sábado, 18 de fevereiro de 2017

Literatura: “Infinita Highway: Uma Carona com os Engenheiros do Hawaii” e "Objetos Cortantes"


Dentro do rock nacional nascido nos anos 80 a banda Engenheiros do Hawaii era difícil de compreender. Com a figura controversa de Humberto Gessinger na frente vendeu mais de 100 mil de todos os discos da estreia de 1986 (“Longe Demais das Capitais”) até 1993 (“Filmes de Guerra, Canções de Amor”) e estourou com “O Papa é Pop” de 1990 que a levou para estádios, programas dominicais e tudo mais. Humberto colocou em livro em 2009 (“Pra Ser Sincero”) uma boa parte das aventuras desde o primeiro show, mas isso do ponto de vista dele, o que deixou de fora aquilo menos louvável em uma trajetória. “Infinita Highway: Uma Carona com os Engenheiros do Hawaii” do jornalista gaúcho Alexandre Lucchese chegou ano passado com a missão de dissecar esse fenômeno de modo mais amplo e explicar tamanha adoração pelo grupo e seu dono até hoje, uma vez que ele continua fazendo shows cheios pelo Brasil, mesmo que em intensidade menor. Com extenso trabalho de pesquisa, 328 páginas e publicação da editora Belas Letras, o livro apresenta a banda desde a formação em 1985 que seria para um único show até “Simples de Coração”, disco de 1995 que foi o último do baterista Carlos Maltz. Entre o vislumbre, a inadequação e o profissionalismo nos mostra perfis de artistas talentosos, mas pouco a vontade com o processo do negócio. Narra também as saídas de Carlos Stein (que depois fundaria o Nenhum de Nós), de Marcelo Pitz (baixista da estreia) e principalmente de Augusto Licks, o ótimo e experiente guitarrista que transformou a música do grupo. É um livro indicado para fãs, mas que não consegue avançar além, trazendo observações repetidas sem meter o dedo nas feridas com a intensidade que se esperava, além de ter decisões questionáveis como inserir depoimentos de fãs totalmente desnecessários. Assim como a banda, alterna boas e interessantes passagens com outras tão chatas como as músicas mais enfadonhas do grupo.

Nota: 5,0

Twitter do autor: http://twitter.com/alexandrelucche 



Com “Garota Exemplar” a escritora Gillian Flynn se tornou conhecida em boa parte do mundo, ainda mais depois da ótima adaptação cinematográfica feita pelo diretor David Fincher em 2014. No ano seguinte a editora Intrínseca lançou no Brasil a estreia dela chamada “Objetos Cortantes” (Sharp Objects, no original), que saiu nos EUA em 2006. Com 256 páginas e tradução de Alexandre Martins a obra tem como protagonista Camille Preaker que trabalha em um pequeno jornal de Chigago, longe dos líderes do setor. Por essa razão que o editor resolve enviá-la a pequena e pacata Wind Gap, no estado do Missouri, cidade onde ela cresceu e passou boa parte da vida. O intuito é fazer uma matéria sobre dois assassinatos de crianças que os grandes jornais ainda não prestaram atenção, pois estão voltados para outros assuntos, e assim dar um furo a pequena empresa. Receosa e muito relutante, Camille se manda para a cidade natal para ficar na casa da mãe que nunca se deu nada bem, do padrasto que mal fala e da pequena meia-irmã que não conhece direito. Durante o livro além de mostrar todas as agruras passadas e as marcas que deixaram na personagem principal, a autora leva o interesse pelo caso devagarinho para o caminho da obsessão, enquanto preenche os espaços com coadjuvantes repletos de segredos e disfunções. Em “Objetos Cortantes”, Gillian Flynn faz um suspense sombrio e digno, já expondo as qualidades que usou com grande destreza na obra de maior sucesso, como deixar a ambiguidade sempre presente e fazer um reviravolta na trama quando o leitor menos espera. A autora que já viu dois livros virarem filme (o já citado “Garota Exemplar” e também “Lugares Escuros”) verá “Objetos Cortantes” se transformar em série que por enquanto tem produção da HBO e a estupenda Amy Adams no papel de Camille Preaker. Nada mal.

Nota: 7,0

Site da autora: http://gillian-flynn.com


Leia um trecho do livro, aqui.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

"Quadrinhos": "Doutor Estranho - Shamballa" e "Ruínas"

Você tem nas mãos a oportunidade de conduzir a humanidade para uma nova época resplandecente e brilhante onde todo o potencial será alcançado na totalidade e o mundo será um lugar de paz e harmonia. Porém, tem um problema, um inimaginável problema no meio. Para que isso ocorra boa parte da população precisa ser obliterada, 3/4 para ser bem exato, e é você que ditará o processo. Parece papo de cientista maluco, de alguma seita radical ou de um tirano fanático, mas é essa situação que Stephen Strange precisa lidar em “Doutor Estranho - Shamballa” que a Panini Books relançou no país no final do ano passado com 68 páginas, capa dura e formato um pouco diferente do usual (21 x 28cm). Publicada em setembro de 1986 nos EUA, o álbum já tinha ganhado publicação anterior aqui no final dos anos 80 pela editora Abril, mas nem se compara ao capricho e o papel dessa nova edição. O argumento é elaborado em conjunto por J. M. DeMatteis (Moonshadow) e Dan Green (Wolverine), sendo que este último assume sozinho a belíssima arte pintada. A trama inicia quando no aniversário de morte de seu antigo mestre, o Doutor Estranho resolve voltar ao Himalaia para prestar homenagem ao Ancião, mas descobre que este lhe deixou uma incumbência nada fácil de ser resolvida. A missão é aceita com um pouco de dúvida no início e é levada adiante devido a confiança do Mestre das Artes Místicas no mentor e amigo. Entretanto essa dúvida vai aumentando no decorrer da sua ação levando o personagem principal a uma rota que inclui conhecimento pessoal, briga com o passado e a pressão das escolhas. Na verdade, “Doutor Estranho - Shamballa” é sobre isso, o poder das escolhas e o preço cobrado por elas, sendo envolvida por uma arte encantadora e um roteiro bem elaborado.
Nota: 7,0


Peter Kuper nasceu em 1958 nos Estados Unidos e se destacou no mundo dos quadrinhos por conta da revista “World War 3 Illustraded” e da tirinha “Spy Vs. Spy” que sai pela “MAD Magazine” desde o final dos anos 90, porém têm diversas outras obras no currículo que trazem sempre que possível um afiado olhar crítico tanto político, quanto social.  Uma dessas obras foi lançada aqui na Comic Con Experience do ano passado onde o autor esteve conversando e dando autógrafos. “Ruínas” (Ruins, no original) é de 2015 e chegou ao país pelo selo Jupati Books da Marsupial Editora. São 326 páginas de uma história magistralmente construída pelo autor e com uma arte do grau mais elevado possível. Peter Kuper entrelaça em “Ruínas” a busca de um casal para se encontrar com a viagem de uma borboleta monarca que migra do Canadá para o México e se constitui como observadora afiada. Samantha e George saem de Manhattan para Oaxaca no México para um ano sabático, onde a esposa quando jovem já passou um período e deixou alguns fantasmas. Ela em teoria vai para acabar de escrever um livro e ele, desempregado, para se renovar e projetar novos caminhos. Todavia, mais no fundo está o objetivo maior de deixar o casal mais alinhado e resolver questões pertinentes como a geração ou não de um filho em um mundo tão caótico e destrutivo. Mas o ambiente mexicano oferece outras nuances e quando menos se espera os dois estão envolvidos na briga política que acontece na região, com greves, opressões, corrupções e abuso policial. Enquanto isso a borboleta monarca passa por cidades com violência explodindo, fábricas contaminando o ar e rios completamente poluídos atestando todo o nosso cuidado com o mundo em que vivemos. “Ruínas” ganhou o conceituado prêmio Eisner no ano passado de melhor álbum gráfico, o que é justíssimo, pois de onde se olhe e como se veja é uma obra sensacional em todos os quesitos.

Nota 10,0


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Quadrinhos: "Astronauta - Assimetria" e "Você é um Babaca, Bernardo"


Quando “Astronauta - Magnetar“ foi publicado em 2012 talvez não se imaginasse que a iniciativa de fazer uma linha de graphic novels com os tradicionais personagens de Mauricio de Sousa fosse dar tão certo e chegar a 14 álbuns no total em menos de 5 anos, sem contar ainda os que estão por vir. Era incontestável o apelo de personagens tão cravados na mente do público, no entanto a empreitada avançou mais do que se ambicionava em números e, principalmente, qualidade. Danilo Beyruth (Bando de Dois) que iniciou essa jornada voltou a mais uma história com o viajante espacial em 2014 com “Astronauta – Singularidade” e no final do ano passado novamente com “Astronauta – Assimetria”. Se a segunda incursão não convenceu tanto assim em relação a estreia, dessa vez o resultado é do mesmo nível. Com páginas a mais do que antes (são 98 agora), a edição da Panini Comics que está disponível mais uma vez em dois formatos de capa (cartonada e dura) é uma história que pode ser lida individualmente, mas que sabiamente mantém vínculo e referências com as jornadas anteriores. Beyruth assume o roteiro e a arte (agora digital) e as cores ficam na responsabilidade de Cris Peter, que tira a missão de letra como de costume. Na trama, o Astronauta está na Terra descansando da última missão quando vê sua amada Ritinha na rua com uma criança e entra em parafuso voltando para a sede da BRASA (Brasileiros Astronautas) em busca de uma tarefa que lhe faça esquecer. Parte então para Saturno e vai se deparar com forças maiores do que está acostumado e uma situação inusitada ao final. Com quadros grandes, o autor consegue se aprofundar cada vez mais no personagem que assumiu, dando tons e novas modulações, ampliando o que já estava feito. Além disso, presta uma bonita homenagem a Jack Kirby com a inserção de figuras que remetem a trabalhos clássicos do mestre.

Nota: 8,0


Alexandre S. Lourenço já vinha fazendo bonito nos seus quadrinhos online e em “Robô Esmaga”, reunião de parte desse trabalho publicado em 2015. Em setembro do ano passado apresentou uma obra ainda mais interessante na primeira aventura mais longa que encara, longe das pequenas tiras habituais. “Você é um Babaca, Bernardo” tem 132 páginas e foi lançado pela editora Mino trazendo algumas ideias já exploradas antes pelo autor como cotidiano, rotina e inadequação social, mas embaladas em uma versão apurada e com apresentação sequencial. Mantendo o traço minimalista e quase não utilizando de quadros tradicionais, expondo novamente a experimentação que gosta de fazer, criou uma história arrebatadora sobre temas que em teoria não são interessantes no seu cerne, mas estão presentes em todos os lugares, em cada esquina. A maneira que encontra para narrar o dia a dia do personagem principal é notável e faz o leitor ficar atento a cada pequeno detalhe que insere gradativamente. Bernardo é um cara comum, com uma vidinha ordinária e sem quaisquer surpresas. Acorda, se arruma, vai ao trabalho, volta para casa, assiste televisão e dorme. No outro dia faz tudo de novo. Às vezes vai ao trabalho de ônibus, outras de bicicleta, porém sempre se posicionando no mesmo cubículo até a hora de retornar para casa. Rotina, rotina e mais rotina até que uma garota cruza o caminho e as coisas passam a ser olhadas por outro viés. Em “Você é um Babaca, Bernardo”, Alexandre S. Lourenço explora a relação entre mente e corpo, entre desejo e acomodação, entre inércia e vontade. Uma briga que no cansaço da vida é vencida na maioria das vezes pela opção mais fácil, o que acaba por deixar tudo mecânico e insosso. Explorando sabiamente esses pontos o autor apresenta uma obra que faz o leitor ponderar sobre o estado atual das coisas.

Nota: 9,0


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Top Top - Os Melhores de 2016


Salve, Salve minha gente amiga..

Abaixo, como de costume, coloco uma listinha simples dos melhores 17 discos nacionais e internacionais que passaram por aqui no ano que terminou. São eles:


MELHOR DISCO NACIONAL

01 - “Tropix” – Céu
02 – “Brutown” – The Baggios
03 – “Overseas” – Justine Never Knew The Rules
04 – “Mamba” – Sammliz
05 – “Eu, Você e a Manga” – Eu, Você e a Manga
06 – “O Futuro do Autoramas” – Autoramas
07 – “Em Cada Verso um Contra-Ataque” – Aíla
08 – “Boogie Naipe” – Mano Brown
09 – “Ivete” – Wado
10 – “Atlas” – Baleia
11 – “Forte” – Bruno Souto
12 – “Mahmundi” – Mahmundi
13 – “Melhor do Que Parece” – O Terno
14 – “Em Uma Missão de Satanás” – Zumbis do Espaço
15 – “Crocodilo” – Jonnata Doll e os Garotos Solventes
16 - "Outra Esfera" - Tassia Reis
17 - "A Coragem da Luz" - Rashid

MELHOR DISCO INTERNACIONAL

01 - “Give a Glimpse Of What Yer Not” – Dinosaur Jr.
02 - “Here” – Teenage Fanclub
03 - “You Know Who You Are” – Nada Surf
04 - “Head Carrier” – Pixies
05 - “Hypercaffium Spazzinate” – Descendents
06 – “Songs From The Pale Escape” – The Warlocks
07 – “The Psychedelic Swamp” – Dr. Dog
08 – “Tens Of Denial” – Car Seat Headrest
09 – “an the Anonymous Nobody…” – De La Soul
10 – “Blackstar” – David Bowie
11 – “Ellipsis” – Biffy Clyro
12 – “Shape Shift With Me” – Against Me!
13 – “Patch The Sky” – Bob Mould
14 – “Post Pop Depression” – Iggy Pop
15 – “Love And Hate” – Michael Kiwanuka
16 - "Wild Pendulum" - Trashcan Sinatras
17 - "Everything At Once" - Travis


P.S: A arte do post é de Amandine Van Ray. 

domingo, 29 de janeiro de 2017

Literatura: “História da Sua Vida e Outros Contos” e “Rita Lee - Uma Autobiografia”


Ted Chiang nasceu em Nova York em 1967 é formado em ciência da computação e escreve hábeis contos sobre ficção científica, o que já lhe rendeu prêmios literários desejados como o Nebula e o Hugo. Ano passado sua obra ganhou maior amplitude porque um conto seu foi adaptado para gerar o ótimo filme “A Chegada” de Denis Villeneuve o que fez a editora Intrínseca lançar no país em novembro de 2016 o livro “História da Sua Vida e Outros Contos” (Stories of Your Life and Others, no original) com 368 páginas e tradução de Edmundo Barreiros. O livro agrupa 8 contos publicados entre 1990 e 2002 em veículos diversos, além de uma pequena nota explicativa sobre cada um deles no final. De produção esporádica (ainda não escreveu duas dezenas de contos no total), Ted Chiang passeia com cuidado e muito garbo pelas histórias que propõe contar, seja nos questionamentos religiosos de “Torre de Babilônia” e “O Inferno é a Ausência de Deus”, seja em temas mais matemáticos como em “Divisão por Zero” ou na essência pura da ficção científica de “Gostando Do Que Vê: Um Documentário” e “História da Sua Vida” que dá nome ao livro e foi o conto adaptado para o já citado filme. O texto de Chiang por mais técnico que se apresente em determinados momentos é plenamente inteligível, ainda que careça de uma atenção mais dedicada do leitor. Fascinado por matemática e física quase sempre usa como personagem meio oculto, mas primordial, a linguagem, a comunicação entre nós e entre aquilo que nos rodeia no mundo, o que deixa os textos ainda mais intrigantes.  Exibe o que a ficção científica pode apresentar de melhor com tramas emblemáticas e surpreendentes, que como acontece com obras desse segmento fazem o leitor questionar sobre como estamos caminhando aqui neste pequeno planeta azul.

Nota: 8,0

Leia um trecho direto do site da editora, aqui.


Rita Lee Jones faz 70 anos agora em 2017. A artista fundamental para a música brasileira hoje curte a aposentadoria de forma tranquila e sem alardes. No ano passado resolveu enfim escrever e lançar sua autobiografia, esperada não somente pelos fãs mais ardorosos (que não são poucos), mas por todos amantes da música nacional. “Rita Lee – Uma Autobiografia” chegou às livrarias pela Globo Livros com 296 páginas escritas pela própria sem recorrer a ghost-writer e sem amansar para o próprio lado deixando os podres de fora. Para contar essa história usou capítulos curtos em uma ordem cronológica não muito rígida. O tom escolhido foi completamente informal com gírias e vez ou outra até parecendo uma adolescente, peralta como de costume. A metralhadora verbal atira de modo constante e com ironia perdoa pouquíssima gente, já que afirma que conta os amigos na palma da mão. Sobra para governos de todas as cores, para a crítica, para os Mutantes Arnaldo e Sérgio, para os amigos de profissão, para quase todo mundo. A ovelha negra volta à infância e lembra diabruras e traquinagens, não deixando de relatar fatos pesados como o abuso sexual que sofreu ainda criança dentro de casa por um cara que foi consertar algo lá. Conforme avança expõe a relação incessante com drogas e depois o álcool, além de todo o bundalelê que esteve presente, sendo quase uma Keith Richards do nosso cenário musical. Para quem espera detalhes sobre gravações ou relatos sobre criações e composições isso passa muito de raspão, mas na verdade não era de se esperar que a artista se debruçasse com afinco sobre isso. O livro invade mais a vida pessoal, a relação com aqueles a sua volta, as loucuras que cometeu e as coisas que sofreu (como as duas prisões, sendo uma grávida na ditadura). “Rita Lee – Uma Autobiografia” pode não ser o livro que tantos esperavam, contudo é a cara de sua autora, uma artista que vendeu mais de 50 milhões de discos na carreira e está entre as maiores de todos os tempos nesse quesito no Brasil.

Nota: 8,0

sábado, 21 de janeiro de 2017

Quadrinhos: "Mulher-Maravilha: Terra Um" e "Xampu - Volume I e II"


Depois de Superman e Batman aparecem na linha “Terra Um” da DC Comics em que autores podem escrever tramas fora do emaranhado que é a cronologia da editora, chegou a vez da Mulher-Maravilha completar a trindade dentro do projeto. Criada em 1941 por William Moulton Marston, a heroína bela e guerreira ganha uma repaginada nas origens através de roteiro de Grant Morrison (Sete Soldados da Vitória) e arte de Yanick Paquette (Monstro do Pântano). A Panini publicou aqui no final do ano passado toda a trama que originalmente saiu nos EUA também em 2016 para comemorar os 75 anos da princesa amazona. Com capa dura, lombada quadrada e 154 páginas, incluindo vários esboços de extras, temos a história de Diana imaginada pelo abade escocês que como de costume aborda as coisas de maneira diferente do usual. “Mulher-Maravilha: Terra Um” mostra a princesa não se contentando com o mundo a que está acostumada e deseja sair da Ilha Paraíso a qualquer custo, para desgosto da sua mãe e as habitantes do local. Ela recebe a oportunidade quando Steve Trevor (agora negro) despenca com seu avião e precisa urgentemente de ajuda para não morrer. É quando Diana aproveita a deixa e monta um plano para fugir ao mundo exterior e se deparar com cultura e pessoas totalmente diferentes. O autor não deixa de lado a mitologia que cerca a origem, mas tenta caminhar por outras ruas preenchidas por poder feminino, família, liberdade, respeito e uma sexualidade até então vista com rara frequência nas histórias da personagem, que tem reflexo na arte de Paquette que apresenta uma Diana extraordinariamente linda. Na proximidade da estreia do filme com Gal Gadot no papel da heroína prevista para junho desse ano, essa edição do Grant Morrison é mais que oportuna, ainda que com alguma inconsistência geral.

Nota: 7,0


O paulistano Roger Cruz é um dos artistas nacionais mais talentosos dentro dos quadrinhos já tem algum tempo com trabalhos de respeito na Marvel em revistas do X-Men e Hulk, entre outros. Em 2010 publicou pela editora Devir uma obra autoral onde assumia roteiro e arte para contar uma história com tons biográficos intitulada “Xampu: Lovely Losers”. No segundo semestre do ano passado a Panini Comics em parceria com o Stout Club decidiu (ainda bem) relançar a obra, parte inicial de uma trilogia. Ainda em 2016 a mesma dupla colocou no mercado o segundo volume da narrativa com lançamento na Comic Con Experience. “Xampu – Volume I” e “Xampu – Volume II” tem 80 páginas cada uma e são ambientadas no final dos anos 80 e início dos 90 retratando jovens preocupados em curtir a vida, bater papo, escutar rock, montar uma banda e descolar leves paixões no decorrer dessa jornada. Do outro lado dessa farra estão os anseios, sonhos e receios não só inerentes a idade, como também ao aumento de responsabilidades, a busca por grana e o tão assustador futuro que se apresenta nessas horas, ainda mais em um período de transformações sociais e culturais. Tanto na arte em preto e branco que insere drama e humor com a mesma competência, quanto na forma de contar a história que ora opta por ser mais individualizada, ora mais ampla, Roger Cruz comete um acerto atrás do outro. A obra apresenta um indubitável cheiro de nostalgia, contudo não se resume a isso, sendo que qualquer grupo de jovens que viveu em qualquer época pode ver a sua turma refletida em alguma das linhas dali em personagens como Max, Raquel, Sombra e Nicole, além dos causos e histórias como a ida ao primeiro grande festival de música. Mas é lógico que para quem viveu nesses anos o sabor é ainda mais doce e aprazível. Não deixe de ler.

Nota: 9,0



domingo, 15 de janeiro de 2017

Quadrinhos: "Bear - Volume 3" e "Sopa de Lágrimas"


Uma menininha de uns seis anos mais ou menos se perde dos pais e com sorte encontra alguém mais velho e pede ajuda para encontrá-los novamente. A bronca é que esse alguém é um urso meio rabugento que ela tem a estupenda ideia de despertar em uma caverna e que surpreendentemente comovido assume a incumbência. Essa é trama básica de “Bear” da quadrinhista curitibana Bianca Pinheiro, que publicada originalmente como uma webcomic ganhou versão impressa pela editora Nemo e já está no terceiro volume lançado no ano passado. “Bear – Volume 3” dá continuidade a jornada dos dois e dessa vez muda o local da aventura para dentro da água. Com 88 páginas e o mesmo formato dos anteriores (20x32cm), personagens já conhecidos retornam enquanto a dupla vai produzindo o bem enquanto tenta achar os pais de Raven. Bianca Pinheiro é dotada de um senso extremo de sensibilidade que espalha pelas páginas do álbum e que também podemos ver em outro lançamento seu chamado “Dora” e na Graphic MSP “Mônica: Força”. A fantasia infanto-juvenil que ela elabora nesta obra consegue ir além do público esperado e agrada com seus traços limpos e cores bem usadas. Além disso, brinda o leitor com diversas referências aqui e ali, umas bem óbvias e outras nem tanto que gera uma repentina satisfação ao se perceber, como também expande as formas de linguagem inserindo até a si mesmo como uma espécie de “oráculo”. Leve, descompromissada e divertida, mas sem ser boba demais, “Bear” mostra uma autora com completo domínio da história que conta e é leitura certeira para seu filho, sobrinho ou afilhado, que irão se encantar com as peripécias de Raven e Dimas.

Só uma dica: antes de passar a eles dê uma lida também. Não te arrependerás.

Nota: 7,0

Site de “Bear”: http://bear-pt.tumblr.com 


Pegue a literatura de Gabriel Garcia Márquez, José J. Veiga e Manuel Scorza e adicione obras de cunho juvenil daquelas que trazem humor, pirraças e descobertas. No meio coloque uma farta dose de sensualidade latina, sem muito pudor ou reserva disso para no final completar com acentuadas pitadas de escárnio e crítica social. O resultado de tudo é “Sopa de Lágrimas” (Heartbreak Soup, no original) do quadrinhista Gilbert Hernandez, mais conhecido por seu trabalho na necessária “Love And Rockets” feita junto com os irmãos. A editora Veneta resolveu relançar em 2016 a história no Brasil e o primeiro volume (outros dois estão previstos) tem 288 páginas, tradução de Marina Della Valle e cobre o período de publicação de 1983 a 1986. A obra que já recebeu elogios de nomes do porte de Robert Crumb, Howard Chaykin e Neil Gaiman se situa na fictícia Palomar, uma pequena (mas nada pacata) cidade situada em algum país da América do Sul. Para criar tão fielmente a ambientação e seus personagens o autor se valeu também das histórias que ouvia em casa de avós e tias que moraram no México antes de partirem para os EUA, sendo que boa parte desses causos foi repassado ao papel. Em preto e branco, com desenhos privilegiando formas e rostos e capítulos que vão e voltam no tempo sem ordem determinada, Gilbert Hernandez criou em “Sopa de Lágrimas” uma obra poderosa, visceral e divertida ao mesmo tempo. Com destaque para mulheres de personalidade forte como a fantástica Luba e a musculosa Chelo, o autor insere diversos outros personagens que pouco a pouco ganham a simpatia do leitor como Pipo, Carmem e o memorável Tip e sua relação nada fácil com amores não correspondidos. “Sopa de Lágrimas” é o tipo de obra altamente recomendável, o tipo de obra que faz dos quadrinhos uma arte mais rica e exuberante.

Nota: 9,5


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

"Forrest Gump" - Winston Groom


Quando “Forrest Gump” estreou nos cinemas em 1994 o sucesso foi imediato. O filme dirigido por Robert Zemeckis (da trilogia “De Volta Para o Futuro”) fez 480 milhões de dólares de bilheteria no mundo e de quebra levou 6 Oscars, entre eles melhor filme, diretor, ator e roteiro adaptado. O roteiro construído por Eric Roth (de “O Curioso Caso de Benjamin Button”) teve como material o livro de Winston Groom lançado em 1986, que tinha vendagem razoável até então e viu tudo se transformar depois do longa, alcançando a marca de mais de um milhão de cópias vendidas.

Ano passado o livro completou 30 anos e a editora Aleph publicou uma edição belíssima da obra que merece um lugar de destaque na biblioteca de qualquer um. Com 394 páginas e tradução caprichada de Aline Storto Pereira a edição ainda é abrilhantada por diversas ilustrações do gaúcho Rafael Albuquerque (de “Vampiro Americano”), um dos quadrinistas de maior destaque do país e conta com textos adicionais, incluindo um excelente ao final que compara livro e filme com muito mérito.

Isso é válido porque depois de ler “Forrest Gump” é impossível não compará-lo ao filme, visto que as diferenças são gritantes (e na maioria dos casos para pior). Lógico que literatura e cinema são coisas distintas e o que funciona em um campo pode não funcionar bem em outro. Realmente, se fosse para imaginar a transição das histórias do personagem principal para a sétima arte o roteiro deveria ajustar todos os excessos que Winston Groom se dá ao luxo de cometer no livro.

No livro, Forrest é um idiota como no filme, mas um idiota completamente diferente, consciente dos seus atos e que sabe bem onde está pisando. Além disso, carrega consigo uma carga satírica e crítica (ao seu modo) para o país e suas instituições como Exército e NASA. Ressalte-se também que o Forrest do livro é um cara com habilidade intelectual em certos segmentos e não aquele virgem pueril e sortudo que o filme de Zemeckis fez cravar na memória de todos.

Essa edição da Aleph é extremamente bem-vinda porque traz a uma gama nova de leitores o texto ácido e repleto de desconstrução que o autor imaginou para o protagonista. Mesmo considerando algumas forçadas além do ponto (principalmente na parte final), “Forrest Gump” ainda é um livro saborosíssimo de ser degustado, que deixa o leitor constantemente rindo sozinho no contraste provocado entre o absurdo e o ingênuo, como instiga pelas cutucadas que distribui para todos os lados.

Na construção que fizeram para o cinema além de adocicarem e amansarem o texto até não poder mais, praticamente todo o cunho político da obra foi retirado para agradar o americano médio, já que em determinada análise o filme nada mais é do que uma representação do “american way of life”, onde até mesmo um idiota sem muito conhecimento pode vencer na vida e virar um milionário. É de imaginar até que o Forrest do filme fosse por exemplo um dedicado eleitor de Donald Trump, enquanto o do livro iria pelo caminho inverso.

Mesmo que a decisão cinematográfica tenha obviamente rendido muitos frutos e o filme seja hoje um clássico com uma trilha sonora esplendorosa, o livro mostra o verdadeiro Forrest Gump imaginado pelo autor, um personagem que carrega até semelhanças com ícones da contracultura como Sal Paradise (de “On The Road” do Jack Kerouac) e passa distante do herói bobo que a maioria conhece. Então, leia o livro, pois vale muito a pena ainda mais nessa caprichada edição.

Nota: 9,0

sábado, 31 de dezembro de 2016

E que venha 2017!



Salve, salve minha gente amiga,

O ano que hoje termina não foi nada fácil. Passamos por um período extremamente delicado no campo político com um golpe disfarçado passando por um congresso repleto de interesses próprios (mais do que de costume) e eleições municipais que acenderam de vez a chama da intolerância não somente mais nas redes sociais como no nosso dia a dia. Parece que tudo que foi conquistado no campo da redução da desigualdade, dos direitos iguais, do racismo e da tolerância de qualquer tipo foi jogado no lixo em questão de meses. É um sentimento ruim que se crava lá no peito e parece não querer mais sair.

Para piorar tudo foi um ano que muitos mitos deixaram este mundo. Lógico, que todos um dia vão morrer, mas 2016 podia ter aliviado um pouco a dose. Esse ano partiram seres do porte de David Bowie, Prince, Leonard Cohen, Naná Vasconcelos, Umberto Eco, Alan Rickman, Ettore Scola, Gene Wilder e Carrie Fisher, entre outros. Nosso mundo fica mais pobre culturalmente, isso é mais que certo.

Contudo, vida que segue.

Continuei atualizando o blog do jeito que deu, da maneira que o trabalho permite, mas até que foi mantido uma constante nesse espaço que fez 11 anos em 2016 e tivemos um novo crescimento de visitas. Muito obrigado a todos que por aqui passaram e se somente uma pessoa leu um texto aqui e foi atrás da obra, já valeu a pena ter escrito. Quadrinhos e literatura continuaram sendo o foco por aqui durante 2016, mas sem esquecer das séries e do cinema, assim como da música que não sobrevivo sem.

Que 2017 seja mais leve, porém sabemos que dificilmente será. Os comentários e atos reacionários estão se alastrando como uma peste seja na sua rede social preferida, na mesa do bar ou na próxima esquina. Mas, a esperança ainda existe, mesmo que pequena, e nesse momento é por ela que devemos brigar. Sempre tentando fazer o melhor e transformando o mundo do jeito que podemos em um lugar de mais amor, tolerância, compaixão, diversidade, criatividade e generosidade. E que a cultura sempre sirva para aplacar as dores, criticar tudo que não presta e iluminar o globo com obras em todos os setores como foram as do ano que se encerra.

No mais, não dá para fugir. 2017 está aí e cabe a cada um de nós fazer daqui um lugar melhor. Vamos em frente. Um grande ano a todos.

Paz Sempre.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Quadrinhos: "The Last Of Us: Sonhos Americanos" e "O Soldador Subaquático"


“The Last Of Us” é um jogo de ação e sobrevivência desenvolvido pela Naughty Dog (de “Uncharted”). Com o sucesso na esfera dos games é comum que se invada outras mídias como os quadrinhos. Isso acontece em “The Last Of Us: Sonhos Americanos” que reúne as quatro edições publicadas originalmente pela Dark Horse em uma única revista, lançada aqui pela NewPOP Editora com 104 páginas. A casa mais acostumada com a publicação de mangás se aventura por outro estilo com bom cuidado editorial nessa trama desenvolvida em parceria pelo diretor criativo do jogo Neil Druckmann com Faith Erin Hicks, que também assume a arte do volume e conta com Rachelle Rosenberg nas cores. Optou-se por contar uma história de origem nessa hq, então ela ocorre antes dos eventos vividos no game (19 anos antes para ser mais exato), com foco na personagem Ellie, que ainda adolescente aqui convive com o início do surto que mata uma quantia considerável da população global. Ellie acaba de chegar a uma escola militar que representa um dos poucos lugares seguros das redondezas. Lá conhece outra garota chamada Riley e além de conquistar uma suada amizade com ela, passa a enxergar as coisas de modo um pouco mais ampliado. Isso somado a sua inconsequência juvenil, sua inquietação constante e a dificuldade de aceitar ordens prove bons momentos de ação na revista. A arte de Faith Erin Hicks incomoda um pouco na entrada mas depois serve bem aos propósitos de uma obra voltada ao público jovem. E aí reside o principal problema de “The Last Of Us: Sonhos Americanos”, que é funcionar somente para o público a que se destina. No mais, consegue agradar como expansão do universo do jogo, deixando os fãs felizes, o que deve ser a missão principal de franquias que se expõem para outras mídias.

Nota: 6,0


Jeff Lemire é um nome que dentro dos quadrinhos quase sempre é sinônimo de boa qualidade. Principalmente nas suas obras autorais, já que o trabalho dele na Marvel e na DC Comics tem alternado bons momentos e outros apenas razoáveis. Esse canadense que logo de estreia produziu “Essex County” (ainda inédita no Brasil infelizmente) engatou na sequencia a ótima “Sweet Tooth” (publicada totalmente aqui pela Panini). Em 2016 temos a oportunidade de ver mais uma criação dele chamada “O Soldador Subaquático” (The Underwater Welder, no original), que chega aqui no Brasil pela editora Mino com 224 páginas. Em preto e branco o autor conta a história de Jack que mora em uma região remota do Canadá onde exerce a profissão que dá nome a graphic novel em plataformas petrolíferas. Em um dos mergulhos ele tem de ser resgatado pelos companheiros que o salvam da morte e o encaminham para casa para ficar ao lado da mulher que está grávida de 9 meses. Só que Jack não consegue ficar quieto e parece ausente, distraído e preocupado com questões que nem mesmo sabe ao certo quais são. Apesar de não entender bem o que está acontecendo parte novamente para o mar deixando uma esposa furiosa para trás e nesse momento tem uma aventura pessoal intrigante e complexa. Jeff Lemire cria em “O Soldador Subaquático” uma história sobre paternidade, casamento, dor e culpa. Uma história sobre o amor de um filho para o pai, ao mesmo tempo em que descobre que existem imperfeições nessa figura e busca não cometer os mesmos erros. Um assunto delicado, mas tocado com extrema sutileza pelo autor com o traço meio caricato que já nos habituamos, olhares expressivos e precisos enquadramentos, adicionando assim mais um belo trabalho a carreira.

Nota: 8,0