sexta-feira, 16 de maio de 2014

“Crazy Diamond – Syd Barrett e o Surgimento do Pink Floyd” - Mike Watkinson e Pete Anderson

Como afirmar se uma vida realmente valeu a pena? São tantos pesos, tantas medidas e tantas considerações que podem fazer parte desse questionamento inicialmente simples, que no fim, nenhuma resposta parece ser a correta. Ter uma vida pacata, sendo um cidadão de bem e feliz dentro da sua tranquilidade, valida uma vida? Ou é necessário criar grandes obras, ser reconhecido no seu círculo e esbanjar criatividade mesmo que em poucos anos de brilho? É bem difícil afirmar.

O inglês Roger Keith Barrett transitou por essas duas pontas. É o que vemos no livro “Crazy Diamond – Syd Barrett e o Surgimento do Pink Floyd”, que a Sonora Editora lançou aqui no ano passado, com 224 páginas e tradução de Maíra Contrucci Jamel. Escrito a quatro mãos por Mike Watkinson e Pete Anderson, a obra teve a primeira edição lá fora em 1991, ganhando novos adornos depois do falecimento do biografado em 2006, na sua acolhedora e querida Cambridge que utilizou como exílio voluntário na maior parte da vida.

“Crazy Diamond” é um trabalho valoroso para os fãs do Pink Floyd e interessante para amantes da arte pop em geral. Trata da formação da banda, quando Syd Barrett conhece Nick Mason, Roger Waters, Richard Wright e David Gilmour, que posteriormente lhe substituiria no grupo. Do estouro local quando os primeiros singles “Arnold Layne” e “See Emily Play” os levaram a programas como o “Top Of The Pops” até a derrocada e a saída da banda em 1968 encontramos um personagem repleto de singularidades.

Ele era o “dono” da banda nesse início. Compunha, cantava e tocava guitarra. Esse reflexo dinâmico pode ser visto no álbum de estreia do Pink Floyd de 1967, o clássico “The Piper At The Gates Of Dawn”. Já no segundo trabalho de 1968, “A Saucerful Of Secrets”, ele pouco participou (uma boa exceção é “Jugband Blues” que fecha o trabalho), e depois da saída a sua criatividade ainda apareceu (mesmo que de modo camuflado e confuso) nos discos solo “The Madcap Laughs” e “Barret”, ambos de 1970.

Características do artista como a inovação e a inclusão de nuances pouco usuais na época, se por si só não podemos afirmar que criaram a psicodelia, foram fundamentais para que esta acontecesse. No entanto, isso tem um preço, e nos anos 60 esse preço vinha pelo poder do ácido, que foi responsável por fazer que Syd Barrett alternasse de humor e visse sua maestria ir embora pouco a pouco pelo demasiado consumo de substâncias do tipo. Substâncias que afloravam o sentimento de inquietude que sempre lhe acompanhara.

Um dos pontos positivos do livro é apontar que sem a saída de Syd Barret do Pink Floyd, a banda nunca teria acontecido da maneira que aconteceu, assim como, que a ideia vendida de que ele fora escorraçado do grupo e rejeitado pelos integrantes posteriormente é mera bobagem. Ele simplesmente não tinha como continuar, aliás, ele não queria continuar. E o Pink Floyd sempre teve que viver com a sua sombra pairando em entrevistas, artigos e matérias de tevê, enquanto ele escolheu a paz da cidade natal para se recuperar e viver.

O trabalho vivaz e a seguinte queda encontra paralelo em outros artistas como Brian Wilson dos Beach Boys, Peter Green do Fletwood Mac, ou, guardadas as devidas proporções, em Arnaldo Baptista dos Mutantes. O preço de viver loucamente a época cobrou seu preço e a volta se tornou uma difícil missão. Para Syd Barrett, essa volta nunca aconteceu. Nunca mais gravou nada depois desse período e nem quis mais conversa, apesar de receber propostas tentadoras de gravadoras dispostas a usufruir do mito criado.

“Crazy Diamond” demonstra não somente a intensidade do artista, como também sua importância, mas fica no ar a questão de como o rock, e por extensão a música pop, cria controversas auras de magnetismo. Como pode provocar tanto fascínio uma obra tão pequena (em quantidade)? E fica mais fascinante ainda ser oriunda de um cara atípico onde as canções falam de temas não muito básicos e tem formatações e construções diferentes do pop costumeiro, ainda que as melodias apontem para esse lado.

Isso, só a música pode explicar. E é aí que reside boa parte da sua graça.

P.S: Para neófitos, uma coletânea dupla chamada “Wouldn’t You Miss Me” de 2001 é totalmente recomendável (e encontra-se aí pela rede).

Nota: 8,0

quarta-feira, 23 de abril de 2014

"Quem Vai Ficar Com Morrissey?" - Leandro Leal

Quando um relacionamento de algum tempo conhece o seu fim é normal (ainda que bem doloroso) o processo de separação. Separação não somente das partes envolvidas fisicamente, como também dos bens do casal. E em um universo hoje cada vez mais distante, separação também dos discos, filmes e livros. Esse aqui é meu, esse aqui é seu e por aí a coisa se estende. Partindo dessa premissa rotineira o redator publicitário e ótimo conhecedor de música paulistano Leandro Leal se aventura no primeiro livro.

“Quem Vai Ficar Com Morrissey?” tem 272 páginas e abre a “Coleção Impulso” da Editora Ideal, que focará em novos escritores. O que é muito bem vindo. Lançado no início do ano, o romance teve como inspiração um conto anterior do autor e tem como guia o final do romance de Fernando com Lívia. Fernando, um aficionado por música que se acomodou na editoria de uma revista sobre um assunto que não nutre interesse, e Lívia, uma garota interiorana que trabalha em um jornal como repórter e ambiciona um pouco mais da vida.

Leandro Leal, porém, busca na sua obra um pouco mais. Do retorno a infância de Fernando até as situações vivenciadas após o fim do relacionamento, olha um pouco para a formação de um jovem, para o contentamento com a vida, para a desistência dos sonhos e para o sentimento de inadequação dentro do mundo. Situações que poderiam render muito bem quando aliadas aos enxertos de cultura pop que são adicionados (principalmente da área musical), mas que infelizmente não conseguem seguir esse caminho.

Esse recorte de etapas e períodos de tempo em algumas pequenas histórias, como as que envolvem as namoradas anteriores de Fernando, por exemplo, aparenta ser desnecessário e ao invés de deixar o recheio mais saboroso acaba atrapalhando o ritmo, servindo só para exemplificar demasiadamente a formação de caráter e personalidade do personagem principal, além de se correlacionar com poucas passagens posteriores. A quantidade de referências e de citações também incomoda um pouco na segunda metade, sendo também desnecessária em determinados momentos.

“Quem Vai Ficar Com Morrissey?” não chega a ser um livro ruim, apesar de óbvio e referencial. Como leitura rápida funciona sem maiores surpresas, assim como para aqueles devotos do bardo de Manchester e sua icônica e estupenda banda anterior. No entanto, não consegue ir além disso. A ideia primordial é boa (e o título é uma grande sacada), tem passagens interessantes aqui e ali, mas isso não consegue tornar o conjunto admirável, sendo razoável apenas, pois desliza na própria fórmula e repetições. Mas, é só uma estreia. Vamos esperar pelo próximo.

Nota: 5,5

A Editora Ideal disponibilizou um trecho para leitura, aqui.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Lollapalooza Brasil - 05 e 06 de abril de 2014 - Autódromo de Interlagos (São Paulo)

Habita com conforto e tranquilidade dentro do lugar comum a noção de que um festival de música é um processo de escolhas, e que, basicamente, se resume nisso. Afinal de contas são muitas atrações e a não ser que você seja um atleta na acepção do termo fica impossível de acompanhar tudo. A 3ª edição do Lollapalloza em São Paulo, agora no Autódromo de Interlagos e comandada pela Tickets For Fun, mostrou muito bem isso.

Foram 2 dias de um evento que surpreendentemente foi quase impecável (ainda que se questione os valores dos ingressos), onde 54 horas de música serviram um público estimado em 150 mil pessoas que consumiram entre outras coisas 123 mil litros de chope e centenas de pratos no Chef’s Stage, talvez a grande sacada desse ano, pois trouxe comida boa e de verdade para um festival nacional pela primeira vez.

E dessas 54 horas de música, a escolha, sim ela de novo, me colocou presente em alguns shows e me deixou ausente de outros. Shows sobre os quais disponho leves impressões abaixo.

Dia 05/04/2014 - Sábado

Silva
Ao final do show, próximo das duas da tarde do sabadão, pintou um pouco de frustração por não ter chegado antes. Mesmo vendo só da metade em diante, deu para ver que o Silva funcionou muito bem com banda e naipe de metais. Esse é o caminho para não ficar uma coisa tão previsível. Vamos esperar que se mantenha nessa toada.

Lucas Santtana
Um show de um cara que pode muito mais. Talvez pelo horário, o músico pensou em fazer uma apresentação mais “enérgica”, mas o que vimos foi um tiro que saiu pela culatra. Foi confuso e sem graça alguma.

Café Tacvba
A primeira grande performance da edição. Ritmos latinos misturados com pop, rock, ska e o que mais pintar na frente. Junte a isso muita simpatia, dancinhas, e claro, boas músicas. Diversão garantida às custas de Rubén Albarrán e seus amigos.

Julian Casablancas
Ouvi de longe algumas músicas do vocalista do Strokes. Horrível é pouco. Muito pouco.

Portugal. The Man
A banda do Alaska foi uma aprazível surpresa. Com um rock bem feito, apostando em melodias e com um pé fincado no rock alternativo dos anos 80 e 90, convenceram muito bem. Única coisa ruim foi a versão desconexa para “Another Brick In The Wall” do Pink Floyd que não disse a que veio.

Lorde
Vi uma música. Bastou. Para nunca mais.

Phoenix
Acho o Phoenix uma boa banda, com hits para encaixar uma apresentação bacana e um vocalista que sabe se portar em um palco. Mas eles exageram. E isso faz com que se saia no meio do show infelizmente.

Nine Inch Nails
Na ativa desde o final dos anos 80, o Nine Inch Nails é uma banda para se admirar. Pouco convencional e com letras contundentes em cima da cama pesada forjada entre o metal e o industrial, o grupo de Trent Reznor fez o sábado valer a pena. De tão intensa que foi a apresentação vi marmanjos com mais de 40 anos se emocionando e vertendo suaves lágrimas em diversos pontos distintos do show. Impossível não ficar submerso a mistura sonora e de luzes que a banda arremessa no público. O final com “The Hand That Feeds”, “Head Like a Hole” e “Hurt” foi esplendoroso.

Dia 06/04/2014 - Domingo

Apanhador Só
O domingão começou cedo com um sol de rachar a cuca, até mesmo para quem está habituado com o calor. Como alívio para isso nada melhor que uma cerveja na mão e o show dos gaúchos da Apanhador Só, que ao mesclar músicas dos seus dois discos focando em canções mais agitadas, fez uma das apresentações mais legais da edição colocando o público para cantar junto canções como “Despirocar” e “Prédio”. Palmas para eles.

Raimundos
Com um caminhão de hits no bolso, os Raimundos são o tipo de banda que podem fazer fácil uma hora de show plenamente animada. Sobreviventes, por assim dizer, depois da saída de Rodolfo dos vocais no começo dos anos 2000, aquela que provavelmente foi a maior banda de rock do país na segunda metade dos anos 90, hoje é uma pálida sombra do que foi. Culpa do guitarrista (e agora vocalista) Digão que com sua insistência em continuar cantando e seus discursos vazios e clichês detonam qualquer esperança de novos bons momentos.

Johnny Marr
Quando o show do ex-guitarrista do Smiths foi anunciado pelo Lollapalloza a comoção não foi tão grande assim. Ainda mais no horário em que foi colocado, iniciando às 14:20, não podia se esperar realmente grandes coisas. Como funcionar suas músicas com o sol que queimava a todos? É, mas funcionou. E muito bem. Tanto para saudosistas quanto para neófitos, o talento e a simpatia do guitarrista que influenciou uma penca de bandas indies nos últimos anos foram avassaladores. Entre as canções do ótimo “The Messenger” do ano passado, ainda encontrou tempo para relembrar canções da velha banda como “Stop Me If You Think You Heard This One Before”, “Bigmouth Strikes Again”, “How Soon Is Now?” (esta com a presença do velho amigo e ex-baixista do Smiths, Andy Rourke, no palco) e o hino “There Is a Light That Never Goes Out” para fechar. Se a palavra emoção tivesse que ter imagens para definir seu significado era só filmar o público depois disso. O melhor show do festival.

Pixies
Não tem como não gostar de um show do Pixies. Mesmo sem a Kim Deal no baixo. E no Lollapalloza 2014 não foi diferente. Entre músicas novas como “Magdalena”, cacetadas como “Ed Is Dead” e clássicos como “Where Is My Mind”, Frank Black comandou aos gritos e sussurros uma apresentação digna da importância da banda, ainda que inferior a aquela feita no frio do SWU de uns anos atrás.

Soundgarden
A distância entre palcos cobrou seu preço e deu para ver pouca coisa. Mas vi “Black Hole Sun”, tipo de canção que sozinha já vale um show.

New Order
O show a ser visto era o Arcade Fire. Não tinha discussão nesse quesito. Mas como não se render ao coração e ver Bernard Summer entoar canções que marcaram uma geração em outro palco? As recomendações eram de que a apresentação “era morna”, “não valia a pena”, “melhor colocar um DVD”. Grave engano. O New Order que se viu em Interlagos em 2014, podia não ter o vigor de outras épocas, mas nem de perto foi automático ou chato. Para o público que fez esta difícil escolha, o agradecimento veio com uma bela exibição e um repertório fantástico com faixas como “Singularity” e “586”, além de pérolas como “Your Silent Face”, “World”, “Bizarre Love Triangle”, “Blue Monday” e The Perfect Kiss” e da homenagem a Ian Curtis com as versões de “Transmission”, “Atmosphere” e o encerramento comovente com “Love Will Tear Us Apart” do Joy Division. Pouco importava se Bernard Summer parecia seu tio bêbado na festa de natal quando se metia a dançar no palco ou se Gillian Gilbert lembrasse mais uma secretária executiva prestes a se aposentar do que uma artista pop. O que importava eram as músicas cantadas, os sorrisos nos rostos que o New Order provocou. A parte do Lollapalooza que se permitiu dançar e cantar. Que Win Butler nos desculpe, mas o Arcade Fire fica para a próxima vez. Sem arrependimentos.

Top 5 – Melhores Shows

1 – Johnny Marr
2 – Nine Inch Nails
3 – New Order
4 – Pixies
5 – Café Tacvba

P.S: Fotos retiradas do site official do evento: http://www.lollapaloozabr.com

Textos relacionados no blog:
    
- - Shows: Lollapalooza 2013

quarta-feira, 12 de março de 2014

"No Coração do Mar" - Charlotte Rogan


Com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) prestes a eclodir no velho mundo, uma jovem recém-casada entra com seu amado marido no navio Empress Alexandra de volta aos Estados Unidos. O casamento que foi sacramentado na Europa parece ser mais uma linda história de amor, olhando secamente, de modo rápido. No entanto, à medida que “No Coração do Mar” avança, percebe-se que não é bem assim. Mesmo que exista uma paixão envolvida há também muita turbulência e ações premeditadas.

Quando o navio em questão sofre um acidente e naufraga em pleno mar é que a autora britânica Charlotte Rogan coloca o leitor mais a par dessas curvas do relacionamento. Na loucura para achar uma salvação, o marido coloca a esposa Grace Winter dentro de um bote salva-vidas extremamente lotado e repassa ao marinheiro que tomará conta da pequena embarcação uma misteriosa encomenda. Com as cartas mais ou menos jogadas na mesa é que a autora começa a deslanchar os principais pontos da obra.

“No Coração do Mar” (The Lifeboat, no original) foi lançado em 2012 na Grã-Bretanha e recebeu bons elogios de publicações como o Guardian e The Independent. Aqui chegou no ano passado pelas mãos da Editora Intrínseca com 240 páginas e tradução de Flávia Rossler. É o primeiro livro da autora, que passou anos escrevendo em segredo em casa até tomar coragem de mostrar o trabalho para alguém. Bem escrito e com boas nuances psicológicas envolvidas, é um trabalho que desafia lentamente o leitor.

Inspirado em um caso judicial antigo, “No Coração do Mar” é um livro que se ocupa em tratar dos limites da humanidade de cada um quando a própria sobrevivência está em risco. 21 dias presos dentro de um bote sem condições higiênicas e sem água ou comida satisfatórias podem transformar qualquer pessoa. Porém, até que ponto pode-se atribuir culpa as ações exercidas nesse período? Até que ponto os atos praticados sobre esse tipo de pressão podem ser julgados? Essas e outras perguntas buscam respostas no livro.

No entanto, entre as histórias de antes do naufrágio, da briga pela sobrevivência e do cansativo julgamento posterior, a grande estrela da obra é a personagem principal. Com uma roupagem de inocência embutida no primeiro olhar, Grace Winter mostra muito mais e o leitor fica dividido entre a ambiguidade das suas práticas e seus pensamentos. E por deixar a sua estreia navegar em áreas extremamente cinzas ao invés de um preto e branco mais comum, é que “No Coração do Mar” se destaca e merece ser lido.

P.S: O livro terá adaptação cinematográfica e a atriz Anne Hathaway (“Os Miseráveis”) será a produtora e a protagonista.

A Editora Intrínseca disponibilizou um trecho para leitura:


Nota: 7,0

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

"Alabama Monroe" - 2014

Uma doença grave carrega com ela o destrutivo poder de desestabilizar qualquer relação familiar, amorosa ou cotidiana. O câncer então é mestre em fazer coisas desse tipo e quem já conviveu com uma situação assim entende bem esse cruel poder. Em “Alabama Monroe” (The Circle Broken Breakdown, no original), mesmo sem ser o sustentáculo principal com que o filme belga se apoia, é uma peça importante e funciona como delineador das ações que impulsionam o longa adiante.

Lançado originalmente em 2012, a obra do diretor Felix Van Groeningen ganhou uma indicação ao Oscar desse ano na categoria de melhor filme estrangeiro depois de ganhar prêmios em festivais prestigiados como o de Berlim e o de Tribeca. Aqui no Brasil passou pelo Festival de Cinema do Rio de Janeiro no ano passado, mas só estreou mesmo agora em 2014. O trabalho é baseado em uma peça de Jonan Heldenbergh em parceria com Mieke Dobbels, com roteiro adaptado pelo diretor em parceria com Carl Jools.

Em “Alabama Monroe” conhecemos Didier Bontinck (Jonan Heldenbergh), um músico de bluegrass apaixonado pela América e por esse ritmo irmão do country, e Elise Vandevelde, uma tatuadora que exibe no próprio corpo inúmeras figuras. Os dois se encontram e passam a namorar, viver juntos e tocar na banda que Didier mantêm com amigos. O resultado desse amor arrebatador e companheiro é a pequena e formosa Maybelle (Nell Cattrysse), que resulta em uma dedicação forte e afável de seus pais.

A história então sugere um conto de fadas. O casal se ama, mora em uma pequena fazenda em uma região rural, produz uma música pela qual são apaixonados (ele, pelo menos é) em um país com nenhuma tradição no estilo e tem uma linda e engraçada filhinha. Isso até Maybelle ficar doente e a partir disso tudo começa a desabar pouco a pouco, com o clima mais pesado a cada dia. Para contar essa história o diretor Felix Van Groeningen entrecorta passado e presente em um intervalo de mais ou menos sete anos, o que deixa tudo mais aflitivo.

No meio desse drama enternecedor, “Alabama Monroe” foca em vários aspectos como a quebra da estúpida crença reacionária de que pais músicos e tatuados não são bons pais, no papel da religião como inibidora de descobertas científicas, e na inevitável transposição de culpa entre as partes. Como disse Raul Seixas na sua canção “Por Quem os Sinos Dobram”: “é sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”, mesmo que não acha culpa a ser achada. Esses pontos são bem explorados e não transformam o filme em um dramalhão novelesco.

Do lado mais aprazível da película entra a parte musical, muito bem executada (a banda existe e faz shows na Bélgica) e coordenada pelo compositor e arranjador Bjorn Eriksson. Circulam pequenas pinturas como “Will The Circle Be Unbroken” de A.P. Carter, “Cowboy Man” de Lyle Lovett ou “If I Needed You” de Townes Van Zandt. Com isso, apesar de alguns caminhos mais óbvios na segunda metade de exibição, “Alabama Monroe” se constitui em um filme prodigioso onde música e dor conversam com inevitável intimidade.

Nota: 8,0


Assista ao trailer legendado:

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

"Todo Aquele Jazz" - Geoff Dyer

“A música jazz é uma inquietação acelerada”, assim apontou a falecida escritora francesa Françoise Sagan de “Bom Dia Tristeza”. Essa inquietude é presente não somente na formatação dos improvisos feitos em cima de cada frase de um instrumento ou na construção de arranjos sofisticados e únicos, como também pode ser transferida para a vida da maioria dos músicos que criaram e consolidaram o gênero em suas vertentes mais ricas e poderosas.

O romancista e ensaísta inglês Geoff Dyer é um dos muitos amantes do estilo e em 1991 lançou um livro sobre o tema chamado “But Beatiful: A Book About Jazz”. Essa obra ganhou reimpressão em terras nacionais no ano passado pela Companhia das Letras com 240 páginas e tradução de Donald M. Garschagen. O autor que tem livros sobre diversas outras áreas como fotografia e viagens, exibe aqui amplo conhecimento e uma paixão expressiva sobre o tema.

“Todo Aquele Jazz” é um livro de ficção que toma como embasamento de criação alguns fatos reais da vida dos músicos retratados. Usa como matéria-prima inicial fotografias antigas que o autor teve acesso ou já conhecia, e a partir disso passou a imaginar aspectos mais extensos. Ícones do jazz são retratados em cada capítulo, como Thelonious Monk, Charles Mingus, Chet Baker, Lester Young, Bud Powell, Art Pepper e Ben Webster, além do extraordinário Duke Ellington permeando todos esses capítulos em passagens curtas.

As histórias que Geoff Dyer fabrica são permeadas por dores, decepções, passividade e uma melancolia diretamente vinculada aos tempos áureos em que o brilhantismo e a energia ainda eram as moedas correntes dessas vidas. Não obstante, esse reflexo espelhado que ele exibe nas páginas vem justamente depois da absorção das inovações do ritmo, assim como naquilo que sempre teve em volta do jazz na maioria das vezes como o álcool, as drogas e as mulheres.

A viagem invade os anos 20 e chega até os anos em que esses baluartes mantiveram sua existência, isso de modo sucinto, sempre se apegando ou ao momento de declínio físico, mental e criativo, ou de ostracismo em algum país longe da América. Essa viagem mesmo sendo pesarosa e triste em determinadas situações não deixa de ser idílica e poética em diversas outras passagens, devido principalmente a sapiência do autor e a maneira como escreve.

De todos os capítulos, aqueles que focam em Thelonious Monk, Charles Mingus e Art Pepper são os mais exuberantes. Magia, loucura e incompreensão andam de mãos dadas nesses pequenos contos. Para envolver ainda mais o leitor as fotos comentadas nas páginas do livro poderiam estar presentes. Porém, isso é mero detalhe e “Todo Aquele Jazz” ainda encerra com um ensaio formidável justamente sobre o estilo de vida que os músicos levavam (por opção própria ou não) e sua contraposição na criação de pequenos clássicos, além de uma estupenda discografia selecionada para correr atrás depois.

Nota: 9,0

A editora disponibiliza um trecho gratuito para visualização, aqui.

Textos relacionados no blog:

- Literatura: “Pops – A Vida de Louis Armstrong” – Terry Teachout
- Quadrinhos: “Bourbon Street –Os Fantasmas de Cornelius” – Philippe Charlot e Alexis Chabert

Essa é a única foto que está no livro e mostra Ben Webster, Red Allen e Pee Wee Russell.

domingo, 26 de janeiro de 2014

"O Lobo de Wall Street" - 2014

22 anos, muita disposição, uma boa dose de inteligência e perspicácia, ambições mil e o mundo inteiro pela frente. Foi assim que o jovem Jordan Belfort desembarcou em Wall Street na segunda metade dos anos 80, logo em uma tradicionalíssima empresa do ramo. De cara se deslumbrou com o cenário, com as chances de ficar milionário e com o funcionamento enérgico do negócio. Porém, quando ia começar a deslanchar, o mundo ruiu. Em uma segunda-feira de 1987 conhecida como “black monday”, a bolsa de New York caiu muito e ele foi demitido pela empresa que acabou fechando.

O renascimento e o subseqüente crescimento profissional de Jordan Belfort perfazem a idéia inicial de “O Lobo de Wall Street”, o novo longa do diretor Martin Scorsese em cartaz em todo o país. O filme é inspirado no livro de mesmo nome do corretor que durante os anos 90 enriqueceu a custa de diversas fraudes e desrespeito as leis do mercado financeiro e do próprio conceito de ética profissional, podemos assim dizer. Essa jornada de ambição é regada por vícios e loucuras das maiores estirpes possíveis, uma montanha-russa de álcool, sexo, drogas e uma completa e absoluta falta de princípios e de escrúpulos.

Scorsese é um diretor que adora esse tipo de personagem, que vive na margem das regras gerais da sociedade. Foi assim em alguns dos seus grandes trabalhos, como por exemplo, em “Taxi Driver” (1976), “Os Bons Companheiros” (1990), “Cassino” (1995) e “Os Infiltrados” (2006). Em maior ou menor escala, esse tipo de figura acaba arrebatando o diretor e ganha uma aura de fascínio que envolve o espectador de maneira com que ele esqueça naquele momento de exibição da diferença entre certo e errado, de legal e ilegal, de correto e indevido. Isso incessantemente é usado como um trunfo e não é diferente com o Jordan Belfort de Leonardo DiCaprio.

Depois que resolve ressuscitar no mercado financeiro dentro de um segmento ínfimo e sem nenhuma profissionalização com muita esperteza e nenhuma honradez, o protagonista feito por DiCaprio cria uma empresa e volta para o jogo sendo amado e admirado por indivíduos que são como ele, ou seja, não estão nem aí para as leis e só querem saber de dinheiro no próprio bolso. A leve tentativa de humanizar essa situação na última parte do filme de quase três horas de duração além de ser apática, leva nos a deduzir que o próprio diretor quis se redimir do descomedimento que lhe absorve em algumas passagens.

“O Lobo de Wall Street” exibe muito daquilo que Scorsese tem de melhor, isso é inegável. Empolga mesmo em certas etapas. É enérgico, engraçado e levanta a discussão sobre até onde o ser humano pode chegar quando tem dinheiro e poder envolvido. Porém, quando se trata de um filme de um diretor tão representativo como ele tem que se tomar muito cuidado para não cair em duas correntes óbvias: a) Por ser Scorsese, logicamente é um novo clássico, ou b) Por ser Scorsese, já vimos isso antes e de uma maneira melhor, pois dele sempre pode se esperar muito mais. Nem isso, e nem aquilo, ficaria de melhor grado nesse caso específico.

Pois se “O Lobo de Wall Street” tem muito do melhor Scorsese que podemos ter, representado aqui nos personagens, diálogos, situações quase surreais e atuações deslumbrantes de atores como Leonardo DiCaprio, Jonah Hill e Matthew McConauguey, também tem um pouco daquilo que é falho ao diretor como o exagero de algumas tomadas e o alongamento desnecessário de um tema já exaurido. Isso transforma o último quinto do filme em uma obra menor do que fora até ali e diminui o resultado final, já que “O Lobo de Wall Street”, assim como seu personagem principal, funciona muito melhor quando está alucinado e frenético do que em momentos de drama e de calmaria.

Nota: 8,0


Assista ao trailer legendado:

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Séries - “Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D.”

Depois do sucesso do filme dos Vingadores e dos personagens envolvidos diretamente nele, a Marvel resolveu se aventurar também no lucrativo mercado dos seriados televisivos. Sim, nesse mundão ninguém é lá muito besta e sendo assim o gancho para começar um novo produto foi devidamente aproveitado. Para essa missão, a empresa utilizou a sua agência de controle mundial, a S.H.I.E.L.D. (Strategic, Homeland Intervention, Enforcement and Logistics Division), criada pelos respeitados Stan Lee e Jack Kirby na segunda metade dos anos 60.

“Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D.” estreou em setembro do ano passado e já passa dos 10 episódios da primeira temporada nesse momento. Produzida pelos estúdios da ABC em parceria com a Marvel, a série foi elaborada pelo experiente Joss Whedon (diretor do filme dos Vingadores, assim como da sequência prevista para 2015), seu irmão Jed Whedon e Maurissa Anne Tancharoen (de “Dollhouse”). Aqui no Brasil ela é transmitida pelo canal da Sony toda quinta feira, às 21hs.

Centrada no renascido agente Phil Coulson (Clark Gregg, que repete o papel feito nos filmes vinculados), o seriado tem como objetivo a resolução de casos estranhos e desconhecidos que aparecem em uma quantidade mais elevada depois da invasão alienígena vista no longa dos heróis mais poderosos da Terra. Para tanto, ele junta um time que conta com os braços e pernas de Melinda May (Ming-Na Wen) e Grant Ward (Brett Dalton), com a mente da dupla de jovens gênios Fitz (Ian de Caestecker) e Simmons (a bela Elizabeth Henstridge) e com as habilidades da hacker Skye (Chloe Bennet de “Nashville”).

É justo afirmar que em um primeiro momento a temática prometia, afinal a presença da S.H.I.E.L.D. nos quadrinhos proporcionou em momentos distintos boas histórias de traição, espionagem e heroísmo. Todavia, essa promessa inicial não dura muito e cai logo nos capítulos de abertura. O tom com que as tramas são desenvolvidas trafega entre as produções para a tevê com super-heróis dos anos 60, os filmes da trilogia “Homens de Preto”, dramas novelescos e muita obviedade. Nem as ligações com os filmes da franquia e as piadas internas sobre esses assuntos conseguem redimir os episódios.

Essa ligação com as películas, aliás, é que podia ser melhor explorada devido ao grande filão de oportunidades a ser preenchido. Quando são aproveitados esses ensejos, isso é feito de modo muito raso, pois a maior preocupação parece ser deixar a trama leve e agradável para o maior público da televisão. Nomes de personagens (vilões e agentes) dos quadrinhos até empolgam vez ou outra (como a Victoria Hand da atriz Saffra Burrows), mas ainda assim surgem transformados e com outras correlações que não as originais.

O que se vê em “Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D.”, na realidade, é que o objetivo maior é manter o selo “Vingadores” na mídia (mesmo indiretamente) e obviamente lucrar com o sucesso obtido. A qualidade, bom, a qualidade é algo secundário. Esse objetivo, ao que parece, vem sendo alcançado devido aos bons índices atuais de audiência, mesmo levando em consideração a constante queda. Porém, o que a série deixa mesmo de legado é o desapontamento de pegar um produto que poderia render absurdamente mais e não conseguir (ou querer) fazer isso.

Nota: 4,0

Textos relacionados no blog:
- Cinema: “Os Vingadores” – 2012
- Cinema: “Thor: O Mundo Sombrio” - 2013


Assista a um trailer legendado:


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

"Treme" - Uma série que você precisa assistir

Era final de agosto de 2005 quando um furacão de alto nível (o maior das últimas quatro décadas) oriundo de uma tempestade tropical, arrasou a cidade de New Orleans, no estado da Louisiana nos Estados Unidos. Outras cidades de estados como o Mississipi, o Alabama e a Flórida também foram afetadas, mas em nível menor se comparadas a New Orleans. O Katrina (como foi chamado) foi devastador e carregou além de vidas e bens, a autoestima dos habitantes da região.

Durante a tempestade e os dias que seguiram, o que se viu foi uma sequência de erros inacreditáveis das administrações públicas (principalmente do Presidente Bush), com abusos ocorrendo tanto por parte da polícia quanto das gangues que se aproveitaram da desgraça. Na reconstrução da cidade, mais absurdos na retomada das casas, nas relações com as empresas de seguros e com a “Indústria do Desastre”, sempre atuante no país com seus acordos e negociatas.

Focada nessa reconstrução é que foi arquitetada “Treme”, série da HBO que começou a ser exibida em 11 de abril de 2010 e foi finalizada agora em 29 de dezembro de 2013, depois de quatro temporadas e 36 capítulos. Idealizada por David Simon (da ótima “The Wire”), com a parceria de Eric Overmyer (roteirista de várias séries como a própria “The Wire’”), “Treme” historicamente se inicia alguns meses depois da passagem do furacão e termina no Mardi Gras de 2009.

Um dos grandes berços do jazz e reconhecida por sua música em geral e gastronomia, “Treme” aborda o drama de se erguer novamente sem esquecer esses pontos e em todos os episódios a música exerce um papel fundamental, já atracada no próprio nome, que representa um dos bairros mais musicais e festeiros (e pobres) da cidade. Não obstante, alguns dos personagens principais são músicos como os trompetistas Delmond Lambreaux (Rob Brown) e Antoine Batiste (Wendell Pierce) e a violinista e cantora Annie Tee (Lucia Micarelli).

A culinária, outra característica da região, é representada pela chef Janette Desautel (Kim Dickens de “Obrigado Por Fumar”). Entre os vários polos de apresentação que ainda podemos recortar temos a briga em manter as tradições culturais de Albert Lambreaux (Clarke Peters de “Person Of Interest”), a busca pelos direitos civis contra a corrupção policial da advogada Toni Bernette (Melissa Leo de “O Vencedor”) e do detetive Terry Coulson (David Morse de “Guerra Ao Terror”) ou os negócios obscuros de empreiteiros como Nelson Hidalgo (Jon Seda).

Amarrando despretensiosamente todas essas pontas (ou a maioria delas) está o DJ Davis McAlary, personagem interpretado por Steve Zahn de “Roubos e Trapaças”, um idealista, sonhador e apaixonado pela cidade. John Goodman (de “Argo”), como um professor e marido de Toni Bernette também é um grande papel, mas infelizmente só participa da primeira temporada, o que é válido por outro lado pois abriu novas possibilidades narrativas envolvendo tanto o crescimento pessoal quanto revoltas próprias.

Além de todos esses fatores, quase sempre os episódios exibidos são exímios, tecnicamente falando. Diretores como Tim Robbins (“Os Últimos Passos de Um Homem” de 1995), Agnieszka Holland (“Filhos da Guerra” de 1990 e “O Jardim Secreto” de 1993) e Brad Anderson (“O Operário” de 2004), são alguns dos nomes responsáveis. E a parte musical, bom, a parte musical é puro deleite, pura satisfação. Trafegam nos capítulos artistas como Elvis Costello, Allen Toussaint, Dr. John, Kermitt Ruffins, Trombone Shorty, John Boutté, Steve Earle e Irma Thomas, entre tantos outros.

“Treme” alcança algo extremamente complicado que é unir bem várias vertentes e muitos personagens fortes com real participação na trama, de modo equilibrado. O drama junto com a comédia, a pesada crítica social com a corrupção política, a música com o cotidiano, a dúvida com o entusiasmo, o aprendizado com fracasso. E no meio disso tudo, como talvez a grande protagonista de todo o enredo, a cidade em si, a terra de um povo, o chão de sonhos e decepções que é New Orleans.

Mesmo com a quarta e última temporada tendo apenas cinco episódios e acabando antes do idealizado, o final não deixa muito a desejar e preserva o gabarito de qualidade visto durante as temporadas. Poucas vezes uma série exibiu esse nível de qualidade de modo tão constante. Depois de assisti-la é impossível não se apaixonar por New Orleans, pelo seu povo, sua comida e sua música. É uma pena que “Treme” tenha chegado ao fim, mas assim como seus personagens cansaram de mostrar, é preciso seguir em frente.

P.S: Também é uma pena que “Treme” não tenha sido tão alardeada aqui no Brasil. Das quatro temporadas só a primeira está disponível em DVD. Quem quiser assistir, ou acompanha pela HBO os capítulos soltos em reprises (a espera de uma maratona) ou vai ao serviço online “HBO GO”, onde tudo está disponível. Ou ainda, importa as temporadas. Acredite, vale o esforço. Completamente.

Nota: 10,0

Abaixo, alguns momentos musicais de “Treme”:

DJ Davis com “Shame, Shame, Shame”:


Irma Thomas, Allen Toussaint e Antoine Batiste com “Time Is On My Side”:


Vários em “Will The Circle Be Unbroken”:

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

"Piteco - Ingá" - Shiko

Em novembro do ano passado a primeira safra do projeto Graphic MSP chegou ao fim com “Piteco – Ingá”. A última empreitada dessa temporada inicial (seis outros álbuns estão previstos para 2014) teve aventuras da turminha, do Astronauta e do Chico Bento sob a responsabilidade dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, Danilo Beyruth e Gustavo Duarte, respectivamente. O resultado quase sempre foi satisfatório e usando um clichezão, “Piteco – Ingá” fecha esse ciclo com a famosa chave de ouro.

A incumbência de visitar o personagem pré-histórico de Mauricio de Sousa ficou com o paraibano Shiko, hoje residente na Itália. O autor de “Blue Note” que também é ilustrador e artista plástico deu à luz um trabalho visual não menos que majestoso. E conseguiu juntar a isso uma aventura, que mesmo partindo de um ponto de partida comum, rende muito bem. Sem contar o fato que foi o autor que mais foi além no quesito de liberdade criativa, aproximando a obra do público adulto.

Esse ponto de partida passa pela migração que o povo de Piteco se vê forçado a fazer, pois o rio que lhes dava sustento acaba de secar, um incremento bem utilizado ressaltando a importância da água. No entanto, quando isso está para acontecer, o caçador percebe que sua amiga Thuga foi seqüestrada. Não pensando duas vezes, ele segue no encalço para recuperar a curandeira do seu povo junto com o amigo inventor Beleléu e a guerreira Ogra. Essa busca representa o objetivo que guia a trama em suas 80 páginas.

Uma das coisas mais positivas do álbum é como Shiko transformou os personagens e suas relações. A ligação entre Thuga e Piteco, que originalmente consiste nela apaixonada correndo atrás dele, enquanto ele foge de todas as maneiras, aqui ganha contornos de respeito e amizade, por mais que a relação amorosa ainda esteja lá. A amizade com Beleléu fica mais forte e a disputa entre os povos existentes na região mais intensa e acirrada, ao contrário da leveza com que é regularmente tratada.

Outro ponto positivo é a aproximação que o autor faz com o nordeste e com o folclore tupiniquim. Além de usar a Pedra do Ingá na trama (monumento arqueológico da Paraíba), inclui lendas como o Curupira (o Arapó-Paco) e o Boitatá (o M-Buantan). E essas coisas, aliadas com a arte dos desenhos coloridos em aquarela e a já citada ascensão para um nível mais maduro transformam “Piteco – Ingá” em, se não no melhor dos projetos até agora (esse posto ainda fica com “Laços”), no mais interessante como um todo.

P.S: Como de costume, existem duas opções de capas com preços distintos (R$ 19,90 e R$ 29,90) em livrarias e bancas de revistas.

Nota: 8,5

Textos relacionados no blog:
- Quadrinhos: “Astronauta Magnetar” – Danilo Beyruth
- Quadrinhos: “Laços” – Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi
- Quadrinhos: “Pavor Espaciar” – Gustavo Duarte