sexta-feira, 5 de maio de 2017

Quadrinhos: “Star Wars Darth Vader: Vader” e "Super-Ego"


Em 2015 a Marvel iniciou novas séries utilizando o universo de Star Wars. Para o britânico Keiron Gillen (Homem de Ferro) coube elaborar os roteiros com a missão de entrar na cabeça de um dos mais simbólicos vilões da cultura pop mundial: Darth Vader. Com a arte limpa e repleta de detalhes do espanhol Salvador Larroca (X-Men), a dupla contou parte da história da saga sob o ponto de vista do mais tenebroso dos Lordes Sith. Essa fase inicial já fora lançada aqui no Brasil pela Panini Comics em revistas mensais e para quem perdeu a editora reúne agora em um encadernado de capa cartonada as 6 primeiras edições originalmente lançadas nos EUA entre março e agosto de 2015, dando nova chance para quem não leu. São 152 páginas ambientadas logo após a destruição da Estrela da Morte e da batalha de Yavin retratada no primeiro filme da franquia em 1977. A Aliança Rebelde está animada com a inesperada vitória e Vader sofre pressão do Imperador Palpatine por conta disso e é inclusive remanejado para acatar ordens de terceiros. Nesse cenário e ainda buscando coisas pessoais que o Império não tem conhecimento como saber mais sobre o jovem responsável pelo revés e se inteirar de uma provável armadilha preparada contra si pelo próprio lado, Vader recruta uma arqueóloga criminosa chamada Aphra que traz consigo dois droides malucos e assassinos chamados Triple-0 e BT-1. “Star Wars Darth Vader: Vader” é alinhada diretamente com as demais revistas da mesma safra, mas pode ser lida normalmente sem conhecimento destas o que é sempre bom. O desafio de Gillen e Larroca não era dos mais fáceis, pois tratar de algo desse tamanho é sempre delicado no que concerne ao recebimento dos fãs e ainda tentar ir além e agregar novos leitores. A dupla tira isso de letra e mesmo que já se conheça como as coisas vão terminar faz com que a jornada seja tão representativa quando o destino final.

Nota: 7,5


É raro hoje em dia encontrar algo dentro do metiê dos quadrinhos de heróis que já não tenha sido feito ou abordado outrora. Na verdade, é comum agraciarmos novas leituras de ideias já exploradas antes em grau menor ou maior, desde que bem realizadas e com novas nuances adicionadas. Porém, o quadrinhista piauiense Caio Oliveira conseguiu essa façanha em “Super-Ego” lançado no início desse ano. A obra já havia sido publicada virtualmente no Sequential Link (vale bem conhecer o site: http://www.sequentialink.com) e em versão impressa nos EUA pelo selo Magnetic Press. Para a edição nacional o autor recorreu ao financiamento coletivo e o sucesso da empreitada gerou uma publicação cuidadosa, repleta de extras e bônus como várias artes por nomes diversos dos quadrinhos. Com capa de Glenn Fabry (Preacher) a história do Dr. Eugene Goodman (que chama a si próprio de Dr. Ego) traz também as precisas cores de Lucas Marangon sobre a arte de Caio Oliveira. A abordagem central de “Super-Ego” é a seguinte: mesmo com todos os poderes que possuem e a imagem que transmitem para o público em geral, tanto heróis quanto vilões também sofrem (e muito) de angústia, medo, ansiedade, insegurança. Já vimos a premissa antes, lógico, mas não dentro de um consultório e visto pelo olhar do psicólogo que atende esses indivíduos. Caio Oliveira mostra a mesma pegada satírica e bem-humorada já vista em trabalhos seus como “Alan Moore, Mago Supremo” e “All Hipster Marvel” e destroça conceitos e clichês do mundo dos superseres.  Até quando faz revelações na trama e envereda para o clássico embate do bem contra o mal faz isso de maneira inteligente e arrojada, despejando sem perdão complexos e frustrações pelo meio do caminho. Tanto a história quanto os bônus da edição (como as anotações do Dr. Ego sobre cada paciente) fazem de “Super-Ego” desde já um dos melhores lançamentos do ano em terras nacionais. Que venha uma sequência.

Nota: 9,0

Site do autor: http://www.facebook.com/caioscorner      


segunda-feira, 17 de abril de 2017

Quadrinhos: "Superman: Fim dos Dias" e "Thanos: Revelação Infinita"


Chega a dar certa tristeza o que a DC Comics faz com o Superman nos últimos anos. Dentro dos anos 2000, por exemplo, pouco se salva. Várias mentes e mãos se alternaram nesse período e aliadas com as questionáveis decisões editorais raramente produziram material de qualidade e que faça jus a um dos pilares dos heróis nos quadrinhos. E quando se pensa que as coisas não podem piorar, bom, é melhor não duvidar. Amostra recente disso temos no encadernado “Superman: Fim dos Dias” que a Panini Comics coloca agora nas bancas com capa cartonada e 196 páginas. Estão reunidas as revistas Superman (51-52), Batman/Superman (31-32), Action Comics (51-52) e Superman/Wonder Woman (28-29) lançadas em junho e julho de 2016 nos EUA. Trata-se, como o nome supõe, de um encerramento, mais precisamente da fase do Homem de Aço em “Os Novos 52” e que abre caminho para o novo (outro) projeto da DC chamado “Rebirth” (“Renascimento”, por aqui). Esse encerramento é a morte do Superman que detonado por vários eventos anteriores (que são explicados no volume) está exaurido e fraco, descobrindo que vai falecer e não tem saída ou cura para tanto. Ao mesmo tempo em que isso ocorre uma nova gama de desafios surgem enquanto ele busca avisar aos mais próximos o que acontecerá. O foco é deixar as coisas acertadas quando não estiver mais por aqui, contudo tem que lidar com as ameaças que aparecem na forma de três envolvidos que também dizem ser o Superman. Em uma trama confusa criada por Peter J. Tomasi (de “Batman & Robin”), quase nada se salva, somente uma arte aqui e outra ali, o envolvimento com a Mulher-Maravilha e o teor emocional do final. No entanto, “Superman: Fim dos Dias” consegue uma proeza rara: desagradar tantos fãs antigos quanto mais recentes e afastar neófitos das revistas do personagem no futuro. Parabéns a todos os envolvidos. De pé.

Nota: 2,0


Jim Starlin é um dos maiores ases dos quadrinhos quando se fala em temas cósmicos e espaciais. Foi ele que nos anos 70 criou Thanos, o Titã Louco, e com ele produziu sagas memoráveis como “Desafio Infinito”. Mas o trabalho de Starlin vai além. Criou também Dreadstar e fez trabalhos estupendos a frente do Capitão Marvel e também “Morte em Família” e “Odisseia Cósmica” pela DC. São credenciais e tanto, temos que convir. Em 2014 o autor voltou para aquele que já declarou ser seu personagem favorito e concebeu “Thanos: Revelação Infinita”, onde é responsável pelo roteiro e pelos desenhos que contam com a arte-final de Andy Smith. A obra é inserida dentro de uma linha da Marvel chamada OGN (Original Graphic Novels) que apresenta histórias fechadas fora da cronologia normal, porém de acordo com bases já concebidas anteriormente de modo geral. Essa linha já teve os Vingadores e o Homem-Aranha nas primeiras edições e agora abre caminho para um dos vilões mais poderosos e insanos do universo. Jim Starlin exibe um Thanos meio cansado com tudo que aos poucos nota uma inconformidade pairando no ar, algo que diz que as coisas não andam da maneira correta. Isso passa a lhe incomodar e acrescenta o ânimo que faltava para mandar o cansaço embora e sair singrando pelas estrelas atrás de respostas, sendo uma destas de fundamental importância. Como parceiro da missão está o ressuscitado Adam Warlock, um de seus maiores inimigos e o catálogo de personagens estelares da Marvel bate ponto com nomes como Surfista Prateado, Guardiões da Galáxia, Ronan, o Acusador e o Gladiador dos Shiar. “Thanos: Revelação Infinita” tem tudo que os fãs das aventuras espaciais gostam e se deliciam sob a batuta de um mestre desse cenário. Contudo, é uma obra menor do autor com Thanos se compararmos com o que já fez antes. Nem mesmo os mestres conseguem sempre a excelência. 

Nota: 6,0


sexta-feira, 14 de abril de 2017

Literatura: "Léxico" e "Meninos em Fúria"


Uma organização misteriosa e secreta treina jovens com potencial para agirem na persuasão de pessoas, ocultamento de fatos e divulgação de verdades não tão verídicas assim, tudo em nome de um suposto equilíbrio mundial. Esses agentes quando vão ao trabalho de campo deixam seus nomes verdadeiros para trás e assumem os de famosos poetas como novos, já que as palavras são sua arma letal, principalmente as combinações que promulgam para invadir a mente dos alvos e alterarem o seu comportamento. Esse é o mote de “Léxico”, livro do australiano Max Barry que há alguns anos nos brindou com o ótimo “Homem-máquina”. Essa nova aventura do autor foi lançada aqui no país pela editora Intrínseca em 2015 (é original de 2013) e tem 368 páginas e tradução de Domingos Demasi. Em “Léxico” temos ação e bom humor em quantidades generosas e mesmo sendo um livro agradável incomoda por utilizar algumas das premissas já utilizadas em “Homem-máquina”. O protagonista, por exemplo, é uma mistura do Charles Neumann do referido livro e Arthur Dent de “O Guia do Mochileiro das Galáxias” do Douglas Adams. Esse protagonista é Will Parke, um pacato cidadão que de repente se vê no meio de uma tremenda confusão sem saber os motivos para tanto. Do outro lado da história está Emily Ruff, uma jovem que vive na rua fazendo trambiques até ser recrutada pela organização que vê potencial nela (apesar de um “lado sombrio”). E no meio de tudo está T. S. Elliot, um renomado e experiente agente que busca solucionar as broncas. Juntando esses três lados e alternando entre presente, passado e futuro, Max Barry promove uma divertida e descompromissada jornada em busca da salvação mundial, enquanto joga no meio do caminho algumas situações levemente críticas e ácidas em relação a esse mesmo mundo.

Nota: 6,0

Leia um trecho diretamente do site da editora, aqui.


 “Nós estamos aqui para revolucionar a Música Popular Brasileira, para dizer a verdade sem disfarces (e não tornar bela a imunda realidade): para pintar de negro a asa-branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores de Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer”.

O polêmico e enérgico trecho acima é do final do movimento punk escrito por Clemente Tadeu Nascimento no início dos anos 80. O líder da banda Inocentes, na ativa até hoje, é ícone dessa geração e revê essa época no livro “Meninos em Fúria” em parceria com o escritor Marcelo Rubens Paiva (de “Feliz Ano Velho” e “Blecaute”, entre outros) que também viveu esses momentos e se envolveu neles. Com lançamento pelo selo Alfaguara da Companhia das Letras no ano passado tem 224 páginas e apresenta o subtítulo “E o som que mudou a música para sempre”. Guardadas as dimensões do que essa frase enseja, o livro retrata os primórdios do punk no Brasil e como ele caminhou nesses primeiros anos entre preconceitos, brigas de gangues, acordes rápidos, afirmação e revolta de uma turma que não se sentia representada por nada daquilo que o país exibia de maneira geral. O texto construído na obra esbanja fluidez e se permite transitar não somente pela música que retrata e dá mote ao livro, como também pelas experiências pessoais dos autores, o crescimento e as dúvidas de cada um, além de passar sabiamente pelo começo do processo de abertura política do país, fruto de uma ditadura que deixou corpos e anos tenebrosos no meio do caminho. “Meninos em Fúria” pode ser entendido como um valioso instrumento histórico, retrato parcial de um tempo que hoje já parece distante (mas não é), contudo pode ser entendido também como um romance juvenil e de descoberta envolto em música, namores, sexo, drogas, álcool e muito inconformismo, sendo que por onde quer que se entenda funciona muito bem.

Nota: 8,0

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Literatura: “Infinita Highway: Uma Carona com os Engenheiros do Hawaii” e "Objetos Cortantes"


Dentro do rock nacional nascido nos anos 80 a banda Engenheiros do Hawaii era difícil de compreender. Com a figura controversa de Humberto Gessinger na frente vendeu mais de 100 mil de todos os discos da estreia de 1986 (“Longe Demais das Capitais”) até 1993 (“Filmes de Guerra, Canções de Amor”) e estourou com “O Papa é Pop” de 1990 que a levou para estádios, programas dominicais e tudo mais. Humberto colocou em livro em 2009 (“Pra Ser Sincero”) uma boa parte das aventuras desde o primeiro show, mas isso do ponto de vista dele, o que deixou de fora aquilo menos louvável em uma trajetória. “Infinita Highway: Uma Carona com os Engenheiros do Hawaii” do jornalista gaúcho Alexandre Lucchese chegou ano passado com a missão de dissecar esse fenômeno de modo mais amplo e explicar tamanha adoração pelo grupo e seu dono até hoje, uma vez que ele continua fazendo shows cheios pelo Brasil, mesmo que em intensidade menor. Com extenso trabalho de pesquisa, 328 páginas e publicação da editora Belas Letras, o livro apresenta a banda desde a formação em 1985 que seria para um único show até “Simples de Coração”, disco de 1995 que foi o último do baterista Carlos Maltz. Entre o vislumbre, a inadequação e o profissionalismo nos mostra perfis de artistas talentosos, mas pouco a vontade com o processo do negócio. Narra também as saídas de Carlos Stein (que depois fundaria o Nenhum de Nós), de Marcelo Pitz (baixista da estreia) e principalmente de Augusto Licks, o ótimo e experiente guitarrista que transformou a música do grupo. É um livro indicado para fãs, mas que não consegue avançar além, trazendo observações repetidas sem meter o dedo nas feridas com a intensidade que se esperava, além de ter decisões questionáveis como inserir depoimentos de fãs totalmente desnecessários. Assim como a banda, alterna boas e interessantes passagens com outras tão chatas como as músicas mais enfadonhas do grupo.

Nota: 5,0

Twitter do autor: http://twitter.com/alexandrelucche 



Com “Garota Exemplar” a escritora Gillian Flynn se tornou conhecida em boa parte do mundo, ainda mais depois da ótima adaptação cinematográfica feita pelo diretor David Fincher em 2014. No ano seguinte a editora Intrínseca lançou no Brasil a estreia dela chamada “Objetos Cortantes” (Sharp Objects, no original), que saiu nos EUA em 2006. Com 256 páginas e tradução de Alexandre Martins a obra tem como protagonista Camille Preaker que trabalha em um pequeno jornal de Chigago, longe dos líderes do setor. Por essa razão que o editor resolve enviá-la a pequena e pacata Wind Gap, no estado do Missouri, cidade onde ela cresceu e passou boa parte da vida. O intuito é fazer uma matéria sobre dois assassinatos de crianças que os grandes jornais ainda não prestaram atenção, pois estão voltados para outros assuntos, e assim dar um furo a pequena empresa. Receosa e muito relutante, Camille se manda para a cidade natal para ficar na casa da mãe que nunca se deu nada bem, do padrasto que mal fala e da pequena meia-irmã que não conhece direito. Durante o livro além de mostrar todas as agruras passadas e as marcas que deixaram na personagem principal, a autora leva o interesse pelo caso devagarinho para o caminho da obsessão, enquanto preenche os espaços com coadjuvantes repletos de segredos e disfunções. Em “Objetos Cortantes”, Gillian Flynn faz um suspense sombrio e digno, já expondo as qualidades que usou com grande destreza na obra de maior sucesso, como deixar a ambiguidade sempre presente e fazer um reviravolta na trama quando o leitor menos espera. A autora que já viu dois livros virarem filme (o já citado “Garota Exemplar” e também “Lugares Escuros”) verá “Objetos Cortantes” se transformar em série que por enquanto tem produção da HBO e a estupenda Amy Adams no papel de Camille Preaker. Nada mal.

Nota: 7,0

Site da autora: http://gillian-flynn.com


Leia um trecho do livro, aqui.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

"Quadrinhos": "Doutor Estranho - Shamballa" e "Ruínas"

Você tem nas mãos a oportunidade de conduzir a humanidade para uma nova época resplandecente e brilhante onde todo o potencial será alcançado na totalidade e o mundo será um lugar de paz e harmonia. Porém, tem um problema, um inimaginável problema no meio. Para que isso ocorra boa parte da população precisa ser obliterada, 3/4 para ser bem exato, e é você que ditará o processo. Parece papo de cientista maluco, de alguma seita radical ou de um tirano fanático, mas é essa situação que Stephen Strange precisa lidar em “Doutor Estranho - Shamballa” que a Panini Books relançou no país no final do ano passado com 68 páginas, capa dura e formato um pouco diferente do usual (21 x 28cm). Publicada em setembro de 1986 nos EUA, o álbum já tinha ganhado publicação anterior aqui no final dos anos 80 pela editora Abril, mas nem se compara ao capricho e o papel dessa nova edição. O argumento é elaborado em conjunto por J. M. DeMatteis (Moonshadow) e Dan Green (Wolverine), sendo que este último assume sozinho a belíssima arte pintada. A trama inicia quando no aniversário de morte de seu antigo mestre, o Doutor Estranho resolve voltar ao Himalaia para prestar homenagem ao Ancião, mas descobre que este lhe deixou uma incumbência nada fácil de ser resolvida. A missão é aceita com um pouco de dúvida no início e é levada adiante devido a confiança do Mestre das Artes Místicas no mentor e amigo. Entretanto essa dúvida vai aumentando no decorrer da sua ação levando o personagem principal a uma rota que inclui conhecimento pessoal, briga com o passado e a pressão das escolhas. Na verdade, “Doutor Estranho - Shamballa” é sobre isso, o poder das escolhas e o preço cobrado por elas, sendo envolvida por uma arte encantadora e um roteiro bem elaborado.
Nota: 7,0


Peter Kuper nasceu em 1958 nos Estados Unidos e se destacou no mundo dos quadrinhos por conta da revista “World War 3 Illustraded” e da tirinha “Spy Vs. Spy” que sai pela “MAD Magazine” desde o final dos anos 90, porém têm diversas outras obras no currículo que trazem sempre que possível um afiado olhar crítico tanto político, quanto social.  Uma dessas obras foi lançada aqui na Comic Con Experience do ano passado onde o autor esteve conversando e dando autógrafos. “Ruínas” (Ruins, no original) é de 2015 e chegou ao país pelo selo Jupati Books da Marsupial Editora. São 326 páginas de uma história magistralmente construída pelo autor e com uma arte do grau mais elevado possível. Peter Kuper entrelaça em “Ruínas” a busca de um casal para se encontrar com a viagem de uma borboleta monarca que migra do Canadá para o México e se constitui como observadora afiada. Samantha e George saem de Manhattan para Oaxaca no México para um ano sabático, onde a esposa quando jovem já passou um período e deixou alguns fantasmas. Ela em teoria vai para acabar de escrever um livro e ele, desempregado, para se renovar e projetar novos caminhos. Todavia, mais no fundo está o objetivo maior de deixar o casal mais alinhado e resolver questões pertinentes como a geração ou não de um filho em um mundo tão caótico e destrutivo. Mas o ambiente mexicano oferece outras nuances e quando menos se espera os dois estão envolvidos na briga política que acontece na região, com greves, opressões, corrupções e abuso policial. Enquanto isso a borboleta monarca passa por cidades com violência explodindo, fábricas contaminando o ar e rios completamente poluídos atestando todo o nosso cuidado com o mundo em que vivemos. “Ruínas” ganhou o conceituado prêmio Eisner no ano passado de melhor álbum gráfico, o que é justíssimo, pois de onde se olhe e como se veja é uma obra sensacional em todos os quesitos.

Nota 10,0


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Quadrinhos: "Astronauta - Assimetria" e "Você é um Babaca, Bernardo"


Quando “Astronauta - Magnetar“ foi publicado em 2012 talvez não se imaginasse que a iniciativa de fazer uma linha de graphic novels com os tradicionais personagens de Mauricio de Sousa fosse dar tão certo e chegar a 14 álbuns no total em menos de 5 anos, sem contar ainda os que estão por vir. Era incontestável o apelo de personagens tão cravados na mente do público, no entanto a empreitada avançou mais do que se ambicionava em números e, principalmente, qualidade. Danilo Beyruth (Bando de Dois) que iniciou essa jornada voltou a mais uma história com o viajante espacial em 2014 com “Astronauta – Singularidade” e no final do ano passado novamente com “Astronauta – Assimetria”. Se a segunda incursão não convenceu tanto assim em relação a estreia, dessa vez o resultado é do mesmo nível. Com páginas a mais do que antes (são 98 agora), a edição da Panini Comics que está disponível mais uma vez em dois formatos de capa (cartonada e dura) é uma história que pode ser lida individualmente, mas que sabiamente mantém vínculo e referências com as jornadas anteriores. Beyruth assume o roteiro e a arte (agora digital) e as cores ficam na responsabilidade de Cris Peter, que tira a missão de letra como de costume. Na trama, o Astronauta está na Terra descansando da última missão quando vê sua amada Ritinha na rua com uma criança e entra em parafuso voltando para a sede da BRASA (Brasileiros Astronautas) em busca de uma tarefa que lhe faça esquecer. Parte então para Saturno e vai se deparar com forças maiores do que está acostumado e uma situação inusitada ao final. Com quadros grandes, o autor consegue se aprofundar cada vez mais no personagem que assumiu, dando tons e novas modulações, ampliando o que já estava feito. Além disso, presta uma bonita homenagem a Jack Kirby com a inserção de figuras que remetem a trabalhos clássicos do mestre.

Nota: 8,0


Alexandre S. Lourenço já vinha fazendo bonito nos seus quadrinhos online e em “Robô Esmaga”, reunião de parte desse trabalho publicado em 2015. Em setembro do ano passado apresentou uma obra ainda mais interessante na primeira aventura mais longa que encara, longe das pequenas tiras habituais. “Você é um Babaca, Bernardo” tem 132 páginas e foi lançado pela editora Mino trazendo algumas ideias já exploradas antes pelo autor como cotidiano, rotina e inadequação social, mas embaladas em uma versão apurada e com apresentação sequencial. Mantendo o traço minimalista e quase não utilizando de quadros tradicionais, expondo novamente a experimentação que gosta de fazer, criou uma história arrebatadora sobre temas que em teoria não são interessantes no seu cerne, mas estão presentes em todos os lugares, em cada esquina. A maneira que encontra para narrar o dia a dia do personagem principal é notável e faz o leitor ficar atento a cada pequeno detalhe que insere gradativamente. Bernardo é um cara comum, com uma vidinha ordinária e sem quaisquer surpresas. Acorda, se arruma, vai ao trabalho, volta para casa, assiste televisão e dorme. No outro dia faz tudo de novo. Às vezes vai ao trabalho de ônibus, outras de bicicleta, porém sempre se posicionando no mesmo cubículo até a hora de retornar para casa. Rotina, rotina e mais rotina até que uma garota cruza o caminho e as coisas passam a ser olhadas por outro viés. Em “Você é um Babaca, Bernardo”, Alexandre S. Lourenço explora a relação entre mente e corpo, entre desejo e acomodação, entre inércia e vontade. Uma briga que no cansaço da vida é vencida na maioria das vezes pela opção mais fácil, o que acaba por deixar tudo mecânico e insosso. Explorando sabiamente esses pontos o autor apresenta uma obra que faz o leitor ponderar sobre o estado atual das coisas.

Nota: 9,0


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Top Top - Os Melhores de 2016


Salve, Salve minha gente amiga..

Abaixo, como de costume, coloco uma listinha simples dos melhores 19 discos nacionais e internacionais que passaram por aqui no ano que terminou. São eles:


MELHOR DISCO NACIONAL

01 - “Tropix” – Céu
02 – “Brutown” – The Baggios
03 – “Overseas” – Justine Never Knew The Rules
04 – “Mamba” – Sammliz
05 – “Eu, Você e a Manga” – Eu, Você e a Manga
06 – “O Futuro do Autoramas” – Autoramas
07 – “Em Cada Verso um Contra-Ataque” – Aíla
08 – “Boogie Naipe” – Mano Brown
09 – “Ivete” – Wado
10 – “Atlas” – Baleia
11 – “Forte” – Bruno Souto
12 – “Mahmundi” – Mahmundi
13 – “Melhor do Que Parece” – O Terno
14 – “Em Uma Missão de Satanás” – Zumbis do Espaço
15 – “Crocodilo” – Jonnata Doll e os Garotos Solventes
16 - "Outra Esfera" - Tassia Reis
17 - "A Coragem da Luz" - Rashid
18 - "Morte & Vida" - Paula Cavalciuk
19 - "Monstro" - DeFalla

MELHOR DISCO INTERNACIONAL

01 - “Give a Glimpse Of What Yer Not” – Dinosaur Jr.
02 - “Here” – Teenage Fanclub
03 - “You Know Who You Are” – Nada Surf
04 - “Head Carrier” – Pixies
05 - “Hypercaffium Spazzinate” – Descendents
06 – “Songs From The Pale Escape” – The Warlocks
07 – “The Psychedelic Swamp” – Dr. Dog
08 – “Tens Of Denial” – Car Seat Headrest
09 – “an the Anonymous Nobody…” – De La Soul
10 – “Blackstar” – David Bowie
11 – “Ellipsis” – Biffy Clyro
12 – “Shape Shift With Me” – Against Me!
13 – “Patch The Sky” – Bob Mould
14 – “Post Pop Depression” – Iggy Pop
15 – “Love And Hate” – Michael Kiwanuka
16 - "Wild Pendulum" - Trashcan Sinatras
17 - "Everything At Once" - Travis
18 - "Pussy's Dead" - Autolux
18 - "A Moon Shaped Pool" - Radiohead 

P.S: A arte do post é de Amandine Van Ray. 

domingo, 29 de janeiro de 2017

Literatura: “História da Sua Vida e Outros Contos” e “Rita Lee - Uma Autobiografia”


Ted Chiang nasceu em Nova York em 1967 é formado em ciência da computação e escreve hábeis contos sobre ficção científica, o que já lhe rendeu prêmios literários desejados como o Nebula e o Hugo. Ano passado sua obra ganhou maior amplitude porque um conto seu foi adaptado para gerar o ótimo filme “A Chegada” de Denis Villeneuve o que fez a editora Intrínseca lançar no país em novembro de 2016 o livro “História da Sua Vida e Outros Contos” (Stories of Your Life and Others, no original) com 368 páginas e tradução de Edmundo Barreiros. O livro agrupa 8 contos publicados entre 1990 e 2002 em veículos diversos, além de uma pequena nota explicativa sobre cada um deles no final. De produção esporádica (ainda não escreveu duas dezenas de contos no total), Ted Chiang passeia com cuidado e muito garbo pelas histórias que propõe contar, seja nos questionamentos religiosos de “Torre de Babilônia” e “O Inferno é a Ausência de Deus”, seja em temas mais matemáticos como em “Divisão por Zero” ou na essência pura da ficção científica de “Gostando Do Que Vê: Um Documentário” e “História da Sua Vida” que dá nome ao livro e foi o conto adaptado para o já citado filme. O texto de Chiang por mais técnico que se apresente em determinados momentos é plenamente inteligível, ainda que careça de uma atenção mais dedicada do leitor. Fascinado por matemática e física quase sempre usa como personagem meio oculto, mas primordial, a linguagem, a comunicação entre nós e entre aquilo que nos rodeia no mundo, o que deixa os textos ainda mais intrigantes.  Exibe o que a ficção científica pode apresentar de melhor com tramas emblemáticas e surpreendentes, que como acontece com obras desse segmento fazem o leitor questionar sobre como estamos caminhando aqui neste pequeno planeta azul.

Nota: 8,0

Leia um trecho direto do site da editora, aqui.


Rita Lee Jones faz 70 anos agora em 2017. A artista fundamental para a música brasileira hoje curte a aposentadoria de forma tranquila e sem alardes. No ano passado resolveu enfim escrever e lançar sua autobiografia, esperada não somente pelos fãs mais ardorosos (que não são poucos), mas por todos amantes da música nacional. “Rita Lee – Uma Autobiografia” chegou às livrarias pela Globo Livros com 296 páginas escritas pela própria sem recorrer a ghost-writer e sem amansar para o próprio lado deixando os podres de fora. Para contar essa história usou capítulos curtos em uma ordem cronológica não muito rígida. O tom escolhido foi completamente informal com gírias e vez ou outra até parecendo uma adolescente, peralta como de costume. A metralhadora verbal atira de modo constante e com ironia perdoa pouquíssima gente, já que afirma que conta os amigos na palma da mão. Sobra para governos de todas as cores, para a crítica, para os Mutantes Arnaldo e Sérgio, para os amigos de profissão, para quase todo mundo. A ovelha negra volta à infância e lembra diabruras e traquinagens, não deixando de relatar fatos pesados como o abuso sexual que sofreu ainda criança dentro de casa por um cara que foi consertar algo lá. Conforme avança expõe a relação incessante com drogas e depois o álcool, além de todo o bundalelê que esteve presente, sendo quase uma Keith Richards do nosso cenário musical. Para quem espera detalhes sobre gravações ou relatos sobre criações e composições isso passa muito de raspão, mas na verdade não era de se esperar que a artista se debruçasse com afinco sobre isso. O livro invade mais a vida pessoal, a relação com aqueles a sua volta, as loucuras que cometeu e as coisas que sofreu (como as duas prisões, sendo uma grávida na ditadura). “Rita Lee – Uma Autobiografia” pode não ser o livro que tantos esperavam, contudo é a cara de sua autora, uma artista que vendeu mais de 50 milhões de discos na carreira e está entre as maiores de todos os tempos nesse quesito no Brasil.

Nota: 8,0

sábado, 21 de janeiro de 2017

Quadrinhos: "Mulher-Maravilha: Terra Um" e "Xampu - Volume I e II"


Depois de Superman e Batman aparecem na linha “Terra Um” da DC Comics em que autores podem escrever tramas fora do emaranhado que é a cronologia da editora, chegou a vez da Mulher-Maravilha completar a trindade dentro do projeto. Criada em 1941 por William Moulton Marston, a heroína bela e guerreira ganha uma repaginada nas origens através de roteiro de Grant Morrison (Sete Soldados da Vitória) e arte de Yanick Paquette (Monstro do Pântano). A Panini publicou aqui no final do ano passado toda a trama que originalmente saiu nos EUA também em 2016 para comemorar os 75 anos da princesa amazona. Com capa dura, lombada quadrada e 154 páginas, incluindo vários esboços de extras, temos a história de Diana imaginada pelo abade escocês que como de costume aborda as coisas de maneira diferente do usual. “Mulher-Maravilha: Terra Um” mostra a princesa não se contentando com o mundo a que está acostumada e deseja sair da Ilha Paraíso a qualquer custo, para desgosto da sua mãe e as habitantes do local. Ela recebe a oportunidade quando Steve Trevor (agora negro) despenca com seu avião e precisa urgentemente de ajuda para não morrer. É quando Diana aproveita a deixa e monta um plano para fugir ao mundo exterior e se deparar com cultura e pessoas totalmente diferentes. O autor não deixa de lado a mitologia que cerca a origem, mas tenta caminhar por outras ruas preenchidas por poder feminino, família, liberdade, respeito e uma sexualidade até então vista com rara frequência nas histórias da personagem, que tem reflexo na arte de Paquette que apresenta uma Diana extraordinariamente linda. Na proximidade da estreia do filme com Gal Gadot no papel da heroína prevista para junho desse ano, essa edição do Grant Morrison é mais que oportuna, ainda que com alguma inconsistência geral.

Nota: 7,0


O paulistano Roger Cruz é um dos artistas nacionais mais talentosos dentro dos quadrinhos já tem algum tempo com trabalhos de respeito na Marvel em revistas do X-Men e Hulk, entre outros. Em 2010 publicou pela editora Devir uma obra autoral onde assumia roteiro e arte para contar uma história com tons biográficos intitulada “Xampu: Lovely Losers”. No segundo semestre do ano passado a Panini Comics em parceria com o Stout Club decidiu (ainda bem) relançar a obra, parte inicial de uma trilogia. Ainda em 2016 a mesma dupla colocou no mercado o segundo volume da narrativa com lançamento na Comic Con Experience. “Xampu – Volume I” e “Xampu – Volume II” tem 80 páginas cada uma e são ambientadas no final dos anos 80 e início dos 90 retratando jovens preocupados em curtir a vida, bater papo, escutar rock, montar uma banda e descolar leves paixões no decorrer dessa jornada. Do outro lado dessa farra estão os anseios, sonhos e receios não só inerentes a idade, como também ao aumento de responsabilidades, a busca por grana e o tão assustador futuro que se apresenta nessas horas, ainda mais em um período de transformações sociais e culturais. Tanto na arte em preto e branco que insere drama e humor com a mesma competência, quanto na forma de contar a história que ora opta por ser mais individualizada, ora mais ampla, Roger Cruz comete um acerto atrás do outro. A obra apresenta um indubitável cheiro de nostalgia, contudo não se resume a isso, sendo que qualquer grupo de jovens que viveu em qualquer época pode ver a sua turma refletida em alguma das linhas dali em personagens como Max, Raquel, Sombra e Nicole, além dos causos e histórias como a ida ao primeiro grande festival de música. Mas é lógico que para quem viveu nesses anos o sabor é ainda mais doce e aprazível. Não deixe de ler.

Nota: 9,0



domingo, 15 de janeiro de 2017

Quadrinhos: "Bear - Volume 3" e "Sopa de Lágrimas"


Uma menininha de uns seis anos mais ou menos se perde dos pais e com sorte encontra alguém mais velho e pede ajuda para encontrá-los novamente. A bronca é que esse alguém é um urso meio rabugento que ela tem a estupenda ideia de despertar em uma caverna e que surpreendentemente comovido assume a incumbência. Essa é trama básica de “Bear” da quadrinhista curitibana Bianca Pinheiro, que publicada originalmente como uma webcomic ganhou versão impressa pela editora Nemo e já está no terceiro volume lançado no ano passado. “Bear – Volume 3” dá continuidade a jornada dos dois e dessa vez muda o local da aventura para dentro da água. Com 88 páginas e o mesmo formato dos anteriores (20x32cm), personagens já conhecidos retornam enquanto a dupla vai produzindo o bem enquanto tenta achar os pais de Raven. Bianca Pinheiro é dotada de um senso extremo de sensibilidade que espalha pelas páginas do álbum e que também podemos ver em outro lançamento seu chamado “Dora” e na Graphic MSP “Mônica: Força”. A fantasia infanto-juvenil que ela elabora nesta obra consegue ir além do público esperado e agrada com seus traços limpos e cores bem usadas. Além disso, brinda o leitor com diversas referências aqui e ali, umas bem óbvias e outras nem tanto que gera uma repentina satisfação ao se perceber, como também expande as formas de linguagem inserindo até a si mesmo como uma espécie de “oráculo”. Leve, descompromissada e divertida, mas sem ser boba demais, “Bear” mostra uma autora com completo domínio da história que conta e é leitura certeira para seu filho, sobrinho ou afilhado, que irão se encantar com as peripécias de Raven e Dimas.

Só uma dica: antes de passar a eles dê uma lida também. Não te arrependerás.

Nota: 7,0

Site de “Bear”: http://bear-pt.tumblr.com 


Pegue a literatura de Gabriel Garcia Márquez, José J. Veiga e Manuel Scorza e adicione obras de cunho juvenil daquelas que trazem humor, pirraças e descobertas. No meio coloque uma farta dose de sensualidade latina, sem muito pudor ou reserva disso para no final completar com acentuadas pitadas de escárnio e crítica social. O resultado de tudo é “Sopa de Lágrimas” (Heartbreak Soup, no original) do quadrinhista Gilbert Hernandez, mais conhecido por seu trabalho na necessária “Love And Rockets” feita junto com os irmãos. A editora Veneta resolveu relançar em 2016 a história no Brasil e o primeiro volume (outros dois estão previstos) tem 288 páginas, tradução de Marina Della Valle e cobre o período de publicação de 1983 a 1986. A obra que já recebeu elogios de nomes do porte de Robert Crumb, Howard Chaykin e Neil Gaiman se situa na fictícia Palomar, uma pequena (mas nada pacata) cidade situada em algum país da América do Sul. Para criar tão fielmente a ambientação e seus personagens o autor se valeu também das histórias que ouvia em casa de avós e tias que moraram no México antes de partirem para os EUA, sendo que boa parte desses causos foi repassado ao papel. Em preto e branco, com desenhos privilegiando formas e rostos e capítulos que vão e voltam no tempo sem ordem determinada, Gilbert Hernandez criou em “Sopa de Lágrimas” uma obra poderosa, visceral e divertida ao mesmo tempo. Com destaque para mulheres de personalidade forte como a fantástica Luba e a musculosa Chelo, o autor insere diversos outros personagens que pouco a pouco ganham a simpatia do leitor como Pipo, Carmem e o memorável Tip e sua relação nada fácil com amores não correspondidos. “Sopa de Lágrimas” é o tipo de obra altamente recomendável, o tipo de obra que faz dos quadrinhos uma arte mais rica e exuberante.

Nota: 9,5