sexta-feira, 13 de julho de 2012

"Os Imperfeccionistas" - Tom Rachman


Anos 50. Um milionário resolve por capricho gastar uma parte da fortuna para abrir um jornal. O ambicioso projeto terá sede em Roma na Itália e se espalhará por todo o mundo em língua inglesa, adotando como foco a excelência e a credibilidade. Esse é o mote inicial que conduz a trama de “Os Imperfeccionistas” do escritor inglês Tom Rachman, que ganhou edição nacional no ano passado pela Editora Record com 384 páginas e tradução de Flávia Carneiro Anderson.

Os capítulos do livro são dedicados individualmente a um personagem do jornal, indo do chefe de redação até a diretoria. São 11 pessoas que têm um trecho da vida contado durante os anos de 2006 e 2007, fase em que o livro se desenvolve. Entre esses capítulos existem outros menores, onde os bastidores da criação do jornal aparecem e indicam não somente o processo árduo de continuidade, como também os reais motivos por trás de uma empreitada tão arriscada.

Tom Rachman já foi correspondente internacional em vários lugares, como também editor, o que lhe garante domínio para escrever sobre o momento que impulsiona a obra. Os jornais estão à beira da falência e sobreviver sem olhar para o mundo virtual é impossível. Aliás, vencer olhando para o mundo virtual também é bem difícil. Os tempos são outros e se reinventar é preciso, além de ser vital para que ideias continuem sendo expressas e tenham o devido retorno financeiro.

Essa reinvenção é justamente o que não ocorre no jornal em Roma. Sem site na internet e sem colaboradores capazes espalhados pelo mundo, a ladainha corporativa de redução de custos e corte de pessoal paira sobre todos. A tiragem despencou para a metade do que já alcançou um dia e a almejada credibilidade está sendo arrancada com erros grosseiros de escrita e matérias sem inspiração. No meio desse tiroteio silencioso estão os funcionários, a mola mestre do negócio.

É em cima dos funcionários que “Os Imperfeccionistas” se expande. Amarrando os dramas pessoais vividos por cada um com a situação profissional, Tom Rachman cunha um panorama de desilusão e desgosto com a vida, mesmo que em alguns casos isso esteja encoberto por ambições profissionais ou simples desinteresse. Não há felicidade no livro. Esse é um artigo em falta. As conquistas que ocasionalmente aparecem são motivadas por algum desastre ou desatino.

De modo geral a trama é interessante e prende a atenção. O autor correlaciona todos os fatos e personagens deixando poucas arestas a aparar. Em passagens como a da leitora Ornella de Monterecchi ou do correspondente em Paris, Lloyd Burko, “Os Imperfeccionistas” alcança um patamar realmente elevado ao mostrar que a vida é implacável ao passar, por mais que se busquem artifícios para ocultar. O jornal pena para aprender essa máxima, assim como as pessoas envolvidas.

Nota: 8,5

Site do autor: http://tomrachman.com

domingo, 1 de julho de 2012

"Deus da Carnificina" - 2012


Um parque é mostrado de longe, inicialmente sem muita relevância. Nele, algumas crianças andam bem próximas e uma pequena desavença tem início. Não sabemos quais são as palavras ditas na discussão e muito menos o motivo dela ocorrer, mas parecem ser suficientes para que uma dessas crianças arremesse um pedaço de pau com força na cara de outro jovem. É assim o princípio de “Deus da Carnificina”, trabalho de Roman Polanski do ano passado que estreia agora no Brasil.

A cena seguinte já leva a um quarto onde quatro adultos conversam calmamente enquanto digitam um comunicado sobre o ocorrido no parque. Na continuação do filme, percebe-se que essas pessoas são na verdade os pais dos garotos da desordem. Do lado do agredido estão os Longstreet, interpretados por Jodie Foster e John C. Reilly e da parte do agressor vemos o casal Cowan, responsabilidade de Kate Winslet e Christoph Waltz. Como pano de fundo disso temos uma conversa moderada e tranquila.

“Deus da Carnificina” é uma adaptação da laureada peça de teatro da francesa Yasmina Reza, que assina o roteiro em parceria com Roman Polanski. O ambiente teatral perdura sobre toda a duração do longa, que utiliza basicamente a sala de estar para desenvolver sua trama. Esse clima não exige tanto do diretor no que tange a malabarismos e efeitos de câmera, mas por outro lado impetra aos atores uma responsabilidade elevada, assim como um roteiro baseado em um nível elevado de exigência.

No que concerne a direção, ela surge correta e nada além disso. Em certas passagens, inclusive, parece que Polanski está se contendo o máximo que pode para que o clima seja mantido. O roteiro, por sua vez, é cirúrgico ao proporcionar que cada personagem seja o foco durante uma etapa e revele um pouco da sua personalidade e ideias. Além disso, insere de modo gradual uma tensão que cresce até o ponto de explodir totalmente, utilizando o drama da situação em uma pretensão quase cômica.

O maior destaque, no entanto, fica com os atores. Jodie Foster é uma mulher cheia de preocupação com o mundo e repleta de ideologias e cultura. John C. Reilly é o comparsa que tem uma vida digna do americano médio e aparenta bons modos. Kate Winslet é a mãe moderna que ao mesmo tempo em que se inquieta com as decisões do filho trabalha com investimentos. E Christoph Waltz de “Bastardo Inglórios” é o melhor de todos, excelente no papel de um advogado sem paciência alguma.

É apoiado nessas atuações, que “Deus Da Carnificina” oferece seus melhores resultados. Do começo suavizado e cheio de razão, a trama se direciona para uma lavagem de roupa suja entre os casais, além de uma via de escape para dar vazão a todos os problemas que estão inerentes as suas vidas. Transformando os pais em tão crianças quanto os filhos quando seus calos são pisados, Roman Polanski faz um trabalho onde a aparência é apenas uma fina casca que esconde todos os males do mundo.

Nota: 7,5

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Assista ao trailer:

sábado, 30 de junho de 2012

"Fracasso de Público - Adeus" - Alex Robinson


“Muitas amizades, se chegam ao ponto em que terminam, não terminam em terremoto, mas em erosão. O tempo que passavam juntos, que normalmente você vê como algo natural, passa a ser algo que precisa ser agendado. Lentamente, você percebe que a intimidade que costumavam compartilhar se perdeu em algum lugar. Cada vez mais, só se fala do passado.”

O trecho acima é de Ed Velásquez em “Fracasso de Público - Adeus”, as últimas 204 páginas que a Gal Editora utiliza agora em 2012 para publicar a premiada história de Alex Robinson, que começou a ser desenhada e escrita quando ele tinha seus 20 e poucos anos nos Estados Unidos. O nome original é “Office Box Poison” e teve início na pequena editora Antarctic Press, para depois surgir como encadernado pelas mãos da Top Shelf.

Foi quando saiu pela Top Shelf que a história alcançou reconhecimento, prêmios e status. O crítico Matt Singer da Village Voice disparou que o autor era “o Robert Altman dos quadrinhos” e não é raro ver comparações com séries como Seinfield ou Friends. Mesmo dentro do exagero que toda comparação pode trazer embutida quando é proclamada, nesse caso específico até que isso não ocorre tanto, pois o trabalho é realmente bem singular.

Alex Robinson criou uma dezena de jovens adultos que em um determinado período da vida (semanas, meses, anos) se relacionam com amizade, amor e, claro, sentimentos menos nobres como desprezo e ódio. Esses personagens ganharam experiências do próprio autor, mas também de um mundo que durante os anos 90 sofreu a remarcação de alguns valores e a transformação crescente da maneira com que os relacionamentos se sustentavam.

Em “Adeus” as dúvidas sobre a vida que se quer levar e o caminho que é necessário ser escolhido não se extinguem. Pelo contrário, são majoradas com outras dúvidas mais urgentes ainda, naquilo que chamamos de crescimento. Mesmo Irving Flavor, o azedo e velho escritor que busca reconhecimento pela criação de um herói de sucesso, está cada vez mais em uma encruzilhada que não tem o poder de comandar, apenas de sucumbir.

Depois de “Heróis Mascarados e Amigos Encrencados” de 2009 e “Desencontro de Titãs” de 2010, a Gal Editora proporciona a chance de ver como o mundo tratou o futuro de Sherman, Ed, Jane, Stephen, Dorothy e os demais personagens que se envolveram no nosso dia a dia. Seus problemas e confusões são apenas reais e cotidianos, mas carregam algo de especial consigo, e por esse algo a mais o gosto que fica é de grande saudade.

Nota: 9,0


Mais sobre “Fracasso de Público” no blog, aqui.

Assista a um vídeo de promoção do álbum:


sexta-feira, 29 de junho de 2012

"O Festim dos Corvos - As Crônicas de Gelo e Fogo - Livro Quatro" - George R.R. Martin


Quando chegava ao fim as quase 900 páginas de “A Tormenta de Espadas”, o terceiro volume das crônicas de gelo e fogo do escritor George R. R. Martin, o leitor tinha no seu âmago uma mescla de assombro e expectativa. A primeira dessas sensações residia no rumo que a trama havia tomado, principalmente pela opção de se embrenhar cada vez mais em sujeiras, traições e maldades diversas. Já a segunda, passava pelo que viria a se aprontar no quarto livro da série, onde definitivamente não deveria haver limites.

Esse livro seguinte da série, chamado “O Festim dos Corvos”, foi publicado originalmente no exterior em 2005 e ganhou edição nacional no começo desse ano pela Editora Leya, com tradução de Jorge Candeias. Nas 644 páginas da obra, George R. R. Martin concentra seus esforços mais na capital de Westeros, Porto Real. Como escreve logo nas primeiras páginas, essa opção foi necessária, pois o volume imaginado para esse próximo passo estava demasiadamente grande e não tinha como ganhar corpo físico.

Sendo assim, personagens fortes como Jon Snow e Stannis Baratheon, assim como a mãe dos dragões Daenerys Targaryen, ficam praticamente sumidos, aparecendo somente em citações ou muito raramente em poucas passagens. Na contramão disso, as casas das dinastias Martell, Tyrell e Greyjoy ganham mais destaque e tem seus segredos e alianças revelados, principalmente os Greyjoy das Ilhas de Ferro, que precisam encontrar um novo Rei enquanto disputam com a ferocidade costumeira esse título.

Ao reunir suas energias em Porto Real, olhando mais para as maquinações da Rainha Regente Cersei Lannister dentro de sua quebradiça corte, “O Festim dos Corvos” vai aquém das expectativas e não consegue superar o seu antecessor, parando assim a crescente que os livros da série obtinham a cada volume. A sujeira e a falsidade ainda estão presentes, mas ganham tons mais de novela mexicana do que da rispidez anterior, com uma quantidade bem pequena de diálogos espirituosos dos envolvidos.

Os caminhos indicados ostentam uma nova conjuntura para o final dos pretensos sete volumes totais, porém não são suficientes para agradar como anteriormente. Há de se considerar, no entanto, que esses fatos devem ser analisados em conjunto com o quinto volume “A Dança dos Dragões” com lançamento previsto para esse mês de junho, pois ele se passará na mesma ordem cronológica. Sobra então esperar que Jon Snow e Daenerys Targayen devolvam o alto nível que “O Festim dos Corvos” não conseguiu manter.

Nota: 6,0

Site oficial do autor: http://georgerrmartin.com

O site da Editora Leya disponibiliza um trecho para leitura, aqui                                                           

terça-feira, 22 de maio de 2012

Santos Jazz Festival - 14 a 17 de Junho de 2012


Salve, salve minha gente amiga...

Eis uma bela pedida para quem está no estado de São Paulo entre 14 e 17 de junho. Vai rolar o “Santos Jazz Festival” na cidade de Santos, com programação gratuita e grandes nomes do gênero. Hermeto Pascoal será o patrono da 1ª edição.

Leia mais:

“Com o objetivo de democratizar o acesso à música de qualidade e estabelecer o município de Santos como referência no fomento musical, será realizado, de 14 a 17 de junho, o 1º Santos Jazz Festival (www.santosjazzfestival.com.br). Trata-se do primeiro grande festival de jazz do litoral paulista, apoiado pela Lei Rouanet. Serão vinte apresentações, mais oficinas, todas gratuitas, em ruas e boulevares do Centro Histórico, Bolsa Oficial do Café e teatros Coliseu e Guarany.

Para começar com o pé direito, o festival terá como patrono Hermeto Pascoal. Celebrado internacionalmente, o compositor, arranjador e instrumentista de 76 anos fará o show de abertura, ao lado da Orquestra Sinfônica de Santos e da Jazz Big Band. Na programação, constam outros nomes reconhecidos nacionalmente e fora do Brasil, a exemplo de Yamandu Costa, Heraldo do Monte, Arismar Espírito Santo, André Christovam e Delicatessen.”

O Santos Jazz Festival também está nas redes sociais. Acompanhe:


Então, fique atento. Se tiver pela região, não perca este evento.

Paz sempre!

domingo, 20 de maio de 2012

Séries: "Preamar"


A HBO cada vez mais se consolida no mercado norte-americano de geração de séries, com um aproveitamento qualitativo elevadíssimo. Como política própria, a empresa também busca produtos, em parceria ou não, que a identifiquem nos mercados explorados, como é o caso da HBO América Latina. Essa política já gerou bons frutos no Brasil com “Filhos do Carnaval” e “Alice” e se prolongou em outros países como México, Argentina e Chile.  

“Preamar” é a nova aposta do grupo e estreou dia 06 de maio, com exibições semanais às 21:00hs nos domingos. Criada por Estevão Ciavatta, Patrícia Andrade e William Vorhees, tem produção da Pindorama Filmes e roteiro assinado pelos criadores em conjunto com Jô Hallack. Na série trata-se principalmente sobre a derrocada de uma família bem-sucedida do Rio de Janeiro e a transformação que se faz imperativa para todos que estão envolvidos.

Tudo começa com João Ricardo Velasco (Leonardo Franco), um sócio de banco de investimentos que ostenta uma vida confortável e cercada por luxos. Reside em um prédio na Avenida Viera Souto em Ipanema, de frente para o mar e de todos os encantos da cidade maravilhosa. A família é composta pela esposa Isabel (a ótima Paloma Riani) e os filhos Fred (Hugo Bonemer) e Manu (Jessika Alves), com os quais o pai tem pouco contato real.

Em virtude de uma grande jogada financeira feita de modo equivocado, João Ricardo é “convidado” a sair do Banco e têm os bens confiscados, exceção feita ao prédio onde mora que está no nome da esposa. Sem muitas explicações dessa jogada, a trama coloca o patriarca pela primeira vez em muito tempo na rotina da família e ele passa a perceber que não conhece quase nada do funcionamento daquela casa, assim como dos desejos e aflições dos seus habitantes.

Sem saber como repassar a notícia, ele inventa uma desculpa qualquer e se prepara para manter as aparências e pensar nos dias vindouros. É quando percebe o grande mercado informal que se desenrola praticamente na porta da sua casa. Ajudado pelo servente Biu (Sóstenes Vidal), resolve aplicar seus conhecimentos para esses negócios e entra em contato com o dono do pedaço chamado Xerife (o experiente Ricardo Bonfim) e seu auxiliar Wallace (o cantor Mumuzinho).

“Preamar” apresenta uma jornada de descobrimento e aproveita para surfar um pouco nas ondas dos mercados de investimentos, como também tratar de relações pessoais, ambições e orgulho. No recheio disso coloca drogas, prostituição e transações questionáveis. Com um elenco composto na maioria por nomes desconhecidos, busca se encontrar em atuações ainda cambaleantes, mas com potencial de reverter esse quadro através da história, enquanto olha as belezas da cidade que lhe serve de abrigo.

Nota: 6,5


Assista a um vídeo sobre a série:

sexta-feira, 18 de maio de 2012

"Sunset Park" - Paul Auster


É comum que a história de um livro ou de um filme encontre o personagem principal em algum ponto de deslocamento, de mudança. Nesse período, igualmente é comum esse personagem relembrar ou ter narrada a sua vida passada, a fim de justificar os atos atuais e assim legitimar ações e sentimentos. E é assim que se encontra Miles Heller em “Sunset Park”, livro de Paul Auster que a Companhia das Letras publica agora com 280 páginas e tradução de Rubens Figueiredo.

Atualmente com 65 anos e mais de uma dezena de livros publicados, Paul Auster escolhe nesse novo romance passear pelo condado do Brooklyn em Nova York, um lugar que conhece tão bem. O nome vem de um bairro da região que abriga um número acentuado de imigrantes e que sofreu como o restante do país com a crise imobiliária e financeira de 2008, ano onde a trama realmente se desenvolve mais. A crise, aliás, é uma coadjuvante importante para o contexto geral.

“Num mundo que desmorona, num mundo de ruína econômica e de agruras implacáveis”, como o próprio autor escreve logo no princípio, as pessoas tentam se equilibrar e seguir adiante. Miles Heller entra mais de cabeça nesse mundo quando depois de mais de sete anos sem dar notícias aos pais, acaba retornando a Nova York fugindo de dramas vinculados a paixão que começou a dar sentido novamente a sua amortecida vida, uma jovem garota de nome Pilar.

Essa fuga o direciona para uma casa desbotada e estilhaçada que passa a ocupar junto com outras três pessoas. A invasão tem como cúmplices o velho amigo Bing Nathan, a única pessoa da antiga vida que manteve contato durante os anos, e mais Alice Bergstrom, uma idealista em busca do doutorado, e Elle Brice, uma pintora amargurada que trabalha como corretora de imóveis. Do outro lado estão os pais divorciados, um respeitado proprietário de editora e uma atriz de sucesso.

Em “Sunset Park” nos deparamos com temas tão comuns a Paul Auster como a solidão das pessoas, no entanto, de modo menos mascarado que em outras oportunidades. Os personagens são solitários em sua maioria, embora estejam em alguns casos envolvidos com várias pessoas. Esse sentimento de isolamento aparece por várias vertentes, sejam elas sociais ou profissionais e se entrelaçam com culpas e uma permanente tensão sexual se escondendo atrás das cortinas.

Desvencilhando individualmente cada indivíduo, o autor cria um território próprio para cada um mostrar suas dores e complicações, sem se esquecer de contrabalançar com a trama coletiva. Essa separação rende ocasiões sensacionais, como em um capítulo dedicado a Alice Bergstrom onde as dúvidas do relacionamento afetivo forjam uma conexão com o filme “Os Melhores Anos de Nossas Vidas”, um drama do pós-guerra dirigido por William Wyler em 1946.

Mesmo sem ser brilhante, Paul Auster assume em “Sunset Park” que o conceito conhecido como América está esgotado e cutuca o governo com poucas, mas ótimas, frases. Além disso, analisa uma geração que sente necessidade constante de se comunicar sem que isso necessariamente represente acréscimo na vida de alguém. Para a maior parte dos personagens os dias dourados ficaram para trás e os arrependimentos pelos atos praticados não são suficientes para retomar o futuro que um dia fora sonhado.

Nota: 7,5



Textos relacionados:
- Literatura: "A Trilogia de Nova York" - Paul Auster


A Companhia das Letras liberou um pequeno trecho do livro gratuitamente. Aqui: http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/12941.pdf

terça-feira, 15 de maio de 2012

"Blunderbuss" - Jack White - 2012


Entre aquelas pessoas que produzem algo de esplêndido na vida, algumas atingem essa façanha logo nas primeiras investidas, outras demoram a vida toda e só conseguem obter esse resultado já nos últimos anos de existência. Contudo existe um terceiro grupo. Esse grupo é composto por indivíduos que gradualmente crescem a cada ano, a cada nova empreitada, a cada novo projeto e que vez ou outra preenchem os espaços com acessos de brilhantismo até chegar ao ápice tão desejado. Jack White faz parte desse time.

Prestes a completar 37 anos, esse norte-americano nascido na industrial cidade de Detroit no estado do Michigan, apareceu verdadeiramente para o mundo da música em 1999 com o registro de estreia do White Stripes. Uma década de discos depois alcançou o reconhecimento dentro do mundo alternativo e fora dele ganhou respeito de nomes de peso do rock internacional como retratado no documentário “A Todo Volume” de 2009, estrelado por ele em conjunto com Jimmy Page (Led Zeppelin) e The Edge (U2).

Sempre inquieto, Jack White encabeçou outros projetos (The Racounters/The Dead Weather), montou uma gravadora e começou a produzir no atacado. Com o anunciado fim do White Stripes ano passado, chegou então a hora de um trabalho solo. “Blunderbuss” tem lançamento pela Third Man Records e em pouco mais de 40 minutos mostra a mesma essência anterior, porém com leves mudanças na apresentação, como também um preenchimento mais completo, onde todos os instrumentos (tocados por ele mesmo) aparecem.

“Blunderbuss” não evidencia o artista andando por outros caminhos. As preferências batem ponto com frequência como o blues, country, rock setentista, garage rock, folk e bluegrass, estes dois últimos com uma participação maior que outrora, mas nada tão incisivo. A mudança chega por outro viés. Como o escritor C.S. Lewis disse: “Mera mudança não é crescimento. Crescimento é a síntese de mudança e continuidade, e onde não há continuidade não há crescimento”, o que cai como uma luva para Jack White nesse momento.

As 13 faixas do álbum refletem claramente a pequena mutação que Nashville exerce atualmente sobre suas composições e não fogem, obviamente, de apresentar letras pessoais que tratam tanto do final da ex-banda, quanto do casamento com a modelo Karen Elson que igualmente se foi em 2011. Com pianos e violões mais presentes, Jack White proporciona ao ouvinte uma pequena jornada pelos estilos que admira, indo desde as repetições da abertura de “Missing Pieces” até as variações finais de “Take Me with You When You Go”.

O meio desses dois pólos é preenchido por faixas que remetem a antiga banda como “Sixteen Saltines” e “Freedom at 21”, essa com um riff simples e marcante. Se estende por “Love Interruption” que remete a fase “III” do Led Zeppelin e apresenta uma das letras mais significativas, com o amor sendo requerido de modo quase que desesperado. Os anos 70 também estão vivos na balada da faixa-título e na absolutamente vintage “On and On and On” que apresenta um riff notável em cima da bela melodia que lembra Paul McCartney.

As baladas comparecem em número relevante e vão desde o piano com ecos de Tom Waits de “Hypocritical Kiss”, onde Jack White busca esquecer o que passou na letra, até a experimental “I Guess I Should Go to Sleep”, com alguns interessantes toques de jazz. Para compensar na energia surgem do outro lado coisas como “I'm Shakin'”, um rockabilly dos anos 50 clássico, porém sujo, com direito a palmas, backing vocals e guitarras distorcidas, além do pop grudento com raízes tradicionais de “Hip (Eponymous) Poor Boy”.

“Blunderbuss” é um disco que mostra um artista no apogeu da sua carreira profissional. Seguro e abarcando todas as etapas de concepção, partindo da criação e chegando até a distribuição, mostra que é possível se adequar aos tempos modernos usando bases mais antigas. Almeja (e consegue) revigorar o rock atual privilegiando sonoridades passadas e corresponde as expectativas, corroborando a assertiva de que grandes realizações sempre acontecem em uma estrutura de grandes expectativas. Uma assertiva que Jack White tirou de letra.

Nota: 9,5

Site oficial: http://jackwhiteiii.com

Textos relacionados:

Assista “Love Interruption” ao vivo no programa Saturday Night Live: 

domingo, 13 de maio de 2012

"Kind Of Blue - Miles Davis e o álbum que reinventou a música moderna" - Richard Williams


Muito provavelmente “Kind Of Blue” é o disco de jazz mais conhecido de todos os tempos. Com ele, Miles Davis recondicionou o estilo e a própria carreira e desde que foi lançado nos Estados Unidos em 17 de agosto de 1959 recebeu reedições diversas, além de textos e livros que permeiam sua concepção como o ótimo “Kind Of Blue - A história da obra-prima de Miles Davis” de Ashley Kahn que a Editora Barracuda lançou por aqui em 2007.

Em “Kind Of Blue - Miles Davis e o álbum que reinventou a música moderna”, o inglês Richard Williams opta por outro caminho. Antes de falar sobre o álbum, tenta estabelecer paradigmas sobre o antes e conjecturas sobre o depois. Visa não somente explanar como o músico foi se dirigindo ao momento da criação que resultou no registro, mas também tratar dos efeitos que essa obra exerceu na época, assim como posteriormente foi demonstrando a cada ano.

Com 288 páginas, tradução de Fal Azevedo e publicação pela Casa da Palavra em 2011, o livro atravessa os momentos anteriores ao “Kind Of Blue” como a fase dentro do bebop, a primeira turnê pela Europa, o envolvimento com a heroína e o encarceramento na Riker’s Island. Ao desembarcar em “Miles Ahead” de 1957, mostra uma mudança significativa quando ocorre a troca (nesse disco) do trompete em favor do flugelhorn, pavimentando assim importantes estradas.

Na busca por uma nova forma de abordar a harmonia, Davis foi propositalmente atenuando o ritmo e desacelerando o estilo de tocar em uma época onde era crescente o interesse pela arte em geral, se colocando assim na vanguarda do período. E no porão de uma igreja ortodoxa armênia com reverberação de três segundos convertida em estúdio em Nova York, gravou um álbum onde as vozes nunca se erguem e o timbre de cada instrumento é unicamente realçado.

Richard Williams então de modo técnico e extensivo mostra como as cinco peças foram previamente construídas na cabeça de Davis e depois executadas por um timaço que contava com Julian “Cannonball” Adderley no saxofone alto, John Coltrane no saxofone tenor, Bill Evans no piano, Paul Chambers no contrabaixo e Jimmy Cobb na bateria, sendo que em “Freddie Freeloader” é Wynton Kelly quem assume a missão de conduzir o piano durante a faixa.

Usando a palavra “azul” como parâmetro, o autor mergulha bastante em direção a correlações e explicações, o que em parte do livro parece mais um exercício de conhecimento, do que propriamente didático ou narrativo. Organizados como se fossem ensaios, os capítulos se sobressaem em “O Momento Azul”, onde versa sobre o disco em si, “Azul Escuro” onde usa o Velvet Underground como extensão de influência e “Código Azul”, onde faz o mesmo com Brian Eno.

Aliás, na viagem de influências que o autor busca alcançar partindo de “Kind Of Blue” é que a obra fica mais interessante e se descentraliza em uma lista que mesmo sendo diversa, aparece repleta de boas razões para o entendimento. A paixão por Miles Davis fica evidente no texto, o que acaba atrapalhando um pouco e resulta em ligações às vezes imprecisas e outras magistrais como quando utiliza o existencialismo em relação à obra dos cineastas italianos Fellini e Antonioni.

Com um conhecimento evidente sobre o tema, Richard Williams explora a música de “Kind Of Blue” e o poder que este álbum exerceu nas camadas mais profundas da música, baseado em uma ampla lista de referências que demonstra no final. Adotando uma linguagem especializada que às vezes se volta contra si, não se abstêm em traçar seus panoramas usando levemente os mesmos moldes experimentais que esse belo de registro de 1959 se baseou e fez história.

Nota: 7,0

Site oficial sobre o músico: http://www.milesdavis.com

Assista a uma apresentação ao vivo de “So What” que abre o “Kind Of Blue”:

quinta-feira, 10 de maio de 2012

"Inquietos" - 2011


“Two Of Us” dos Beatles toca ao fundo enquanto um jovem vestido de terno passa um giz branco contornando o corpo deitado na rua. A cena exibida sem pressa e que se alonga depois para a cidade faz o espectador se interessar logo de cara e é um bonito gol que o diretor Gus Van Sant marca na entrada de “Inquietos” (‘Restless’, no original). O filme do ano passado ganhou lançamento recentemente em DVD aqui no país.

Gus Van Sant vinha de um bom trabalho anterior (“Milk - A Voz da Igualdade” de 2008) e deixava expectativa para o que apresentaria na sequência. Tipo de diretor que pode facilmente ser tanto amado quanto odiado, preencheu a carreira com películas como “Drugstore Cowboy” de 1989 e “Gênio Indomável” de 1997, porém está devendo há algum tempo algo do mesmo nível (“Elefante” de 2003 é razoável e nada além).

E não é com “Inquietos” que ele paga essa dívida. No longa conhecemos Enoch Brae (o estreante Henry Hopper, filho do ator Dennis Hopper), o rapaz que passa giz em volta do corpo. Estranho e reservado possui como atividade principal frequentar velórios como penetra. Em um desses funerais encontra por acaso Annabel Cotton, a bela e competente Mia Wasikowska do “Alice No País das Maravilhas” de Tim Burton.

O caminho dos dois começa a se cruzar com frequência, seja por sorte ou por causa de uma pequena ajuda das partes, e não demora para que um relacionamento amigável se estabeleça. Os dois carregam dores próprias e uma relação bem particular com a morte e o convívio proporciona uma espécie de alívio para essas dores. E a partir disso que o roteiro de Jason Lew já escancara e anuncia a direção básica pela qual o filme será conduzido.

Nesse escancaramento é que “Inquietos” se perde e não consegue se firmar. Nos primeiros 20, 25 minutos iniciais já dá para desenhar o futuro dos personagens com grande exatidão. Já que a surpresa foi logo descartada do roteiro de opções, a intensidade com que a história se desenvolve passa a ser o principal e nesta, apesar de algumas cenas realmente interessantes, Gus Van Sant também não consegue inserir aquilo que almejava.

“Inquietos” tem uma eficiente trilha sonora nas mãos do grande Danny Elfman e traz nomes como o diretor Ron Howard e a atriz Bryce Dallas Howard na produção, mas é um projeto que fracassa nos seus objetivos. Ao escolher a juventude para tratar de temas complicados como mortalidade e medo, Gus Van Sant não brilha e mergulha o seu mais recente trabalho no abarrotado mar de razoabilidade que se habituou a visitar.

Nota: 5,5

Assista ao trailer: