A pergunta pode ser: “Quem precisa de um disco de covers do Neil Diamond em pleno 2010?” Provavelmente ninguém, mas até aí tudo bem, porque hoje na música não precisa-se de um monte de outras coisas. De discos ao vivos desnecessários a projetos chatos, de bandas novas alçadas à fama por quaisquer outros motivos que não a música a novos duetos de “astros” da música pop. Então a pergunta pode virar para “Que mal pode fazer um disco novo do Neil Diamond?”
O cantor e compositor que já vendeu mais de 100 milhões de discos na carreira e que está prestes a entrar no Hall da fama do rock ano que vem, havia lançado o belo “Home Before Dark” em 2008 antes de desembarcar nesse novo trabalho. “Dreams” traz como o próprio Neil Diamond afirmou: “canções que têm esperado por mim para registrá-las por 40 anos". O repertório vai de Beatles a Elton John, passando por Randy Newman, The Eagles e Leonard Cohen pelo caminho.
Logo na entrada Neil Diamonda recria “Ain’t No Sunshine” de Bill Withers e consegue dar uma cara interessante para um hit que já foi tão reinterpretado, como por exemplo por Paul McCartney e Michael Jackson (só para ficar em alguns), fazendo com que versos batidos como: “o sol não brilha quando ela vai embora, não faz calor quando ela está longe” soem novamente cantáveis. O acompanhamento vem luxuoso com violões, piano e pequenas orquestrações cortando o ar.
“Dreams” também passeia com certa maestria por “Blackbird” dos Beatles, “Feels Like Home” (em belíssima versão) de Randy Newman, “Love Song” de Elton John, “Hallelujah” (emocionante) de Leonard Cohen e “Don’t Forget Me” de Harry Nilsson. Em outras como “Midnight Train to Georgia” de Gladys Knight & The Pips, “Yesterday” dos Beatles e “Desperado” do Eagles as coisas não saem tão bem, mas não podem ser de todo desprezadas em contrapartida.
O melhor momento de “Dreams”, no entanto, fica por conta de “I’m Believer” feita pelo próprio compositor e que virou sucesso com os Monkees nos anos 60. Para quem está acostumado ao clima festeiro da canção, o tom contido aqui faz surgir algo totalmente novo. Neil Diamond canta com autoridade os próprios versos: “qual é a utilidade de tentar?/tudo que você tem é dor/quando eu quis sol/chuva eu tive”. “Dreams” é um “desnecessário” que vale bem a pena.
Sobre o “Home Before Dark” de 2008, passe aqui.
Site oficial: http://www.neildiamond.com sexta-feira, 5 de novembro de 2010
"Dreams" - Neil Diamond - 2010
A pergunta pode ser: “Quem precisa de um disco de covers do Neil Diamond em pleno 2010?” Provavelmente ninguém, mas até aí tudo bem, porque hoje na música não precisa-se de um monte de outras coisas. De discos ao vivos desnecessários a projetos chatos, de bandas novas alçadas à fama por quaisquer outros motivos que não a música a novos duetos de “astros” da música pop. Então a pergunta pode virar para “Que mal pode fazer um disco novo do Neil Diamond?”
O cantor e compositor que já vendeu mais de 100 milhões de discos na carreira e que está prestes a entrar no Hall da fama do rock ano que vem, havia lançado o belo “Home Before Dark” em 2008 antes de desembarcar nesse novo trabalho. “Dreams” traz como o próprio Neil Diamond afirmou: “canções que têm esperado por mim para registrá-las por 40 anos". O repertório vai de Beatles a Elton John, passando por Randy Newman, The Eagles e Leonard Cohen pelo caminho.
Logo na entrada Neil Diamonda recria “Ain’t No Sunshine” de Bill Withers e consegue dar uma cara interessante para um hit que já foi tão reinterpretado, como por exemplo por Paul McCartney e Michael Jackson (só para ficar em alguns), fazendo com que versos batidos como: “o sol não brilha quando ela vai embora, não faz calor quando ela está longe” soem novamente cantáveis. O acompanhamento vem luxuoso com violões, piano e pequenas orquestrações cortando o ar.
“Dreams” também passeia com certa maestria por “Blackbird” dos Beatles, “Feels Like Home” (em belíssima versão) de Randy Newman, “Love Song” de Elton John, “Hallelujah” (emocionante) de Leonard Cohen e “Don’t Forget Me” de Harry Nilsson. Em outras como “Midnight Train to Georgia” de Gladys Knight & The Pips, “Yesterday” dos Beatles e “Desperado” do Eagles as coisas não saem tão bem, mas não podem ser de todo desprezadas em contrapartida.
O melhor momento de “Dreams”, no entanto, fica por conta de “I’m Believer” feita pelo próprio compositor e que virou sucesso com os Monkees nos anos 60. Para quem está acostumado ao clima festeiro da canção, o tom contido aqui faz surgir algo totalmente novo. Neil Diamond canta com autoridade os próprios versos: “qual é a utilidade de tentar?/tudo que você tem é dor/quando eu quis sol/chuva eu tive”. “Dreams” é um “desnecessário” que vale bem a pena.
Sobre o “Home Before Dark” de 2008, passe aqui.
Site oficial: http://www.neildiamond.com quarta-feira, 3 de novembro de 2010
"Sex With an X" - The Vaselines - 2010
Foram 21 anos desde o lançamento de “Dum Dum” pela Rough Trade em 1989, até que Eugene Kelly e Frances Mckee fizessem finalmente um disco novo com o Vaselines. O grupo escocês pouco durou, mas influenciou bandas como o Nirvana e outras mais recentes como o The Pains Of Being Pure At Heart. Por mais que tenham se reunido esporadicamente nesses 21 anos para turnês e shows ocasionais é com “Sex With an X” que o Vaselines registra de vez sua volta.
O álbum ganhou a produção de Jamie Watson, o mesmo responsável pelo primeiro trabalho de 1989. Gravado em apenas 13 dias, o Vaselines contou com o luxuoso acompanhamento de Stevie Jackson e Bobby Kildea do Belle and Sebastian na guitarra e no baixo, além do velho comparsa Michael McGaucghin no comando da bateria. São 12 canções que trazem o habitual rock encharcado de pop, com melodias simples e vocais divididos, além de uma boa carga de noise e anos 60.
O "culto" ao Vaselines que só cresceu realmente quando a banda acabou e foi “redescoberta” pelo Nirvana serviu como alavanca para o novo trabalho. Eugene Kelly em entrevista recente afirmou: “A fama da banda aconteceu depois que terminanos, nós estamos começando a apreciar o que perdemos 20 anos atrás. Agora nós temos uma audiência. Antes não havia realmente uma. Continuamos com o mesmo som, sem muitos acordes, com repetição, sem querer expandir o som.”
É essa manutenção da mesma sonoridade que é o grande charme desse retorno. Faixas como a meio autobiográfica “Sex With an X” e a mordaz “I Hate the 80's” (detonando a referida década com frases como: “nem tudo foi Duran Duran”) poderiam muito bem estar inclusas no registro de 1989. Em outras como “Such a Fool”, “Turning It” e “On Overweight But Over You”, o desejo e o desapontamento com o amor dão o tom para que as guitarras façam a cama para os doces vocais.
“Ruined” fala sobre o mundo do rock e seus desesperos próprios e não tão justificáveis. “The Devil's Inside Me” tem título de música do Cramps ou do The Reverend Horton Heat, enquanto cinismo é despejado em “My God's Bigger Than Your God”. “Sex With an X” é uma volta extremamente digna, passando a quilômetros de distância do oportunismo barato. Ouvir Eugene Kelly e Frances Mckee novamente duelando nos vocais é um raro prazer que deve ser apreciado constantemente.
Mais sobre a banda no blog, aqui.
Site oficial: http://www.thevaselines.co.uk segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Séries - "Boardwalk Empire"
A HBO está produzindo séries com uma qualidade bem acima da média. Suas séries vêm em menor leva que a de canais como a Sony e a Fox, mas quase que constantemente destacam-se mais. “Boardwalk Empire” é a bola da vez. Baseada no livro “Boardwalk Empire: The Birth, High Times, and Corruption of Atlantic City” de Nelson Johnson, ainda inédito por aqui, mostra a Atlantic City do começo dos anos 20, no início da Lei Seca que perdurou por 13 anos nos Estados Unidos.
Concebida e escrita por Terence Winter, que foi roteirista e produtor da excelente “Família Soprano”, a série também conta com a produção executiva luxuosa de Mark Whalberg, Stephen Levinson (de “Entourage”) e principalmente de Martin Scorsese, que como todos sabem se sente extremamente à vontade quando o assunto é máfia e gângsters. Scorsese inclusive dirige o primeiro episódio no qual apresenta os passos iniciais que servirão de base para o que virá.
O centro da trama é Nucky Thompson, interpretado pelo ótimo Steve Buscemi (não por coincidência o ator trabalhou em “Família Soprano”), que finalmente consegue um papel principal no qual pode mostrar todo o talento exposto em filmes como “Cães de Aluguel” e “Fargo”. Ele é o tesoureiro do condado local e além de forte influência política, exerce uma gama de serviços ilegais que vão desde prostíbulos até propinas comerciais e que só aumentam com a Lei Seca.
Nucky Thompson é um fanfarrão. Discursa para uma comunidade de mulheres contra o álcool, como também quebra a cabeça de um cidadão em uma de suas casas de jogos sem hesitar. Vive luxuosamente em um andar inteiro do Hotel Ritz e transita assim como o Tony Soprano de James Gandolfini (sim, mais uma referência) entre a bondade espontânea e a crueldade para com os negócios. Essa dualidade dá o tom dos primeiros episódios e Steve Buscemi tira de letra a missão.
Ao lado do personagem principal transitam outros gângsters da época como Armold Rothstein (Michael Stuhlbarg de “Um Homem Sério”) e um jovem Al Capone (Stephen Graham de “This Is England”, muito bem) antes de tomar o poder em Chigaco ao suceder seu chefe John Torrio quando este é assassinado. O jovem Jimmy (Michael Pitt de “Os Sonhadores”) também se destaca com sua ambição e humor inconstante, tendo tudo para se tornar um dos grandes nomes da série.
Com “Boardwalk Empire”, a HBO cria mais uma vez aquele campo onde televisão e cinema se cruzam e mostra que é completamente possível fazer algo criativo e bem realizado dentro do mundo da televisão, tão órfão de boas idéias. Mesmo com a semelhança para outras obras do gênero, consegue (pelo menos nos primeiros episódios) mostrar uma trama que prende o espectador causando ansiedade pelo próximo capítulo. Martin Scorsese e Terence Winter sabem o que fazem.Site oficial: http://www.hbo.com/boardwalk-empire/index.html
sábado, 30 de outubro de 2010
“Write About Love” - Belle and Sebastian - 2010
Foi no final de 1996 ou no começo de 1997 que o Zeca Camargo escreveu na antiga Bizz um belo texto para o segundo disco de uns escoceses chamados Belle and Sebastian. A crítica era tão boa que resolvi importar o referido álbum de nome “If You’re Feelling Sinister” e as palavras do jornalista realmente transportavam bem a atmosfera encontrada. Muitos anos depois, o Belle ainda continua na ativa e mesmo não sendo tão original, continua presenteando seu público com bons trabalhos.
“Write About Love” é o novo exemplo disso. O oitavo disco de estúdio do grupo lançado esse ano talvez seja o que tenha a sonoridade mais triste e melancólica de todos e olha que isso não é tarefa muito fácil. As letras trazem perdas e bastante desesperança. Isso não chega a ser novidade para quem logo no primeiro disco “Tigermilk” de 1996 cantava em “I Don’t Love Anyone” que não amava ninguém e aprendeu a ser sozinho e ter seus esconderijos. Mas aqui o tom é ainda maior.
A formação atual conta com Stuart Murdoch (líder, vocal, guitarra e teclados), Stevie Jackson (vocal e guitarra), Chris Geddes (teclados), Sarah Martin (violiono e vocal), Mick Cooke (trompete e baixo), Bobby Kildea (guitarra e baixo) e Richard Colburn (bateria). Boa parte do núcleo ainda vêm da formação em 1996 e mesmo com os inúmeros projetos que tocam em paralelo conseguem se manter juntos. Em “Write About Love”, mostram que essa convivência faz muito bem musicalmente.
O novo disco tem os seus músicos completamente conscientes do que podem fazer e proporcionar. O ouvinte é fisgado logo na primeira faixa, a quase cruel “I Didn't See It Coming” que no meio da doçura sonora saca frases como: “não temos o dinheiro (o dinheiro faz as rodas do mundo girar)”, atirando no pé do amor pueril. Em “Come On Sister”, mesmo acreditando que “todo mundo ama” os versos perdem a fé em alguém que se tornou maior do que poderia suportar.
Esse tom de decepção e cansaço permeia quase que a totalidade do trabalho. Bons exemplos são faixas como “I Want The World To Stop” e “I'm Not Living In The Real World” que estravasam uma vontade de ir embora, de mandar tudo para o alto. A fé é desafiada em “The Ghost Of Rockschool”, enquanto que na música (com participação de Carey Mulligan) que dá nome ao disco, esse cansaço já citado explode de vez: “eu odeio o meu trabalho, estou trabalhando de forma demasiada”.
“Little Lou, Ugly Jack, Prophet John” traz Norah Jones participando na faixa mais triste do álbum. Canção que fala sobre a perda da amizade e é perfeitamente estendida para a perda do amor. “Desperdício” como cita a letra. Nesse “Write About Love” a banda se mostra mais melancólica que nunca. Por mais que às vezes as canções tenham ritmo alegre, as letras jogam tudo para baixo. O Belle and Sebastian continua dosando magistralmente pop e tristeza na alquimia própria do seu caldeirão.
Site oficial: http://www.belleandsebastian.com quarta-feira, 27 de outubro de 2010
"Fabricando Tom Zé" - 2007
“Máquina de novas idéias”. É assim que Rodrigo Pederneiras, diretor do Grupo de dança Corpo define Tom Zé no documentário “Fabricando Tom Zé” de 2007. O filme dirigido por Décio Matos Jr. ganhou diversos prêmios mundo afora e explora com bastante sinceridade e simplicidade a iconoclasta figura desse baiano de Irará, nascido em 11 de outubro de 1936 que de fundador da Tropicália, caiu no ostracismo e ressurgiu pelas mãos de David Byrne.
Com a câmera focando de perto todos os jeitos e trejeitos de Tom Zé, o documentário embarca em uma turnê pela Europa em 2005 em países como Itália, França e Suíça. Nela passa por momentos gratificantes e reconhecimento em shows e entrevistas, como também mostra o artista em momentos poucos inspirados como em uma apresentação na França. Humano e assumindo isso, diferente de alguns parceiros seus da Tropicália, Tom Zé cativa a todo instante.
Com idéias das mais diversas arremessadas na tela, vai opinando sobre assuntos diversos que o envolvem, assim como a sua música, utilizando de um humor bastante peculiar e sagaz envolvido por boas coberturas de acidez e ironia. Perfeccionista até a alma é obstinado na busca da sua sonoridade aparecer como ela a imagina e quando isso não ocorre explode toda sua verborragia para os culpados, como demonstrado na passagem de som em Montreux.
Corroborando o ditado que atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher, atrás do artista está sua esposa Neusa, que é definida pelo próprio como a “sombra que fica na frente de tudo”. Ela que conduz o barco e dá um pouco de organização as milhares de idéias e vontades que jorram na cabeça do esposo ao mesmo tempo. Impressionante como os pensamentos são delineados sempre em busca do novo, de novas músicas ou novos arranjos para elas.
“Fabricando Tom Zé” traz também uma espécie de pedido de desculpas dos dois ícones maiores do Tropicalismo (Caetano Veloso e Gilberto Gil) pela ausência do músico em tantos e tantos anos do holofote do movimento. Em certa passagem, Tom Zé se define como um “patinho feio” ou uma espécie de “Galeano” (volante esforçado que fez história no Palmeiras). Para quem já escutou discos como “Estudando o Samba” de 1976, sabe que ele é bem mais que isso.
Site do filme: http://www.fabricandotomze.com.br
Site oficial: http://www.tomze.com.br segunda-feira, 25 de outubro de 2010
"Kick" - The Splinters - 2010
Diversão. Em certas horas isso é o que nos resta, já dizia o clássico oitentista dos Titãs. Tem certos momentos que dá aquela vontade danada de mandar tudo para bem longe. Normal, afinal a semana não foi boa, o trabalho anda uma merda, os amores não andam amáveis, enfim tudo está parado ou andando para trás. O espírito não suporta coisas muito elaboradas ou teses bem descritas. Precisa de algo seco, meio besta, jovial, simples e...divertido.
“Kick”, disco de estréia das norte americanas do The Splinters traz isso a tona. Não tem a mínima intenção de mudar seu dia ou seus humores atuais, mas traz guitarras altas, meio sujas, encharcadas de influência dos anos 60 e 70 em canções condensadas em dois minutos. As letras então é melhor nem dar atenção. São apenas fraseados de desejos e cotidiano que na maioria das vezes não fazem muito sentido. Mas tem gritos no meio e isso ajuda muito.
“The Splinters” é formado por Ashley Thomas (baixo e guitarra), Caroline Partamian (guitarra e baixo), Courtney Gray (bateria) e Lauren Stern (vocais e pandeiro). Quatro mulheres que se conheceram na Universidade de Berkeley e decidiram montar uma banda. Nada mais cool, não é mesmo? Para melhorar ainda a história, elas carregam aqueles sobrenomes característicos de bandas de soul e blues, como “Flapjacks”, “Spex”, “Juju” e “Ketchup”.
São 12 músicas em parcos 26 minutos. Passa tão rápido que quando você menos percebe já está tocando de novo. E de novo. E de novo. Amanhã talvez nem se lembre que exista uma banda chamada The Splinters no mundo, é bem provável até que isso aconteça, no entanto a mistura de riot grrrls, rock de garagem e punk funciona muito bem em tiros rápidos. Na sacola você pode colocar influências de The Runaways, The Shangri-Las e The Breeders.
Certa vez o escritor inglês Gilbert Keith Chesterton disse que “a verdadeira finalidade de toda a vida humana é a diversão”. Pensamento interessante que ao ser diluído nas guitarras de “Mysterious”, “Dark Shades”, “Electricity” e “Splintered Bridges” ganha um pouco mais de força. Quando acaba é evidente que você ainda quer mandar tudo às favas, mas esse sentimento foi atenuado pelas besteiras de uma banda de rock. Melhor deixar o mundo para amanhã.
My Space: http://www.myspace.com/thesplintersband sábado, 23 de outubro de 2010
"Ganeshas" - Ganeshas - 2010
Houve um tempo em que o rock nacional buscava constantemente inspiração na mpb ou em regionalismos para inspirar seus discos. Hoje isso ficou mais diluído, por mais que ainda exista em boa quantidade. Um bom exemplo disso é “Ganeshas”, estréia do grupo carioca de mesmo nome lançado agora em 2010. Fugindo do resultado chato, insosso e prepotente que a união sugere algumas vezes, a banda exibe um resultado com brilho próprio.
O Ganeshas é formado por Brenno Quadros (vocal), Bruno Keleta (guitarra), Felipe Fernandes (guitarra), Marcelo Castilho (baixo) e Felipe Genes (bateria). Na ativa desde 2005, o grupo foi moldando sua sonoridade com paciência no decorrer dos anos, testando esta sempre que possível ao vivo. As influências podem ser as mais díspares como o funk setentista e a música nordestina ou passeios casuais pelos Novos Baianos e por Chico Buarque.
A pluralidade dessa estréia é um de seus maiores atrativos, não sendo um samba do criolo doido que atira para todos os lados sem acertar em lugar algum. “Vai Sem Medo”, a primeira canção, abre com um violão em primeiro plano e depois se vê invadida por guitarras que aparecem e somem freqüentemente. “Botando na Caçamba” envolve boogie-woogie com Kleiton e Kledir e “A Indesejada” é Alceu Valença com doses de psicodelia.
Em “A Máquina”, outro bom exemplo, temos uma entrada digna de um (bom) faroeste antigo abrindo para um pop rock elaborado que trata sobre a humanidade (ou a perda dela) no mundo moderno, regada com esperança juvenil. “Mi Menor” é um blues com ares meio viajantes que lembra algumas coisas que o Cazuza fez na carreira. “Trem” já é um rock mais para o caminho “alternativo”, por assim dizer. Aliás, cabe ressaltar, um ótimo rock.
Conciliar rock e mpb nunca foi tarefa fácil. Por mais que existam trabalhos brilhantes nessa praia, uma quantidade igual ou maior trilharam o caminho oposto. O Ganeshas apesar de apresentar alguns pequenos problemas normais da estréia, fez um registro conciso e bem elaborado, o que é sempre mais importante. Típico disco que sugere um caminho interessante pela frente, orientado pelo Deus hindu que dá nome ao grupo. Por que não?
My space da banda onde o disco está gratuitamente disponível para download: http://www.myspace.com/ganeshas quinta-feira, 21 de outubro de 2010
"O Sol do Meio Dia" - 2009
Artur (Luiz Carlos Vasconcelos) sai da cadeia com o olhar perdido, longe de tudo e de todos. Seu crime ainda não foi demonstrado na tela, mas aos poucos descobre que se trata de algo brutal, tanto pela reação das pessoas da cidade para onde retorna, quanto pelos próprios fantasmas pessoais que o circundam. Artur não se faz de coitado, mas dá para perceber que sua vida já era, ele perdeu o combate por causa de erros próprios e precisa seguir mesmo assim.
“O Sol do Meio Dia”, filme da diretora Eliane Caffé (de “Kenoma” e “Narradores de Javé”) demorou um bom tempo para ser concluído, mudou de nome e só ano passado estreou em circuito aberto, sendo que só chegou a cidade onde maior parte da trama se desenvolve agora em outubro. Começando de uma pequena cidade do interior e viajando pelos rios da região até Belém, o filme carrega consigo a dor e a fina esperança do seu trio de personagens.
Quando resolve partir para Belém, Artur pede carona a Matuim (Chico Diaz) no seu barco. Matuim por sua vez está completamente enrolado com criminosos da região e busca a solução em um transporte de contrabando, que não sai como o esperado. Ao chegar em terra, Ciara (Cláudia Assunção) entra e sai da vida dos dois até que seus caminhos se cruzem novamente. O trio amoroso formado, foge do lugar comum e demonstra atuações acima da média.
Artur, Matuim e Ciara carregam em si apenas uma pequena linha de esperança em mudar suas vidas. Os três, cada um a sua maneira, trazem consigo dores que o tempo não pode mais curar. Eles estão só cumprindo tabela, esperando a hora em que tudo vai acabar. O roteiro não destrincha suas emoções, prefere demonstrá-las e assim sendo não nutre explicações, motivos ou causas. Em “O Sol do Meio Dia” a vida apenas existe, por mais combalida que esteja.
Não é um filme fácil em momento algum. O público não chora ou ri facilmente. Mesmo Matuim que explora o lado cômico do longa, está mais para trágico por mais engraçado que seja. Na verdade a maior sensação que temos é de desconforto. Não há cenas espetaculares em “O Sol do Meio Dia”, muito menos obviedades cinematográficas. Há apenas três pessoas sem muito sentido em seguir em frente se agarrando a migalhas de desejo para continuar. terça-feira, 19 de outubro de 2010
"A Arte de Ser Desagradável" - Jim Knipfel
“Sempre que ouço a palavra “espiritual”, cato o meu revólver.” É com essa frase seca que o livro “A Arte de Ser Desagradável” começa. Escrito pelo norte americano Jim Knipfel em 2004 e somente agora lançado aqui pela Bertrand Brasil (253 páginas), trata-se de uma espécie de autobiografia de um cidadão que de completo delinqüente juvenil e homem antissocial, vai se transformando devagar e aos poucos em alguém mais tranqüilo e menos anárquico.
Quando escreveu “A Arte de Ser Desagradável” (“Ruining It For Everbody” no original) Jim Knipfel já tinha dois livros anteriores basicamente sobre o mesmo tema: “Slackjaw” e “Quitting The Nairobi Trio” (ambos sem edição nacional). No primeiro tratava sobre a sua decadência física, com os problemas corporais que foi adquirindo com o passar da idade e no segundo direcionava seu humor próprio para as conseqüências da queda de produção mental.
O que a princípio poderia parecer desinteressante e um exemplo de jornada para se tornar um ser humano melhor é arrebentada logo na primeira das diversas crônicas que compõem o livro. Na infância, Jim Knipfel era o tipo de moleque que apanhava de todo mundo e ficava sozinho pelos cantos. Na adolescência essa raiva contida se transformou em vandalismo social e práticas nada aprazíveis para com as outras pessoas. O cara virou um desgraçado.
Ao lado de um parceiro que era muito mais desgraçado que ele, fez ações que por pouco não o levaram para a cadeia, mas serviram para amplificar toda sua aversão as pessoas. Com o passar do tempo e os problemas de saúde, esse sentimento vai diminuindo, mas mesmo menor ainda exibe uma gama impecável de acidez e humor negro. Vítima de uma doença que o deixa cego lentamente e mais um problema no cérebro, o autor não deixa de detonar tudo.
“A Arte de Ser Desagradável” foi escrito quando seu criador já tinha um emprego no jornal New York Press, uma namorada fixa e os rendimentos do primeiro livro começavam a aparecer. Nele é explorado o “Budismo Para Cachaceiros”, filosofia inventada pelo próprio para iluminar a alma (ou algo assim). Apesar do tom exagerado de niilismo às vezes, em sua grande maioria o livro diverte bastante quem gosta de politicamente incorreto. Bem recomendável. domingo, 17 de outubro de 2010
"As Armas Secretas" - Julio Cortázar
Julio Cortázar nasceu na Bélgica em 1914 por um acaso do destino. Seu pai era diplomata e por conta disso chegou ao mundo longe do seu país, a Argentina. Considerado um dos maiores contistas que a América Latina produziu, se mudou para Paris em 1951 por causa da ditadura é lá viveu até falecer em 1984. Uma das suas obras mais elogiadas é “As Armas Secretas”, coletânea de 5 contos que a Civilização Brasileira reedita esse ano aqui com 191 páginas.
O livro é provavelmente junto com “O Jogo da Amarelinha” de 1963 o trabalho mais reconhecido do autor. “As Armas Secretas” foi lançado em 1959, acabando com três anos sem produção publicada de Julio Cortázar. O conto “As Babas do Diabo” inspirou o grande cineasta italiano Michelangelo Antonioni na composição do filme “Blow-Up” de 1966 e desde então se tornou referência para os outros escritores. Mas não se resume somente a isso.
Ao entrar no universo do livro nos dias do hoje, o leitor se vê obrigado a participar dos jogos praticados pelo autor e que se tornou sua marca registrada. Em histórias que parecem simples e rotineiras, percebe-se que o rumo da trama não era bem aquele que se imaginava. Usando e abusando de parênteses na hora de escrever, as informações da narração são contrapostas quase que instantaneamente e não obstante levam os personagens a devaneios tortos.
Por mais famoso que “As Babas do Diabo” tenha se tornado, o melhor conto é na verdade “O Perseguidor”. Grande fã de jazz, Julio Cortázar se inspirou na figura emblemática do saxofonista Charlie Parker (um dos fundadores do bebop) para moldar Johnny Carter, o músico talentoso que vê sua vida ruir pelos olhos de um jornalista. O jornalista em questão, por mais que seja apaixonado pela obra do artista, nutre sentimentos díspares em relação a ele.
Nesse conto, assim como os demais (“Cartas de Mamãe”, por exemplo), Julio Cortázar traz a ambigüidade andando de mãos dadas pelo parque com a loucura, ainda que essa em estado inicial e quase inofensiva. Ler “As Armas Secretas” é uma tour por uma espécie de outro mundo que parece que ficou para trás há muito mais tempo. Um mundo onde o ser humano caminhava com outras responsabilidades e idéias, mas sempre com algo a inquietar a alma.
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