quinta-feira, 18 de junho de 2015

"A Cidade Murada" - Ryan Graudin

Durante muitos anos existiu em Hong Kong uma determinada região da cidade chamada de Kownloon, conhecida como “cidade murada”. Anteriormente fortaleza militar da China, essa região sofreu vários desagravos, passando inclusive pela invasão do Japão na Segunda Guerra Mundial, o que resultou posteriormente em descontroles como a verticalização demasiada das moradias e o aumento da população residindo em um espaço tão pequeno (chegou a ser de 33 mil habitantes). Em 1994 o setor enfim foi desocupado e demolido pelo governo e deu lugar a um parque no final do ano seguinte.

A escritora americana Ryan Graudin (da série “All That Glows”, inédita no país) utilizou a história dessa área para construir o livro “A Cidade Murada” (The Walled City, no original) publicado em 2014 lá fora e que a Companhia das Letras através do selo jovem Seguinte lança agora aqui no Brasil. Com 400 páginas e tradução de Guilherme Miranda a obra não é uma ficção histórica, mas se apropria bastante das peculiaridades do lugar, dominado desde sempre por máfias e enxertado de assassinos, ladrões e outros tipos de criminosos no meio dos moradores comuns.

Neste cenário desolador onde é recomendável não confiar em ninguém e andar sempre armado, a escritora insere o adolescente Jin Ling, que se vira como pode dentro das vielas escuras e becos estreitos, mas que na verdade esconde um grande segredo que é a razão de viver em Hak Nam (como é denominada Kownloon no livro). No mesmo lugar está Mei Yee, uma jovem que foi vendida pelos próprios pais em uma fazenda do interior para servir em um bordel dominado pela Irmandade, um grupo de criminosos liderados com mão de ferro pelo feroz Longwai.

Em conexão direta com a Irmandade está Dai, um misterioso garoto que reside em Hak Nam há quase dois anos também escondendo segredos (o que é uma constante na narrativa) e cheio de culpa dentro de si. Pouco a pouco esses três nomes vão se correlacionando até que esteja montada uma aventura de fuga e de resgate na qual a família e o passado coordenam as atividades de um lado, enquanto do outro estão interesses egoístas e o desapego contra a humanidade em prol da ganância e da ambição como prioridades.

E assim se configura a trama de “A Cidade Murada”, que exibe muitas obviedades e lugares comuns já amplamente utilizados, enquanto busca agradar ao público que se destina - o que provavelmente consegue com sucesso - por mais que seja difícil imaginar que convença um leitor mais experiente. Como destaque positivo está o fato da autora expor sem melindres o desespero a que a região sucumbe no que concerne a criminalidade, vícios, drogas, prostituição e violência, sendo essa a maior virtude da obra.

Nota: 6,0

Site da autora: http://www.ryangraudin.com

terça-feira, 9 de junho de 2015

"O Cão do Sul" - Charles Portis

O cidadão tem 26 anos e ainda está sem rumo na vida. Já se dedicou a diversas coisas, porém, nunca foi muito longe em nenhuma delas. Apesar de uma inteligência de bom nível, essa falta de empenho, sejamos honestos, não conta muito pontos. O que é pior, ele não está muito preocupado com isso, pelo contrário. Até o dia em que sua mulher resolve fugir com outro cara. Bom, aí a coisa muda de figura e se faz necessário mexer o corpo para recuperar o amor perdido (nem tanto) e principalmente o carro utilizado para a fuga (um amado Ford Torino) e os cartões de crédito.

O carinha descrito acima é Ray Midge, personagem principal de “O Cão do Sul” (The Dog of The South, no original), livro do escritor estadunidense Charles Portis, famoso por “Bravura Indômita” de 1968, que gerou duas excelentes adaptações cinematográficas (uma em 1969 com John Wayne no papel principal e outra em 2010 com Jeff Bridges nessa posição). Lançado nos Estados Unidos em 1979, só agora esse pequeno clássico cult, ganha edição nacional através do selo Alfaguara da Editora Objetiva com 264 páginas e tradução de Renato Marques.

“O Cão do Sul” tem na essência a perseguição do protagonista atrás da amada saindo de uma pequena cidade do Arkansas, passando pelo México e terminando em Belize. Durante os quilômetros percorridos, o autor insere uma vasta quantia de personagens desconexos e surreais, além de situações que flertam com o absurdo e com a loucura, envolvendo todos os fatos em uma fina camada de humor negro e acidez, não deixando de sacanear quase ninguém no livro, além de atiçar conceitos fechados da cultura americana.

O próprio Ray Midge é um herói improvável, pois por mais que sua causa seja justa (recuperar a mulher e o carro), seus atos nem sempre são. De tendência conservadora e expondo frequentemente opiniões racistas e xenofóbicas, mesmo que pareça fazer isso sem querer, contrapõe isso com uma bondade guardada ali no coração que vez ou outra aflora fazendo o tomar decisões de cunho caridoso, sem que ele também não entenda muito as razões que o levaram a fazer isso.

Na história criada por Charles Portis em “O Cão do Sul” os personagens, via de regra, ou estão buscando alguma coisa (sem saber muito bem o que) ou estão envolvidos em suas próprias maluquices (sem saber muito bem o que estão fazendo). Em resumo, todos estão perdidos na América do final dos anos 70, sem saber ao certo onde devem aplicar o tempo que lhes resta aqui no mundo. É usando isso que o autor cria um livro não só engraçado e satírico, como também um trabalho crítico de comportamentos sociais, com muito cinismo enxertado na mistura.

Nota: 7,5

A Editora Objetiva disponibilizou um trecho gratuitamente para leitura, aqui. 

segunda-feira, 25 de maio de 2015

"Funny Girl" - Nick Hornby

O escritor inglês Nick Hornby andava devendo, essa é a verdade. Seus últimos livros “Uma Longa Queda”, “Slam” e “Juliet, Nua e Crua”, mesmo não sendo obras ruins, pecavam por repetir fórmulas, emoldurar conceitos já utilizados e não apresentar o ritmo visto em trabalhos como “Febre de Bola”, “Alta Fidelidade” e “Um Grande Garoto”, por exemplo. É fato que o diretor vem se dedicando mais a atividade de roteirista de cinema com trabalhos como “Educação” de 2009 e “Livre” de 2014 no currículo, mas mesmo assim sempre se espera mais dele.

Entretanto, essa “dívida” acaba de ser paga em 2015 com “Funny Girl”. Com lançamento nacional no mesmo ano da edição estrangeira, chega pela Companhia das Letras com tradução de Christian Schwartz e 424 páginas. Nele, o autor invade a Inglaterra dos anos 60, com seus costumes próprios sendo confrontados com toda a mudança promovida pela produção cultural da época. O foco é a televisão, mais precisamente uma série cômica estrelada por uma bela e curvilínea garota vinda do interior para Londres, mais precisamente de Blackpool onde acaba de rejeitar um título de Miss.

O sonho dessa garota chamada Barbara Parker é ser atriz como a fonte de inspiração e de carreira a ser seguida da norte-americana Lucille Ball que por muitos anos encabeçou “I Love Lucy”, e foi considerada a Rainha da Comédia. Essa é apenas uma das diversas referências reais que Hornby apropria no decorrer das páginas. Elas aparecem em todo lugar, passando pelo título (um filme homônimo do diretor William Wyler de 1968), avançando por escritores, diretores e produtores do período e culminando em todo um processo de lugares e programas televisivos.

“Funny Girl” é na sua essência uma comédia. Uma eficiente e competente comédia, diga-se, que cumpre com o objetivo de divertir e fazer o leitor relaxar. Porém, é mais do que isso. Em volta da busca pelo estrelato (e depois pela manutenção dele), o autor ataca outras frentes como a questão da independência feminina (estamos nos anos 60, lembre-se disso), o machismo da mídia e da sociedade como um todo, relações sexuais, a dificuldade de criação de um produto que seja comercial, mas não banal, assim como o trato das “celebridades” e adequação disso na vida pessoal.

Mesclando os capítulos com fotos da época, o autor faz em “Funny Girl” o melhor trabalho em anos. Da sua maneira e a seu modo, faz confrontos constantes e estipula discretamente correlações nas páginas como o de entretenimento versus intelectualidade, e o de sucesso versus esquecimento, por exemplo, além de terminar tudo isso com um final simples, poderoso e bem emocionante. É muito bom ter de volta um Nick Hornby em plena forma nas prateleiras. Que continue assim daqui em diante.

Nota: 9,0

A Companhia das Letras disponibiliza gratuitamente um trecho para leitura, aqui.

Textos relacionados no blog:

- Literatura: “Febre de Bola” – Nick Hornby
- Literatura: “Uma Longa Queda” – Nick Hornby
- Literatura: “Slam” – Nick Hornby
- Literatura: “Juliet, Nua e Crua” – Nick Hornby

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Literatura: Dead Kennedys e Ramones

“Dead Kennedys - Fresh Fruit For Rotting Vegetables (os primeiros anos)” já escancara logo no título as intenções. Escrito pelo jornalista Alex Ogg e com tradução de Alexandre Saldanha tem 240 páginas e lançamento nacional no ano passado pela Edições Ideal (que faz um ótimo trabalho no mercado editorial brasileiro com publicações relacionadas a música). No livro é apresentado o início da carreira de uma das bandas mais poderosas do punk. Desde a formação as páginas avançam até pouco tempo depois do lançamento de estreia em 1980 (que empresta o nome ao título), antes da separação em 1986 (esqueça a banda depois disso nas novas formações) e de todos os problemas que levaram a crise, principalmente a briga por direitos autorais e méritos de criação entre o vocalista Jello Biafra, o guitarrista East Baty Ray e o baixista Klaus Flouride. O álbum que trouxe canções do porte de “Kill The Poor”, “California Über Alles”, “In The Head” e “Holiday in Cambodia”, evidentemente é o foco mostrando tanto fatos sobre a elaboração e gravação, como também indo além para narrar todo o rebuliço e importância da obra. O livro conta com várias fotos do acervo do guitarrista e de ilustrações de Winston Smith, que entrecortam o texto de Alex Ogg baseado nas entrevistas que fez com os integrantes do grupo. Leitura completamente indicada para fãs do disco e da música possante contida nele.

Nota: 7,0

P.S: A editora disponibiliza algumas páginas para leitura gratuita, aqui.

“Na Estrada com os Ramones” foi lançado originalmente em 2003 lá fora. Escrito pelo gerente de turnê da banda, Monte A. Melnick, em parceria com o jornalista Frank Meyer ganhou edição nacional em 2013 através da Edições Ideal (sempre ela) com tradução de Alexandre Saldanha e 264 páginas de muita informação. Informação não muito nova para quem leu alguma das autobiografias de integrantes do grupo ou de outras diversas relacionadas ao quarteto mais famoso do punk rock, é verdade, mas ainda assim bem prazerosa. Até porque apresenta uma visão um pouco diferente, pois é vista mais de fora por alguém que estava lá desde o início e se fez presente nos 2.263 shows feitos (todos relacionados em um índice no livro) entre 30 de março de 1974 e 6 de agosto de 1996, quando as atividades musicais foram encerradas, enquanto o mito só faz aumentar cada vez mais. Das gravações primordiais até o fatídico e anunciado final, o leitor pode conhecer um pouco mais sobre a dificuldade de convívio entre os integrantes, a constante briga por domínio territorial, o uso demasiado de drogas e álcool e o profissionalismo absurdo com que tudo foi tocado apesar de todas essas questões, o que chega a impressionar. Leitura plenamente válida. 

Nota: 7,0

P.S: A editora disponibiliza algumas páginas para leitura gratuita, aqui.

terça-feira, 7 de abril de 2015

" A Hora dos Ruminantes" - José J. Veiga

É um dia como qualquer outro. Os afazeres são feitos calmamente com dedicação e parcimônia. Tudo parece igual como sempre foi em uma pacata vila interiorana dos anos 60. Ao longe ouvem-se cantos de pássaros e ruídos de animais. Até que ao acordar no dia seguinte os habitantes enxergam um acampamento cheio e organizado no outro lado do rio, conectado por uma pequena ponte. De súbito, a rotina vai para o espaço, pois a curiosidade toma conta de todos que procuram saber quem se aventura por terras tão remotas e quais são seus objetivos.

“A Hora dos Ruminantes”, livro escrito pelo goiano radicado no Rio de Janeiro José J. Veiga e publicado pela primeira vez em 1966 tem como ponto de partida o descrito no parágrafo anterior. É o segundo livro do autor e sucede “Os Cavalinhos de Platipanto” de 1959 com seus 12 contos que fazem intersecção entre sonho e realidade. Os dois livros estão sendo republicados esse ano pela Companhia das Letras em comemoração ao centenário de nascimento do autor (que faleceu em 1999) e os demais trabalhos concebidos por ele também estão programados para sair.

Essa nova edição de “A Hora dos Ruminantes” ganha um bocado de capricho com direito a prefácio detalhado, índice de obras relacionadas e capa dura. Com 152 páginas demonstra ao novo leitor o realismo fantástico de José J. Veiga que ganha paralelo na obra de autores sul-americanos como Gabriel Garcia Márquez, Julio Cortázar, Arturo Uslar Pietri e Murilo Rubião. É um texto onde as alegorias e metáforas tomam conta do cenário, mas sem deixar de lado a parte coloquial da fala dos habitantes e, por conseguinte, a montagem de um retrato do interior do Brasil.

O livro é dividido em três partes: “A Chegada”, “O Dia dos Cachorros” e “O Dia dos Bois”. Na primeira, como já retratado acima, a vila de Manarairema se depara com estranhos que chegam do nada e não se apresentam nem para conversar. O estranhamento inicial faz contrapartida com o medo que o ser humano tem da mudança, da alteração da rotina, do novo. Mas ainda mais fundo está a analogia e a relação com a ditadura militar em voga no país na época, podendo partir do pressuposto que os novos moradores do local são “gente do governo”, como diz o texto.

Com o medo se espalhando entre os simples moradores que passam a sofrer pequenas, mas frequentes coerções, a vila de Manarairema sofre drásticos ajustes. Isso só piora quando cães tomam de assalto o local obrigando todos a ficarem ressabiados e com pânico do que poderá vir, ou depois quando são bois que adentram esse espaço e não permitem nem que se saia de casa, precisando ser inventando todo um novo meio de comunicação para que a cidade sobreviva em meio a esses acontecimentos estranhos e tão sem sentido para o povo da vila.

No meio dos diálogos José J. Veiga insere bom humor ao lado do espanto, com a inserção de diversos ditados populares, mas também é no meio desses diálogos que amplifica as imagens alegóricas que fazem menção a verdadeira invasão que tomou conta do país naqueles tempos. Por outro lado, “A Hora dos Ruminantes” é um livro tão bem construído que funciona até se o leitor relevar isso e considerar as situações somente pelo viés da estranheza e da opressão que os habitantes de Manarairema se encontram adicionados. São essas possibilidades que constroem o maior mérito da obra.

Nota: 9,0

A Companhia das Letras disponibiliza gratuitamente um trecho para leitura, aqui.

Assista um vídeo com Antonio Arnoni Prado (responsável pelo prefácio do livro) falando mais sobre a obra do autor:

domingo, 5 de abril de 2015

"Dois Irmãos" - Fábio Moon e Gabriel Bá

O escritor manauara Milton Hatoum nasceu em 1952. Em 2000 lançou o romance “Dois Irmãos” ambientando em Manaus que conta a história dos gêmeos Omar e Yaqub, filhos de pais com origem libanesa. O livro é um romance denso que narra um drama familiar de proporções amplas, um pequeno épico da literatura nacional. O diretor Luiz Fernando Carvalho finaliza uma minissérie sobre a obra para estrear esse ano na Rede Globo, com nomes como Juliana Paes e Antônio Fagundes no elenco, porém, antes disso “Dois Irmãos” chega às livrarias em formato de graphic novel.

Os irmãos (e também gêmeos) paulistas Fábio Moon e Gabriel Bá trabalharam por quatro anos na adaptação para os quadrinhos. Essa adaptação foi lançada recentemente pela Companhia das Letras, dentro do selo Quadrinhos na Cia., com 232 páginas, formato grande (18 x 24,5cm) e em preto e branco. A talentosa dupla já havia se aventurado na conversão literária com “O Alienista” de Machado de Assis, mas foi em trabalhos originais que exibiram sua vocação com maior classe, como atesta a admirável “Daytripper”, premiada edição 
lançada por aqui em 2011.

Ao recontar a história concebida por Hatoum, Fábio Moon e Gabriel Bá adicionam a mesma intensidade e fineza já demonstradas antes e cravam outro acerto na carreira, que não só honra a obra homenageada, como também agrega novo valor a esta, o que não é muito comum nesses casos. A trama se inicia na Manaus de antes da Segunda Guerra Mundial, nos anos 30, quando os gêmeos Omar e Yaqub brigam entre si com grave resultado e os pais decidem mandar um dos dois para o Líbano para que feridas sejam curadas. O retorno só ocorre depois da guerra e não surte o efeito esperado.

Omar e Yakub tem a própria guerra para travar e no meio dela inserem a mãe Zana, o pai Halim e a irmã Rânia, além de Domingas e o filho, criados na casa com eles. Cada personagem é confeccionado com cuidado redobrado e nenhum é repleto de bondades ou pode ser considerado como um herói. Da malandragem de Omar até a inteligência de Yakub, expõe-se os desejos extremamente protetores da mãe e a raiva contida do pai pelos filhos. Até a doce irmã Rânia que em deliberado momento se apresenta como suporte para a família, também tem segredos e desejos reprimidos.

“Dois Irmãos” terá lançamento no mercado norte-americano e europeu e é uma oportunidade para alavancar ainda mais a carreira dos envolvidos, tendo em vista o zeloso trabalho realizado. Com uma arte de planos abertos, traços límpidos e quadros sem conversa apresenta uma Manaus repleta de vida e de oportunidades, mas ainda sim escorada nos males de toda cidade. Carregada de ambiguidade e tons cinzentos, Fábio Moon e Gabriel Bá se apropriam com autoridade do texto de Milton Hatoum e demonstram que famílias são infelizes cada uma a sua maneira em todo tempo e lugar.

Nota: 8,5

A Companhia das Letras disponibilizou um trecho para leitura, aqui.

Textos relacionados no blog:
- Quadrinhos: “Daytripper” – Fábio Moon e Gabriel Bá

Assista a um vídeo sobre a obra:


quinta-feira, 2 de abril de 2015

"Marvel Comics - A História Secreta" - Sean Howe

Em novembro de 1961 “The Fantastic Four No. 1” era lançada nos Estados Unidos a US$ 0,10. Escrita por Stan Lee e desenhada por Jack Kirby ali se iniciava para valer o Universo Marvel como conhecemos, mesmo que os autores não imaginassem naquele momento quanto suas criações iriam valer e a quantidade de pessoas que iriam atingir. O Quarteto Fantástico foi imaginado como uma resposta para a Liga da Justiça da América da DC Comics, feito sobre as ordens de Martin Goodman, dono da Magazine Management Company, que depois viria se tornar a poderosa Marvel, desde 2009 parte do império Disney e com receitas anuais absurdas.

“Marvel Comics – A História Secreta” (Marvel Comics: the untold story, 2012) narra a história da criação desse colosso do entretenimento desde os anos 30 ainda com outro nome até a já citada venda de 2009. Com lançamento nacional pela Editora Leya em 2013 conta com 560 páginas e um apêndice exclusivo elaborado pelo tradutor da obra Érico Assis relacionando cada história citada com a publicação no país. O autor Sean Howe viaja pelas décadas para contar uma jornada permeada por brigas, desilusões, traições, egoísmo, sorte e, acima de tudo, muita, muita criatividade.

A viagem proposta pelo autor tem a Marvel como foco mas também serve como panorama da indústria dos quadrinhos durante os anos, além de correlacionar outras editoras como DC Comics, Dark Horse e Image Comics como coadjuvantes de luxo. Tem como grande mérito amarrar a criação de personagens clássicos como Homem-Aranha, Capitão América, Thor, X-Men, Quarteto Fantástico, Homem-de-Ferro e Hulk (entre tantos outros) com as decisões editoriais e empresariais por trás de tudo, construindo assim um estudo de caso detalhado sobre normas de mercado e gestão de marcas, relatando todos os atropelos criados pela própria empresa.

“Marvel Comics – A História Secreta” é recheado de casos engraçados e diversos outros de pura picuinha e maldade corporativa. Tem como pano de fundo a briga eterna pela autoria dos personagens, a remuneração por parte do lucro gerado por essas criações e as conquistas que foram alcançadas a passos lentos nessa questão. Apresenta um Stan Lee sem máscara e dotado por uma paixão imensurável pelos quadrinhos, mas que tomou decisões cruéis ou pecou pela omissão em vários momentos, além de focar desde cedo na transposição das obras para o cinema, uma obsessão cega que mostrou acertadamente ser o caminho da salvação.

O grande Jack Kirby é retratado como vítima ao mesmo tempo que tem declarações contestadas pela veracidade dos fatos (como ele ter criado sozinho o Homem-Aranha). Outros artistas importantes como Steve Ditko, Chris Claremont, Neal Adams, Frank Miller e Todd McFarlane são misturados a editores, empresários e milionários em meio a discussões fortes, pedidos de demissões e desilusão com o mercado. Jim Shooter, por exemplo, o manda chuva que salvou a Marvel nos anos 70 mas logo em seguida a afundou em um processo de falta de criatividade, censura e bagunça administrativa que culminaria no pedido de falência dos anos 90, transita por esses dois lados.  

“Marvel Comics – A História Secreta” é daqueles livros que pode tranquilamente carregar o status de imprescindível. É um trabalho robusto gerado em anos de pesquisas e centenas de entrevistas e por mais que não dê tanta atenção aos anos mais recentes da empresa, ainda assim apresenta material para inacabáveis análises e discussões futuras. Há de se considerar também que é um livro de jornalista e não a história oficial da empresa. Essa história foi lançada ano passado lá fora (“75 years of Marvel Comics”), um calhamaço de 700 páginas escrita pelo ícone Roy Thomas, ainda sem edição nacional.

Contudo, uma coisa é certa, depois de acabar o livro de Sean Howe, você nunca mais lerá quadrinhos da mesma maneira. Não mesmo.

Nota: 9,5

Site oficial do autor: http://seanhowe.com

Textos relacionados no blog:
- Literatura: “Will Eisner: Um Sonhador nos Quadrinhos” – Michael Schumacher

A Editora Leya disponibilizou um trecho para leitura. Veja abaixo:

terça-feira, 31 de março de 2015

"Mapas Para As Estrelas" - 2015

Uma jovem chega a Hollywood e a primeira coisa que faz é encomendar uma limusine para circular pela cidade atrás de casas de famosos e celebridades. Repassa um endereço específico ao motorista e vai conversando sobre esse tema o que leva o telespectador a crer nesse momento que se trata de mais uma deslumbrada com o mundo da fama. Só que essa impressão é descartada quando chegam ao endereço e lá não tem nada, só um grande espaço vazio. A partir disso começa uma história onde o buraco é muito mais embaixo.

A jovem se chama Agatha Weiss (Mia Wasikowska de “Alice no País das Maravilhas”) e mantém relação com uma família famosa composta por um arrogante ator adolescente (Evan Bird), a dedicada e conturbada mãe (Olivia Williams) e o pragmático pai (John Cusack) que tem horário na tevê e explora técnicas de autoajuda como fonte de rendimentos. Para fechar o ciclo temos uma atriz decadente (interpretada brilhantemente por Juliane Moore) para quem Agatha vai trabalhar, e o motorista da limousine com quem ela inicia um relacionamento (Robert Pattinson).

Esse é o mote de “Mapas Para as Estrelas” (Maps to The Stars, originalmente), o novo filme do diretor canadense David Cronenberg lançado lá fora no ano passado e com estreia recente aqui no Brasil. Na superfície o roteiro de Bruce Wagner (“Luta de Classes em Beverly Hills”) trata de um drama familiar e pessoal, mas é só passar um pouquinho da primeira camada para invadir um mundo sujo, frágil e com relações construídas por puro interesse, afinal é um filme de Cronenberg e se uma coisa que o seu cinema faz com maestria desde “Scanners” de 1981 é gerar incômodo.

“Mapas Para as Estrelas” sucede o ótimo “Cosmópolis” de 2012 (onde Robert Pattinson também estava em uma limusine), mas avança um pouco mais na experimentação e trabalha uma trama de desajuste social, pressão psicológica e esvaecimento profissional, junto com incesto, drogas, abusos sexuais e violência. Como sempre, Cronenberg faz ótimo trabalho com os atores que escolhe. Juliane Moore está excelente como a atriz saturada Havana Segrand, assim como John Cusack como o Dr. Stafford Weiss e Mia Wasikowska em um papel onde a dubiedade é a grande sacada.

“Mapas Para as Estrelas”, porém, traz um problema embutido no exagero de algumas situações. Mesmo que se perceba esse exagero como necessário para expor uma Hollywood doentia e superficial, ainda assim a carga é demasiada, principalmente quando são inseridas visões de pessoas mortas com frequência em mais de um personagem. No mais, ainda assim é um trabalho que instiga o telespectador a sair um pouco do habitual e só por isso já vale a pena ser visto, além do que, um filme mais ou menos de David Cronenberg vale mais do que a maioria do que temos hoje por aí.

P.S: O filme rendeu o prêmio de Melhor Atriz para Juliane Moore no Festival de Cannes e uma indicação de Melhor Diretor para David Cronenberg no mesmo festival.

Nota: 7,0

Textos relacionados no blog:

- Cinema: “Cosmópolis” - 2012

Assista a um trailer legendado:


sexta-feira, 27 de março de 2015

"Sniper Americano" - Chris Kyle

“Não arrisquei a vida para levar a democracia ao Iraque. Arrisquei-a pelos meus companheiros, para proteger os meus amigos e compatriotas. Fui à guerra pelo meu país, não pelo Iraque. Meu país me mandou lá para que aquela merda não fosse parar na nossa terra. Nunca lutei uma única vez pelos iraquianos. Eu estava pouco me fodendo para eles”.

Durante a guerra do Iraque nos anos 2000 que foi vestida com as roupas daquilo que os EUA denominaram de “Guerra ao Terror” depois do atentado de 11 de setembro de 2001, muito se ouviu sobre as verdadeiras causas da invasão, sobre os reais motivos que levaram o Presidente Bush e sua cúpula a ordenar os ataques. Durante esse tempo revelações foram feitas e percebeu-se que alavancada por inúmeras mentiras os motivos dos EUA não eram tão nobres como eles alegavam e pouco tinham a ver com levar a liberdade ao povo iraquiano acuado pelo sanguinário ditador Saddam Hussein.

O texto realçado lá em cima é retirado do livro “Sniper Americano” (“American Sniper: The Autobiography of the Most Lethal Sniper in U.S Military History” no original, 2013), que a editora Intrínseca publicou no Brasil no início desse ano pegando carona no filme dirigido por Clint Eastwood e estrelado por Bradley Cooper, que rendeu surpreendentes e inexplicáveis 6 indicações ao Oscar, incluindo ali categorias como Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Roteiro Adaptado. Se ao sair do cinema questionava-se como um trabalho tão ruim poderia ter sido agraciado com tantas indicações, depois de acabar o livro que deu origem ao longa se conclui que nada é tão ruim que não possa piorar mais.

O livro de Chris Kyle elaborado com a ajuda do escritor Jim DeFelice e do advogado (sim, advogado) Scott McEwen ganhou o subtítulo nacional “O Atirador Mais Letal da História dos EUA”, realçando o fato de que mais de 150 mortes foram atribuídas ao autor e outras mais ainda anseiam por confirmação. Com 344 páginas e tradução de André Gordirro, o livro apresenta esse SEAL (membro de força específica da Marinha treinada para operações especiais), nascido no Texas e falecido aos 39 anos, assassinado por outro veterano de guerra que sofria de estresse pós-traumático e estava dentro do rol de pessoas ajudadas em um projeto destinado a reinclusão de soldados na sociedade.

Desde criança Chris Kyle já tinha acesso a armas de fogo, coisa normal dentro da cultura do seu país. Quando resolveu entrar para a Marinha com o senso de patriotismo exacerbado se direcionou para o grupo de atiradores de elite, onde essa paixão armamentista poderia ser bem utilizada. Lá ele encontrou um ambiente propício para progredir e utilizar suas ideias de mundo a favor de Deus, da pátria e da família, nessa ordem, como faz questão de destacar em várias passagens. E foi premiado por isso e exaltado pelos seus feitos, suas mortes, mesmo que isso não lhe interessasse tanto no que chamava de “glória de mentira”, pois o objetivo era mesmo matar pessoas.

Quando descreve o treinamento para chegar a SEAL, onde sofria todo tipo de violência física e psicológica para ficar quase indestrutível, é fácil perceber como a máquina de guerra funciona superficialmente. Os soldados passam por uma lobotomia onde todo o senso de questionamento é retirado para seguir ordens. A enfermeira britânica Florence Nightingale, pioneira do tratamento a feridos de guerra, afirmou certa vez que: “é necessária uma certa dose de estupidez para se fazer um bom soldado”. Durante a leitura de “Sniper Americano” essa frase se correlaciona em vários momentos e em diversas formas.

A figura de Chris Kyle, pelo menos aquela retratada no livro, é egocêntrica e raivosa, com claros exemplos de racismo e xenofobia, além de desprezo para quem não pensa da mesma maneira que ele. Visões de valores deturpados pelo meio ou o senso de que todas as mortes são abonadas por algo superior e ele pode “ficar diante de Deus com a consciência limpa por ter feito o (...) trabalho”, mostram que o seu fundamentalismo religioso não é tão diferente assim daquele que visava combater. Por dentro desse discurso de pátria e religião o que reside mesmo é a diversão, que o autor afirma frequentemente conseguir, dizendo que “adorava o que fazia”.

Não há ingenuidade na guerra e nela não existem santos. Barbaridades são cometidas dos dois lados envolvidos, por isso toda crucificação pode ser uma bela furada. No entanto, “Sniper Americano”, além da escrita sem brilho, mostra um protagonista com ideário questionável e senso de justiça completamente difuso. É um livro que vale somente para atestar o absurdo doutrinamento utilizado para se formar soldados eficazes e com pouca argumentação destinados a atingir fins governamentais escusos travestidos de bondade, sendo que o enaltecimento dos feitos de guerra pelo governo e pelo próprio livro construindo uma lenda ou mito faz parte direta disso.

P.S: Mestre Yoda, que sabia muito das coisas, afirmava brilhantemente em Star Wars:“Grande guerreiro? Guerra não faz grande ninguém”. É por aí.

Nota: 3,0

A editora Intrínseca fez uma página para o livro. Para saber mais, acesse: http://www.intrinseca.com.br/sniperamericano 

domingo, 22 de março de 2015

Quadrinhos: "Cidade Selvagem - Vol. 1" e "Batman: Noel"

“Cidade Selvagem – Volume 1” (Fell, no original) é ambientada em uma zona urbana detestável que usa como acesso uma simbólica ponte. Nesta terra sem regras, a criminalidade e a falta de punição por parte da lei alcançam níveis estratosféricos. É nessa pequena parte do inferno que o Detetive Fell está inserido quando opta (por motivos silenciosos) em trabalhar na  delegacia da região que possui apenas “três detetives e meio” disponíveis. Publicada originalmente pela Image Comics em 9 edições entre setembro de 2005 e janeiro de 2008, a série ganha nova publicação nacional pela Mythos Books agora no início de 2015, com 164 páginas dispostas em uma bonita edição encadernada (como é costume da editora). Escrita por Warren Ellis (“Transmetropolitan”) e com arte de Ben Templesmith (“30 Dias de Noite”) temos uma história bem ao estilo do seu criador, com personagens que sempre deixam alguma coisa para ser descoberta e vivem na margem entre o certo e o errado sem se importar muito com isso. Contando com arcos fechados dentro de cada edição como nos seriados criminais famosos da televisão, acaba por funcionar bem, devido também a carga de humor negro embutida. Todavia, o grande destaque é a arte de Templesmith que surge riscada, escura, desfocada e com alguma referência a Frank Miller inserida ali no meio. Mesmo com um sentimento geral de não finalização já que a edição número 10 ainda não foi lançada lá fora (de 16 previstas), “Cidade Selvagem – Volume 1” se configura em uma boa história de quadrinhos.

Nota: 7,0

“Um Conto de Natal” de Charles Dickens já ganhou incontáveis adaptações desde 1843, seja na televisão, teatro, cinema ou literatura. A história do endurecido Scrooge que recebe a visita de três fantasmas no natal (representando o passado, presente e futuro) para que, entre outras coisas, analise o caminho que a vida dele tomou, praticamente já foi exaurida por completo. Eis que em 2011 o artista Lee Bermejo (da fenomenal “Coringa” ao lado de Brian Azzarello) resolveu utilizar novamente essa narrativa e desta vez correlacionar com o Batman. Sim, o Batman. O resultado disso tinha tudo para ser um imenso lago de sentimentalismos e clichês, mas, para grata surpresa, as coisas não saíram tão banais assim. “Batman: Noel” que a Panini Comics lançou por aqui no final do ano passado com 112 páginas, papel couchê e capa dura, com roteiro e arte de Lee Bermejo e cores de Barbara Ciardo é uma história que merece estar no rol das melhores coisas feitas com o morcego nos últimos anos. Transformando Batman em Scrooge, o autor mostra um herói raivoso que há muito tempo deixou de lado a nobreza e entrou em uma caçada cega contra o mal, desvirtuando assim seus princípios e ações. Quando começa a perseguir um dos capangas do Coringa no Natal ele recebe a visita dos três “fantasmas”, aqui travestidos de Robin, Mulher-Gato e Superman e a jornada de redenção é construída. “Batman: Noel” apresenta uma arte rica e exuberante, além de um roteiro que usa a obviedade como força para edificar uma história com significados e emoções.

Nota: 9,0

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