segunda-feira, 8 de junho de 2020

Literatura: "Serpentário" e "Na Contramão da Liberdade - A Guinada Autoritária Nas Democracias Contemporâneas"


Réveillon de 1999, litoral paulista. Quatro amigos adolescentes caminham a esmo e conversam sobre banalidades e problemas pessoais enquanto implicam entre si e tentam passar o maior tempo possível fora de casa. Para destruir a normalidade desses dias embarcam para uma ilha próxima onde uma experiência extremamente traumática os aguarda, uma experiência que marca a vida de todos. Quase 20 depois essas marcas ainda estão presentes e provocaram estragos e mais estragos durante o tempo. Tudo isso se reflete diretamente quando eles se encontram novamente no mesmo litoral, no entanto com as vidas totalmente transformadas tanto em aspectos físicos quanto emocionais. Esse é o enredo geral do livro mais recente do escritor Felipe Castilho chamado “Serpentário” que foi publicado pela editora Intrínseca no segundo semestre de 2019 com 368 páginas. O autor do ótimo “Ordem Vermelha: Filhos da Degradação” envereda aqui pelo suspense com doses de terror psicológico e adiciona por cima uma camada de críticas comportamentais e sociais, principalmente no que concerne ao relacionamento com um dos quatro amigos. Além disso, insere várias e várias referências a cultura pop em geral, referências até em excesso, o que acaba sendo desnecessário em várias passagens do texto. A trama em si é interessante ao envolver dramas pessoais com o sobrenatural e um mistério ao fundo, todavia o desenvolvimento dessa trama é prejudicado em vários pontos e se perde um pouco do meio para o final. Isso deixa “Serpentário” como uma leitura funcional para passar o tempo, mas um livro apenas razoável.

Nota: 6,0

Leia um trecho no site da editora:
https://www.intrinseca.com.br/upload/livros/1%C2%BACAP_Serpentario.pdf 


Como chegamos até aqui? Como a democracia em grande parte do mundo passou a sofrer ataques constantes colocando em risco o sistema e até mesmo o destruindo em alguns casos? Como que ideias estapafúrdias, mentiras em larga escala e figuras autoritárias influenciam tanto no mundo em que vivemos? É isso que o escritor e professor de história Timothy Snyder (do ótimo “Sobre a Tirania”) objetiva responder em “Na Contramão da Liberdade – A Guinada Autoritária Nas Democracias Contemporâneas’’, publicado aqui no Brasil em 2019 pela Companhia das Letras, 432 páginas e tradução de Berilo Vargas. Baseado em vasta pesquisa o autor divide o trabalho em seis partes que cobrem os anos de 2011 a 2016 indo da volta do pensamento totalitário com mais relevância no mundo até a eleição de Donald Trump para presidente dos USA, passando pelos protestos na Ucrânia e posterior invasão russa em 2014 e pelo continente europeu em geral, com ênfase no Brexit no Reino Unido. Snyder versa de modo hábil em como o uso de mentiras, manipulação de mídia, robôs em redes sociais e a infestação de fake news bizarras devastam países. Muitas das táticas e procedimentos que estão no livro vemos com frequência em nosso próprio solo dia a dia nos últimos anos e cada vez mais. Na opinião do autor o mundo está em marcha firme rumo ao abismo do autoritarismo, contudo ao mesmo tempo indica caminhos para que isso seja interrompido caso haja combate nas causas e aprenda-se com os erros do passado.

Nota: 8,5

Leia um trecho no site da editora: 

domingo, 7 de junho de 2020

Literatura: "Raul Seixas: Não Diga Que a Canção Está Perdida" e "Filhos de Sangue e Osso"


Em 416 páginas, o crítico musical e repórter Jotabê Medeiros (que em 2017 publicou o ótimo “Belchior: Apenas Um Rapaz Latino-Americano”) narra a vida do baiano Raul Seixas, um artista de imensurável talento que ainda hoje é cultuado por uma legião de fãs em todo o país apesar de ter falecido há mais de 30 anos, mais precisamente em 21 de agosto de 1989. “Raul Seixas: Não Diga Que a Canção Está Perdida” da Todavia Livros publicado em 2019 é uma obra para entender um pouco mais da magia, da loucura e dos processos artísticos de um músico de extensão nacional que gravou clássicos e mais clássicos em seus discos. Como uma biografia deve verdadeiramente ser passa longe de somente afagar o biografado e procura mostrar Raul com todos os defeitos que tinha, além de tocar em pontos bem sensíveis e polêmicas que geram discussão mesmo nos tempos atuais como a prisão do escritor Paulo Coelho pela ditadura (eram parceiros na época) e as apropriações de músicas estrangeiras como base para as próprias composições. Entre o genial, o místico e o rebelde, Raul carregava dentro de si alguns demônios e vícios que o fizeram sucumbir cedo demais, contudo não sem antes tatuar versos e acordes nos corações de milhares. Como diz um trecho do livro: “agregador e ao mesmo tempo solitário, transitou por variados mundos criativos, selecionando de cada um deles as ferramentas necessárias para compor o seu próprio universo”. Raul era isso mesmo, um carpinteiro. Um carpinteiro do universo.

Nota: 8,0


“Filhos de Sangue e Osso” (Children of Blood and Bone) é o primeiro livro da escritora nigeriana-americana Tomi Adeyemi que após se graduar em literatura inglesa em Harvard veio para Salvador estudar sobre mitologia, religião e cultura africana, o que influenciou na criação desse trabalho. Publicado nos USA em 2018 ganhou edição nacional no mesmo ano pela editora Rocco com 560 páginas e tradução de Petê Rissatti. É o primeiro da trilogia “O Legado de Orïsha” (o segundo já saiu lá fora, mas não aqui) e está sendo adaptado para o cinema. Direcionado para o público jovem adulto é daquelas obras que ultrapassam as fronteiras que lhe são arregimentadas e alcançam leitores de diversas esferas. “Filhos de Sangue e Osso” é na essência uma fantasia que usa a mitologia iorubá e os orixás como condutores e no seu cerne aborda temas como opressão, preconceito, racismo, abuso de poder, ancestralidade e a coragem de lutar para mudar as coisas de lugar. Temas que são tratados com uma força assombrosa para uma estreia. A jornada de Zélie, Amari e Tzain para tornar o reino em que vivem um lugar mais justo para todas as raças, credos e tipos, brigando com o coração na ponta da espada, do machado e do bastão para remover um tirano do trono é daquelas que acalenta a alma e se torna ainda mais impactante depois que se lê o texto no final que correlaciona a obra com a realidade dura e cruel dos tempos em que vivemos.

Nota: 9,0

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Quadrinhos: "Dias Estranhos", "Mondo Urbano 10 Anos", "Salseirada" e "Três Buracos"


“Dias Estranhos” é uma saga independente de quadrinhos que teve a primeira edição publicada na primavera de 2016. A segunda saiu em 2017 e a terceira no ano passado, fechando assim o primeiro arco da história. O roteiro de Marcus Leopoldino conta a história de Jean, um cara atormentado por pesadelos incomuns que se vê dentro de uma trama sobrenatural que transita entre a vida real, a magia e a alucinação. A arte de Diego Porto é bem fora do usual e isso além de respaldar o roteiro consegue ir além e brilhar isoladamente devido em boa parcela de culpa as cores vibrantes e lisérgicas de Gabriel Calfa. “Dias Estranhos” foi o projeto inicial da Risco HQ’s Independentes que já publicou outras histórias expandindo esse universo. É um trabalho repleto de qualidades e deixa a expectativa para o que virá na jornada de Jean e seus amigos Luana e César.

Nota: 7,0

Instagram dos autores e da editora:


Entre 2008 e 2009 os amigos Mateus Santolouco, Eduardo Medeiros e Rafael Albuquerque criaram uma história que tinha o rock como ponto central das diversas tramas que convergiam entre si durante as páginas, tramas de descoberta, romances, amizade e... coisas mais estranhas. Lançado como zine reverberou bastante e ficou como um marco positivo na carreira dos autores que após isso traçaram caminhos sólidos nos quadrinhos sem deixar a amizade de lado. No final do ano passado a editora Mino publicou uma galante edição comemorativa para os 10 anos de “Mondo Urbano” com 136 páginas, capa dura e extras bacanudos como making of e entrevistas. O trabalho ainda esbanja vitalidade e energia juvenil, aquela força que a juventude tem o poder de imprimir as coisas. Mesmo que uma ou outra coisa hoje tenha envelhecido um pouco mal e já não encaixe mais tão bem, a história ainda tem méritos e vigor.

Nota: 7,5

Instagram dos autores e da editora:


Salseirada é uma chuva potente e ligeira, além de servir como sinônimo de conflito e briga. É também o nome do álbum que o ilustrador e quadrinista Al Stefano publicou em 2019 com 120 páginas pela Zapata Edições e apoio do PROAC-SP. O trabalho é um belo realismo mágico ambientado no coração do sertão nordestino. Os irmãos Salú e Zabé encontram ao acaso uma rabeca mágica que possui o poder de fazer chover. Os personagens são inspirados em grandes artistas pernambucanos já falecidos: Mestre Salú e Zabé da Loca. Enquanto os dois com a ajuda de Mutum – o outro integrante do trio musical – saem por lugares devastados pela seca tocando e dando vida e esperança aos moradores viram alvo de um poderoso coronel que busca o instrumento para utilizar em fins nada nobres. Unindo aventura, folclore, humor e crítica social, o autor faz em “Salseirada” um trabalho lírico e empolgante.

Nota: 8,5

Instagram do autor e da editora:


Poucos artistas nacionais hoje são tão relevantes como o paraibano Shiko que nos últimos anos despeja grande obra atrás de grande obra, isso sem contar a construção de posters, murais, telas e afins. Seu trabalho mais recente é “Três Buracos”, publicado em 2019 pela editora Mino com capa dura e 128 páginas onde apresenta novamente pleno domínio do ofício que exerce. Com arte de alto nível configurada de modo distinto para cada momento da história, roteiro bem construído e amarrado sem obviedades apresenta uma crítica social pulsando forte ao fundo. Dividido em três partes conta a história de Tânia, sua companheira Cleonice e seu irmão Canhoto que em uma cidade quase fantasma localizada no sertão do nordeste procuram uma maneira de ajustar a vida de vez no meio de obsessões, desconfianças e uma dose quase invisível de esperança escondida. Outro imenso acerto da parceira entre o autor e a editora.

Nota: 9,0

Instagram do autor e da editora:




quinta-feira, 14 de maio de 2020

Quadrinhos: "Segunda-Feira Eu Paro", "Berserker Unbound", "Mjadra" e "A Gangue da Margem Esquerda"


Ninguém entra e segue na vida adulta sem vícios, essa é verdade. Esses vícios podem ser disfarçados ou evidentes, podem prejudicar ou servir de alívio, podem destruir ou alavancar, mas estão presentes na jornada de cada um. E é sobre vícios que a antologia de quadrinhos “Segunda-Feira Eu Paro” se baseia e engendra as 14 histórias em preto e branco que compõem o volume de 132 páginas publicado de maneira independente no final de 2019. Com organização de Carlos Jenisch temos nomes conhecidos da cena nacional como Aline Zouvi, Luiza Nasser, Dieferson Trindade, Edson Bortolotte e Gabriel Dantas, entre outros autores. Das histórias as que se destacam mais são “Lama” da Diana Salu e “Café e Cigarros” do Bruno Guma, contudo como um todo o trabalho agrada bem, mesmo que falte uma coesão maior em torno do tema explorado que em algumas tramas acaba não sendo utilizado de modo eficaz.

Nota: 6,0



Juntar Jeff Lemire e o brasileiro Mike Deodato Jr. em um projeto é algo positivo de antemão. Foi o que fez a Dark Horse Comics em “Berserker Unbound” unindo novamente a dupla que fez sucesso em série recente do Thanos com mais as cores de Frank Martin. Lançado nos USA em 2019 em quatro meses ganhou edição brazuca caprichada em 2020 pela editora Mino com 136 páginas. A história apresenta um guerreiro que é arremessado do seu reino de magia para uma grande cidade dos nossos dias. Fala de vingança, dor, culpa, perda e amizade, por mais improvável que essa seja. No cerne é uma trama simples e meio óbvia, mas que por conta da maneira que Lemire constrói o texto acaba deslanchando. No entanto, o destaque é a arte do Deodato, que beira o sublime. É por ela que o trabalho consegue amplitude e ofusca o parceiro igualmente famoso.

Nota: 7,0



Thiago Ossostortos tem trabalhos interessantes na carreira como o jovial “Kombi 95” e o lírico “Os Últimos Dias do Xerife”. Em 2019 publicou outro quadrinho de maneira independente chamado “Mjadra”, uma história que retoma bases queridas como a música e a nostalgia. O protagonista é Derick, um ex-VJ da MTV que ninguém lembra mais. Com a derrocada do casamento ele retorna para morar no mesmo lugar de quando jovem, um retorno típico de quem busca uma sobrevida ou algum tipo de redenção, mas que acaba não surtindo efeito. Derick é um cara amargurado, cheio de bagagem ruim nas costas e acaba interferindo na vida de outras pessoas de maneira contundente. Com 144 páginas e magnificamente pintada a guache, “Mjadra” é sobre não saber seguir em frente e sobre não aceitar que a vida não foi como se sonhou, sendo regada a ótimas cores, canções e uma dose satisfatória de psicodelia.

Nota: 7,5



Paris, anos 20. A cidade luz ferve nas esquinas, bares e cafés. Nessa época o norueguês Jason transforma Ezra Pound, James Joyce, F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway em quadrinistas que procuram sobreviver entre um trabalho e outro, uma cobrança familiar e um desespero para pagar as contas, entre um bate papo e uma crise emocional. Desgostosos com os rumos da carreira resolvem fazer um assalto, que nesse entendimento seria a maneira de descolar uma grana e salvar o dia, o mês, o ano. Vencedor do prêmio Eisner de Melhor Título Estrangeiro em 2007, “A Gangue da Margem Esquerda” é provavelmente o trabalho mais conhecido de Jason e agora em 2020 desembarca no país pela editora Minio com 48 páginas. Unindo diversão, o uso de referências inteligentes, resoluções gráficas certeiras, reviravoltas inesperadas e aquele toque diferente que sempre o autor demonstra é um título que não tem como dar errado.

Nota: 9,0



quinta-feira, 30 de abril de 2020

Literatura: "Mars Club" e "Ida Um Romance"



“Mars Club” (The Mars Room) é o quarto livro da escritora americana Rachel Kushner (autora de “Os Lança-Chamas”) e saiu aqui pela Todavia Livros em 2019 com 344 páginas e tradução do Rogério W. Galindo. A protagonista do romance é Romy Leslie Hall, condenada a prisão perpétua que é apresentada ao leitor em 2003 enquanto se encaminha para cumprir a pena dentro de um ônibus com outras detentas. Aos poucos é narrado como ela chegou até esse ponto, como que a vida desaguou para isso. Ao mesmo tempo em que narra os infortúnios da protagonista, a autora insere personagens coadjuvantes e ao contar um pouco das suas histórias engrandece a trama, pois são criadas figuras fascinantes que trazem junto histórias fortes em igual medida, mas com nuances gerais diferentes. Foca não somente na sobrevivência dentro do sistema carcerário, como também nas dúvidas, (falsas) esperanças e arrependimentos de cada uma. O tom utilizado ora se concentra em um drama de contornos mais pesados, ora explora um humor ácido e cruel enquanto discute pontos importantes como machismo, misoginia, racismo e questões de gênero. Romy Leslie Hall é uma personagem forte, que desde cedo sofreu muito mais do que qualquer um deveria e sempre seguiu em frente. O ato que lhe levou para a cadeia é o estopim de uma situação provocada justamente pelas decisões de uma vida sem glamour e alegrias, além de um filho e momentos bem ocasionais de felicidade. Repleto de frases e tiradas interessantes é uma leitura bem recomendável.

Nota: 7,5



Gertrude Stein nasceu no estado da Pensilvânia nos Estados Unidos em 1874. Em 1903 mudou-se para Paris e um tempo depois conheceu Alice B. Toklas que seria sua companheira até o falecimento em 1946. Virou um dos símbolos da “geração perdida”, um grupo de artistas e escritores que durante esse período buscou refúgio na capital francesa para extravasar suas manifestações, discussões e criatividade. Ela recebia em casa nomes como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e Pablo Picasso, com os quais nutria relação próxima. Dona de um estilo experimental de escrita - ainda mais se considerarmos a época em que viveu - escreveu dezenas de livros e ficou famosa. Um desses livros ganhou edição nacional no final do ano passado pela Ponto Edita, editora independente de São Paulo. “Ida, um Romance” (Ida A Novel, no original de 1941) tem tradução de Luís Protásio e edição de Mauricio Tamboni com 224 páginas e um formato extremamente original que apresenta um trabalho gráfico primoroso tanto nas cores, letras e design, como no cuidado com a inserção de vários textos contextualizando e dissertando sobre a obra. Obra que trata da história de Ida, uma história sobre identidade e liberdade, que tem a vida real cruzando a cada esquina com a fantasia, o cotidiano invadido por pílulas de alucinação e certezas flertando com devaneios na busca por ser quem se deseja realmente ser. É um livro magnífico, para ser lido com calma e se possível em voz alta saboreando cada palavra, cada frase, cada colocação.

Nota: 10,0

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Literatura: "A Intuicionista" e "Uma Mulher No Escuro"

 

Colson Whitehead ganhou o Prêmio Pulitzer de 2017 e foi finalista do Man Boooker Price com o livro “Underground Railroad – Os Caminhos Para a Liberdade” que foi publicado aqui pela Harper Collins Brasil. A mesma editora no ano seguinte colocou no mercado uma edição com o primeiro romance do autor, lançado originalmente em 1999 nos USA, chamado “A Intuicionista” (The Intuitionist). Com 320 páginas e tradução de Caroline Chang esse debute é ambientando em uma cidade fictícia (mas não tanto assim) que mistura modernismos estruturais com políticas sociais e comportamentais conservadoras com racismo e misoginia bem entranhados. A protagonista é Lila Mae Watson, uma das raras inspetoras negras do Departamento de Inspeção de Elevadores, um órgão forte que além da importância tem grande poder de barganha junto ao governo. Quando um elevador de um prédio chique despenca logo após uma verificação em que nada de errado foi atestado, Lila Mae se vê no meio de uma trama intricada e complexa com política, ego, interesses próprios e corrupção dos envolvidos. A leitura de “A Intuicionista” é um pouco travada, pois o texto se preocupa de modo demasiado em exibir conceitos e técnicas do cenário que usa como ambientação, além de contrapor as teorias dos lados envolvidos na briga por uma grande revelação que mudará tudo. Não possui o brilho do premiado livro já citado, mas já carrega em seu corpo as características que seriam exploradas de modo mais luminoso anos depois como a crítica social tendo o racismo como principal alvo.

Nota: 5,0



Em 31 de maio de 1998 uma criança de quatro anos teve toda a família assassinada dentro da própria casa, sendo que como única sobrevivente – por motivos óbvios – cresceu de maneira angustiada e 20 anos depois trabalha como atendente em um café, mora sozinha em lugar não muito sadio da cidade maravilhosa, passa por sessões de terapia com frequência e foge de qualquer tipo de contato pessoal um pouquinho mais intenso seja por medo, por raiva ou por falta de confiança. Esse é o mote de “Uma Mulher no Escuro” do escritor carioca Raphael Montes que completa 30 anos em 2020 e já tem uma lista bem interessante de obras na carreira, como o ótimo “Jantar Secreto” de 2016. Com publicação da Companhia das Letras em 2019 com 256 páginas esse novo suspense do autor possui o ritmo ditado em um thriller psicológico apreensivo onde a protagonista é arremessada dentro de um túnel escuro repleto de segredos, mentiras e mais violência. O grande destaque é a personagem principal, Victoria Bravo, que a duras penas tenta se preservar com sanidade para encarar os desafios da vida depois de ter passado por uma provação tão gigantesca. Quando parece que as coisas estão melhorando pelo menos um mínimo que seja se vê confrontada novamente com o pavor e paralelamente com sentimentos de paixão e desejo que desconhecia até então, o que não a impede de ir definitivamente de encontro ao perigo para colocar as coisas enterradas no passado de uma vez por todas.

Nota: 7,0



domingo, 12 de abril de 2020

Quadrinhos: "Sangue No Olho", "Horo: A Floresta Dos Esquecidos", "Clean Break" e "O Ditador Frankenstein e Outras Histórias de Terror, Tortura e Milicos"


A editora Draco tem o (ótimo) costume de colocar no mercado coletâneas de quadrinhos com histórias curtas definidas por tema específico o que rende quase sempre um resultado bem convincente. “Sangue No Olho” fica dentro desse quadro de maioria. Publicada no final de 2019 com 184 páginas e organizado pelo Raphael Fernandes (que também assina uma das dez histórias) apresenta o faroeste como inspiração, contudo sem se prender necessariamente a isso e dando liberdade aos autores para localizarem os enredos em diferentes épocas e lugares, como também partir para visões mais amplas. São casos de vinganças, de acertos de contas e principalmente de sobrevivência e resistência contra opressores de qualquer estirpe. Todas as histórias se mantêm mais ou menos no mesmo nível, porém merecem maior destaque “Sangue” do Gustavo Whiters e Weslley Marques, “Augusta” da Thaïs Kisuki e Paloma Diniz e “A Retomada” de Caio H. Amaro e Má Matiazi.

Nota: 7,0

Instagram da editora: https://www.instagram.com/editoradraco 

O paulista Fábio Coala possui a rara maestria de dispor mensagens sobre perseverança, superação, compaixão, bondade e coragem no meio de histórias simples nas suas essências e sem ser enfadonho ou pretensioso ao fazer isso. Com “Horo: A Floresta Dos Esquecidos” isso não é diferente. Publicado de maneira independente via financiamento coletivo em 2019 com 128 páginas (e dessa vez em cores) apresenta uma trama anterior ao primeiro álbum do personagem (“Horo – O Castelo da Neblina” de 2016) que narrava a busca por respostas e pelo próprio caminho. Os temas que são tão caros ao autor continuam presentes nesse trabalho mais recente. Em tempos em que notícias ruins não param de chegar e deixam a mente recheada de preocupações e de medo, é um alento e tanto ler e ver o pequeno Horo encarando tudo e todos de coração aberto para salvar a quem ama e defender aquilo que acredita.

Nota: 7,0

Instagram do autor: https://www.instagram.com/mentirinhasdocoala 

“Clean Break” levou dois anos de produção e aqui vale aquele velho clichê: a espera valeu a pena. O trabalho do Felipe Nunes nessa hq é prazeroso, divertido, crítico e ácido, algo bem diferente do tom de obras anteriores como “Klaus” e “Dodô”. Depois de um financiamento coletivo o projeto foi endossado pela Balão Editorial por onde foi publicado em 2019 com 240 páginas. É uma ficção científica com enredo policial que tem ação, drama, lisergia e nonsense contra uma cruzada moral não tão distante dos nossos dias, mas levada a pontos extremos.  A dupla de agentes da lei Silas e Alberico que já carrega os próprios dramas e está inserido em um mundo cada dia mais diferente recebe o ingresso da jovem Tarsila que também possui bagagem nas costas. Com uma arte que se destaca (e dá para imaginar como ficaria em cores), “Clean Break” é definitivamente uma viagem.

Nota: 8,5

Instagram do autor: https://www.instagram.com/nunes_nunes 


“O Ditador Frankenstein e Outras Histórias de Terror, Tortura e Milicos” é um trabalho daqueles que podemos tranquilamente e sem receio algum chamar de “necessário”. Além de registrar para novas gerações uma pequena parte da produção e da arte do grande Julio Shimamoto que completou 80 anos em 2019, usa como pano de fundo em várias das 12 histórias que compõem a antologia uma fase extremamente tenebrosa do nosso país que não deve ser esquecida jamais sob nenhuma hipótese. Produzidas em sua maioria entre os anos de 1978 e 1982 quando a ditadura militar ainda assolava o país, mostra histórias de terror e violência com cunho político e social com o traço hábil do mestre Shima e roteiros de Luiz Antonio Aguiar, Basílio de Almeida, Nani, Reinaldo, Luscar e Maria Emilia, além do próprio artista em contos mais gerais de terror. Produção impecável da M Marte Produções com 220 páginas.

Nota: 9,5




quarta-feira, 1 de abril de 2020

Quadrinhos: "Doce Jazz", "Café Espacial #17", "Love Kills" e "Space Dumplins"


Entre setembro de 2011 e março de 2012 Mylle Silva fez um intercâmbio de estudos no Japão, uma terra totalmente diferente, com outros costumes e outro idioma. Nesses seis meses precisou superar alguns medos enquanto tentava achar um caminho que se sentisse confortável para seguir em frente. É essa experiência que serve como base para “Doce Jazz”, publicação independente de 2019 com 96 páginas e arte da Melissa Garabeli (de “Saudade”). Para suplantar os obstáculos dessa empreitada, a autora achou refúgio e conforto em uma banda iniciante de jazz que passou a integrar e construir laços mais fortes. É uma obra que fala sobre o poder da música como força para superar dificuldades, apaziguar a alma e chutar a solidão para bem longe enquanto a vida não entra no eixo. É um trabalho bem bonito, para ser apreciado com calma e se possível com um som rolando suave ao fundo.

Nota: 7,0

Instagram da Mylle Silva: https://www.instagram.com/myllesilva
Instagram da Melissa Garabeli: https://www.instagram.com/melissa_garabeli


O Café Espacial é um selo editorial independente que desde 2007 tem lançado um bocado de coisa legal entre quadrinhos, literatura e coisas mais. O carro-chefe, por assim dizer, é uma coletânea de histórias da nona arte que em 2019 chegou a edição de número 17 com participação de nomes como Aline Zouvi, Luiza Nasser, Sergio Chaves, André Diniz, Carol Ito, Germana Viana, Laudo Ferreira e muitos outros. Ouso dizer que essa é a melhor edição de todas (o que não é uma tarefa fácil, ressalte-se), pois está perfeitamente alinhada aos nossos dias e retrata o sentimento de muitos nos anos mais recentes. Seja na história que tem a eleição do atual presidente como cenário, na que trata sobre o patriotismo fuleiro da nossa nação, na ótima “Filhas do Campo” ou na triste “Ninho Vazio” temos uma edição recheada de primor tanto nos textos quanto na arte. Coisa muito fina.

Nota: 7,5



Helena é uma vampira que mora sozinha, praticamente sem amigos e sem qualquer nível de sociabilidade além do imprescindível e necessário para a alimentação. Em uma noite como qualquer outra é surpreendida pelo ataque de outros vampiros sem explicação lógica inicial. Tentando sobreviver e entender o que está acontecendo, além de lidar com a entrada de Marcus, um humano que cruzou seu caminho, Helena parte entre socos e sopapos para tirar a limpo o que acontece. Assim é “Love Kills” do Danilo Beyruth que a Darkside Books lançou no final de 2019 com 248 páginas, capa dura e uma edição muito zelosa. Com ritmo acelerado, o autor de “Bando De Dois”, “Necronauta” e “Samurai Shirô”, conta uma história de vampiros com várias referências a trabalhos clássicos do tema no cinema e literatura. Com uma arte sempre excepcional e que descarta maiores comentários elabora mais uma obra extremamente bacanuda na carreira.

Nota: 7,5



“Space Dumplins” do Craig Thompson é bem diferente de “Retalhos” ou “Habibi” e apresenta uma leitura leve e divertida, ainda que a arte dialogue com essas obras em dado momento. É uma ficção científica com humor visual e de texto focada na família e amizade, onde os humanos moram no espaço e convivem com centenas de raças. A parte principal da trama consiste na busca da adolescente Violeta Marlocke para achar o pai que sumiu. Com a ajuda de dois amigos com personalidades muito distintas, cria-se uma aventura clássica que ao fundo discute política, luta de classes e ecologia. Com tradução do Érico Assis e 320 páginas foi publicada esse ano pelo selo Quadrinhos na Cia. e conta com as cores magistrais de Dave Stewart, o que dá uma nova nuance a arte do autor. Totalmente indicado para espantar (nem que seja um pouco) as preocupações dos nossos dias atuais.

Nota: 8,5



terça-feira, 31 de março de 2020

Literatura: "O Golpe" e "Lake Success"


Simon Riske vive do jeito que quer e bem entende em Londres. Faz trabalhos esporádicos para bancos, seguradoras e o governo recuperando itens e objetos roubados ou achando pessoas desaparecidas, trabalhos esses que lhe rendem uma grana bem boa no final. Oficialmente possui uma oficina mecânica onde trata da verdadeira paixão que são os carros. Tudo anda mais ou menos dentro dos conformes até que um agente norte-americano invade seu espaço e chega com uma proposta de trabalho para lá de arriscada: ir atrás de uma pasta roubada de maneira espetacular de um príncipe saudita em plena Paris. Ele não aceita o caso em um primeiro momento, entretanto quando vê que um antigo desafeto está envolvido nesse roubo, parte para a complicada caçada. “O Golpe” (The Take, no original) é uma publicação da editora Arqueiro de novembro de 2019 com 384 páginas e tradução de Marcelo Mendes. O livro do escritor Christopher Reich é um suspense de espionagem com boa quantidade de ação e algumas reviravoltas embutidas lá pelo meio. Situado principalmente em Londres, Paris e Marselha conta com várias traições e utiliza a política como motivadora dos fatos em uma trama conspiratória envolvendo Rússia, Arábia Saudita e EUA. É um thriller que mistura assaltos, perseguições e espiões na linha de grandes trabalhos do estilo, mas com um brilho bem menos intenso. Contudo esse brilho menos intenso não tira o prazer de uma leitura rápida e sem maiores atribulações para passar o tempo e nem desagrada aos fãs do estilo.

Nota: 6,0

Leia um trecho:


Ambientado nos EUA durante o fatídico ano de 2016 - o ano da eleição que levou Donald Trump a presidência - é que se desenvolve o romance mais recente do escritor Gary Shteyngart intitulado “Lake Success” que a editora Todavia publicou no Brasil em 2019 com 448 páginas e tradução do André Czarnobai. O fato de se passar durante 2016 e indo das desconfianças e receios das primárias até chegar a controversa vitória é importantíssimo na história e serve como um coadjuvante de destaque. O personagem principal é o narcisista, covarde, palerma e milionário Barry Cohen que administra um fundo multimercado perdendo de modo constante dinheiro de várias pessoas e sendo muito bem recompensado por isso. Acuado por denúncias, decisões profissionais equivocadas, com o FBI de olho, sem saber lidar com o filho pequeno que é autista e sem qualquer relação maior de afeto com a esposa, resolve infantilmente jogar tudo para cima e embarcar (quase) sem nada em um ônibus da empresa Greyhound para cruzar o país em uma busca nostálgica e sem sentido que serve para disfarçar o medo. No livro o EUA é um país que recompensa as piores (e mais imbecis) pessoas e uma sociedade onde os vilões têm mais chance de vencer. Usando de um humor bastante ácido e mordaz em busca de alguma redenção que seja, “Lake Success” narra essa história de egoísmo, abandono, superficialidade, impunidade e amor de maneira interessantíssima ainda que em determinadas partes a verborragia do protagonista quebre demais o ritmo.

Nota: 8,5

Assista ao hilário vídeo de divulgação com o autor e o Ben Stiller: 

domingo, 29 de março de 2020

Literatura: "Mulheres Empilhadas" e “Vozes de Tchernóbil - A História Oral do Desastre Nuclear”


Após ser agredida pelo namorado, uma jovem advogada paulista embarca para o Acre para acompanhar um mutirão de julgamentos de mulheres assassinadas naquele estado a pedido do escritório em que trabalha que está fazendo um estudo nesse sentido. Ao chegar para a missão e carregando dentro de si problemas pessoais tanto do presente quanto do passado se envolve no caso de assassinato de uma jovem indígena por três playboys da cidade e a partir disso as coisas entram em uma espiral gigantesca de acontecimentos que a levarão para caminhos outrora nunca imaginados. “Mulheres Empilhadas”, novo romance da escritora Patrícia Melo, usa o descrito anteriormente como ponto de partida, mas se estende por diversos prismas e por conta da maneira que isso é apresentado entra com méritos no rol dos melhores trabalhos da autora. Publicado em 2019 pela editora Leya com 240 páginas exibe uma narrativa dura e pesada com Patrícia assumindo uma postura potente e incisiva enquanto conversa sobre impunidade, hipocrisia, corrupção, feminicídio, direitos indígenas e questões de gênero. Questões essas que além de todas as desigualdades sociais e econômicas existentes no país, apresentam também uma clara constatação da facilidade com que as mulheres são mortas aqui. Como diz determinada parte do livro: “Não importa onde você esteja. Não importa sua classe social. Não importa sua profissão. É perigoso ser mulher.” Ainda mais em uma nação que nos últimos anos despreza isso de modo inconsequente e criminoso sem ações efetivas para mudar esse cenário descrito de forma avassaladora no livro.

Nota: 8,0




Existem livros em que seguir em frente é tarefa árdua, não por ser mal escrito ou tratar de um assunto irrelevante, mas sim por apresentar uma história tão implacável e dolorosa que é impossível ler com rapidez, sendo preciso parar e respirar com frequência depois de algumas páginas. É o caso do “Vozes de Tchernóbil - A História Oral do Desastre Nuclear” da vencedora do prêmio Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch, publicado em 2016 pela Companhia das Letras com 317 páginas e tradução de Sônia Branco quando completou 30 anos da catástrofe. A autora bielorussa levou 10 anos para concluir a obra que originalmente foi publicada em 1997 e optou por passar pelo fato em si e focar no universo em volta, nas histórias omitidas e na mudança drástica do cotidiano. São relatos de pessoas de diferentes profissões e classes para montar uma fotografia poderosa de uma guerra invisível contra um inimigo de aspecto completamente diferente e que eles não estavam preparados para enfrentar. Paralelamente traça um panorama político e social da época, enquanto aproveita para mostrar toda a inépcia, covardia e egoísmo do governo que escondia a verdade inundado com o medo de perder o poder e fazendo com que o povo sofresse muito e pagasse com a própria vida no decorrer dos anos. É um livro sobre memória, sobre lembranças, sobre pessoas que tiveram o medo ocupando o lugar do amor nos seus corações e que serve como lição para o momento em que passamos hoje no mundo.

Nota: 9,0

segunda-feira, 23 de março de 2020

Literatura: "Como a Democracia Chega Ao Fim" e “Barbed Wire Kisses – A História do Jesus And Mary Chain”


“Como a Democracia Chega Ao Fim” (How Democracy Ends) do escritor e professor de política da Universidade de Cambridge David Runciman foi publicado em 2018 nos USA e recebeu edição nacional no mesmo ano pela Todavia Livros com 272 páginas e tradução de Sergio Flaksman. Diferente de outros livros lançados no mesmo período, o tom do autor é levemente menos pessimista em relação aos abalos sísmicos que a democracia sofre nas mãos de indivíduos como Viktor Orbán na Hungria, Recep Erdogan na Turquia e Donald Trump nos EUA. Esse “otimismo” não é por crer nos nomes em questão, mas em outras amarras, conjunturas e cenários. Evidente que a obra foi provocada pela conturbada eleição no seu país, contudo estende-se plenamente para o restante do mundo (inclusive para nós). Na sua concepção a história não andaria para trás (mas não é o que estamos vendo) e os alvos focados como perigosos estão equivocados. A democracia só ruiria de vez por outros fatos como o mau uso da tecnologia ou uma possível calamidade. Lógico que quando escreveu o autor não imaginaria o atual cenário de pandemia e crise mundial que estamos atravessando, mas, mesmo assim com bastante fluidez ele deixa claro esboços provenientes disso. Das suas considerações, questionamentos e afirmações em meio a concordâncias e discordâncias que possamos ter, a mais importante talvez seja a colocação que a democracia pode entrar em falência mesmo permanecendo intacta na essência geral, disfarçada como tal. E em grande escala é o que presenciamos nesse momento.

Nota: 7,0


Em junho de 2019 os irmãos Reid desembarcaram no Brasil para mais um show em terras paulistas e na esteira disso a editora Sapopemba estreou no mercado com a publicação de “Barbed Wire Kisses – A História do Jesus And Mary Chain” da escritora (e baterista) escocesa Zoë Howe com 328 páginas, tradução de Letícia Lopes Ferreira e com direito a um prefácio exclusivo para a edição brasileira do baixista Douglas Hart, integrante da banda entre os anos de 1984 e 1991. Para quem é fã do som barulhento, melódico e repleto de microfonia da dupla escocesa que rendeu verdadeiras obras-primas como “Psychocandy” de 1985, “Darklands” de 1987 e “Stoned & Dethroned” de 1994 (e nenhum disco ruim na carreira, ressalte-se aqui), o livro é um prazer absoluto, daqueles que ao se ler um capítulo, volta para ler de novo. Desde adolescentes na pequena e sem futuro East Kilbride, cidade perto de Glascow, até os palcos do mundo todo passamos pelas (muitas e muitas) brigas, pela formação das ideias musicais, pelas (diversas) loucuras e bebedeiras, pela pancadaria dos shows do início que lhes deu fama, pela elaboração de uma arte feroz e doce ao mesmo tempo e por pouquíssimas concessões mercantis ao conduzir a carreira, o que soma-se ao extenso rol de coisas para se admirar desses dois esquisitões geniais. A autora ainda disponibiliza após o texto uma detalhada linha do tempo com várias notas para contextualização e a discografia completa com os créditos de cada gravação. Uma história e tanto.

Nota: 9,0

terça-feira, 17 de março de 2020

Quadrinhos: "Heróis Em Crise", "A Nova Califórnia", "Os Olhos de Barthô" e "Apanhadores de Sapos"

 

Tom King é hoje um dos melhores roteiristas das grandes editoras. São vários acertos na carreira: Batman, Senhor Milagre, Visão, O Xerife da Babilônia. Então quando ficou à frente de “Heróis em Crise”, a saga da DC publicada nos EUA entre novembro de 2018 e julho de 2019 que saiu aqui ano passado pela Panini Comics em 5 edições, a expectativa era boa, também por conta do argumento geral que reside em heróis e vilões sendo atendidos por uma “instituição” para tratar de estresse pós-traumático e depressão. No entanto, dessa vez Tom King errou e errou feio. Começa até bem nas duas primeiras revistas, mas o negócio desanda de tal maneira que além de confusa e mal alinhada, a trama força a barra mais do que o normal. A arte de Clay Mann é no máximo correta e não ajuda em nada o resultado que é para lá de decepcionante.

Nota: 2,0


Uma pequena e pacata cidade do interior onde as águas rodeiam e todos habitantes se conhecem tem a suposta tranquilidade e paz reviradas do avesso quando um novo morador chega e fica trancado em casa a sós com experiências que ninguém sabe ao certo o que são. Quando essas incursões científicas pouco a pouco passam ao conhecimento da população, a ganância e a natureza mesquinha das pessoas tomam conta das ações de modo abrupto. “A Nova Califórnia” é uma adaptação em quadrinhos escrita e desenhada pelo Daniel Araujo em cima do clássico conto de 1910 do escritor Lima Barreto. A obra que já ganhou várias releituras recebeu no ano passado uma das melhores nessa versão, tanto no que concerne a arte quanto a condução do roteiro que demonstra com certo humor embutido como as pessoas trazem consigo um egoísmo e maldade que podem emergir em qualquer momento da pior forma.

Nota: 7,0



Barthô é um cara grandão, forte, mas muito ingênuo e sem maldade no coração. Para ele tudo é bonito, todas as pessoas são legais e o mundo é um lugar sempre bacana de estar. Seu melhor amigo é Nicola que ao contrário é cheio de segundas intenções, pensamentos estapafúrdios e com uma visão de mundo mais cruel. Até que por conta disso, ao achar que está fazendo o bem, o protagonista se mete em uma grande roubada e vê a cabeça degringolar quando precisa lidar com o acontecido. É isso que vemos em “Os Olhos de Barthô” do quadrinista Orlandeli publicado de modo independente em 2019 com 97 páginas. Em mais um trabalho encantador e com uma arte exuberante o autor fala sobre bem e mal, sobre os nossos complicados dias atuais e sobre como o mundo pode ser sim um bom lugar. Nem que seja por um breve momento.

Nota: 7,5



E o Jeff Lemire conseguiu de novo. Já está até meio repetitivo elogiar o trabalho do canadense. Em “Apanhadores de Sapos” que a editora Mino publicou no final do ano passado com 112 páginas em capa dura, ele arregimenta uma fábula fascinante a respeito do envelhecimento e das memórias que ficam (ou não) quando as coisas realmente se encaminham para o final. Em conjunto a isso versa de modo singelo e delicado sobre o poder que cada escolha tem no decorrer da nossa jornada no mundo e trata dos arrependimentos que nos perseguem durante isso. É outro grande trabalho de um autor que parece ter um baú inesgotável de grandes histórias para contar (ainda bem) e que aqui se dá o direito de apresentar uma arte um pouco mais experimental. Uma obra para ler, refletir, ler de novo e dar uma olhadinha para o lado, para aqueles que vivem perto.

Nota: 9,0

Site da editora Mino: http://www.editoramino.com