domingo, 29 de janeiro de 2017

Literatura: “História da Sua Vida e Outros Contos” e “Rita Lee - Uma Autobiografia”


Ted Chiang nasceu em Nova York em 1967 é formado em ciência da computação e escreve hábeis contos sobre ficção científica, o que já lhe rendeu prêmios literários desejados como o Nebula e o Hugo. Ano passado sua obra ganhou maior amplitude porque um conto seu foi adaptado para gerar o ótimo filme “A Chegada” de Denis Villeneuve o que fez a editora Intrínseca lançar no país em novembro de 2016 o livro “História da Sua Vida e Outros Contos” (Stories of Your Life and Others, no original) com 368 páginas e tradução de Edmundo Barreiros. O livro agrupa 8 contos publicados entre 1990 e 2002 em veículos diversos, além de uma pequena nota explicativa sobre cada um deles no final. De produção esporádica (ainda não escreveu duas dezenas de contos no total), Ted Chiang passeia com cuidado e muito garbo pelas histórias que propõe contar, seja nos questionamentos religiosos de “Torre de Babilônia” e “O Inferno é a Ausência de Deus”, seja em temas mais matemáticos como em “Divisão por Zero” ou na essência pura da ficção científica de “Gostando Do Que Vê: Um Documentário” e “História da Sua Vida” que dá nome ao livro e foi o conto adaptado para o já citado filme. O texto de Chiang por mais técnico que se apresente em determinados momentos é plenamente inteligível, ainda que careça de uma atenção mais dedicada do leitor. Fascinado por matemática e física quase sempre usa como personagem meio oculto, mas primordial, a linguagem, a comunicação entre nós e entre aquilo que nos rodeia no mundo, o que deixa os textos ainda mais intrigantes.  Exibe o que a ficção científica pode apresentar de melhor com tramas emblemáticas e surpreendentes, que como acontece com obras desse segmento fazem o leitor questionar sobre como estamos caminhando aqui neste pequeno planeta azul.

Nota: 8,0

Leia um trecho direto do site da editora, aqui.


Rita Lee Jones faz 70 anos agora em 2017. A artista fundamental para a música brasileira hoje curte a aposentadoria de forma tranquila e sem alardes. No ano passado resolveu enfim escrever e lançar sua autobiografia, esperada não somente pelos fãs mais ardorosos (que não são poucos), mas por todos amantes da música nacional. “Rita Lee – Uma Autobiografia” chegou às livrarias pela Globo Livros com 296 páginas escritas pela própria sem recorrer a ghost-writer e sem amansar para o próprio lado deixando os podres de fora. Para contar essa história usou capítulos curtos em uma ordem cronológica não muito rígida. O tom escolhido foi completamente informal com gírias e vez ou outra até parecendo uma adolescente, peralta como de costume. A metralhadora verbal atira de modo constante e com ironia perdoa pouquíssima gente, já que afirma que conta os amigos na palma da mão. Sobra para governos de todas as cores, para a crítica, para os Mutantes Arnaldo e Sérgio, para os amigos de profissão, para quase todo mundo. A ovelha negra volta à infância e lembra diabruras e traquinagens, não deixando de relatar fatos pesados como o abuso sexual que sofreu ainda criança dentro de casa por um cara que foi consertar algo lá. Conforme avança expõe a relação incessante com drogas e depois o álcool, além de todo o bundalelê que esteve presente, sendo quase uma Keith Richards do nosso cenário musical. Para quem espera detalhes sobre gravações ou relatos sobre criações e composições isso passa muito de raspão, mas na verdade não era de se esperar que a artista se debruçasse com afinco sobre isso. O livro invade mais a vida pessoal, a relação com aqueles a sua volta, as loucuras que cometeu e as coisas que sofreu (como as duas prisões, sendo uma grávida na ditadura). “Rita Lee – Uma Autobiografia” pode não ser o livro que tantos esperavam, contudo é a cara de sua autora, uma artista que vendeu mais de 50 milhões de discos na carreira e está entre as maiores de todos os tempos nesse quesito no Brasil.

Nota: 8,0

sábado, 21 de janeiro de 2017

Quadrinhos: "Mulher-Maravilha: Terra Um" e "Xampu - Volume I e II"


Depois de Superman e Batman aparecem na linha “Terra Um” da DC Comics em que autores podem escrever tramas fora do emaranhado que é a cronologia da editora, chegou a vez da Mulher-Maravilha completar a trindade dentro do projeto. Criada em 1941 por William Moulton Marston, a heroína bela e guerreira ganha uma repaginada nas origens através de roteiro de Grant Morrison (Sete Soldados da Vitória) e arte de Yanick Paquette (Monstro do Pântano). A Panini publicou aqui no final do ano passado toda a trama que originalmente saiu nos EUA também em 2016 para comemorar os 75 anos da princesa amazona. Com capa dura, lombada quadrada e 154 páginas, incluindo vários esboços de extras, temos a história de Diana imaginada pelo abade escocês que como de costume aborda as coisas de maneira diferente do usual. “Mulher-Maravilha: Terra Um” mostra a princesa não se contentando com o mundo a que está acostumada e deseja sair da Ilha Paraíso a qualquer custo, para desgosto da sua mãe e as habitantes do local. Ela recebe a oportunidade quando Steve Trevor (agora negro) despenca com seu avião e precisa urgentemente de ajuda para não morrer. É quando Diana aproveita a deixa e monta um plano para fugir ao mundo exterior e se deparar com cultura e pessoas totalmente diferentes. O autor não deixa de lado a mitologia que cerca a origem, mas tenta caminhar por outras ruas preenchidas por poder feminino, família, liberdade, respeito e uma sexualidade até então vista com rara frequência nas histórias da personagem, que tem reflexo na arte de Paquette que apresenta uma Diana extraordinariamente linda. Na proximidade da estreia do filme com Gal Gadot no papel da heroína prevista para junho desse ano, essa edição do Grant Morrison é mais que oportuna, ainda que com alguma inconsistência geral.

Nota: 7,0


O paulistano Roger Cruz é um dos artistas nacionais mais talentosos dentro dos quadrinhos já tem algum tempo com trabalhos de respeito na Marvel em revistas do X-Men e Hulk, entre outros. Em 2010 publicou pela editora Devir uma obra autoral onde assumia roteiro e arte para contar uma história com tons biográficos intitulada “Xampu: Lovely Losers”. No segundo semestre do ano passado a Panini Comics em parceria com o Stout Club decidiu (ainda bem) relançar a obra, parte inicial de uma trilogia. Ainda em 2016 a mesma dupla colocou no mercado o segundo volume da narrativa com lançamento na Comic Con Experience. “Xampu – Volume I” e “Xampu – Volume II” tem 80 páginas cada uma e são ambientadas no final dos anos 80 e início dos 90 retratando jovens preocupados em curtir a vida, bater papo, escutar rock, montar uma banda e descolar leves paixões no decorrer dessa jornada. Do outro lado dessa farra estão os anseios, sonhos e receios não só inerentes a idade, como também ao aumento de responsabilidades, a busca por grana e o tão assustador futuro que se apresenta nessas horas, ainda mais em um período de transformações sociais e culturais. Tanto na arte em preto e branco que insere drama e humor com a mesma competência, quanto na forma de contar a história que ora opta por ser mais individualizada, ora mais ampla, Roger Cruz comete um acerto atrás do outro. A obra apresenta um indubitável cheiro de nostalgia, contudo não se resume a isso, sendo que qualquer grupo de jovens que viveu em qualquer época pode ver a sua turma refletida em alguma das linhas dali em personagens como Max, Raquel, Sombra e Nicole, além dos causos e histórias como a ida ao primeiro grande festival de música. Mas é lógico que para quem viveu nesses anos o sabor é ainda mais doce e aprazível. Não deixe de ler.

Nota: 9,0



domingo, 15 de janeiro de 2017

Quadrinhos: "Bear - Volume 3" e "Sopa de Lágrimas"


Uma menininha de uns seis anos mais ou menos se perde dos pais e com sorte encontra alguém mais velho e pede ajuda para encontrá-los novamente. A bronca é que esse alguém é um urso meio rabugento que ela tem a estupenda ideia de despertar em uma caverna e que surpreendentemente comovido assume a incumbência. Essa é trama básica de “Bear” da quadrinhista curitibana Bianca Pinheiro, que publicada originalmente como uma webcomic ganhou versão impressa pela editora Nemo e já está no terceiro volume lançado no ano passado. “Bear – Volume 3” dá continuidade a jornada dos dois e dessa vez muda o local da aventura para dentro da água. Com 88 páginas e o mesmo formato dos anteriores (20x32cm), personagens já conhecidos retornam enquanto a dupla vai produzindo o bem enquanto tenta achar os pais de Raven. Bianca Pinheiro é dotada de um senso extremo de sensibilidade que espalha pelas páginas do álbum e que também podemos ver em outro lançamento seu chamado “Dora” e na Graphic MSP “Mônica: Força”. A fantasia infanto-juvenil que ela elabora nesta obra consegue ir além do público esperado e agrada com seus traços limpos e cores bem usadas. Além disso, brinda o leitor com diversas referências aqui e ali, umas bem óbvias e outras nem tanto que gera uma repentina satisfação ao se perceber, como também expande as formas de linguagem inserindo até a si mesmo como uma espécie de “oráculo”. Leve, descompromissada e divertida, mas sem ser boba demais, “Bear” mostra uma autora com completo domínio da história que conta e é leitura certeira para seu filho, sobrinho ou afilhado, que irão se encantar com as peripécias de Raven e Dimas.

Só uma dica: antes de passar a eles dê uma lida também. Não te arrependerás.

Nota: 7,0

Site de “Bear”: http://bear-pt.tumblr.com 


Pegue a literatura de Gabriel Garcia Márquez, José J. Veiga e Manuel Scorza e adicione obras de cunho juvenil daquelas que trazem humor, pirraças e descobertas. No meio coloque uma farta dose de sensualidade latina, sem muito pudor ou reserva disso para no final completar com acentuadas pitadas de escárnio e crítica social. O resultado de tudo é “Sopa de Lágrimas” (Heartbreak Soup, no original) do quadrinhista Gilbert Hernandez, mais conhecido por seu trabalho na necessária “Love And Rockets” feita junto com os irmãos. A editora Veneta resolveu relançar em 2016 a história no Brasil e o primeiro volume (outros dois estão previstos) tem 288 páginas, tradução de Marina Della Valle e cobre o período de publicação de 1983 a 1986. A obra que já recebeu elogios de nomes do porte de Robert Crumb, Howard Chaykin e Neil Gaiman se situa na fictícia Palomar, uma pequena (mas nada pacata) cidade situada em algum país da América do Sul. Para criar tão fielmente a ambientação e seus personagens o autor se valeu também das histórias que ouvia em casa de avós e tias que moraram no México antes de partirem para os EUA, sendo que boa parte desses causos foi repassado ao papel. Em preto e branco, com desenhos privilegiando formas e rostos e capítulos que vão e voltam no tempo sem ordem determinada, Gilbert Hernandez criou em “Sopa de Lágrimas” uma obra poderosa, visceral e divertida ao mesmo tempo. Com destaque para mulheres de personalidade forte como a fantástica Luba e a musculosa Chelo, o autor insere diversos outros personagens que pouco a pouco ganham a simpatia do leitor como Pipo, Carmem e o memorável Tip e sua relação nada fácil com amores não correspondidos. “Sopa de Lágrimas” é o tipo de obra altamente recomendável, o tipo de obra que faz dos quadrinhos uma arte mais rica e exuberante.

Nota: 9,5


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

"Forrest Gump" - Winston Groom


Quando “Forrest Gump” estreou nos cinemas em 1994 o sucesso foi imediato. O filme dirigido por Robert Zemeckis (da trilogia “De Volta Para o Futuro”) fez 480 milhões de dólares de bilheteria no mundo e de quebra levou 6 Oscars, entre eles melhor filme, diretor, ator e roteiro adaptado. O roteiro construído por Eric Roth (de “O Curioso Caso de Benjamin Button”) teve como material o livro de Winston Groom lançado em 1986, que tinha vendagem razoável até então e viu tudo se transformar depois do longa, alcançando a marca de mais de um milhão de cópias vendidas.

Ano passado o livro completou 30 anos e a editora Aleph publicou uma edição belíssima da obra que merece um lugar de destaque na biblioteca de qualquer um. Com 394 páginas e tradução caprichada de Aline Storto Pereira a edição ainda é abrilhantada por diversas ilustrações do gaúcho Rafael Albuquerque (de “Vampiro Americano”), um dos quadrinistas de maior destaque do país e conta com textos adicionais, incluindo um excelente ao final que compara livro e filme com muito mérito.

Isso é válido porque depois de ler “Forrest Gump” é impossível não compará-lo ao filme, visto que as diferenças são gritantes (e na maioria dos casos para pior). Lógico que literatura e cinema são coisas distintas e o que funciona em um campo pode não funcionar bem em outro. Realmente, se fosse para imaginar a transição das histórias do personagem principal para a sétima arte o roteiro deveria ajustar todos os excessos que Winston Groom se dá ao luxo de cometer no livro.

No livro, Forrest é um idiota como no filme, mas um idiota completamente diferente, consciente dos seus atos e que sabe bem onde está pisando. Além disso, carrega consigo uma carga satírica e crítica (ao seu modo) para o país e suas instituições como Exército e NASA. Ressalte-se também que o Forrest do livro é um cara com habilidade intelectual em certos segmentos e não aquele virgem pueril e sortudo que o filme de Zemeckis fez cravar na memória de todos.

Essa edição da Aleph é extremamente bem-vinda porque traz a uma gama nova de leitores o texto ácido e repleto de desconstrução que o autor imaginou para o protagonista. Mesmo considerando algumas forçadas além do ponto (principalmente na parte final), “Forrest Gump” ainda é um livro saborosíssimo de ser degustado, que deixa o leitor constantemente rindo sozinho no contraste provocado entre o absurdo e o ingênuo, como instiga pelas cutucadas que distribui para todos os lados.

Na construção que fizeram para o cinema além de adocicarem e amansarem o texto até não poder mais, praticamente todo o cunho político da obra foi retirado para agradar o americano médio, já que em determinada análise o filme nada mais é do que uma representação do “american way of life”, onde até mesmo um idiota sem muito conhecimento pode vencer na vida e virar um milionário. É de imaginar até que o Forrest do filme fosse por exemplo um dedicado eleitor de Donald Trump, enquanto o do livro iria pelo caminho inverso.

Mesmo que a decisão cinematográfica tenha obviamente rendido muitos frutos e o filme seja hoje um clássico com uma trilha sonora esplendorosa, o livro mostra o verdadeiro Forrest Gump imaginado pelo autor, um personagem que carrega até semelhanças com ícones da contracultura como Sal Paradise (de “On The Road” do Jack Kerouac) e passa distante do herói bobo que a maioria conhece. Então, leia o livro, pois vale muito a pena ainda mais nessa caprichada edição.

Nota: 9,0

sábado, 31 de dezembro de 2016

E que venha 2017!



Salve, salve minha gente amiga,

O ano que hoje termina não foi nada fácil. Passamos por um período extremamente delicado no campo político com um golpe disfarçado passando por um congresso repleto de interesses próprios (mais do que de costume) e eleições municipais que acenderam de vez a chama da intolerância não somente mais nas redes sociais como no nosso dia a dia. Parece que tudo que foi conquistado no campo da redução da desigualdade, dos direitos iguais, do racismo e da tolerância de qualquer tipo foi jogado no lixo em questão de meses. É um sentimento ruim que se crava lá no peito e parece não querer mais sair.

Para piorar tudo foi um ano que muitos mitos deixaram este mundo. Lógico, que todos um dia vão morrer, mas 2016 podia ter aliviado um pouco a dose. Esse ano partiram seres do porte de David Bowie, Prince, Leonard Cohen, Naná Vasconcelos, Umberto Eco, Alan Rickman, Ettore Scola, Gene Wilder e Carrie Fisher, entre outros. Nosso mundo fica mais pobre culturalmente, isso é mais que certo.

Contudo, vida que segue.

Continuei atualizando o blog do jeito que deu, da maneira que o trabalho permite, mas até que foi mantido uma constante nesse espaço que fez 11 anos em 2016 e tivemos um novo crescimento de visitas. Muito obrigado a todos que por aqui passaram e se somente uma pessoa leu um texto aqui e foi atrás da obra, já valeu a pena ter escrito. Quadrinhos e literatura continuaram sendo o foco por aqui durante 2016, mas sem esquecer das séries e do cinema, assim como da música que não sobrevivo sem.

Que 2017 seja mais leve, porém sabemos que dificilmente será. Os comentários e atos reacionários estão se alastrando como uma peste seja na sua rede social preferida, na mesa do bar ou na próxima esquina. Mas, a esperança ainda existe, mesmo que pequena, e nesse momento é por ela que devemos brigar. Sempre tentando fazer o melhor e transformando o mundo do jeito que podemos em um lugar de mais amor, tolerância, compaixão, diversidade, criatividade e generosidade. E que a cultura sempre sirva para aplacar as dores, criticar tudo que não presta e iluminar o globo com obras em todos os setores como foram as do ano que se encerra.

No mais, não dá para fugir. 2017 está aí e cabe a cada um de nós fazer daqui um lugar melhor. Vamos em frente. Um grande ano a todos.

Paz Sempre.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Quadrinhos: "The Last Of Us: Sonhos Americanos" e "O Soldador Subaquático"


“The Last Of Us” é um jogo de ação e sobrevivência desenvolvido pela Naughty Dog (de “Uncharted”). Com o sucesso na esfera dos games é comum que se invada outras mídias como os quadrinhos. Isso acontece em “The Last Of Us: Sonhos Americanos” que reúne as quatro edições publicadas originalmente pela Dark Horse em uma única revista, lançada aqui pela NewPOP Editora com 104 páginas. A casa mais acostumada com a publicação de mangás se aventura por outro estilo com bom cuidado editorial nessa trama desenvolvida em parceria pelo diretor criativo do jogo Neil Druckmann com Faith Erin Hicks, que também assume a arte do volume e conta com Rachelle Rosenberg nas cores. Optou-se por contar uma história de origem nessa hq, então ela ocorre antes dos eventos vividos no game (19 anos antes para ser mais exato), com foco na personagem Ellie, que ainda adolescente aqui convive com o início do surto que mata uma quantia considerável da população global. Ellie acaba de chegar a uma escola militar que representa um dos poucos lugares seguros das redondezas. Lá conhece outra garota chamada Riley e além de conquistar uma suada amizade com ela, passa a enxergar as coisas de modo um pouco mais ampliado. Isso somado a sua inconsequência juvenil, sua inquietação constante e a dificuldade de aceitar ordens prove bons momentos de ação na revista. A arte de Faith Erin Hicks incomoda um pouco na entrada mas depois serve bem aos propósitos de uma obra voltada ao público jovem. E aí reside o principal problema de “The Last Of Us: Sonhos Americanos”, que é funcionar somente para o público a que se destina. No mais, consegue agradar como expansão do universo do jogo, deixando os fãs felizes, o que deve ser a missão principal de franquias que se expõem para outras mídias.

Nota: 6,0


Jeff Lemire é um nome que dentro dos quadrinhos quase sempre é sinônimo de boa qualidade. Principalmente nas suas obras autorais, já que o trabalho dele na Marvel e na DC Comics tem alternado bons momentos e outros apenas razoáveis. Esse canadense que logo de estreia produziu “Essex County” (ainda inédita no Brasil infelizmente) engatou na sequencia a ótima “Sweet Tooth” (publicada totalmente aqui pela Panini). Em 2016 temos a oportunidade de ver mais uma criação dele chamada “O Soldador Subaquático” (The Underwater Welder, no original), que chega aqui no Brasil pela editora Mino com 224 páginas. Em preto e branco o autor conta a história de Jack que mora em uma região remota do Canadá onde exerce a profissão que dá nome a graphic novel em plataformas petrolíferas. Em um dos mergulhos ele tem de ser resgatado pelos companheiros que o salvam da morte e o encaminham para casa para ficar ao lado da mulher que está grávida de 9 meses. Só que Jack não consegue ficar quieto e parece ausente, distraído e preocupado com questões que nem mesmo sabe ao certo quais são. Apesar de não entender bem o que está acontecendo parte novamente para o mar deixando uma esposa furiosa para trás e nesse momento tem uma aventura pessoal intrigante e complexa. Jeff Lemire cria em “O Soldador Subaquático” uma história sobre paternidade, casamento, dor e culpa. Uma história sobre o amor de um filho para o pai, ao mesmo tempo em que descobre que existem imperfeições nessa figura e busca não cometer os mesmos erros. Um assunto delicado, mas tocado com extrema sutileza pelo autor com o traço meio caricato que já nos habituamos, olhares expressivos e precisos enquadramentos, adicionando assim mais um belo trabalho a carreira.

Nota: 8,0


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Cinema: "A Chegada" (2016)


Extraterrestres chegam ao nosso mundo. Espalham-se com várias naves ao longo do globo e deixam a população alarmada e os governos mais ainda. O clima de tensão e pavor está no ar, mas também certa ideia de se aproveitar da tecnologia dos aliens para benefícios próprios. Militares de vários países ficam a postos para se defender do provável inimigo, enquanto algumas pessoas conseguem ir mais além e se colocam no papel de salvadores de toda a humanidade.

Em filmes com esse tipo de enredo é normal se deparar com um improvável herói que surge para dar fim na invasão e deixar novamente o planeta em paz. Diversas vezes esse herói dá a volta por cima quando menos se espera ou faz um sacrifício danado mostrando uma nobreza suprema, além daquilo que a maioria seria capaz. Geralmente essas invasões são recheadas por explosões, naves voando para lá e para cá e tiros sendo dados de todos os lados.

Esse não é bem o ponto de “A Chegada” (Arrival, no original), novo filme do diretor Denis Villeneuve (de “Incêndios” e “Sicario”). O longa de 116 minutos que estreou nesse final de ano aqui no Brasil tem várias das situações citadas acima, todavia consegue trilhar um caminho totalmente diferente na execução, graças a condução afiada de um diretor em plena ascensão, o roteiro repleto de acertos e a edição perfeita de Joe Walker (de “12 Anos de Escravidão”).

O livro é baseado em um conto do americano Ted Chiang (Story Of Your Life, o nome), publicado aqui no país este ano junto com outros do autor no ótimo “História da Sua Vida e Outros Contos” da editora Intrínseca. O conto original que já era bom conseguiu ser repaginado de maneira exuberante por Eric Heisserer, roteirista até então de filmes ruins como “Premonição 5” e “Quando as Luzes Se Apagam”. Assim, temos uma coisa difícil de ver que é o filme ser melhor do que o texto que lhe serviu de base.

Na trama meio que já contada no primeiro parágrafo, aliens estão na terra. Mas não se mexem. Não se comunicam. Então, ninguém sabe quais as motivações. O exército americano representado pelo Coronel Weber (Forest Whitaker, na única atuação mediana do filme) monta uma equipe de especialistas de várias áreas para interagir com os visitantes. Nesse ponto que entram a professora e linguista Louise Banks (Amy Adams, deslumbrante) e o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner), que trabalham em conjunto com a CIA e os militares.

Ao mesmo tempo em que esse time trabalha para entender o que está acontecendo, outras equipes são montadas pelo mundo, como na China e Rússia. Um painel de comunicação e de pretensa cooperação é montado e com desconfiança e temor isso vai ocorrendo. Em paralelo, vemos na tela um pouco da história pessoal de Louise Banks e isso vai se relacionando devagarinho com os fatos principais, em um controle absurdo de Villeneuve no comando das cenas.

“A Chegada” é ficção científica das boas, digna de figurar entre as melhores do gênero nesse século. Com atuações exuberantes em sua maioria e um ritmo que vai conduzindo o espectador a um ápice até as revelações finais, versa em segundo plano sobre a necessidade de cooperação, a urgência da humanidade em andar de mãos dadas, o poder da linguagem e da escrita em tempos tão fúteis em relação a isso, e, principalmente, no peso das nossas escolhas, em saber desfrutar as alegrias e aguentar as dores nessa vida tão passageira.

Nota: 9,0

Assista a um trailer legendado:

domingo, 18 de dezembro de 2016

Quadrinhos: "Espiga" e “American Flagg! – Vol. 1”


Histórias em quadrinhos com tons de autobiografia já renderam obras magníficas no decorrer dos anos, exemplos não faltam disso. Mesmo que tenha virado uma espécie de “febre” e por conta da quantidade apareçam coisas com nível bem baixo, vez ou outra nos surpreendemos com álbuns interessantes nesse quesito como é o caso de “Espiga” do brazuca Felipe Portugal. O autor que tem várias tiras publicadas na página do Facebook chamada “Quadrinhos Insones” (do Diego Sanchez), se aventura em uma história mais longa, usando fatos da própria vida como material. “Espiga” teve lançamento no final de 2015, conta com 64 páginas e foi feito de maneira independente. Mostra o autor tendo que lidar com questões rotineiras da vida enquanto tenta assimilar o fim de um namoro e voltar a ser produtivo no trabalho. No meio disso surge uma “visita” inesperada que passa a habitar o mesmo espaço físico e serve para redirecionar algumas questões, como também dar uma revigorada no ar. O protagonista está naquele momento da vida que falta ambição, vontade, coragem, falta tudo. Em menor ou maior proporção todos já passamos por algo assim em determinado momento da vida, aquela falta de querer que assume e fica difícil ir em frente já que você acaba não vendo sentido em coisa nenhuma. Com uma paleta de cores e formato dos quadros que remete diretamente a excelente “Asterios Polyp” de David Mazzucchelli (lançada aqui no Brasil em 2011), Felipe Portugal esquiva-se dos habituais lugares comuns e cria uma obra divertida, mas que também discute a solidão da vida urbana e o peso do mundo sobre as costas.

Nota: 7,0


Tem artistas que são inconfundíveis, basta ver um desenho que já se sabe quem é o responsável por aquele traço. Howard Chaykin é um desses. O norte-americano nascido em Newark tem anos e mais anos de labuta e bons serviços prestados aos quadrinhos. No final de 2015 a Mythos decidiu publicar o início de um dos seus maiores trabalhos novamente por aqui. “American Flagg! – Vol. 1” tem capa dura, aparato requintado e 392 páginas. Reúne as 12 primeiras edições originais da série lançadas entre os anos de 1983 e 1984, além de uma nova história escrita em 2008 para o lançamento dessa coletânea nos EUA. A edição nacional aparece devidamente restaurada e conta com uma bela introdução do escritor vencedor do prêmio Pulitzer, Michael Chabon. O personagem principal é Reuben Flagg, um ator nascido na colônia americana do planeta Marte, que volta para ser um Ranger, membro da força mantenedora da paz comandada por governos e empresas. Ao chegar à Terra, ele se depara com um planeta onde os céus estão cobertos de fuligem e as planícies frutíferas estão apodrecidas. Além disso, o espírito de solidariedade, honra e honestidade que tanto ouvira falar está castrado da população em geral, com grandes empresas usando o povo como bem entende e a mídia se divertindo em jogos diários de manipulação. Nessa distopia iniciada no ano de 2030, Howard Chaykin promove ficção científica exemplar (com um pé no cyberpunk) e convida o leitor para entrar em um mundo vil, sem escrúpulos, onde até mocinhos cometem graves erros e tem decisões não muito distintas. “American Flagg! – Vol. 1” é daquelas obras que valem completamente o investimento, apresentando um dos ases da nona arte em um voo brilhante, sagaz, ácido e crítico. 

Nota: 9,0


domingo, 11 de dezembro de 2016

Comic Con Experience - São Paulo Expo (SP) - 01 a 04 de Dezembro de 2016


Em outubro conversando com um amigo meu em São Paulo comentei que voltaria para a Comic Con Experience no final do ano com o meu sobrinho. Ele logo na sequência falou: “Sério? Boa sorte, vais precisar”. Como ele já tinha ido, fiquei naquela de: “bom, já que está tudo pago e comprado, tomara que eu tenha essa sorte então”. Sorte, que na verdade acredito que nem precisei tanto assim, acho eu.

E conto as razões mais abaixo.

A edição 2016 da CCXP aconteceu de 1 a 4 de dezembro na São Paulo Expo, um local bem grande na Rodovia dos Imigrantes a mais ou menos uns 40 minutos da região da Avenida Paulista. Com o metrô como opção e uma boa quantidade de táxis disponíveis (tanto para ir quanto para voltar), o acesso não foi dos mais complicados, já passei perrengues muito piores indo para shows e festivais de música na capital paulista. Pelo contrário, estava até tranquilo chegar ao local apesar da distância e da grande quantidade de pessoas que passaram por lá (mais de 196 mil de acordo com os dados dos realizadores). E tudo pareceu bem seguro.

Não fui no dia de abertura, somente a partir de sexta, chegando por volta de umas 16:00hs. Como já tinha adquirido os ingressos/credenciais para o evento, o acesso foi calmo, apesar do longo caminho da chegada até a entrada propriamente dita. Nada demais. Na sexta havia um bom público, mas nada comparado ao mar de gente que encontrei no sábado e domingo, onde comecei a entender um pouco mais o “boa sorte” lá de outubro. Contudo, mesmo com bastante gente, o espaço ainda era trafegável, com mínimos esbarrões e apertos. Por ser um evento diário de 10 horas de duração, o movimento é cíclico, muitos vão embora enquanto outros chegam e isso ajuda bem.

Primeira tática adotada por mim e meu parceiro de jornada geek foi a de não perder tempo em filas enormes, a fim de explorar a maior quantidade possível de estandes e conversar com diversas pessoas e artistas no decorrer disso. Então, nada de encarar filas de várias horas para ver painéis disputados e sim focar naqueles com menor apelo para o grande público, que também são interessantes. E essa foi uma tática mais que acertada. Claro que como fã do Frank Miller e de Star Wars, por exemplo, queria estar nas apresentações, mas isso exigiria uma dedicação e um sacrifício de tempo que não entendo como necessário, mesmo respeitando fãs mais ardorosos que se empenham dessa maneira.

Essa decisão fez com que a Comic Con fosse extremamente válida e prazerosa. Estandes e mesas de artistas que estavam cheias em um dia ou um determinado horário, no outro estavam menores e dava para encarar. Essa alternância e quantidade de opções fez com que às 5 horas diárias passadas no evento (mais do que isso é complicado devido ao cansaço) fossem proveitosas e divertidas. Por exemplo: Na sexta não dava nem para entrar para ver as fantásticas armaduras dos Cavaleiros dos Zodíacos, mas no sábado entramos tranquilamente perto da hora do almoço. Almoço que nos leva a outra questão a ser avaliada: a alimentação.

Eram várias as opções de alimentação no decorrer do espaço. Espalhavam-se por toda a estrutura e tinham espaços próprios vinculados somente para isso. Tinha filas? Claro que tinha. É impossível ir para um evento desse porte e não se deparar com filas para alimentação, acredito eu. Contudo, eram filas “administráveis”. O máximo que passei em uma foi uns 20 minutos. Quem já foi para festival sabe que isso é razoável. Lógico, que o ideal era não ter fila alguma, mas não dá para sonhar com isso. Quanto aos preços, bom, esses estavam salgados para caramba, todavia nada muito diferente do que é praticado nesse tipo de evento.

Como estamos falando em preço aí vai uma crítica para os estandes. Entendo que todo mundo está ali para ter lucro e a coisa tem que ser viável e tal, mas podia se ter descontos maiores principalmente nas lojas maiores. Dava para encontrar coisa mais em conta, mas em vários casos o preço praticado era o mesmo da loja física ou virtual, com uma redução quase insignificante. Lógico e evidente que isso se relaciona com aquilo que vi e presenciei. Já na área do “Artist’s Alley”, onde passaram mais 450 artistas e editoras de quadrinhos, as coisas estavam um pouco melhores nesse quesito e dava para sair com a mochila repleta de obras adquiridas direto com os autores.

Dentro da pluralidade que é a CCXP, o “Artist’s Alley” foi minha área preferida. Lá estavam desde autores consagrados como Alan Davis, Simon Bisley, Peter Kuper, Eduardo Risso e Bill Sienkiewicz a feras nacionais como Gustavo Duarte, Fábio Moon, Gabriel Bá, Cris Peter, Roger Cruz e Vitor Cafaggi, entre tantos outros. Além disso, foi um prazer chegar com autores novos e menos conhecidos e conversar sobre seu trabalho e processo criativo, mesmo que rapidamente. Certeza de que os quadrinhos nacionais passam por um ótimo momento e estão em processo contínuo de crescimento não só quantitativo, mas primordialmente qualitativo.

E essa pluralidade que é a grande sacada e atrativo da CCXP. E por isso ela vale a pena. Agrega diversos universos em um único espaço. Lá estão quadrinhos de todas as espécies, literatura jovem, televisão e séries, cinema, games, animes, enxertado com questões profissionais de cada área em painéis e estandes como o do Senac, além de uma vasta gama de produtos relacionados a disposição.

Fui, me diverti vendo os cosplayers, vibrei pela primeira vez em uma partida de League of Legends (mesmo sem saber até agora os motivos certos), conversei com algumas pessoas que admiro o trabalho, conheci coisas novas, revi amigos, voltei a juventude na parte dos animes e relacionados em um ambiente totalmente alegre e com alto astral. Ao sair de lá no domingo, ficaram duas certezas: a primeira de que o mundo geek nunca esteve tão em alta e a segunda de que em 2017 eu volto, aliás, voltamos, meu sobrinho não vai deixar encarar essa sozinho de jeito nenhum.

Site oficial do evento: http://www.ccxp.com.br 


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Literatura: "Neuromancer" e "Deuses Americanos"


Ao chegar às livrarias em 1983, “Neuromancer” desembarcava em outro mundo, bem outro. Se a tecnologia atual não alcançou tudo que fora previsto em obras de ficção científica nesses mais de 30 anos, a intensidade que essa tecnologia exerce hoje em cima da sociedade e as facilidades que dispões são poderosas. William Gibson é uma espécie de pai do que se chamou de cyberpunk e o ápice maior disso é “Neuromancer”, livro inicial da chamada Trilogia de Sprawl que ainda tem “Count Zero” e “Mona Lisa Overdrive”. A obra que (merecidamente) ganhou fama e hoje é respeitada e citada como influência nas mais diversas mídias é uma aventura de ficção científica que explora temas como pós-humanidade, poder demasiado de corporações empresariais, fusão entre orgânico e sintético, bestificação do consumo, tecnologia como arma e imersão virtual. Pode-se dizer que sem ela, obras como “Matrix” dos irmãos Wachowski jamais teria existido. Para quem se depara com a história somente agora, ainda assim, o impacto é grande. Tanto pela linguagem criada, quanto pela interligação com coisas exploradas somente anos depois, “Neuromancer” é um livro feroz, que não deixa o leitor baixar a guarda por nenhum momento que seja e o faz entrar em uma espiral caótica de real e artificial que parece não ter fim. A editora Aleph publica esse ano uma nova edição do livro, com tratamento cuidadoso em 320 páginas e tradução de Fábio Fernandes. Aliás, traduzir algo como essa obra é um trabalho extremamente complexo para que se faça funcionar, o que aqui se consegue. O protagonista é Case, um jovem cowboy hacker doidão que vive em uma cidade tão louca quanto ele. Ao ser convidado (ou intimado) a fazer parte de uma missão que só se revela gradualmente acaba entrando em algo infinitamente maior do que imaginava e essa jornada não será nada fácil. Ainda que hoje algumas coisas pareçam datadas, a viagem concebida por William Gibson ainda merece e muito ser desfrutada. Embarque nela.

Nota: 8,0

Site oficial do autor: http://www.williamgibsonbooks.com 


Quando Neil Gaiman imaginou “Deuses Americanos” não sabia muito bem o que estava fazendo. Tinha o esboço da ideia geral na mente, contudo possuía várias ressalvas de como abordar uma história que tivesse tanto vínculo com os EUA e que usa o país como matéria-prima, sendo ele um inglês de Hampshire. Mas não é a toa que o escritor é um dos grandes da sua geração e a trama foi tomando forma e chegou muito além do que ele mesmo esperava. Quando da publicação original em 2001, “American Gods” teve muitas passagens cortadas pelos editores, mas depois de alguns anos uma “edição preferida do autor” chegou às lojas. É essa edição que a Intrínseca (que vem fazendo um trabalho de destaque nas obras do escritor) publica agora no Brasil com 576 páginas, tradução de Leonardo Alves e vários textos extras anexados. Em “Deuses Americanos” conhecemos Shadow, um presidiário que está prestes a ganhar liberdade e voltar para os braços da esposa amada, depois de uma decisão ruim ter atravessado o caminho. Quando está próximo a obter essa conquista, uma reviravolta tremenda ocorre e após isso o misterioso Wednesday aparece para mudar sua vida como ele nunca passou nem perto de imaginar. Essa nova edição da Intrínseca tem 128 páginas a mais que aquela lançada pela Conrad em 2011 e isso faz com a trama seja mais profunda, dando espaço para que Gaiman explore ainda mais as situações que apresenta. No livro, versa sobre a formação da maior potência do mundo e sua relação com aqueles responsáveis por isso que para lá migraram levando as crenças e deuses escondidos na sacola. Mesmo depois de 15 anos do lançamento a obra continua intensa, desnudando divindades, inserindo novas e transformando humanos enquanto mescla realidade e fantasia ao conversar sobre crenças, alma, ambição, desejo e traição.

Nota: 9,0

Leia um trecho no site da editora, aqui.