, sempre com um pequeno temor inserido no peito de que algo desande novamente e, por conta disso, seguem fielmente as regras. Mas no meio disso existe o jovem Nü. Ousado, inquieto e diferente acaba se envolvendo por acidente em algo maior do que imaginaria e cabe a ele revelar a todos que as coisas não são exatamente como pensavam. Com arte exuberante e cores que agravam mais as nuances que o texto questiona, temos um trabalho que agrega diversas influências e explode no fundo da aventura que narra em crítica social e comportamental, além de versar muito bem sobre preconceitos.

Nota: 8,0


Existem amizades que estão ali desde o início da vida e lá permanecem até quando passamos dos 30, dos 40 anos. São raras, isso é fato, mas existem. Amizades com cumplicidade e liberdade total entre as partes que ajudam a seguir em uma vida cada vez mais complexa e dinâmica. Barba e Leo se conhecem desde pequeno e formataram um desses casos em “Open Bar - Edição Definitiva” do quadrinista Eduardo Medeiros de “Sopa de Salsicha”. Essa nova edição lançada no final do ano passado pela Stout Club através da Panini Comics tem 272 páginas e apresenta os dois volumes da história concebida por esse gaúcho radicado em Florianópolis. O ponto de partida é um bar que Barba recebe de herança do pai e chama Leo para entrar de sócio nesse empreendimento que está amarrado a algumas pequenas regras de posse. Enquanto trata dessa nova jornada dos amigos com humor e leveza, o autor esconde ao fundo temas bem mais complicados como relacionamento familiar, casamento, paternidade e culpa. É uma história arrebatadora que na sua sutileza puxa o leitor cada vez mais para dentro da trama, fazendo este se apegar aos personagens enquanto caminha para um final surpreendente e devastador.

Nota: 9,0



quinta-feira, 17 de maio de 2018

Quadrinhos: "O Bestiário Particular de Parzifal", "Thanos Retorna" e "Potestade - Homem-Aranha"


“O Bestiário Particular de Parzifal” de Hiro Kawarara surgiu através de uma campanha de financiamento coletivo, mas depois ganhou o apoio da editora Sesi-SP e foi publicado no final do ano passado com 80 páginas. O autor nascido em Mogi das Cruzes no estado de São Paulo em 1965 é ilustrador, diretor de arte e professor. Nesse trabalho usa o mito de Parsifal - o “cavaleiro tolo” da Távola Redonda do Rei Arthur - para inspirar sua protagonista. Parzifal é uma garota que viveu com a mãe isolada e escondida em uma floresta para fugir de uma profecia. Para suprir a solidão criou vários amigos imaginários e um universo próprio, contudo isso chega ao fim aos 24 anos com a mãe já falecida e a saída dela da floresta para a “vida real”. Sem traquejo social algum para sobreviver no mundo sofre bastante para se estabelecer. Anos depois, com uma filhinha bem doente retorna para a floresta atrás da ajuda mágica dos antigos amigos, o que não caminha muito bem. Passando por três períodos de tempo distintos e com arte fofinha e boas cores, a obra agrada sem maiores pretensões com uma história de fantasia, família, amizade, escolhas e o peso delas quando a vida bate fortemente.

Nota: 6,0

Site do autor: http://www.hiro.art.br


Thanos, Thanos, Thanos. Nunca o vilão criado por Jim Starlin nos anos 70 esteve tão presente na cultura pop como agora devido não somente ao novo filme dos Vingadores onde é o destaque, como também por ser peça atuante dentro dos quadrinhos da equipe nos últimos anos. Em janeiro de 2017 uma nova tríade criativa formada pelo excelente Jeff Lemire no roteiro, o brasileiro Mike Deodato Jr. na arte e Frank Martin nas cores assumiu o título do personagem. O resultado podemos ler agora em “Thanos Retorna”, volume encadernado de 140 páginas que reúne as edições 1 a 6 lançadas nos EUA durante o primeiro semestre do ano passado. Devido a acontecimentos não muito interessantes para si, o seu território está agora sob o comando de Corvus Glaive, um antigo subordinado e membro da Ordem Negra. Ao voltar para retomar o controle do Quadrante Negro, Thanos percebe que mesmo que esse controle volte até facilmente para si, as coisas não serão tão simples no futuro próximo. Um interessante grupo formado por familiares, inimigos e uma antiga paixão se forma para acabar de vez com a história do Titã Louco, que cada vez mais frágil e mortal se vê metido em algo que nunca esteve antes.

Nota: 7,0


Virou moda nos últimos anos coleções de quadrinhos em capa dura que formam mosaicos, etc. e tal. Naquela que ostenta ser a “coleção definitiva” do Homem-Aranha, temos na edição 11 uma grande obra subestimada. Trata-se de “Potestade”, originalmente publicada em 4 edições e que aqui já tivera edição em 2007, antes dessa do início de 2018. É uma das histórias mais fortes que o aracnídeo já teve, ainda com humor, mas pesada e cheia de sombras, com claras referências a “O Cavaleiro das Trevas” do Frank Miller. O roteiro é de Kaare Andrews em arte conjunta com José Villarubia. Em um futuro alternativo Peter Parker mora num minúsculo apartamento 30 anos após a aposentadoria. Mary Jane está morta, assim como todas as pessoas próximas e ele tenta se virar como pode, sendo que sua própria sobrevivência gerou o maior sofrimento. A cidade está livre de vilões graças a um governo fascista que com o apoio da mídia engana a população lhes prometendo segurança enquanto lhes corta a liberdade. Porém, quando um velho “amigo” aparece na porta de Parker as coisas começam a tomar outro rumo. Com 164 páginas, capa dura e arte quase toda horizontal permeando uma visão de cinema temos uma obra obrigatória para os fãs do amigão da vizinhança.

Nota: 9,0



segunda-feira, 9 de abril de 2018

Quadrinhos: "Lua do Lobo", "O Sinal" e "Castanha do Pará"


Lançamento de 2017 da Panini Comics, “Lua do Lobo” (Wolf Moon, no original) recria o mito do lobisomem que passa a ser uma espécie de entidade que se transfere de corpo em corpo através dos tempos realizando atos horríveis nesse período em hospedeiros que escolhe meramente ao acaso e toma por possessão. Criação de Cullen Bunn com arte de Jeremy Haun e cores de Lee Loughridge, a história passou anos engavetada até que o selo Vertigo da DC bancou a aposta em 6 edições publicadas no primeiro semestre de 2015 nos EUA. O trabalho recebeu elogios contundentes e desembarcou no Brasil em um encadernado de 162 páginas com direito a esboços como extras. O condutor da história é Dillon Chase que quando estava possuído pela fera causou danos mortais a diversas pessoas, inclusive algumas próximas e queridas. A maneira que busca para aliviar toda culpa que carrega consigo é caçar cegamente essa besta pelos quatro cantos do país e quando a grande chance surge descobre que outros estão interessados na questão, o que dificulta muito mais as coisas. Com bom ritmo, arte funcional e cores bem adicionadas, “Lua do Lobo” é uma boa hq, mas distante dos grandes elogios que recebeu.

Nota: 6,0


Afrânio sempre esperou que a vida lhe proporcionasse algo mais. Parado no quarto já no alto dos 40 e poucos anos e levando uma vida sem muita graça, continua esperando que em um dia qualquer por algum desmando do destino sua existência sofrerá uma drástica guinada e enfim será um protagonista no mundo. Quando sonhos estranhos começam a invadir as noites, entende isso como a mensagem que aguardou por tanto tempo e passa a tomar atitudes que levarão as coisas por outro caminho. De início até que essas decisões remetem a coisas positivas, no entanto, depois tudo fica nublado. “O Sinal” é mais um bonito trabalho do quadrinista, cartunista e ilustrador Orlandelli (de “Grump” e “Chico Bento: Arvorada”). Com 96 páginas foi lançado no final do ano passado na CCXP através da Jupati Books, selo da Marsupial Editora. Como de costume Orlandelli mescla vida real e questões imaginárias para gerar uma história que pode ser entendida de outras formas e maneiras. Com o traço sempre agradável e a ótima maneira que direciona as cores, mantêm a sensibilidade ali escondida no meio do caos enquanto versa sobre a relação de cada um com as conquistas, anseios, ambições e decepções que norteiam a estrada que percorremos diariamente.

Nota: 7,5


Em 2017 o tradicional Prêmio Jabuti incluiu a categoria de quadrinhos e o primeiro trabalho a levar essa honraria foi “Castanha do Pará”, produção independente do professor e artista visual Gidalti Jr. que foi financiada através de crowdfunding e tem 84 páginas, capa dura e formato grande (22,5 x 30,5cm). Nascido em Belo Horizonte, mas criado em Belém, o autor criou uma fábula suja e atual que pode ser visualizada em qualquer estado do país além do mercado do Ver-O-Peso onde passa a maior parte da história. Castanha é um garoto que vive na rua, completamente marginalizado e sem suporte. Deixou a família para trás depois de uma tragédia praticamente anunciada e se vira entre as vielas do bairro da Cidade Velha. Com arte esplendorosa, toda pintada em aquarela e com as cores vibrantes tão presentes na cidade, o trabalho foi inspirado na obra “Adolescendo Solar” de Luizan Pinheiro. A narração feita por uma vizinha em conversa com a polícia acrescenta tons de humor a um drama real que conta com o descaso do poder público para se alongar acintosamente nos últimos anos não somente na vida do imaginário Castanha com sua cabeça de urubu, mas também em inúmeros outros jovens arremessados a própria sorte por aí.

Nota: 8,5


segunda-feira, 2 de abril de 2018

Quadrinhos: "Lembranças", "O Planta - Um Bípede Entre Plantas" e "Future Quest"


Chegou a hora dos irmãos Cafaggi se despedirem (pelo menos por enquanto) da Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali. Depois de presentearem velhos e novos fãs com “Laços” e “Lições” no projeto Graphic MSP é a vez do último “L” aparecer e encerrar a trilogia. Lançado no final de 2017 pela Panini Comics com 100 páginas, “Lembranças” apresenta a turminha já se deparando com situações como convívio social, namoricos e aceitação entre os pares, onde a amizade é novamente a força condutora para solucionar os desafios que surgem. Entre a construção de uma nova casa da árvore e a ansiedade e esforço para ir em uma festa daquelas imperdíveis, os autores utilizam personagens do vasto universo criado por Mauricio de Sousa e deixam pelo caminho diversas referências para serem descobertas calmamente. Com o mesmo tom geral das edições anteriores e a arte novamente sendo um dos pontos fortes, “Lembranças” fica aquém dos antecessores. A história que foca em questões corriqueiras do crescimento das crianças, infelizmente não prende tanto quanto das outras vezes e parece que falta algo que dê aquele charme maior. Não chega a ser ruim, longe disso, mas os Cafaggi acostumaram a se esperar sempre algo mais deles.

Nota: 6,0


“Os Contos do Planta” de 2015 chamou a atenção logo de entrada pela exuberante capa animada em 3D. O personagem era uma planta que queria mais da vida e com a ajuda de um cientista consegue isso com um corpo projetado para suas aventuras. A obra do escritor e ilustrador curitibano Gustavo Ravaglio era um campo fértil para metáforas sobre a vida real e convencia bastante. Em 2017 ele partiu em uma desafiadora missão e o resultado foi “O Planta – Um Bípede Entre Plantas” que contou com o apoio de financiamento coletivo além de incentivo cultural governamental. O zelo pela apresentação da edição está ainda mais forte, em capa dura com tintas douradas as 178 páginas estão contidas em papel de textura especial, entre outros luxos. Todavia, isso por si só não se sustentaria caso o roteiro não fosse divertido e interessante, o que também é. O protagonista se perde em outro universo e tem que lidar com as mais estranhas figuras para voltar para casa. No decorrer disso - e sem ser piegas o que é mais importante - se amplificam os questionamentos embutidos e as alegorias que estão escondidas ali no meio dessa jornada com tons de fantasia e ficção científica.

Nota: 8,0


A DC Comics possui os direitos sobre os personagens clássicos da Hanna-Barbera que embalaram a infância de tantas pessoas então a empresa resolveu conceber novas histórias em quadrinhos desses personagens fazendo algo como um reboot. O primeiro desses trabalhos foi “Future Quest” que saiu aqui em duas edições da Panini Books no ano passado. Essas edições reúnem em 336 páginas no total o ano completo publicado nos EUA entre julho de 2016 e julho de 2017 em doze revistas. Com roteiro a cargo de Jeff Parker (Shazam!) temos uma história que além de ter muita nostalgia e saudosismo embutidos, consegue a proeza de ir além e faz a aventura valer mesmo para quem nunca ouviu falar de Space Ghost, Jonny Quest, Mightor, Homem-Pássaro, Herculóides e Os Impossíveis. A turma da ficção científica da Hanna-Barbera é convocada para cuidar do OMNIKRON, uma entidade poderosa que tem como intuito destruir o mundo. Mesmo usando uma premissa tão clichê em revistas de super-heróis, Jeff Parker consegue criar algo saboroso e viciante. A arte de Evan Shaner, Steve Rude e Ron Randall e mais Steve Lieber e Ariel Olivetti completam esse quadro em um dos trabalhos mais divertidos que a DC colocou no mercado nos últimos anos.

Nota: 8,5