terça-feira, 26 de março de 2013

2o. CulturalMente Santista - 26.03 a 06.04.2013 - Santos/SP


Salve, salve minha gente amiga...

O André Azenha do CineZen (http://cinezencultural.com.br) promove o 2º CulturalMente Santista, onde reúne mais de 50 nomes da área cultural da região em bate-papos e apresentações artísticas de 26/03 a 06/04.

Projeto realizado na época do aniversário do site, a programação terá nomes como Rubens Ewald Filho e José Roberto Torero. O projeto CulturalMente Santista visa disseminar a discussão entre artistas, produtores culturais e jornalistas do ramo, de Santos e região, junto ao público, para gerar um panorama da situação dos diferentes meios artísticos, os problemas enfrentados, os fatores positivos e o que pode ser melhorado. Bem como gerar novas parcerias, ideias e projetos. 

Além dos encontros, este ano a programação terá uma exposição de quadros, pelo artista plástico Waldemar Lopes, espetáculos teatrais, shows musicais e, novamente, um lançamento da revista literária Mirante, a publicação independente do gênero mais antiga do país.

Quem estiver pela região é uma ótima pedida.

A programação toda você encontra aqui:


Paz Sempre!

segunda-feira, 11 de março de 2013

"Adam Green & Binki Shapiro" - Adam Green & Binki Shapiro - 2013


O amor não anda correspondendo? A vida amorosa está repleta de frustrações e decepções? O romance acabou e os motivos não passam nem perto de serem claros? Bom, fique calmo e tranquilo que seus problemas acabaram. Pelo menos, em parte. Adam Green e Binki Shapiro não trarão o seu amor de volta ou ajustarão seus passos na trilha tortuosa da paixão, mas pelo menos proporcionam uma boa trilha sonora para curtir aquela fossa, pensando em tudo aquilo que você não quer pensar.

“Adam Green & Binki Shapiro” é um álbum que reúne o músico que ficou conhecido com “Anyone Else But You”, a canção que apareceu muito bem no filme “Juno” (quando ainda fazia parte do Moldy Peaches), com a vocalista do Little Joy, banda-projeto com Fabrizio Moretti (The Strokes) e Rodrigo Amarante (Los Hermanos) que lançou disco em 2008 e causou certo furor durante um período. Com 10 canções em menos de 30 minutos, o disco teve lançamento no final de janeiro pela Rounder Records.

A sonoridade é claramente inspirada nos anos 60, mas também apresenta uma boa porção do indie pop recente da última década. Algumas canções lembram os duetos de Alun Woodward e Emma Pollock da banda escocesa Delgados e, guardada todas as devidas proporções, as participações da Nico nos discos do Velvet Underground. O casamento entre um vocal mais forte e outro mais delicado e terno oferece ao ouvinte bons resultados, apesar de um pouco de repetição no tom das letras.

Essas letras falam sobre o amor estar escondido no lugar errado (“Here I Am”), de um amor que não era para a pessoa (“Just To Make Me Feel Good”), assim como em traição (“Pity Love”) e desperdício de tempo (“Don't Ask For More”). As melhores faixas são a irritada e desiludida “Casanova” e “If You Want Me To”, onde Binki Shapiro faz um desafio ao amado. Com tom calmo e tranquilo, a única passagem mais agitada é “What's the Reward” que fala sobre finalmente atingir o fundo do poço.

“Adam Green & Binki Shapiro”, o disco, é agradável, porém deve ser dosado na sua audição, pois acaba cansando quando se repete no player. Para a carreira dos dois envolvidos, sem dúvida representa um avanço e acaba se constituindo em um projeto que merece um novo registro posteriormente. Enquanto não sabemos se isso vem, e caso alguma das situações descritas no primeiro parágrafo estiverem acontecendo, é só ligar o som e deixar a melancolia assumir o lugar que lhe é de direito vez ou outra.

Nota: 7,0


Assista ao clipe de “Just To Make Me Feel Good”:

domingo, 10 de março de 2013

"As Sessões" - 2013


A poliomielite, ou paralisia infantil, é uma doença contagiosa causada por um vírus que infecta principalmente as crianças, mas também pode chegar a adultos. Transmitido por via fecal-oral, a multiplicação do vírus começa na garganta e nos intestinos e dali alcança a corrente sanguínea e até mesmo o cérebro. Com a invenção de uma vacina e a maior utilização a partir dos anos 70/80, a doença hoje praticamente não existe mais em países desenvolvidos, mas infelizmente continua fazendo vítimas em países pobres dos continentes africanos e asiáticos.

O norte-americano Mark O’Brien foi um dos que sofreram com a doença, contraída por ele aos 6 anos de idade durante o ano de 1955 e que o deixou paralisado do pescoço para baixo. A sua vida já virou filme em 1996 quando o documentário “Breathing Lessons: The Life and Work of Mark O’Brien” de Jessica Yu ganhou o Oscar da categoria em curta-metragem. Mesmo assim, o diretor Ben Lewin resolveu novamente levar a vida do jornalista e poeta falecido em julho de 1999 para as telonas, agora em formato de um longa com 98 minutos de duração.

O diretor de “O Favor, O Relógio e o Peixe Muito Grande” de 1991, também sofreu com a poliomielite, mas teve danos bem menores. O filme “As Sessões” que estreou esse ano no Brasil foca no final dos anos 80, quando por conta de algumas circunstâncias, Mark O’Brien começou a utilizar uma terapia envolvendo o descobrimento e desempenho sexual, que resultou em um artigo chamado “Se Consultando Com Uma Substituta”. Esse artigo foi a base para o roteiro também escrito por Ben Lewin, o que colabora e muito para o resultado final.

No ponto em que o filme começa a se desenvolver, seu personagem está com 38 anos e, por razões claras, ainda é virgem e nunca nem foi masturbado. Vive praticamente dentro de um respirador, um pulmão de ferro, uma máquina que o ajuda a sobreviver e onde trabalha e dorme, sendo que só pode ficar fora por volta de três a quatro horas. Católico devotado, mas dotado de um senso de humor agudo e afiado, Mark O’Brien parte para essa jornada com o medo dominando a mente e a desconfiança das suas capacidades pesando sobre os ombros.

John Hawkes (o Teardrop de “Inverno da Alma”) é quem interpreta o papel principal e faz isso com uma desenvoltura impressionante. No papel do padre que serve de amigo e confessionário está William H. Macy (“Fargo”), com sua habitual qualidade. Como a terapeuta sexual temos Helen Hunt (“Melhor É Impossível”) em uma atuação tão a vontade e tão categórica que lhe valeu uma indicação para o Oscar desse ano como melhor atriz coadjuvante. Indicação, que também cairia muito bem nas mãos de John Hawkes, diga-se de passagem.

“As Sessões” têm como grande mérito as atuações do trio de personagens principais, contudo agrada também pelo tom com que a direção conduz os bons diálogos e pela ausência de dramas baratos e apelativos que poderiam ser tão facilmente utilizados nesse caso. O heroísmo de levar uma vida nas condições a que está sujeito e ainda ser produtivo, não é o foco principal do filme, mas sim a busca em conseguir um pouco de prazer onde antes só existia humilhação e vergonha e assim fazer parte de um universo comum a tantos.

Nota: 8,0

Textos relacionados no blog:

Assista a um trailer legendado:

sexta-feira, 8 de março de 2013

"Listen To Keep" - Roddy Woomble - 2013


O escocês Roddy Woomble parece ter uma missão na vida. Essa missão é compor canções admiráveis.  Foi assim nos discos do Idlewild, banda escocesa que comanda junto com o amigo Rod Jones, mas que desde “Post Electric Blues” de 2009 está dando o famoso tempo, sem anunciar seu término. Esse tempo levou o músico a partir de vez para a carreira individual, onde parece que essa missão ganhou contornos mais acentuados, e “Listen To Keep” é mais recente prova disso.

Com lançamento pela Revelar Records, o álbum é o terceiro dessa empreitada particular e sucede o primoroso “The Impossible Song & Other Songs”, um dos melhores trabalhos de 2011. “Listen To Keep” tem onze faixas e mostra uma sonoridade mais ampla, com mais instrumentos e espaços preenchidos, mas ainda tendo como base o folk. Com a produção do prolífico Gordon Maclean (que também dá uma boa ajuda nas guitarras), o resultado é novamente arrebatador.

Com uma banda base formada por Sorren Maclean (que tocou no disco anterior e é filho do produtor) na guitarra, baixo, piano e vocal, Gavin Fox (ex-parceiro de Idlewild) no baixo, Seonaid Aitken no violino e piano e Danny Grant na bateria, Roddy Woomble se permite arriscar um pouco mais no lirismo e chama outros convidados para tocar instrumentos que ajudam nessa concepção.

O resultado é um violino aqui (na faixa título), um cello ali (em “The Universe Is On My Side”) ou um acordeão acolá (em “Treacle & Tabacco”). A leve incursão com ritmos tradicionais escoceses, marca dos dois primeiros trabalhos, também reaparece em “The Last One Of My Kind” e “Trouble Your Door”, permitindo também um pequeno flerte com o country nessa última, umas das grandes faixas do registro que conta com Hannah Fisher compartilhando os vocais no refrão.

E a sonoridade mais encorpada mencionada antes também pode ser retratada em faixas como “Traveling Light”, onde o pop assume a batuta ou em “I Know Where I Went Wrong”, onde se permite quase um rock rápido se no lugar dos violões, fossem guitarras. No entanto, o melhor momento de “Listen To Keep” fica com a perfeição de “Build It To Break”, que tem a ajuda do piano e dos vocais de Natalie Farmer, assim como a guitarra e os vocais de Sebastian Brice em uma canção prodigiosa.

Com a parada do Idlewild, Roddy Woomble começa a chegar próximo de um destino que nunca é fácil para aqueles que se arriscam sozinhos depois de bons discos com uma banda. Esse destino, parada dos sonhos de qualquer músico nessa situação, é ultrapassar a carreira prévia em qualidade e inspiração. Pelo que mostrou até agora, isso não é nada impossível, e para chegar até lá, ele vai levando sua missão disco a disco de um modo brilhante e carregado de beleza e de emoção.

Nota: 8,5


Textos relacionados no blog:
- Música: “The Impossible Song & OtherSongs” (2011) – Roddy Woomble

Assista “Trouble Your Door” em versão acústica:

quinta-feira, 7 de março de 2013

Séries - "Vegas"


A cidade de Las Vegas no estado de Nevada nos Estados Unidos teve a grande guinada da sua trajetória entre as décadas de 50, 60 e 70. Uma boa parte dessa trajetória de construção de cassinos, hotéis e restaurantes luxuosos teve envolvimento direto e em grande escala da máfia. Esse é o gancho que Nicholas D. Pileggi (escritor dos livros que deram origem aos filmes “Cassino” e “Os Bons Companheiros”) e Greg Walker utilizam para criar a série “Vegas” que estreia agora no dia 12 de março no Brasil.

“Vegas” começou a ser exibida lá fora no ano passado (onde a primeira temporada se aproxima do final) e só desembarca por aqui agora, com transmissão toda terça-feira no canal Space às 21:00hs. A série utiliza do cenário descrito acima para contar a história do xerife Ralph Lamb (interpretado por Dennis Quaid de “A Fera do Rock”), um fazendeiro e veterano da segunda guerra mundial que devido a uma série de circunstâncias acaba indo parar no comando das forças policiais da cidade.

Ralph Lamb realmente existiu e a série se aproveita de termos gerais da sua vida para que com a devida liberdade explore os casos apresentados. Ao seu lado na delegacia estão o irmão Jack Lamb (Jason O’Mara de “Terra Nova”) e o filho Dixon Lamb (Taylor Handley de “Dawson’s Crrek”), além da assistente do promotor Katherine O’Connell (Carrie-Anne Moss, a eterna Trinity de “Matrix”). Do lado da máfia que controla um dos maiores cassinos da cidade, o destaque fica com Vincent Savino (Michael Chiklis de “The Shield”).

Basicamente a trama se desenrola em três frentes. Primeiro a resolução de casos de assassinatos e outros crimes diretamente vinculados a obsessão pelo dinheiro e a formatação desse novo lugar, ainda uma terra quase sem lei. Depois temos a guerra nada velada entre Ralph Lamb e a máfia da qual Vincent Savino é o chefe de operações e, por último, a série invade (como diz o manual) a vida dos personagens para expor dramas, romances e fraquezas que servem para atrair uma determinada parcela de público.

“Vegas” é como uma fraca mistura da ótima “Magic City” (ainda inédita por aqui) com “C.S.I”, pois trata tanto da instalação dos cassinos e a relação com a máfia, quanto da resolução de casos baseados em descobertas “científicas” dos agentes. Se focasse mais na primeira parte, talvez rendesse mais. As atuações canhestras de Dennis Quaid e sua trupe nada ajudam e o único que se salva é o competente Michael Chiklis. Mesmo divertindo em alguns momentos, “Vegas” consegue ser com muita boa vontade, apenas mediana.

Nota: 5,5

Site oficial da série no canal Space:  http://vegas.canalspace.com.br

Textos relacionados no blog:
- Séries: “Terra Nova”.

Assista a um vídeo legendado:

segunda-feira, 4 de março de 2013

"Casanova: Luxúria" - Matt Fraction e Gabriel Bá


Uma história em quadrinhos repleta de viagens dimensionais e de passagens por universos paralelos com quebras de linhas temporais e onde o espaço-tempo não passa de uma meretriz. Assim é “Casanova: Luxúria”, lançamento da Panini Comics do final do ano passado. A elogiada obra que começou a ser publicada na gringa em 2006 pela Image Comics, finalmente ganha uma caprichada edição nacional, baseada na republicação que a Marvel/Icon fez em 2011.

Com roteiro de Matt Fraction (que fez um premiado trabalho na série normal do Homem de Ferro) e desenhos de Gabriel Bá (nesse volume, o irmão Fábio Moon não dá as caras, mas está em posteriores) do ótimo “Daytripper”, a trama viaja literalmente para fora de conceitos fixos e estruturas mais engessadas. As cores da brasileira Cris Peter (“Astronauta Magnetar”) são fundamentais para que o desejado clima psicodélico e quase transcendental assuma a direção.

Com capa dura, material bônus e 164 páginas, o álbum foca no agente secreto Casanova Quinn que precisa lidar com vilões de egos majestosos, além da conflituosa (para dizer o mínimo) relação com o pai que lidera a maior força de prevenção de perigos da humanidade, a I.M.P.E.R.I.O. Tirando barato com um bocado de coisas, os quadrinhos em geral são um dos maiores focos e as siglas aparecem constantemente, como M.O.I.T.A e T.A.M.I, entre outras.

Em determinado momento, Casanova afirma para um vilão: “você fala que nem Gibi”, e eis que o vilão responde: “vivo como se estivesse em um”. Usando referências que vão do Buzz Lightyear de “Toy Story” e desembarcam em David Bowie, os Beatles também aparecem e servem de assunto em um jantar, onde quem conversar sobre outra coisa ou emitir um parecer desfavorável sobre a banda corre o sério risco de morrer (o que verdadeiramente acontece).

Enquanto a trama vai se montando, forçando o leitor a encontrar uma lógica e ligação no meio de tudo, existem quadros separados onde os personagens explicam determinados pontos de vista ou fazem comentários irônicos. Até Deus aparece e dá uns pitacos de vez em quando. No meio da jornada temos sexo (aparece uma cidade onde o carnaval é permanente o ano todo), tecnologia artificial, confusão, brigas e cenas que brincam com o limite daquilo que é impossível.

“Casanova: Luxúria” tem fãs de peso como o músico Jon Spencer e nomes importantes dos quadrinhos como Ed Brubaker, Brian Michael Bendis e Warren Ellis. No total são sete volumes planejados, cada um contendo o nome de um pecado capital. Desses sete, outros dois já foram publicados lá fora, com os subtítulos de “Gula” e “Avareza”. Mesmo com uma clara vantagem da estética sobre a história em si, o encadernado é de leitura recomendável e agrada dentro da sua planejada loucura.

Nota: 7,5

Site oficial de Matt Fraction: http://mattfraction.com
Blog de Gabriel Bá e Fábio Moon: http://10paezinhos.blog.uol.com.br

Textos relacionados no blog:
- Quadrinhos: “Pixu” – Gabriel Bá, Fábio Moon, Vasilis Lolos e Becky Cloonan
- Quadrinhos: “The UmbrellaAcademy” – Gerard Way e Gabriel Bá
- Quadrinhos: “Daytripper” – Fábio Moon e Gabriel Bá



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

"Fade" - Yo La Tengo - 2013


“Às vezes os bandidos saem por cima, às vezes os bons perdem. Nós tentamos não perder nossos corações, para não perder nossas mentes”. Com esse tom de desânimo e um pouco de descrença é que se inicia o novo álbum dos norte-americanos do Yo La Tengo. Lançado em janeiro desse ano, o 13º disco da carreira foi gravado no Soma Studios em Chicago e traz pela primeira vez John McEntire (de Tortoise e Teenage Fanclub) na produção.

Sob a batuta dos velhos amigos do selo Matador Records, o casal Ira Kaplan e Georgia Hubley, junto com James McNew, continuam na ativa sem se entregar e sem ceder ao óbvio e ao fácil. “Fade” é o sucessor de “Popular Songs” de 2009, uma espécie de brincadeira séria onde a banda flertava com vários estilos e que apesar de mostrar bons momentos como “Nothing To Hide” e “More Stars Than There Are In Heaven” era bem inconsistente.

Essa inconsistência não aflige “Fade”. Com 10 faixas é um daqueles raros álbuns que hoje em dia podem ser escutados completamente e depois repetidos. Depois dos quase sete minutos de abertura da quase extraordinária “Ohm”, o disco flui para a doce e amorosa “Is That Enough” onde Ira Kaplan despeja a melodia conversando suavemente com o ouvinte, para depois com direito a orquestrações levar a canção rumo aos anos 60.

As frequentes guitarras sujas da banda aparecem discretamente no registro. Não que elas tenham sumido, pelo contrário, apenas estão em volume reduzido, exceção feita as distorções de “Paddle Forward” que fazem lembrar o trabalho de estreia de 1986 chamado “Ride The Tiger”. Já na dobradinha “Cornelia and Jane” e “Two Trains”, a lembrança recai para outro álbum, dessa vez o calmo “And Then Nothing Turned Itself Inside-Out” de 2000.

Com quase 30 de anos de carreira (a primeira formação é de 1984), o Yo La Tengo não consegue fugir da comparação com registros anteriores, sendo que “Fade” é uma espécie de resumo de todas as fases da banda. Mal comparando, é para eles o que foi o “New Adventures in Hi-Fi” para o R.E.M, uma junção de características antigas forjadas em um caldeirão novo e com canções com poder para entrar no seleto rol de melhores da discografia.

“Fade” ainda exibe, entre outras canções, os leves toques de Sonic Youth na melodia de “Stupid Things” e o medo e fuga de “Before We Run”, que fecha absurdamente bem o registro. Em pleno ano de 2013, o Yo La Tengo apresenta um disco para ficar apenas um degrau abaixo de álbuns como “Electr-O-Pura” de 1995 ou a já citada estreia de 1986 e ao contrário do que o título possa indicar, o trio continua forte e parece longe de enfraquecer.

Nota: 9,0

Site oficial: http://www.yolatengo.com

Assista ao clipe de “I'll Be Around”:

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

"Lincoln" - 2013


A escravidão estava no patamar dos piores crimes possíveis para o 16º Presidente dos Estados Unidos. Para acabar com essa abominação, ele entrou em uma guerra que consumiu quase um milhão de vidas. O buraco era bem mais embaixo e os estados do sul usavam a mão de obra escrava como sustentáculo dos seus ganhos e lucros, assim como fizeram durante tanto tempo. Além da luta armada foi preciso muita conversa, quebra de princípios e jogadas pouco nobres para que a 13ª emenda fosse aprovada e adicionasse na Constituição a proibição da escravatura em todas as suas formas e procedimentos.

“Lincoln” que estreou no Brasil recentemente e está concorrendo a 12 estatuetas no Oscar desse ano é o novo filme do diretor Steven Spielberg. É um testemunho pesado e longo (são duas horas e meia de duração) sobre alguns meses entre o final de 1864 e o começo de 1865, justamente o período de aprovação da referida emenda. Abraham Lincoln havia acabado de se reeleger e os Estados Confederados do Sul começavam a ceder, logo o final da guerra se aproximava. Todavia, isso não era o bastante. Ele queria fechar para sempre as portas que culminavam nesse tipo tão vil de conduta.

Usando muitos e muitos diálogos e com raríssimas cenas de ação ou de aventura, Spielberg provoca um mergulho em um mundo escuro e denso, onde navegam lado a lado outras questões. Questões como a ética, questões como os limites do poder, questões como a crueldade do ser humano para com seus pares. Quem gosta de história e/ou conhece um pouco dessa parte da trajetória dos Estados Unidos, irá se sentir bem mais a vontade, isso é certo, porém, não somente para esse tipo de público “Lincoln” foi idealizado, a questão política tem um fiel endosso de atualidade no seu foco.

Com toda a licença para o uso de clichês, o elenco é estelar. Daniel Day-Lewis está soberbo como Abraham Lincoln, Sally Field une desespero e força para Mary Todd, a esposa do Presidente, David Strathairn aparece como o amigo e braço-direito William Seward, o Secretário de Estado do país, Tommy Lee Jones impressiona como Thaddeus Stevens, um importante político do partido conservador e James Spader coloca no balcão um pouco de riso como o negociante de votos W. N. Bilbo. Isso tudo amarrado com o roteiro categórico de Tony Kusher, responsável pelo estupendo “Angels In America”.

A parte técnica é outra invasão de nomes experientes e habilidosos, conhecedores de suas respectivas searas. Steven Spielberg repete a dobradinha que rendeu estatuetas do Oscar em 1994 e 1999 (com “A Lista de Schindler” e “O Resgate do Soldado Ryan”, respectivamente) e coloca Michael Kahn na montagem e Janusz Kaminiski na fotografia. Preciso nestes dois pilares, a direção se preocupa assim em controlar a vasta gama de personagens com papel de destaque, uma quantidade bem acima dos filmes habituais. E é nos atores que o filme se desenvolve de maneira exemplar.

Contudo, “Lincoln” ainda esbarra em duas situações. A primeira é a impressão que deixa de que os fins justificam os meios. Sim, esses meios sempre foram utilizados e provavelmente sempre serão e os objetivos aqui em questão são mais que nobres, mas pode ter uma extensão de compreensão a ser usada como desculpa para absurdos diversos. Isso já foi visto em inúmeras ocasiões. Uma das falas de Thaddeus Stevens depois da votação resume bem onde o Presidente teve que ir para conseguir seu desejo: “esta é a maior lei do século e foi conseguida à base da corrupção por um dos homens mais puros que eu conheço”.

A outra situação que prejudica um pouco o resultado final é que somente em esparsas passagens o filme realmente apresenta um clímax. Um desses momentos é a defesa que Lincoln (com Daniel Day-Lewis sobrenatural) faz das razões para aprovar a 13ª emenda. Mas, cenas assim são raras e apesar de todo o brilhantismo dos atores e a eficiência da área técnica, as emoções são contidas, comedidas, controladas. Mesmo assim, “Lincoln” é um ótimo trabalho para o diretor depois do fraco “Cavalo de Guerra”, como também para esse importante personagem que vê sua história contada longe de caçadores e de vampiros.

Nota: 8,0

Assista ao trailer legendado:

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

"O Lado Bom Da Vida" - Matthew Quick


Ver a vida mudar radicalmente e não se lembrar dos motivos e ações que fizeram isso acontecer. Complicado, né? Pois é, bota complicado nisso. É nesta situação que Pat Peoples, o personagem principal do livro “O Lado Bom da Vida” se encontra. Depois de um tempo internado em um hospital psiquiátrico, ele retorna ao cotidiano para com 30 e poucos anos morar novamente com os pais e tocar a vida sem a sua esposa Nikki e sem o emprego de professor de história.

“O Lado Bom da Vida” (“The Silver Linings Playbook”, no original) foi escrito pelo norte-americano Matthew Quick. Lançado nos EUA em 2008, tem a primeira edição no país agora em 2013 através da Editora Intrínseca. Com 256 páginas e tradução de Alexandre Raposo, a obra se transformou em um filme de sucesso pelas mãos do diretor David O. Russell (de “O Vencedor”), com Bradley Cooper, Jennifer Lawrence e Robert De Niro, e concorrerá a 8 estatuetas no Oscar desse ano.

É claro que o livro de estreia de Matthew Quick (outros três já foram publicados, mas permanecem inéditos no Brasil) chega na esteira da adaptação cinematográfica, mas nem por isso deixa de ser bem-vindo. De escrita fácil e usando referências da música, literatura, cinema e esportes, “O Lado Bom da Vida” é um trabalho que passa de maneira suave, porém sem ser ausente, por temas espinhosos como perda, raiva, doenças, violência e culpa, sem deixar de divertir o leitor.

Depois de passar alguns anos internado e imaginar que são apenas alguns meses, Pat Peoples sofre para se reajustar ao mundo. Uma das maneiras que encontra para suportar essa nova vida reside na extrema carga de exercícios físicos que se habituou a cumprir, o que resulta em um corpo completamente diferente daquele que ostentava outrora. Além disso, conta com o amor incondicional da mãe e a paixão pelo tradicional time de futebol americano do Philadelphia Eagles.

O Philadelphia Eagles, aliás, é um coadjuvante fundamental para que a trama se desenvolva e produza ótimas passagens. O time do estado da Pensilvânia faz parte da divisão leste, a mais valiosa da NFC (National Football Conference), que é uma das metades da NFL. Com uma torcida apaixonada serve para conduzir Pat de volta a um estado de normalidade, apesar da tristeza que lhe aflige por não lembrar da segunda ida ao Superbowl em 2004 e a construção de um novo estádio em 2003.

É bom ressaltar que o livro se passa nos anos de 2006 e 2007, logo nesse período citado acima o personagem ainda estava no “lugar ruim”, como ele se refere ao hospital. Esse retorno a sociedade, por assim dizer, esbarra na complexa relação com o pai, que é de poucas palavras e de difícil convivência e nas lembranças que vão surgindo pouco a pouco e fazendo o passado doer com muita potência, por mais que o simpático e carinhoso psiquiatra Cliff Patel, tente amenizá-las.

Pat Peoples tem um medo tremendo correndo nas veias, um medo de sair do lugar imaginário que criou e se apega com tanto afinco e dedicação. É quando Tiffany entra na sua vida, uma cunhada do melhor amigo que passou por uma situação tão difícil quanto a dele. De maneira silenciosa e repleta de passagens incomuns, para não dizer estranhas, Matthew Quick realmente forma nesse ponto a dupla de personagens que de modo desajeitado se apoiará mutuamente.

“O Lado Bom Da Vida” usa diversas fontes para criar uma gangorra delirante de emoções. Indo da canção “Songbird” de Kenny G ao livro “Adeus Às Armas” de Ernest Hemingway ou de “Gonna Fly Now” (tema do filme “Rocky”) ao livro “A Redoma de Vidro” de Sylvia Plath, tudo serve para este fim. E Matthew Quick conduz essa peça de amor e dor com desenvoltura e capricho, utilizando a dualidade do seu personagem principal como fonte para um emocionante livro.

Nota: 8,0


Leia uma entrevista com o autor, aqui.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

"Sunken Condos" - Donald Fagen - 2012


Ao buscar por uma definição de sofisticação no dicionário depara-se com termos como complexidade, bom gosto, requinte, excesso de sutileza. Essa definição também poderia apresentar outras correspondências indiretas, como a música de Donald Fagen, nascido em 10 de janeiro de 1948 em Nova Jersey nos Estados Unidos e que desde o começo dos anos 70 esbanja essas qualidades enquanto elabora com calma e esmero as suas canções.

Desde o início da década de 70 sendo uma das partes do Steely Dan (a outra é Walter Becker), Donald Fagen esteve envolvido no processo de criação de primorosas joias como os álbuns “Aja” de 1977 e “Gaucho” de 1980. Em 1982 optou por se aventurar em carreira solo e lançou “The Nightfly”. Posteriormente vieram mais dois discos (“Kamakiriad” de 1998 e “Morph, The Cat” de 2006), que receberam pelo próprio músico a alcunha de “Nightfly Trilogy”.

Ano passado, Donald Fagen rompeu o silêncio de seis anos e a seu modo reapareceu com um novo trabalho. “Sunken Condos” teve lançamento pela Reprise Records e expõe em 9 faixas, a mistura que o músico sabe tão bem fazer com o cuidado e refinamento já conhecidos. A união de rock, jazz, blues, soul, funk, R&B e pop está azeitada como de costume e apesar de não apresentar nada de propriamente novo no horizonte, seduz e atrai totalmente o ouvinte.

O registro abre com “Slinky Thing”, um groove estiloso destacando um belo solo de guitarra. Depois é a vez de “I'm Not The Same Without You”, um pop dançante, com ecos dos anos 80 e bem funkeado. Na sequência aparece “Memorabilia”, uma canção tão perfeita que artistas como Jay Kay do Jamiroquai dariam um dedo para fazer algo parecido. Já “Weather In My Head” é um blues leve, mas bem encardido nas guitarras nos mais de 5 minutos de duração.

“Sunken Condos” ainda tem mais variações sobre a mesma base, como o clima soft com levada jazz ao fundo e metais se alternando de “The New Breed”, além da inusitada (e competente) versão de “Out Of The Ghetto” do Isaac Hayes e a balada com guitarra bluesy e leves toques de soul music de “Miss Marlene”. O som mais funkeado e dançante volta a aparecer em “Good Stuff”, a penúltima faixa, e o álbum termina com o soul charmoso de “Planet D'Rhonda”.

Tocando teclados, piano e órgão, e apresentando uma habilidade vocal ainda de alto nível apesar da idade, Donald Fagen conta com a ajuda de velhos conhecidos como o produtor Michael Leonhart, o guitarrista e baixista Jon Herigton, o baterista Earl Cooke Jr. e o saxofonista e flautista Charlie Pillow. Merecem igual reconhecimento, os backing vocais coordenados na maioria das faixas pelo trio Catherine Russell, Cindy Mizelle e Jamie Leonhart.

Uma das críticas que se podem direcionar a “Sunken Condos” vai ao encontro da sua maior qualidade, que é justamente manifestar a mesma antiga sonoridade do seu criador. Porém, em determinados casos (e aqui é um deles) não inovar se torna o maior mérito. Com bem escreveu o crítico Martin Aston da BBC, criticar Donald Fagen por fazer novamente o mesmo registro é como criticar Van Gogh por seus repetidos autorretratos. É mais ou menos por aí.

Nota: 9,0

Site oficial: http://donaldfagen.com

Assista a uma apresentação ao vivo de “Weather In My Head”: