terça-feira, 7 de abril de 2015
" A Hora dos Ruminantes" - José J. Veiga
quinta-feira, 2 de abril de 2015
"Marvel Comics - A História Secreta" - Sean Howe
“Marvel Comics – A História Secreta” (Marvel Comics: the untold story, 2012) narra a história da criação desse colosso do entretenimento desde os anos 30 ainda com outro nome até a já citada venda de 2009. Com lançamento nacional pela Editora Leya em 2013 conta com 560 páginas e um apêndice exclusivo elaborado pelo tradutor da obra Érico Assis relacionando cada história citada com a publicação no país. O autor Sean Howe viaja pelas décadas para contar uma jornada permeada por brigas, desilusões, traições, egoísmo, sorte e, acima de tudo, muita, muita criatividade.
A viagem proposta pelo autor tem a Marvel como foco mas também serve como panorama da indústria dos quadrinhos durante os anos, além de correlacionar outras editoras como DC Comics, Dark Horse e Image Comics como coadjuvantes de luxo. Tem como grande mérito amarrar a criação de personagens clássicos como Homem-Aranha, Capitão América, Thor, X-Men, Quarteto Fantástico, Homem-de-Ferro e Hulk (entre tantos outros) com as decisões editoriais e empresariais por trás de tudo, construindo assim um estudo de caso detalhado sobre normas de mercado e gestão de marcas, relatando todos os atropelos criados pela própria empresa.
“Marvel Comics – A História Secreta” é recheado de casos engraçados e diversos outros de pura picuinha e maldade corporativa. Tem como pano de fundo a briga eterna pela autoria dos personagens, a remuneração por parte do lucro gerado por essas criações e as conquistas que foram alcançadas a passos lentos nessa questão. Apresenta um Stan Lee sem máscara e dotado por uma paixão imensurável pelos quadrinhos, mas que tomou decisões cruéis ou pecou pela omissão em vários momentos, além de focar desde cedo na transposição das obras para o cinema, uma obsessão cega que mostrou acertadamente ser o caminho da salvação.
O grande Jack Kirby é retratado como vítima ao mesmo tempo que tem declarações contestadas pela veracidade dos fatos (como ele ter criado sozinho o Homem-Aranha). Outros artistas importantes como Steve Ditko, Chris Claremont, Neal Adams, Frank Miller e Todd McFarlane são misturados a editores, empresários e milionários em meio a discussões fortes, pedidos de demissões e desilusão com o mercado. Jim Shooter, por exemplo, o manda chuva que salvou a Marvel nos anos 70 mas logo em seguida a afundou em um processo de falta de criatividade, censura e bagunça administrativa que culminaria no pedido de falência dos anos 90, transita por esses dois lados.
“Marvel Comics – A História Secreta” é daqueles livros que pode tranquilamente carregar o status de imprescindível. É um trabalho robusto gerado em anos de pesquisas e centenas de entrevistas e por mais que não dê tanta atenção aos anos mais recentes da empresa, ainda assim apresenta material para inacabáveis análises e discussões futuras. Há de se considerar também que é um livro de jornalista e não a história oficial da empresa. Essa história foi lançada ano passado lá fora (“75 years of Marvel Comics”), um calhamaço de 700 páginas escrita pelo ícone Roy Thomas, ainda sem edição nacional.
Contudo, uma coisa é certa, depois de acabar o livro de Sean Howe, você nunca mais lerá quadrinhos da mesma maneira. Não mesmo.
Nota: 9,5
Site oficial do autor: http://seanhowe.com
Textos relacionados no blog:
- Literatura: “Will Eisner: Um Sonhador nos Quadrinhos” – Michael Schumacher
A Editora Leya disponibilizou um trecho para leitura. Veja abaixo:
quarta-feira, 29 de junho de 2011
"Tanto Faz & Abacaxi" - Reinaldo Moraes
sábado, 27 de fevereiro de 2010
"O Guia do Mochileiro das Galáxias" - Douglas Adams
Passando por uma dessas lojas virtuais deparei com uma coleção reunindo os cinco livros da série “O Guia do Mochileiro Das Galáxias” do inglês Douglas Adams por um preço bem amigável. Ótimo investimento. A série que ganhou mais uma roupagem pela Editora Sextante é uma nova chance para se conhecer um universo criado a partir de muita sátira e ironia, onde personagens estranhos tocam sua vida em um completo banquete de estupidez e humor negro.domingo, 1 de novembro de 2009
"Pergunte ao Pó" - John Fante
“Pergunte ao Pó” é tido como influência por uma grande gama de escritores. Junto com Henry Miller provavelmente foi a maior fonte de inspiração para nomes como Jack Kerouac, Allen Ginsberg e Charles Bukowski, podendo colocar no bolo inclusive gente mais nova como Chuck Palahniuk. O livro ganhou inclusive uma versão cinematográfica (bem mais ou menos por sinal) há alguns anos atrás, com Colin Farrell no papel principal. Mas o que faz desse livro algo tão especial assim? Primeiro a maneira que John Fante escreve, sem modismos ou moldes, segundo o ritmo que ele imprime a trama, que vai surgindo frenética e alucinada e por último o seu personagem principal, o escritor filho de italianos Arturo Bandini que na Los Angeles dos anos 30, vive entre o sonho e a desilusão na ânsia de se tornar um grande astro em um país devastado pela crise de 1929 e com a segunda grande guerra em andamento. Na busca pelo seu sonho de sucesso, Bandini mantêm uma relação quase quixotesca com seu editor, que vai aprovando para publicação um conto aqui e outro ali, lhe mandando quantias por isso que são logo devidamente consumida em prazeres carnais e ilusões. No meio do caminho conhece uma garçonete de nome Camilla, pela qual se apaixona imediatamente e passa a jogar um jogo que não está nem perto de se sentir preparado. Enquanto a relação com Camilla vai entrando em uma espiral inconseqüente de loucura, frustrações e prazer, Bandini se vê cada vez mais perdido entre o que almejava para sua vida e o que ela começa a oferecer no meio de tanta lama. “Pergunte ao Pó” é daqueles livros para se ter em casa, guardado em um lugar junto com outras obras do mesmo calibre, para ser revisitado vez ou outra. Literatura cativante, enérgica, criativa e olhando de certa forma, única.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
"Trilogia Suja de Havana" - Pedro Juan Gutiérrez
“Trilogia Suja de Havana” é o primeiro livro do escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez, lançado em 1998 quando o autor tinha 48 anos e escrito entre os anos de 1994 a 1997, quando Cuba passava por uma gravíssima crise causada pelos embargos econômicos que recebia e pela desmistificação do processo político emergido pela revolução de cunho salvador. A edição mais recente aqui no Brasil é pela Editora Objetiva de 2008, com 348 páginas.
O livro é em sua maior parte autobiográfico e mostra uma Havana sucumbida a diversas mazelas e um povo que apesar disso não se rende e continua tocando a vida como pode. Os pobres e miseráveis constituem a maior parte da população nesse momento. Falta tudo. De comida a material de higiene. De água a roupas. O que não falta é rum, maconha e sexo, sendo em cima dessa trinca que o autor desafoga todas as suas desilusões e frustrações.
Dividido em três partes de contos rápidos e organizados de maneira não linear, a “Trilogia Suja de Havana” é um livro visceral, forte e vigoroso. Um livro no qual podemos sentir o cheiro das coisas, ouvir as frases, suar junto com os personagens e dar uma passeada pelo Málecon no final da tarde. Pedro Juan Gutiérrez conduz tudo sem muito estilo, sem muita forma, mas com um charme próprio como se tivesse suas origens na literatura beat.
Em muitos momentos as histórias narradas pelo autor causam um desconforto imenso ao leitor, mas a leitura é tão viciante que segue-se em frente com mais desejo ainda. Tudo aqui é abusado. Sexo, drogas, bebidas, pessoas, sentimentos. Os personagens são todos desempregados e vagabundos que se viram como dá, tocam a vida como trambiqueiros, mendigos, putas, catadores de lixo e vendedores de qualquer coisa, até da própria família se duvidar.
A verborragia do autor transcende os modos normais de apresentação, com uma energia assustadora na busca da sobrevivência e adequação aos novos tempos. Os personagens aparecem e somem sem razão para depois voltarem com menos razão ainda. Debaixo de toda a sujeira que cobre suas narrativas, vez ou outra nos deparamos com a sua visão sobre a vida em geral, uma visão diferenciada que aparece coberta de lama, mas que surpreende.
Em “Trilogia Suja de Havana”, Pedro Juan Gutiérrez cunha um retrato mordaz, autêntico e voraz do seu país e sua principal cidade, versando livremente sobre vários temas que aparecem imersos em sua narrativa como religião, política, relacionamentos, necessidades e desejos. Um livro que em nenhum momento é fácil, mas que tem aquele algo mais que o diferencia do lugar comum e assim lhe torna essencial.
Mais sobre o autor em: http://www.pedrojuangutierrez.com segunda-feira, 12 de novembro de 2007
"Medo e Delírio em Las Vegas" - Hunter S. Thompson
terça-feira, 6 de novembro de 2007
"Alta Fidelidade" - Nick Hornby
Quando peguei o livro que não estava em casa e sim no apartamento em Belém, deu muita vontade de ler, leitura essa que foi consumida há uns dois dias. E pensei “Pô, nunca escrevi nada sobre “Alta Fidelidade” do Hornby...”. Escrevo agora. O livro em questão que virou um excelente filme tem que constar na biblioteca de todo amante de cultura pop.
Para quem não conhece, a historia é narrada em primeira pessoa por Rob Fleming, um senhor fracasso com as mulheres, que na Londres da década de 90, mantêm uma pequena loja de discos e cds, intitulada “Championship Vynil” que não vai lá muito bem das pernas. Sua namorada, Laura, acabou de largá-lo e seus dois melhores amigos são Barry e Dick, duas personalidades peculiares por assim dizer.
Enquanto busca entender seu lugar no mundo aos 35 anos e rever toda sua vida amorosa ao mesmo tempo em que busca voltar com Laura, Rob Fleming espalha todo seu conhecimento musical pelas páginas, principalmente em tops de 5, o qual prazerosamente nos pegamos também fazendo (isso se você é um viciado em listas, como eu).
O livro é bem mais interessante que o filme, porque tem todas as pequenas cenas deliciosas que não couberam na grande tela, além de ser mais honesto no seu final com a vida atual. Nick Hornby entrou de sola na literatura pop, influenciando mundo afora e divertindo bastante em quase todos seus livros. Se de repente você passou batido por essa “Alta Fidelidade”, corra atrás do livro e do filme. Se já tem, é sempre bom reler e rever.
Veja o que dissemos sobre outro livro do autor, "Uma Longa Queda", aqui.
terça-feira, 23 de outubro de 2007
"1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer" - Robert Dimery
De uma forma avassaladora o livro cobre todo o período dos anos 50 até hoje em dia, principalmente do rock e do pop, mas passando também por diversos estilos. Recheado de fotos bacanas e informações sobre as gravações e sobre os álbuns resenhados o projeto encabeçado pelo editor geral Robert Dimery, que entre outras revistas escreve para a Time Out e Vogue é uma quase enciclopédia musical que reuniou mais de 90 jornalistas nas resenhas.
Todas as listas são duvidosas e essa também não é diferente, não concordei com uns 25% do livro e há muitas obras primas não relacionadas como por exemplo o “Out Of Time” do R.E.M, um clássico absoluto. Tem excessos também como praticamente todos os discos do Radiohead na lista (só não entrou o “Pablo Honey”) ou artistas como Britney Spears e Mariah Carey.
Mas desconsidere isso. Na sua grande maioria temos um grande apanhado da música nos últimos anos. De Elvis a Arcade Fire. Joan Baez a Teenage Fanclub. Bob Dylan a Massive Attack. U2 a Flaming Lips. Centenas de obras fundamentais que com certeza você já ouviu e dá uma imensa vontade de escutar tudo de novo ao mesmo tempo, além de outros artistas mais obscuros que você se interessa e vai atrás.
A música nacional está bem representada, mas insiste na história dos gringos em se aterem somente a uma parte da nossa produção. Mas entre outros estão lá, Tom Jobim, Mutantes, Chico Buarque, Caetano Veloso e Jorge Ben. Tem até Carlinhos Brown (mas esse pode morrer sem ouvir tranquilamente). Mas faltam nomes como Chico Science e Mundo Livre S/A só para citar alguns. Mas tudo bem, também é perdoável.
Nesse mosaico de informação, imagem e música aquilo que não concordamos não é relevante. “1001 Discos...” é para ficar perto do computador de casa, ou da cama, para de vez em quando ser saboreado e indicar algo para se ouvir em momentos de menor criatividade. É uma referência para quando a memória falhar e não lembrarmos mais de algumas datas, canções ou nomes. É fundamental, apesar de não ser perfeito.
Corra atrás do seu. O meu já está devidamente alojado ao meu lado.
Obs: A quem interessar possa fiz uma contagem sobre os tais 1001 discos, nessa conta ouvi 361 dos álbuns resenhados, tenho 235 em cd e 298 contando com arquivos digitais. Nada mal, né? Faça a sua tambem!
terça-feira, 25 de setembro de 2007
"Fup" - Jim Dodge
Um livro que tem uma pata como um dos personagens principais. Uma pata que é criada como animal doméstico e tem uma personalidade forte, incisiva. Uma pata acima de tudo mal humorada, obesa e alcoólatra. Some-se a isso um velho ancião que se julga imortal, viciado em jogos e uísque que solta perolas hippies vez ou outra. E coloque no bolo um jovem que tem como maiores projetos de vida, fazer cercas e matar um porco.
O resumo (ou quase isso) dessa mistura inesperada, para não dizer assustadora é o pequeno romance “Fup” do escritor americano Jim Dodge, cultuado por muita gente ao redor do mundo com a tão preocupante acunha de cult. O livro foi lançado em 1983 e ganha segunda edição nacional pela editora José olympio este ano. Faz alguns meses que o li pela primeira vez, por conta da vinda do escritor ao país para a festa Literária de Paraty no Rio de Janeiro, o que trouxe sua obra a tona.
Confesso que ao ler o prefácio do Marçal Aquino dizendo que “Fup é um daqueles livros que, em lugar de leitores, conquistam devotos”, fiquei desconfiado. Não conseguia imaginar tudo isso com as sinopses que dispunha. Para a minha grata e prazerosa surpresa, “Fup” superou minha desconfiança e imaginação. O escritor Jim Dodge constrói um universo peculiar amarrado de maneira tão simples, que chega a parecer óbvio. O que não passa nem perto de ser.
"Fup" conta a história do vovô Jake, que no seu rancho vive de maneira solitária a consumir seu tempo destilando o “Velho Sussurro da Morte”, uísque que fabrica e confere poderes de imortalidade (segundo ele). Completamente desbocado, Jake leva a vida entre algumas filosofias que poderiam muito bem constar no ideário hippie e sua maneira simples de resolver as coisas.
“Miúdo” (apesar do 1,92m e 135 quilos) é seu neto que tem como razão de ser o ato de construir cercas e mais cercas, como se isso fosse a única coisa que importasse no mundo. Sua personalidade é calada e quieta o que contrapõe sua quase obsessão em capturar o mítico porco “Cerra-Dente”, que insiste em arrebentar suas cercas. No meio disso, entra “Fup”, a pata que falamos acima, que passa a fazer parte dessa inesperada família, com todas suas manias e jeitos.
O livro de Jim Dodge além de ser daquelas leituras que pedem para ser consumidas urgentemente é um belo tratado sobre a vida, sobre o coração de cada um, sobre a liberdade. Mostra o quanto figuras tão diferentes podem se dar tão bem convivendo juntos desde que se respeitem (parece fácil né?), falando em como a vida pode ser livre de formas e contornos pré-definidos, dependendo apenas de cada um.
Quando acabei de ler “Fup” (e já relendo duas vezes), concordei plenamente com o prefácio do Marçal Aquino e me tornei mais um devoto destes anti herois e do seu pequeno e envolvente libelo sobre a vida.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2005
Feliz Ano Velho - Marcelo Rubens Paiva
terça-feira, 10 de maio de 2005
On the road - Jack Kerouac
Não sei quem disse certa vez, que sempre que lemos novamente um livro, temos um novo livro, uma nova história. Além de concordar plenamente com tal assertiva, sempre que posso faço isso, o mais recente caso foi com "On The Road (Pé na Estrada)" do Jack Kerouac. Li esse livro pela primeira vez quando tinha 11,12 anos, relendo aos 15 anos mais ou menos. Nessa época era a minha espécie de livro predileto, compondo a minha tríade sagrada e pessoal ao lado de "Outsiders - Vidas sem rumo" de S.E. Hilton e de "A Clocwork Orange (Laranja Mecânica)" de Anthony Burgess.
Com o tempo fui relendo essas obras, mas nada de encontrar o livro de Kerouac para comprar, li outros livros seus, peguei trechos pela internet, conheci outros autores da sua geração, mas nunca achei novamente o tal livro. Eis que mês passado, encontro em uma vitrine qualquer com a tradução competente de Eduardo Bueno, o "Peninha" e lá fui novamente cair aos delírios de Neil Cassady/Dean Moriatty, anos depois, com outra visão de vida aos 26 anos, bem mais cético e com menos sonhos e mais frustrações na bagagem. E Sal Paradise entrava novamente na minha vida, pela janela feito no livro, que para quem não conhece, como dizem "a bíblia do movimento beat", é questão de ordem conhecer.
Lançado em 1957 nos USA (o livro se passa na segunda metade dos anos 40), após a geração perdida como foi chamado aqueles jovens, em meio a guerra fria e toda a hipocrisia de uma sociedade que deslumbrava seu modelo de vida ao mundo, o livro foi um tremendo sucesso, justamente por ir contra tudo isso, contra os moldes, costumes e outros tipos de literatura como a de Ernest Hemingway. No universo de Kerouac não havia espaço para heróis, mocinhas, ou algo do tipo, seus personagens eram reais, eram vagabundos, prostitutas, desenganados, desempregados, delinqüentes juvenis, escritores fracassados (como ele próprio), loucos e alucinados de todo tipo que viviam espalhados pela "Bela América", em seus guetos, submundos, em seus bares imundos, praças e rodoviárias sem graça.
No livro, Sal Paradise narra suas aventuras e desventuras pela América ao lado de seu amigo Dean Moriatty, cinco anos mais jovem que ele e completamente louco, demonstrando suas teorias pelos quatro cantos, suas teses de vida e suas satisfações. Com amigos espalhados em toda a América, Sal e Dean partem em busca de algo que nem mesmo eles sabem o que é, em meio a efervescência do jazz, descoberta e consumo de drogas, caronas de beira de estrada e mulheres, fazendo assim um retrato de toda uma geração americana que não era demonstrada, ficando no gueto, multifacetados na sua própria essência.
Lendo agora, apesar de não ter a mesma idade de outrora e não possuir os mesmos sonhos, consolido em minha mente, "On The Road" como um livro básico, um retrato de uma geração. Contra-literatura, literatura marginal, ou como todos chamam a "beat generation" foi fundamental para o mundo das artes contemporâneas, impossível imaginar a obra sem ela e com a mesma desenvoltura de Bob Dylan, Jim Morrison, Lou Reed, Andy Warhol, entre outros tantos. Simplesmente fundamental. Guardarei o livro para posteriores leituras no decorrer da vida e algumas outras singularidades a serem descobertas através de Sal Paradise e Dean Moriatty.



Personagem Principal: Garoto meio gordinho, tímido com 12 anos, cursando a 7ª série do primeiro grau em um colégio de freiras, católico, fascinado por futebol e que desde pequeno fora habituado ao mundo da música e da literatura, seja ela um livro de Milan Kundera ou um simples disco da Legião, por causa das suas irmãs e amigos delas.
Personagem coadjuvante: O livro "Feliz Ano Velho" de um cara chamado Marcelo Rubens Paiva, na qual narrava as desventuras de um acidente que o deixara paraplégico, assim como todas suas inquietações e dúvidas passadas em um momento delicado da nossa história, que me foi entregue com a seguinte frase "Esse é o livro que vai mudar tua vida, garoto!"
Foi desse jeito que descobri "Feliz Ano Velho" meio na surpresa, meio na desconfiança. Confesso que não fiquei lá muito empolgado, me perguntava "O que esse cara tem para me apresentar que eu não conheça?", de acordo com a minha frágil e precoce posse besta de intelectual chato. Me achava o tal pois já tinha lido "Vidas sem rumo" de SE Hilton e "On The Road" do Jack Keroauc, entre outros, e não sabia o que esse livro podia me acrescentar. Mas acrescentou muito.
Foi pelo livro do Marcelo Rubens Paiva, que identifiquei algo de político em mim, é claro que já sabia um pouco das sacanagens que a ditadura cometeu com o povo, mas quando eu li a história do desaparecimento do Deputado Federal Rubens Paiva, pai do autor, aquilo mexeu comigo. Como todos os amigos das minhas irmãs eram do PT, logo ficou estipulado que eu também seria e brigaria por um país melhor, sendo que essa idéia só teve um sério abalo quase 14 anos depois, no meio do governo Lula.
Foi quando eu percebi que a rebeldia que eu tanto adorava e sonhava, às vezes podia vir de outra forma, podia ser uma rebeldia própria, contra o mundo e as limitações que ele lhe impõe e não somente contra nada em particular. Quando lia o livro imaginava qual o sentido que Deus havia de ter para deixar um jovem com tanto talento, paraplégico de forma tão boba e quando o autor bradava no livro seus desesperos, eu silenciosamente repetia na minha cama "É isso ái!! Tô contigo!! Só tem filho da puta nesse mundo!!".
Lembro ainda que nessa época cheguei a reler muito esse livro e apesar de não ter acontecido como a profecia de que ia mudar minha vida, me tocou de uma maneira diferente, por um outro lado, de que a tragédia e as coisas difíceis também acontecem aos jovens, por mais besta que seja e que é preciso ter força para seguir em frente e principalmente não nos tornarmos imbecis. Era essa a lição que eu tirava.
Conforme o tempo vai passando, esse livro ficou para trás assim como tantos outros e os sonhos dessa época foram transformados em novos sonhos possíveis, como em um eterno balé de camaleões. Eis que semana passada comprando os presentes de natal, encontro 14 anos depois o tal livro na prateleira. É lógico que comprei. E vorazmente me conduzi para a sua leitura.
Evidente que hoje, anos depois e com alguns fracassos e decepções espalhados no caminho, as percepções são totalmente diferentes. Mas o essencial continua lá. Não seria clichê dizer que o livro hoje ainda continua fundamental ou talvez isso seja pretensão demais, mas sua leitura continua tão saborosa e contestadora quanto antes.
Marcelo Rubens Paiva contou sua vida, expôs suas duvidas, seus sentimentos, que eram os mesmos de toda uma geração, que brigava por um mundo melhor, mas que não deixava nunca de lado a diversão, o amor, as brincadeiras, a alegria. Na teia de "personagens", impossível ficar indiferente ainda hoje pelo brio da mãe do cara, pela sexualidade da Nana, pelo companheirismo do Neguinho ou pelas rodas de violão da turna e suas aventuras.