terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Arcade Fire - São Paulo - Arena Anhembi - 09.12.2017



É sempre louvável quando uma banda/artista sai em busca de novos horizontes musicais, tecendo sonoridades diferentes daquelas que a consagraram, mesmo que isso gere rebuliço entre os fãs de primeira ordem. A mesmice é algo realmente devastador dentro desse universo, apesar da segurança garantida na maioria das vezes. Todavia, não necessariamente essas guinadas resultam em trabalhos de boa qualidade. Admirar a coragem de mudar é uma coisa, apreciar o trabalho já é outra bem diferente.

Foi o que aconteceu com o Arcade Fire desde “Reflektor” de 2013. Depois de uma trinca de discos iniciais que levaram a banda a fenômeno indie e mais além, fechando festivais no mundo todo, o fraco álbum de 2013 já apresentava outra postura, mais oitentista, dançante, mais pop e brilhante, o que não funcionou muito bem. No mais recente trabalho desse ano, “Everything Now”, essas direções avançaram mais incluindo uma pegada disco e mais dançante ainda. O que também não rendeu bons frutos.

E foi com a turnê desse álbum intitulada “Infinite Content” que o grupo desembarcou no Brasil para shows no Rio de Janeiro e em São Paulo. A turnê sofreu bastante até agora pelo tamanho que banda e produtores imaginaram. O Arcade Fire que na época do “The Suburbs” de 2010 realmente era uma das maiores bandas do planeta, diminuiu a partir do momento que os discos foram ficando ruins. Essa é a relação direta, diga-se. Pela pegada mais dançante, imaginou-se que um novo público viria e shows maiores esgotariam. Ledo engano.

São Paulo foi um desses casos. O show do último sábado (9) antes previsto para o espaço tradicional do sambódromo no Anhembi que cabe entre 25 mil e 30 mil pessoas foi redirecionado para outra área que comporta umas 10 mil (e que devia ter um pouco menos). E isso acabou sendo um acerto, pois ficou do tamanho justo e proporcionou ao público que estava alocado na pista normal ficar na arquibancada em posição muito melhor, onde a participação no show teve ótimos reflexos.

O show de abertura dos colombianos do Bomba Estéreo calcado na fase mais recente foi além de desanimador, bastante constrangedor e sofrível. Pontualmente às 21:30hs começou a papagaiada de entrada no Arcade Fire no palco, com uma apresentação como se fosse de boxe e o palco com cordas de ringue. Engraçado, divertido, mas percebe-se o tanto que a produção viajou na maionese no atual momento da banda. Win Butler (que já havia passeado lá por baixo antes) e trupe subiram com a missão de convencer o público da validade das suas escolhas.

Com muita vontade, muita mesmo, e total entrega no palco, o Arcade Fire começou com “Everything Now”, provavelmente a única canção que se salve no novo disco junto com “We Don’t Deserte Love” que apareceu no bis. Depois engatou para catarse geral “Rebellion (Lies)”. Quando veio a dobradinha “Here Comes The Night Time” e “Haiti”, a bateria da escola de samba Acadêmicos do Tatuapé subiu para engrossar a batucada e depois de um começo meio desconexo até que rendeu um bom resultado, ainda que muita gente possa ter entendido como desnecessário.

Além da postura energizante no palco e do cuidado com os fãs, tentando apresentar a maior simplicidade possível, a banda ainda se envolve em causas válidas constantemente. No show de São Paulo, por exemplo, doou parte do cachê para um projeto social, assim como já tinha feito no Rio. Intercalando músicas novas bem sofríveis como “Chemistry”, “Peter Pan” e “Eletric Blue”, com algumas das suas grandes canções como “Neighborhood #1 (Tunnels)”, “The Suburbs” e “Ready to Start”, o show se sustentava interessante, principalmente pelo público que se envolvia bastante mesmo que tocasse um tango no palco.

Porém, no terço final do show tudo caiu acentuadamente, em uma confusão insípida de canções como “Reflektor”, “Afterlife”, “We Exist”, “Creature Comfort” e até mesmo “Neighborhood #3 (Power Out)”. Minutos pareceram horas. O bis veio com a bonita e já citada “We Don´t Desert Love” com Win Butler novamente no chão com a galera, mais uma vinheta do “Everything Now” e o final avassalador com “Wake Up” que fez até mesmo esquecer temporariamente as partes ruins.

Depois de 2 horas e meia de show (um pouquinho mais) entre as conclusões que podemos chegar a mais importante talvez seja que o Arcade Fire ainda é uma grande banda no palco, capaz de envolver o público e promover momentos emocionantes. Até mesmo as canções fracas ficam menos piores ao vivo (ainda que não se tornem boas) e não há o que reclamar da postura e envolvimento da banda. Apesar dos pesares, o show de São Paulo mostra que não se deve desistir deles e que ainda é permitido acreditar.

P.S: Todas as fotos são de Celso Tavares do site G1. Mais aqui: https://goo.gl/V5Ehd6 

domingo, 10 de dezembro de 2017

Cinema: "Extraordinário", "Assassinato no Expresso do Oriente" e “Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe”


August Pullman, mais conhecido como Auggie, tem 10 anos e uma vida bem diferente da maioria das crianças da mesma idade. Desde que nasceu passou por 27 cirurgias para corrigir diversas situações e mesmo com o sucesso delas seu rosto ainda exibe deformidades acentuadas. Educado pela mãe em casa e amparado em toda uma rede de proteção familiar, vê as coisas mudarem quando começa a ir para a escola pela primeira vez e passa a lidar com todo o assombro e preconceito dos demais alunos. “Extraordinário” (Wonder, no original) que estreia agora no Brasil é a adaptação do livro homônimo da escritora R. J. Palacio que fez bastante sucesso e rendeu trabalhos posteriores para aproveitar isso. Dirigido por Stephen Chbosky (autor do livro e roteirista do filme “As Vantagens de Ser Invisível”) é bastante fidedigno as páginas e apresenta Jacob Tremblay (do ótimo “O Quarto de Jack”) no papel principal, com Julia Roberts e Owen Wilson como os pais. A maior parte da película é narrada pela visão do protagonista, porém, os demais envolvidos como coadjuvantes também contam sua visão da história na tela. A mensagem de “Extraordinário” é nobre e mais do que nunca necessária. Respeitar as diferenças e aqueles que não são iguais a gente é preciso e ainda avança delicadamente sobre a questão do bullying. Contudo, é a típica produção feita sob medida para emocionar o espectador. Tudo é pensado nesse sentido. Cada frase, cada gesto, cada mensagem que fica nas entrelinhas. Tradicional longa que pega uma ideia de validade universal e a transforma em produto açucarado para o grande público. Com atuações bem medianas, exceção feita a Jacob Tremblay, Izabela Vidovic que interpreta a irmã e Sônia Braga que faz a avó materna, o filme emociona por conta da mensagem, mas incomoda em igual escala por tamanha plastificação.

Nota: 5,0


Há muita coisa para se admirar na carreira do norte-irlandês Kenneth Branagh. O ator, diretor, roteirista e produtor tem várias obras respeitáveis no currículo como as adaptações de William Shakespeare para o cinema. Em 2017 ele parte para a incumbência de jogar o universo de suspense, crimes e mistério da escritora Agatha Christie para as telonas e inicia com o famoso “Assassinato no Expresso do Oriente” (Murder on The Orient Express), publicado originalmente em 1934, onde é responsável pela direção e interpretação do protagonista, o hábil detetive belga Hercule Poirot. O livro já teve adaptações anteriores, mas agora é apresentado com um elenco repleto de estrelas formado por Daisy Ridley, Penélope Cruz, Johnny Deep, Michele Pfeiffer, Judi Dench, Josh Gad e William Dafoe. Além disso faz parte de um plano maior de levar mais trabalhos da autora para um novo público. A trama foi modificada um pouco pelo roteirista Michael Green, todavia mantêm a essência intacta. Durante uma viagem no expresso do título ocorre um assassinato que logo cai nos braços de Poirot para resolver quando a neve tira o transporte dos trilhos e os impedem de ir adiante. Ali, parados e sem auxílio, o detetive parte para a resolução do caso, mas se depara com uma vastidão de dissimulações, mentiras e informações desconexas que o travam na busca rápida ao culpado, coisa não muito comum na carreira e que o deixa meio transtornado. Com ritmo lento e sincopado, Kenneth Branagh conduz o filme revelando um pouco de cada vez e, para quem não conhece o livro ou viu as adaptações anteriores, deixa o mistério em alta até o esperado último momento. Esse ritmo cadenciado pode até não agradar os espectadores acostumados com filmes a 180 por hora a todo momento, mas servem perfeitamente ao trabalho em questão.

Nota: 7,0


Harold Meyerowitz (Dustin Hoffman) é um escultor e ex-professor universitário que teve relativo destaque na primeira profissão e foi mais aplaudido na segunda. Amargurado com o reconhecimento que nunca teve, mas fazendo com que isso não transpareça tão fácil (pelo menos ele acha que não) mora em uma boa casa com a mais recente esposa Maureen (Emma Thompson). É o personagem de Hoffman que serve de ponto de partida para todos os acontecimentos de “Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe” (The Meyerowitz Stories, no original), uma produção do Netflix que causou discussão esse ano sobre a possibilidade de longas feitos e distribuídos na plataforma poderem participar de festivais (foi exibido em Cannes). Discussões à parte, o novo filme do diretor Noah Baumbach (de “Frances Ha”, “Margot e o Casamento” e “Lula e a Baleia”) é um ótimo trabalho. Explora temas já conhecidos na sua filmografia e apresenta personagens deslocados e com pouca aptidão social no meio de relações disfuncionais na maioria das vezes. Tudo tem início quando Danny (Adam Sandler, talvez no trabalho mais interessante da carreira) chega para passar uns dias com o pai em Nova York junto com a filha Eliza (Grace Van Patten). Danny largou a carreira de músico para criar a filha e agora que está divorciado e a filha vai para a Universidade está perdido, bem perdido. No decorrer da trama aparecem a irmã Jean (Elizabeth Marvel) e Matthew (Ben Stiller), todos igualmente detonados pelos anos de convivência com o egoísmo e rancor escondido do pai. Com diálogos afiados que se cortam e atravessam em uma dinâmica que só os próprios personagens entendem, Noah Bambuach extrai de cada ator um trabalho contundente em um drama familiar maluco que no meio dos acontecimentos usa o humor como forma de amenizar as pesadas dores silenciadas.

Nota: 8,0

Assista aos trailers legendados: 



sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Quadrinhos: “Hellblazer - Volume 1”, "Reparos" e "Olimpo Tropical"

 

Depois de perambular pelos Estados Unidos e aprontar das suas em Nova York, John Constantine está de volta para casa com os velhos artifícios debaixo da(s) manga(s), mas também uma saudade danada do lar (ainda que não confirme de jeito algum). É isso que vemos em “Hellblazer - Volume 1” da Panini Comics que reúne em um encadernado de 164 páginas as seis primeiras edições da revista original dentro do “renascimento” da DC lançadas nos EUA entre setembro de 2016 e março de 2017. O roteiro é de Simon Oliver (da boa “DPF: Departamento de Polícia da Física) e a arte é de Moritat, Pia Guerra e José Marzán Jr. Ao voltar para Londres depois de mais uma das suas maracutaias, Constantine encontra velhos conhecidos como o parceiro de sempre Chas Chandler. Quando menos espera já está imerso em outra aventura estranha ao lado do Monstro do Pântano e da psíquica Mercury. As histórias elaboradas por Simon Oliver nessa nova fase são aceitáveis, com o humor e sarcasmo que se espera do personagem e uma aventura digna. Aprazível de ler, mas nada que faça frente as melhores empreitadas da carreira pouco comum de John Constantine.

Nota: 5,0


É muito bom quando somos jovens e temos ao lado alguém que nos incentive, que nos ensine coisas (mesmo que não aprendamos bem), que nos dê direcionamento para levar uma vida do lado do bem, que sirva como uma espécie de mestre, de Yoda. Pode ser um pai, um irmão, um tio ou um avô, que foi o caso do quadrinista Brão Barbosa (de “Jesus Rocks”). Depois de 2 anos de produção e agraciado pelo ProacSP ele lança “Reparos” em 2017, uma bonita homenagem para o avô falecido em 2014. Com 84 páginas onde assume tanto arte quanto roteiro, a hq conta a história de Eunice, uma simpática garotinha que adora consertar, mexer em tudo e projetar coisas (como um foguete). Eunice ainda busca compreender o mundo a sua volta e as pessoas enquanto brinca com sua turminha, até que uma figura inesperada surge para lhe ajudar nessa caminhada. O autor explora bem essa questão da turminha, da infância, joga umas referências aqui e ali e com ajuda das ótimas cores de Mariane Gusmão cria uma obra carregada de tons fofos e bastante emoção. O tom infantil utilizado, na verdade, serve para mascarar algumas questões maiores. E serve bem.

Nota: 7,0

Site bem legal do autor: http://braobarbosa.com


Biúca é um adolescente que mora na (fictícia) favela Olimpo no Rio de Janeiro, acostumado desde moleque com o tráfico e tudo que vem junto. Por conta de ser manco e ter uma perna menor que a outra desde que nasceu, tendo que andar ajudado por uma bengala, é motivo de chacota constante. Quando é promovido de embalador a vigia dentro da organização que comanda o morro, isso lhe traz moral e a chance de vingança. O carioca André Diniz (Morro da Favela) e o paulista Laudo Ferreira (Yeshuah Absoluto) se unem em “Olimpo Tropical” para contar uma história forte e retrato fiel de favelas e periferias espalhadas pelo país. Com 144 páginas e lançamento pelo selo Jupati Books da Marsupial Editora, temos um dos grandes trabalhos de 2017. A arte em preto e branco de Laudo Ferreira usando um estilo cartunesco nos personagens é excelente, dando as medidas necessárias para o texto de André Diniz, que sem perdão dispara sobre criminalidade, corrupção policial, possibilidades e esperanças perdidas. “Olimpo Tropical” é o que chamamos de “soco no estômago” (ou em partes mais dolorosas) e quando se termina de ler a pergunta que não para de martelar é: quantos e quantos Biúcas não existem por aí?

Nota: 9,0

Twitter dos autores:
- http://twitter.com/laudoferreira 






terça-feira, 28 de novembro de 2017

Séries: "Ozark" e "Preacher"


Marty Byrde (Jason Bateman) e Bruce Lidell (Josh Randall) tem uma bem-sucedida empresa de consultoria financeira em Chicago. O primeiro tem estilo calmo, é mais técnico e leva uma vida boa, mas sem grandes esbanjamentos. Já o segundo é expansivo, falador e gosta de exibir o dinheiro que ganha e se gabar disso. Por trás desse sucesso todo e transformação de pequeno empreendimento para algo maior está um dos maiores cartéis de droga do México, que tem seu dinheiro lavado e convertido em limpo pela empresa da dupla. Quando Lidell dá o passo maior que a perna e desvia grana dos mexicanos, Byrde entra em uma fria, onde para ganhar tempo e se salvar muda com a família de Illinois para o Missouri, na pacata região do lago que empresta o nome a série. Criada pela dupla Bill Dubuque e Mark Williams que trabalharam juntos em filmes como “O Contador” e “Um Homem de Família”, “Ozark” tem 10 episódios na primeira temporada (uma segunda já foi confirmada) que foram disponibilizados de uma vez só no Netflix em julho desse ano. Mais um dos produtos originais da plataforma, a série rendeu comparações imediatas com “Breaking Bad”, mas envereda por outros caminhos e com atitudes bem diversas do personagem principal. Jason Bateman está surpreendente no papel, com uma performance que não estamos muito habituados a ver nos filmes em que estrela. Junto a ele como esposa está a sempre ótima Laura Linney que tem importância direta no desenrolar de tudo. Com elenco de apoio bem utilizado e atuações consistentes, “Ozark” é uma daquelas séries que trazem a capacidade de prender o espectador na poltrona episódio após episódio. Com ótima fotografia usando tons escuros e sombrios para dar o tom tenso, temos uma das melhores produções que debutaram nesse ano.

Nota: 8,0


“Preacher” é uma das histórias mais incríveis dos quadrinhos. Com roteiro de Garth Ennis, arte de Steve Dillon e capas de Glenn Fabry foram 66 edições normais e mais 6 especiais (sim, 666), todas já publicadas aqui pela Panini. No primeiro semestre do ano passado uma série televisiva adaptando a obra estreou nos Estados Unidos em produção do canal AMC. Criada pelo astro Seth Rogen em parceria com Evan Goldberg e Sam Catlin, pretendeu levar para a telinha o bizarro e estrondoso universo concebido por Ennis e Dillon com muita acidez, violência e humor negro. Tarefa nada fácil, diga-se, afinal como levar tudo para a televisão? O resultado podemos conferir na plataforma digital Amazon Prime onde a primeira temporada está disponível (a segunda já acabou nos EUA mas ainda não foi liberada). A saída para deixar a trama mais palatável foi suavizar um pouco os temas e fatos, mudar a história parcialmente, inserir novos personagens coadjuvantes e estender por toda a temporada inicial o arco que se resolve logo de início nos quadrinhos. A história do pastor Jesse Custer (Dominic Cooper) que recebe uma entidade sobrenatural repleta de poderes chamada Gênesis e a partir disso se vê em guerra com o paraíso e outras coisas mais, realmente seria impossível de se ver na totalidade. Do lado da ex-namorada Tulip (Ruth Negga) e do amigo Cassidy (Joseph Gilgun em exuberante atuação), Custer tem que achar novamente (ou não) o lugar da sua fé na pacata Annville no Texas. A decisão dos criadores foi deixar toda a temporada inicial na cidade, coisa que nos quadrinhos não ocorre. Contudo, apesar do ritmo lento para quem conhece a obra, tudo flui bem. As blasfêmias, personagens estranhos, ironias e maluquices aparecem em boa quantidade preparando terreno para que na segunda temporada a coisa aconteça para valer e se torne ainda mais feroz. Imperdível.

Nota: 9,0

Assista aos trailers legendados:


domingo, 26 de novembro de 2017

Literatura: "O Livro dos Baltimore" e "Piano Vermelho"


Um som poderoso que causa danos tremendos a quem escuta aparece na África sem maiores explicações. O exército norte-americano fica preocupado com o que pode ser uma nova arma a ser utilizada contra o país e por conta desse poder todo pensa evidentemente em reverter isso a seu favor. O cenário é os anos 50 e depois de algumas tentativas de descobrir mais sobre o som o exército resolve apelar para músicos que também são soldados e serviram na segunda guerra mundial. Esses músicos formam os Danes, uma banda localizada em Detroit que teve um grande sucesso e hoje paga as contas gravando outras bandas no próprio estúdio. Essa é a premissa de “Piano Vermelho” (Black Mad Whell, no original), lançado lá fora esse ano e que ganha edição tupiniquim pela editora Intrínseca com 320 páginas e tradução de Alexandre Raposo. Obra do escritor e músico Josh Malerman é o sucessor de “Caixa de Pássaros”, um thriller psicológico que rendeu boas vendas e críticas. Intercalando passagens ocorridas na África e as que vieram após isso, o autor tenta montar um mosaico de mistério sobre o que realmente representa o som, contudo faz isso de maneira nada objetiva, inserindo capítulos que servem somente para crescer o número de páginas e nada mais. A narrativa simples e sem muitos floreios – que podia ser um mérito quanto ao ritmo – não rende o esperado e deixa a obra com aquele sabor de descartável. Para dizer que não há bons momentos, a amizade dos membros dos Dunes rende bem e podia ter sido mais explorada em contrapartida ao mistério que expõe. E depois de heroicamente se chegar ao final do livro, a revelação do tal mistério é bem chinfrim, convenhamos. Emulando questões temporais, existenciais e pessoais, aumenta ainda mais o sentimento de tempo perdido quando se chega ao final do último parágrafo.

Nota: 3,0

Leia um trecho diretamente do site da editora, aqui


O suíço Joël Dicker alcançou o sucesso com o livro “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”, que vendeu mais de 3 milhões de cópias no mundo. Vários superlativos lhe foram direcionados e mesmo que não fosse para tanto, a obra é realmente interessante e exibe diversas qualidades. Normal então conferir com certa expectativa se essas qualidades seriam mantidas no trabalho seguinte intitulado “O Livro dos Baltimore” (Le Livre des Baltimore, no original). Publicado na França em 2015 recebeu edição nacional no início desse ano pela editora Intrínseca com 416 páginas e tradução de André Telles. Nele, temos o retorno do personagem principal Marcus Goldman. A trama se desenvolve antes dos fatos narrados em “A Verdade” e por mais que tenham relação indireta com esse, se constitui em uma história independente e diferente. Sai o policial e entra a crônica familiar, mas com o clima de mistério ainda presente. Enquanto se refugia na Flórida para escrever o novo romance, Marcus se depara com lembranças e coincidências que o remetem a infância e adolescência onde cresceu dividido na sua casa em Montclair e na casa dos tios ricos de Baltimore, onde criou grande afeição com dois primos e mais tarde com Alexandra, que se juntou a trupe até que o caminhar da vida se incumbisse de deixar esses dias mágicos cada vez mais no passado, culminando em um drama que mudou tudo. Em “O Livro dos Baltimore” Joël Dicker transita pelo romance de formação em flashbacks constantes, enquanto por outro lado enverada pela busca de redenção e afirmação pessoal. Ira, segredos, ego, inveja e paixão são bem presentes no livro que no geral fica bastante aquém do seu antecessor, cansando em determinadas passagens e não resolvendo de maneira satisfatória as camadas que expõe, sendo, dessa maneira, apenas um livro comum como tantos por aí.

Nota: 6,0

Leia um trecho diretamente do site da editora, aqui.

Sobre “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” no blog, passe aqui

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Literatura - "Um Estranho Numa Terra Estranha" - Robert A. Heinlein

“O maior perigo para o homem é o próprio homem”.

A frase acima por mais que tenha estilo de filosofia barata não deixa de ser uma grande verdade. Ela está em “Um Estranho Numa Terra Estranha” (Stranger in Strange Land, no original), obra bem importante da ficção científica escrita pelo americano Robert A. Heinlein em 1961. O livro ganha esse ano nova edição nacional pelas mãos da editora Aleph, com 576 páginas e tradução de Edmo Suassuna contendo um devotado prefácio do Neil Gaiman.

O livro que nasceu primariamente do desejo do autor em escrever algo mais “adulto”, pois fazia muitas obras juvenis nos anos 50, conseguiu ir bem longe. Ganhou o prestigiado prêmio Hugo (assim como outras três obras de Heinlein como “Tropas Estelares”), virou referência na contracultura dos anos 60 e gerou muita, mas muita discussão sobre os temas nele envolvidos.

No livro a humanidade chegou as estrelas, mais precisamente a Marte. 30 anos depois da primeira expedição ao planeta vermelho outra espaçonave chega e se depara com um improvável sobrevivente. Um humano, nascido em solo marciano, que foi criado diante das concepções e ideias dos habitantes do lugar. Autorizado por esses anciões retorna a Terra para conhecer seu lar, digamos assim.

Assim que Valentine Michael Smith (esse é seu nome) põe os pés na Terra, ainda tentando adequar a fisiologia as mudanças, cai logo nos braços do governo que logicamente busca adequar essa nova realidade da maneira que melhor sirva aos próprios interesses. Porém, quando um repórter xereta chamado Ben Caxton e uma enfermeira chamada Gillian Boardman entram no seu caminho, as coisas ficam um tanto mais complicadas.

Nessa primeira parte de adequação diversos temas surgem com destaque. A questão econômica é uma devido ao fato desse sobrevivente ser dono ou beneficiário de várias coisas, inclusive até mesmo de Marte pelas esdrúxulas leis terráqueas. No meio das burocracias estapafúrdias, percebe-se de imediato que o autor não terá piedade com isso. Depois que Jubal Harshaw aparece na trama isso vai além junto com suas excentricidades, polêmicas e mau humor.

A partir desse ponto o autor foca a metralhadora com mais ferocidade para dois controversos temas: religião e sexo. Heinlein que nunca acreditou em Deus e teve várias visões políticas durante os anos, nunca apreciou quaisquer governos na plenitude. Foi um escritor repleto de contradições. Ao mesmo tempo que detonava os temas acima, por exemplo, e expunha conceitos libertários no que tange a questões individuais, apresentava outros que iam contra isso, além da misoginia sempre presente no texto.

Mesmo publicado em 1961, a essência de “Um Estranho Numa Terra Estranha” foi calcada nos anos 50 e é de lá que vem os conceitos que ele tenta quebrar ou involuntariamente até amplifica. Há de se imaginar o choque causado por isso na época. Lido hoje o livro causa rebuliço um pouco menor e até incomoda por outras questões (como o tratamento das mulheres na trama, ainda que sejam de vital importância), apesar de se entender que isso é retrato do tempo em que foi gerado.

Contudo, naquilo onde é mais animalesco e brutal, a obra de Heinlein é devastadora, não deixando pedra sobre pedra. Revertendo conceitos religiosos a cada momento e explorando a farsa embutida em quantidades generosas dentro das igrejas e principalmente das pessoas que as comandam e que revertem qualquer coisa em “divina” desde que lhe sirvam bem, o livro explora e explode questões ainda bem vívidas dentro do nosso mundo. Mesmo tanto tempo depois.

Nota: 8,0

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Green Day - São Paulo - Arena Anhembi - 03.11.2017


A diversão é (ou pelo menos deveria ser) parte fundamental da vida. Diversão simples, até mesmo besta, sem maiores pretensões, que faz um bem danado nem que seja por um curto espaço de tempo. Alivia um pouco o espírito, liberta alguns sorrisos no rosto, deixa a costa um pouco menos pesada para a rotina do dia seguinte. E foi essa diversão que o Green Day entregou para mais de 25 mil pessoas no último dia 3 de novembro em São Paulo.

A última vez que a banda havia tocado no país foi em 2010, ainda carregando o status de grande grupo que veio depois do álbum “American Idiot” de 2004 que vendeu trocentas milhões de cópias e os elevou ao patamar de tocar em estádios cada vez maiores. Cenário diferente de agora, culpa de alguns discos fracos e sem muita vibração como a trilogia formada por “¡Uno!”, “¡Dos!” e “¡Tré!” lançada em 2012.

Mesmo sem causar o mesmo alarde e comoção de outrora, o Green Day absorveu todas as artimanhas de como fazer um show voltado para a felicidade do seu público e se mantêm relevante no cenário, apesar dos descuidos da carreira. A turnê que veio em decorrência do álbum “Revolution Radio” do ano passado - onde a banda volta a flertar com os bons momentos em pelo menos metade das faixas - tem superprodução, com direito a fogos, explosões e papel picado no ar.

A abertura da apresentação na Arena Anhembi (o sambódromo paulista) ficou por conta dos californianos The Interrupters que em meia hora mostraram vigor e simpatia com seu ska punk bem ajustado em canções como “By My Side”. Mas foi quando “Bohemian Rapsody” do Queen começou a tocar nos alto falantes, sucedida por “Blitzkrieg Bop” do Ramones, que a plateia começou a se agitar. O já conhecido coelho rosa maluco incitava gritos e risos fazendo das suas. Estava chegando a hora.

Billie Joe Armstrong, Mike Dirnt e Tré Cool acompanhados de outros três músicos começaram com a porrada de “Know Your Enemy” do disco “21st Century Breakdown” de 2009, faixa que há muito serve para essa função. Na sequência gastou sabiamente logo duas canções do disco mais recente, “Bang Bang” e “Revolution Radio”, para engatar uma sequência do “American Idiot” formada por “Holiday”, “Letterbomb” e “Boulevard Of Broken Dreams”, cantada em uníssono.

Com o público já devidamente na mão entre gracejos, gritos e correria pelo palco, a banda ainda soltou “Longview” do multipremiado “Dookie” de 1994 e mais “Youngblood”, uma das boas faixas do último trabalho, antes de engatar em fila um grupo de músicas ao mesmo tempo surpreendente e devastador. Billie Joe dedicou “2000 Ligth Years Away” do longínquo “Kerplunk” de 1992 aos fãs “old school” e de lá partiu para fazer a alegria dessa turma que vibrando se jogava de modo desajeitado e destreinado em rodas de pogo.

Foi um show dentro do show, por assim dizer. Teve “Armatage Shanks” do “Insomniac” de 1995, “J.A.R” e “F.O.D” do já citado “Dookie”, “Scattered” e “Nice Guys Finish Least” do “Nimrod” de 1997 e “Waiting” do “Warning” de 2000. Outras duas vieram ainda do “Dookie”: “When I Come Around” e “Welcome To Paradise”. Ao final, respirar era difícil e o suor escorria feliz pelo corpo. Antes do primeiro bis teve, entre outras, o hitzaço “Basket Case” (ainda que “She” tenha ficado só na vontade).

O primeiro bis teve duas faixas do “American Idiot”: a título e “Jesus Of Suburbia” em grande versão. E na volta para encerrar com o segundo bis Billie Joe veio só ao violão, para acalmar alguns ânimos ainda exaltados, e tocou “21 Guns” do “21st Century Breakdown” e mais outro grande hit, “Good Riddance (Time of Your Life)” do “Nimrod”. Assim, com duas horas e meia de duração mais ou menos, acabava outra passagem da banda por terras paulistas.

Em tempos onde tudo é histórico, e todos mitam a cada momento, o Green Day fez em São Paulo a coisa mais simples e funcional que uma banda de rock pode fazer: divertiu. Sim, jogam muito com o público - talvez em demasia até - com subidas ao palco, microfones direcionados para cantar passagens, presepadas em excesso como no medley que reuniu de The Doors a Beatles, mas honestamente: que se dane. Faz parte do jogo e eles sabem disso. Precisa ser muito rabugento para no mínimo não soltar uns sorrisos nessas horas. E se quiser ir ao banheiro ou comprar uma cerveja essa é a hora.

No meio da apresentação ainda teve tempo para Billie Joe criticar o famigerado presidente americano Donald Trump, abraçar uma bandeira LGBT em vários momentos, falar contra a perturbação de saco de celulares e fotos: “não precisamos de Facebook”, “viva o presente”. Tempo para mostrar a verve crítica que também é parte integrante da banda, enquanto vez ou outra afirmava: “ainda estamos vivos”.

Sim, estão vivos e bem vivos, para alegria dos fãs das mais diversas idades que o Anhembi abrigou em uma noite pra lá de bacana de sexta-feira.

P.S: Lado negativo como sempre e sem mudanças é o perrengue que se passa nas saídas de shows que terminam depois que o metrô fecha. Além de desrespeito ao público mostra a incompetência de gestão atrás de gestão que não consegue solucionar o problema para grandes eventos. Ridículo.

As fotos são de Marcelo Brandt do site G1. Mais aqui: https://goo.gl/AUXkMn  

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Quadrinhos: "Repeteco", "Thanos: Relatividade Infinita" e "Asa Noturna - Volume 1"


Depois do sucesso estrondoso de “Scott Pilgrim Contra o Mundo” com a união de diversos estilos e linguagens nos volumes que viraram filme em 2010, a expectativa sobre o que Bryan Lee O’Malley aprontaria depois era grande. “Repeteco” (Seconds, no original) foi publicada nos EUA em 2014 e no final de 2016 chegou ao Brasil pelo selo Quadrinhos na Cia. da Companhia das Letras com 336 páginas e tradução de Érico Assis. A protagonista é Katie, chef de cozinha que depois de ir bem com o primeiro restaurante parte para outro, mas cheia de dúvidas e receios. Quando as coisas começam a sair do eixo tanto no trabalho quanto na vida pessoal, o desespero invade e de súbito ele é suplantado por uma estranha visita. A partir daí, O’Malley elabora uma história bem ao seu estilo, com humor visual e no texto, a fim de esconder os anseios (retrato de uma geração) de alguém que cresceu e não lida muito bem com isso. No final, apesar de agradar, fica faltando alguma coisa, aquele algo mais que o trabalho anterior tinha de sobra.

Nota: 6,0


Leia um trecho direto do site da editora, aqui.


“Thanos: Relatividade Infinita” é o segundo tomo da mais recente trilogia cósmica comandada pelo mestre Jim Starlin para a Marvel dentro da linha OGN (Original Graphic Novels) onde a cronologia normal é um pouco desprezada em prol de histórias fechadas e com certa liberdade criativa. Sucedendo o início publicado em “Thanos: Revelação Infinita” novamente coube a Starlin o roteiro e os desenhos deixando a arte-final para Andy Smith e as cores com Frank D’Armata. Com lançamento pela Panini, capa dura e 116 páginas retoma a trama do ponto onde parou anteriormente e mostra Thanos na caça de entender a força estanha que sente pelo universo apresentando como contraponto um Aniquilador reformado e muito mais poderoso do que nunca tentando controlar essa força misteriosa. Novamente o cardápio estelar da editora se faz completamente presente com os Guardiões da Galáxia, por exemplo, além do adendo do sempre ácido Pip, o Troll e de um ainda confuso e poderoso Adam Warlock. Com a ótima arte de costume respaldada nas cenas de ação, melhora um pouco em relação ao livro anterior apesar do mais do mesmo.

Nota: 6,5

Sobre o primeiro capítulo da trilogia no blog, aqui


“Asa Noturna – Volume 1”, contraria a famosa assertiva do Barão de Itararé que diz: de onde menos se espera é que não sai nada mesmo. O encadernado da Panini de 164 páginas reúne as edições originais de “Nigthwiming” de 1 a 4 e de 7 a 8 publicadas nos EUA dentro da fase do renascimento e é uma grata surpresa. DicK Grayson que foi o primeiro Robin, envergou por um tempo os trajes do Batman e ultimamente andava dando uma de superespião, volta para os trajes do Asa Noturna com grande independência do mentor decidindo os próprios rumos que lhe levam para campos internacionais atrás da Corte das Corujas. Com roteiro de Tim Seeley (Batman Eterno), arte de Javier Fernández e cores do hábil Chris Sotomayor temos uma aventura clássica, com momentos de detetive, inclusão de um personagem em contraste com os ideais do protagonista - mas que esconde mais do que mostra - e um romance tentando se estabelecer ao fundo. Uma hq que apesar do deslize melodramático do final, ostenta algumas das melhores coisas que pode-se ver em uma revista de super-herói.

Nota: 7,0



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Quadrinhos: "Cosmogonias", "O Guia do Pai Sem Noção" e "Condado de Essex - Completo"


Cadu Simões é paulista da cidade de Osasco. Produz quadrinhos já tem um bom tempo e no ano passado se aventurou em uma campanha de financiamento coletivo para reunir em uma única revista algumas das histórias já feitas no decorrer desses anos. O financiamento obteve êxito e “Cosmogonias” foi lançado no início de 2017 contendo cinco histórias em 30 páginas. É uma edição curtinha, mas que apresenta bem o autor para quem não o conhece ainda com as tramas tendo o bom humor e a criação de mundos e de seres como alicerces principais. Os artistas que desenham essas histórias, cada um ao seu estilo próprio, contribuem para o bom funcionamento da compilação com maior destaque para Jazz em “Cosmogonia” e Camila Torrano em “Onde Estão os Tatus-Bolinha?”. O autor está com projetos de uma aventura maior em andamento e pelo que foi “Cosmogonias” deixa uma boa expectativa no ar.

Saiba mais em seu site: http://cadusimoes.com

Nota: 6,0


As aventuras de Guy Delisle na China, Coréia do Norte e Myanmar renderam álbuns como “Shenzhen”, “Pyongyang” e “Crônicas Birmanesas”, onde de maneira bem humorada ilustrava sua estadia nesses países distintos da terra natal (Canadá), como também aproveitava para retratar sucintamente o modo de vida da população onde o governo infere diretamente na vida de cada um, na maioria das vezes com resultados ruins. Em 2017 a Zarabatana Books coloca outra obra do autor no mercado nacional, chamada “O Guia do Pai Sem Noção” com 192 páginas em preto e branco e formato pequenino (14x20cm). Nesse novo projeto que já está no terceiro volume na França e aqui estreia, Delisle dá uma relaxada geral nos temas mais densos e conta somente passagens engraçadas e inusitadas no trato e convivência com os dois filhos, Louis e Alice. Divertido e familiar em maior escala, serve bem para horas em que a leveza é suficiente.


Nota: 6,0


Jeff Lemire é dos nomes mais representativos dos quadrinhos atuais. Além de obras pessoais poderosas como “Sweet Tooth” e “O Soldador Subaquático” é responsável por títulos da Marvel como “O Velho Logan” e “X-Men”, que mesmo oscilando vez ou outra carregam seu toque. Porém, seu melhor trabalho remonta a estreia entre 2008 e 2009 quando os três capítulos que formam “Condado de Essex” foram lançados. É essa obra que podemos conhecer agora em edição caprichada da editora Mino com 512 páginas e vários extras. Em preto e branco constrói um pequeno épico sobre uma determinada região do Canadá e usa de lembranças para construir personagens fascinantes que logo caem no gosto do leitor. Com lirismo e boa dose de drama elabora uma trama que atravessa gerações para versar sobre dor, arrependimentos e algumas alegrias, sem nunca esquecer a finitude da vida. “Condado de Essex – Completo” é daquelas obras que tornam os quadrinhos algo sublime.

Nota: 10,0


- Mais sobre Jeff Lemire no blog, aqui



domingo, 22 de outubro de 2017

Quadrinhos: "Novo Super-Man - Volume 1", "A Realeza - Mestres da Guerra” e “Wytches”


Com o bonito e sutil “O Chinês Americano”, Gene Luen Yang ganhou prêmios (como o Eisner) e elogios onde a obra foi publicada. Coube a ele elaborar o roteiro do Superman chinês, projeto da DC voltado diretamente para o desejado mercado do país. O resultado disso podemos conferir em “Novo Super-Man – Volume 1” com 140 páginas que reúne as seis primeiras edições lançadas originalmente entre setembro de 2016 e fevereiro de 2017. Com a arte de Viktor Bogdanovic (Batman: Arkham Knight) trata-se de uma história de origem, onde o jovem arruaceiro Kong Kenan entra em um projeto secreto no qual ganha os poderes do homem de aço, como também passa a fazer parte de uma versão chinesa da Liga da Justiça. O roteiro construído por Luen Yang apresenta bom humor e pelo tom jovial conquistou o público adolescente, além, é lógico, do mercado que a DC visava desde o início. Contudo em termos gerais, a trama não apresenta nenhum elemento de destaque ou qualquer outra qualidade. É leitura rápida, sem muita inspiração e que serve somente para passar o tempo em dias com poucas opções. Caberá ao tempo mostrar se esse novo Superman será algo mais que isso.

Nota: 3,0


Pessoas com superpoderes já tiveram abordagens diversas dentro dos quadrinhos. Centenas de facetas já foram exploradas em todos esses anos, contudo a dupla Rob Williams (roteiro) e Simon Coleby (arte) criou algo dentro desse cenário com uma leve diferença. “A Realeza - Mestres da Guerra” que a Panini publica agora no Brasil em um encadernado de 148 páginas, compila as edições de 1 a 6 da minissérie do selo Vertigo da DC. Ambientada na segunda guerra mundial e usando esta como pano de fundo histórico mostra as conversas entre as grandes nações e como elas se envolveram no conflito partindo da ação de um príncipe britânico. Na história todas as famílias reais do mundo dispõem em suas fileiras de membros com os mais diversos poderes, o que justifica o domínio dessas casas em seus países. Quando o pacto de não envolvimento dos poderes na guerra é interrompido pela já citada ação do príncipe, a guerra se torna muito mais sangrenta do que poderia ser e envereda por caminhos inesperados. Com tons escuros ressaltados pelas cores fortes de J.D Mettler temos uma história de heroísmo, traição, conspiração e nobreza, que agrada em cheio a quem gosta de fatos históricos.

Nota: 7,0


“Wytches” reúne um timaço. Roteiro de Scott Snyder (Batman), arte de Jock (Os Perdedores) e cores de Matt Hollingsworth (Preacher) em um trabalho que começou a ser publicado sem pretensão de conquistar muitos fãs e acabou tendo uma repercussão bem maior do que fora imaginado. A Darkside Books dentro do selo especial dedicado aos quadrinhos que criou, publica no Brasil a obra pela primeira vez em uma caprichadíssima edição de capa dura, com 192 páginas, tradução de Érico Assis e diversos extras. A compilação apresenta ao público brazuca as seis primeiras edições de uma história que tem o terror como condutor em uma versão de bruxas radicalmente diferente daquela conhecida. Gira em torno da família Rook que se muda para uma pequenina cidade do estado de New Hampshire nos EUA para escapar de acontecimentos estranhos, o que de nada adianta, pois na floresta em volta da cidade há um mal secular que se retroalimenta de medo e covardia. O roteiro conduzido por Snyder é preciso e direto o que dá espaço para a arte e as cores brilharem em um processo de criação com resultado final esmagador. “Wytches” é daqueles quadrinhos que fogem do convencional, mas sem ir ao experimentalismo total mostram poder e apelo de conquista e envolvimento.

Nota: 8,5