quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Literatura: "Faca de Água" e "Sombras de Reis Barbudos"


Quando um livro ambientado em cenários futuristas ou distópicos apresenta situações que em determinadas instâncias são plenamente possíveis de acontecer algum dia, isso acrescenta ao trabalho um grau maior de interesse, prendendo mais o leitor e fazendo com que se discuta posteriormente um ou outro fato. Esse é o caso de “Faca de Água” (The Water Knife, no original), publicado nos EUA em 2015 que ganhou lançamento nacional pela editora Intrínseca no ano passado. Com 400 páginas e tradução de Alexandre Raposo é o primeiro trabalho do escritor americano Paolo Bacigalupi em terras tupiniquins. O autor que já ganhou prêmios importantes como o Hugo e o Nebula ganha uma bonita edição para mostrar o inteligente thriller que concebeu. A trama se passa em um futuro não especificado onde os EUA estão quebrados e divididos com os estados soberanos, sendo a União um mero lembrete para casos extremos. A briga é por rios, lagos e fontes, ou seja, por água. A água se tornou o bem mais valioso e tudo que acontece na sociedade se origina dela. Angel Velasquez é um Faca de água, uma mistura de agente, espião e assassino privado, que toma conta dos interesses de Catherine Case, a chefona de Las Vegas. Quando surge em Phoenix uma situação que pode mudar o status geral, ele se manda para a cidade onde cruza caminho com a hábil jornalista Lucy Monroe e a jovem sonhadora Maria Villarosa. “Faca de Água” tem várias qualidades. Além de tratar sobre um cenário verossímil enrosca economia, política e meio ambiente com tudo aquilo que o ser humano é capaz para sobreviver. Seus personagens – mesmo os de maior bondade – também são passíveis de atos nada nobres em prol de interesses próprios, o que deixa o leitor pisando em terreno minado sobre o que esperar nas páginas que virão.

Nota: 7,5

Leia um trecho direto do site da editora, aqui.

Twitter do autor: http://twitter.com/paolobacigalupi  


Anos 70. Uma pequena cidade do interior que pode ser de qualquer estado do Brasil, principalmente longe dos centros mais famosos. Progresso chegando a passos de cágado, quando de repente uma novidade surge e atiça todos os moradores. Uma novidade que promete mudar as coisas daquele ponto em diante. Essa é a diretriz básica de “Sombras de Reis Barbudos”, livro do escritor goiano José J. Veiga publicado originalmente em 1972 quando o digníssimo general Garrastazu Médici comandava o período mais duro da ditadura que assolou nosso país. Em 2015 a Companhia das Letras começou a republicar o autor em caprichadas e detalhadas edições, uma atitude mais que louvável que deu a chance de novos leitores conhecerem um dos grandes escritores nacionais. Com 152 páginas, pode-se dizer que não é o trabalho mais conhecido dele, esse mérito fica com o ótimo “A Hora dos Ruminantes” de 1966 que também ganhou reedição em 2015, contudo, por sua vez, é ainda melhor e mais completo. Quem narra a história é um adolescente que retorna aos 11 anos de idade quando a Companhia Melhoramentos de Taitara chega a cidade através de um tio que logo é deposto do comando. A partir disso a empresa sai distribuindo desmandos e proibições ilógicas pela cidade e logo vira um pesadelo para os habitantes que se veem presos as ordens estapafúrdias e opressivas. Como de costume em suas obras, José J. Veiga insere humor nas frases, expressões e modo de falar dos personagens e no último terço brinca com o realismo fantástico que tanto lhe atribuem. A narração entre a descoberta, a ingenuidade e o inconformismo calado guia todas as alegorias e analogias que são feitas para o regime político do país na época (e tem paralelos diretos até com nossos conturbados dias atuais), resultando em uma obra que não pode ganhar uma alcunha menor do que essencial.

Nota: 9,5

Leia um trecho direto do site da editora, aqui.

- Sobre “A Hora dos Ruminantes” no blog, passe aqui

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Quadrinhos: "Escolhas" e "Valerian - Integral - Volume 1"


Quem quando criança nunca quis ser um super-herói ou pelo menos ter algum tipo de poder como invisibilidade, telepatia ou sair voando pela cidade? João Humberto é uma dessas crianças e fascinado por um personagem de desenho animado chamado Lobo Cinzento sempre nutriu a vontade de ser o primeiro super-herói de verdade do mundo. Acontece que, bom, ele cresceu e continuou tendo isso como objetivo principal de vida. “Escolhas” é o novo trabalho de Gustavo Borges que fez a bonita “Pétalas” em 2015, dessa feita em parceria com Felipe Cagno que assume o roteiro deixando a arte com o Gustavo e usando as cores sempre primorosas da Cris Peter. Financiada coletivamente através de crowdfunding onde superou bem a meta inicial também ganha publicação pelo selo Geektopia da editora Novo Século, com 100 páginas entre história e extras. A inspiração para a revista veio de uma palestra do escritor Scott Snyder (de “Batman”) e daí veio o roteiro que usando de analogias versa sobre perseguir os sonhos por mais impossíveis que sejam e sobre o processo da vida que sempre nos guia pelas opções que fazemos. “Escolhas” é uma história divertida e lírica na maior parte, que homenageia o universo dos super-heróis em geral e conta com uma arte que consegue transpor ao leitor o clima necessário para entrar na viagem. O ponto negativo fica na formatação do casal João Humberto e Nina, onde as crises e apresentação se escoram muito em clichês batidos, incomodando um pouco. Quando foca somente nos obstáculos que o protagonista precisa superar para alcançar aquilo que deseja e nos erros que comete pelo caminho, sem se estender muito em dramas novelescos, é que “Escolhas” rende mais e se torna leitura prazerosa, se consolidando em um trabalho de qualidade que atesta novamente o bom momento da produção de quadrinhos no país.

Nota: 7,0 


O cineasta francês Luc Besson de filmes como “O Profissional”, “O Quinto Elemento” e “Lucy” era apaixonado pelos quadrinhos da dupla Pierre Christin e Jean-Claude Mézières que saia na clássica revista Pilote a partir da segunda metade dos anos 60 quando ele era criança. Esse amor é tão grande que depois de muito imaginar o diretor leva a trama para o cinema, com o filme baseado na obra estreando agora em 2017. Aproveitando a deixa a Sesi-SP Editora começa a publicar integralmente a extensa série por aqui, que antes só havia saído como tira nos anos 80. “Valerian – Integral – Volume 1” tem 160 páginas, formato grande (22x29cm) e extras primorosos como entrevistas e textos informativos. Traz compilado “Os Maus Sonhos” de 1967, “A Cidade das Águas Movediças e Terras em Chamas” de 1970 e “O Império dos Mil Planetas” de 1971, essa última sendo a história que foi adaptada para a telona. Os personagens principais são Valérian e Laureline, dois agentes do espaço-tempo de uma sociedade futurista que se envolvem em diversas aventuras indo contra a tirania e sociedades comandadas por déspotas e criminosos. A série é daquelas primordiais para a ficção científica e inspirou várias e várias obras em diversas mídias, como por exemplo “Star Wars” de George Lucas. Nesse primeiro volume (outros mais virão) o roteiro de Christin, a arte de Mézières e as cores de Évelyne Tranlé vão evoluindo de acordo com o passar do tempo. Se nas duas primeiras tramas tudo flui meio toscamente na última temos tudo em grau elevado com humor, crítica social e ação se unindo de modo avassalador. Tanto por valor histórico, quanto por méritos qualitativos ou pela edição caprichada, “Valerian” é totalmente recomendável para quem gosta de quadrinhos e ficção científica, uma obra de vanguarda e até mesmo visionária que continua fluindo com maestria mesmo depois de tanto tempo.

Nota: 9,5 


sábado, 5 de agosto de 2017

Literatura: "Armada" e "O Menino da Mala"


“Jogador No. 1” foi publicado no Brasil em 2012 pela editora Leya e chamou a atenção. Escrito por Ernest Cline (roteirista do filme “Fanboys”), o livro é dinâmico e insere cultura pop em doses saborosas, o que resulta em ótimo brilho nostálgico. A obra até virou filme a ser lançado esse ano com direção de Steven Spielberg, destacando bem essas qualidades. A expectativa para o segundo trabalho do autor era natural e em 2015 ela terminou com o lançamento de “Armada”. No mesmo ano a Leya colocou a versão nacional no mercado com 430 páginas e tradução de Fábio Fernandes. Nessa nova trama conhecemos Zack Lightman, um jovem que está prestes a terminar os estudos antes da faculdade e que passa a maior parte do tempo jogando videogame no simulador que empresta o nome ao livro e trabalhando em uma loja geek na pequena cidade que mora. Tudo anda na toada entre a insatisfação, o tédio e os sonhos impossíveis enquanto o futuro não se apresenta. Com o fantasma do falecido pai sempre circulando em meio aos pertences e teorias deixadas por ele que lhe transferiu o gosto por games, música e filmes, tudo muda quando Zack vê no pátio da escola uma nave exatamente igual a do jogo que tanto gosta de passar o tempo. Muda mais ainda quando outra nave desce no pátio para lhe buscar para partir em uma missão que tem como objetivo simplesmente salvar a terra de uma invasão alienígena. Com um misto de deslumbramento, medo e espanto, parte para um universo que pensava não existir. Em “Armada”, Ernest Cline homenageia a ficção espacial e usa as mesmas técnicas já apresentadas antes. Contudo, dessa vez diminui a dinâmica, deixa o roteiro cheio de pequenas falhas e exagera nas doses de cultura pop e nostalgia, com referências em excesso que mais prejudicam do que ajudam. Decepcionante.

Nota: 4,0

Site do autor: http://www.ernestcline.com 

- Sobre “Jogador No. 1” no blog, clique aqui.


Nina Borg é enfermeira da Cruz Vermelha na Dinamarca, ajudando imigrantes por fora quando possível. Já prestou serviço em países com situação complicada, sempre com a intenção de ajudar as pessoas. Casada e com dois filhos, tenta seguir adiante em uma vida que vez ou outra abdica em troca da obstinação constante de lutar contra a injustiça. Essa faceta volta à tona quando uma amiga liga e pede para que vá urgentemente retirar uma mala de um armário na estação local. Quando chega ao local e faz o que foi pedido depara com um menino de 3 anos desacordado e nu dentro da mala. Assustada e sem saber o que fazer de imediato vê as coisas piorarem quando um homem furioso chega na estação e vai diretamente ao mesmo local que ela acabou de retirar a criança. “O Menino da Mala” (Drengen I Kufferten, no original) foi publicado em 2008 e ganhou edição nacional em 2013 pela editora Arqueiro, com 256 páginas e tradução de Marcelo Mendes. Escrito em dupla por Lene Kaaberbøl e Agnete Friis fez bastante sucesso e ganhou edição em vários países. Esse sucesso levou a mais dois livros com as aventuras da enfermeira (“Morte Invísivel” já foi publicado aqui) e é mais um retrato da produção de romances de suspense e policiais dos países escandinavos. Nina Borg foi comparada a Lisbeth Salander da trilogia Millenium do sueco Stieg Larsson, porém as semelhanças ficam apenas no perfil físico. A protagonista de “O Menino da Mala” é bem diferente e já traz na essência o altruísmo, o inconformismo, a busca pelo bem, por mais duro que isso seja. Enquanto inserem Nina na luta para descobrir quem é o garoto encontrado e sobreviver a isso, as autoras aproveitam – mesmo com uma escrita rasa – e criticam o tráfico de pessoas e crianças oriundas de países mais pobres, um mercado vil e violento que demonstra que nem tudo que brilha é ouro no próprio país.

Nota: 6,0

Leia um trecho no site da editora, aqui.  

terça-feira, 18 de julho de 2017

Quadrinhos: "O Divino" e "Paciência"


“O Divino” (The Divine, no original) é uma graphic novel com roteiro do escritor e cineasta Boaz Lavie e arte dos irmãos Asaf e Tomer Hanuka (de “Bipolar”, série vencedora do prêmio Eisner). A ideia dos israelenses nasceu de uma famosa foto de Apichart Weerawong tirada dos gêmeos Johnny e Luther Htoo ainda crianças (mais sobre isso, aqui). Com capa dura, 160 páginas e lançamento nacional no final do ano passado pelo selo Geektopia da editora Novo Século, a obra acontece na maior parte em um imaginário e obscuro país asiático chamado Quanlom. Mark, um ex-militar especialista em explosivos decide ir para essa nação em guerra convencido pelo amigo Jason que já foi e presenciou algumas situações bem incomuns. Na verdade, Mark vai exclusivamente pelo dinheiro já que sabe que vai ser pai e está um pouco pressionado em casa por conta de uma promoção que não vingou. Os dois viajam e com ajuda de militares locais fazem o serviço que consiste em preparar uma montanha para explodir. Depois disso é que as coisas saem do controle e crianças envolvidas na guerra - sendo que um deles possui dons e poderes - transformam totalmente o caminho inicial. “O Divino” é um trabalho que fusiona realidade com atos de natureza fantástica e conta como apoio para o roteiro apenas correto uma arte elaborada com extrema dedicação, que produz efeitos sensacionais durante o decorrer da trama. Indo mais além, resultado direto da foto que foi baseada, traz ponderações em segundo plano sobre a utilização de crianças nas guerras espalhadas pelo mundo, crianças que deixam de ser crianças ainda muito cedo e logo são inseridas em um universo cruel e sanguinário do qual nunca mais vão conseguir retornar. Essa nuance, além da arte dos irmãos Hanuka, fazem de “O Divino” uma leitura bem recomendável.

Nota: 7,0 


Quem pelo menos uma vez não pensou em voltar no tempo para ter uma atitude diferente ou impedir algum fato? É difícil que esse desejo não tenha permeado pelo menos uma vez a mente e é esse mote que o quadrinista Daniel Clowes usa em “Paciência” (Patience, no original). O autor é um dos nomes mais respeitados do mercado alternativo dos EUA e com esse trabalho quebra anos de jejum sem lançar nada. Nessa “viagem cósmica através do espaço-tempo rumo ao infinito primordial do amor eterno” (como diz a espécie de subtítulo), somos apresentados a Jack e sua esposa, que empresta o nome a graphic novel. Os dois são apaixonados, duas almas incomuns que acharam um no outro o suporte para tocar a vida. Aqui o autor traz de “Wilson” (publicada aqui pelo selo Quadrinhos na Cia.), a completa falta de vontade de socialização com a humanidade transportada agora para o casal. Enquanto Jack busca emprego e grana, pois a esposa está grávida, ela tenta fazer as pazes com o passado. Tudo muda quando ela é assassinada junto com a bebê que carregava na barriga. Jack é tomado pela obsessão de achar o assassino e isso guia sua vida para frente. Muitos anos passam e ele já se encontra sem esperanças quando acha uma maneira de voltar ao passado, o que dá novo gás a caça e faz com que ele descubra diversos segredos da falecida mulher. “Paciência” foi lançado nos EUA no ano passado e chegou agora no Brasil pela editora Nemo, com 184 páginas. É um trabalho completo onde o texto, a imagem e a formatação dos quadros servem diretamente um ao outro para formar um estupendo conjunto. É uma obra viva, com cores e mais cores se alternando para provocar as sensações do leitor, uma excelente ficção científica que trata com brilho do tema mais antigo de todos: o amor.
Nota: 9,0

Site do autor: http://danielclowes.com 


domingo, 16 de julho de 2017

"Quadrinhos": “Hinterkind – Os Desterrados: O Despertar do Mundo” e "Tabloide"


Durante séculos a humanidade foi a espécie dominante do planeta. Usou e abusou da natureza esgotando os recursos naturais de acordo com interesses próprios. No entanto, todo esse poder foi embora em apenas sete meses. A raça humana foi praticamente dizimada por uma peste sem nome que se alastrou pelo mundo devastando tudo que via na frente. Nesse cenário pós-apocalíptico animais selvagens passaram a ser donos das ruas e cidades e lendas reapareceram para brigar pela posse do planeta. Personagens comuns em livros e histórias antigas como elfos, fadas, centauros e trolls saem do esconderijo que habitaram e reclamam a terra novamente para si. “Hinterkind – Os Desterrados: O Despertar do Mundo” mistura esses dois lados citados: a sobrevivência da espécie humana depois da praga e o enxerto da fantasia que transforma a história em algo mais. Lançada nos EUA dentro do selo Vertigo, ganhou edição nacional esse ano pela Panini Comics em um volume de capa cartonada com 148 páginas que traz as edições originais de 1 a 6 publicadas entre dezembro de 2013 e maio de 2014. A história é criação do britânico Ian Edginton (Planeta dos Macacos) e tem como grande destaque a belíssima arte do italiano Francesco Trifogli com as cores da brasileira Cris Peter. O selo Vertigo é – já faz algum tempo – o único resquício de boas histórias da DC Comics dentro dos quadrinhos e isso não é diferente com “Hinterkind”. Uma trama bem contada, com algumas ornamentações de segundo plano, com arte de encher os olhos, que habita dentro do digamos “universo geral” da fantasia do selo composto por coisas como “O Inescrito” e “Fábulas”. Usando de conceitos já explorados anteriormente e fazendo estes fluir em nova aventura, Ian Edginton foge o máximo que pode do lugar comum desse tipo de enredo e proporciona ao leitor uma atrativa pedida.

Nota: 7,0


O quadrinista paulista L.M. Melite é responsável por um trabalho dos mais intrigantes no cenário nacional dos últimos anos. É obra dele “Desistência Azul” e “Dupin” (ambos lançados pela Zarabatana Books) e “Leviatã” (que saiu na revista Café Espacial 13). Suas histórias sempre apresentam um ponto mais fora da curva, seja no experimentalismo da arte ou no traço em alguns momentos, seja na concepção do roteiro e narrativa em outras, gerando um resultado digno de nota. Esse ano chega nas livrarias mais uma obra sua intitulada “Tabloide” que foi contemplada pelo PROAC (programa de incentivo à cultura de São Paulo) e tem publicação caprichada em capa dura pela editora Veneta. Com 136 páginas e em cores, Melite narra as desventuras de Samantha Castelo, uma jornalista que tem atração por histórias estranhas e sobrenaturais, dona que um pequeno jornal que narra esses fatos enquanto os demais não estão nem aí. Samantha é cínica ao extremo, desbocada, bagunceira, fora do peso, pouco higiênica, cheia de artimanhas para conseguir o que quer e enxerida como uma jornalista criminal deve ser. Quando se depara com um homicídio que tem um cadáver vestido de noiva trancado dentro do porta-malas de um carro afundado, ela não se contenta com o descaso geral da polícia e resolve atropelar para conseguir a matéria. Nesse percurso é auxiliada pelos poucos que lhe cercam como o fotógrafo Horácio e o ex-patrão e atual “conselheiro” Bogus para entrar no submundo de São Paulo se deparando com bizarrices e segredos guardados a sete chaves. Enquanto o thriller policial avança com as descobertas, o autor aproveita para contar um pouco mais sobre a protagonista e os cadáveres pessoais que ela tranca no armário. “Tabloide” é um dos grandes lançamentos nacionais do ano, que ratifica de vez o trabalho do seu criador e deixa o leitor torcendo para que no futuro venham mais histórias de Samantha Castelo.

Nota: 9,0


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Quadrinhos: “Agentes da S.H.I.E.L.D: Tiro Perfeito” e “O Xerife da Babilônia: Bang. Bang. Bang”


A série de televisão “Agents of S.H.I.E.L.D.” começou como uma boa promessa, porém patinou bastante na primeira temporada sem saber muito bem qual sua função e só se consolidou a partir da metade do segundo ano em ótima pedida para os fãs dos quadrinhos, como também neófitos desse universo conquistados pelo sucesso dos filmes da Marvel. Já com a quarta temporada finalizada (e uma quinta virá), a empresa resolveu transportar para os quadrinhos o clima de aventura e descontração da tevê, assim como vincular ainda mais os personagens com seu mundo. “Agentes da S.H.I.E.L.D: Tiro Perfeito” compila as seis primeiras edições desse projeto publicadas nos EUA de fevereiro a julho de 2015. Com 148 páginas e capa dura, a Panini Comics disponibiliza esse material agora em 2017. Todas têm o roteiro do experiente Mark Waid (Demolidor, Capitão América) e a cada trama um novo artista conceituado assume os desenhos. Estão presentes nesse volume nomes como Carlos Pacheco, Humberto Ramos, Mike Choi, Paul Renaud e os grandes Alan Davis e Chris Sprouse. Cada número é uma aventura fechada, mas que servem ali na surdina para um arco maior que praticamente se completa no próprio encadernado. Nos deparamos novamente (para quem viu a série e funciona melhor para estes) com Phil Coulson e a equipe composta por Melinda May e o casal Fitz-Simmons (nomes como Ward e Skye ficam fora). Para melhorar o elenco de apoio é vigoroso e traz Homem-Aranha, Miss Marvel, Sue Richards, Heimdall, Feiticeira Escarlate, Cavaleiro Negro e Valquíria. Nessas novas aventuras da Superintendência Humana de Intervenções Estratégicas, Logística e Defesa sai o tom soturno e cheio de conspirações da era Nick Fury e aparece o entretenimento puro e simples como guia, com inspiradas cenas de ação mescladas com boas piadas resultando em entretenimento leve e descompromissado.

Nota: 6,0 


Após tirar Saddam Hussein do poder em 2003, os EUA assumiram o controle do Iraque – principalmente Bagdá – e começaram uma espécie de transposição de poder para um novo governo. A guerra forjada pelo presidente George H. Bush e seus aliados foi montada em cima de falsas alegações, mentiras e pretextos escusos, contudo serviu para tirar do poder um ditador tirânico e sanguinário, com muito sangue nas mãos. Nesse cenário pós-derrubada, repleto de caos é que se ambienta “O Xerife da Babilônia: Bang. Bang. Bang” que a Panini Comics publica esse ano aqui em um encadernado de 162 páginas com capa cartonada. Esse primeiro volume reúne as edições originais de 1 a 6 oriundas de fevereiro a julho de 2016, contando com extras como o processo de criação da arte de uma página. O personagem principal é o ex-policial Christopher Henry que para treinar a nova força de segurança iraquiana está no país recebendo valores consideráveis. Quando um de seus recrutas aparece morto na rua, ele tenta solucionar o caso movido não se sabe por qual senso de justiça. Nesse processo entram em cena Sofia, uma integrante do novo governo, e o ex-detetive Nassir, um agente fiel a Saddam anteriormente. É essa busca que movimenta a trama criada por Tom King (Batman) e com arte e cores de Mitch Gerads (Justiceiro). O roteirista conhece bem o que descreve pois trabalhou no país como agente da CIA e isso enxerta nuances mais reais, assim como os cenários feitos de maneira cuidadosa que visam aproximar o máximo possível a ficção da realidade, tendo no uso das cores um grande mérito. “O Xerife da Babilônia” exibe como atrativo, além da autenticidade já comentada, um roteiro que deixa os personagens principais cheios de desejos ocultos, o que adiciona a cada página lida uma boa gama de suspense e expectativa para o que virá na sequência. Vale a pena ir atrás.

Nota: 7,0 


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Quadrinhos: "Hellboy e o B.P.D.P: 1952" e "Suicidas – Volume 1"

 

Mike Mignola costuma convidar para as edições do seu rebento preferido nomes talentosos dos quadrinhos. Em “Hellboy e o B.P.D.P: 1952” não foi diferente. O roteiro foi construído por ele e John Arcudi (B.P.R.D), a arte e capas feitas pelo Alex Maleev (Demolidor) e as cores nas mãos do excepcional Dave Stewart (DC: A Nova Fronteira). Meio difícil sair algo ruim né? Pois é, para agrado dos fãs, não saiu mesmo. Esse conjunto reúne a minissérie lançada nos EUA entre dezembro de 2014 e abril de 2015 pela Dark Horse. No Brasil, recebeu edição encadernada de capa dura ano passado pelo Mythos Books. Com 180 páginas apresenta papel de alta qualidade e extras com entrevistas, esboços e processo de criação, o que quase sempre justifica o alto preço das publicações da editora. Enquanto nas revistas atuais Hellboy morre e desce ao inferno para findar sua saga, Mike Mignola também leva em paralelo o personagem para uma viagem no tempo onde almeja contar por ano as aventuras pregressas antes da estreia em 1993. Sendo assim, esse volume conta a primeira missão do agente, ainda um novato, sem toda a segurança que nos habituamos a ver. Essa missão ocorre no Brasil, quando depois de vários assassinatos insólitos na selva amazônica o Bureau de Pesquisas e Defesa Paranormal é chamado e Hellboy vai junto com o time. O roteiro mistura a aventura da solução do mistério com terror, nazismo e ficção científica sem deslizar e fazendo com que além dos vilões em si, o time ainda se preocupe com um traidor nas próprias fileiras. Se realmente o autor levar adiante o desejo de narrar aventuras anuais até 1993, teremos um extenso material a ser explorado daqui em diante, o que na maioria dos casos é repetição de ideias para fins especificamente comercias, no caso de Mignola e Hellboy as coisas vão por outro caminho, como já ficou provado mais de uma vez. Ainda bem.

Nota: 7,0


Um terremoto de proporções gigantescas atingiu Los Angeles e transformou totalmente a Cidade dos Anjos. Uma nova cidade surgiu do desastre com um muro afastando os pobres e indignos e uma brutal força policial se certificando que ninguém passe (lembra algo?). Os administradores e donos dessa nova cidade utilizam de um truque muito antigo para entreter a população: batalhas entre homens em uma arena. Faça aqui a correlação que quiser, desde os gladiadores do império romano até os octógonos dos dias atuais do UFC. A ideia é a mesma, basicamente. Esses lutadores têm melhorias mecânicas para as lutas e são comandados de acordo com as vontades da corporação que lhes paga muito bem e proporciona uma vida de estrela (enquanto for do seu interesse). Esse é o mote da série criada pelo exímio Lee Bermejo de “A Piada Mortal” e “Coringa”, que conta ainda com as cores de outra fera da nona arte, Matt Hollingsworth de “Tom Strong” e “Preacher”. A Panini Comics lança “Suicidas – Volume 1” no mercado nacional esse ano, um encadernado contendo as edições 1 a 6 da série, originalmente publicados nos EUA entre abril e novembro de 2015 com 164 páginas e papel LWC. O personagem principal é Santo, o maior lutador das arenas e um verdadeiro popstar (lembre, apesar do desastre ainda estamos em Los Angeles), contudo sem vontade própria devido aos segredos que carrega do passado. O maior acerto do roteiro de Lee Bermejo é que ao mesmo tempo que faz o leitor se envolver com os dramas do protagonista, insere coadjuvantes que também tem brilho próprio. E, indo mais além, coloca ao lado da questão das lutas e busca de redenção, considerações sobre poder, mídia, opressão e desmandos das grandes corporações. Das séries que o selo Vertigo publicou no último triênio, sem dúvida essa é uma das mais interessantes.

Nota: 8,0 

terça-feira, 6 de junho de 2017

Quadrinhos: "“Luke Cage e Punho de Ferro – Edição 1 – Eles Voltaram” e "Esquadrão Amazônia"


Mantendo o plano traçado já há algum tempo a Marvel faz novas revistas a partir do ponto em que seus personagens ganham adaptações para o cinema ou televisão. Personagens até então sem muito chance de encabeçar uma publicação, reaparecem por conta disso. A dupla Luke Cage e Punho de Ferro é mais um exemplo da diretriz, por conta das séries do Netflix. A Panini Comics coloca no mercado nacional um volume com 116 páginas contendo as edições de 1 a 5 de “Power Man and Iron First” impresso nos EUA entre abril e maio de 2016. Nesta nova incursão da dupla o roteiro ficou com David F. Walker (Liga da Justiça) e a arte com Sanford Greene (Deadpool). O estilo escolhido pela dupla e pela empresa para essa viagem corrente foi extremamente leve, ambientando na mesma seara dos personagens mais engraçadinhos da editora. Fica óbvio e latente o desejo de agregar um público mais jovem, o que por si só sempre é louvável para revigorar antigas ideias, no entanto é de se esperar que a qualidade venha junto com esse desejo. O roteiro é repleto de piadas e tiradas “engraçadas”, que funcionam verdadeiramente poucas vezes, mas consegue respeitar a história da dupla e os eventos em que estiveram inseridos nos últimos anos, o que é um alento. A arte, por sua vez, opta por ser mais cartunesca, caricata, com destaque para expressões faciais espirituosas, o que convenhamos não funciona bem. Como o título já denuncia, “Luke Cage e Punho de Ferro – Edição 1 – Eles Voltaram”, trata da dupla trabalhando nos tempos dos Heróis de Aluguel, a princípio para ajudar uma ex-secretária que acaba de sair da cadeia. Com envolvimento de nomes conhecidos e muita magia no meio, esse início é fraco e só rende bons momentos no fim com a trapalhada que envolve acidentes e um programa de rádio, nada além disso.

Nota: 4,0


O Esquadrão Amazônia foi criado e utilizado como peça promocional no início dos anos 2000 para uma empresa de telefonia da região norte por Joe Bennett, hoje um experiente artista da Marvel e DC. O quadrinhista já espalhou talento por revistas como Homem-Aranha e Vingadores, entre tantas outras. Bennett é paraense, assim como Alan Yango criador do poderoso Maximus, que vem publicando com a regularidade que é possível. Os dois decidiram reviver a ideia de um grupo de super-heróis oriundos da Amazônia e lançaram o projeto para financiamento coletivo, sendo que o primeiro número dessa jornada inicial foi lançado oficialmente no final de 2016. “Esquadrão Amazônia” tem roteiro dividido pela dupla e arte de Bennett com auxílio de Alan Patrick. O resultado em 46 páginas aponta para uma equipe de indivíduos com relação direta com o norte que levam nomes como Açu, Jurema, Búfalo, Onça, Sucuri, Iara e Aruã. Para forjar os poderes são utilizados mitos, tradições, lendas e folclores, um mundo vasto e poderoso nesse sentido. Com a inserção do Maximus na edição, pensa-se mais além ainda, na ambição de um universo próprio compartilhado por todos. A trama de origem em si, a exemplo de outras equipes famosas nos quadrinhos, é simples e funcional. Para deter uma grande ameaça (alienígena, no caso aqui), vários indivíduos com dons e habilidades se reúnem para evitar o caos e destruição. Se isso não apresenta nada de muito novo, planta, porém, a semente para histórias mais elaboradas no futuro. A arte merece destaque não somente pelo traço habilidoso de Bennett, como também por retratar no cenário e nos coadjuvantes a cidade de Belém e suas peculiaridades, assim como as da região. É inegável o apelo que “Esquadrão Amazônia” estampa nessa ressuscitada, tanto para o quadrinho nacional, quanto pela expansão do mercado e fica a torcida para que como está escrito na contracapa a aventura esteja realmente apenas começando.

Nota: 7,5



domingo, 4 de junho de 2017

Literatura: "O Casal Que Mora ao Lado" e "Ninfeias Negras"


Anne e Marco Conti são um casal normal, moram em uma casa confortável e acabam de ter a primeira filha, chamada Cora, que está nos primeiros meses de vida. Entretanto, essa é a apenas a imagem superficial, pois por dentro o casal vive momentos difíceis, com a mãe em depressão pós-parto e o pai repleto de problemas no trabalho. O convite dos vizinhos para um jantar então se apresenta como boa oportunidade para o casal sair um pouco, desopilar a cabeça, socializar com outras pessoas. Contudo, o jantar não anda da melhor maneira e, além disso, os pais precisam ir de meia em meia hora ver como a filha está já que os anfitriões não queriam crianças no local, apenas adultos. Em uma desses visitas a mãe percebe que a filha sumiu, desapareceu. É a partir desse rapto que a escritora Shari Lapena começa a desenvolver “O Casal Que Mora Ao Lado” (The Couple Next Door, no original), livro publicado em 2016 que a editora Record lança no Brasil esse ano. Com 294 páginas e tradução de Márcio ElJaick, a obra ambiciona ser um suspense policial cheio de reviravoltas que adiciona pontualmente novas informações para mudar a percepção do leitor a cada página. Porém, apenas ambiciona e nada mais. A realidade é que a obra é um imenso agregado de chavões do estilo que são escritos de maneira rasa e sem muito ritmo e cometem o erro fatal para um livro de suspense: antecipam costumeiramente suas revelações, aquilo que em teoria deveria surpreender a quem lê e ditar novas direções. Pode enganar ao leitor não muito acostumado a enredos mais elaborados, prova disso são as milhares de cópias vendidas, mas para quem espera sempre algo de um nível maior, “O Casal Que Mora Ao Lado” é um desastre quase que completo.

Nota: 3,0

Leia um trecho aqui:



O pintor francês Claude Monet (1840-1926) é um dos grandes nomes do Impressionismo e suas telas valem uma pequena fortuna. Nos seus quadros eternizou diversas vezes a pequena cidade de Giverny na França, onde nasceu, viveu e retratou ninfeias das mais variadas estirpes. O escritor francês Michel Bussi de “O Voo da Libélula” usou esta cidade como palco para o romance policial “Ninfeias Negras” (Nympheás Noirs, no original), publicado no país de origem em 2011 e que em 2017 recebe edição nacional pela editora Arqueiro. Com 352 páginas e tradução de Fernanda Abreu, a trama começa para o leitor com o assassinato de um renomado e rico médico habitante do local, cheio de pequenos segredos. No entanto, conforme se percebe no decorrer das páginas, a história tem início em anos muito mais distantes, mais longínquos. Conduzido primordialmente por uma senhora que não se identifica logo, mas que observa todos os fatos, a narração também avança para outras duas mulheres fundamentais da obra, uma mais jovem, ainda criança, e uma professora da única escola da cidade. Dividindo a trama nesses três eixos, o autor vai construindo com cuidado cada personagem e coloca o leitor em desavisada situação de conforto que só se quebra na verdade nas páginas finais. A dupla de detetives encarregada do caso merece destaque, com personalidades, gostos e anseios bem distintos, funciona bem, fugindo no que é possível do lugar comum típico dessas orquestrações. Mascarado sobre um romance policial comum, mesmo que bem edificado, “Ninfeias Negras” esconde nas suas linhas pontos interessantes como a intensidade da relação entre as pessoas e a arte, não obstante cutucando um pouco esse mundo, e entra na cabeça do ser humano com intensidade no que tange a medos, privações, egoísmos e perda de esperança, o que faz o livro ir um pouco além.

Nota: 7,5


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Literatura: "Eu Sou o Peregrino" e “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”


Terry Hayes é britânico, mas saiu jovem para a Austrália. Foi repórter nos EUA e além de jornalista é um experiente roteirista de Hollywood (com filmes como “Mad Max 2” e “Do Inferno”). Em 2012 lançou o primeiro romance chamado “Eu Sou o Peregrino” (I Am Pilgrim, no original) que abocanhou o National Book Awards do Reino Unido em 2014 como melhor thriller policial. O livro teve publicação nacional ano passado pela editora Intrínseca, com 686 páginas e tradução de Alexandre Raposo. Como era de se esperar pelo currículo do autor, essa estreia é cinematográfica, intensa, com pulsação acelerada e repleta de ação. Tudo é montado de maneira que seja possível a transposição para a grande tela. E isso não é ruim, pelo contrário. Se por um lado temos algumas soluções “mágicas” como em blockbusters tradicionais, onde o protagonista sempre conta com algum golpe de sorte, por outro lado os capítulos mantêm uma constância que faz com que o calhamaço flua, sem estancar ou deixar a leitura com passagens sofridas. A quantidade elevada de páginas serve para que o autor possa erigir cuidadosamente os perfis dos envolvidos em uma caçada que se espalha pelo mundo. Claro, que o que está em jogo é algo extremo como a salvação do mundo (ou pelo menos dos EUA). O Peregrino que empresta o nome ao título é o codinome de um agente de nível elevado da inteligência americana que durante os anos se mascarou tanto que a identidade original é apenas memória distante. Até que um detetive de homicídios de Nova York lhe desmascara e ele serve de auxílio para um misterioso e elaborado assassinato na cidade. Esse crime desencadeia junto com outros processos a corrida para pegar um hábil saudita que está prestes a jogar uma praga biológica no país. Em meio a pensamentos e teorias, “Eu Sou o Peregrino” é um thriller funcional que como qualquer bom filme de ação cumpre o seu propósito de divertir.

Nota: 7,0



“A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” (La Verité sur I’Affaire Harry Quebert, no original) vendeu mais um milhão de cópias mundo afora, sendo que é interessante perceber após as 576 páginas como algumas coisas se cruzam entre realidade e ficção. O segundo livro do escritor suíço Joël Dicker recebeu elogios e louvores de publicações respeitosas e o transformou em um prodígio que na época do lançamento na França em 2012 tinha 26 anos. O personagem do livro em questão também é um escritor que vira celebridade aos 28 anos quando a estreia no mundo da literatura estoura e transforma a vida. Lançado pela editora Intrínseca em solo nacional em 2014 com tradução de André Telles, a obra tem ponto de partida quando Marcus Goldman, o protagonista, vê os prazos para entrega do segundo trabalho se esgotarem e ele não escreveu uma linha sequer. Esse bloqueio criativo o faz recorrer para o antigo professor, amigo e mentor dos tempos de faculdade, Harry Quebert, um escritor conceituado, na casa onde reside na pequena Aurora em New Hampshire. Enquanto tenta liberar a mente, Goldman vê tudo virar do avesso quando o corpo de uma garota desaparecida em 1975 aparece enterrado no quintal do amigo. Em busca de provar a inocência dele parte em uma investigação própria que o colocará em uma espiral de acontecimentos que revelará não somente lados obscuros das pessoas como destravará aflições e memórias. Com um estilo simples e sem muitos floreios, o autor junta diversos gêneros como romance, suspense, policial e drama psicológico, sem escorregar. Elabora camadas e mais camadas que em determinado momento apresenta um livro, dentro de um livro que é parte de outro livro. Se Jöel Dicker será um grande escritor, isso só o tempo dirá, mas tirando os hiperbólicos exageros direcionados a obra, temos sim um livro notável.

P.S: O personagem Marcus Goldman tem uma aventura posterior em “O Livro dos Baltimore”, lançado esse ano aqui no Brasil.

Nota: 8,0