segunda-feira, 12 de julho de 2010

"A Culpa é Do Fidel" - 2006

Anna de la Mesa tem nove anos no começo dos anos 70. Vive na França em uma casa grande e na escola católica onde estuda aprende o que entende como bons modos. Seus avôs de um lado são produtores de vinho da região de Bordeaux e do outro amigos e entusiastas do regime do ditador Franco na Espanha. Seus pais seguem a cartilha dos avôs, até que uma tia aparece junto com a filha vinda da Espanha, onde o marido foi assassinado pelo governo.
Anna de la Mesa, interpretada notavelmente por Nina Kervel-Bey é o ponto central do filme francês de 2006, “A Culpa é do Fidel”, primeiro trabalho da diretora Julie Gravas, filha do cineasta grego Costa-Gravas. Esse conturbado período histórico onde a briga política estava acirradíssima é demonstrado pelos olhos de uma garotinha, que de repente vê seu mundo e suas crenças ruírem sem qualquer aviso, o que lhe deixa emburrada e perdida.
Quando seus pais resolvem virar comunistas, que na visão da garotinha são “barbudos e vermelhos”, pois a empregada refugiada de Cuba assim o disse, o mundo fica chato, sem mais tempo para brincadeiras e com várias mudanças, incluindo da grande casa para um apartamento pequeno, que vive abarrotado de gente. Seu irmão mais novo François (Benjamin Feulliet) não sente tanto e se demonstra como um contraponto mais cômico no longa.
Julie Gravas se baseou livremente em livro de Domitilla Calamai para escrever “A Culpa é do Fidel”, mas ela própria deve ter passado por muitas situações parecidas, já que seu pai é um socialista famoso. O mundo planejado na época pelos comunistas é extremamente chato para uma criança e em cima disso a diretora cria um filme divertido, mas não menos crítico. As perguntas de Anna de la Mesa põem em cheque partes da doutrina dos seus pais e amigos.
Enquanto os pais se preocupam em ajudar tanto na França quanto em viagens, Salvador Allende a ganhar as eleições e se manter no poder no Chile, Anna vai se adequando ao novo mundo, abrindo sua cabeça. Quando Augusto Pinochet dá o golpe que o manterá no poder por 17 anos, Anna sofre tanto quanto o pai. “A Culpa é do Fidel”, critica a política da época de maneira inteligente e versa sobre mudanças e recondicionamentos para agradar bastante.

sábado, 10 de julho de 2010

"Shrek Para Sempre" - 2010

“Shrek Para Sempre” chega aos cinemas carregando a expectativa de uma sessão com boas risadas, diante não só de “gags” visuais e piadas fáceis, como também por toques de humor politicamente incorreto. Pelo menos foi isso que a franquia que chega ao quarto e anunciado último filme propôs desde o início. Principalmente nos dois primeiros, “Shrek” desvirginava os contos de fadas e inundava a tela com o cotidiano pouco convencional do amado Ogro.
“Shrek Para Sempre” parece que perdeu parte do tesão de viver. É como aquele velho amigo que durante a juventude divertia a todos com seu olhar irreverente e anárquico, suas frases curtas e certeiras, mas que depois de um tempo, já caminhando pelo terreno da meia idade, passa a repetir causos do passado e contar piadas mais fáceis, mais tranqüilas. Ele ainda continua sendo gente boa e faz a mesa rir vez ou outra, mas é visível que algo ficou para trás.
O último filme (será mesmo?) da série encerra a trajetória em versão acústica e adocicada. Retorna ao primeiro longa, antes do Shrek salvar a Fiona do Dragão e começar a sua própria saga, quando os pais da moça estão prestes a fechar um acordo mágico com o perigoso Rumpelstiltiskin. São salvos pelo gongo e Rumpelstiltiskin amarga uma vida chinfrim na qual não consegue passar mais nenhum de seus contratos mágicos adiante. Até que tudo muda.
Shrek anda confuso, está domesticado e não gosta disso. Não afugenta mais os humanos, virou uma espécie de celebridade. Isso o está matando. No aniversários dos filhos, finalmente explode e briga com Fiona. Rumpelstiltiskin vê tudo e cria uma armadilha para que o Ogro assine um contrato mágico, que lhe dará por um dia a chance de ser a criatura temida de antes em troca de um dia qualquer da sua vida. Claro que ele se dá extremamente mal na troca.
Arremessado a um mundo onde Rumpelstiltiskin está no comando e em luta com um monte de Ogros sobre o comando de Fiona, Shrek se vê em maus lençóis. Seus amigos são fantoches sem vida e nenhum lembra dele. Nem o Burro, nem o Gato de Botas, que está gordo e também domesticado. Ele precisa se redescobrir para ter toda a felicidade de antes, felicidade que não reconhecia, mas agora que perdeu tudo, vê o quanto gostava e amava essa vida.
O roteiro clichêzaço de Josh Klausner e Darren Lemke não incomodaria tanto se as piadas valessem a pena. Dá para rir? Claro que dá, mas em intensidade bem menor que antes. O diretor Mike Mitchell busca acomodar todos os personagens anteriores e deixa a maioria sem função. O afetado Rumpelstiltiskin é o que mais se salva, mas “Shrek Para Sempre” deixa a impressão de saudade do passado não só na trama, mas também dentro da própria franquia.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

"Amigo do Tempo" - Mombojó - 2010

“Almejo ser amigo do tempo...” deseja o Mombojó na música que dá nome ao seu terceiro trabalho, disponibilizado gratuitamente para download no site oficial. Manter uma relação amiga com o tempo é sempre complicado, principalmente no campo da música. Como manter a chama acesa, o mesmo amor pelas músicas, quando os anos passam, as cabeças mudam, os fãs querem sempre o mesmo disco, as relações se estremecem e amigos se vão?
Já passou algum tempo desde que a banda mostrou em 2004, o arrebatador “Nadadenovo”. Fizeram mais um (ótimo) disco pela Trama, o “Homem Espuma” em 2006, viram um amigo falecer, outro sair da banda, se mudaram para São Paulo e engataram uma longa temporada de sucesso com o projeto Del Rey, na qual tocam versões de canções do Roberto Carlos. O tempo passava e o novo disco cozinhava com paciência no forno das idéias.
“Amigo do Tempo”
é o resultado disso. O Mombojó agora um quinteto, conta com Felipe S. (vocal e guitarra), Marcelo Machado (guitarra), Chiquinho Moreira (teclado), Samuel Vieira (baixo) e Vicente Machado (bateria), exercendo novas funções que passam por outros instrumentos até a produção do álbum e da carreira. Conseguem a façanha de olhar para os discos anteriores com carinho, mas sem se prender a eles, procuram sempre algo novo.
Financiado inteiramente pela banda, “Amigo do Tempo” teve produtores diferentes, o que não prejudica a unidade do trabalho. Das 11 faixas, mais da metade já era conhecida do público, como “Casa Caiada”, que aparece melhor ainda com efeitos diversos e a melancólica e melódica “Triste Demais”. O grupo explora mais o poder das eletronices, mas sem deixar de lado as frases certeiras, a malemolência preguiçosa do vocal e o ritmo peculiar.
Em “Antimonotonia” o clima é tão tenso que parece a trilha sonora de um filme dramático. Em outras como “Papapa” (com direito a clipe hilariante da banda vestida como heróis de desenhos japoneses), o Mombojó aparece mais pop que nunca e convida discretamente para dançar. “Aumenta o Volume” tem a bateria característica do grupo, mesmo que mascarada. “Praia da Solidão” é mais um bonito exemplo do lado melancólico da banda.
“Amigo do Tempo”
talvez não agrade de entrada alguns fãs que esperam novas “Deixe-se Acreditar” ou “Merda”, mas é uma extensão perfeitamente entendida de “Homem Espuma”. Como diria Chico Science: “Um passo a frente e você não está no mesmo lugar”. O Mombojó segue habilmente essa trilha, mostrando ser um dos mais importantes nomes da música nacional dos últimos anos. Sem alardes ou histrionices, apenas fazendo música como arte.
Sobre o “Homem Espuma”, passe aqui.
Site oficial onde o disco está disponível gratuitamente para download:

terça-feira, 6 de julho de 2010

"O Segredo Dos Seus Olhos" - 2010

“O Segredo Dos Seus Olhos” ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro desse ano. O filme argentino também abocanhou indicações em várias outras premiações e fez uma imensa bilheteria no seu país. O diretor Juan José Campanella reedita novamente a parceria com o ator Ricardo Dárin que já brilhou em trabalhos como “O Filho da Noiva” de 2001 e “Clube da Lua” de 2004. E consegue brilhar de novo. Naquele que talvez seja o melhor longa da carreira.
Ricardo Dárin vive Benjamin Espósito, um funcionário público do Tribunal de Justiça portenho que recentemente se aposentou. Procurando preencher suas horas vagas, resolve escrever um romance. Como tema escolhe um caso antigo, iniciado em 1974 e que além de ser responsável por algumas guinadas na sua vida, ficou durante muito tempo na memória. Depois de todo esse tempo, Benjamin resolve rever o caso e aproveita para analisar o rumo da sua vida.
Ao entrecortar passado e presente, Juan José Campanella mostra não somente um hábil suspense policial, como também uma Argentina em épocas bem distintas. Pincela ainda a tela com amores sufocados, dramas pessoais e comédia cotidiana. O caso que é o centro da trama trata-se de um estupro seguido de assassinato de uma jovem casada. Entre fechamento e reaberturas de processo, brigas no tribunal e ultrapassagens da lei, o culpado é procurado.
No fundo disso, Benjamin lida sem muita habilidade com a paixão pela sua chefa imediata, Irene Menéndez Hastings, interpretada muito bem por Soledad Villamil e tenta salvar seu melhor amigo e subordinado no Tribunal, Pablo Sandoval (um fantástico Guillermo Francella), da bebedeira que está ruindo com a sua família. E acima de tudo ainda se desespera para ajudar o viúvo da jovem assassinada (vivido por Pablo Rago), que fica destroçado com a perda.
“O Segredo Dos Seus Olhos” constrói um caminho que inicialmente parece fácil e sem muitos percalços, para na segunda metade até o final desembarcar em lugares inesperados e surpreendentes. A direção de Juan José Campanella se mostra mais uma vez repleta de classe e o roteiro adaptado do livro “A Pergunta Dos Seus Olhos” de Eduardo Sacheri (e escrito a quatro mãos com este) não deixa quaisquer buracos. Tarefa que não é lá das mais fáceis.
Ricardo Dárin é o ponto central, sua sobriedade faz desencadear o trabalho dos outros atores. A relação de amor utópico do seu Benjamin com Irene Menéndez é uma estrofe bonita e dilacerada de uma canção para marejar os olhos. Em certo momento o espectador se rende e pergunta a si mesmo: “Onde tudo isso vai dar?”. “O Segredo Dos Seus Olhos” merece todas as honras que conquistou, mais uma ótima prova do que o cinema argentino é capaz.

sábado, 3 de julho de 2010

"Os Excluídos" - Yiyun Li

A Revolução Cultural Chinesa aconteceu entre 1966 e 1976, comandada pelo mesmo Mao Tsé-tung, que liderava o país desde que subiu ao poder no final dos anos 40. Descontente com o modelo comunista que havia implantado, o governante comandou nesses dez anos através dos Guardas Vermelhos (grupos paramilitares de jovens), um massacre a cultura tradicional do país. O que era para ser um avanço no começo se mostrou mais um retrocesso despótico.
Depois de sua morte em 1976, as cartas do baralho mudaram de mãos novamente e o comunismo voltou ao poder, revertendo tudo ao seu jeito. Esse processo que passou ainda pela esperança da "Primavera de Pequim" culminou no massacre de estudantes na Praça da Paz Celestial em 1989. É após esse momento histórico, mais precisamente em 21 de março de 1979, que a escritora chinesa Yiyun Li começa seu livro “Os Excluídos”, lançado esse ano aqui.
Originalmente publicado ano passado lá fora, chega pelas mãos da Editora Nova Fronteira com 400 páginas. Segundo trabalho de Yiyun Li (o primeiro permanece inédito no país), a obra equilibra tensão e desejos no meio de um país cercado por política por todos os lados e onde seus moradores são meros fantoches dos donos do poder. Retrata uma nação que apesar da potência que é hoje, cometeu (e ainda comete) barbaridades contra o seu povo.
A trama começa com a execução de uma jovem de menos de 30 anos, acusada de ser contrarevolucionária. Sua execução pública movimenta uma província fictícia mediana do país. O evento serve sempre para enaltecer o regime e manter os cidadãos obedientes e sem pensar. Várias histórias aparecem, primeiramente de modo particular e isolado, para depois serem costuradas com surpreendente categoria, dosando voracidade e sensibilidade.
Por trás da cortina que nublava a visão de todos, Yiyun Li mostra necessidades básicas do ser humano como comer, elevadas em níveis viscerais. Os personagens criados são extremamente dúbios na sua maioria e mesmo os que hoje em dia podemos julgar como “escrotos”, tem seus motivos bem entendidos. “Os Excluídos” é um romance forte, denso e ao mesmo tempo delicado. Uma homenagem emocionante a todos que perderam suas vidas na época.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

"Ladrão de Cadáveres" - Patrícia Melo

Corumbá, Mato Grosso do Sul. Cidade situada na margem esquerda do Rio Paraguai e que faz fronteira com a Bolívia. O clima pantaneiro toma conta do lugar. O calor invade tudo. É nessa cidade que Patrícia Melo desenvolve o mais recente trabalho. “Ladrão de Cadáveres” marca a estréia da escritora na Editora Rocco, depois de um bom tempo na Companhia das Letras. Lançado esse ano com 220 páginas, traz uma trama rápida e envolvente.
O narrador, que ao mesmo tempo protagoniza o livro, é ex-gerente de uma empresa de telemarketing de São Paulo, que em um dia como outro qualquer explodiu e estapeou uma funcionária. Pouco tempo depois, essa mesma funcionária se suicida e a vida se torna insuportável. Ele então recebe a visita de Carlão, um primo que mora em Corumbá e depois de um convite ruma para a cidade, sem saber o que fazer da vida, sem saber de nada.
Tenta se acostumar com a nova moradia e com o convívio social da cidade, mas na verdade não está a fim de fazer muita coisa. Ao mesmo tempo um pequeno drama começa a se desenvolver com outras pessoas. Uma das famílias mais ricas do local perde inexplicavelmente o filho único em um fatídico acidente aéreo. De uma maneira perspicaz, Patrícia Melo consegue unir esses dois pontos, união que vai servir de base para tudo que virá.
“Ladrão de Cadáveres” é um livro sem esperança no poder da bondade, das boas ações. Até as pessoas mais corretas vão quebrando seu caráter pouco a pouco, sempre olhando o que é melhor para suas conveniências, em vão tentando provar a si mesmo que os meios justificam os fins. Retrato fiel de grande parte de um país em que a lama não para de jorrar. A autora não dispensa ninguém. Polícia, família, amores. Tudo está no mesmo saco.
Patrícia Melo continua no gramado onde joga melhor. Amarra suas tramas policiais como poucos escritores no país hoje em dia. Sem personagens ou tramas óbvias, consegue criar mesmo assim cenários plenamente reais. “Ladrão de Cadáveres” pode até falar sobre perdas da vida, como a autora afirmou em entrevista recente, mas traz consigo também em tons fortes, uma imensa lista de imoralidades que as pessoas podem ser capazes de fazer.
O livro tem um blog relacionado a história. Para olhar depois ou enquanto ler: http://dodecimoandar.wordpress.com
Sobre o livro anterior, passe aqui.

terça-feira, 29 de junho de 2010

"Harry Brown" - 2009

Um ex-militar (mas pode ser ex-policial ou uma pessoa comum) vê sua vizinhança se degradar, com gangues de jovens comandando brutalidades habituais. Um grande amigo (mas pode ser uma esposa, uma filha ou alguém próximo) é assassinado com extrema violência e então a pessoa que antes assistia a tudo passivamente, resolve fazer justiça com as próprias mãos. Roteiro batidaço né? Digno de um clássico a ser protagonizado pelo Steven Seagal.
Assim é o roteiro de “Harry Brown”, filme londrino do ano passado que chega diretamente em DVD por aqui. A primeira vista é o típico do filme para correr bem longe, ou só assistir naquelas madrugadas de insônia. Mas não é caso. Por qual motivo? Principalmente por conta do responsável pelo papel principal, mais especificamente o grande Michael Caine, que já se meteu em algumas furadas sim, por trabalhar demais, mas ainda é um grandíssimo ator.
Aos 78 anos, Michael Caine vive o ex-fuzileiro que dá nome ao filme dirigido por Daniel Barber. O roteiro apesar de óbvio e repleto de possíveis lugares comuns, consegue dá uma boa fugida do banalismo fácil. O Harry Brown que vemos passa distante de um Charles Bronson em um dos filmes da série (clássica ao seu jeito) “Desejo de Matar”, por exemplo. Seu universo é real e a maneira que as coisas se sobrepõem para levar a vingança até se justifica.
O Harry Brown de Caine não sai simplesmente atirando em todo mundo no meio da rua como um jovem herói. Pelo contrário, ao correr atrás de um dos alvos da sua proposta vingança quase tem um infarto e despenca no chão semimorto. O diretor Daniel Barber coloca também a serviço do longa, uma fotografia suja e destratada e não segura a mão na violência das cenas. Drogas, perversão e crimes gratuitos. A mesa fica farta para as escolhas serem feitas.
É claro que não é um filmaço, um trabalho para ser vangloriado aos quatro cantos (apesar de ter recebido críticas bem positivas no Reino Unido), mas merece um lugar nas salas de exibição mais do que muita bomba por aí. Michael Caine é um ator soberbo, daqueles que tem o dom de carregar sozinho qualquer produção, até onde as chances de erro eram imensas como em “Harry Brown”. E ele anda dizendo que vai parar. O cinema ficará um pouco menor.

domingo, 27 de junho de 2010

"A Chuva Antes de Cair" - Jonathan Coe

O inglês de Birmingham, Jonathan Coe, já escreveu obras de extrema qualidade como o poderoso “O Legado da Família Winshaw” e o envolvente “Bem-Vindo Ao Clube”. A constituição familiar e seus segredos e mentiras sempre atraíram o escritor. O tema esteve presente de modo constante nas suas tramas. “A Chuva Antes de Cair”, seu último livro lançado no Brasil pela Editora Record no ano passado com 256 páginas, não foge a pequena regra.
O escritor volta seus olhos para contar uma história que atravessa gerações assim como em “O Legado da Família Winshaw”, só que desta vez sem tanto brilho ou humor. “A Chuva Antes de Cair” começa na segunda guerra mundial e desembarca nos dias de hoje, narrada em flashback. Quem faz a narração em fitas cassetes é Rosamond, que aos 73 anos espera a hora da própria morte. Sua missão é revelar para a jovem Imogen, tudo por trás da sua família.
Rosamond está sem contato com Imogen há vários anos, e passa a missão para sua sobrinha-neta Gill, que terá que encontrá-la e repassar as fitas. Só que Gill não consegue achar nenhum rastro e se entrega a curiosidade de conhecer os segredos, o que faz junto com suas duas filhas. Há uma excepcionalidade por trás de tudo. Imogen é cega, perdeu a visão aos 3 anos, e a forma que Rosamond encontra é descrever o que deseja através de 20 fotografias.
Jonathan Coe escreve bem, isso é inegável, e sabe utilizar isso para emoldurar seus livros. Em “A Chuva Antes de Cair” não é diferente. Constrói bem as épocas que vai ultrapassando e faz na figura de Rosamond, uma sutil crítica a solidão. No entanto, isso não é suficiente. Mesmo funcionando sua narrativa por uma mulher, não consegue deixar o leitor plenamente envolvido em nenhum momento, e acaba por disfarçar repetições de temas e rotinas.
Para quem não conhece seus livros anteriores, a chance de envolvimento é maior. Ao versar sobre amor e o famigerado entendimento do que é felicidade, temos um trabalho bem estruturado, basicamente triste e melancólico e com curtas doses de emoção. No entanto, quem já teve contato com sua obra tende a se decepcionar novamente, assim como em “A Casa do Sono”, outro livro mediano do autor, que parece que deixou seus melhores dias para trás.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

“The ArchAndroid” - Janelle Monáe - 2010

Álbuns conceituais não são lá uma grande novidade na música pop. The Beatles, David Bowie, Pink Floyd e Prince, por exemplo, já se aventuraram com grande maestria por esse universo imaginário. Janelle Monáe também optou por esse caminho na sua estréia fonográfica com “The ArchAndroid”, lançado em maio deste ano. O disco da jovem de 24 anos nascida em Kansas City nos USA é muito bem vindo dentro do pop atual de nomes como Lady Gaga e Ke$ha.
“The ArchAndroid” narra as aventuras de Cindi Mayweatther, uma espécie de heroína cibernética que luta para libertar o povo reprimido de uma grande cidade. Na verdade é como se fosse uma continuação do seu primeiro EP lançado em 2007. Apadrinhada por Puff Daddy e Big Boi do Outkast, a cantora já foi indicada ao Grammy no ano passado. Sua música tem como alicerce o R&B dos anos 60 e 70 mas absorve também funk, rap, dance, folk, jazz e psicodelia.
São 68 minutos divididos em 18 faixas, o que acaba diminuindo um pouco o resultado final, visto que são poucos os artistas que conseguem brilhar inteiramente em discos tão longos. Duas suítes instrumentais e faixas como “Mushrooms & Roses” e “Wondaland” não fariam falta alguma. Nas demais, há certa divisão entre pop’s mais acelerados e músicas mais suaves. Da primeira parte destacam-se a ótima “Cold War”, “Tightrope” e “Come Alive (The War Of The Roses)”.
Pode-se destacar também a sessentista “Faster”, “Locked Inside” (influenciadíssima por Stevie Wonder) e “Make The Bus”, um dance psicodélico que lembra um pouco as brincadeiras do Apples In Stereo e tem participação do Of Montreal. Do lado mais lento do álbum brilham “Oh, Maker” e “57821” como folks antigos e com um leve toque de Velvet Underground e Nico pairando no ar. “BaBopByeYa” mistura jazz e temas de musicais no encerramento.
Janelle Monáe tem um evidente apelo de marketing que não pode ser desprezado, com seu estilo James Brown de dançar, o cabelo com um imenso topete e o modo de se vestir com ternos e smokings, quase sempre em preto e branco, mas também exibe qualidade na forma que caminha por cada uma das músicas. “The ArchAndroid” apesar de um pouco extenso, acerta em uns 80%, e é uma boa noticia no massacrado e clichê mundo do pop dessa iniciante década.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

“O Dia em que James Brown Salvou a Pátria” - James Sullivan

“O Poderoso Chefão do Soul”. “Senhor Dinamite”. “O Irmão Número 1 do Soul”. “O Homem que Mais Trabalhou no Show Business”. Esses são apenas alguns dos apelidos que James Brown acumulou durante a carreira. Fundamental na música negra norte americana, levou o soul e o rhythm & blues para além dos seus limites, criou uma sonoridade própria (para muitos inventando o funk) e serve até hoje de influência para uma incontável gama de outros artistas.
Em 5 de abril de 1968, um dia após o assassinato de Martin Luther King, James Brown subia no palco do Boston Garden, com a missão de acalmar uma cidade prestes a estourar como tantas outras que explodiam naquele momento pelo país. Kevin White, o prefeito da cidade de Boston na época, mesmo a contragosto no inicio, armou uma estratégia para o show do cantor, incluindo transmissão ao vivo para toda a cidade, o que contribuiu para que os nervos se acalmassem.
O jornalista James Sullivan conta essa e outras histórias em “O Dia em que James Brown Salvou a Pátria”, lançamento desse ano da Editora Zahar com 200 páginas. Focado nesse show ímpar e em todo o clima de tensão que existia nas ruas dos U.S.A, o jornalista aproveita também para traçar um quadro geral da vida e obra do cantor, olhando diretamente para seu envolvimento na luta pelos direitos civis dos negros e na tentativa de construir um futuro melhor.
James Sullivan se apóia em diversos depoimentos de pessoas ligadas a James Brown para corroborar suas teses, disponibilizando uma considerável bibliografia no final. A maneira que ele escolhe para conduzir o trabalho é que às vezes é um pouco confusa pulando de um momento para outro sem que uma ponte de interligação seja feita. Seu tom apaixonado pelas canções e principalmente pela figura transcendental de James Brown, também pesa um pouco na balança.
James Brown, que sempre fez as coisas da sua maneira contrapondo na mesma proporção carisma e manipulação e falando o que bem queria inclusive a presidentes, teve com qualquer outro artista momentos de fama e outros de declínio, até falecer em 25 de Dezembro de 2006. “O Dia em que James Brown Salvou a Pátria” cumpre o intuito de mostrar esse dia em especial, além de servir como ponto de partida para conhecer a obra fantástica que o artista gerou.