segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Literatura: "Serotonina" e "Economia Donut"


No ótimo “Submissão” de 2015 o escritor francês Michel Houellebecq abordava política, religião e costumes com um viés propositadamente conservador que servia para impactar o leitor e criar discussões e polêmicas sobre o que espelhava no texto. Em “Serotonina” (Sérotonine) de 2019 que a editora Alfaguara publica aqui com 239 páginas e tradução conjunta de Ari Roitman e Paulina Wacht ele mergulha na depressão e nas consequências provocadas pelos remédios, sem deixar de aludir sobre alguns assuntos recorrentes nas suas obras anteriores e adotando a mesma tática de provocar o maior espanto possível para causar controvérsia e, lógico, repercussão. O protagonista é Florent-Claude Labrouste de 46 anos que é um ser humano que beira o desprezível, embora aqui e ali alguma boa vontade apareça embaixo do niilismo que carrega. Tomando um remédio para a depressão que ajuda, mas em contrapartida causa impotência e falta de libido, joga tudo para o alto (emprego desestimulante, esposa que lhe trai de várias formas, convívio social) e resolve viver dentro de um hotel com o resto do dinheiro que tem de uma herança enquanto visita um velho amigo de escola que virou fazendeiro e ex-namoradas/mulheres em uma espiral de antipatia, confrontos e tendências doentias. No que concerne ao objetivo específico de provocar, ele foi atingido sabiamente já que o livro (novamente) causou estardalhaço na França, todavia não pode se dizer isso do ponto de vista da qualidade da obra que peca em vários aspectos, principalmente na repetição de formatos e na forçada excessiva de mão.

Nota: 5,0

Leia um trecho aqui:


Uma outra economia é possível? Uma que consiga aliar o crescimento econômico com questões ambientais, sociais, comportamentais e igualitárias, sem esgotar os recursos do planeta e diminuindo as desigualdades de toda e qualquer estirpe? Para a britânica Kate Raworth a resposta é sim, mesmo que seja um processo bem complicado. Além de economista, a autora é professora e pesquisadora da universidade de Oxford com grande experiência em outras instituições. Em “Economia Donut” (Doughnut Economics) que a editora Zahar publicou no país esse ano com 368 páginas e tradução de George Schlesinger ela propõe um modelo econômico diferente que venha a substituir o que guia a humanidade nos últimos séculos e se tornou além de obsoleto, bem prejudicial. Para que esse modelo tivesse como ser visualizado ela criou um gráfico que parece com a famosa rosquinha e daí vem o nome. O livro propõe ideias e discussões que buscam quebrar essas teorias há muito estabelecidas para gerar um pensamento econômico que seja repassado desde já para a nova geração a fim de que seja possível definir metas de longo prazo para a humanidade como um todo, humanidade que hoje está na casa dos 7 bilhões de habitantes e tende a bater 10 bilhões em 2050. Desaprender o que sabemos e reaprender novamente por outro viés é necessário na visão da autora. O resultado é um trabalho expressivo que carrega a virtude de poder ser entendido mesmo por quem não tem muita sapiência na área. Um dos livros do ano, sem dúvida.

Nota: 9,0

Leia um trecho aqui:
https://zahar.com.br/sites/default/files/arquivos/trecho_-_economia_donut.pdf

Eis o donut:

domingo, 13 de outubro de 2019

Literatura: "Fogo & Sangue - Volume 1" e "Hibisco Roxo"


Quando Aegon, o Conquistador chegou em Westeros com seus dragões a tiracolo toda a história do(s) reino(s) mudou drasticamente. Em “Fogo & Sangue – Volume 1” (Fire And Blood), George R. R. Martin conta um pouco mais sobre os 300 anos de reinado dos Targaryen até que a rebelião comandada por Robert Baratheon matasse Aerys II, o Rei Louco e desse início a saga que fez estrondoso sucesso tanto nos livros quanto na televisão. Lançado pela editora Suma no final do ano passado com 598 páginas e tradução de Regiane Winarski e Leonardo Alves, o livro - que apresenta partes anteriormente publicadas em 2013, 2014 e 2017 em outras obras - é narrado bem depois que os fatos aconteceram e são baseados em relatos de um septão, um meistre e um bobo da corte (que rende as melhores passagens). “Fogo & Sangue” apresenta em farta quantia coisas que o autor explorou de forma competente em “Game Of Thrones”, tais como mentiras, traições, intrigas, guerras, religião e sexo, mas aqui com um pouco de humor. O livro amarra algumas coisas, explica outras e até levanta alguns novos questionamentos, no entanto não ultrapassa aquilo que realmente é: um subproduto voltado para fãs e devotos da história “original” que serve para suprir a ausência do próximo livro que não chega nunca. Em determinadas pedaços a leitura fica tão arrastada e desenxabida que é difícil seguir adiante. O ponto alto acaba sendo as ilustrações de Doug Wheatley (Superman, Hulk, Conan) que acrescentam bastante ao texto.

Nota: 4,0

Leia um trecho aqui:
https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/28000580.pdf 


“Hibisco Roxo” de 2003 é o primeiro livro da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie que depois se tornaria uma das relevantes autoras da atualidade com livros como “Americanah” e famosas palestras. “Hibisco Roxo” (Purple Hibiscus) ganhou edição nacional em 2011 pela Companhia das Letras que constantemente faz reimpressões como agora em 2019 com tradução de Julia Romeu e 328 páginas. Nele somos apresentados a jovem Kambili e a um país que está permanentemente na corda bamba, na luta entre manter tradições e crenças e/ou se adequar as mudanças trazidas pela colonização branca, enquanto os processos políticos e sociais são instáveis e geram corrosivos efeitos. O pai de Kambili é um empresário de sucesso que ao mesmo tempo em que ajuda bastante a comunidade e pessoas estranhas gere com mão de ferro a família, formada além dela pela mãe e por um irmão. O pai que assumiu a religiosidade dos colonizadores despreza os deuses antigos e guia os passos dos seus quase como um diretor de presídio. Sufocada e sem conhecer outra realidade, as coisas mudam para a jovem quando vai passar um tempo com a tia, professora de universidade e residente em outra cidade. E aí ela começa a perceber que o mundo não era o que pensava. Com a realidade nigeriana de pano de fundo (que em alguns aspectos não difere muito da nossa), a autora mistura autobiografia e ficção em um relato que por mais simples e sensível que possa parecer de início, carrega uma força arrebatadora junto consigo.

Nota: 8,0

Leia um trecho aqui:
https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/12753.pdf


sábado, 12 de outubro de 2019

Literatura: "A Mulher Na Janela" e "Marrom e Amarelo"


Um dos livros mais vendidos de 2018 nos EUA foi “A Mulher Na Janela” (The Woman In The Window) que logo teve os direitos vendidos para um filme que chega provavelmente no início do ano que vem com a estupenda Amy Adams no papel da protagonista. A editora Arqueiro publicou nacionalmente a obra no ano passado com 352 páginas e tradução de Marcelo Mendes. Com elogios de autores consagrados como Gillian Flynn e Stephen King, o trabalho causou burburinho também por conta do autor. Creditado no livro como A. J. Finn, na verdade descobriu-se depois que se tratava de Dan Mallory, escritor que conta com um histórico de mentiras e invenções na bagagem (mas, isso é outra história). Na trama, Anna Fox sofre de agorafobia e vive trancada em casa com pouco contato real além do psiquiatra e da fisioterapeuta. Tem como principal passatempo espionar os vizinhos pela janela se dedicando a pesquisas virtuais sobre cada um deles, enquanto mistura seus remédios com (muito) vinho, assiste filmes antigos e conversa em um fórum da internet com pessoas que sofrem da mesma doença. Com uma rotina quase que totalmente estabelecida vai muito levemente superando os medos, mas vê as coisas mudarem quando uma nova família muda para a rua. Da curiosidade e excitação inicial a trama gira para uma sequência de ardis, farsas e trapaças embaladas com muita paranoia. Com reviravoltas interessantes a leitura é daquelas capazes de prender o leitor, contudo ao término é esquecida tão rapidamente quanto foi consumida.

Nota: 6,0

Leia um trecho aqui: http://www.editoraarqueiro.com.br/media/upload/livros/amulhernajanela_trecho.pdf


O racismo está entranhado na cultura nacional, por mais que alguns rebolem com argumentos mirabolantes ou comparações esdrúxulas tentando negar esse fato. Está na escola, na rua, na universidade, no escritório, em casa, na festa. Vai desde o apelido “inofensivo” até atos e injúrias que desestruturam e são espelhados em maior grau para o resto da vida em oportunidades de trabalho, promoções, reconhecimento, etc. É sobre isso (e mais um monte de coisa) que o escritor gaúcho Paulo Scott fala em “Marrom e Amarelo”, lançamento desse ano da editora Alfaguara com 160 páginas. Na base é a história dos irmãos Federico e Lourenço em diversos momentos da vida que se entrelaçam do meio para o final, porém vai além disso e é – em algum nível - a história de milhares de pessoas espalhadas pelo país. Começa com Federico entrando em uma comissão federal de um novo governo espúrio que tem como missão rever o processo do ingresso de jovens negros no ensino superior pelo sistema de cotas, retorna para a adolescência em Porto Alegre e deságua no confronto da sobrinha com a Polícia em um protesto. De absurdos maiores como a criação de um software para definir quem é negro ou não até coisas menores do cotidiano, a obra de Paulo Scott é Brasil em estado puro. Com uma narrativa que alterna o tipo de escrita, mas nunca deixa de ser direta, clara e simples, temos um trabalho poderosíssimo e mais atual e relevante do que nunca. Uma pedrada daquelas.

Livro: 9,5

Leia um trecho aqui:
https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/28000141.pdf

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Literatura: “Ordem Vermelha: Filhos da Degradação (Vol. 1)" e "Praia de Manhattan"


Um sistema opressor que massacra a população de todas as formas possíveis e imaginárias incluindo uma violenta repressão que descamba para a tortura pura e simples quase que sempre. No apoio a esse regime além de um forte braço militar estão a religião, ciência e a manipulação de fatos e verdades com informações que favoreçam aos que estão no poder e espalhem o medo. Essa é a realidade de Unthreak, a última região habitada do mundo apresentada em “Ordem Vermelha: Filhos da Degradação (Vol. 1)” do escritor paulista Felipe Castilho. A obra foi lançada na CCXP em dezembro de 2017 com participação direta da empresa e teve publicação pela editora Intrínseca com 448 páginas. Fantasia onde transitam seres fantásticos e criaturas assombrosas tem como grande inspiração “O Senhor dos Anéis” e outras obras correlatas, contudo exibe brilho próprio não somente pelo universo que cuidadosamente cria em termos de ambientação e dinâmica visual, mas particularmente pelo teor do texto que insere uma sólida pegada política ainda que mascarada e encoberta por várias camadas. Os indivíduos que se atrevem a derrubar e desmascarar o governo corrosivo da deusa Una, precisam lidar com táticas e nuances que quando tiramos as espadas, bestas, escudos e bichos grotescos não são tão diferentes das que hoje vemos por aí tanto no Brasil quanto em alguns países do mundo. Dosando aventura, tensão e humor com essa dose camuflada de crítica política e social o primeiro volume de “Ordem Vermelha” é um trabalho que exibe vários bons atributos.


Nota: 7,0

Se atualmente as mulheres ainda se deparam com os mais diversos tipos de preconceito e ouvem absurdos mil, imagine isso na década de 40? É onde Anna Kerrigan, a protagonista de “Praia de Manhattan” (Manhattan Beach, no original) da escritora Jennifer Egan se encontra e lida diariamente com isso para conseguir o que deseja enquanto sustenta o crescimento pessoal junto com os erros, dúvidas e afirmações decorrentes. Publicado nos EUA em 2017 a obra recebeu edição nacional em 2018 pela editora Intrínseca com 448 páginas e tradução de Sergio Flaksman. A vencedora do Pulitzer de 2011 com o magistral “A Visita Cruel do Tempo” aqui navega por uma narrativa mais convencional (mas não menos elegante), usando a ficção histórica como condutora. Desenvolvido sobretudo na Nova York da época em que a segunda guerra mundial se desenrolava, mas também tendo uma relevante parte nos anos 30, no cenário pós-crise financeira de 1929, o trabalho versa sobre escolhas, consolidação, luta, inquietação, risos e lágrimas, sejam no mar ou em terra. Entramos de cabeça na vida da personagem principal que trabalha no Arsenal da Marinha e anseia por ser mergulhadora quando mulheres eram proibidas disso. Vivendo sozinha com a mãe e com a irmã que carrega sérios problemas de saúde, Anna Kerrigan fica sempre a um pé de desmoronar enquanto toma uma decisão difícil ou quando se entrega aos prazeres da vida. Com ambientação histórica que beira a perfeição, Jennifer Egan mostra de novo suas habilidades e o que é capaz de construir.


Nota: 8,0


quarta-feira, 31 de julho de 2019

Literatura: "Elza" e "Ideias Para Adiar O Fim do Mundo"


Antes da palavra resiliência aparecer diariamente em status e perfis de redes sociais (sem muito sentido na maioria delas, convenhamos), ela já encontrava há muito tempo relação direta com a carioca Elza Gomes da Conceição, a Elza Soares. Desde criança, passando pelo ano de 1953 onde teve a “audácia” de subir em um auditório comandado por Ary Barroso encantando o apresentador e o público até a última revigorada na carreira iniciada com o estupendo disco “A Mulher do Fim do Mundo” de 2015, a vida dela é uma constante de retomadas, quedas, adaptação, mudanças e novas retomadas. Em “Elza” que a editora Leya lançou em 2018 com 384 páginas, o jornalista Zeca Camargo se debruçou sobre essa vida tão ampla e tão marcante que já atravessa oito décadas com a missão de contar parte de tudo que aconteceu baseado em pesquisas e principalmente nos olhos e memória da própria artista. De sair na rua quando criança catando coisas do chão e do lixo para vender depois e ajudar em casa, de ser forçada a casar aos 13 anos com um homem que também não era mais que um garoto, da morte do primeiro filho, do relacionamento mais que intenso com Garrincha, das diversas baixas e dos recomeços que vieram em sequência, Elza sempre renasceu mais e mais forte. Com o caminho sempre marcado pela violência e o preconceito temos uma história de vida espetacular, que apesar de ser escrita com um tom talvez leve demais, ainda assim vale cada página.

Nota: 8,0



Ailton Alves Lacerda Krenak nasceu na década de 1950 na região do Vale do Rio Doce em Minas Gerais, no território do povo que carrega no nome e onde a mineração continua de modo incisivo até hoje. Ativista, escritor, pensador e um dos líderes mais renomados dos povos indígenas no Brasil, tem esse ano pela Companhia das Letras outro livro publicado, chamado “Ideias Para Adiar o Fim do Mundo”. Em formato pequeno (pocket) e com apenas 88 páginas, o trabalho se destaca pela força inversamente proporcional ao tamanho. Emprestando o nome do título de uma palestra proferida em uma universidade portuguesa em março desse ano, se baseia ainda em outra palestra e uma entrevista, ambas efetuadas em Lisboa no ano de 2017. Naquilo que apresenta e se propõe a discutir, Krenak cumpre o objetivo de fazer o leitor pensar, se indagar e questionar não somente os caminhos do mundo, mas os próprios passos. Em determinado momento pergunta no texto: “Somos mesmo uma humanidade?” E aí? Será que somos mesmo? Difícil acreditar nisso depois de passar um dia lendo as notícias atuais. Conversando sobre passado, presente e futuro, “Ideais Para Adiar o Fim do Mundo” é uma obra que ganha ainda mais força depois dos absurdos e posicionamentos cometidos pelos atuais mandatários da nossa nação e se torna um convite para que possamos contar mais uma história, sermos mais conscientes, nos posicionar a favor da natureza e adiar assim a cada dia - um pouco mais que seja - o fim.

Nota: 8,5

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Quadrinhos: "Nori e Eu", "Na Quebrada - Quadrinhos de Hip Hop", "O Fio do Vento" e "Punk Rock Jesus"

 

Masanori Ninomiya hoje com 33 anos foi diagnosticado quando criança com características de espectro autista. Não se expressava com palavras, mas encontrou no desenho uma maneira de absorver o que acontecia ao seu redor. Em “Nori e Eu”, ele conta essa história junto com a mãe Sônia Ninomiya, professora aposentada de literatura e cultura japonesa. Sob supervisão e edição de arte do Caeto, o trabalho em preto e branco escrito a quatro mãos têm 92 páginas e publicação esse ano da editora WMF Martins Fontes. O álbum é um retrato de luta e amor incondicional entre mãe e filho que a cada conquista faz o leitor vibrar junto. Da busca pela identificação maior da sua situação, passando pela convivência na escola e chegando em processos claros de evolução como sair sozinho e se expressar de modo claro, temos uma história que além de bastante inspiradora é extremamente bonita e forte.

Nota: 7,5

Existem iniciativas que só pela temática e concepção já merecem destaque. Se isso for aliado a material de qualidade, essa iniciativa ganha amplitude e se estende além desse destaque inicial. É o caso de “Na Quebrada – Quadrinhos de Hip Hop” da editora Draco com 184 páginas publicada esse ano. É uma coletânea de oito histórias organizada pelo versátil Raphael Fernandes (que também assina um dos roteiros) versando diretamente (mas não somente) para o público amante do rap e do hip-hop e para os moradores das periferias do país. A obra usa o cotidiano como inspiração sem esquecer de adicionar como pano de fundo o preconceito e a falta de oportunidade que andam do lado desse cotidiano. “Sampleador”, “Meu corpo, minhas regras” e “Um conto de duas cidades” exibem uma carga maior de intensidade, enquanto “O rei do groove” do Guabiras fecha a obra em alto estilo e (muito) bom som.

Nota: 8,0

A chegada de um novo trabalho do Camilo Solano é motivo para comemoração. O autor de “Desengano” e “Semilunar” é dono de uma das vozes mais interessantes do quadrinho nacional e em “Fio do Vento” - publicação de 2019 da editora Veneta com 100 páginas – isso se reafirma. Nas duas histórias que se entrelaçam cuidadosamente na trama e abrem espaço para que outras sejam contadas paralelamente, Solano faz o leitor ir com calma e até voltar para ler de novo. Os personagens carregam aquela diretriz que apesar das porradas da vida e dos caminhos escolhidos, ainda se deve ter alguma vontade de ir em frente nem que seja para um mísero alívio qualquer. Um desses personagens quando fala que está esgotado apesar do ano ter apenas começado ou vê que a vida passou e não andou como desejava rende momentos brilhantes apoiados sempre no traço vigoroso e expressivo do artista.

Nota: 8,5

“Punk Rock Jesus” foi escrita e desenhada pelo Sean Gordon Murphy que recentemente fez a ótima “Batman: Cavaleiro Branco”. Originalmente publicada nos EUA em 6 edições dentro do hoje extinto selo Vertigo da DC Comics entre 2012 e 2013, a série ganhou uma especialíssima edição de luxo pela Panini Books no ano passado com 364 páginas, onde mais de cem são esboços e excelentes considerações do autor sobre os rumos e decisões que tomou na trama. Abordando uma temática bem espinhosa conversa com voracidade com os dias atuais por mais absurdo que as premissas possam parecer logo de entrada. Com uma arte feroz e provocativa o texto ataca religião, conservadorismo e a manipulação da mídia para afirmar narrativas mentirosas (lembra algo?) enquanto apresenta um jovem tentando entender o seu verdadeiro lugar no mundo. Fácil uma das melhores obras dos anos 2000, “Punk Rock Jesus” é para se ter na estante.

Nota: 10,0




sexta-feira, 5 de julho de 2019

Cinema: Divino Amor

Baseado nos últimos quatro anos do cenário político, econômico e social brasileiro alguns futuros se apresentam como possíveis, sendo que nenhum deles é muito animador. Não se trata de pessimismo ou terrorismo precoce, mas a verdade é que nossa nação retrocedeu demasiadamente nesse período, mesmo considerando as situações propícias para tanto. Desses futuros um dos que mais assusta é a implantação de um governo baseado e ancorado em doutrinas religiosas acima de tudo e de todos. Inclusive do próprio Deus.

É nesse cenário que o diretor pernambucano Gabriel Mascaro mergulha em “Divino Amor” que estreou recentemente nos cinemas. Ambientado em 2027 apresenta um país na beira do fundamentalismo e que não recebe em cena quaisquer sinais de revoluções ou insatisfações tão inerentes nesse estilo de ficção. Quando esses sinais aparecem são mais por conta da burocracia extremada para servir aos interesses do governo (retratada de modo excelente em uma cena de um arquivo de pastas), do que por reclamações do estilo de vida.

A protagonista é Dira Paes, que vive Joana, uma funcionária de Cartório que atende a casais querendo se divorciar. Como acredita fielmente no governo e suas crenças (para ela não se trata de distopia e sim de utopia), ela usa de todos os artifícios para interferir na vida desses casais, dando opiniões e colocando empecilhos mil para que eles não se divorciem. E se vangloria para tudo e todos quando consegue “salvar” algum casamento que na maioria das vezes recebe o auxílio da igreja que dá nome ao filme e frequenta com o marido Danilo (Júlio Machado).

Narrado em off por uma voz de criança quase robótica, “Divino Amor” mostra sinais da intervenção do estado na vida pessoal como na cena da praia onde as mulheres estão cobertas e os homens de sunga, na maneira que fala dos “desgarrados” ou nos scanners espalhados nas entradas de lojas e repartições. Exibe alguns alívios cômicos que usam da sátira como o Drive-Thru de oração comandado por um pastor interpretado por Emílio de Mello, a festa do Amor Supremo - uma espécie de rave nacionalista religiosa que substitui o carnaval - ou nas práticas para lá de peculiares da igreja frequentada por Joana.

Gabriel Mascaro traz do seu filme anterior (“Boi Neon” de 2015) as cores, luzes, estilo sonoro e o sexo como força representativa da trama, além da exploração individual de pequenas características dos personagens. Com uma atuação brilhante de Dira Paes tem na fotografia de Diego Garcia e na direção de arte de Thales Junqueira, outros fortíssimos pontos técnicos. Por não ser um filme longo, algumas situações apresentadas que poderiam ser mais discutidas acabam ficando meio no ar, contudo isso não afeta o resultado.

“Divino Amor” é um filme que pode ser interpretado de diversas maneiras, partindo simplesmente da distopia apresentada que é plenamente possível – onde até os absurdos geram risadas meio tensas - ou indo para discussões sobre individualismo, mística e o uso da religião como força de coação dos pobres e vulneráveis para o ganho de poucos. Mas, sobretudo, expõe brilhantemente que em um sistema fascista por mais devoto que você seja, basta um pequeno erro ou desentendimento para que esse sistema se volte contra você e o esmague. Simples assim.

Nota: 9,0

sábado, 22 de junho de 2019

Música: Telekinesis, Idlewild e Bad Religion


O Telekinesis é um projeto do músico e compositor Michael Benjamin Lerner que desde 2011 é conduzido individualmente por ele assumindo todos os instrumentos e vocais. Em fevereiro deste ano tivemos o lançamento do quinto disco chamado “Effluxion” com 10 músicas em 31 minutos, distribuído pela Merge Records com gravação e mixagem do próprio Lerner e masterização de Jeff Lipton (Magnetic Fields). É um trabalho com muita unidade que se aproxima do “12 Desperate Straight Lines” de 2011 e se distancia da inconstância de “Dormarion” de 2013 e dos timbres eletrônicos de “Ad Infinitum” de 2015, registros antecessores bem medianos. O álbum começa com violões, uma bonita melodia e letra com toques de desesperança da faixa-título e vai até o pop espacial de “Out For Blood” com teclados no comando e leves considerações sobre se encontrar e sobre o tempo. No meio disso temos diminutas joias como a cantarolável “Cut The Quick”, a doce “Running Like A River” e a viciante “Suburban Streetlight Drunk”. Mesclando indie pop e powerpop, o Telekinesis tem em “Effluxion” provavelmente o melhor álbum da carreira.


Nota: 7,0



O último álbum de estúdio da banda escocesa Idlewild foi em 2015 (“Everything Ever Written”). “Interview Music” vem suprir essa ausência de alguns anos com 13 músicas em 52 minutos e conta com mixagem e produção do competente Dave Eringa que esteve por trás do ótimo “The Remote Part” de 2002. O Idlewild é uma daquelas raras bandas que dificilmente decepciona e novamente essa premissa se repete. Rod Jones (guitarra) e Roddy Woomble (vocal e letras) estão entre os melhores da sua geração e logo em “Dream Variations” que abre o disco com a participação classuda de Laura Burheenn isso fica evidente. A melodia, os vocais, a simplicidade do instrumental funcionando em torno da canção e a mudança de andamento são marcas bem características do grupo. Destaques maiores para a mais dançante “There’s a Place For Everything”, o indie rock de “Same Things Twice” e a bela “Lake Martinez” que encerra a experiência. Mesmo caindo um pouco de qualidade na segunda metade, “Interview Music” é para ser ouvido sem dosagem, um registro que faz bonito na discografia da banda.


Nota: 7,0




Vivemos tempos preocupantes, muito preocupantes. Nos EUA, no Brasil e em parte relevante do mundo as coisas caminham de maneira sombria. Alguns músicos como sempre buscam se posicionar, se opor a esses fatos e retratar esses tempos. E o punk, na sua essência mais pura e clara, apresenta isso através do Bad Religion e seu “Age Of Unreason”, lançado esse ano com 14 faixas pela Epitah Records. Uma banda punk de verdade que honra a história e o estilo e que depois de tantos e tantos anos ainda soa (muito) relevante. “My Sanity” (uma das músicas da temporada) e “Lose You Head” são perfeitas para quem está na corda bamba todo dia com notícias ruins e comentários nefastos invadindo a mente, “The Approach”, “Old Regime” e “Downfall” são excelentes e “Chaos From Within” e “Do The Paranoid Style” é para escutar em volume altíssimo. Com ótimas baterias de Jamie Miller, o trio de fundadores Jay Bentley, Brett Gurewitz e Greg Graffin lideram os outros dois guitarristas em um trabalho poderosíssimo que não pode de forma alguma ser desassociado das letras.

Nota: 9,0

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Literatura: “Valsa Brasileira: Do Boom ao Caos Econômico” - Laura Carvalho



“Como a economia de um país continental evoluiu, em apenas sete anos, da euforia de um cenário de crescimento bem acima da média das últimas décadas, com vigorosa geração de empregos formais e alguma redução das desigualdades, para uma das maiores crises de sua história?”

O questionamento acima está no início de “Valsa Brasileira: Do Boom ao Caos Econômico”, primeiro livro da Laura Carvalho, doutora em economia pela New School for Social Research e professora da USP. Publicação da Todavia Livros de 2018 com 192 páginas tenta não somente responder a essa primeira pergunta, como também elucidar para o leitor os anos da nossa economia do final do segundo governo FHC até o governo de Michel Temer.

A autora divide a parte principal em três pontos: 1) O Milagrinho Brasileiro, onde versa sobre esse final do FHC e os ótimos anos de Lula como presidente, 2) A Agenda Fiesp, sobre os primeiros quatro anos de Dilma Rousseff e 3) A Panaceia Fiscal, tratando do segundo governo da presidenta Dilma interrompido pela palhaçada do impeachment e a transição para o governo Temer. Nos capítulos “Acertando os Passos” e “Dançando com o Diabo” traz considerações, reflexões e possíveis caminhos para o futuro.

“Valsa Brasileira” é um livro importantíssimo para expor e explicar os fatos que levaram a (provavelmente) pior crise econômica que atravessamos (e ainda não saímos). Com foco na parte econômica, mas sem deixar de levar em consideração toda política, como também a influência de alguns setores poderosos nas tomadas de decisões, Laura Carvalho coloca de modo didático e da maneira mais simples possível suas colocações, estendidas ainda em mais de 120 notas de rodapé, tão interessantes quanto o texto principal.

Passa pelo grande avanço que o país obteve na década passada ancorado na alta dos preços das commodities exportadas (petróleo, minério e soja), mas não somente por isso. A política econômica do governo Lula distribuiu renda na base da pirâmide (via o Programa Bolsa Família, por exemplo, que em 2010 atendia a mais de 12 milhões), proporcionou mais acesso a crédito, valorizou o salário mínimo e aumentou consideravelmente os investimentos públicos em infraestrutura tanto física quanto social (que em contrapartida estimularam investimentos privados). A redução da pobreza e da desigualdade de renda mudaram o padrão de consumo da sociedade, com a inclusão de uma parcela significativa da população nesse mercado.

O ciclo de alta das commodities encerrou em 2011 contribuindo para a trágica performance da economia nacional nessa década, junto com uma instabilidade política apavorante e medidas do governo de Dilma Rousseff que para a autora se provaram desastrosas como a contenção de investimentos públicos, desvalorização da moeda, redução da taxa de juros, dezenas e estapafúrdias desonerações tributárias e o BNDES expandido em demasia agindo como ator principal. Foram decisões que cumpriram exigências das elites empresariais e financeiras e pioraram a situação mais e mais (elites que depois tiraram a presidenta do poder de modo circense e patético para capturarem de novo o país).

O descrito no parágrafo acima aumentou de modo alarmante com o advento do governo Temer – e depois a extensão calamitosa para o atual mandatário da nação –  criando o que a autora chama de “hipocrisia fiscal” onde tivemos vendas de ilusões, mentiras institucionais, punição direta das classes mais baixas que estão novamente sufocadas e a aprovação de legislações sem reflexo permanente para o processo de retomada, deixando o país ainda patinando e caindo. Uma crise não tem causa única e é preciso rever o que deu errado até aqui, mas isso não parece ser do interesse de quem comanda, já que os ricos estão mais ricos e os remédios mágicos que vivem alardeando nos seus planos não trazem quaisquer resultados.

Em determinada passagem no final do livro Laura Carvalho fala que “a política de desenvolvimento produtivo, assim como todos os demais elementos da política econômica, não deve ser moldada pelo interesse de grupos econômicos específicos, e sim por uma análise dos benefícios gerados para o conjunto da sociedade”. Nada mais justo e verdadeiro e que deveria ser o sustentáculo inviolável de todo governo e seus órgãos, contudo, tirando alguns anos da nossa história isso foi feito de modo esporádico e excepcional. E sofremos por isso.

Nota: 9,5

domingo, 12 de maio de 2019

Literatura: "Os Salgueiros" e “The Underground Railroad – Os Caminhos Para a Liberdade”


Dois amigos se aventuram pelo extenso Rio Danúbio em uma pequena embarcação apreciando as paisagens e conhecendo novos lugares num ritmo lento e tranquilo de aventura. Ao atracar para passar a noite em uma ilha pequena afastada de tudo o cenário passa a mudar e pequenas coisas vão acontecendo aqui e ali lentamente o que leva os dois perceberem (ainda que de modo relutante em certos momentos) que não estão sozinhos como imaginavam, existe alguém ou algo circundando temerosamente ao redor. Esse é mote de “Os Salgueiros” (The Willows, no original), obra clássica do britânico Algernon Blackwood (1869 - 1951) publicada pela primeira vez em 1907 e que H.P Lovecraft considerou como “a melhor weird story que já lera”. A editora Empíreo fez uma cuidadosa edição nacional bilíngue e ilustrada que passou por um processo de financiamento coletivo e saiu esse ano com capa dura, 152 páginas e tradução conjunta de Stefano Danin e Anna Civolani. Com um texto elegante o autor insere gradativamente o medo, um medo que não tem forma, não se exibe, não se apresenta para que o leitor possa ter um alvo a quem destinar o foco. É um medo do desconhecido que aparece sem explicação podendo tanto ser uma pessoa, um animal, um alienígena ou forças sobrenaturais que não se tem a mínima ideia do que sejam. A escolha dos salgueiros na paisagem natural tanto do caminho navegado quanto na própria ilha aumenta ainda mais a sensação desse pânico silenciado explorado habilmente pelo autor.

Nota: 7,5



“The Underground Railroad – Os Caminhos Para a Liberdade” é o livro que deu ao escritor Colson Whitehead o consagrado prêmio Pulitzer de 2017. Publicado nos EUA em 2016 ganhou edição nacional pela Harper Collins Brasil no ano seguinte com 320 páginas e tradução de Caroline Chang. Ambientado no século XIX assume ao pé-da-letra a história da “ferrovia subterrânea” - uma rede constituída por brancos e negros livres que ajudava escravos que fugiam a migrar para as terras livres do país ao norte – e cria nas páginas efetivamente uma estrada com trilhos funcionando debaixo da terra. Usando a jovem Cora como protagonista, nascida escrava em uma fazenda de algodão, onde sua mãe também era escrava, assim como a avó, o autor traça uma narrativa muito bem escrita de um período histórico para lá de sombrio. Withehead que esteve no Brasil para a Flip do ano passado constrói uma trama que ao cortar os estados americanos provoca sentimentos diversos ao leitor tais como a raiva pelos atos cometidos e a emoção pelas parcas vitórias conseguidas. É uma constante ficar inquieto na leitura, largar um pouco as páginas para respirar ao mesmo tempo em que se envolve mais e mais com os personagens. Passagens como a estadia de Cora trabalhando em um museu enquanto tem um pequeno alívio na fuga ao caçador de recompensas no seu encalço, como também o final apresentado exibem situações (ainda mais) revoltantes, situações que se olharmos com precisão infelizmente não estão tão distantes assim dos nossos dias.

Nota: 8,5

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Quadrinhos: "Frankestein 200", “Capitã Marvel: Mais Alto, Mais Longe, Mais Rápido e Mais", "Escapo" e “Vagabundos no Espaço – Volume Um”


Usando a obra-prima escrita por Mary Shelley e publicada originalmente em 1818, um grupo de quadrinistas se uniu para fazer um trabalho com seis histórias que tomam por base esses escritos e exploram essa base além. Organizada por Jorge de Barros, Alex Mir e Hector Lima, “Frankestein 200” passou por campanha de financiamento coletivo no final de 2018 e no início desse ano saiu pela editora Clepsidra em edição luxuosa de formato grande (29,7cm), capa dura e 108 páginas em preto e branco com arte de capa de João Pirolla. Nas histórias que compõe a obra três merecem destaques: “Jurupari” de Ana Fiori (roteiro) e Alex Genaro (arte), “A Noiva de Shelley” de Hector Lima (roteiro) e Gio Guimarães (arte) e “Francis” de Lexy Soares (roteiro) e Ton Albuquerque (arte). Apesar do resultado inconstante com histórias bem boas e outras nem tanto, “Frankestein 200” é iniciativa agradável, principalmente para fãs de terror/horror.

Nota: 6,0

“Capitã Marvel: Mais Alto, Mais Longe, Mais Rápido e Mais” aproveita o sucesso obtido pelo filme e a obtenção de grande quantidade de novo público. Com 136 páginas, capa dura, roteiro de Kelly Sue DeConnick e arte de David Lopez, a Panini Comics publica uma trama balanceada entre o humor e a força da personagem enquanto heroína e dona do próprio nariz. A arte apenas funcional não produz maiores efeitos, mas conta com cores bem utilizadas. Essa publicação resgata uma fase que saiu nos EUA em 2014 e apresenta Carol Danvers equilibrando vida pessoal, amor e as questões de heroína com o desejo de querer mais. Por conta disso vai para o espaço onde se envolve em uma trama libertadora para vários envolvidos. Com a participação incisiva dos Guardiões da Galáxia, todo seu poder é demonstrado nessa história divertida e emocionante que fica bem longe de ser banal ou piegas.

Nota: 7,0


“Escapo” é uma publicação da editora Mino de março desse ano. A obra do quadrinista americano Paul Pope foi lançada originalmente em 1999, com histórias concebidas entre 1996 e 1998. Elaborada em várias cidades mostra o autor de “Batman: Ano 100” na busca por um caminho na sua arte enquanto mistura o tradicional com o experimental. O protagonista é um artista circense que se livra das mais improváveis situações e perigos, mas vive atormentado e deslocado no meio de tudo. Com capa dura, em preto e branco, 96 páginas e tradução de Dandara Palankof, “Escapo” nasceu no meio de um turbilhão de sentimentos que inundavam o coração e a mente do autor na época e que se confundem diretamente com as do personagem que se ilude no amor, tem um encontro vívido com a morte, se questiona sobre a estrada que segue e busca uma nova definição de futuro enquanto vai adiante.

Nota: 7,0


Seres desajustados e esquisitos em uma mistura de aventura, espaço sideral, acidez, crítica comportamental e humor. Só isso já seria interessante, mas adicione que é uma história criada, escrita e desenhada pelo Raphael Salimena de “Na Linha do Trem” e temos algo interessante e mais ainda. Com lançamento no final de 2018 pela editora Draco com 104 páginas, “Vagabundos no Espaço – Volume Um” reúne a parte inicial do trabalho que o autor publica online desde 2015. Zix é um adulto que não faz nada da vida a não ser jogar videogame, comer (muita) besteira e ter um conhecimento absurdo de cultura inútil. Justamente por conta disso acaba selecionado para estrelar um reality show interplanetário, onde conhece os improváveis Margo e Soha. Às vezes usando uma arte exagerada para espelhar as maluquices e absurdos, cerca estas de realidade na essência o que diverte e assusta por conta dos rumos que a sociedade atual opta.

Twitter do autor:  https://twitter.com/linhadotrem 

Nota: 8,0




domingo, 14 de abril de 2019

“Captain Fantastic – A Espetacular Trajetória de Elton John nos Anos 70” - Tom Doyle


“Your Song”, “Tiny Dancer”, “Rocket Man”, “Mona Lisas And Mad Hatters”, “Bennie And The Jets”, “Goodbye Yellow Brick Road”, Don’t Let The Sun Go Down On Me”, “Bitter Fingers”, “Someone Saved My Life Tonight”. Essas são só algumas das canções que Elton John compôs nos anos 70, sendo a maioria ao lado do parceiro Bernie Taupin. Sem dúvida a década foi o momento mais brilhante do artista que por meio de canções como essas gravou discos excepcionais.

A fase contida nesses anos virou livro e teve publicação nacional no ano passado em edição da editora Benvirá com 320 páginas e tradução de Irenêo Baptista Netto. “Captain Fantastic – A Espetacular Trajetória de Elton John nos Anos 70” (Captain Fantastic – Elton John’s Stellar Trip Trough The ´70s, no original) é escrito por Tom Doyle e foi desenvolvido e forjado depois de uma série de entrevistas realizadas para uma matéria na revista Mojo sobre o referido período.

Foram anos loucos e esplêndidos regados com inseguranças, afirmações, criatividade e excessos. Reginald Dwight era um garoto prodígio tímido e gordinho, fascinado pelo rock de nomes como Jerry Lee Lewis e Little Richard e ouvinte voraz das coisas ao redor. Com início periclitante pensou em desistir de tudo, mas as coisas mudaram na excursão aos EUA em 1970. Então com 23 anos (re)nasceu para a vida artística em shows antológicos no palco do lendário Troubadour.

O músico administrava a constante briga da personalidade introvertida com aquela extremamente oposta que exibia nos palcos e que fazia com que a música parecesse suprimida, jogada para segundo plano em detrimento do espetáculo. Todo o caminho até virar um popstar é narrado por Tom Doyle de maneira calma, mas sem deixar de ser incisivo. Um retrato de um outro mundo onde um show importava, uma resenha positiva tinha peso e a rádio tinha as gravadoras atuando fortemente na divulgação.

De 1970 a 1976 ele colocou 7 discos consecutivos no topo das paradas americanas e 14 singles entre os 10 mais. Foi musicalmente influente no mesmo patamar de nomes como Led Zeppelin, Rolling Stones e David Bowie. Depois do álbum duplo “Captain Fantastic And The Dirty Brown” de 1975 as coisas começaram a degringolar e do alto em que se encontrava a queda foi considerável. Devorado pela cocaína e pelo excesso de trabalho uma crise emocional se instaurou e até a parceria com Taupin teve ruptura. Discos bem mais fracos vieram (como “Victim Of Love”).

A associação com Bernie Taupin é um dos vários pontos emblemáticos nessa história toda. A maneira como ele aparece na vida do músico é coisa do destino. Daquelas coisas maravilhosas do destino. Outro ponto fascinante são os encontros narrados com figuras como John Lennon, Neil Diamond, Leon Russell, Brian Wilson, Iggy Pop, Groucho Marx e Rod Stewart. O de Lennon é um caso a parte em 1974 antes de tocarem juntos no Madison Square Garden em Nova York.

No meio dos questionamentos constantes que martelavam sua mente, Elton John passou por um processo imenso de afirmação, não só da própria capacidade técnica em menor instância, mas principalmente da questão pessoal com a sexualidade vindo finalmente à tona em relacionamentos complexos e protetores. E durante esse percurso que resultou em conquistas gigantescas e fracassos retumbantes deixou músicas boas, músicas realmente muito, muito boas.

Nota: 8,5

Aqui uma playlist com 37 canções e quase três horas dessa frutífera década:



quarta-feira, 27 de março de 2019

Quadrinhos: "Crossed - Volume 1: A Primeira Vez", "Vazio", “Astro City – Volume 11: Vidas Privadas" e "Luzes de Niterói"


“Crossed – Volume 1: A Primeira Vez” que a Panini publica em 2019 com 256 páginas e capa dura, traz as dez primeiras edições comandadas pelos criadores Garth Ennis e Jacen Burrows (que depois deixaram a série). Lançada nos EUA entre 2009 e 2010 pela Avatar Press mostra um Garth Ennis forçando os limites que explorou em obras-primas como “Preacher” e “The Boys”. O autor libera as poucas amarras que ainda exibia para contar a história de um mundo onde uma praga ou vírus desconhecido se espalhou transformando a população em uma espécie de zumbis com inteligência, ainda que básica. Chamados de cruzados distribuem atrocidades e mais atrocidades enquanto o mundo definha e um pequeno grupo tenta sobreviver. A arte limpa de Burrows ressalta ainda mais as insanidades do roteiro e faz de “Crossed” um trabalho que mostra a verve de Ennis, mas acaba parecendo gratuita demais no que almeja contar.

Nota: 5,0


A vida deixou de fazer sentido. Todo dia é uma batalha já perdida onde o único momento de alívio é o álcool, companheiro constante nessa ladeira que cada vez é descida com mais e mais velocidade. É nesse ponto que encontramos o protagonista de “Vazio”, obra do quadrinista João Vitor Palermo (de “Solidão”) que foi impressa no final do ano passado. Viabilizada por financiamento coletivo e com posterior impressão da AVEC Editora com 96 páginas, a arte é em preto e branco e não há texto que é justamente para realçar o duro momento que o personagem passa. Se arremessando com afinco na direção do próprio aniquilamento, aos poucos é apresentado o motivo que provocou tudo, um motivo extremamente pesado que o assombra até por alucinações do meio para o final. “Vazio” discorre sobre depressão, auto-destruição, dor, erros, culpa e sobre a importância de tentar seguir em frente apesar de tudo.


Nota: 7,0


“Astro City” é uma estupenda série de quadrinhos. Concebida pelo trio Kurt Busiek (roteiro), Brent Anderson (arte) e Alex Ross (capas e concepção visual) desde 1995 encanta ao mostrar uma cidade onde heróis e vilões são rotineiros com seus poderes e trajes coloridos, fazendo parte do cotidiano das pessoas. É pela visão dessas pessoas normais que a série se constrói e se desenvolve a exemplo do que Busiek e Ross fizeram na clássica “Marvels”. Claro que brigas e cenas de ação estão presentes nas histórias em uma homenagem declarada e apaixonada a todo universo de supers e seus ícones, contudo o viés avança por outro lado. Desde 2015 a Panini Comics publica ela por aqui e em 2019 outro volume chega às bancas com 180 páginas que reúne edições lançadas em 2014 nos EUA. “Astro City – Volume 11: Vidas Privadas” é coisa fina e mais uma etapa desse processo de encantamento.

Nota: 8,0


Marcello Quintanilha fabricou obras do porte de “Tungstênio”, “Talco de Vidro” e “Hinário Nacional” o que o coloca como um dos nomes mais importantes dos quadrinhos nacionais, reconhecido por prêmios e mais prêmios (internacionais, inclusive). Essas obras ganham esse ano uma ilustre companhia chamada “Luzes de Niterói”, parcialmente financiado coletivamente no final de 2018 pela Editora Veneta que publica o trabalho com capa dura e 232 páginas. O autor volta para a cidade de Niterói onde cresceu e ambienta a história nos anos 50 em um Rio de Janeiro (e um país) que parece que ficou para trás há mais tempo. Focado em dois amigos conta uma história sobre amizade acima de tudo, mas que no meio tem momentos de tensão, aventura, raiva e amadurecimento misturando futebol, pescadores, família e responsabilidades com arte e roteiro casados perfeitamente que fazem o leitor mergulhar de cabeça nesse outro gol de placa do autor.


Nota: 9,0