terça-feira, 5 de agosto de 2014

"Guardiões da Galáxia" - 2014

Quando a Panini começou a publicar por aqui na segunda metade da década de 2000, as partes iniciais e preparatórias para a saga “Aniquilação”, já se percebia que a Marvel estava fazendo ali algo de interessante. Depois que a saga avançou e se alastrou por outros títulos da editora, o intuito de retomar as aventuras cósmicas parecia ter sido alcançado e deixou não somente uma boa história que continua tendo suas ramificações presentes nos dias atuais, assim como fez ressurgir nomes esquecidos e acrescentou mais alguns no rol de personagens utilizados frequentemente. Foi o que aconteceu com os Guardiões da Galáxia.

Peça fundamental dessa narrativa o grupo criado no final dos anos 60 por Arnold Drake e Gene Colan, recebeu uma nova roupagem pelas mãos de Dan Abnett e Andy Lanning, sendo essa versão que o diretor James Gunn utilizou juntamente com Nicole Perlman no roteiro para criar o filme amparado no time. “Guardiões da Galáxia” é mais um produto da Marvel no cinema e representava uma aposta maior do que as outras produções, já que os personagens só eram conhecidos por leitores mais assíduos de histórias em quadrinhos e não tinham o apelo lógico de nomes como Capitão América e Vingadores, para citar alguns exemplos.

Na trama, uma criança se vê abduzida por uma nave alienígena logo após o falecimento da mãe. Peter Quill (Chris Pratt de “Ela”), que mais tarde será conhecido como Senhor das Estrelas, era essa criança e ressurge na tela já como adulto e como um caçador de tesouros intergaláctico, se preocupando somente com a adrenalina e possíveis ganhos. Em uma pequena reviravolta no desenrolar dos fatos, ele se vê ao lado de Gamora (Zoe Saldana de “Avatar”), Drax (o lutador de MMA Dave Bautista), Groot (feito com computação gráfica e voz de Vin Diesel) e Rocket Raccoon (também feito por computação gráfica e com voz de Bradley Cooper).

Esse bando desconexo e com objetivos distintos entre si acaba por criar uma improvável e torta afeição e se vê correndo contra o tempo para evitar que Ronan, o Acusador (Lee Pace de “Lincoln”) tome conta de um poder imensurável e repasse este para que Thanos (novamente Josh Brolin, assim como na cena extra de “Os Vingadores”) destrua planetas e exerça domínio sobre o universo. Nessa luta para deter os vilões, o diretor James Gunn (do razoável “Super” de 2010 e dos roteiros dos 2 primeiros longas do Scooby-Doo), apresenta uma surpreendente mistura de ação, guerra espacial, cultura pop e humor, muito humor.

Comparado aos quadrinhos (e em adaptações temos sempre que atentar para esse lado) algumas mudanças ficam bem claras. A insensibilidade de Gamora, a “mulher mais perigosa do universo”, é bem acentuada. Já Drax, o Destruidor tem o seu foco de ódio transferido de Thanos para Ronan e aparece em uma versão mais burra que a usual. Outra coisa apresentada de modo diferente é a Tropa Nova (espécie de Tropa das Lanternas Verdes da Marvel) que além de não ter os seus caracteres originais de poder também é carregada de maior humor (com direito até a John C. Reilly como um oficial barrigudo).

Essas diferenças, porém, se chegam a incomodar levemente os mais conhecedores dos personagens (principalmente no caso da “alegria” da Gamora), por outro lado estão ali para que o tom utilizado na película funcione melhor e qualquer indicação de provável demérito seria nada além de mero exercício de rabugice. “Guardiões da Galáxia” é na sua essência um filme do bem contra o mal, de como indivíduos podem descobrir nobreza dentro de si apesar das ações indicarem o inverso, e de como uma amizade pode surgir de onde menos se espera. Contudo, nada disso realmente importa. O que importa é a aventura em si, suas cenas de ação e diálogos.

Com uma trilha sonora impecável com canções dos anos 70 e 80 e que passa por coisas desconhecidas e outras como “Moonage Dream” do David Bowie, “Cherry Bomb” das Runaways e “I Want You Back” dos Jackson 5, tudo por causa de um walkman (sim, um walkman) inserido na trama que se une com referências diversas que vão desde “Star Wars” (nas cenas de batalha com as naves) até “Footloose” (com analogias a danças e o ator Kevin Bacon), “Guardiões da Galáxia” é um filme que deve ser visto seja para rir bastante ou para achar uma das dezenas de insinuações e menções do roteiro. Um filme para não ser levado a sério, no melhor dos sentidos.

P.S: Na cena escondida existe uma referência bem peculiar. Fique na sala.

P.S (mais um): Para quem quer se alongar no tema “Guardiões da Galáxia” antes do segundo filme previsto para 2017 vale correr atrás dos quadrinhos atuais, onde a equipe conta até com o Homem de Ferro no seu quadro e está sendo escrita pelo craque Brian Michael Bendis. Bem recomendável.

P.S (só mais esse, prometo): Rocket Raccoon e Groot estão hilariantes e impagáveis.

Nota: 9,0

Assista a um trailer legendado:


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

"Planeta dos Macacos: O Confronto" - 2014

Centenas de guerras foram travadas durante os anos devido a intolerância, ao ódio irracional aliado com o medo, ou a simples questão de preservação desencadeada por esse medo. Países, povos e sociedades completas já sofreram muito por conta disso ou das suas consequências, nos ensina a história. Hoje mesmo se olharmos para os conflitos que estão em andamento no mundo, esses motivos estarão fortemente dentro do conjunto de fatores que influenciaram para que esse caminho tivesse sido tomado. Inocentes sofrem à toa, sem sentido e sem explicações plausíveis. E parece que a humanidade nunca aprende.

“Planeta dos Macacos: O Confronto” (Dawn of the Planet of the Apes, no original) tem como pano de fundo principal justamente esse tema, envolto em algumas outras nuances secundárias. Depois da surpresa positiva que foi o longa “O Planeta dos Macacos: A Origem” de 2011, dirigido por Rupert Wyatt, a expectativa sobre o novo trabalho ambientado dentro do universo do filme era bem grande. Nem a mudança de diretor alterou isso, com a entrada de Matt Reeves (de “Cloverfield – Monstro”) na chefia. E o que vemos na telona é que essa expectativa não foi gerada em vão.

O roteiro escrito por Mark Bomback (“Wolverine: Imortal”), Rick Jaffa (do filme anterior dos macacos) e Amanda Silver (também do filme anterior) é bem arquitetado, embora abuse um pouco das passagens mais sentimentalistas, que poderiam muito bem ser reduzidas dentro dos 130 minutos do filme. No enredo, encontramos César (Andy Serkis novamente envolto a muita tecnologia) alguns anos após conseguir fugir. Junto com os demais que libertou se embrenhou no meio do mato, e assim procriaram e construíram uma comunidade funcional, evoluindo ainda mais em funções diversas como a fala.

Já os humanos não se deram tão bem assim. Depois que a gripe símia criada em laboratório se espalhou pelo globo, uma parcela ínfima sobreviveu. E uma parte dessa parcela se encontra próximo de César e de seus iguais. É quando os remanescentes descobrem uma usina hidrelétrica na região em que os símios se encontram e uma pequena expedição encabeçada por Malcolm (Jason Clarke de “A Hora Mais Escura) vai atrás de reativar essa fonte de energia que daria mais chance para os seres humanos resistirem. E é quando ocorre o encontro das duas espécies tempos depois que o filme se desenvolve.

A parte visual do trabalho tem grande amplitude no resultado final. A direção de arte conta com profissionais como Naaman Marshall (de “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge”) e os efeitos visuais com Gerardo Aguilera (“O Hobbit” e “Jogos Vorazes: Em Chamas”), entre outros. Com isso, as cenas de batalha e de apresentação dos personagens é muito eficiente, como também as explosões e a utilização da mata dentro desse contexto. O roteiro amarra bem a história com o longa anterior (James Franco aparece em uma imagem gravada) e assim justifica algumas deliberações realizadas.

O filme atual se situa historicamente antes dos eventos da pífia refilmagem de “O Planeta dos Macacos” de 2001 (logo, como também do original de 1968) e dez anos depois do anteriormente já citado filme de 2011 (esqueça os quatro filmes dos anos 70). No mundo das referências, duas coisas merecem menção. Primeiro, quando Alexander (Kodi Smit-McPhee) entrega um livro para Maurice (Karin Konoval). Trata-se da ótima história em quadrinhos “Black Hole” de Charles Burns, que tem muito a ver com uma das ideias exploradas na trama. E a segunda é a inserção certeira da formidável “The Weight” da The Band na trilha sonora em um momento especial.

“Planeta dos Macacos: O Confronto” aborda questões atemporais que continuam vivas dentro dos nossos dias, infelizmente. Mesmo com leves deslizes e um pouco extenso demais, o roteiro abrange bem aquilo a que se propõe equilibrando ação e drama de modo satisfatório. Uma das grandes virtudes é não impor ao telespectador heróis ou vilões, deixando solto a ambiguidade dos personagens. Mesmo aqueles com melhor coração podem ter pensamentos controversos com a sobrevivência em jogo e isso é um mérito importante do filme. Um filme que diverte, mas que também traz um pouco de reflexão a superfície.

Nota: 8,0

Textos relacionados no blog:


Assista a um trailer legendado:

terça-feira, 29 de julho de 2014

“Man On The Run - Paul McCartney nos Anos 1970” - Tom Doyle

 
Você fez parte da maior banda que o mundo já viu até então. Alcançou um sucesso nunca visto antes no mundo da música. Virou do avesso todas as concepções de entretenimento e marketing cultural. Cativou um público imenso e fez discos aclamados por esse público, como também pela crítica. Ganhou muito dinheiro. No entanto, tudo isso acabou. Tudo isso chegou ao fim. Por vários motivos como convivência, falta de tesão, egos enormes, influência de terceiros, disputas internas. Na verdade, não importam muito os motivos, o que importa é que as coisas terminaram. E agora? O que fazer?

Foi nessa situação que Ringo Starr, George Harrison, John Lennon e Paul McCartney se encontravam no começo dos anos 70 com o fim dos Beatles. Mesmo que o fim da banda fosse inevitável de várias maneiras, ficou esse sentimento do que fazer depois de tudo. O conceituado jornalista inglês Tom Doyle (Q Magazine, The Guardian, Mojo) apresenta o desenrolar dessa história pelos anos 70 para um dos envolvidos no livro “Man On The Run – Paul McCartney nos Anos 1970”, que a Editora Leya lançou por aqui no primeiro semestre desse ano com 336 páginas e tradução de Paulo Polzonoff.

Publicado no exterior no ano passado, o livro tem partida ainda no final dos Beatles e se estende até os primeiros passos dos anos 80, sendo que esse final chega precedido da prisão de Paul no Japão por posse de maconha e do assassinato de John Lennon em dezembro de 1980. Esses pontos, aliás, são muito bem explorados no registro. A questão da maconha e a paixão do músico e seus cúmplices por ela, como também o conturbado e abstruso relacionamento com o parceiro e amigo dos tempos de Beatles que trafegava entre a rispidez pública e o carinho privado externado em conversas telefônicas e reuniões de casais.

“Man On The Run – Paul McCartney nos Anos 1970” apresenta ao leitor uma pessoa talentosa e ainda jovem que, em tese, teria o mundo nas mãos mas vê isso acabar (com uma boa carga de culpa, diga-se) e fica sem rumo, sem objetivos. A separação até pelos fatos que a sucederam com declarações ácidas dos envolvidos e brigas judiciais pela finitude também da sociedade do grupo afetaram profundamente Paul McCartney que se não fosse o suporte da mulher, como ele próprio admite várias vezes, teria sido inimaginável sair disso como saiu. Linda, sua primeira esposa, além de companheira foi a alavanca que novamente o impulsionou adiante.

O livro percorre um caminho cheio de dúvidas, afirmações, questionamentos e inseguranças, mas também de aprendizado, crescimento, admissão de falhas, excentricidades e sorrisos. Com o final dos Beatles, Paul e Linda passam a viver como hippies praticamente em uma fazenda escocesa. Depois dos álbuns “McCartney” de 1970 e “Ram” de 1971, o intuito do artista era ter novamente um grupo e assim nasceu o Wings que contava na primeira formação com sua esposa Linda nos teclados (motivo de várias broncas), Denny Laine (ex-Moody Blues) na guitarra, Denny Seiwell na bateria e Henry McCullough na outra guitarra.

Dentre as inúmeras formações que o grupo teve até também sucumbir no início dos anos 80, essa provavelmente foi a melhor, trabalhando nos primeiros discos “Wild Life” de 1971 e “Red Rose Speedway” de 1973, onde McCartney ainda reaprendia o ofício da composição, por assim dizer, assim como no magistral “Band Of The Run” de 1973, que novamente alçou seu nome a condição de antes e convenceu os críticos de que ele ainda tinha muita lenha para queimar, fato comprovado pelo álbum seguinte, “Venus And Mars” de 1975 e composições como “Live And Let Die” feita para o filme “007 - Viva e Deixe Morrer” de 1973.

Um dos aspectos mais eficientes de “Man On The Run – Paul McCartney nos Anos 1970” é que Tom Doyle faz um trabalho jornalístico exemplar não se eximindo de tratar de questões espinhosas e sem mitificar mais ainda o mito. Pelo contrário, expõe fraquezas diversas como a relação do artista em relação ao dinheiro, a imposição de suas ideias perante os demais, as excentricidades pouco comentadas e a relação com drogas dentro do seu nicho de convívio. Uma elogiada posição perante tantas biografias insípidas e sem graça que só servem para louvar o biografado. Fica claro que Tom Doyle admira o trabalho de McCartney, mas isso não o impede de cutucar algumas feridas, o que só aumenta o valor do trabalho.

P.S: Além de histórias saborosas (e dolorosas), Tom Doyle ainda adiciona no final uma detalhada discografia e apresentações do período.

Nota: 8,5

A Editora Leya disponibilizou um trecho para leitura aqui:

Na foto abaixo, o Wings faz pose na primeira turnê:

segunda-feira, 28 de julho de 2014

“A Extraordinária Viagem do Faquir Que Ficou Preso em Um Armário Ikea” - Romain Puértolas

Um faquir é uma pessoa que executa feitos de resistência ao corpo humano desprezando qualquer sensação física e que acredita no trunfo do espírito e no poder da mente sobre o corpo, assim nos explica o dicionário. Quando a imagem se associa a palavra, é comum imaginarmos logo aquele indivíduo magro, que encanta serpentes com uma flauta, faz jejum, deita sobre uma cama de pregos, engole espadas ou anda sobre cacos de vidro. Para alguns, são pessoas com dons sobrenaturais, dons mágicos. Para outros, são pessoas com extremo domínio do corpo e da mente.

O indiano Ajatashatru Ahvaka Singh, personagem principal do romance “A Extraordinária Viagem do Faquir Que Ficou Preso em Um Armário Ikea”, porém não se enquadra em nenhum desses casos citados. O livro, escrito pelo francês nascido na cidade de Montpeliier, Romain Puértolas, foi originalmente publicado no seu país natal e virou um best seller por lá, ganhando tradução para vários outros países. Lançado genuinamente em 2013, recebeu edição nacional esse ano através da Editora Record, com 256 páginas e tradução de Mauro Pinheiro.

A trama consiste na viagem do referido faquir para a França com o intuito de comprar uma nova cama de pregos na gigante multinacional sueca do ramo de móveis, a IKEA. Para que essa pequena aventura se tornasse possível ele engana a população do vilarejo em que mora para que eles banquem a passagem de ida e volta e assim desce no aeroporto munido de uma nota de cem euros falsa no bolso para efetuar a aquisição. Sim, percebe-se aqui, que Ajatashatru Ahvaka Singh é um enganador e um golpista e não possui nada de extraordinário além da sua patifaria e esperteza. Sempre foi assim, apesar de uma infância complexa, que o autor sem muita razão coloca mais adiante.

Como o título parcialmente entrega, dentro da loja na França ele consegue ficar preso em um armário e assim viaja por múltiplas outras nações como Inglaterra, Espanha, Itália e Líbia se metendo em confusões e revendo seu modo de ser e de agir. E é nesse quesito de repensar a vida que “A Extraordinária Viagem do Faquir Que Ficou Preso em Um Armário Ikea” se perde completamente e vira óbvio demais. Enquanto foca na comédia inicial o autor consegue atrair a atenção do leitor, por mais que a história em si não seja nada sensacional, cumpre a missão de divertir. Todavia, antes de chegar à segunda metade ele já perde a mão e assim vai ladeira abaixo.

Além de insistir no fato de transformar a comédia em uma viagem de redescoberta (e acaba não sendo nem uma coisa nem outra), a repetição das piadas faz com que a graça se dissipe no decorrer das páginas. Bons artifícios como a brincadeira com os nomes dos personagens, assim como dos costumes dos povos apresentados, perdem a força por conta disso. Um ponto bem positivo que é expor o problema da imigração ilegal na Europa, tanto nas suas diretrizes quanto no tratamento dos imigrantes, fica meio de lado pela falta de pulsação do texto. Por conta disso, a estreia do autor fica muito parecida com Ajatashatru Ahvaka Singh, engana, mas no final não cumpre bem o objetivo a que se destina.

Nota: 5,0


terça-feira, 22 de julho de 2014

"Ditadura da Felicidade" - Aeroplano

Veja bem, você está gordo, tem que emagrecer. Não é somente uma questão de saúde, mas você precisa se adequar as normas e regras atuais da nossa sociedade. Você não vê as fotos no Facebook ou no Instagram diariamente? Pessoas “treinando” loucamente em academias atrás desse biotipo ideal. Ah, você tem que sair mais também. Ser mais social. Sorrir para todos, mesmo quando não quer, faz parte do processo. E por fim, era bom cortar o cabelo, fazer a barba diariamente e usar roupas melhores, uma camisa pólo cairá bem em você, e isso “com certeza” lhe ajudará a achar o caminho da felicidade.

Pois é. Não tem mais saída. Temos que ser felizes a todo custo, a toda hora e entrar no modus operandi da sociedade em geral, mesmo que você seja feliz do seu jeito e que não esteja nem um pouco preocupado em entrar nessa corrida por uma felicidade imaginada que ninguém sabe ao certo como é. Como bem ressaltou a psicanalista Maria Rita Kehl em entrevista: “do direito a felicidade, passou para a obrigação”, assunto também frequentemente tratado pelo psicólogo Arnaldo Cheixas Dias no blog que mantêm chamado “Em Terapia”.

A banda paraense Aeroplano explora essa questão no seu segundo disco, que chega depois de dois EP’s e o trabalho de 2011 intitulado “Voyage”. O novo rebento lançado nesse ano tem 10 faixas e, não por acaso, chama-se “Ditadura da Felicidade”. Foi produzido pelo guitarrista Diego Fadul, masterizado por Ivan Jangoux e conta com o (ótimo) projeto gráfico de Talitha Lobato. Se em “Voyage” a banda concebeu coisas realmente boas como “Dorme”, “Estou Bem Mesmo Sem Você” e “Vermelho que é Rosa”, por outro lado apresentou faixas confusas que não diziam muita coisa e influenciavam negativamente no resultado final.

Isso felizmente não acontece em “Ditadura da Felicidade”. Eric Alvarenga (vozes, violões e guitarras), Felipe Dantas (bateria, percussão e vocais), Bruno Almeida (baixo), Erik Lopes (guitarras) e Diego Fadul (guitarras, teclados e vocais) são responsáveis por um disco coeso que equilibra de bom modo as melodias e o trabalho instrumental, tendo como um belo destaque as letras pequenas mas certeiras (todas de Eric Alvarenga, com exceção de “11” de Diego Fadul). O trabalho das guitarras flui muito bem como podemos perceber na ótima “Bazar” e na estupenda faixa que abre o trabalho e traz os versos: “essa é a ditadura da felicidade, todo mundo sorrindo mesmo sem vontade”.

Além da faixa título outras merecem realce. “Drogaditos”, por exemplo, é uma sacada precisa e pop até a medula que fala sobre drogas legais usadas no dia a dia como Dorflex, Tandrilax e Dramin, que servem para lidar com a dor, para dormir melhor ou para forjar uma tranquilidade.  “Blasé” é outra pequena pérola. Destroça toda a pretensão cult de determinados indivíduos que acham que tem resposta para tudo concluindo que: “meu amigo cult vai ensinar ao mundo como ser alguém diferenciado”. “11” é mais uma que se sobressai com uma tristeza arrebatadora e a constatação de uma geração desnorteada que não sabe muito bem para onde quer ir.

“Ditadura da Felicidade” mostra uma banda que cresceu de modo assustador entre um trabalho e outro, e que passou de bons lampejos para uma produção mais homogênea. Em pouco mais de meia hora o álbum é uma sucessão de acertos tanto nas faixas mais enérgicas, quanto nas mais lentas, assim como na questão dos assuntos abordados nas letras. Com um pé no indie rock dos anos 2000 e outro em bandas como Violins, Radiohead e até mesmo Wilco, “Ditadura da Felicidade” é um dos melhores discos nacionais de 2014 até agora. É um disco para se ouvir feliz, triste, alegre ou deprimido. Você que escolhe. Nele não há ditadura alguma embutida.

Nota: 8,5

O disco está disponível para download gratuito no site da banda: http://www.aeroplano.mus.br


P.S: Essa tirinha do Malvados também trata dessa questão da ditadura da felicidade e suas reações:

sexta-feira, 18 de julho de 2014

“The Battered Bastards of Baseball” - 2014

O ator Bing Russell ficou conhecido no mundo do entretenimento pela sua atuação como o xerife Clem Foster no seriado “Bonanza” entre 1961 e 1972. Foram 57 episódios. Além disso, entre outras coisas, participou do clássico filme “Sete Homens e Um Destino” de 1960 do diretor John Sturges. Todavia, antes de ir para Hollywood tentar a sorte como ator, ele queria ser jogador de beisebol. Fascinado pelo esporte ainda tentou mas não conseguiu ir muito longe. Durante sua infância nos anos 30 porém, vivia junto com os maiorais do New York Yankees, sendo apadrinhado pelo arremessador Lefty Gomez, um ícone do clube e da história da modalidade.

Depois que “Bonanza” foi cancelado, Bing Russell ficou sem ter muito o que fazer, sem um objetivo na vida. Foi quando teve uma ideia louca de montar um time de beisebol em Portland (que tinha acabado de ver o time da cidade ir para outro lugar) para disputar a Minor League Baseball, algo que se trouxermos para a nossa realidade futebolística pode ser entendida como uma espécie de segunda divisão. A liga era dominada por franquias dos times grandes que disputavam a Major League (principal) e que a usavam mais como campo de estudos do que outra coisa, não se envolvendo com a cidade e excluindo a chance de milhares de pretensos jogadores.

Os times independentes então muito presentes na infância de Bing Russell haviam desaparecido e consigo levaram boa parte do amor real pelo esporte e sua correlação com o público, olhando pelo prisma do espetáculo. Foi nesse cenário que surgiu o Portland Mavericks que durante os anos de 1973 a 1977 fez história e redesenhou uma parte desse cenário. O ex-ator montou um time repleto de excluídos e renegados pelos grandes times, deu chance a desajustados que não atendiam visualmente ou de modo comportamental as rígidas regras da liga principal, e assim como se fosse em uma fábula ou um filme de superação conseguiu a façanha de fazer isso funcionar.

Essa história, pouco retratada anteriormente, agora está acessível no documentário “The Battered Bastards of Baseball” que entrou no último dia 12 de julho na grade do Netflix nacional (e só pode ser visto no país atualmente nessa plataforma). Produzido pelo próprio canal é dirigido pelos irmãos Chapman e McLain Way (netos de Bing Russell). Em 73 minutos apresentam-se depoimentos, fotos e imagens da época, assim como recortes de jornais e de revistas. A história quase surreal é vista por nomes como o ator Kurt Russell (de “Tango e Cash” e “À Prova de Morte”, entre tantos outros), que é filho de Bing e jogou algumas temporadas no “Mavs” como rebatedor.

Outro nome conhecido e bem participativo no documentário é o diretor Todd Field (de filmes como “Entre Quatro Paredes” e Pecados Intímos”) pois na época do time ele era um dos carregadores de equipamentos dos jogadores e guarda emocionantes lembranças até hoje. “The Battered Bastards of Baseball” é um documentário que cumpre com a função básica de contar uma história e retratar os fatos que ocorreram, e consegue ir até mais além fazendo com que o telespectador realmente se emocione na parte final. E o melhor é que não precisa conhecer o beisebol para apreciar o trabalho, basta apenas um pouco de coração.

P.S: O único senão é que o documentário poderia ter mais uns 20 minutos de duração, para explicar melhor algumas passagens. Nada demais, contudo.

Nota: 8,0


Assista a um trailer (em inglês):

quinta-feira, 17 de julho de 2014

"Doutor Octopus: Origem" - Zeb Wells e Kaare Andrews

Otto Octavius é um dos maiores vilões do Homem-Aranha. Pode-se até afirmar que é o maior, por mais que alguns direcionem esse título para o Duende Verde. Criado em 1963, no entanto sempre pareceu que podia ser mais, render mais. Mesmo como líder do Sexteto Sinistro (grupo que aterroriza o herói há tempos), se escondeu com mais frequência na obsessão em relação ao alter ego de Peter Parker, do que propriamente foi uma ameaça real. Quando isso aconteceu, foi onde todo esse potencial apareceu e rendeu as melhores histórias.

Recentemente a Panini Comics publicou no Brasil o encadernado “Doutor Octopus: Origem” com 124 páginas, capa dura com lombada quadrada e papel couchê. Lá fora a série foi lançada em 2004 em cinco edições com o título de “Spider-Man – Doctor Octopus: Year One” e só chega agora por aqui para aproveitar a fase publicada atualmente onde o personagem ocupa o papel do seu rival aracnídeo. Escrita por Zeb Wells (Homem-Aranha), ilustrada por Kaare Andrews (Fabulosos X-Men) e com cores de José Vilarrubia, é uma edição que tem seu próprio charme mesmo se equilibrando entre clichês clássicos e boas ideias.

Partindo do antigo pressuposto de que ninguém pratica o mal só pelo mal, Zeb Wells volta a infância do pequeno gênio onde insere uma mãe protetora (com uma relação no mínimo, complicada), um pai bêbado que bate no filho, dificuldade de sociabilidade e sofrimento generalizado na mão dos alunos da escola que frequenta. Essa quantidade de repetições e lugares comuns serve para montar a raiva que passa a brotar dentro do garoto. Funciona bem na questão da ligação com a mãe que é complexa e sugere outras abordagens, mas fracassa nas demais.

Depois disso avança para a transformação que ocorre ainda na juventude e não como um consagrado cientista (ainda que nessa juventude mostrada ele já merecesse respeito), ao contrário do que se viu quando Alfred Molina dignamente interpretou o personagem no filme “Homem-Aranha 2” de 2004 (parte da primeira, e melhor, trilogia do herói), o que até ajuda a manter a narrativa. O passo seguinte e final é o primeiro encontro com o Homem-Aranha, o estopim inicial de uma extensa convivência onde raiva e admiração transitam juntas.

A Panini Comics vem nos últimos meses dando mais espaço nas suas edições especiais para os vilões, como vimos nas edições do Loki, Caveira Vermelha e Magneto, com arcos salpicados da cronologia da Marvel. Isso é muito válido, pois são personagens com pouco material disponível nesses formatos por aqui. “Doutor Octopus: Origem” por isso e pela arte de Kaare Andrews é um álbum que exibe seu valor, apesar das obviedades do roteiro. Além disso, é sempre bom ver histórias de Octopus como foco principal, um gênio do universo Marvel que reside apenas um patamar abaixo de nomes como Tony Stark, Reed Richards e Bruce Banner no quesito inteligência.


Nota: 6,5

segunda-feira, 14 de julho de 2014

"Febre de Bola" - Nick Hornby


Em 1992 o inglês Nick Hornby publicava o primeiro livro que se chamava “Febre de Bola” (“Fever Pitch”, no original). O autor que ficou conhecido por livros como “Alta Fidelidade” e “Um Grande Garoto” se tornou sinônimo de uma (externamente) intitulada literatura pop, com uma escrita que abraça fortemente a cultura de modo geral. Porém, ali no início mostrava a paixão por outra coisa que não livros, discos e filmes, uma coisa chamada Arsenal, um dos grandes times de futebol de Londres.

Em 2012, por conta dos 20 anos dessa estreia houve o relançamento da obra em uma edição comemorativa lá fora, sendo que a Companhia das Letras lançou novamente por aqui no ano passado, com direito a nova introdução, 352 páginas e tradução de Christian Schwartz. Quando escreveu “Febre de Bola”, Nick Hornby tinha 34 anos e ainda procurava algum sentido na vida. Essa busca, assim como angústias e neuroses são retratados nos pequenos textos que compõem o livro, tendo sempre como pano de fundo algum jogo do Arsenal basicamente.

Usando o futebol como metáfora, ele agrada em cheio aos amantes do futebol, como também diverte aqueles que passam e/ou passaram pelo mesmo tipo de crise pessoal retratada em algumas passagens. O livro vai até 1991 e não cobre o período mais vitorioso da história do clube (de 1997 a 2006), onde craques como o francês Thierry Henry e o holandês Dennis Bergkamp levaram o time a alçar voos bem maiores. Apesar de alguns títulos na fase que começa em 1968 em um jogo contra o Stoke City, o período retratado no livro é primordialmente de decepções e de admiração pela chatice sem fim do Arsenal.

Chatice pelos imensos empates e placares mínimos dessa época ou pelas dores das derrotas em Wembley como para o Swindon Town da 3ª divisão da Liga Inglesa que representaria o primeiro título em 16 anos, ou até mesmo a alegria não completamente comemorada com a conquista da “dobradinha” em 1971 com os títulos da Liga Inglesa e da Copa da Inglaterra. “Febre de Bola”, no entanto, é acima de tudo um depoimento de amor ao futebol e em épocas como essa nossa agora, onde a Copa do Mundo no país acabou de fechar as portas, sua leitura é mais que agradável.

Além de expor essa paixão, o livro é do seu jeito também sobre crescimento. Sobre começar a ter contas a pagar, ter que escolher um futuro e coisas do tipo. Marca também a transição de um campeonato em crise para a liga atualmente mais cara e rentável do planeta. E não é por acaso que “Febre de Bola” é do mesmo período do debute da Premier League, muitos colocam na sua conta a retomada do amor do povo britânico ao esporte, como também por outro lado, um dos fatores que contribuíram para a elitização cada vez maior do esporte nas terras da Rainha.

O futebol inglês passava por um momento muito ruim, com resultados pífios em campo apesar da esperança em nomes como Paul Gascoigne e Gary Lineker, e temor nas arquibancadas e fora delas com os hooligans chamando mais atenção que o jogo em si. Desastres como o de Heysel na Bélgica, com 39 mortos e dezenas de feridos na final da Liga dos Campeões entre Liverpool e Juventus, e sobretudo por Hillsborough onde 96 pessoas tiveram suas vidas retiradas em uma semifinal da FA Cup em 1989 quando Liverpool e Nottingham Forest iam se enfrentar.

Foi nesse cenário de crise que o futebol inglês se reinventou a partir do chamado “Relatório Taylor”, um estudo que definia dezenas de mudanças e atualizações necessárias para o esporte e para a própria gerência dos clubes. Foi assim que a nova liga inglesa estreou em 15 de agosto de 1992 quando em um jogo entre o Sheffield e o Manchester United, Bobby Deane desviou de cabeça para vencer o estupendo goleiro Peter Schmeichel e assim fazer o primeiro gol dessa nova época (o jogo acabou 2 a 1 para o Sheffield). A partir dessa data os clubes eram os donos do espetáculo ao invés da FA (Football Association) e assim fugiam de seus desmandos e inércia.

Nick Hornby e “Febre de Bola” estiveram bem no centro de tudo isso de certa maneira. Pois no livro vemos problemas diversos como campos ruins, brigas, falta de segurança, cambistas, e desconforto aparecerem como personagens coadjuvantes do amor do autor pelo Arsenal, um amor que parecia que seria até impossível levar a vida longe do Highbury, estádio do time, que em 2006 deu lugar ao poderoso Emirates Stadium. E seu entusiasmo também se estende no livro pelo Cambridge City (time minúsculo da cidade onde foi estudar) e pela seleção da Inglaterra (que mais uma vez foi uma decepção só na Copa do Mundo do Brasil, não refletindo o sucesso da Premier League).

Entre desgostos, rezas, esperanças e frustrações, “Febre de Bola” é biblioteca mais que básica quando se fala de futebol e literatura andando juntos. Nick Hornby soube como poucos alinhar tudo isso em pequenos testemunhos divertidos e, à sua maneira, críticos e pessimistas. E depois dele, assim como o Arsenal a partir de 1991 seguiu para conquistas maiores, pois como ele mesmo escreve nas páginas do livro: “os times de futebol são como nós, sempre estão começando vida nova”.

Nota: 9,5

P.S: Nick Hornby meteu seu bedelho final sobre a Copa do Mundo do Brasil. Dá uma conferida aqui: http://www.espnfc.com/blog/world-cup-central/59/post/1943558/nick-hornby-has-the-world-cup-really-been-that-good

P.S: Depois da derrocada final da seleção brasileira na Copa que fez em casa, é necessário e extremamente urgente também repensar o nosso futebol e a nossa liga como os ingleses fizeram. É torcer para isso, mesmo sabendo que se depender dos clubes e da estimada CBF isso nunca acontecerá.

Textos relacionados no blog:

- Literatura: “Uma Longa Queda” – Nick Hornby
- Literatura: “Slam” – Nick Hornby
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terça-feira, 10 de junho de 2014

Uma velha amiga chamada Copa do Mundo

Era tarde de 21 de junho de 1986. Estava eu então com 7 anos e alguns meses e não parava de chorar no pátio da casa dos meus pais. Lembro de uma das minha irmãs me consolando, de um monte de gente bufando ferozmente contra o Zico, de ver a decepção entalhada no rosto dos meus amigos e de especialmente um garoto da rua subindo na escada para cortar a ornamentação da nossa rua que tanto tempo levou para ser construída e tanta diversão nos trouxe. Essa data foi o dia em que a França de Platini, Amoros e Giresse acabava de vez com aquele sonho de ser campeão do mundo que ainda passava pela cabeça de Edinho, Sócrates, Júnior, Zico e Falcão.

Minha memória é ótima para guardar momentos e essa foi a primeira experiência que tive com essa tal de Copa do Mundo. Eu morava em Castanhal nessa época (cidade para a qual praticamente voltei agora), a 70 e poucos quilômetros da capital Belém, e meu universo se resumia praticamente a futebol. Meu pai, sendo um excelente jogador que só deixou de bater sua pelada com mais de 60 anos quando a doença apareceu, era apaixonado por bola e transferiu isso para o seu único filho homem, também conhecido como eu. Torcia para o Paysandu e Flamengo e sempre me encantava com as histórias dos seus títulos, como também por histórias de ídolos como Garrincha, Quarentinha, Ademir da Guia, Dida (que pare ele foi melhor que Pelé) e, lógico, Zico.

Para mim, nessa idade, o Galinho de Quintino era a personificação maior do esporte. Ídolo quase sem contestação. Por isso que enquanto eu chorava em junho de 1986 no pátio, ninguém ali sabia que a minha tristeza era não somente pela desclassificação da seleção e o término de todo o clima festivo, mas também era porque me sentia traído por Zico. Como logo ele podia perder um pênalti que nos levaria a vitória? Como logo ele podia assim do nada acabar com a alegria de toda a minha rua? Na idade que tinha ainda não entendia os fatos de que ele entrara no segundo tempo, deu o passe para o Branco sofrer o pênalti e perdeu este sim, mas se redimiu e fez depois, sendo que na verdade o pênalti que nos deixou fora foi cobrado pelo zagueiro Júlio César. Fiquei “de mal” com Zico até o título do Flamengo em 1987. Eu era um garoto, pobre do Zico.

E agora essa tal de Copa do Mundo que experimentei pela primeira vez há 28 anos vai começar novamente. E aqui no Brasil. Quero deixar bem claro que esse não é um texto crítico ou político (e nem intenção de ser), é um simples exercício de saudade, nada além disso. Concordo plenamente com todos os protestos (apesar de achar que agora já não servem para muita coisa), mas também entendo que é fundamental que esses protestos e esse nosso despertar cívico não pare agora na Copa do Mundo, mas que continue por todo o ano, por toda a vida. No meu trabalho com órgãos públicos estou calejado de ver os desmandos de políticos e seus asseclas em todas as esferas governamentais, e isso realmente tem que acabar. Porém esse texto não falará disso, deixo isso nas mãos de gente mais hábil.

Esse texto é sobre o futebol, sobre mim, sobre o meu pai, sobre a Copa do Mundo. É um texto de um apaixonado, um texto de um cara que hoje aos 35 anos ainda tem o futebol muito presente na vida. O futebol me trouxe amigos (e muitos estão comigo até hoje), paixões, alegrias, decepções, tristezas. O futebol, acima de tudo, foi o fio condutor de toda a relação que tive com meu pai falecido em 2006. Ele nos unia e por conta disso nossa relação foi boa e repleta de respeito, carinho e uma cumplicidade que minha mãe nunca iria entender. Foi assim quando aos 10 anos ele me presenteou com uma chuteira Adidas (caríssima na época) para a minha estreia na quarta zaga da escolinha do bairro. Investiu como pode, mas infelizmente minha habilidade não prestava muita atenção nisso. Porém, mesmo sem ser um craque como ele fora e todos falavam, o futebol ficou e até hoje jogo minha bolinha duas ou três vezes por semana. E faço isso com toda a entrega do mundo.

E principalmente por essa relação, é que nunca, em nenhum momento vou torcer contra a seleção do meu país. E isso não é dar uma de Pacheco ou ser ufanista e patriota patético. Isso é simplesmente pelo futebol. Cresci torcendo pela amarelinha e não vai ser agora durante os 90 minutos de um jogo que vou deixar de fazer isso. Ainda mais em Copa do Mundo. Copa do Mundo que desde 1986 habita em um pequeno canto aqui dentro do meu corpo. O futebol de hoje não tem mais o romantismo de antes, isso é certo. É muito mais um negócio. É pop. Extremamente pop. Craques como Cristiano Ronaldo, Messi e Neymar não podem ser comparados no quesito mídia com outros de décadas anteriores, mas isso não me impede de torcer como sempre fiz. Triste de mim seria se isso acontecesse.

Na Copa seguinte a decepção de 1986, a de 1990, eu já entendia mais um pouco sobre tudo a minha volta e foi com raiva que vi a seleção cair diante da Argentina com um gol do Caniggia depois do passe do Maradona. Lembro-me do meu pai cabisbaixo nesse dia como poucas vezes vi. No entanto, em 1994 viria a forra. Depois dos pênaltis (que meu pai escutou sozinho no rádio trancado dentro do carro) a explosão de alegria era igual do Galvão Bueno enlouquecido na tevê. Nesse dia fiquei bêbado, a primeira vez de tantas na adolescência (e tantas após isso), tudo culpa de Romário e cia. A Copa de 1994 representou um marco para minha geração, futebolisticamente falando. Era um confronto de ideias, a criação de novos ídolos, e a esperança de que dali em diante tudo poderia ser melhor. Tudo mesmo. Adolescentes sempre acham que podem tudo.

Já em 1998 tudo foi programado. Assisti a maioria dos jogos em casa com uma imensidão de amigos. No jogo contra a Holanda na semifinal (aquele em que o Zé Carlos jogou), os pênaltis mereciam uma foto. Umas 20 pessoas ajoelhadas de mãos dadas rezando para São Taffarel, que ouviu nossas preces. Na final, meu pai chegou comigo e falou para convidar todo mundo para almoçar em casa que ele ia pedir para a mãe fazer uma feijoada e um mingau de milho (época de festa junina sempre tem). A turma chegou cedo e começamos a beber, nos espantamos com o drama do Ronaldo e ficamos tensos sobre o que viria a seguir. Meu pai que não bebia comprou equivocadamente algumas cervejas sem álcool e também fazia sua parte. Eu capotei bêbado no início do jogo e só acordei no finalzinho quando estava 3 a 0 e a tristeza já tomava conta da casa. Até hoje nunca quis ver esse jogo todo.

Em 2002 tudo parecia sorrir para mim. Amores se concretizando, trabalho deslanchando, a vida seguindo seu rumo. Os jogos de madrugada me impediram de assistir com meu pai, pois trabalhava e morava em outra cidade e a final assisti na casa de um amigo, mas logo após o jogo corri para lhe dar um abraço. Durante essa copa vivi mais do que todas as outras, sem dúvida alguma. Grandes tempos. Em contrapartida a esse momento da minha vida, o câncer já começava a perturbar bem o meu velho nessa época e ele vivia dizendo que não veria mais nenhuma copa. Aquilo soava pesado aos meus ouvidos, saber que aquele momento único que sempre cultivamos juntos sorrindo ou chorando não iria mais se repetir. Não cansava de repetir para ele que isso não ia acontecer. Que ele ainda veria o Brasil ser hexa.

Em 2006 no jogo em que o Henry fez o gol e desclassificou o Brasil eu estava fora de casa, mas voltei para ver o jogo ao seu lado, que já com a doença em estado avançadíssimo ficou no quarto conversando comigo. Depois da derrota, bateu aquela dor de saber que realmente ele estava certo, que aquela seria sua última copa do mundo. A raiva que tive de Ronaldinho Gaúcho, Adriano, Roberto Carlos e Ronaldo naquele dia era extrema. Era irracional. Não só por ter perdido o jogo em si, mas por eles terem privado meu velho de ver o Brasil campeão novamente, de terem me privado de mais uma vez abraçá-lo e gritar “É Campeão!”. Uma raiva que superava e muito a do garoto de 1986 com Zico. Meu pai faleceu em 11 de julho daquele ano e a horrível final entre Itália e França foi no dia 9, ou seja, se o Brasil chegasse ele ainda teria visto.

2010 foi a primeira Copa do Mundo sem meu pai. E a derrota para a Holanda foi dura, potente, forte como uma grande sequência de chutes no estômago. Enquanto os analistas teciam suas teses na televisão sobre a derrota, eu ficava pensando se era justo perder aquele jogo, mas me lembrava que meu pai sempre falava que justiça não combina com futebol e essa é sua graça. Eu sabia disso desde garoto quando ouvia ao seu lado no rádio a transmissão dos jogos do Flamengo na Rádio Globo com o garotinho José Carlos Araújo narrando. Meu pai me ensinara. Assim como me ensinara a ser justo, correto e simples. Assim como me ensinara a vida toda o prazer de ver um jogo de futebol, de chutar uma bola, de conversar com os amigos depois. Meu pai me deu o futebol, isso é certo, e por isso lhe serei eternamente grato.

Dessa maneira, e aqui deixo claro que não repreendo ninguém por uma escolha diferente da minha, não tenho como torcer contra o Brasil, repito novamente. Torcer para a seleção canarinho está acima da CBF, da FIFA, dos políticos e suas falcatruas. São coisas distintas. No ano passado, dia 30 de junho de 2013 estava no Maracanã com mais de 70 mil pessoas na final das Copa das Confederações vendo Fred, Neymar, Thiago Silva, David Luiz e Paulinho arrasarem com a Fúria Espanhola. Um baita show. Senti a mesma emoção e alegria de quando vi o show do Paul McCartney, ou o do R.E.M. Emocionante pra cacete.

E, neste momento, mesmo sem saber se esse ano irei para algum jogo ou não (já que não consegui ingresso apesar das inúmeras tentativas), a partir do dia 12 de junho de 2014 estarei de peito aberto, ouvidos atentos e olhos interessados na Copa do Mundo. Me permito sim deixar que esse sentimento de esperança e de alegria invada um pouco o meu corpo, e me faça ser mais feliz junto com essa velha amiga chamada Copa do Mundo seja em família, nos bares com os amigos ou no pensamento constante de cumplicidade com meu pai.

Então, anote aí. Vamos ser hexa, meu velho. Torça de onde estiver. Vou lhe acompanhar daqui.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

"O Réu e o Rei" - Paulo Cesar de Araújo

Na Constituição Federal do nosso estimado país datada de 5 de outubro de 1988, logo no primeiro artigo lemos o seguinte: “A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito”. Sim, um “Estado Democrático de Direito”. Dessa maneira, não é passível de concordância ou digna de legitimidade qualquer ação que vá contra isso, por exemplo, qualquer ação que signifique censura prévia de um livro, filme ou obra que se equivalha. Mas, infelizmente não é o que se vê por aqui.

O caso mais famoso sobre esse tipo de proibição foi o livro “Roberto Carlos em Detalhes”, lançado no final de 2006 pela Editora Planeta e com a circulação interditada no início de 2007 pelo artista, fruto de uma audiência de conciliação na Barra Funda em São Paulo, com peculiaridades que honrariam um quadro de filme do Monty Python. Coerção, quebra de regras, adulteração de texto, juiz entregando cd’s de sua autoria para Roberto Carlos, promotor e juiz batendo alegres fotos depois da decisão, os advogados da editora acuados e esbanjando covardia. Pareceria cômico se não fosse trágico.

Essas minúcias e pormenores do processo agora são revelados pelo escritor Paulo Cesar de Araújo em “O Réu e O Rei”, com 526 páginas e edição da Companhia Das Letras. Um livro profícuo que versa não somente sobre jornalismo, como também se correlaciona com o atual cenário onde (nesse momento) um projeto de lei que libera a publicação de biografias não autorizadas foi aprovado pela Câmara dos Deputados e segue para o Senado Federal, e assim se espera, para a sanção presidencial. Chega também depois do ridículo movimento chamado “Procure Saber” idealizado no ano passado por Roberto Carlos e mais alguns ícones da música nacional que visavam justamente essa proibição.

Em “O Réu e o Rei”, Paulo Cesar de Araújo dedica boa parte das páginas para contar sua própria história, desde a saída do interior da Bahia até a chegada ao Rio de Janeiro. Navega na paixão pelas músicas do Roberto Carlos (quem leu o livro proibido percebe o tamanho dessa paixão) e pelo intenso projeto de pesquisa que fez com nomes representativos como Chico Buarque (que geraria um fato interessante depois), Caetano Veloso e Tom Jobim. Narra também seu percurso até a publicação do ótimo “Eu Não Sou Cachorro, Não” de 2002 onde joga luz sobre a produção sonora assim denominada de “brega” dos anos 70 e 80 e resgata músicos como Odair José, entre outros tantos.

A peregrinação do autor para entrevistar tantos artistas quanto conseguiu é envolvente, pois além de um atestado de perseverança e crença nas ideias que nutria, apresenta também um país diferente, com uma indústria fonográfica ainda forte e pulsante, mas que em contrapartida não tinha tanta frescura para ter acesso a seus criadores, e onde os assessores ainda não eram estrelas também. Outro ponto bem agradável do registro consiste no relacionamento que o autor formou com João Gilberto, o crânio por trás da bossa nova que sempre se demonstrou arredio e inacessível, mas que no livro exibe outros lados diversos a esses.

Não obstante, o personagem principal da obra é mesmo a pendenga judicial que envolve o livro de 2006. Movimentos sujos e sórdidos permeiam as páginas, assim como posicionamentos nada lisonjeiros para alguns dos envolvidos. O favorecimento fica límpido para uma das partes no livro. O inciso IX do artigo 5º da nossa constituição que coloca: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”, passa longe de ser obedecido. É justo lembrar que nesse mesmo artigo no inciso X temos: “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”. Os incisos são conflitantes, mas tem o mesmo peso, o que não foi levado em consideração de modo correto no litígio.

Não cabe aqui entrar profundamente nos aspectos jurídicos que abrangem também, entre outros, o artigo 220 da mesma Constituição Federal e o artigo 20 do Código Civil (justamente é este artigo que o projeto de lei aprovado na câmara visa mudar), como também aspectos gerais aos conceitos de infâmia, injúria e difamação. Paulo Cesar de Araújo coordena de modo equânime as divergências de pensamento e teorias e isso engrandece ainda mais o texto. Texto que em nenhum momento se opõe a reivindicações na justiça sobre eventuais ofensas ou inverdades através de indenizações. Ninguém quer autores desonestos no mercado, o que se discute é a proibição para publicações do tipo. Antes de serem lidas, inclusive.

Em um país como o nosso que tanto sofreu (e por tanto tempo) com cerceamento e repressão de obras culturais das mais distintas espécies, o caso de Paulo Cesar Araújo tem um destaque maior, mas é bom afirmar que são vários os casos de litígio desse nível existentes. E isso tem que acabar. “O Réu e o Rei” é uma demonstração precisa disso. Roberto Carlos, que sempre expôs a vida e os fatos dela em revistas, jornais e tevê para benefício próprio, não é o melhor caso para alegar invasão de privacidade, quando na absoluta maioria do texto esses casos foram divulgados por ele mesmo.

Com suas manias e a obsessão dele e do seu séquito pelo controle de tudo, o “Rei” parece realmente acreditar que é dono desse título e merecedor de um tratamento de majestade em todas as esferas, como bem afirmou certa vez o André Barcinski. É desprezível essa posição. Ele deve se lembrar que este título que ostenta é apenas uma (cada vez menos justa) homenagem pública as suas canções, canções que em boa parte exaltam atitudes contrárias as ações despropositadas que exibe. Podemos apenas lamentar isso e admirar obras sérias como a de Paulo Cesar de Araújo, baseadas em extenso trabalho de pesquisa e que louva as melhores prerrogativas do bom jornalismo.

Leia. Sem falta.

Nota: 9,0

P.S: Existia um receio de que novamente Roberto Carlos entraria com um processo de proibição sobre um livro de Paulo Cesar de Araújo. No lançamento, mesmo novamente sem ler o texto, divulgou que mandaria para o jurídico analisar. Com medo de nova repercussão negativa na imprensa e em seu público, ou com finalmente a razão lhe tomando a cuca, o “Rei” afirmou nos últimos dias que não fará isso. Espera-se que continue assim.