segunda-feira, 16 de maio de 2016

Quadrinhos: "Robô Esmaga" e “Campos de Batalha – Vol. 1”


Desde 2010 o carioca Alexandre S. Lourenço publica de maneira independente na web a tirinha “Robô Esmaga”, sendo premiado nacionalmente por esse trabalho. No ano passado a Editora JBC, mais conhecida pelo foco em mangás, publicou uma compilação dessas tiras em 84 páginas através do selo INK Comics (criado e administrado por ela). Nas tiras de Lourenço são explorados temas do cotidiano como o trabalho, a família, o ofício de quadrinhista, os amores e a nossa própria inadequação para com o mundo, para com aquilo que estamos fazendo no dia a dia. Com traço minimalista, rabiscado e sem se prender a fórmulas de quadros pré-estabelecidas no que tange a orientação e tamanho, apresenta também algumas outras facetas, como na ótima crítica social de “gigante”. Mas é olhando para esse nosso aceite (voluntário ou não) perante a sociedade e aquela vontade ali dentro do peito de dar uma bicuda em tudo que ele se sobressai de verdade. Tiras como “2-15”, “cinco centímetros”, “amarras” e “fabrízio” são especialmente arrebatadoras. Na verdade, ao ler “Robô Esmaga” é difícil para o leitor não se identificar pelo menos parcialmente com alguma das tiras. Mesmo concluindo a leitura em poucos minutos, fica aquela vontade de ler tudo de novo, para pegar algum sentimento que porventura possa ter passado despercebido. O trabalho de Alexandre S. Lourenço destaca-se por isso. Por gerar essa identificação e fazer isso com delicadeza e até arrancando um sorriso do leitor. É torcer que mais volumes com essa qualidade sejam publicados no futuro.


Nota: 7.5


“Battlefields” é uma grande série desenvolvida pelo quadrinhista Garth Ennis na Dynamite Entertainment. Publicada nos EUA desde o final de 2009, ela é dividida em pequenas minisséries de três capítulos todas vinculadas a segunda guerra mundial. Agora em 2016 a Mythos Editora publica as duas primeiras histórias em um encadernado de capa dura com extras em 164 páginas e com classificação adulta. “Campos de Batalha – Vol. 1” apresenta duas tramas desenvolvidas pelo irlandês criador de hq’s como “Crossed”, “The Boys” e “Preacher”, mostrando aspectos um pouco diferentes dessas obras, mas ainda com a violência como condutor (afinal, estamos falando em guerra), porém apresentada sobre outro viés. A primeira delas é “As Bruxas da Noite” com ilustrações de Russ Braun e cores de Tony Aviña. Uma história forte, vigorosa, com algum humor mais ácido, que trata da invasão do exército alemão nazista na extinta União Soviética, apresentando um esquadrão de aviação composto só por mulheres russas, que aterrorizam os soldados alemães enquanto estes avançam. Coesa e com um final repleto de clímax é o ponto alto da edição. A segunda história tem arte de Peter Snejbjerg e cores de Bob Steen e se chama “Querido Billy” e leva o cenário da segunda para a invasão japonesa à China e o envolvimento de britânicos e americanos em relação a isso, apresentando como personagem principal uma enfermeira repleta de ódio e com desejos de vingança aos japoneses por conta do que lhe aconteceu. Também com final em ponto elevado, fica um pouco abaixo da primeira pelo andamento como um todo, mas ainda sim se configura em uma boa história. Com capas do grande John Cassaday (Planetary), “Campos de Batalha – Vol. 1” apresenta um Garth Ennis com outra levada no âmbito geral, mas ainda assim esbanjando maestria pelas páginas.

Nota: 8.5


quarta-feira, 11 de maio de 2016

Quadrinhos - "Quiral" e “Thor: O Deus do Trovão - Bomba Divina”


“Quiral” é um quadrinho nacional que utiliza como personagens principais um capitão e uma garota separados entre si por muitos e muitos anos, mas que no fundo, não estão tão separados assim como essa premissa nos leva a crer de início. Criação da dupla Eduardo Damasceno e Luiz Felipe Garrocho que dividem o texto e a arte, tem 44 páginas e foi lançada no decorrer do ano passado pela Editora Mino, mais uma empresa apostando no mercado de quadrinhos e fazendo isso com qualidade, o que é melhor ainda. Na trama uma jovem que gosta de aventuras marítimas e trabalha diretamente com o mar fazendo redes de pesca, lê em casa um velho diário de um capitão que mantinha a tripulação focada para caçar monstros marinhos em prol da comunidade. Com um leve toque de fantasia no meio, a dupla insere com sensibilidade e destreza questões como coragem e dever, sublinhadas pela amargura e pelo medo reunidos de algumas decisões. Para separar o passado e o presente, utilizam tons diferentes de cor para cada época que entrecortam nas páginas, uma saída que além de funcionar para um entendimento mais rápido, ajuda e muito no visual da obra, que fica mais bonito. O trabalho da dupla Damasceno e Garrocho já teve seu talento anterior demonstrado em obras como “Achados e Perdidos”, “Cosmonauta Cosmo” e na releitura feita para o Bidu em “Caminhos”, projeto da série Graphic MSP que recria os personagens de Mauricio de Sousa. Aqui em “Quiral” isso não é diferente, que além de ser uma ótima leitura e envolver quem a lê, serve para ratificar ainda mais o talento já citado da dupla.

Nota: 8.0


“Será um mundo melhor sem deuses. Nada de medo de danação eterna ou de anseio por recompensa futura. Nada de ódio entre crentes de fés rivais. Sem a mentira da eternidade para servir de muleta, não teremos escolha senão finalmente prezar o pouco e precioso tempo que temos. E dedicar a fé a nós mesmos”. Esse trecho está dentro do encadernado de capa dura “Thor: O Deus do Trovão – Bomba Divina” com 140 páginas lançado pela Panini Comics esse ano. Continuando o arco “Carniceiro dos Deuses” traz o final dessa jornada reunindo as edições originais publicadas lá fora entre maio e dezembro de 2013. Com direito a alguns extras esse conjunto de histórias contados por Jason Aaron no roteiro e com a arte de Esad Ribic e Butch Guice tem o poder de entrar para o rol das grandes histórias do personagem. Isso porque reúne de uma história característica do Thor, como também insere divagações mil sobre a relação das pessoas comuns com seus deuses, independente de que planeta (ou país estejam). Na busca de cancelar o plano de Gorr, uma entidade que trabalha movida a vingança e a dor, são reunidos Thor’s de diferentes pontos do tempo, o que acrescenta mais ainda já que visualiza inquietações díspares e apresenta reflexões sobre o passar do tempo. Jason Aaaron (Wolverine) costura esses pontos de maneira concisa e faz com que todas as reflexões que apresenta planem no ar e faça o leitor vez ou outra parar um pouco no meio das páginas. A arte acompanha o ritmo (as capas são fantásticas) com quadros bem estilizados e as cores variando entre a claridão e o sombrio, de acordo com o que pede a trama. Da série chamada “Nova Marvel”, Thor talvez tenha sido o melhor acerto da editora.

Nota: 9.0

sábado, 7 de maio de 2016

Quadrinhos: “Excalibur” e “Víuva Negra - A Mais Delicada Trama”


O trabalho do artista e roteirista Chris Claremont com os X-Men, redefiniu o grupo, alongou seus tentáculos e transformou a série em um sucesso estrondoso para a Marvel. Esse ícone da nona arte tentou outra ousada ideia com a habitual mão centralizadora por qual é conhecido criar outro desses braços dos X-Men em 1987. Junto com o artista Alan Davis responsável por uma fase esplendorosa do Capitão Britânia ao lado do gênio Alan Moore, Claremont criou uma nova equipe em um mundo que pensava que os mutantes do Professor Xavier estavam mortos. A equipe reunia além do já citado Capitão, a namorada transmorfa Meggan, Rachel Summers e os sobreviventes Noturno e Kitty Pride. Esse início foi publicado no Brasil em meados do ano passado pela Panini Comics em um encadernado com capa cartonada de 180 páginas reunindo as edições originais “Excalibur” de 1 a 5, além de “Excalibur Special Edition: The Sword is Drawn” lançadas entre março de 1987 e fevereiro de 1989. A trama começa com as óbvias diferenças e ajustes de um grupo que está se formando, com brigas, desavenças e até mesmo um triângulo amoroso. No entanto, a partir do momento em que percebem sua importância as coisas começam a fluir no combate a situações rotineiras e vilões malucos. Uma das grandes sacadas do autor na época foi usar todo o arcabouço de ideias produzidas antes por Alan Moore em Capitão Britânia. O tom amalucado, com algum humor e situações bem surreais dão o tom, apoiadas na sobriedade dos desenhos de Davis. Contudo, mesmo se reconhecendo alguns méritos e com a nostalgia envolvida, “Excalibur” é uma história que envelheceu mal e hoje cansa mais do que diverte, tanto pelas assertivas que expõe quanto pelos caminhos que explora. Vale para conhecer o trabalho, porém hoje, não vai muito além do que isso.

Nota: 5.0


Natasha Romanova sempre deixou o passado coberto com os véus mais pesados. Sua primeira aparição nos quadrinhos foi em 1964. Espiã russa, craque em dissimulação, armamentos e combate corpo-a-corpo, utilizava também da beleza também para conseguir objetivos. Começando como vilã, acabou por se tornar heroína (com vários senões, é verdade) e entrou para Os Vingadores. No cinema representada pela bela Scarlett Johansson, essa aura de mistério e as características citadas acima permaneceram e forjaram a personagem a um sucesso maior, levando a Marvel (em mais uma das suas repaginadas) dar nova atenção para a perigosa ruiva. O início disso a Panini Comics lançou por aqui no começo do ano no encadernado “Víuva Negra – A Mais Delicada Trama”, reunindo as edições “Black Widow” de 1 a 6 e o especial “All New Marvel Now! Point One 1”, publicados entre março e junho de 2014 nos EUA. Com roteiro de Nathan Edmondson (The Activity) as 148 páginas apresentam uma protagonista em busca de alguma redenção, por mais complicado que isso seja. Se redimir dos pecados do passado nem sempre é tarefa fácil e a Víuva Negra aprende isso. Em conjunto se vê também no meio de uma complexa trama trabalhando com a S.H.I.E.L.D, na qual suas habilidades, mesmo bem interessantes, podem não ser suficientes. Os desenhos de Phil Noto (Star Wars) são funcionais e o uso que ele dá as linhas rabiscadas e ao uso das cores, faz com que essa nova fase também tenha méritos visuais. Ao colocar a Víuva Negra fazendo o trabalho de espionagem que está acostumada a fazer, sem esquecer de explorar um pouco a sensualidade e, principalmente, não inventando fatos absurdos para o passado dela, deixando o mesmo ainda repleto de questões a serem levantadas, Nathan Edmondson acerta a mão e apresenta uma boa fase para a antiga espiã russa.

Nota: 7.0


domingo, 1 de maio de 2016

Quadrinhos: “Deadpool – Meus Queridos Presidentes” e de “Homem-Aranha – Negócios de Família”


Tudo pode acontecer com o Deadpool né? Já deu para perceber isso no decorrer dos anos, então nada mais normal (para ele) do que ter que enfrentar uma horda de zumbis poderosos composta por todos os ex-presidentes dos EUA já falecidos. “Deadpool – Meus Queridos Presidentes” é uma publicação nacional do início do ano em capa dura da Panini Comics com 140 páginas e faz um compêndio das edições do mascarado maluco de 1 a 6 lançadas nos EUA entre janeiro e maio de 2013. Com roteiro de Gerry Duggan e Brian Posehn, tem ilustrações de Tony Moore e cores de Val Staples. No divertido absurdo da história, os ex-presidentes são convocados do além por um maluco ex-agente da S.H.I.E.L.D que mexe com magia, para que estes salvem a América, que anda uma desgraça só. Bom, as coisas não saem bem como o planejado e a agência com vergonha (entre outras coisas) do ocorrido acaba convocando o Deadpool para salvar o dia. Claro que também que as coisas não fluem da maneira que todos pensavam e o mercenário tagarela vai arremessando corpos na mesma proporção que distribui suas piadas ácidas e comentários cruéis. Esse primeiro arco de histórias apresentou a nova fase do personagem que continua em alta voltagem até hoje. “Deadpool – Meus Queridos Presidentes” é diversão do início ao fim, com uma ou outra crítica espalhada ali pelo meio do caminho, e uma “repaginada” peculiar de personagens históricos e tão importantes. Inclusive, pode tranquilamente a alguns anos figurar entre as histórias clássicas do protagonista, mesmo que seja um mais do mesmo do que já se viu antes. Sem se atentar a isso, no entanto, cumpre o seu papel que é divertir o leitor. E cumpre muito bem.

Nota: 8,0


Um dos pontos fracos mais latentes do Homem-Aranha sempre foi a família. Desde o início lá atrás quando o tio é assassinado, o herói ficou obcecado pela segurança de todos aqueles ao seu lado. Usando essa “fraqueza”, os escritores Mark Waid (Demolidor) e James Robinson (Batman) criaram uma graphic novel com trama fechada que apresenta o aracnídeo tendo que lidar de maneira bem interessante com isso. Publicada originalmente nos EUA em 2014, a história ganha edição nacional nesse ano pela Panini Books com capa dura, tratamento cuidadoso e 116 páginas. A arte da hq é um caso à parte. Com desenhos de Werther Dell’Edera e arte pintada do magistral italiano Gabrielle Dell’Otto (de “Guerra Secreta”), a trama que já é boa, se amplifica ainda mais. Falando em trama, tudo começa com Peter Parker sendo salvo por uma misteriosa mulher, que mais a frente se verá ter relações familiares diretas com ele. Por trás de tudo está um zeloso plano do Rei do Crime (como a capa já denuncia o envolvimento dele), que ambiciona voltar para o reinado que deixou para trás. É bacana se deparar com uma boa história do Aranha, tão maltratado ultimamente nos quadrinhos, com um roteiro que se sustenta e traz o leitor para o jogo. Com direito a vários extras, a edição brazuca de “Homem-Aranha – Negócios de Família” é daquelas para se guardar na estante, ainda mais pelo deslumbrante trabalho visual apresentado. Se ainda hoje o escalador de paredes é um dos maiores nomes da Marvel, causando rebuliço até em outras mídias, dá para imaginar o quão grande ele seria se recebesse sempre o mesmo tratamento aqui dispensado pela dupla Mark Waid e James Robinson.

Nota: 9,0


quinta-feira, 14 de abril de 2016

Manifesto - Blogs, Selos e Artistas contra o Golpe


Todos os blogs de cultura, selos musicais e artistas que assinam esse manifesto publicaram o texto abaixo em seus perfis de Facebook e dentro de seus espaços virtuais.


Em 1992, quando fomos às ruas pra apear Collor do poder, fomos, como hoje, movimentados pela mesma revista Veja e pela mesma Rede Globo. A favor da nossa consciência, Collor cometeu o equívoco de ele mesmo se beneficiar do esquema de corrupção desenhado pelo seu tesoureiro Paulo César Farias. PC pagava contas pessoais do presidente e da primeira-dama com grana de propina. Uma CPI foi instaurada na Câmara e os deputados saíram com provas de que Collor, já na presidência, utilizava-se desse dinheiro para benefício próprio. Era o tal crime de responsabilidade que justificou seu impeachment: o presidente dolosamente e diretamente utilizava do seu cargo pra conseguir benefícios indevidos.
Piorou quando PC Farias e Collor forjaram documentos pra tentar provar que a grana usada pras despesas do casal mandatário vinha de um empréstimo do Uruguai. Virou falsificador.
Tirar Collor do poder foi pouco traumático pra democracia brasileira, ainda cheirando a talco de neném, na sua primeira eleição direta à presidência depois da acintosa ditadura militar que durou mais de vinte anos. Itamar Franco assumiu, arrumou um plano econômico que ajustou a moeda nacional e fez seu sucessor. Que se reelegeu. Então um novo partido venceu as eleições e elegeu um novo presidente, que fez sua sucessora. Que dois anos atrás também se reelegeu.
Para então estarmos diante novamente de um processo de impeachment. Diferentemente de Collor, Dilma não tem nada contra. Nesse meio tempo, entre sucessores e reeleições, muitos escândalos de corrupção apareceram. Teve o da reeleição, Banestado/Lava Jato, privataria tucana, mensalão petista e mensalão tucano, petrolão/Lava Jato, HSBC, CARF, Panama Papers e nada, em nenhum deles, o nome de Dilma aparece.
A sua chapa está enrolada em tramoias envolvendo obras públicas e a Petrobras. Seu nome não aparece como beneficiária direta de um centavo sequer. Ao contrário, seus delatores, seus acusadores e seus opositores, grande parte deles, em especial os protagonistas (Eduardo Cunha, presidente da Câmara; Renan Calheiros, do Senado; Michel Temer, vice-presidente da República; Aécio Neves, líder da oposição etc.), estão todos enrolados, indiciados ou acusados. Pois é, “a gente somos corruptos”.
Na falta de um crime tão compreensível pra população como o de Collor, arrumaram um “crime fiscal” pra justificar o injustificável, o golpe, a destituição de uma presidente eleita pelo povo, democraticamente, legitimamente: as “pedaladas fiscais”, que a grande maioria talvez nem entenda ou queira entender.
Dificultando a compreensão do “crime”, entra a mídia pra inflar a ira da turba, pregando no partido da presidente a pecha de bandido, o que para a grande massa acaba sendo a mesma coisa. Ela não fez nada, mas as informações e a narrativa são para misturar tudo num balaio só. Ela virou uma bandida sem crime. Já está condenada antes mesmo de qualquer julgamento.
A chamam de ladra, de louca, de anta, de nomes impronunciáveis. Uma covardia. Enquanto não se provar nada contra ela, enquanto não tiver uma mísera prova de que ela é corrupta, o máximo que se pode dizer dela é que Dilma é incompetente, mas isso vai da visão de cada um. Um governo incompetente ou impopular se tira no voto, não por impeachment. Acontece que os derrotados de 2014 não souberam esperar e inventaram uma série de artimanhas para tirá-la do poder.
Primeiro, recontagem de votos. Deu em nada. Depois, os crimes vinculados à Lava-Jato. Até agora, nada do nome dela aparecer. Ainda existe a saída pelo Tribunal Superior Eleitoral, já que delação premiada de um empreiteiro acusa sua chapa de usar dinheiro de propina na eleição. Uma delação, nenhuma prova, por enquanto. É esperar.
Enquanto isso, arrumaram esse “crime fiscal” que ninguém entende e forçam a barra para que achem que é roubo. Não é. Nem crime é.
Não podemos ser a favor disso. O que vale em resumo desse texto é: impeachment com crime não é golpe; sem crime, é. O dela é golpe. Não há crime.
E há promessa de coisa pior: dessa turma de golpistas, grande parte investigada e suspeitada pela Lava-Jato, espera-se que as investigações sejam estancadas. Tirado o PT do poder, encerra-se tudo, não investiga-se mais ninguém, já era, todo mundo se salva, e ainda expulsa-se quem a mídia queria expulsar. Não é um processo contra corrupção, portanto. Se fosse, Dilma não estaria nessa situação, já que ela não é nem mesmo citada num escândalo em investigação.
Por incrível que pareça, doze anos depois, por falta de provas, Collor foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal dos crimes de peculato, falsidade ideológica e corrupção passiva. Um inocente diante da Justiça. Ou um sortudo diante de uma polícia incompetente.
Não se pode dizer o mesmo agora. A Polícia Federal tem autonomia, investiga, prende gente graúda (senadores, empreiteiros), gente de grana. Mesmo assim, não chegou em nada que comprometesse Dilma.
A sanha de poder dos golpistas não pode encontrar eco em quem tem um pingo de bom senso. Músicos, jornalistas, políticos, empresários, centrais sindicais, estudantes, juristas, cineastas, atores, atrizes, escritores, rappers, tem muita gente contra esse processo. Nós aqui, entre blogues, sites e selos musicais e arrobas do Twitter também nos manifestamos contra o golpe.
Texto de Fernando Augusto Lopes

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domingo, 6 de março de 2016

Literatura: "O Último Homem na Torre" e "Uma Constelação de Fenômenos Vitais"


O escritor indiano Aravind Adiga ganhou o prestigiado “Man Booker Price” em 2008 logo com o primeiro livro, o hábil “Tigre Branco”. Após isso lançou a coletânea de contos “Entre Assassinatos” e depois “O Último Homem na Torre” (“The Last Man In Tower”, no original) de 2011, sua publicação mais recente. A editora Nova Fronteira apareceu com edição nacional dele em 2014, com 400 páginas e tradução de Vera Ribeiro. Nessa obra vemos um autor em evolução, ainda que repita algumas prerrogativas contidas na estreia, mas que funcionam mais como alicerces próprios do que necessariamente uma repetição. O livro se passa em Mumbai na Índia, em uma pequena sociedade habitacional de poucos andares onde todos os moradores são donos. Mesmo que o lugar não seja o melhor da cidade – longe disso, até – todos que ali residem gostam dos outros e tentam viver em harmonia, mesmo com as normais intrigas entre vizinhos e pessoas que se conhecem a muito tempo. Esse cenário de relativa paz é alterado quando entra em cena o empresário do ramo de construção imobiliária Dharmen Shah, que oferece uma quantia tentadora para que todos vendam seus apartamentos para que ele possa derrubar o prédio e levantar um novo. O empresário, personagem complexo, tem seus próprios motivos que vão desde a ganância simples até a competitividade demasiada com um concorrente, a fim de suprir, talvez, alguns problemas de ordem pessoal. Com o dinheiro em jogo os moradores logo mudam os ânimos e vão se transformando com mais afinco ainda depois que um professor de apelido Masterji resolve se opor a venda, inviabilizando o novo sonho dos demais. Essa oposição meio por teimosia, meio por poder próprio, transforma seus amigos mais íntimos em outras pessoas, com um lado negro saltando a frente junto com a cobiça. Mesmo sendo no cerne um conto sobre moralidade, “O Último Homem na Torre” é o reflexo de um país que vem crescendo e se diversificando, com o progresso sendo um artifício constante de mutação. A história é triste e feroz, mas ao mesmo tempo o autor insere humor na tragédia, o tipo de humor existente em situações de absurdo ou em descuidos do cotidiano, o que serve para dar mais força ainda a outro bom livro, que tem como façanha unir esses dois lados enquanto explora vários personagens ao mesmo tempo.

Nota: 7,0

Site do autor: http://www.aravindadiga.com 


Anthony Marra é professor e viveu um tempo no leste europeu. Em 2013 lançou o primeiro romance de ficção usando para tanto um dos períodos mais sanguinários da história mundial recente: a primeira e a segunda guerra chechena. Compreendido entre os anos de 1994 e 2004, indo e voltando no tempo de acordo com as necessidades da narrativa, “Uma Constelação de Fenômenos Vitais” (A Constellation Of Vital Phenomena, no original), ganhou lançamento nacional pela editora Intrínseca em 2014 com 336 páginas e tradução de Fabiana de Carvalho. A obra passou um pouco batida aqui no Brasil, mas é de uma delicadeza e força avassaladoras. As guerras chechenas com a Rússia que foram após o período trabalhado no livro e até hoje, mesmo após o suposto fim, ainda produzem corpos é o pano de fundo para que se desenvolva uma história de salvação, dor, traição e alguma bondade. Quando a pequena Havaa de 8 anos vê o pai sendo levado da sua pequena vila por soldados russos devido a uma denúncia de um vizinho, o mundo da menina desaba, porém ela já estava preparada para isso. Outro vizinho chegado, um médico sem muito talento de nome Akhmed surge como salvador e a leva para um hospital abandonado na cidade onde antes trabalhavam mais de 500 pessoas, mas que agora comporta somente uma médica, uma enfermeira e um porteiro. Sonja, a médica, é uma mulher endurecida pela vida e junto com Akhmed serve como personagem principal nos pequenos dias em que se desenvolve a trama. “Uma Constelação de Fenômenos Vitais” explora a guerra nas suas facetas cruéis e perturbadoras, colocando no meio do jogo também as necessidades que surgem dela, com todas as desgraças e os aproveitadores que se criam no meio. Mas também, deixa ali escondido no final, quase morto, um pequeno tom de esperança, uma fé cada vez mais difícil de aceitar. De escrita franca e objetiva, Anthony Marra flerta a dor com uma condução mais leve vez ou outra, devido ao fato de que seus personagens já aceitam a inevitabilidade da situação que se encontram. Quando o leitor imagina saber de todos os fatos, opta em adicionar mais ingredientes e provar que no romance apenas a pequena Havaa é 100% boa de coração e inocente. Até mesmo os supostos heróis têm pecados e culpas imensas dentro do armário, o que faz com que a obra ganhe em valor e seja mais forte ainda.

Nota: 8,5

Site do autor: http://anthonymarra.net 

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Quadrinhos: "Baixo Centro" e "Gavião Arqueiro: Minha Vida Como Uma Arma"

 

A graphic novel “Baixo Centro” é uma publicação da editora Miguilim do final de 2015. Primeira obra completa do artista visual mineiro Jão foi feita e idealizada em parceria com o professor e poeta (e também mineiro) Rafael no que concerne ao roteiro. Com 64 páginas destaca-se com um trabalho editorial vasto e bastante cuidadoso, apresentando diversas informações e textos, o que é sempre interessante. Os desenhos simples, mas precisos, resultam em uma convincente retratação de Belo Horizonte (que indiretamente também é personagem) passando por lugares como a Avenida Afonso Pena, a Praça da Estação e o viaduto Santa Tereza. É uma história que funciona calcada no ritmo, com algum humor e sem a utilização de palavras. Obras desenvolvidas assim encontram maiores dificuldades em agregar o leitor e na maioria dos casos passeiam entre o ruim e o mediano, contudo em “Baixo Centro” as coisas são diferentes e funcionam muito bem, ainda mais pelo tamanho da obra, que representa um diferencial e tanto pois a arte acaba tendo um impacto maior, principalmente nas páginas duplas e quadros maiores. Os dois personagens principais do álbum desandam a correr no início e cada vez mais as pessoas vão indo atrás, sem muita razão específica na maioria das vezes, já que essa explicação não é demonstrada, o que leva a uma gama de interpretações distintas e dá a obra ares mais instigantes ainda. Podem-se destacar várias influências no trabalho que debulham na região que dá nome ao título conhecida pela sua movimentação constante e intensidade cultural e artística que ocorre por lá. Ao retratar a convergência dos dois mundos existentes ali - o diurno (do trabalho, da correria) e o noturno (menos movimentado, mas mais perigoso e intenso) – Jão e Rafael são responsáveis por uma interessante obra que tem poder para ser lembrada além do presente e por consequência atestam ainda mais o bom momento que vive o quadrinho nacional.

Nota: 7,5


Você está lá no meio de uma batalha junto com deuses, supersoldados, homens em armaduras tecnologicamente avançadas, mutantes, monstros, magos e o que mais aparecer pela frente. E o que você tem para oferecer? Bom, você tem um arco e flecha. Ok, está certo que você tem uma mira impecável e algumas das flechas são cheias de surpresas. Mas, convenhamos, são apenas flechas, né? Esse é o mundo do Gavião Arqueiro, personagem que começou como criminoso antes de entrar para o grupo dos maiores heróis da terra (Os Vingadores, lógico) e se tornou peça fundamental tanto nos quadrinhos como no cinema. O personagem que já morreu, ressuscitou, abandonou a alcunha original, brigou com tudo e todos e destilou seu humor seco e ácido durante os anos ganhou uma revista solo no final de 2012 pelas mãos do roteirista Matt Fraction (Homem de Ferro) e dos artistas David Aja e Javier Pulido. O início dessa elogiada fase (com razão, diga-se de passagem) que já havia sido publicada antes pela Panini em suas revistas mensais ganhou um encadernado de capa dura no final do ano passado juntando as 5 primeiras edições e mais uma especial de “Jovens Vingadores”. As 140 páginas de “Gavião Arqueiro: Minha Vida Como uma Arma” mostra o herói fora das missões de salvar o mundo e das loucuras pesadas que envolvem os Vingadores. Focado em contar o cotidiano desse peculiar herói, Matt Fraction acerta em cheio ao desenvolver uma história que une ação, tramas de espionagem, compaixão e humor. Com o auxílio nesta fase inicial da jovem Kate Bishop (que assumiu seu arco enquanto ele estava “sumido”) ainda apresenta uma pequena tensão sexual para dar mais um clima. A arte é funcional e esbalda-se na utilização do roxo (cor do personagem), o que se revela uma grande sacada. As histórias publicadas em “Gavião Arqueiro: Minha Vida Como uma Arma” servem tanto para divertir enquanto se está lendo, quanto dá uma grande revigorada no personagem para leitores que estão chegando agora no Universo Marvel, mostrando um pouco dos dramas cotidianos de um herói e alguns dos seus dissabores e prazeres mais comuns.

Nota: 8,5


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Discos da Vida: "Smile" (1990) - Ride


Músicas são atemporais e por mais banal que possa ser essa premissa, isso nunca deixa de me impressionar. Com o passar dos anos alguns discos ficam definitivamente marcados na memória afetiva de modo mais intenso que outros. São discos que fazem parte da vida e estão inexoravelmente anexados a um período específico do tempo que quando você os torna a ouvir as lembranças inundam a mente e inserem sensações que provavelmente fazia tempo que não apareciam por lá.

Isso acontece por exemplo com “Smile” da banda inglesa de Oxford, Ride. Formada em 1988 o grupo apresentava em “Smile” uma compilação dos primeiros dois EP’s (chamados “Ride” e “Play”) e continha 8 músicas em pouco mais de 31 minutos. Em uma época sem acesso a internet e com o país ainda patinando após a primeira eleição direta geral em 25 anos, só se conseguia alguns discos caso solicitasse a importação, o que quase sempre era viabilizado por 3 ou 4 amigos que se juntavam em interesse comum para dedicar a escassa grana para esse fim.

Eu tinha “Smile” de um lado de uma fita cassete, onde “Perfect Time” cortava antes do fim. Cruel, muito cruel. Só para efeito de ambientação do outro lado dessa fita tinha, salvo engano, canções do “Some Friendly” do Charlatans. O Ride era formado pelo guitarrista e vocalista Andy Bell, por Mark Gardener no outro vocal e guitarra, Stephan Queralt no baixo e Loz Colbert na bateria e fazia a sonoridade típica da Inglaterra do final dos 80 e começo dos 90, sendo depois figurinha importante dentro do shoegaze.

O Ride tinha fortes influências de My Blood Valentine e The Jesus And Mary Chain (bandas com lugar cativo na casa, sendo a segunda uma das minhas preferidas até hoje) e conjugava lindas melodias embaçadas com barulho, trazendo na dupla de guitarristas o ponto forte. A banda ainda foi responsável por ótimos discos como “Nowhere” (1990) e “Carnival Of Light” (1994) até acabar para depois retornar recentemente para uma série de shows.

No entanto, o que ficou marcado para mim foi mesmo “Smile”, um álbum que sobreviveu aos anos. Dia desses escutando novamente o disco em um desses serviços de streaming a sensação de nostalgia foi imediata. De “Chelsea Girl” (um esboço de clássico para mim na época) passando por “Like a Daydream” (que tantas e tantas vezes ocupou espaço no meu som) e desembarcando em “Silver” já me lembrava de quase tudo nelas, dos riffs as letras. Escutei ali 3, 4, 5, vezes seguida.

“Smile” é um retrato de uma sonoridade que me cativa até hoje, e na minha terna juventude, onde o mundo ainda parecia um lugar demasiadamente grande para se estar, embalou as minhas tardes com suas guitarras e melodias, enquanto começava a ser penalizado pelas primeiras paixonites e desenganos, e não parava de esboçar palavras ruins em um caderno usado dentro de um quarto de uma cidade no interior do Pará.


Aqui a banda ao vivo com “Chelsea Girl” em show do ano passado:


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Quadrinhos: "The Witcher: A Casa de Vidro" e "O Capuz: O Sangue que vem das Pedras"

 

“The Witcher” foi criado no início dos anos 90 pelo escritor polonês Andrzej Sapkowski e de lá saltou para os games, se tornando um sucesso dentro desse mercado. Como é cada vez mais comum a história do caçador de monstros Geralt de Rívia saltou para outras mídias. Em 2014 a CD Projeckt RED dona dos direitos sobre a obra chamou a Dark Horse Comics para lançar uma série em quadrinhos. O resultado das primeiras 5 edições podemos ver aqui no Brasil em “The Witcher: A Casa de Vidro”, um vistoso encadernado da Media Pixel publicado no passado. Com 144 páginas apresenta roteiro de Paul Tobin (“The Bionic Woman”) e arte de Joe Querio (“Hellboy”) com o reforço de extras contendo capas alternativas, esboços e concepções. Geralt de Rívia é um híbrido entre bruxo e mago que segue por um mundo medieval salvando pessoas comuns de monstros e aberrações, desde que exista algum pagamento envolvido. Em uma de suas andanças se depara com um caçador à beira da água. Solitário como ele, rola certa empatia entre os dois depois de alguma comida e uns bons goles de vinho e resolvem seguir em parceria. Quando entram em uma floresta repleta de mistérios e criaturas assustadoras, as coisas começam a parecer bem diferentes do que se esperava no começo. O roteiro de Paul Tobin investe de maneira competente na tensão dos mistérios e adentra o universo do horror sem deixar de lado uma ou outra piada no caminho, assim como acerta no tom adulto da trama. Já a arte de Joe Querio conta com boas influências de Mike Mignola (não é por acaso que o artista aparece nos extras) e esse estilo serve bem ao tom escabroso e desvanecido que o trabalho pede. A grande vantagem dessa adaptação para os quadrinhos é ser uma história independente, por mais que ambientada na mesma atmosfera, conseguindo assim ser funcional para todos os leitores incluindo aqueles que não conhecem o game.

Nota: 7,0


Parker Robbins não é um cara dotado das qualidades mais nobres do mundo, temos que convir. Some-se a isso o fato que a vida não anda lá muito fácil e a pressão está para estourar a cabeça. A mãe está internada muito doente em um manicômio, a namorada ficou grávida e a grana anda curta porque os golpes que o primo arruma cada vez mais resultam em nada. Até a prostituta (quase amante) resolveu lhe encher o saco. É quando em mais um golpe furado e totalmente sem querer, acaba matando um ser estranho e ao roubar dele algumas coisas percebe que isso lhe dá alguns poderes como invisibilidade e o poder de voar. Resumindo: agora a vida vai melhorar. Ledo engano. “O Capuz: O Sangue que vem das Pedras” é um encadernado que a Panini Books lança agora no mercado (mesmo que a data da identificação seja de 2015) e reúne as edições 1 a 6 de “The Hood”, publicadas originalmente entre julho e dezembro de 2002. Com 148 páginas traz roteiro do ótimo Brian K. Vaughan (“Os Fugitivos”, “Ex-Machina”), desenhos de Kyle Holtz e arte final de Eric Powell. As histórias já haviam sido publicadas no país em outras revistas em meados dos anos 2000, mas agora aparecem juntas nesse arco de formação de um criminoso. Mesmo sendo um material antigo é uma publicação que tem bastante mérito. A construção do personagem pelas mãos de Brian K. Vaughan e sua relação com as “responsabilidades” que vem com os poderes é factível e sem pressa, e isso ajuda a arte nem tão inspirada assim de Kyle Holtz. É sempre interessante quando as grandes editoras dedicam histórias mais detalhadas sobre o mundo dos criminosos, trazendo um novo viés para o universo a que se está acostumado. Com temática mais adulta e uma trama fluida e eficaz, “O Capuz: O Sangue que vem das Pedras” se configura em uma ótima pedida.

Nota: 8,0



sábado, 6 de fevereiro de 2016

Quadrinhos: "Mono" e “Hellboy no Inferno – Volume 1: Descenso”


“Mono” é um álbum de quadrinhos viabilizado através de campanha de crowdfunding no ano passado, mas só chega realmente agora em 2016. Com formato horizontal (16 x 21cm) e 80 páginas é o primeiro trabalho dentro da nona arte do casal de pernambucanos Júnior Ramos e Natália Lima, proprietários de um estúdio chamado “Sapo Lendário”. A trama invade o campo da ficção científica e mostra um futuro onde todos os governantes ajoelham perante a GateCorp, empresa que domina a essencial tecnologia do teleporte. A Esfera é uma associação formada por cientistas que briga contra isso, mas sem alcançar muito sucesso, enquanto o mundo caminha para o final. Para salvar essa terra em declínio a esperança recai sobre um robô (que empresta o nome ao título) e uma tripulação diversificada de etnias e pensamentos que parte em busca de encontrar moedas especiais, na verdade, fragmentos de um ser místico antigo e poderoso que pode permitir essa salvação. “Mono” tem arte bonita, bem influenciada pelos mangás e cores que valorizam isso, sendo um ótimo destaque da obra. O cuidado com a edição também é de se valorizar. Tudo muito bem feito, com direito a extras que servem de subsídio não somente para a trama em si, assim como para entender os caminhos que levaram a criação da hq. Por outro lado, o roteiro deixa bastante a desejar, o que deixa a trama confusa e um pouco sem sentido. Quando se trata de fazer ficção científica um dos principais pontos é tentar deixar aquilo que está se contando o mais viável possível, sem apressar demais os fatos ou sobrepor ideias só pelo simples fato de as exibir. O enredo não ajuda nisso e não amarra todos os lados da história com a precisão necessária, o que acaba deixando “Mono” como uma boa ideia, bem executada visualmente, mas que não consegue atingir todo o potencial.

Nota: 6,0

Site dos autores: http://sapolendario.tumblr.com


Mike Mignola apresentou Hellboy ao mundo em 1993 e de lá para cá o personagem viveu diversas aventuras nos quadrinhos, além de animações e dois bons filmes. Longe da prancheta de desenho da sua criação mais famosa desde 2001, o quadrinhista resolveu voltar em 2012 com o lançamento da primeira aventura do herói no inferno. A viagem de Hellboy ao inferno acontece logo após ele salvar a humanidade quando é assassinado de modo furtivo. Mesmo tendo feitos e mais feitos nobres no currículo ele não foi mandado para os céus e sim para sua casa natal, o Inferno. Que grande prêmio! Essa trama foi lançada aqui no final do ano passado pela Mythos Books em luxuoso encadernado de capa dura intitulado “Hellboy no Inferno – Volume 1: Descenso”, com 194 páginas. Como é costumeiro nos lançamentos da Mythos o trabalho editorial é primoroso, com vários extras, entrevista com o autor e introdução ambientando o leitor contextualmente. O álbum reúne as 5 primeiras edições da trama lançadas nos EUA entre dezembro de 2012 e dezembro de 2013. No total serão 10 revistas, sendo que a edição mais recente lá é a de número 8. Ao descer para o inferno que não visitava desde criança, Hellboy recebe a cobrança para assumir o trono que está vago e lida com parentes nada amistosos e novos e velhos inimigos, mesmo sem saber ao certo a trama que se desenvolve por trás disso. Ver Hellboy com Mike Mignola no comando não só do roteiro, como também da arte é outra história. Com maior liberdade criativa por não ter que retratar um universo real, o autor se esbalda em novas formas e construções, sempre em tons escuros, com muito uso de sombras e as cores cirúrgicas do hábil Dave Stewart. “Hellboy no Inferno – Volume 1: Descenso” é uma grande aventura a altura do personagem e quadrinhos da melhor estirpe. Vale muito.

Nota: 9,0