terça-feira, 10 de junho de 2014

Uma velha amiga chamada Copa do Mundo

Era tarde de 21 de junho de 1986. Estava eu então com 7 anos e alguns meses e não parava de chorar no pátio da casa dos meus pais. Lembro de uma das minha irmãs me consolando, de um monte de gente bufando ferozmente contra o Zico, de ver a decepção entalhada no rosto dos meus amigos e de especialmente um garoto da rua subindo na escada para cortar a ornamentação da nossa rua que tanto tempo levou para ser construída e tanta diversão nos trouxe. Essa data foi o dia em que a França de Platini, Amoros e Giresse acabava de vez com aquele sonho de ser campeão do mundo que ainda passava pela cabeça de Edinho, Sócrates, Júnior, Zico e Falcão.

Minha memória é ótima para guardar momentos e essa foi a primeira experiência que tive com essa tal de Copa do Mundo. Eu morava em Castanhal nessa época (cidade para a qual praticamente voltei agora), a 70 e poucos quilômetros da capital Belém, e meu universo se resumia praticamente a futebol. Meu pai, sendo um excelente jogador que só deixou de bater sua pelada com mais de 60 anos quando a doença apareceu, era apaixonado por bola e transferiu isso para o seu único filho homem, também conhecido como eu. Torcia para o Paysandu e Flamengo e sempre me encantava com as histórias dos seus títulos, como também por histórias de ídolos como Garrincha, Quarentinha, Ademir da Guia, Dida (que pare ele foi melhor que Pelé) e, lógico, Zico.

Para mim, nessa idade, o Galinho de Quintino era a personificação maior do esporte. Ídolo quase sem contestação. Por isso que enquanto eu chorava em junho de 1986 no pátio, ninguém ali sabia que a minha tristeza era não somente pela desclassificação da seleção e o término de todo o clima festivo, mas também era porque me sentia traído por Zico. Como logo ele podia perder um pênalti que nos levaria a vitória? Como logo ele podia assim do nada acabar com a alegria de toda a minha rua? Na idade que tinha ainda não entendia os fatos de que ele entrara no segundo tempo, deu o passe para o Branco sofrer o pênalti e perdeu este sim, mas se redimiu e fez depois, sendo que na verdade o pênalti que nos deixou fora foi cobrado pelo zagueiro Júlio César. Fiquei “de mal” com Zico até o título do Flamengo em 1987. Eu era um garoto, pobre do Zico.

E agora essa tal de Copa do Mundo que experimentei pela primeira vez há 28 anos vai começar novamente. E aqui no Brasil. Quero deixar bem claro que esse não é um texto crítico ou político (e nem intenção de ser), é um simples exercício de saudade, nada além disso. Concordo plenamente com todos os protestos (apesar de achar que agora já não servem para muita coisa), mas também entendo que é fundamental que esses protestos e esse nosso despertar cívico não pare agora na Copa do Mundo, mas que continue por todo o ano, por toda a vida. No meu trabalho com órgãos públicos estou calejado de ver os desmandos de políticos e seus asseclas em todas as esferas governamentais, e isso realmente tem que acabar. Porém esse texto não falará disso, deixo isso nas mãos de gente mais hábil.

Esse texto é sobre o futebol, sobre mim, sobre o meu pai, sobre a Copa do Mundo. É um texto de um apaixonado, um texto de um cara que hoje aos 35 anos ainda tem o futebol muito presente na vida. O futebol me trouxe amigos (e muitos estão comigo até hoje), paixões, alegrias, decepções, tristezas. O futebol, acima de tudo, foi o fio condutor de toda a relação que tive com meu pai falecido em 2006. Ele nos unia e por conta disso nossa relação foi boa e repleta de respeito, carinho e uma cumplicidade que minha mãe nunca iria entender. Foi assim quando aos 10 anos ele me presenteou com uma chuteira Adidas (caríssima na época) para a minha estreia na quarta zaga da escolinha do bairro. Investiu como pode, mas infelizmente minha habilidade não prestava muita atenção nisso. Porém, mesmo sem ser um craque como ele fora e todos falavam, o futebol ficou e até hoje jogo minha bolinha duas ou três vezes por semana. E faço isso com toda a entrega do mundo.

E principalmente por essa relação, é que nunca, em nenhum momento vou torcer contra a seleção do meu país. E isso não é dar uma de Pacheco ou ser ufanista e patriota patético. Isso é simplesmente pelo futebol. Cresci torcendo pela amarelinha e não vai ser agora durante os 90 minutos de um jogo que vou deixar de fazer isso. Ainda mais em Copa do Mundo. Copa do Mundo que desde 1986 habita em um pequeno canto aqui dentro do meu corpo. O futebol de hoje não tem mais o romantismo de antes, isso é certo. É muito mais um negócio. É pop. Extremamente pop. Craques como Cristiano Ronaldo, Messi e Neymar não podem ser comparados no quesito mídia com outros de décadas anteriores, mas isso não me impede de torcer como sempre fiz. Triste de mim seria se isso acontecesse.

Na Copa seguinte a decepção de 1986, a de 1990, eu já entendia mais um pouco sobre tudo a minha volta e foi com raiva que vi a seleção cair diante da Argentina com um gol do Caniggia depois do passe do Maradona. Lembro-me do meu pai cabisbaixo nesse dia como poucas vezes vi. No entanto, em 1994 viria a forra. Depois dos pênaltis (que meu pai escutou sozinho no rádio trancado dentro do carro) a explosão de alegria era igual do Galvão Bueno enlouquecido na tevê. Nesse dia fiquei bêbado, a primeira vez de tantas na adolescência (e tantas após isso), tudo culpa de Romário e cia. A Copa de 1994 representou um marco para minha geração, futebolisticamente falando. Era um confronto de ideias, a criação de novos ídolos, e a esperança de que dali em diante tudo poderia ser melhor. Tudo mesmo. Adolescentes sempre acham que podem tudo.

Já em 1998 tudo foi programado. Assisti a maioria dos jogos em casa com uma imensidão de amigos. No jogo contra a Holanda na semifinal (aquele em que o Zé Carlos jogou), os pênaltis mereciam uma foto. Umas 20 pessoas ajoelhadas de mãos dadas rezando para São Taffarel, que ouviu nossas preces. Na final, meu pai chegou comigo e falou para convidar todo mundo para almoçar em casa que ele ia pedir para a mãe fazer uma feijoada e um mingau de milho (época de festa junina sempre tem). A turma chegou cedo e começamos a beber, nos espantamos com o drama do Ronaldo e ficamos tensos sobre o que viria a seguir. Meu pai que não bebia comprou equivocadamente algumas cervejas sem álcool e também fazia sua parte. Eu capotei bêbado no início do jogo e só acordei no finalzinho quando estava 3 a 0 e a tristeza já tomava conta da casa. Até hoje nunca quis ver esse jogo todo.

Em 2002 tudo parecia sorrir para mim. Amores se concretizando, trabalho deslanchando, a vida seguindo seu rumo. Os jogos de madrugada me impediram de assistir com meu pai, pois trabalhava e morava em outra cidade e a final assisti na casa de um amigo, mas logo após o jogo corri para lhe dar um abraço. Durante essa copa vivi mais do que todas as outras, sem dúvida alguma. Grandes tempos. Em contrapartida a esse momento da minha vida, o câncer já começava a perturbar bem o meu velho nessa época e ele vivia dizendo que não veria mais nenhuma copa. Aquilo soava pesado aos meus ouvidos, saber que aquele momento único que sempre cultivamos juntos sorrindo ou chorando não iria mais se repetir. Não cansava de repetir para ele que isso não ia acontecer. Que ele ainda veria o Brasil ser hexa.

Em 2006 no jogo em que o Henry fez o gol e desclassificou o Brasil eu estava fora de casa, mas voltei para ver o jogo ao seu lado, que já com a doença em estado avançadíssimo ficou no quarto conversando comigo. Depois da derrota, bateu aquela dor de saber que realmente ele estava certo, que aquela seria sua última copa do mundo. A raiva que tive de Ronaldinho Gaúcho, Adriano, Roberto Carlos e Ronaldo naquele dia era extrema. Era irracional. Não só por ter perdido o jogo em si, mas por eles terem privado meu velho de ver o Brasil campeão novamente, de terem me privado de mais uma vez abraçá-lo e gritar “É Campeão!”. Uma raiva que superava e muito a do garoto de 1986 com Zico. Meu pai faleceu em 11 de julho daquele ano e a horrível final entre Itália e França foi no dia 9, ou seja, se o Brasil chegasse ele ainda teria visto.

2010 foi a primeira Copa do Mundo sem meu pai. E a derrota para a Holanda foi dura, potente, forte como uma grande sequência de chutes no estômago. Enquanto os analistas teciam suas teses na televisão sobre a derrota, eu ficava pensando se era justo perder aquele jogo, mas me lembrava que meu pai sempre falava que justiça não combina com futebol e essa é sua graça. Eu sabia disso desde garoto quando ouvia ao seu lado no rádio a transmissão dos jogos do Flamengo na Rádio Globo com o garotinho José Carlos Araújo narrando. Meu pai me ensinara. Assim como me ensinara a ser justo, correto e simples. Assim como me ensinara a vida toda o prazer de ver um jogo de futebol, de chutar uma bola, de conversar com os amigos depois. Meu pai me deu o futebol, isso é certo, e por isso lhe serei eternamente grato.

Dessa maneira, e aqui deixo claro que não repreendo ninguém por uma escolha diferente da minha, não tenho como torcer contra o Brasil, repito novamente. Torcer para a seleção canarinho está acima da CBF, da FIFA, dos políticos e suas falcatruas. São coisas distintas. No ano passado, dia 30 de junho de 2013 estava no Maracanã com mais de 70 mil pessoas na final das Copa das Confederações vendo Fred, Neymar, Thiago Silva, David Luiz e Paulinho arrasarem com a Fúria Espanhola. Um baita show. Senti a mesma emoção e alegria de quando vi o show do Paul McCartney, ou o do R.E.M. Emocionante pra cacete.

E, neste momento, mesmo sem saber se esse ano irei para algum jogo ou não (já que não consegui ingresso apesar das inúmeras tentativas), a partir do dia 12 de junho de 2014 estarei de peito aberto, ouvidos atentos e olhos interessados na Copa do Mundo. Me permito sim deixar que esse sentimento de esperança e de alegria invada um pouco o meu corpo, e me faça ser mais feliz junto com essa velha amiga chamada Copa do Mundo seja em família, nos bares com os amigos ou no pensamento constante de cumplicidade com meu pai.

Então, anote aí. Vamos ser hexa, meu velho. Torça de onde estiver. Vou lhe acompanhar daqui.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

"O Réu e o Rei" - Paulo Cesar de Araújo

Na Constituição Federal do nosso estimado país datada de 5 de outubro de 1988, logo no primeiro artigo lemos o seguinte: “A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito”. Sim, um “Estado Democrático de Direito”. Dessa maneira, não é passível de concordância ou digna de legitimidade qualquer ação que vá contra isso, por exemplo, qualquer ação que signifique censura prévia de um livro, filme ou obra que se equivalha. Mas, infelizmente não é o que se vê por aqui.

O caso mais famoso sobre esse tipo de proibição foi o livro “Roberto Carlos em Detalhes”, lançado no final de 2006 pela Editora Planeta e com a circulação interditada no início de 2007 pelo artista, fruto de uma audiência de conciliação na Barra Funda em São Paulo, com peculiaridades que honrariam um quadro de filme do Monty Python. Coerção, quebra de regras, adulteração de texto, juiz entregando cd’s de sua autoria para Roberto Carlos, promotor e juiz batendo alegres fotos depois da decisão, os advogados da editora acuados e esbanjando covardia. Pareceria cômico se não fosse trágico.

Essas minúcias e pormenores do processo agora são revelados pelo escritor Paulo Cesar de Araújo em “O Réu e O Rei”, com 526 páginas e edição da Companhia Das Letras. Um livro profícuo que versa não somente sobre jornalismo, como também se correlaciona com o atual cenário onde (nesse momento) um projeto de lei que libera a publicação de biografias não autorizadas foi aprovado pela Câmara dos Deputados e segue para o Senado Federal, e assim se espera, para a sanção presidencial. Chega também depois do ridículo movimento chamado “Procure Saber” idealizado no ano passado por Roberto Carlos e mais alguns ícones da música nacional que visavam justamente essa proibição.

Em “O Réu e o Rei”, Paulo Cesar de Araújo dedica boa parte das páginas para contar sua própria história, desde a saída do interior da Bahia até a chegada ao Rio de Janeiro. Navega na paixão pelas músicas do Roberto Carlos (quem leu o livro proibido percebe o tamanho dessa paixão) e pelo intenso projeto de pesquisa que fez com nomes representativos como Chico Buarque (que geraria um fato interessante depois), Caetano Veloso e Tom Jobim. Narra também seu percurso até a publicação do ótimo “Eu Não Sou Cachorro, Não” de 2002 onde joga luz sobre a produção sonora assim denominada de “brega” dos anos 70 e 80 e resgata músicos como Odair José, entre outros tantos.

A peregrinação do autor para entrevistar tantos artistas quanto conseguiu é envolvente, pois além de um atestado de perseverança e crença nas ideias que nutria, apresenta também um país diferente, com uma indústria fonográfica ainda forte e pulsante, mas que em contrapartida não tinha tanta frescura para ter acesso a seus criadores, e onde os assessores ainda não eram estrelas também. Outro ponto bem agradável do registro consiste no relacionamento que o autor formou com João Gilberto, o crânio por trás da bossa nova que sempre se demonstrou arredio e inacessível, mas que no livro exibe outros lados diversos a esses.

Não obstante, o personagem principal da obra é mesmo a pendenga judicial que envolve o livro de 2006. Movimentos sujos e sórdidos permeiam as páginas, assim como posicionamentos nada lisonjeiros para alguns dos envolvidos. O favorecimento fica límpido para uma das partes no livro. O inciso IX do artigo 5º da nossa constituição que coloca: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”, passa longe de ser obedecido. É justo lembrar que nesse mesmo artigo no inciso X temos: “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”. Os incisos são conflitantes, mas tem o mesmo peso, o que não foi levado em consideração de modo correto no litígio.

Não cabe aqui entrar profundamente nos aspectos jurídicos que abrangem também, entre outros, o artigo 220 da mesma Constituição Federal e o artigo 20 do Código Civil (justamente é este artigo que o projeto de lei aprovado na câmara visa mudar), como também aspectos gerais aos conceitos de infâmia, injúria e difamação. Paulo Cesar de Araújo coordena de modo equânime as divergências de pensamento e teorias e isso engrandece ainda mais o texto. Texto que em nenhum momento se opõe a reivindicações na justiça sobre eventuais ofensas ou inverdades através de indenizações. Ninguém quer autores desonestos no mercado, o que se discute é a proibição para publicações do tipo. Antes de serem lidas, inclusive.

Em um país como o nosso que tanto sofreu (e por tanto tempo) com cerceamento e repressão de obras culturais das mais distintas espécies, o caso de Paulo Cesar Araújo tem um destaque maior, mas é bom afirmar que são vários os casos de litígio desse nível existentes. E isso tem que acabar. “O Réu e o Rei” é uma demonstração precisa disso. Roberto Carlos, que sempre expôs a vida e os fatos dela em revistas, jornais e tevê para benefício próprio, não é o melhor caso para alegar invasão de privacidade, quando na absoluta maioria do texto esses casos foram divulgados por ele mesmo.

Com suas manias e a obsessão dele e do seu séquito pelo controle de tudo, o “Rei” parece realmente acreditar que é dono desse título e merecedor de um tratamento de majestade em todas as esferas, como bem afirmou certa vez o André Barcinski. É desprezível essa posição. Ele deve se lembrar que este título que ostenta é apenas uma (cada vez menos justa) homenagem pública as suas canções, canções que em boa parte exaltam atitudes contrárias as ações despropositadas que exibe. Podemos apenas lamentar isso e admirar obras sérias como a de Paulo Cesar de Araújo, baseadas em extenso trabalho de pesquisa e que louva as melhores prerrogativas do bom jornalismo.

Leia. Sem falta.

Nota: 9,0

P.S: Existia um receio de que novamente Roberto Carlos entraria com um processo de proibição sobre um livro de Paulo Cesar de Araújo. No lançamento, mesmo novamente sem ler o texto, divulgou que mandaria para o jurídico analisar. Com medo de nova repercussão negativa na imprensa e em seu público, ou com finalmente a razão lhe tomando a cuca, o “Rei” afirmou nos últimos dias que não fará isso. Espera-se que continue assim.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

"Antes de Watchmen" - Vários Artistas

 
Dentro do universo da cultura pop existem algumas obras que ganham status de intocáveis, tanto por conta da crítica quanto, em maior proporção, pela parte do público. Tirando a fração do radicalismo que envolve esse tipo de obra, a questão que geralmente formulo é que se a nova leitura, a nova roupagem, o novo produto, vai agregar algo ao original, vai ser relevante no conjunto final ou um mero processo sem qualidade para gerar lucro usando a marca. Com isso refletido aqui, não costumo gostar muito desse status de intocável mencionado, acredito que a arte não deve ter limites de expressão. Sejam eles quais forem.

Entre esse tipo de obra referenciada, com certeza podemos alocar “Watchmen” de Alan Moore e Dave Gibbons, uma das mais importantes histórias já concebidas no mundo dos quadrinhos. Originalmente lançada nos Estados Unidos na segunda metade dos anos 80 foi responsável por uma mudança de tom no segmento, além de uma leve reviravolta dentro do mercado. Lógico e evidente que para essa mudança ocorrer outros trabalhos foram importantes como “O Cavaleiro das Trevas” de Frank Miller, “Maus” de Art Spielgeman, ou um pouco adiante, já como um produto desses em certa escala, “Sandman” do Neil Gaiman.     

Quando durante o ano de 2012, a DC Comics começou a colocar no mercado a série “Antes de Watchmen”, que trata justamente dos personagens imaginados por Alan Moore antes da sua criação, muito se questionou, se brigou e se discutiu sobre a validade do projeto, ainda mais depois do próprio autor não ter aceitado a empreitada. Então, a incumbência de idealizar esse universo pregresso foi para as mãos de artistas conceituados na indústria como J. Michael Straczynski (“Rising Stars”), Brian Azzarello (“100 Balas”, “Coringa”), Darwyn Cooke (“DC: A Nova Fronteira”), Len Wein (“Monstro do Pantâno”) e Eduardo Risso (“100 Balas”), entre outros.

Essa opção foi um belo acerto da DC Comics (coisa rara nos últimos tempos da empresa) e afastou um pouco o receio. O resultado disso podemos acompanhar aqui no decorrer do ano passado em 8 edições que a Panini Comics lançou unindo cada personagem em um volume próprio com todas as revistas. Assim chegaram as bancas novas aventuras do Coruja, Espectral, Rorschach, Dr. Manhattan, Comediante, Ozymandias e mais edições devotadas para o Dollar Bill & Moloch, além dos Minutemen, o grupo dos anos 40 e 50 que deu origem ao Watchmen na versão de Alan Moore, assim como novos contos do Corsário Negro na narrativa paralela.

Em uma empreitada dessa estatura e com várias mentes criativas, é normal que o resultado oscile um pouco e isso não foge a regra em “Antes de Watchmen”. Mesmo com o intuito de interligar as tramas entre si, além de desenvolver temas deixados em aberto originalmente, alguma coisa não sai muito bem vez ou outra, como se pode comprovar nas edições do Coruja e do Comediante. Em outras o resultado é apenas mediano, tais como nos volumes da Espectral, Rorschach e Dollar Bill & Moloch. Porém, já naquelas que circundam os personagens Dr. Manhattan, Ozymandias e os Minutemen, tudo flui muito bem e gera novas nuances para se analisar e levar em consideração.

Ao ler toda a série, logo aparece a pergunta de que se valeu a pena mexer com algo tão bom. A resposta para isso reside basicamente em não analisar “Antes de Watchmen” como uma reinvenção do trabalho anterior (até porque não existe outra temática explorada) e sim como um adicional, um bônus, um adendo a este trabalho. Olhando por esse lado então, pode-se afirmar que sim, que valeu a pena. Percebe-se nos álbuns muito esmero e zelo pela matéria-prima que serve de base e isso não desabona em nada a formidável história concebida por Moore e Gibbons nos anos 80, pelo contrário só faz a enriquecer mais ainda.

Nota: 7,0

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- Quadrinhos: “Watchmen” – Alan Moore e Dave Gibbons

- Cinema: “Watchmen - O Filme” - 2009

terça-feira, 27 de maio de 2014

18o. Festival Cultura Inglesa - 25 de maio de 2014 - Memorial da América Latina (São Paulo)

Para quem gosta de música não há maior satisfação do que ver uma banda ou artista que admira ao vivo. Não necessariamente aqui falo da idolatria barata e na maioria das vezes ridícula, mas sim daquela estima e carinho com canções que tiveram um papel representativo na sua vida em determinado momento. E ver os escoceses do Jesus And Mary Chain em ação causa esse tipo de satisfação em um bocado de gente que conheço, e também em mim.

O Jesus And Mary Chain é uma das bandas que mais escutei na vida e que me acompanhou desde o final dos anos 80 até hoje. Ir novamente para São Paulo assistir uma apresentação deles, dessa vez no Memorial da América Latina gratuitamente dentro do 18º Festival Cultura Inglesa, era uma missão que aparentava ser extremamente prazerosa e com grande carga de emoção. Para se ter uma ideia, no show de 2008 no Festival Planeta Terra lagrimei umas três ou quatro vezes, ato que só repeti outra única vez no show do Paul McCartney. Nem no R.E.M me comovi tanto.

Desculpem o tom pessoal do texto, mas obviamente ele não é uma resenha imparcial, bem longe disso. Voltando a exibição de 2008, que muita gente achou burocrática, eu sinceramente gostei muito, pois já esperava algo do tipo. O que importava ali era escutar as canções, e perto do palco com um som muito bom esse objetivo foi cumprido plenamente com meu envolvimento em um transe particular de quase uma hora. Agora em 2014, a espera era basicamente a mesma. Nada de peripécias ou simpatia no palco, apenas as canções em alto volume. Nada mais.

A banda entrou no palco um pouco depois das 19:30 e os mais de 12 mil presentes já haviam passado por algumas provações antes disso. Pelo menos, a maior parte. Cheguei cedo (e me arrependi muito disso depois) então tive que conviver com a chuva perturbando e diminuindo o ânimo, além de ver o show da Monique Maion cantando Amy Winehouse. Fica difícil passar para quem não viu o tanto que foi ruim e desesperador estar ali. Depois com a chuva continuando foi a vez dos galeses do Los Campesinos! subirem ao palco e fazer um show sem graça que só no final deu uma leve guinada.

Até esse momento a única coisa boa era a praça de alimentação com boas opções e a expectativa do show do Jesus. No entanto, quando os irmãos Reid entraram no palco e executaram as duas primeiras músicas, logo se percebeu que as coisas não sairiam bem. “Snakedriver” e “Head On” apareceram em versões insípidas e sem força. O som na frente do palco estava muito ruim (no final fui mais para trás e esse som melhorou bastante). “Far Gone And Out” indicava que as coisas iam fluir melhor, mas os irmãos começaram a brigar (Jim contra William), o retorno dava pau direto e várias falhas ocorreram.

“Normal para um show da banda”, você diria. Sim, normal, mas isso não quer dizer que seja legal e que a escala com que isso aconteceu não foi pouco a pouco minando o resto de empolgação que existia. No entanto, mesmo com os problemas ainda é fantástico ouvir coisas como “Teenage Lust”, “Some Candy Talking”, “Happy When It Rains” (onde incrivelmente a chuva retornou para a festa) e “Halfway To Crazy”. O bis foi a melhor parte e emendou boas versões de “The Hardest Walk”, “Taste Of Cindy” e “Reverence”, esta última fazendo retornar o sorriso ao rosto, o mesmo sorriso que era exibido no começo do dia.

A versão 2014 do Festival Cultura Inglesa teve um sério problema com a chuva. Por exemplo, mais de 7 mil pessoas não retiraram seus ingressos ou não compareceram. Uma pena. No mais, mostrou boa organização e fácil acesso. O palco que em outros anos havia sido de nomes como Franz Ferdinand, Gang Of Four e Magic Numbers, dessa vez serviu para que os irmãos Reid encantassem os fãs e quase que na mesma proporção, também os desapontassem. Esta sensação foi a que ficou no ar no final. Porém, sempre é bom ressaltar (e aqui é o lado fã que fala), que mesmo uma apresentação razoável do Jesus And Mary Chain ainda vale bem mais do que muito show que hoje é ovacionado por aí.

Foto retirada do site oficial do evento: http://festival.culturainglesasp.com.br

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domingo, 25 de maio de 2014

"Rita Lee Mora Ao Lado - O Musical" - 24.05.2014 - Teatro Das Artes - São Paulo (SP)

Espetáculos musicais são mais explorados hoje no Brasil. Ainda não é uma tendência grande, pois se deve levar em consideração que o investimento é alto e a preparação demorada, além do fato da dificuldade em viajar pelo país com um número expressivo de atores e demais envolvidos. No entanto, viu se recentemente montagens sobre a vida de Tim Maia, Cazuza e Elis Regina, sendo que as duas últimas estão em cartaz no momento. Em comum com este três trabalhos citados está a questão da homenagem póstuma. No caso de “Rita Lee Mora Ao Lado – O Musical”, esse ponto já é distinto.

Uma engrenagem importante e influente no cenário musical nacional, Rita Lee tem uma obra vasta e repleta de momentos excelsos, que dão material de sobra para uma montagem desse tipo. A artista chegou a ir a uma das apresentações, corroborar a homenagem e dar seu aval para a exibição. E a peça é puramente isso, uma homenagem. Que visa não somente louvar os méritos artísticos, como também espelhar momentos de dificuldade que ela teve que passar, sem exercer a crítica em momento algum. A tonalidade do roteiro é leve e descomprometida, e isso não muda mesmo quando se tratam de temas como prisão e morte.

“Rita Lee Mora Ao Lado – O Musical” é adaptada do livro de mesmo nome de Henrique Bartsch lançado em 2009 e que visa contar a história da ex-Mutantes utilizando o recurso de uma terceira pessoa chamada Bárbara Farniente, que passa toda a vida bem próxima de Rita Lee. Esse recurso de pura ficção contrabalança os fatos reis com uma carga razoável de humor e torna o livro uma experiência agradável. A adaptação dos diretores Márcio Macena e Débora Dubois (com o auxílio de Paulo Rogério Lopes no texto) segue a mesma história em aproximadamente duas horas e meia de duração.

A atriz Mel Lisboa foi escolhida para interpretar a artista e Carol Portes como a onipresente Bárbara Farniente. Mel Lisboa (que é filha do músico Bebeto Alves) já mostrou que não é somente a garota bonita que apareceu na minissérie global “Presença de Anita” em 2001, exibindo talento em papéis interessantes no teatro. E esse talento reflete no musical. Ela incorpora muito bem a parte física e gestual da homenageada, ficando muito parecida até mesmo na maneira com que conversa com os outros. Porém, por mais que se esforce, não consegue se sobressair quando canta. E ela canta bastante.

Em algumas canções o problema nem aparece tanto, mas na maioria vemos um esforço demasiado que não surte muito efeito. As exibições de outros atores como Ney Matogrosso, Gilberto Gil e Hebe Camargo transitam entre o interessante e o ruim e o insosso, como nos casos de Tim Maia, Caetano Veloso e Elis Regina. Carol Portes como Bárbara Farniente também tem altos e baixos, uma hora anima a plateia, outra hora a constrange. São poucos os momentos da peça que realmente emocionam (destaque para a parte final). “Rita Lee Mora Ao Lado – O Musical” é apenas razoável e traz Mel Lisboa ótima como atriz e apenas esforçada como cantora.


Nota: 6,5

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sexta-feira, 23 de maio de 2014

"X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido" - 2014

Quem acompanha quadrinhos de modo geral, principalmente as aventuras de heróis e vilões mais antigos, vez ou outra se depara com algum tipo de viagem no tempo. Na Marvel então, isso é bem frequente. Quarteto Fantástico, Vingadores e X-Men são alguns dos grupos que já utilizaram este expediente em suas peripécias. Isso sem muita dosagem, o que gerou resultados positivos e alguns pequenos desastres e constrangimentos pelo meio do caminho.

“X-Men: Dias de um Futuro Esquecido” é o novo longa da franquia e estreia essa semana nos cinemas do país utilizando o mesmo estratagema para contar sua história. Novamente com o diretor Bryan Singer na regência (ele havia dirigido os dois primeiros filmes da trilogia anterior em 2000 e 2003) e sendo o trabalho subsequente ao bom “X-Men: Primeira Classe” de 2011, comandado por Matthew Vaughn, o trabalho utiliza as duas “turmas”, por assim dizer, dos mutantes, fazendo o elo entre a trilogia inicial e a nova.

O ponto de partida da nova película é uma realidade caótica repleta de desesperança onde os Sentinelas (máquinas criadas para caçar mutantes) mudaram sua programação e passaram também a atacar pessoas comuns deixando a humanidade de joelhos. Como se fosse uma última frente de batalha, os X-Men ainda resistem em um pequeno grupo que além de Charles Xavier (Patrick Stewart) e Magneto (Ian McKellen) conta com Wolverine (Hugh Jackman), Blink (Bingbing Fan), Colossus (Daniel Cudmore) e Bishop (Omar Sy), entre outros.

Vendo a resistência prestes a desabar, um plano é montado a partir de uma tensa e angustiante reunião. Identifica-se que no passado, mais precisamente em 1973, quando a Mística (Jennifer Lawrence) mata o idealizador do projeto Sentinela, Bolívar Trask (Peter Dinklage, o Tyrion Lannister de Guerra dos Tronos), é que o atual cenário tem princípio. E a ideia é mandar alguém para esta época com o intuito básico de impedir o assassinato. O escolhido, devido ao fator de cura, é Wolverine, que assim tem sua consciência transportada para o seu eu muitos anos mais novo.

Lá no passado, Wolverine precisa primeiro juntar os jovens Xavier (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender) quando os dois eram inimigos fatais. Uma tarefa nada fácil. Contando com a ajuda do Fera (Nicholas Hoult) e do garoto Mercúrio (Evan Peters) ele ruma para a missão. Com o cenário montado o filme parte para o campo da ação, das brigas ideológicas e da pressão psicológica. E o diretor Bryan Singer (que patinou depois de sair da franquia), amarra de maneira consistente todos esses lados, mesmo com algumas decisões ruins no roteiro.

A liberdade criativa de “X-Men: Primeira Classe” que rendeu bons resultados, aqui causa uma porção de confusão. Não se sabe como Kitty Pryde conseguiu mandar Wolverine ao passado, ou porque Mercúrio aparece tão alegre, já que ele sempre foi tão amargurado nos quadrinhos (pelo menos, deixaram a arrogância), só para citar dois exemplos. A decisão de mostrar também vários personagens da primeira trilogia em participações especiais agrada a primeira vista, mas se analisada friamente não tem muita necessidade de existir. Isso sem contar que falta ação para os Sentinelas (em especial os clássicos).

“X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido”, contudo, é aquele tipo de trabalho que consegue acertar mais do errar, mantendo assim a franquia em cima dos trilhos. Mesmo com Hugh Jackman aparecendo com destaque nos cartazes são Jennifer Lawrence, James McAvoy, Michael Fassbender e Peter Dinklage que aparecem com proeminência na trama. Bryan Singer sai vitorioso da empreitada, pois consegue novamente mostrar uma parte do talento já apresentado outrora, enquanto prepara o longa final dessa nova fase dos mutantes. Entretanto, como tudo na vida, podia ser melhor.

Nota: 7,0

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Assista a um trailer legendado:

quarta-feira, 21 de maio de 2014

"Fim" - Fernanda Torres

O escritor e filósofo inglês Francis Bacon escreveu em uma de suas obras no longínquo ano de 1625 que “os homens temem a morte como as crianças temem ir ao escuro”. Tal assertiva datada de tanto tempo atrás personifica um pouco o temor do ser humano com o perecimento, com o final a que todos estamos sujeitos. Quanto mais velhos ficamos é normal que essa ideia esteja mais presente nos nossos pensamentos e mesmo que não se fique paranoico com isso, vez ou outra esse pensamento surge.

Baseado nesse compromisso inadiável que todos nós temos é que a atriz Fernanda Torres ambienta seu primeiro romance, intitulado não por acaso com o nome de “Fim”. Atriz competente e hábil tanto no teatro quanto na televisão e no cinema, ela já se arriscava na escrita em publicações como a Revista Piauí e a Folha de São Paulo. Essa transição para um romance completo foi então gradual e começou com um conto encomendando pelo diretor Fernando Meirelles (de “Cidade de Deus”) anos atrás.

Lançado no ano passado pela Companhia Das Letras com 208 páginas, “Fim” discorre sobre a morte, não esconde isso de maneira alguma, mas também investe no modo de vida que se leva até chegar a esse dia. As escolhas, loucuras, amores, arrependimentos, brigas. O caminhar rotineiro de cada indivíduo sobre a terra. Para tanto usa um tom debochado, satírico, desvairado e repleto de humor. Esse tom surpreende até mesmo quem já havia lido outro texto seu antes. É sentimental, mas com elevada carga de escárnio.

“Fim” usa o Rio de Janeiro como recinto, um Rio de Janeiro bem diferente do atual. O contraponto entre as épocas é talentosamente utilizado e é importante para ambientar a trama. Trama, que se centraliza em cinco amigos (Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro) que invadem os anos 50 e vivem a mudança acentuada de comportamento que a sociedade passou, assim como já entram nos anos 60 com tudo de bom e de ruim que isso representa. A vida dos personagens viaja pelas demais décadas até o dia anterior do seu falecimento.

O grupo de amigos é composto por um cara certinho, um perito em drogas diversas e álcool, um conquistador nato, um atleta radiante e um reclamão de primeira linha. Atrás dessas vestes iniciais, Fernanda Torres estrutura muito bem cada um com seus defeitos, neuroses, dúvidas e aspirações. Essa estruturação é fundamental para que o romance funcione levando-se a crer fortemente que a autora não é uma mulher de 48 anos e sim um homem que viveu os mesmos regalos e desgostos que os personagens que criou.

Para deixar a coisa mais satisfatória ainda, corta o tempo em fatias e muda o narrador da história frequentemente, não somente passando pelos cinco amigos, como também se difundindo entre esposas, filhos, amantes e até mesmo o capelão do cemitério São João Batista. De modo escrachado e sagaz discorre sobre cenários típicos da cidade e situações que de um modo ou outro todos se sujeitam totalmente ou parcialmente no decorrer da vida. Para a autora Fernanda Torres nada é intocável, tudo merece uma alfinetada aqui e acolá.

No seu romance de estreia Fernanda Torres toma o leitor de assalto e agrada bastante. Fala de uma questão séria como a morte e daquele momento que já se deseja que ela venha em troca da amarga vida atual, depois de tanta coisa experimentada e sentida no passar dos anos. E faz isso sem soar piegas, pelo contrário. Com uma escrita remetendo levemente a nomes como Reinaldo Moraes e Sérgio Sant’Anna versa sobre o usufruto da vida e sua finitude, para no meio disso também versar sobre uma geração que aprendeu que ninguém pode fugir do amor e da morte.

Nota: 9,0

A Companhia das Letras disponibiliza gratuitamente um trecho aqui: http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/13662.pdf

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terça-feira, 20 de maio de 2014

"Capitão América 2: O Soldado Invernal" - 2014

Dois anos após a invasão alienígena retratada em “Os Vingadores”, Steve Rogers já está mais acostumado com o mundo atual e faz o que pode para se manter atento as novidades desse mundo. Como sempre foi um soldado e só sabe funcionar como um seguidor de ordens, está a serviço da S.H.I.E.L.D e, por conseguinte, a serviço de Nick Fury. Na sua cabeça, porém, mesmo que ele entenda que o mundo não é mais tão preto e branco como era, ainda assim faz-se crer que está a serviço do seu país primordialmente.

É esse o cenário de entrada de “Capitão América 2: O Soldado Invernal”, o novo filme sobre o herói estrelado que mais uma vez é interpretado por Chris Evans. A película tem a direção da dupla Joe Russo e Anthony Russo, profissionais com um trabalho mais intenso na televisão em séries como “Commnunity”, e roteiro dos mesmos Stephen McFeely e Christopher Markus (de “Capitão América - O Primeiro Vingador” de 2011), baseado na história desenvolvida nos quadrinhos pelo habilidoso Ed Brubaker.

Se o primeiro bom filme tinha certa missão em preparar o terreno para “Os Vingadores” de 2012 e acabava se atrapalhando um pouco por conta disso, não vemos esse problema agora em 2014. O cenário pós-invasão é perfeito para o desenvolvimento de um roteiro que antes de um ser uma “história de super-herói” é uma narrativa de espionagem, traição, ganância, descobertas e afirmações. É por causa principalmente disso que acaba sendo mais um dos grandes acertos da Marvel na transposição das suas obras para o cinema.

Sem meio saber no princípio as razões e as causas dos acontecimentos a sua volta, o Capitão América se vê atrelado a contradições (precisa quebrar as regras) e sem poder confiar em ninguém. Depois de uma missão junto com a Viúva Negra (Scarlett Johansson arrancando suspiros, como de costume), a S.H.I.E.L.D está na mira de uma invasão interna e o primeiro alvo é Nick Fury (Samuel L. Jackson, com papel decisivo finalmente). Conforme a agência mundial de segurança vai ruindo, novas revelações e parcerias vão se consolidando.

“Capitão América 2: O Soldado Invernal” apresenta mais alguns personagens vinculados ao universo do herói e faz isso de maneira eficaz e sem fanfarra. Aparece o parceiro de sempre Falcão (Anthony Mackie, muito bem), a Agente 13 (Emily Vancamp), assim como os vilões Ossos Cruzados (Frank Grillo) e Batroc (o lutador Georges St. Pierre). Isso, além de trazer no elenco o grande Robert Redford como Alexander Pierce, Sebastian Stan irrepreensível como o Soldado Invernal e apresentar a HYDRA com a dose exata de megalomania.

Os diretores Joe e Anthony Russo, que também serão os responsáveis pelo terceiro filme da franquia, conseguiram fazer um trabalho quase sem falhas. Reuniram uma quantidade elevada de cenas de ações com intrigas e discussões internas sobre moral e dever. Até a série “Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D” que nos episódios da primeira metade era muito abaixo das expectativas geradas, se renovou e melhorou muito quando se alinhou aos eventos do filme. “Capitão América 2: O Soldado Invernal” entra no rol das melhores adaptações já feitas dos quadrinhos para o cinema. Com muito mérito.

Nota: 9,5

Textos relacionados no blog:

- Cinema: “Os Vingadores” – 2012


Assista a um trailer legendado: 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

“Will Eisner: Um Sonhador Nos Quadrinhos” - Michael Schumacher

“Eu não tinha ideia de que estava fazendo uma revolução. Sabia que o meu trabalho era diferente porque eu queria que fosse diferente, e que estava falando com um leitor totalmente distinto”.

O pequeno texto acima é uma das citações que o escritor Michael Schumacher usa no início do livro “Will Eisner: Um Sonhador Nos Quadrinhos”. De autoria do biografado, a frase diz muito sobre a personalidade dele, que sempre acreditou no potencial e no alcance da arte que fazia. Lançado lá fora em 2010 ganhou edição nacional pelo selo Biblioteca Azul da Editora Globo no ano passado. Com 410 páginas e tradução de Érico Assis passa a limpo toda a vida deste símbolo da nona arte.

O autor, um biógrafo que já formulou obras sobre nomes como Allen Ginsberg, Eric Clapton e Francis Ford Coppola, entende muito bem do ofício. Sua escrita é limpa e de fácil acesso, além do fato de dosar bem dados históricos com opiniões pessoais. Esses dados oriundos de uma pesquisa tão vasta e cuidadosa quanto se pode imaginar para alguém com uma carreira ativa de mais de 70 anos é o eixo que sustenta todo o livro, permitindo ao autor um terreno independente para expressar suas opiniões, assim como apresentar a de pessoas do mesmo círculo.

Para a sorte de Michael Schumacher, falar sobre a vida de Will Eisner é um trabalho árduo, mas muito prazeroso. E ele consegue transferir esse prazer perfeitamente ao leitor. Nascido no Brooklyn em Nova York em 1917, Eisner passou pela grande depressão na adolescência e isso o moldou para a vida toda. Judeu, sentiu na pele os efeitos da segunda guerra mundial, e sempre combateu nos seus álbuns o antissemitismo. Forçado a ir para a rua muito cedo para ajudar com a renda familiar, sempre foi uma máquina de trabalhar até falecer em janeiro de 2005 aos 87 anos.

Sempre acreditando no potencial da arte que fazia, foi um titã na briga para ver os quadrinhos localizados em livrarias e não somente em bancas, para ver os quadrinhos respeitados e não ridicularizados, para ver os quadrinhos como leitura adulta e séria e não somente infantil e engraçada. Para controlar isso, assim que teve a oportunidade montou o próprio estúdio com 20 e poucos anos para gerenciar a produção e os ganhos, como também controlar o fluxo financeiro de modo geral.

Foi muito criticado posteriormente (e com certa razão) pela mão de ferro que comandava seus estúdios e pela prática adotada no repasse de créditos para os artistas que trabalhavam com ele. De personalidade afável, mas também totalmente avesso a muitas críticas ao seu trabalho, manteve relação cordial com poucos editores. Nos estúdios dele passaram nomes como Bob Kane (criador do Batman), Jack Kirby (o monstro criador do Quarteto Fantástico, Thor, Hulk, Homem de Ferro, Vingadores e tantos outros), Lou Fine e Bob Powell.

Esses primeiros passos da indústria dos quadrinhos são realmente instigantes de se ler. Didático, narra um pequeno universo repleto de intrigas, falsidade, traições e desonestidade. Era como matar literalmente um leão todo dia. Will Eisner começa a galgar espaços maiores quando no começo dos anos 40 idealiza o personagem que mais é vinculado a ele até hoje, The Spirit. Com Spirit sendo publicado em suplementos de jornais, o alcance que ele passou a ter alcançou a casa dos milhões de leitores.

O período de maior ostracismo (mas não de trabalho) é pela primeira vez bem abordado. Depois da segunda guerra (na qual foi convocado e foi), o quadrinista fez a opção de montar uma nova empresa e trabalhar para o governo e empresas privadas. Esse período de muito trabalho, mas pouca criatividade e relevância, foi fundamental para que nos anos 70 se surpreendesse com a novidade das comixs de nomes como Robert Crumb, Art Spielgeman e Gilbert Shelton, e a partir disso impulsionasse a carreira para o patamar que idealizava.

Will Esiner não foi o criador do termo graphic novel, mas definitivamente foi ele que o potencializou. Com histórias pessoais alinhadas a uma arte distinta, potente e comovente criou obras fantásticas como “Um Contrato Com Deus”, “Ao Coração Da Tempestade”, “A Força da Vida”, “Avenida Dropsie” e “Pequenos Milagres”. Depois dessa retomada de produção para o público em geral mesmo obras menores tem seu valor, como “Pessoas Invisíveis” e “Fagin, O Judeu”, até adaptações de clássicos da literatura em um projeto educativo.

Michael Schumacher conduz muito bem a biografia, que é vasta em imagens e fotos, e mesmo ficando clara a sua admiração pelo artista, não deixa de emitir opiniões críticas (ainda que em doses moderadas). Isso fortalece muito o trabalho e faz de “Will Eisner: Um Sonhador Nos Quadrinhos”, uma leitura imprescindível para os amantes dos quadrinhos. Uma leitura sobre um fundamental e formidável artista e a crença de que sempre podia mais. É para acabar de ler, correr para a estante e retirar seus trabalhos de lá novamente.

Nota: 9,0


Site oficial: http://willeisner.com 

domingo, 18 de maio de 2014

“Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz – O Musical” - 17.05.2014 - Assembleia Paraense - Belém (PA)

A vida de Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, desembarcou no teatro em outubro do ano passado. Além do livro e do filme, um musical também serve agora para contar a trajetória de um dos maiores artistas dos anos 80, através de suas icônicas canções. “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz – O Musical” tem texto de Aloísio de Abreu e direção de João Fonseca, o mesmo do musical sobre o Tim Maia. E durante sua turnê nacional desembarcou em Belém para três apresentações no final de semana.

O lugar escolhido para o espetáculo foi a Assembleia Paraense. Com a ideia na cabeça de conseguir o maior público possível, a produtora não tinha como alocar tal exibição no belo Theatro da Paz ou no Teatro Maria Sylvia Nunes, ambos acolhedores, mas realmente pequenos para o porte que foi imaginada a apresentação. O lugar designado então teve que se adequar colocando cadeiras nos setores escolhidos e divididos, bem como ajustar o espaço no que tange a iluminação e sonoridade.

O resultado disso para o público foi bem infeliz. Primeiro, não tinha ninguém informando qual o lugar de acesso que cada espectador deveria ocupar. Segundo, as cadeiras eram completamente desconfortáveis para se ficar em um período total superior a 3 horas, sem contar o fato do aperto, pois não tinha espaço entre elas (assento de companhia aérea era um sonho, se compararmos) e estavam tudo no mesmo nível de visão. E, só para fechar bem, tinha uma coluna de exibição de luz na frente do palco atrapalhando a visão de todos. Lamentável, ainda mais considerando o salgado valor pago pelos ingressos.

Seguindo para o espetáculo em si, a grande virtude do musical é a maneira que trata livremente do estilo de vida de Cazuza, com as drogas, o álcool e o sexo não sendo escondidos sempre que possível, como no (bom) filme de 2004. O ator e cantor Emílio Dantas tem um timbre muito parecido com o do homenageado, o que ajuda bastante. A sua composição visual de gestos e performance, mesmo que soe caricata e excessiva vez ou outra, convence bem, o mesmo ocorrendo para as interpretações de Ezequiel Neves e Ney Matogrosso.

A vida toda de Cazuza aparece no musical. Do início e da percepção que não era que nem os demais até o final provocado pela AIDS, tudo está lá. A paixão pela poesia e pelos sambas, os tempos de Barão Vermelho, os amores e dissabores, o desbunde total do Rio dos anos 80, a carreira solo, os discursos, a revolta em perder seu estilo de vida por conta de uma doença e o fim esperado. A cenografia de Nello Marrese é simples e funciona de modo prático e os figurinos concebidos por Carol Lobato se adequam bem aos tempos retratados.

Cazuza faleceu em 1990 aos 32 anos e beirou o extraordinário durante a sua vida artística. Há de se questionar sempre toda a loucura e porra louquice, pois se apoiava financeiramente no colo do pai famoso (João Araújo, presidente da Som Livre na época), mas isso é outra história. Se o tom libertário e atrevido era porque havia uma rede de segurança em volta, é impossível afirmar. O que se pode concluir é que como artista foi fundamental para uma geração se conhecer e botar pra fora alguns demônios pessoais e comportamentais em forma de música.

“Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz – O Musical” recria além da história, canções poderosas como “Blues da Piedade”, “Ideologia”, “Preciso Dizer Que Te Amo” e “Por Que a Gente é Assim?”, além de outras não gravadas por ele como “Poema” e “Mais Feliz”. Os atores, apesar do tom demasiadamente forçado em algumas passagens, exibem um trabalho adequado. É um musical digno, uma homenagem que se não é perfeita, não desonra aquilo que se direciona a contar. Só não foi uma experiência melhor devido ao local escolhido para a exibição. Uma pena.

Nota: 6,5