quarta-feira, 17 de outubro de 2012

"Four" - Bloc Party - 2012



Sabe aquelas maravilhosas pílulas contidas em livros baratos de auto-ajuda? Pois é. Os londrinos da banda Bloc Party se utilizaram de uma dessas para elaborar o novo álbum da carreira, aquela que diz que: às vezes é preciso dar dois passos para trás, para que se possa seguir em frente. E foi olhando para os anos de 2004 e 2005 que o quarteto conseguiu adiar seu atestado de óbito e manter-se vivo, mesmo ainda sem estar plenamente recuperado.

Depois de bons EP’s e uma ótima estreia (“Silent Arm” em 2005), veio um segundo álbum que apontava para outros caminhos, mas mantinha uma parte da qualidade (“A Weekend In The City” de 2007). Só que esses novos caminhos não foram percorridos devidamente e resultaram no sofrível “Intimacy” de 2008, onde a eletrônica marcava presença de modo relevante e a inspiração parecia ter saído para fumar um cigarro e não retornou mais.

“Four”, não casualmente, chega depois de quatro anos do último trabalho, assim como atravessa um pavilhão de boatos que indicavam o fim. Kele Okereke (vocal e guitarra), Russell Lissack (guitarra), Gordon Moakes (baixo e vocais) e Matt Tong (bateria) absorveram toda essa boataria do jeito que deu e com a ajuda do produtor Alex Newport resolveram retornar para as coisas simples da sonoridade inicial e assim mostrar energia e boas canções.

Exemplos dessas boas canções são “Octopus”, com um estilo indie rock mais tradicional e boa melodia, como também a pesada “Kettling” com uma guitarra gritando ao fundo e “V.A.L.I.S” com um refrão para cantar junto e balançar o corpo. Na linha mais suave e tranquila, a banda que já fez músicas como “I Still Remember” apresenta “Real Talk”, “The Healing” e principalmente “Truth”, um casamento feliz de vocal, melodia e ritmo.

Mas “Four” não é um disco somente de acertos. Esse retorno às raízes não é completo e cobra seu preço em faixas medonhas como “Coliseum” (emulando o grunge) e “Team A”. As letras – outrora, um dos pontos fortes – trazem pouco brilho que ficam em faixas como “3x3” que versa sobre redenção e a porrada rápida de “We Are Not Good People” que fecha o disco falando de aceitação, religião e crescimento, temas tão comuns a Kele Okereke.

Entre as diversas versões “deluxe” com bônus que foram colocadas no mercado (o que parece ter virado uma moda sem relevância comprovada), “Four” é um disco que nas suas doze faixas procura apagar as ideias ruins do passado ao optar por não investir mais em experimentações, buscando assim recolocar as coisas no eixo em que se encontravam tempos atrás. E o bom disso é que consegue esse objetivo, apesar de não ser excepcional.

P.S: Um dos bônus é “Mean” que lembra muito, mas muito mesmo a melodia de “The Killing Moon” do Echo And The Bunnymen.

Nota: 7,5

Site oficial: http://blocparty.com

Textos relacionados no blog:
-      - Música: “A Weekend In The City”(2007) – Bloc Party

Assista ao clipe de “Kettling”:

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

“Checkerboard Lounge - Live Chicago 1981” - Muddy Waters & The Rolling Stones - 2012


Os ingleses Mick Jagger e Keith Richards nunca esconderam (pelo contrário, até alardeavam quando era possível) a sua paixão pelo blues norte-americano. O próprio nome da banda que criaram e transformaram em uma verdadeira instituição do rock saiu de uma canção do mestre Muddy Waters. O dvd e cd “Checkerboard Lounge - Live Chicago 1981” tratam justamente de acrescentar mais uma página nesse livro de admiração e influência.

Em 22 de novembro de 1981, os Stones estavam em turnê pelos Estados Unidos. Naquele momento promoviam o ótimo “Tattoo You”, aquele que provavelmente foi o último grande disco da banda por completo. Passando por Chicago, Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood e o falecido Ian Stewart resolveram – junto com uma boa trupe de agregados – conferir uma exibição de Muddy Waters no clube pertencente a outro bluesman, Buddy Guy.

O dvd começa com a banda de Muddy mandando uma versão para “Sweet Little Angel”, uma canção do repertório de BB King encabeçada aqui pelo pianista Lovie Lee, enquanto o artista principal ouve tudo quietinho em uma modesta mesa na frente do palco. A banda ainda executa “Flip Flop And Fly” até que o excelente George “Mojo” Burford dá um tempo na sua harmônica e anuncia a subida daquele que chama com respeito de “pai do blues”.

A trupe stoneana chega após Muddy Waters dar um pequeno show com a guitarra em “Country Boy” e em “You Don’t Have To Go” a apresentação ganha ares de total jam session com a subida de um por um dos representantes da banda inglesa. O clube é um lugar pequeno, o típico inferninho, mas isso não impede Mick Jagger (vestindo uma roupa esportiva que beira por pouco o ridículo) de fazer suas caras e bocas enquanto canta e dança.

Com uma boa versão para “Hoochie Coochie Man”, o show vira uma festa só. Buddy Guy também sobe ao palco e junto com ele os já falecidos Junior Wells e Lefty Dizz, os dois completamente entorpecidos e ensandecidos. Em “Next Time You See Me”, o dono do clube e o guitarrista principal dos Stones realizam um duelo prazeroso de se ver e ouvir, enquanto os demais conversam, bebem, tocam e tentam se acomodar na muvuca que se formou.

Muddy Waters morreria aos 70 anos, um ano e pouco depois do show resgatado por esse registro onde os Stones apareciam ainda em grande forma. Isso acrescenta mais valor a esse resgate que documenta uma grande comemoração em torno do blues, da música em si. Ao assistir a bagaça da poltrona da sala, o desejo é roubar alguma máquina do tempo e viajar para esse clube de Chicago, pedir uma dose, encostar-se ao balcão e deixar a música fluir pelas veias.

P.S: O dvd ainda traz como um dos bônus uma boa execução de “Black Limousine” no Hamptom Coliseum em Chicago, no mesmo ano.

Nota: 8,5

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Assista a versão de “Hoochie Coochie Man”:


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

"Scarface" - Christian de Metter / Armitage Trail


O ano era 1983 e o diretor Brian de Palma se inspirava em um livro dos anos 20 para construir “Scarface”, aquele que talvez seja o filme mais visceral dentro da sua carreira. Em 1932, Howard Hawks também já havia utilizado do mesmo material para elaborar “Scarface - A Vergonha de Uma Nação”, mas foi com o filme dos anos 80 que a obra original de Armitage Trail (cujo nome verdadeiro era Maurice Coons) passou a fazer parte do cenário mundial da cultura pop.

O artista francês Christian de Metter, admirador do trabalho original, resolveu também utilizar esse produto e transportar a história para o universo dos quadrinhos. O resultado chega ao mercado nacional através da Globo Livros Graphics em um álbum de luxo (formato 18,5 x 26cm) com 110 páginas e tradução de José Geraldo Couto. De Metter ficou responsável tanto pelo roteiro quanto pelos desenhos e tentou se aproximar mais da versão do livro dos anos 20.

Com o crescimento que os quadrinhos ganharam na última década (não somente financeiro, mas também artístico), cada vez mais temos obras sendo adaptadas para essa esfera. De filmes clássicos, passando por fatos históricos e biografias, os quadrinhos se tornaram uma mídia plenamente vendável ao expandir seu leque inicial de alvos. O próprio Christian de Metter já navegou por esse mar quando converteu o livro (e filme) “Ilha do Medo” do escritor Dennis Lehane.

Considerando isso, cada trabalho nesse sentido deixa um leve ar de desconfiança por ser mais uma obra de marketing e de fácil repasse ao mercado, do que propriamente guiada por pensamentos inversos a esse procedimento. O “Scarface” de Christian de Metter parece circular no meio disso. É óbvio que o apelo da obra é relevante, e só o nome já a credencia para consumo, porém o autor tenta dar um caminho diferente a trama e usa uma competente arte noir para tanto.

No álbum, Tony Guarino é voraz e trabalha para a máfia até que um serviço equivocado o manda para a guerra. Quando retorna, já extremamente treinado e com uma cicatriz no rosto, retoma os trabalhos e vai subindo passo a passo na máfia de Chicago. A estrada de Tony Guarino não é tão violenta e carregada nas drogas e na linguagem como a que Al Pacino consagrou nos anos 80, mas mesmo assim não deixa a desejar, apesar de não surpreender ou causar impacto relevante.

Nota: 6,0



segunda-feira, 8 de outubro de 2012

"The Only Place" - Best Coast - 2012


O Best Coast apareceu para o mundo em 2010 com o álbum “Crazy For You”. Antes disso, o duo formado por Bethany Cosentino (vocal e guitarra) e Bobb Bruno (baixo, guitarra, bateria e o que mais surgir) tinha na bagagem apenas um Ep lançado em 2009 (“Where The Boys Are”).  As canções curtas, leves e com alto sabor pop da estreia causaram comentários positivos e convites para uma quantidade bem maior de shows nos anos seguintes.

Ao escutar as duas faixas iniciais de “The Only Place” - o registro imediatamente posterior a essa estreia - a percepção é que nada mudou, que estamos diante da mesmíssima banda. Ledo engano. Já a partir de “Last Year”, visualiza-se uma utilização maior de recursos e uma guinada para uma sonoridade razoavelmente mais abrangente, porém sem esquecer de privilegiar o lado pop e açucarado das melodias que foi um ponto forte há dois anos.

O novo registro contou com a produção de Jon Brion (de trabalhos com Fiona Apple e Evan Dando) e tem lançamento pelo selo Mexican Summer Records. Nele, o duo da cidade de Los Angeles na Califórnia, USA, dá uma diminuída na urgência que imperava antes. Há momentos mais calmos como as apaixonadas “No One Like You” e “How They Want Me To Be” e coisas bluesy e um pouco mais densas como “Better Girl” ou “Up All Night”.

Essa leve guinada também apresenta alguns resultados não tão bons como na arrastada “Dreaming My Life Away”, mas acaba convencendo na maioria das 11 faixas. Quem gostou do do primeiro álbum será agradado por faixas que ainda comparecem em bom número na mesma toada, como a faixa-título, “Why I Cry” e “Let’s Go Home”, sempre carregadas com a beleza e o sorriso aberto de Bethany Cosentino e a cara de nerd de Bobb Bruno.

P.S: A banda é uma das atrações do Planeta Terra desse ano realizado em São Paulo.

Nota: 7,0

Site oficial: http://www.bestcoast.us

Assista ao clipe da canção que dá nome ao disco:

terça-feira, 2 de outubro de 2012

"Neck Of The Woods" - Silversun Pickups - 2012


Uma entrada climática. Um ritmo que cessa, depois recomeça, só para cair e subir completamente de novo. Assim é “Skin Graph”, a música de abertura de “Neck Of The Woods”, o terceiro álbum do Silversun Pickups lançado este ano. Para quem já conhece o trabalho do grupo dos registros anteriores (“Carnavas” de 2006 e “Swoon” de 2009), nada pode parecer mais familiar. Lá estão basicamente as mesmas texturas guiadas por uma conhecida fórmula.

No entanto, ao escutar atentamente as onze faixas com uma hora e pouco de duração, percebe-se que Brian Aubert (vocal e guitarra), Nikki Monninger (baixo), Joe Lester (teclados e sintetizadores) e Christopher Guanlao (bateria) começam a querer um caminho um pouco diferente. Um caminho mais pop, com menos guitarras e distorções, mas sem abdicar das longas faixas (quase todas de 5 minutos em diante) e do nível de experimentalismo que utilizam.

Essa mudança é notada logo na produção, que ficou com Jacknife Lee (U2, R.E.M). A banda passou dez semanas no estúdio dele em Topanga na Califórnia, USA, e lá cunhou a maioria do registro ajustando algumas canções antigas e elaborando novas composições. É visível que essa lapidada no som é para alcançar públicos maiores, renegando um pouco os trajes da sonoridade, como Aubert afirma em “Skin Graph” dizendo que está de pele nova e pronto para usar.

Esse teor mais pop é confirmado na faixa de trabalho “Bloody Mary (Nerve Endings)”, que apesar de usar um ar meio progressivo no início, depois contrapõe isso com o vocal especificamente frágil e desesperado, que busca o alívio pressuposto pela letra envolto em uma doce melodia. Outra faixa que comunga bem da mesma febre pop é “Dots And Dashes (Enough Already)”, porém essa febre é instável e não cai bem sempre (vide “Gun-Shy Sunshine”, por exemplo).

Outros bons momentos são “Make Believe” que traz a bateria já característica da banda e “Here We Are (Chancer)”, uma quase-balada com eletrônica que versa sobre perda. Essa eletrônica aparece novamente em “The Pit”, flertando de modo descarado e dançante com os anos 80. Anos 80 que também serve de base para “Simmer” - a mais longa do disco -  que surge cheia de perguntas e com variações um pouco mais experimentais, além das habituais camadas de guitarras.

Desde o primeiro EP de 2005 (“Pikul”), o Silversun Pickups se mostrou promissor e confirmou isso logo na estreia com um excelente disco. “Neck Of The Woods” é um trabalho de transição, que opta por ajustar a vestimenta externa, mas não trocar a fórmula-essência das canções que começam calmas e depois explodem, mantendo esse círculo vicioso até o fim. É um registro de razoável para bom, que deixa as apostas positivas dessa mudança para o próximo trabalho. É pagar para ver.

Nota: 6,5


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Assista ao clipe de “Bloody Mary (Nerve Endings)”:

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

"A Dança dos Dragões - As Crônicas de Gelo e Fogo - Livro Cinco" - George R.R. Martin


“O que você tem em mãos é o quinto volume de “As Crônicas de Gelo e Fogo”. O quarto volume foi “O Festim dos Corvos”. Contudo, este volume não dá sequência ao anterior no sentido tradicional, mas corre em paralelo a ele”.

O parágrafo acima é extraído das observações iniciais de George R. R. Martin antes do começo de “A Dança dos Dragões”, o quinto livro da citada série de gelo e fogo, que a Editora Leya publica esse ano por aqui com 872 páginas e tradução de Márcia Blasques. Originalmente a obra foi lançada no ano passado, mas em terras nacionais chega não muito tempo depois do volume anterior e dentro da sequência projetada pela responsável pelos direitos de publicação.

“A Dança Dos Dragões” enverga no seu corpo as expectativas de superação e retomada de caminho, quebradas com o apenas mediano “O Festim dos Corvos”. Para isso conta com a volta de personagens fortes (talvez os mais agudos do momento atual) como Jon Snow, Tyrion Lannister e Daenerys Targaryen. Ao final das mais de 800 páginas dentro dessa obtusa terra, essa superação é obtida quase que plenamente, mesmo ainda ficando um pouco aquém da trilogia inicial.

George R.R. Martin amplia ainda mais os horizontes dessa terra que inventa e escreve desde a segunda metade dos anos 90. Esse horizonte é aumentado não somente com a inserção de novos personagens que participam de modo relevante da trama, como também fisicamente, pois novas fronteiras são desenhadas além de Westeros, as terras do mar de verão e as cidades livres. Essa dilatação proporciona de maneira imediata outras perspectivas para explorar.

Em “A Dança dos Dragões” vemos o jovem Jon Snow lutar contra tudo e todos no comando da Muralha, enquanto a princesa Targaryen começa a transitar em estradas cada vez mais frágeis, tendo que igualar sua sede de poder com desejos sexuais e traições dentro do seu próprio círculo. Do outro lado, o anão Lannister (o personagem mais interessante do primeiro nível) foge da morte certa e começa a descobrir que suas certezas não estavam tão certas como ele suspeitava.

A trama ainda olha para os Greyjoy e também para o Rei Stannis Baratheon, que mesmo sem as forças que deseja, se mantêm firme na oposição ao Rei Tommen Lannister em Porto Real. Esse olhar também se estende para após os eventos que andam de modo uniforme com o “Festim dos Corvos” e acaba juntando os dois últimos volumes, criando novamente expectativa para o volume vindouro dessa série que navega entre sangue e sofrimento pelas mãos do seu autor.

Nota: 7,5

Site do autor: http://georgerrmartin.com

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domingo, 16 de setembro de 2012

Alanis Morissette - Cidade Folia, Bélem (PA) - 14.09.2012


Belém, Pará. Norte do país. 14 de setembro de 2012. Por volta de 22hs entro no “Cidade Folia”, o lugar escolhido para a canadense Alanis Morissette continuar a turnê nacional de lançamento de “Havoc And Bright Lights”, o mais novo rebento da moça (agora mulher) que na segunda metade dos anos 90 vendeu milhões de discos. Um lugar grande que logo na portaria deixou a clara percepção de que não ia chegar próximo da sua capacidade máxima.

Em um cenário que somente nos últimos anos começou a dar alguns passos para entrar na rota dos shows internacionais que tanto desembarcam no país, a produção do evento fez algumas confusões, incluindo uma controversa liberação de ingressos na véspera em um site de compra coletiva. Um lugar menor teria sido a melhor escolha para deixar o público mais perto e aquecer ainda mais a noite da cidade das Mangueiras. Porém, as previsões iniciais foram altas demais.

Quando subiu ao palco próximo às 23:00hs, depois de uma sequência de rap e hip-hop que castigou os ouvidos da maioria durante um bom tempo, Alanis parecia se imaginar em um estádio lotado. Super simpática, desfilou quase que na totalidade o repertório já apresentado antes em São Paulo, Rio, Curitiba, Belo Horizonte e Recife (e que depois ainda exibiria em Goiânia), com a inclusão de algumas poucas surpresas como “Mary Jane”, faixa do álbum de maior sucesso.

Entre sucessos de “Jagged Little Pill” como “You Learn”, “Ironic” e “Head Over Feet”, outros hits da carreira eram embaralhados com as canções do recente trabalho. Ao lado de faixas como “So Pure” e “Hands Clean”, novas composições surgiam, tais quais “Woman Down”, “Guardian”, “Numb” e “Edge Of Evolution”, a melhor delas. Com boa qualidade de som – apesar de não privilegiar as guitarras como se esperava - a banda levava tudo na maior tranquilidade possível.

Depois de 2 bis (um com “Hand In My Pocket” e “Uninvited” e o final com “Thank U”), Alanis cumpriu aquilo que prometeu entregar, ou seja, um show para quem gostou dos primeiros discos e todas aquelas meninas que queriam ser ela nos anos 90, aliado a exibição de algumas novas canções. No entanto, o principal da noite foi admirar a simplicidade de quem já teve o mundo aos pés e ainda ostenta tremenda simpatia, ao contrário de muitos “artistas” que se acham por aí.

Nota: 7,0

Site oficial: http://www.alanis.com

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Créditos da Foto: Thais Rezende/G1

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

"Habibi" - Craig Thompson


Craig Thompson apareceu para o mundo dos quadrinhos com “Retalhos” de 2003, álbum que ganhou lançamento nacional em 2009. Com uma história biográfica em mãos, narrou os passos do crescimento na juventude com o uso forte de imagens para validar suas impressões. Anos se passaram, ele lançou mais um álbum (“Carnet de Voyage”, sem lançamento por aqui) sobre a turnê de promoção de “Retalhos” e desde então se pôs a trabalhar em “Habibi”, onde experimentaria um universo bem diferente.

“Habibi” chegou às livrarias dos USA no ano passado e agora desembarca em território tupiniquim novamente pelas mãos da Companhia das Letras no seu selo “Quadrinhos na Cia.”. A obra tem 672 páginas (formato 18 x 23 cm), ótimo acabamento editorial e conta com tradução de Érico Assis. Em entrevistas a veículos de notícias no decorrer desse ano, o autor afirmou que esse novo livro “era uma reação a islamofobia”, porém, mesmo apresentando uma carga nesse nível, as premissas usadas são mais modestas.

“Habibi” encontra dois escravos que se juntam primeiramente para sobreviver ao terror de suas vidas. De um lado a menina Dodola de 12 anos e do outro o bebê Zam de 3 anos. Ela, uma garota branca vendida pelos pais para casar em troca de algum dinheiro e ele, um negro filho de uma escrava acorrentada prestes a ser vendida. Em uma cena marcante de fuga, os dois encontram um navio entalhado no deserto que lhes servirá de abrigo nos próximos anos, assim como de mola para impulsionar o próprio relacionamento.

Em uma nação fictícia, Craig Thompson utiliza - assim como já havia feito em “Retalhos” - uma grande quantidade de metáforas visuais para contar a história, no entanto, com um grau maior de detalhes. Usa também a religião como padrão para definir atos e comparar situações da vida real com aquelas descritas não somente no Corão, como também na Bíblia, expondo assim aquela ideia de defesa ao islamismo, pois demonstra aos poucos que ao sair da superfície todas as religiões são mais ou menos iguais.

É bom lembrar que o autor cresceu em uma intensa comunidade católica e “Retalhos” era uma espécie de psicanálise pessoal que também tratava da pressão da fé. Em “Habibi” tanto Dodola, quanto Zam (e outros nomes que assumem na jornada) sofrem não somente esse aperto, mas também se guiam por lendas antigas e passagens de livros sagrados. A diferença é que nesse novo trabalho, não há um espaço mínimo para a inocência e essa se vê corrompida diariamente por sexo como moeda de troca, fome e muita sujeira.

“Habibi” é uma obra difícil de ser definida. Pode ser algo como uma fábula com tons de épico, mas ainda assim seria reducionista. É antes de tudo uma história de amor. Não um amor convencional, mas uma mistura de todas as formas e ancorada na dependência mútua dos personagens entre si. É excelente visualmente e conduz uma história que envolve em certos momentos, mas por atirar para muitos lados, acaba não conseguindo acertar todos os alvos e assim exerce um fascínio menor do que se esperava.

Nota: 7,0



Site oficial do livro: http://www.habibibook.com

Matérias relacionadas no blog:
- Quadrinhos: “Retalhos” de Craig Thompson.

A Companhia das Letras disponibilizou um pequeno trecho gratuitamente aqui.               

domingo, 2 de setembro de 2012

Séries - "The Newsroom"


Will McAvoy (Jeff Daniels de “A Lula e a Baleia”) é um conceituado âncora do canal de notícias da tevê a cabo ACN Network. Uma das maiores “virtudes” do seu trabalho é não meter o dedo em qualquer ferida que seja, o que o leva a não expor suas ideias da maneira como gostaria. Porém, nem sempre foi assim, antes ele era um combativo membro da imprensa, exercendo funções até em áreas políticas. A série “The Newsroom” que a HBO está exibindo começa exatamente nesse ponto.

Criada pelo premiado Aaron Sorkin, roteirista ganhador do Oscar por “Rede Social” e criador também da boa série “West Wing: Nos Bastidores do Poder” – que teve sua última temporada exibida em 2006 - “The Newsroom” captura seu personagem principal em um momento de ruptura. Em um debate para universitários feito em conjunto com republicanos e democratas, Will McAvoy chuta o balde quando é perguntado sobre “o que faz dos Estados Unidos o melhor país do mundo?”

Ao destrinchar inúmeros motivos que desdizem os Estados Unidos como o melhor país do mundo, o âncora dá um show que logo ganha a internet e os noticiários, causando um rebuliço danado que o obriga a tirar férias imediatamente para se recuperar e botar panos quentes na desmedida atuação. Ao voltar, encontra como produtora a ex-namorada Mackenzie MacHale (Emily Mortimer de “Harry Brown”), uma imposição do chefe Charlie Skinner (Sam Waterson de “Lei e Ordem”) que mudará tudo.

Com MacHale no comando, o programa ganha muito em consistência e faz Will McAvoy retornar aos seus comentários críticos e impor notícias bem analisadas, distante do foco fútil dos concorrentes. Inserindo a trama inicialmente em 2010, Aaron Sorkin se utiliza gradualmente de fatos reais como a explosão de uma plataforma de petróleo no golfo do México, o assassinato de Osama Bin Laden pelas forças especiais dos USA e até mesmo sai no braço com o movimento republicano do Tea Party (mais aqui).

Com essa guinada o programa causa preocupações na diretoria da rede que administra o canal ACN, que vê seus rabos presos serem soltos e partem também para uma ofensiva contra o seu reformado funcionário. De pano de fundo está exposta a vida daqueles que fazem o noticiário, como Maggie Jordan (a excelente Alison Pill de “Scott Pilgrim Contra o Mundo”) e Neal Sampat (Dev Patel de “Quem Quer Ser Um Milionário?), entre outros achados como Jane Fonda no papel da presidente da empresa.

Programada para 10 episódios na primeira temporada, “The Newsroom” expõe novamente as habilidades de Aaron Sorkin como formatador de boas histórias e mesmo pendendo politicamente para um lado visível e sem fazer contrapartida na outra extremidade, produz ótimos resultados ao importunar de uma tacada só o conservadorismo e hipocrisia política, a apatia da imprensa nos nossos dias, como também o papel de cada um dentro da engrenagem de funcionamento de um país.

Nota: 9,0

Site oficial da série na HBO com o primeiro episódio disponibilizado gratuitamente para exibição: http://www.hbomax.tv/the-nem

Assista a um pequeno trailer: 



sábado, 1 de setembro de 2012

"Aqui é o Meu Lugar" - 2012


“Lar é onde eu quero estar (...) me sinto dormente, queimo como um fraco coração...”

Esses são alguns dos versos iniciais da canção “This Must Be The Place (Naive Melody)” da banda norte-americana Talking Heads, originalmente lançada em 1983 no álbum “Speaking In Tongues”. Essa música do grupo ex-chefiado por David Byrne já ganhou várias versões no decorrer dos anos, indo de Counting Crows a Arcade Fire e mais recente deu nome a um filme de mesmo nome dirigido pelo italiano Paulo Sorrentino.

“Aqui é o Meu Lugar” (“This Must Be The Place”, no original) traz Sean Penn no papel de Cheyenne, um velho rockstar que ganhou um bom dinheiro nos anos 80 com sua música gótica e tristonha e hoje vive uma vida calma e tranquila dentro de uma mansão escondida em uma pequena cidade da Irlanda. Essa reclusão, que fica evidente quando a MTV tenta fazer contato para um programa, esconde bem mais do que aparenta.

Com aparência baseada em Robert Smith do The Cure, Sean Penn apresenta seu personagem com voz fraca e trejeitos femininos, além de um andar quase em câmera lenta, o que na verdade tem como objetivo realçar os vícios do passado, mas acaba soando forçado e desnecessário. Apesar de extrapolar o ridículo necessário para o papel, o ator exibe a coragem costumeira e deixa as próprias rugas e marcas bem a mostra.

Ao viver sem emoção alguma, como se estivesse em sono profundo, Cheyenne é despertado pela notícia do falecimento do pai, um judeu tradicional que ele não fala desde a juventude. Ao visitar o leito de morte nos Estados Unidos, acaba ingressando em uma missão. Essa missão que se transforma em um road-movie meio sem nexo, reside em achar o nazista que fez o pai sofrer durante os fatídicos dias da segunda guerra mundial.

Com roteiro fraco e confuso, o diretor Paolo Sorrentino tenta fazer do filme um exercício de estilo ao enquadrar imagens, esticar prazos ou delinear calmamente as ações, porém são floreios que não conseguem mascarar a fragilidade do trabalho e as incursões desnecessárias que são impostas para dar um toque “alternativo”. Nem Sean Penn salva o longa, que tem como melhor momento a participação de David Byrne tocando a faixa já citada acima.

P.S: A trilha sonora é outro ponto positivo e transmite certo alento no fim.

Nota: 5,5

Assista ao trailer: