Mais um ano chega ao fim e deixa
para trás bons momentos para a cultura em geral. Tivemos ótimos trabalhos na
música, cinema, literatura, quadrinhos e até mesmo na televisão. Que no ano que
bate na porta esperando para entrar, isso aconteça em uma quantidade maior,
afinal coisas boas são sempre bem vindas.
Que esse último dia sirva para
repensarmos a vida, as nossas atitudes e o caminho que optamos em trilhar. Que
as estradas que ainda vamos pavimentar pela frente estejam repletas de
realizações e alegrias e que ao construir essas novas estradas, nunca nos
esqueçamos do compromisso único de fazer desse mundo um lugar melhor para as
gerações futuras. Isso é fundamental.
Em 2012, apesar de uma quantidade
bem menor de textos (não deu para escrever tanto quanto eu queria), o Coisapop continuou
crescendo no que tange a quantidade de acessos. O que se convencionou como uma
regra desde que foi criado em 2005. Por isso o meu muito obrigado a todos que
passaram aqui, concordando ou não com o teor dos textos. Um abraço virtual em
todos os leitores, amigos e colaboradores que fazem com que isso seja levado em
frente dia a dia.
Que nesse novo ano possamos
honrar nossos sonhos e ideias como eles merecem.
Final de ano. Uma ótima época para
viajar com a família com o intuito de relaxar e aplacar um pouco a falta de
atenção cometida durante o restante do ano devido ao trabalho, as coisas da
vida em geral. Imagine só então ir para um lugar paradisíaco, repleto de
belezas naturais. Um sonho, não é? Foi isso que pensou uma (entre tantas
outras) família espanhola ao embarcar para as festas de 2004 com destino à costa
da Ásia. E devido a um tsunami de proporções gigantescas, esse sonho virou um
pesadelo.
É baseado nessa história real que
o diretor espanhol Juan Antonio Bayona (do esquecível “O Orfanato”) criou seu
novo filme “O Impossível”, que
estreia por aqui agora no final de 2012. Sem apelar para milhares de efeitos
especiais da catástrofe (apesar desses efeitos existirem), a trama tem como o
foco a briga para escapar da imensidão de água que constantemente arremessa
tudo e todos, para em um segundo momento se preocupar com o reflexo do desastre
que separa famílias e produz corpos.
Para interpretar a família
(convertida em britânica), outro acerto. O casal ficou com Ewan McGregor (“Trainspotting”)
e Naomi Watts (“21 Gramas”), e os dois que já haviam trabalhado juntos no
mediano “A Passagem” do diretor Marc Foster de 2005, aqui vão bem além e
conseguem brilhar, principalmente a atriz inglesa. Os três filhos do casal
também tem boas atuações, a saber: Tom Holland como Lucas, Samuel Joslin como
Thomas e Oaklee Pendergast como Simon. Fragilidade e coragem na dose certa.
O roteiro de Sergio G. Sánchez
(parceiro de Bayona em “O Orfanato”) tem essa habilidade de alternar a
calamidade de maneira mais ampla com o sofrimento particular da família. Isso
sem poupar o espectador de mostrar os graves ferimentos e toda a sujeira
imposta pela lama e sangue. O roteiro também encontra tempo para adicionar
outros personagens, como Karl (Sönke Möhring de “Bastardos Inglórios”), que em
poucos minutos na tela consegue passar uma carga forte de dor e esperança.
“O Impossível” até apresenta algumas questões para espectadores
mais ranzinzas discutirem, como colocar o foco em uma família europeia ao invés
de moradores da região, ou a solução final com o tratamento médico envolvido,
porém, nada disso tira a forte carga de emoção que o longa transpira a cada
minuto e muito menos as atuações convincentes do elenco, que vive ali naquele
momento o drama que milhares sofreram e que deixou mais de 200 mil mortes no
rastro de destruição que a natureza impôs.
Desde que a Editora Panini
assumiu a publicação das linhas da DC e da Marvel no Brasil, é inegável o bom
trabalho que vem sendo feito. Há de se discordar de alguns pontos como o tempo
de atraso ainda vigente nas publicações maiores, ou a equivocada junção de
títulos para formar o mix das revistas, resultando às vezes em boas séries
esquecidas. No entanto, isso são detalhes dentro de um todo. No geral, o
trabalho é bem realizado e cada vez está mais amplo.
O selo Vertigo da DC é um dos que
vem recebendo os melhores cuidados e a prova disso são dois recentes
lançamentos inéditos por aqui. O primeiro é “Sweet Tooth – Depois do Apocalipse” de Jeff Lemire, e o segundo é “O Inescrito” de Mike Carey e Peter
Gross. Os dois encadernados apresentam as cinco primeiras edições de cada,
originalmente publicadas no decorrer de 2009 inicialmente. “O Inescrito” ainda ganha alguns textos e mais extras de esboços
como bônus.
O primeiro volume de “Sweet Tooth” é “Saindo da Mata”. Nele,
Jeff Lemire conta a história de uma terra sofrida, após quase todos os humanos serem
extintos devido a uma infecção generalizada. As crianças que agora nascem no
planeta são híbridos de humanos e animais. O foco está no jovem Gus (que
carrega traços de cervo na anatomia), que depois de ver o pai falecer começa a
ser caçado, pois a espécie dele é altamente valorizada nesse mundo novo. É
quando entra o velho Jepperd.
Jepperd é um homem forte, que por
razões bem próprias, resolve salvaguardar a vida de Gus e conduzi-lo a uma
reserva para sua espécie. Nessas primeiras edições a série ainda se apresenta e
exibe cores escuras e boas passagens de ação, tratando praticamente de
sobrevivência e busca de identidade. Quem já leu mais (através de importados ou
dos sites de scan da rede), sabe que tudo engrena a partir dessas primeiras
revistas, ganhando contornos mais dramáticos. Vale a espera.
“O Inescrito”, por sua vez, já começa apoderando-se do leitor. Mike
Carey e Peter Gross apresentam Tommy Taylor, um jovem que vive do sucesso do
desaparecido pai, um escritor responsável por uma franquia de extremo sucesso com
um jovem bruxo, onde o filho foi o molde para a criação. A história do jovem
bruxo é uma alusão direta a Harry Potter, e rende algumas tiradas inspiradas,
enquanto também é usada para uma crítica das adorações extremas da sociedade.
Viajando pelo universo da
literatura e fazendo desse universo a afiada faca que corta a linha entre
fantasia e realidade, “O Inescrito”
é original dentro da prerrogativa a que se propõe. Com direito as fantásticas
capas de Yuko Shimizu abrindo as edições, viajamos por um mundo onde até o falecido
escritor inglês Rudyard Kipling (mais aqui) serve como alavanca para o
desenvolvimento da trama. E entre todas essas citações, temos um dos grandes
trabalhos dos quadrinhos da atualidade.
P.S:“Sweet Tooth –
Depois do Apocalipse” tem 132 páginas e custa R$ 15,90. Já “O Inescrito” tem 148 páginas e custa
R$ 18,90. Ambas primeiras edições podem ser encontradas em bancas de revistas.
Em setembro de 2009, a Panini
resolveu homenagear os 50 anos de carreira de Maurício de Sousa. A primeira
tirinha dele foi publicada em 18 de julho de 1959 e a editora que trabalha com
a Turma da Mônica nos últimos anos resolveu prestar um tributo a sua obra. Para
tanto, chamou diversos artistas que participaram dos álbuns “MSP 50”, “MSP+50”,
“MSP Novos 50” e “Ouro da Casa”. Dentre as criações de Maurício, o Astronauta
foi um dos mais visitados. Nomes como Fábio Moon, Gabriel Bá e Renato Guedes
fizeram suas versões do personagem lá em 2009.
A recepção de público e crítica
foi tão boa que deu a origem a um selo chamado “Graphic MSP”, onde os
personagens de Maurício de Sousa ganhariam versões em álbuns maiores, em
histórias mais amplas, com um maior direcionamento também para o público
adulto. O primeiro filho desse interessante projeto é “Astronauta Magnetar”, escrita e desenhada pelo paulista Danilo
Beyruth (da premiada “Bando de Dois”), com cores de Cris Peter. O formato é
grande (19x27,5cm) e conta com 82 páginas, incluindo textos explicativos e
esboços de desenhos.
Na trama desenvolvida por Danilo
Beyruth, o Astronauta aparece lidando de maneira conflituosa sobre a solidão a
que se designou em troca das aventuras espaciais, em troca de conhecimento. Lembra-se
do avô no começo e em determinado momento mais adiante vê amigos, família e a
amada Ritinha refletidos na sua frente. A solidão, que sempre foi companheira
nas histórias da Turma da Mônica, aqui aparece amplificada. Quando ele erra e
bota a vida em risco na busca de estudar um fenômeno chamado magnetar, essa
solidão chega com tudo.
No meio do nada (literalmente), o
Astronauta precisa de toda força para não enlouquecer. É um náufrago em pleno
espaço e para sair desta desconfortável e desesperada posição tem que usar seu
intelecto e espírito aventureiro. Com a ajuda de cores fortes e proporcionando
uma bela junção entre quadrinhos e roteiro, Danilo Beyruth coloca o leitor
dentro do jogo, dentro do pequeno cosmo de angústia que o personagem está
inserido. Drama e aventura andam lado e lado e mostram autoridade para agradar os
leitores mais jovens, como também o público adulto.
Edward Dunford é um jornalista
policial do Condado de Yorkshire na Inglaterra nos anos 70. No final de 1974
consegue sua primeira grande cobertura, envolvendo um caso de assassinato entre
irmãos, o que o leva a ficar conhecido na região e o faz prospectar um futuro
melhor. Porém, nem tudo são flores e seu pai falece na mesma época e um caso
brutal envolvendo a morte de uma garotinha que teve asas de cisne costuradas nas
costas, bate a porta e mexe radicalmente com o possível futuro.
Lançado originalmente em 1999 no
Reino Unido, o livro “1974 – Red Riding”
é o primeiro de uma série de quatro que tratam sobre assassinatos impetuosos
neste território inglês. Aqui no Brasil chega esse ano, através da Benvirá, um
selo da Editora Saraiva. Com 448 páginas e tradução de Rodrigo Peixoto, é a
partida inicial para entrar no universo imaginado pelo escritor David Peace, um
universo onde palavras como perdão e cortesia fazem pouco sentido diante do
poder do dinheiro.
Essa série já foi adaptada para o
cinema em 2009, trazendo Andrew Garfield (o novo Homem Aranha) no papel do
jornalista. No entanto, saiu aqui no Brasil direto em DVD e não causou praticamente
emoção nenhuma. David Peace também escreveu “The Damned Utd” (ainda inédito por
aqui), que narra as desventuras de Brian Clough à frente do outrora glorioso
time de futebol Leeds United e que também virou filme com Michael Sheen no
papel principal. E nesse caso específico, um bom filme.
Mas voltando ao livro em si, ele
apresenta Edward Dunford dentro do contexto exposto no primeiro parágrafo e
entre 13 de dezembro de 1974 e a véspera de natal daquele ano, o insere um
dentro de um jogo de gato e rato, onde nada se apresenta gratuitamente e fica
absolutamente fácil se perder na enormidade de interesses hostis e informações
falsas. O jornalista está em um redemoinho composto por álcool, violência e
sexo e nem mesmo percebe que está se afundando mais e mais.
Utilizando uma narrativa versátil
e veloz, David Peace deixa o leitor confuso e desnorteado, tanto quanto o personagem
principal. Tendo o Reino Unido dos anos 70 como pano de fundo - e aqui se
entenda música (Elton John e David Bowie são referências constantes) e política
- ele consegue se distanciar da vala meio comum dos romances policiais e
apresenta algo que se por um lado não é extremamente novo, por outro apresenta muito
vigor e nenhum pudor para expor as piores facetas da humanidade.
Bob Mould tem uma lista primorosa
de serviços prestados a música. Desde o final dos anos 70 quando montou o
Husker Dü, nunca deixou de produzir e gravar discos. No decorrer desse caminho,
a primeira banda acabou, ele montou o Sugar que também acabou e então abraçou
de vez a carreira individual. O seu rock agressivo, porém com fartas doses de melodia,
influenciou um bocado de gente relevante dentro do cenário (como Kurt Cobain do
Nirvana, por exemplo).
No entanto, fazia tempo que Bob
Mould não lançava um trabalho realmente enérgico e com um nível de excelência
espalhado completamente por todas as faixas. Talvez, isso não ocorresse desde “The
Last Dog And Pony Show” de 1998. Isso muda com “Silver Age”, o décimo (ou décimo-primeiro, dependendo da visão)
registro solo da carreira. Com apenas ele na guitarra, Jason Narducy no baixo e
Jon Wurster na bateria, o resultado é potente e eficaz.
Essa, digamos assim, retomada da
melhor forma, passa por alguns motivos que valem ser citados. Em 2011 ele
participou do (ótimo) disco “Wasting Light” do Foo Fighters, cantando e tocando
guitarra em “Dear Rosemary”. No mesmo ano recebeu uma bonita homenagem em show de
nomes como Craig Finn (The Hold Steady) e durante 2012 saiu excursionando
tocando o “Copper Blue” de 1992 do Sugar na íntegra, em comemoração aos 20 anos.
Isso mexeu com a vontade.
“Silver Age” exibe 10 faixas em quase 40 minutos e trabalha nas
letras temas como dúvidas sobre o caminho seguido e desesperança com o mundo a
nossa volta, mas quase sempre ostenta no final um sentimento de ir em frente,
de não baixar a cabeça. Isso acontece em faixas como “Star Machine” e a canção
que dá nome ao trabalho, por exemplo. O pano de fundo sonoro disso tudo é um
rock básico envolto ao punk e ao garage, com aquela conhecida proporção pop.
Algumas canções desse “Silver Age”
são verdadeiras aulas. Tente escutar “The Descent” e “Briefest Moment” e não lembrar
o Foo Fighters, ou “Angels Rearrange” e não remeter a bandas de punk-pop.
Depois de álbuns bons mas não tão brilhantes assim (como os últimos “District
Line” de 2008 e “Life And Times” de 2009), Bob Mould volta a grande forma e até
canta nos versos finais da última faixa “First Time Joy”, um “aqui vamos nós de novo”. Que bom. A
música agradece.
A vingança é um prato que se come
frio, afirma o velho dito popular. Ao ler “A
Máquina De Goldberg” é fácil lembrar-se dessa antiga frase. O álbum em
quadrinhos é o primeiro de um novo projeto da editora Companhia das Letras,
através do seu selo Quadrinhos na Cia., que é inteiramente dedicado à nona
arte. Esse projeto visa reunir escritores e desenhistas relativamente novos. A
estreia fica nas mãos da jornalista Vanessa Barbara (“O Livro Amarelo do
Terminal”) e do ilustrador Fido Nesti (“Os Lusíadas” em quadrinhos).
O roteiro de Vanessa Barbara acompanha
um menino gordinho, fã de punk rock e sem muito traquejo social na estadia em
um acampamento de férias chamado carinhosamente de “Montanha Feliz”. Getúlio (o
garoto em questão) não está muito a vontade com essa verdadeira missão, onde
além de suportar todas as zombarias dos colegas de classe, também tem que lidar
com a perseguição implacável do professor de educação física e responsável pelo
acampamento, um ex-militar e ex-boxeador nada confiável.
Em meio a luta pessoal para “sobreviver”,
Getúlio invade a casa do zelador do acampamento, um senhor estranho e calado de
nome Leopoldo, que guarda alguns segredos. Entre esses segredos está a
dedicação espartana em criar máquinas de Goldberg, assim conhecidas por
transformarem rotinas banais (como abrir uma porta, por exemplo) em complicados
sistemas de evolução. Esse tipo de projeto foi imaginado há mais ou menos uns
cem anos atrás pelo cartunista e inventor estadunidense Rube Goldberg (daí o
nome).
Para uma máquina de Goldberg ser
realmente interessante, tem que conter as junções mais absurdas possíveis. Amostras
disso nós podemos ver na abertura do seriado infantil “Castelo Rá-Tim-Bum”
(vídeo aqui) ou mais recentemente em um comercial caprichado da Red Bull (vídeo
aqui). No caso da obra em questão ela inclui dezenas de bugigangas se
intercalando e serve não somente como uma grande personagem coadjuvante, como a
via que proporcionará a vingança esperada por Leopoldo e, por conseguinte, Getúlio.
“A Máquina de Goldberg” trata sobre adequação e comportamento juvenil
e traz a vingança para fazer parte como condutora das motivações. Com uma
premissa inicial boa (apesar de comum), o trabalho se perde no meio do caminho
e acaba não convencendo por completo. Isso ocorre principalmente devido à
mistura (sem explicação aparente) na identidade dos personagens, variando características
estrangeiras e nacionais, assim como pelas medianas soluções encontradas para elaborar
o desfecho.
Hans Theessink nasceu na cidade
de Enschede na Holanda. Já Terry Evans chegou ao mundo em Vicksburg no estado
do Mississipi nos EUA. Ambos percorreram seus caminhos tendo a música - mas
especificamente o blues - como sustento e força motriz. Foi essa música que em
2008 uniu os dois em um bonito disco chamado “Visions”. E foi essa mesma música
que em 2012 reativou esse pacto para a gravação de mais um álbum, dessa vez
intitulado “Delta Time”. Isso e a
admiração por Ry Cooder.
Ry Cooder foi uma espécie de
motivador para esse novo trabalho, ainda que indiretamente. Seus discos nos
anos 70 serviram de inspiração básica, o que levou a dupla a convidá-lo para participar
de “Delta Time” em três faixas.
Terry Evans, que já havia trabalhado com Ry Cooder em alguns discos mais antigos,
assiste novamente a classe dele destilada em acordes inspirados, como aqueles
que elaboram o solo de slide em “Blue Stay Away From Me”, composição dos irmãos
Delmore.
Primordialmente em formato
acústico, o blues demonstrado por Theessink e Evans é forjado a partir de
elementos da melhor safra do estilo. Com bandolins e banjos no meio dos
violões, guitarras e harmônicas, a dupla principal ainda conta com o auxílio de
Arnold McCuller e Willie Green Jr. nos vocais de fundo. Esses vocais, aliás,
são tão importantes quanto os instrumentos em si. São vários os momentos em que
se sobressaem, como em “Build Myself a Home” e a clássica “Honest I Do” de
Jimmy Reed.
Das 13 canções que perfilam os
poucos mais de 58 minutos do registro, algumas merecem um destaque especial,
como a faixa-título (composição de Hans Theessink) e “The Birds And The Bees”, uma
releitura para o primeiro sucesso de Terry Evans quando ainda fazia parte dos
Turnarounds nos anos 60. Some-se também o petardo lamurioso e dramático de “Down
In Mississippi” de J. B. Lenoir e a homenagem de mais de 10 minutos que “Mississipi”
(mais uma composição do holandês) insere no final.
Com lançamento pela Blue Groove
Records, “Delta Time” é um trabalho
garboso e elegante, trazendo para os dias atuais um pouco da magia do velho blues,
ainda envolto em nuances com tônicas acústicas. Hans Theessink com seu vocal
forte e acentuado combina com requinte esse estilo com o jeito brando e mais
espiritual de Terry Evans. O resultado é um disco que envolve o ouvinte na própria
atmosfera e mostra que para a música não existem barreiras presunçosas como
fronteiras, cores e raças.
O mundo está cheio de idiotas. Não
tem para onde correr. Em alguma esquina de uma cidade qualquer você pode se
deparar com um dos diversos tipos que existem. Longe de querer aqui enumerar
tipos dessa criatura ou elaborar um estudo profundo sobre esse tema tão
fundamental para a humanidade. Podemos apenas dizer que existem os idiotas
realmente idiotas e aqueles que por algum distúrbio mental desconhecido pela
ciência não param de fazer besteiras e tomar atitudes burras.
Usando esse tipo de “idiota do
bem”, por assim dizer, o escritor e roteirista de tevê alemão Tommy Jaud lançou
em 2004 o primeiro livro intitulado “Vollidiot”. Foi um êxito absoluto no seu
país, vendeu mais de um milhão de cópias e virou um filme também de sucesso estrelado
por um conhecido comediante nacional. Agora em 2012 a Editora Prumo resolveu
lançar a obra em território brazuca com o título de “Completamente Idiota”, 240 páginas e tradução de Camila Werner.
O livro tem uma diretriz cômica
declarada e usa um cara de quase 30 anos para servir de personagem principal.
Simon Peters trabalha em uma loja de eletrônicos e celulares na cidade de
Colônia e tem uns três ou quatro amigos dos quais não gosta muito. Além disso,
não goza de muito prestígio com as mulheres. “Completamente Idiota” pega esse personagem em um momento de “crise”,
digamos. Um momento onde todas as cagadas que sempre fez na vida se elevam a
potência máxima e passam a provocar danos.
Durante o decorrer das páginas,
Simon Peters vai aumentando gradativamente, degrau por degrau, a reputação de
babaca. Corre atrás da namorada do melhor amigo, faz estripulias com o cartão
de crédito do outro, joga cerveja em uma garota no show em que a convidou, invade
uma casa para salvar uma burrada que fez no trabalho e em um jogo de futebol faz
comentários desajustados (entre outras coisas) para o treinador do Schalke 04
em pleno camarote vip, no qual estava como convidado.
“Completamente Idiota” é um livro que tem bons momentos, apesar de
parte das piadas ficarem um pouco deslocadas por causa da data original de
publicação e o lançamento por aqui. Tommy Jaud não tem como objetivo tratar
superficialmente de nenhum problema embutido no humor que exerce. Busca apenas
divertir e consegue isso de modo razoável. Seu humor não é nada que já não foi
visto antes, mas serve para tirar alguns sorrisos despretensiosos que serão
esquecidos logo em seguida.
Em 1998, o cantor e compositor
inglês Billy Bragg se juntava aos americanos do Wilco para lançar o álbum “Mermaid
Avenue”. O registro (excelente, diga-se de passagem) ganhou um segundo volume
em 2000 e foi elaborado em cima de letras não musicadas do cantor folk Woody
Guthrie, falecido no dia 3 de outubro de 1967. Guthrie se tornou um ícone nos
EUA e sua música e postura política influenciaram nomes do porte de Bob Dylan,
Bruce Springsteen e Joe Strummer (The Clash).
Porém, antes do projeto ser
oferecido a Billy Bragg, foi feito o mesmo convite para Jay Farrar e o seu Son
Volt. É bom lembrar que Jay Farrar e Jeff Tweedy do Wilco faziam parte da mesma
banda, a ótima Uncle Tupelo, que durou até 1994. Depois do fim é que seus
atuais grupos tiveram início. O projeto “Mermaid Avenue” foi um sucesso (e
ganha até reedição caprichada esse ano, com mais um disco), então quando Jay
Farrar teve novamente a chance de visitar o baú do ídolo, dessa vez não vacilou.
Convidado por Nora Lee Guthrie, filha
de Woody e irmã do também cantor e compositor Arlo Guthrie, Jay Farrar se pôs a
fuçar os arquivos para organizar esse projeto, com o intuito de comemorar o
centenário de nascimento do homenageado. Assim começou a nascer o álbum “New Multitudes”, lançado pela Rounder
Records no começo do ano e feito em parceira com os velhos amigos Will Johnson
(Centro-matic), Anders Parker (Varnaline e Gob Iron) e Yim Yames (My Morning
Jacket e Monsters Of Folk).
“New Multitudes” oferece 12 canções na sua versão comum (existe
também a deluxe, com outro disco), forjadas tanto individualmente quanto em
conjunto pelos envolvidos. O material utilizado para servir de inspiração foi
de cadernos até revistas, desenhos e pinturas. Com produção de John Agnello
(Sonic Youth, Dinosaur Jr.), temos um álbum que trilha estradas bem distantes do
que poderia ser oportunismo e se consolida além da homenagem como um registro
particular e independente.
Jay Farrar abre com “Hoping
Machine”, uma canção sobre ser convicto e forte nos seus desejos e que tem o
belo verso: “a música é a linguagem da
mente que viaja”. Em “My Revolutionary Mind”, Jim James evoca os protestos
de Guthrie e correlaciona isso com o desejo por uma “mulher progressista”. “No Fear” traz Will Johnson cantando sobre
medo e morte, enquanto “Angel’s Blues” vem pesada, com guitarras densas e
Anders Parker misturando saudade, orgulho e promessas.
O segundo disco que aparece na
versão deluxe mostra 11 composições, dessa vez somente de Jay Farrar e Anders
Parker, e mantém o nível elevado, se mostrando tão obrigatório quanto o
primeiro. Nele, os temas explorados vão de guerra nuclear em “Word’s On Fire”
até prostituição em “San Antone Meat House”. A sonoridade das faixas habita o
mesmo universo explorado pelos criadores, indo do folk ao alt-country, com um
pé no blues e no rock e sem medo de soar pop aqui ou acolá.
“New Multitudes” é o tipo de álbum que prende a atenção do ouvinte
por completo. Seja pelo encanto das melodias ou pelas letras bem construídas. Uma
elegante homenagem a Woody Guthrie que está no mesmo nível da já citada série “Mermaid
Avenue”, só que com lados um pouco mais escuros. Com isso, o legado fundamental
daquele que dizia que seu violão era “uma máquina de matar fascistas”, se
prolonga e também se amplia para novos públicos, novas terras prometidas, novas
multidões.