quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Séries: “Manhunt: Unabomber” e "American Gods"


Entre 1978 e 1995, Ted Kaczynski (Paul Bettany) espalhou terror nos EUA com bombas enviadas por via postal. Para expor ideias e inconformidade com o rumo que a sociedade estava tomando matou 3 pessoas e feriu outras 23. Conhecido como Unabomber foi uma pedra e tanto no sapato do FBI até finalmente ser preso em 1995 devido a uma nova técnica de investigação chamada linguística forense, baseada em cartas fornecidas pelo irmão depois que leu um manifesto publicado nos jornais. Essa técnica foi criada meio na marra e na necessidade pelo agente Jim Fitzgerald (Sam Worthington), especializado em criar perfis de criminosos. Andrew Sodroski aproveitou a onda de produções sobre crimes reais na televisão e criou pelo canal Discovery “Manhunt: Unabomber” que estreou ano passado e está disponível no Netflix. Não confundir com “Mindhunter”, que apesar de ter o mesmo teor em linhas gerais caminha com outra pegada, outro ritmo e outros objetivos. Como é uma produção do Discovery os 8 episódios têm um ar de documentário inerente, contudo passa longe daquelas produções horríveis feitas para a tevê em outras épocas. Tudo nela é pensado com cuidado e as atuações são competentes, mesmo sem ser brilhantes. Situada principalmente nos anos de 1995 e 1997, quando Jim Fitzgerald entra na força-tarefa e precisa provar a todo momento que aquilo que percebe é válido quando todos dizem o contrário, “Manhunt: Unabomber” tem a capacidade de prender na frente da tela, apesar de já se saber o final. Explorando a conexão do agente do FBI com os questionamentos feitos por Kaczynski no manifesto a série mergulha em águas mais profundas, porque apesar da maneira brutal e covarde que foi usada para propagá-lo, o texto traz pontos interessantes, ainda mais em tempos como o nosso onde a tecnologia é cada vez mais senhora de tudo.

Nota: 7,5


“Deuses Americanos” (American Gods) é a obra mais completa do britânico Neil Gaiman na literatura. Publicada em 2001 teve edições nacionais no decorrer dos anos, inclusive uma excelente “edição preferida do autor” em 2016 pela Intrínseca. Versando sobre a formação dos EUA e usando os deuses e lendas que os milhões de imigrantes trouxeram nos corações e bolsos, criou um trabalho repleto de nuances como a relação do país com seus formadores, o combate do velho contra o novo e a maneira que esse novo molda a sociedade, entre outras coisas. Mesclando realidade e fantasia como poucos sabem fazer - além do peculiar humor - era difícil imaginar como transportar isso para a televisão quando foi anunciada uma série sobre o livro. Produzida pelo canal Starz e criada por Bryan Fuller (de “Hannibal”) e Michael Green (roteirista de “Logan” e “Blade Runner 2049”) com Gaiman participando ativamente do processo, a série é um acerto fenomenal. Disponível no Brasil na Amazon Prime Video, a primeira temporada tem 8 episódios e direção precisa de nomes como David Slade (“30 Dias de Noite”) e Floria Sigismondi (“The Runaways”). A história tem como protagonista Shadow Moon (Ricky Whittle) que prestes a sair da cadeia descobre que a esposa Laura (Emily Browning) faleceu. Na sequência é abordado pelo misterioso e intrigante Mr. Wednesday (Ian McShane) que após dura negociação o convence a trabalhar para ele. No decorrer disso Shadow se vê inserido em algo que não passa nem perto de entender e conhece estranhas figuras. Na briga dos deuses antigos contra os novos (como tecnologia, internet, etc.), “American Gods” reluz a cada momento, a cada cena.  Também merecem destaque a entidade irlandesa conhecida como Mad Sweeney (Pablo Schreiber) e Gillian Anderson estupenda como a deusa moderna Media, onde é responsável pela melhor cena do ano vestida de Marilyn Monroe.

Nota: 9,0

Sobre o livro, passe aqui.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Literatura: “Noturnos – Histórias de Música e Anoitecer” e "À Sombra de Gigantes"


Kazuo Ishiguro nasceu no Japão, mas ainda criança se mudou para a Inglaterra com a família. Lá virou escritor e produziu obras como “Os Vestígios do Dia”, “Não Me Abandone Jamais” e “O Gigante Enterrado”, vendendo alguns milhões de exemplares pelo mundo com eles. Em 2017 ganhou o prêmio Nobel de literatura o que levou a Companhia das Letras republicá-lo no decorrer do ano passado por aqui. Uma dessas republicações foi “Noturnos – Histórias de Música e Anoitecer” (Nocturnes – Five Stories of Music and Nightfall), lançado originalmente em 2009. O livro é um “Ishiguro menor”, digamos assim, composto por cinco contos apresentando a música como condutora seja por um praticante em início de carreira, por um artista calejado fazendo o impensável para obter sucesso ou um amante de velhas canções americanas perdido pela vida e jogado no meio de uma complicada situação. Com tradução de Fernanda Abreu e 216 páginas essa nova edição (a editora já havia lançado aqui em 2010) dá chance para novos leitores conhecerem um trabalho que se não carrega o tom sublime das obras mais famosas do autor, apresenta uma prosa repleta de melancolia que por mais triste que possa ser ainda sim carrega alguma beleza embutida. Em todos os contos temos a vida passando e deixando feridas abertas, algumas que já doeram tanto que hoje já nem se sente mais nada, o tempo cuidou de amortecer tudo. Dos cinco contos os maiores destaques ficam com “Crooner” e “Celistas” onde essa melancolia assume tons de acentuada desilusão e que a música retrata isso de maneira tão delicada. “Noturnos” serve também para que novos leitores se aproximem mais da obra de Kazuo Ishiguro, buscando ir além. É um livro para ler com uma bebida na mão e um disco antigo tocando na vitrola suavemente.

Nota: 7,5


Em tempos de um futebol tão globalizado (e gourmetizado) onde é cada vez mais frequente um adolescente encher a boca afirmando ser torcedor do Real Madrid, do Barcelona, do PSG ou de quem quer seja no seleto grupo dos biliardários times do esporte, ainda assim existem aqueles que optam por um time menor, de tradição, que hoje está lá pela segunda ou terceira divisão e que vão para o estádio ver os jogos que (quase) ninguém mais quer ver. Isso acontece tanto em Madrid, Barcelona e Paris, quanto em Belém, São Paulo, Rio de Janeiro ou outra cidade do país. O futebol é algo inexplicável e mesmo com o clichê gasto que já cansamos de ouvir realmente não é só futebol. O jornalista gaúcho Leandro Vignoli que usa o Twitter para de modo bem humorado ir contra os superlativos e excessos desse futebol tão alardeado do velho continente se lançou no final de 2017 em uma campanha de financiamento coletivo para publicar um livro que narra 50 dias de viagem onde visitou 13 clubes em 10 cidades diferentes da Europa. No cardápio somente clubes que habitam a mesma cidade ou localidade de gigantes do mundo da bola. “À Sombra de Gigantes” tem 224 páginas e já nasce com status de leitura obrigatória para quem gosta de futebol, pois além de falar muito disso com o jeito de corneta do autor, é uma viagem também pela história e costumes de cada local. Ao assistir o Rayo Vallecano em Madrid pela segunda divisão da La Liga ou o St. Pauli pela segunda divisão da Bundesliga apresenta um passeio extremamente prazeroso em estádios históricos, torcidas apaixonadas e um futebol que insiste em sobreviver mesmo após cada venda de zagueiro mais ou menos por milhões e milhões de libras. “À Sombra de Gigantes” é um libelo de resistência.

Nota: 8,5

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Literatura: "O Circo Mecânico Tresauli" e "O Vendido"


“O Circo Mecânico Tresaulti” (A Tale Of The Circus Tresaulti, no original) apresenta um mundo pós-apocalíptico sem definição de tempo ou de lugar, onde a única realidade sabida é que guerras e mais guerras devastaram quase tudo e a humanidade regrediu anos e anos sem direito a tecnologia que experimentou em outrora e se esconde ou em pequenas vilas ou em cidades muradas e protegidas a todo custo. A obra da escritora Genevieve Valentine foi lançada em 2011 e logo com esse primeiro romance já ganhou indicação ao prêmio Nebula relativo a livros de ficção científica e fantasia. Teve edição aqui pela Darkside Books e em 2016 saiu em outra versão, mais luxuosa e com capa dura (que a editora chama de “Limited Edition”) com ilustrações do brasileiro Wesley Rodrigues que servem para dar amplitude a obra, deixando que um pouco da imaginação se concretize mesmo sem revelar nada da trama. O primeiro terço do livro é um pouco arrastado enquanto a autora situa os fatos e os personagens e a maneira que conta a história sem amarrar tanto as coisas, acaba prejudicando o leitor mais preguiçoso. Contudo, a partir disso, a trama flui muito bem. Mesmo que se imagine onde tudo vai chegar, a maneira com que os personagens são construídos com seus dramas pessoais e histórias passadas, faz com que isso seja relevado. O circo comandado por Boss roda o mundo para conferir um pouco de esperança, alegria e paz em cenários tão tristes, ao mesmo tempo em que recupera pessoas prestes a morrer ou fugindo de algo para dar uma nova chance, uma nova vida, construída através do uso de engrenagens e ferramentas. Com as personagens femininas, mulheres fortes e decididas, dando o tom do livro, Genevieve Valentine cria um trabalho repleto de bons momentos.

Nota: 7,0


Morador de um subúrbio que simplesmente teve o nome apagado em Los Angeles, Eu (sim, esse é o nome do protagonista) começa a narrar os fatos de “O Vendido” direto da Suprema Corte dos Estados Unidos onde está para ser julgado por, entre outras coisas, reinstaurar (ou pelo menos tentar) a segregação racial em Dickens, o referido subúrbio. De início avassalador, com prosa rápida e mordaz, cheio de referências das mais diferentes áreas, exibe em igual escala acidez e bom humor. Confronta o leitor constantemente com explanações sobre raça e identidade e derruba sem medo o fino manto que cobre a sociedade americana (e tantas outras) no que se refere a um racismo permanente e nem tão velado assim. Eu, teve uma formação singular, para dizer o mínimo. Durante a infância não frequentou escolas, pois era a parte principal dos estudos e experimentos do pai, um sociólogo cheio de ideias bem incomuns. Após o assassinato do pai “por engano” pela polícia, começa a cuidar da fazenda da família investindo em frutas de sabor único, como também em novas espécies de maconha. Se junta a Hominy Jenkis, o mais famoso morador da localidade por ser o último astro vivo da série “Os Batutinhas” (mais aqui: https://goo.gl/4LnJn8) e com ele embarca no inusitado projeto que o levou até a Suprema Corte. “O Vendido” (The Sellout, no original) ganhou o prestigiado prêmio britânico Man Booker Prize de 2016 e seu autor, Paul Beatty, participou da FLIP de 2017 aqui no Brasil. Com 320 páginas, tradução de Rogério Galindo e publicação no ano passado pela Todavia Livros é o tipo de obra que ao chocar e cutucar, enquanto diverte sabiamente, se coloca como extremamente necessária para o tempo em que habita.  

Nota: 9,5

Mais sobre o livro no site da editora: http://www.todavialivros.com.br/livros/o-vendido# 

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Melhores Quadrinhos de 2017


Salve, salve.

Como os quadrinhos aparecem cada vez mais aqui no blog resolvi colocar uma listinha do que teve de melhor em 2017 na minha opinião. A única regra é ter sido lançado no país em 2017 seja pela primeira vez ou em reedições, então, para ficar claro, me baseei no lançamento nacional e não do original em outro país, quando for o caso.

Foi um ano e tanto e a maioria das obras citadas tem resenha aqui no blog. Vamos a lista então:


MELHORES HQ’S DE 2017 - NACIONAL

1 – Angola Janga – Uma História de Palmares – Marcelo D’Salete (Editora Veneta)
2 – Olimpo Tropical – André Diniz e Laudo Ferreira (Jupati Books)
3 – Super-Ego – Caio Oliveira (Independente)
4 – Mensur – Rafael Coutinho (Companhia das Letras)
5 – Tabloide – L. M. Melite (Editora Veneta)
6 – Anuí – Lelis (Independente)
7 – Planta – Um Bípede Entre Plantas – Gustavo Ravaglio (Independente)
8 – Arvorada – Orlandelli (Panini Comics)
9 – Escolhas – Gustavo Borges, Felipe Cagno e Cris Peter (Geektopia)
10 – Gatilho – Carlos Estefan e Pedro Mauro (independente)

Menção honrosa:  O Monstro – A Casa no Fim da Rua – Fabio Coala (Independente)


MELHORES HQ’S DE 2017 – INTERNACIONAL

1 – Condado de Essex – Jeff Lemire (Editora Mino)
2 – Black Hole – Charles Burns (Darkside Books)
3 – Aqui – Richard McGuire (Companhia das Letras)
4 – Billie Holiday – Muñoz e Sampayo (Editora Mino)
5 – Valerian – Integral  - Volume 1 – Christin e Mézières (Sesi SP- Editora)
6 – Wytches – Scott Snyder, Jock e Matt Hollingsworth (Darkside Books)
7 – Império – Mark Waid e Barry Kitson (Mythos Books)
8 – Projeto Manhattan – Volume 5 – Jonathan Hickman e Nick Pitarra (Devir)
9 – Meu Amigo Dahmer – Derf BackDerf (Darkside Books)
10 – Suicidas – Volume 1 – Lee Bermejo e Matt Hollingsworth (Panini Comics)

Menção honrosa:  A Diferença Invisível – Julie Dachez e Mademoiselle Caroline (Editora Nemo)


MELHORES SÉRIES CONTÍNUAS DE 2017

1 – Dr. Estranho – Jason Aaron e Chris Bachalo (Panini)
2 -  Batman – Renascimento – Tom King e Mikel Janín (Panini)
3 – Thor – Jason Aaron e Russell Dauterman (Panini)
4 – Asa Noturna – Tim Seeley e Javier Fernández (Panini)
5 – O Velho Logan – Jeff Lemire e Andrea Sorrentino (Panini)

Paz sempre.


P.S: Os melhores discos serão colocados no dia 31 de janeiro, como acontece todo ano.

domingo, 31 de dezembro de 2017

E que venha 2018!


Salve, salve minha gente amiga,

Que ano esse que termina hoje. Um ano onde direitos foram suprimidos, vitórias de minorias foram esmagadas, o conservadorismo burro tomou conta de vez das redes sociais acompanhado de uma avalanche de informações falsas e prejudiciais. A intolerância cada vez mais é a moeda vigente e um ano depois do golpe (mas nem tão) disfarçado que o país sofreu novas leis estapafúrdias e benéficas só para a pequena minoria mais rica são aprovadas na capital (com raríssimas exceções). Não está sendo fácil. E não é só aqui. Um certo topetudo laranja piora tudo ainda mais na nação com maior poder bélico do mundo. Complicado é pouco.

Mas, a vida segue e é nossa missão combater tudo, tanto dando preferência a veículos de mídias compromissadas com a verdade independente de lado, quanto no combate às informações falsas que circulam naquele grupo de mensagens ou naquela rede social. Essa “resistência”, por assim dizer, se faz fundamental para que as coisas não piorem. Ainda mais em ano de eleição, quando tudo tende a ser 500% pior nesse sentido. Não se pode desistir, por mais que essa seja a vontade que invada vez ou outra. Buscar um mundo melhor para todos é a luta primordial.

O blog se manteve firme e teve um crescimento bem interessante de visitas, que confesso até me surpreendeu em alguns momentos. Em 2017 fizemos 12 anos de Coisa Pop e obrigado a todos que por aqui passaram e - clichê dos clichês - se somente uma pessoa leu um texto aqui e foi atrás da obra, já valeu a pena ter escrito. É por isso que continuo.

Quadrinhos e literatura continuaram sendo o foco por aqui em 2017, mas sem esquecer das séries e do cinema, assim como da música que sempre me move adiante (infelizmente com poucos textos). Aliás, 2017 foi ano que mais escutei música desde... 2007. Isso mesmo, de acordo com o Last Fm (https://www.last.fm/pt/user/Kalnaab). Bem bacana.

Foi um ano com os quadrinhos nacionais cada vez mais fortes e achando um espaço maior, como também lançamentos de todas as estirpes e lugares no país. Musicalmente, tivemos grandes trabalhos nacionais em 2017, um ano muito bom sem dúvida alguma. E shows de grandes nomes (como o The Who) desembarcaram por aqui. Valeu a pena ter visto alguns.

É lógico que torço firmemente para que 2018 seja mais leve, porém sei que dificilmente será. Mas, a esperança sempre deve existir e nesse momento é por ela que devemos brigar. Sempre tentando fazer o melhor e transformando o mundo do jeito que podemos em um lugar de mais amor, tolerância, compaixão, diversidade, criatividade e generosidade. Tarefa das grandes, eu sei, mas extremamente precisa. 

E que a cultura sempre sirva para aplacar as dores, criticar tudo que não presta e iluminar o globo com obras em todos os setores como deve ser.

No mais, não tem como fugir. 2018 está aí e cabe a cada um fazer da própria vida e de onde mora, lugares melhores para se viver.

Vamos em frente e um grande ano a todos.

Paz Sempre.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Quadrinhos: "Gatilho", "Império" e "Angola Janga - Uma História de Palmares"


A produção nacional de quadrinhos está cada vez mais vasta, abrangendo diversas facetas da nona arte. “Gatilho” da dupla Carlos Estefan e Pedro Mauro é mais um bom exemplo disso. De produção independente, com 64 páginas e formato grande (21 x 28cm) teve lançamento na CCXP desse ano em São Paulo com sucesso. A graphic novel apresenta um faroeste clássico, inspirado no trabalho do cineasta italiano Sergio Leone e demais filmes do “spaghetti western” dos anos 60 e 70. O roteiro de Carlos Estefan (do grupo Mauricio de Sousa) é bem elaborado, indo e voltando para revelar os meandros no meio da dor, vingança e redenção, honrando assim o gênero com o que lhe é diretamente inerente. Os personagens são moldados por fatos do passado e isso além de ficar entalado nas suas gargantas, servirá para desencadear ações vindouras sem direito a perdão. A arte em preto e branco do experiente Pedro Mauro de trabalhos na editora italiana Bonelli (casa do Tex) é uma aula de como se fazer algo dentro dessa seara. Com extras que além de explicar as inspirações para a obra também contam um pouco do processo de produção, “Gatilho” é uma obra mais do que bem-vinda.

Nota: 7,0


Como seria um mundo onde o vilão derrotou todos os heróis e assumiu o poder com mão de ferro e justiça baseada apenas nas próprias convicções? Esse é o mote de “Império” de Mark Waid (Flash, Capitão América) e Barry Kitson (L.E.G.I.O.N), que conta a história de um mundo onde o mal venceu e o impiedoso Golgoth controla tudo e (quase) todos. A história era uma ideia antiga de Mark Waid, porém só veio a ser concebida e publicada em meados de 2000 sendo finalizada em 2004. Passou por diversas casas (Gorilla, Image, DC) e hoje os direitos são da IDW Publishing. A Mythos Books traz pela primeira vez ao Brasil em 2017 esse trabalho em um encadernado de luxo com 204 páginas. Um dos nomes mais importantes dos quadrinhos mundiais, tanto pelo que fez em grandes editoras quanto nos trabalhos autorais, Mark Waid recheou “Império” com segredos, conspirações por trás das portas, traições inesperadas, desejos sombrios e resoluções surpreendentes. O foco existente entre a manutenção do poder por Golgoth e a briga da esforçada resistência para derrubá-lo é apenas o cenário maior, a desculpa que Mark Waid precisa (com a habitual competência de Barry Kitson na arte) para explorar caminhos mais tortuosos.

Nota: 7,5


Marcelo D´Salete é quadrinhista, graduado em artes plásticas e mestre em história da arte. Já produziu ótimas obras como “Encruzilhada” de 2011 e “Cumbe” de 2014, mas que não se comparam ao mais recente trabalho chamado “Angola Janga – Uma História de Palmares”. Elaborado em mais de 11 anos de pesquisa foi publicado em 2017 pela editora Veneta com 432 páginas tendo roteiro e arte em preto e branco do autor. Angola Janga significa na língua banto quimbundo “Pequena Angola” e era assim que os escravos se referiam a Palmares quando fugiam dos absurdos a que estavam submetidos nos engenhos. D´Salete mergulha no Brasil colonial do século XVII, onde a cana-de-açúcar era um dos mais importantes produtos explorados e que para tanto utilizava mão de obra escrava oriunda da África em navios negreiros que durante todo o período em que vigorou a escravidão trouxeram milhões de negros e negras como mercadorias. O autor constrói um épico forte e poderoso para contar a história de alguns desses nomes que se levantaram e brigaram contra uma opressão devastadora; nomes como Zumbi. Cheio de extras como glossário, textos e mapas da época, “Angola Janga” é provavelmente a obra mais importante já feita nos quadrinhos nacionais.


Nota: 10,0


quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Quadrinhos: "Magneto: Infame", "O Monstro - A Casa no Fim da Rua" e "Black Hole"

 

No vasto rol de vilões da Marvel poucos se equiparam ao poder do Magneto. E poucos já foram tão radicais e ferozes quanto ele. Com os anos largou de mão de algumas ideias mais tenebrosas, fez parte do grupo dos mocinhos (ainda que sempre de maneira controversa) e até mesmo foi marionete de terceiros. Em “Magneto: Infame” ele esquece toda essa história e volta a buscar o que sempre ambicionou: proteger os mutantes a qualquer custo e da maneira que for preciso. O encadernado de capa dura que a Panini Comics publica aqui com 140 páginas, reúne as edições originais de 1 a 6 lançadas nos EUA entre maio e setembro de 2014 com roteiro de Cullen Bunn (The Sixth Gun) e arte de Gabriel Hernandez Walta e Javi Fernandez dependendo do número. A ideia de trazer Magneto de volta para o lado do “mal” é no papel, ótima. Essa é a faceta que sempre lhe coube melhor. Ainda mais se considerarmos que nesse momento seus poderes não exibem mais a magnitude de outrora, estão bem combalidos, o que o impele a ser mais inteligente que nunca. Infelizmente, a boa ideia esbarra em um roteiro apenas razoável e em uma arte que deixa bem a desejar.

Nota: 5,0


O Monstro é um bicho de pelúcia que passa de pessoa para pessoa ajudando nos problemas. Essa fantasia inicial serve para que o quadrinista Fabio Coala disponha sobre medos, dúvidas e a força que cada um tem de superar isso e ir adiante. O personagem surgiu em 2013 e desde então se faz presente. A mais recente história é “O Monstro - A Casa no Fim da Rua”, concebida através de financiamento coletivo esse ano, cada vez mais um ótimo caminho para os quadrinhos nacionais. São 176 páginas com o que Fabio Coala tem de melhor. Um pouco de suspense, alguma aventura e romance, diversas analogias escondidas ali na superfície ao lado da premissa inicial, e nesse caso, até mesmo um alerta para os jovens em seus mundos virtuais (tanto fisicamente quanto emocional). Jô é uma adolescente que vive isolada do mundo e mal suporta as pessoas. Seu único relacionamento é com os amigos virtuais que joga online. Tal isolamento tem origens mais profundas e quando uma misteriosa figura se muda para a casa do título, seu mundinho sofre um sério balanço. Com toques simples e singelos o autor constrói um bonito trabalho sobre temas nem tão simples e singelos assim.

Site do autor: http://mentirinhas.com.br

Nota: 7,0


Existem obras que são imprescindíveis. Obras que estão dentro daquilo de melhor que um tipo de arte produz. Obras como “Black Hole” de Charles Burns. Lançada nos EUA em 12 edições de 1995 a 2005 já teve publicação nacional em 2007 pela Conrad. Agora em 2017 é a vez da Darkside Books reunir tudo em um caprichado volume único de 370 páginas com tradução do escritor Daniel Pelizzari. Ambientada nos anos 70 nos arredores de Seattle, trata de uma inexplicável peste que se alastra entre os jovens através do contato sexual e que causa as mais variadas mutações. Usando essas mutações como metáforas para as angústias adolescentes, como também de crescimento e aceitação, Burns construiu uma obra admirável em todos os aspectos. A arte não é fofinha ou fácil e escancara corpos nus e deformidades com tranquilidade. Em preto e branco o terror explorado não é somente visual, aliás, fica longe disso, é um terror emocional, psicológico, que gera angústias e mais angústias. “Black Hole” ganhou prêmios importantes na sua trajetória até aqui como o Eisner e o Harvey e é o tipo de caso em que é mais que justo. Se gosta de quadrinhos não cometa o erro de não ter essa edição na estante. É quase um crime.

Nota: 10,0



terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Arcade Fire - São Paulo - Arena Anhembi - 09.12.2017



É sempre louvável quando uma banda/artista sai em busca de novos horizontes musicais, tecendo sonoridades diferentes daquelas que a consagraram, mesmo que isso gere rebuliço entre os fãs de primeira ordem. A mesmice é algo realmente devastador dentro desse universo, apesar da segurança garantida na maioria das vezes. Todavia, não necessariamente essas guinadas resultam em trabalhos de boa qualidade. Admirar a coragem de mudar é uma coisa, apreciar o trabalho já é outra bem diferente.

Foi o que aconteceu com o Arcade Fire desde “Reflektor” de 2013. Depois de uma trinca de discos iniciais que levaram a banda a fenômeno indie e mais além, fechando festivais no mundo todo, o fraco álbum de 2013 já apresentava outra postura, mais oitentista, dançante, mais pop e brilhante, o que não funcionou muito bem. No mais recente trabalho desse ano, “Everything Now”, essas direções avançaram mais incluindo uma pegada disco e mais dançante ainda. O que também não rendeu bons frutos.

E foi com a turnê desse álbum intitulada “Infinite Content” que o grupo desembarcou no Brasil para shows no Rio de Janeiro e em São Paulo. A turnê sofreu bastante até agora pelo tamanho que banda e produtores imaginaram. O Arcade Fire que na época do “The Suburbs” de 2010 realmente era uma das maiores bandas do planeta, diminuiu a partir do momento que os discos foram ficando ruins. Essa é a relação direta, diga-se. Pela pegada mais dançante, imaginou-se que um novo público viria e shows maiores esgotariam. Ledo engano.

São Paulo foi um desses casos. O show do último sábado (9) antes previsto para o espaço tradicional do sambódromo no Anhembi que cabe entre 25 mil e 30 mil pessoas foi redirecionado para outra área que comporta umas 10 mil (e que devia ter um pouco menos). E isso acabou sendo um acerto, pois ficou do tamanho justo e proporcionou ao público que estava alocado na pista normal ficar na arquibancada em posição muito melhor, onde a participação no show teve ótimos reflexos.

O show de abertura dos colombianos do Bomba Estéreo calcado na fase mais recente foi além de desanimador, bastante constrangedor e sofrível. Pontualmente às 21:30hs começou a papagaiada de entrada no Arcade Fire no palco, com uma apresentação como se fosse de boxe e o palco com cordas de ringue. Engraçado, divertido, mas percebe-se o tanto que a produção viajou na maionese no atual momento da banda. Win Butler (que já havia passeado lá por baixo antes) e trupe subiram com a missão de convencer o público da validade das suas escolhas.

Com muita vontade, muita mesmo, e total entrega no palco, o Arcade Fire começou com “Everything Now”, provavelmente a única canção que se salve no novo disco junto com “We Don’t Deserte Love” que apareceu no bis. Depois engatou para catarse geral “Rebellion (Lies)”. Quando veio a dobradinha “Here Comes The Night Time” e “Haiti”, a bateria da escola de samba Acadêmicos do Tatuapé subiu para engrossar a batucada e depois de um começo meio desconexo até que rendeu um bom resultado, ainda que muita gente possa ter entendido como desnecessário.

Além da postura energizante no palco e do cuidado com os fãs, tentando apresentar a maior simplicidade possível, a banda ainda se envolve em causas válidas constantemente. No show de São Paulo, por exemplo, doou parte do cachê para um projeto social, assim como já tinha feito no Rio. Intercalando músicas novas bem sofríveis como “Chemistry”, “Peter Pan” e “Eletric Blue”, com algumas das suas grandes canções como “Neighborhood #1 (Tunnels)”, “The Suburbs” e “Ready to Start”, o show se sustentava interessante, principalmente pelo público que se envolvia bastante mesmo que tocasse um tango no palco.

Porém, no terço final do show tudo caiu acentuadamente, em uma confusão insípida de canções como “Reflektor”, “Afterlife”, “We Exist”, “Creature Comfort” e até mesmo “Neighborhood #3 (Power Out)”. Minutos pareceram horas. O bis veio com a bonita e já citada “We Don´t Desert Love” com Win Butler novamente no chão com a galera, mais uma vinheta do “Everything Now” e o final avassalador com “Wake Up” que fez até mesmo esquecer temporariamente as partes ruins.

Depois de 2 horas e meia de show (um pouquinho mais) entre as conclusões que podemos chegar a mais importante talvez seja que o Arcade Fire ainda é uma grande banda no palco, capaz de envolver o público e promover momentos emocionantes. Até mesmo as canções fracas ficam menos piores ao vivo (ainda que não se tornem boas) e não há o que reclamar da postura e envolvimento da banda. Apesar dos pesares, o show de São Paulo mostra que não se deve desistir deles e que ainda é permitido acreditar.

P.S: Todas as fotos são de Celso Tavares do site G1. Mais aqui: https://goo.gl/V5Ehd6 

domingo, 10 de dezembro de 2017

Cinema: "Extraordinário", "Assassinato no Expresso do Oriente" e “Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe”


August Pullman, mais conhecido como Auggie, tem 10 anos e uma vida bem diferente da maioria das crianças da mesma idade. Desde que nasceu passou por 27 cirurgias para corrigir diversas situações e mesmo com o sucesso delas seu rosto ainda exibe deformidades acentuadas. Educado pela mãe em casa e amparado em toda uma rede de proteção familiar, vê as coisas mudarem quando começa a ir para a escola pela primeira vez e passa a lidar com todo o assombro e preconceito dos demais alunos. “Extraordinário” (Wonder, no original) que estreia agora no Brasil é a adaptação do livro homônimo da escritora R. J. Palacio que fez bastante sucesso e rendeu trabalhos posteriores para aproveitar isso. Dirigido por Stephen Chbosky (autor do livro e roteirista do filme “As Vantagens de Ser Invisível”) é bastante fidedigno as páginas e apresenta Jacob Tremblay (do ótimo “O Quarto de Jack”) no papel principal, com Julia Roberts e Owen Wilson como os pais. A maior parte da película é narrada pela visão do protagonista, porém, os demais envolvidos como coadjuvantes também contam sua visão da história na tela. A mensagem de “Extraordinário” é nobre e mais do que nunca necessária. Respeitar as diferenças e aqueles que não são iguais a gente é preciso e ainda avança delicadamente sobre a questão do bullying. Contudo, é a típica produção feita sob medida para emocionar o espectador. Tudo é pensado nesse sentido. Cada frase, cada gesto, cada mensagem que fica nas entrelinhas. Tradicional longa que pega uma ideia de validade universal e a transforma em produto açucarado para o grande público. Com atuações bem medianas, exceção feita a Jacob Tremblay, Izabela Vidovic que interpreta a irmã e Sônia Braga que faz a avó materna, o filme emociona por conta da mensagem, mas incomoda em igual escala por tamanha plastificação.

Nota: 5,0


Há muita coisa para se admirar na carreira do norte-irlandês Kenneth Branagh. O ator, diretor, roteirista e produtor tem várias obras respeitáveis no currículo como as adaptações de William Shakespeare para o cinema. Em 2017 ele parte para a incumbência de jogar o universo de suspense, crimes e mistério da escritora Agatha Christie para as telonas e inicia com o famoso “Assassinato no Expresso do Oriente” (Murder on The Orient Express), publicado originalmente em 1934, onde é responsável pela direção e interpretação do protagonista, o hábil detetive belga Hercule Poirot. O livro já teve adaptações anteriores, mas agora é apresentado com um elenco repleto de estrelas formado por Daisy Ridley, Penélope Cruz, Johnny Deep, Michele Pfeiffer, Judi Dench, Josh Gad e William Dafoe. Além disso faz parte de um plano maior de levar mais trabalhos da autora para um novo público. A trama foi modificada um pouco pelo roteirista Michael Green, todavia mantêm a essência intacta. Durante uma viagem no expresso do título ocorre um assassinato que logo cai nos braços de Poirot para resolver quando a neve tira o transporte dos trilhos e os impedem de ir adiante. Ali, parados e sem auxílio, o detetive parte para a resolução do caso, mas se depara com uma vastidão de dissimulações, mentiras e informações desconexas que o travam na busca rápida ao culpado, coisa não muito comum na carreira e que o deixa meio transtornado. Com ritmo lento e sincopado, Kenneth Branagh conduz o filme revelando um pouco de cada vez e, para quem não conhece o livro ou viu as adaptações anteriores, deixa o mistério em alta até o esperado último momento. Esse ritmo cadenciado pode até não agradar os espectadores acostumados com filmes a 180 por hora a todo momento, mas servem perfeitamente ao trabalho em questão.

Nota: 7,0


Harold Meyerowitz (Dustin Hoffman) é um escultor e ex-professor universitário que teve relativo destaque na primeira profissão e foi mais aplaudido na segunda. Amargurado com o reconhecimento que nunca teve, mas fazendo com que isso não transpareça tão fácil (pelo menos ele acha que não) mora em uma boa casa com a mais recente esposa Maureen (Emma Thompson). É o personagem de Hoffman que serve de ponto de partida para todos os acontecimentos de “Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe” (The Meyerowitz Stories, no original), uma produção do Netflix que causou discussão esse ano sobre a possibilidade de longas feitos e distribuídos na plataforma poderem participar de festivais (foi exibido em Cannes). Discussões à parte, o novo filme do diretor Noah Baumbach (de “Frances Ha”, “Margot e o Casamento” e “Lula e a Baleia”) é um ótimo trabalho. Explora temas já conhecidos na sua filmografia e apresenta personagens deslocados e com pouca aptidão social no meio de relações disfuncionais na maioria das vezes. Tudo tem início quando Danny (Adam Sandler, talvez no trabalho mais interessante da carreira) chega para passar uns dias com o pai em Nova York junto com a filha Eliza (Grace Van Patten). Danny largou a carreira de músico para criar a filha e agora que está divorciado e a filha vai para a Universidade está perdido, bem perdido. No decorrer da trama aparecem a irmã Jean (Elizabeth Marvel) e Matthew (Ben Stiller), todos igualmente detonados pelos anos de convivência com o egoísmo e rancor escondido do pai. Com diálogos afiados que se cortam e atravessam em uma dinâmica que só os próprios personagens entendem, Noah Bambuach extrai de cada ator um trabalho contundente em um drama familiar maluco que no meio dos acontecimentos usa o humor como forma de amenizar as pesadas dores silenciadas.

Nota: 8,0

Assista aos trailers legendados: 



sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Quadrinhos: “Hellblazer - Volume 1”, "Reparos" e "Olimpo Tropical"

 

Depois de perambular pelos Estados Unidos e aprontar das suas em Nova York, John Constantine está de volta para casa com os velhos artifícios debaixo da(s) manga(s), mas também uma saudade danada do lar (ainda que não confirme de jeito algum). É isso que vemos em “Hellblazer - Volume 1” da Panini Comics que reúne em um encadernado de 164 páginas as seis primeiras edições da revista original dentro do “renascimento” da DC lançadas nos EUA entre setembro de 2016 e março de 2017. O roteiro é de Simon Oliver (da boa “DPF: Departamento de Polícia da Física) e a arte é de Moritat, Pia Guerra e José Marzán Jr. Ao voltar para Londres depois de mais uma das suas maracutaias, Constantine encontra velhos conhecidos como o parceiro de sempre Chas Chandler. Quando menos espera já está imerso em outra aventura estranha ao lado do Monstro do Pântano e da psíquica Mercury. As histórias elaboradas por Simon Oliver nessa nova fase são aceitáveis, com o humor e sarcasmo que se espera do personagem e uma aventura digna. Aprazível de ler, mas nada que faça frente as melhores empreitadas da carreira pouco comum de John Constantine.

Nota: 5,0


É muito bom quando somos jovens e temos ao lado alguém que nos incentive, que nos ensine coisas (mesmo que não aprendamos bem), que nos dê direcionamento para levar uma vida do lado do bem, que sirva como uma espécie de mestre, de Yoda. Pode ser um pai, um irmão, um tio ou um avô, que foi o caso do quadrinista Brão Barbosa (de “Jesus Rocks”). Depois de 2 anos de produção e agraciado pelo ProacSP ele lança “Reparos” em 2017, uma bonita homenagem para o avô falecido em 2014. Com 84 páginas onde assume tanto arte quanto roteiro, a hq conta a história de Eunice, uma simpática garotinha que adora consertar, mexer em tudo e projetar coisas (como um foguete). Eunice ainda busca compreender o mundo a sua volta e as pessoas enquanto brinca com sua turminha, até que uma figura inesperada surge para lhe ajudar nessa caminhada. O autor explora bem essa questão da turminha, da infância, joga umas referências aqui e ali e com ajuda das ótimas cores de Mariane Gusmão cria uma obra carregada de tons fofos e bastante emoção. O tom infantil utilizado, na verdade, serve para mascarar algumas questões maiores. E serve bem.

Nota: 7,0

Site bem legal do autor: http://braobarbosa.com


Biúca é um adolescente que mora na (fictícia) favela Olimpo no Rio de Janeiro, acostumado desde moleque com o tráfico e tudo que vem junto. Por conta de ser manco e ter uma perna menor que a outra desde que nasceu, tendo que andar ajudado por uma bengala, é motivo de chacota constante. Quando é promovido de embalador a vigia dentro da organização que comanda o morro, isso lhe traz moral e a chance de vingança. O carioca André Diniz (Morro da Favela) e o paulista Laudo Ferreira (Yeshuah Absoluto) se unem em “Olimpo Tropical” para contar uma história forte e retrato fiel de favelas e periferias espalhadas pelo país. Com 144 páginas e lançamento pelo selo Jupati Books da Marsupial Editora, temos um dos grandes trabalhos de 2017. A arte em preto e branco de Laudo Ferreira usando um estilo cartunesco nos personagens é excelente, dando as medidas necessárias para o texto de André Diniz, que sem perdão dispara sobre criminalidade, corrupção policial, possibilidades e esperanças perdidas. “Olimpo Tropical” é o que chamamos de “soco no estômago” (ou em partes mais dolorosas) e quando se termina de ler a pergunta que não para de martelar é: quantos e quantos Biúcas não existem por aí?

Nota: 9,0

Twitter dos autores:
- http://twitter.com/laudoferreira