sábado, 11 de janeiro de 2014

"O Verão da Minha Vida" - 2013

Crescer é uma tarefa complicada, mesmo levando em consideração as alegrias que a adolescência pode proporcionar. Não é fácil. Ainda mais se você tem 14 anos, é introspectivo e calado, seus pais se separaram e o namorado da sua mãe é um completo idiota. Identificar um lugar próprio no mundo se torna uma incumbência árdua. “O Verão da Minha Vida” (“The Way Way Back” é o título original) trata justamente desse período e marca a estreia da dupla de atores Jim Rash e Nat Faxon na direção.

A dupla que atuou no filme “Os Descendentes” de Alexander Payne e ajudou o diretor a construir o roteiro dessa obra, resolve se aventurar pela direção e também assina a criação da história (e aparecem em papeis secundários) que versa sobre desenvolvimento, descobertas e as agruras da juventude. O tema, meio gasto, mas nunca batido, aparece regularmente em produções pelo mundo, então sair do marasmo e da obviedade talvez seja o principal desafio quando se escolhe abordá-lo.

No longa, Liam James (“2012”) interpreta Duncan, o garoto exposto no primeiro parágrafo. Toni Collette (“Pequena Miss Sunshine”) vive Pam, a mãe dele, e Steve Carell é o namorado e pretenso padrasto, surpreendendo ao fugir dos papéis engraçados e de bom moço que costuma fazer, como em “O Virgem de 40 Anos”. Aqui ele é um cara também separado, com uma filha adolescente, e repleto de concepções certeiras sobre a vida que se enrola para levar, com espasmos que transitam entre a estupidez e o mau caratismo.

Quando essa nova família resolve passar o verão em um litoral, é que Duncan realmente se vê perdido. Não consegue se sobressair e acaba sucumbido a uma situação completamente abjeta. A mãe tenta fazer com que as coisas funcionem, mas o resultado final é pífio. A fuga dessa situação (praxe, nesse tipo de enredo) vem através então de dois pólos. Com a jovem vizinha Susanna (AnnaSophia Robb de “Ponte Para Terabítia”) e o descontraído Owen (Sam Rockwell de “Lunar” e “O Guia do Mochileiro das Galáxias”).

O Owen de Sam Rockwell é gerente de um parque aquático local e se consolida como um dos destaques do trabalho ao lado de Steve Carell. O ator cria um personagem que flerta com a loucura descompromissada, ao mesmo tempo em que serve de contraponto paternal para Duncan, exibindo alguns conselhos e funcionando como o amigo que o garoto não tem. O bom elenco ainda tem nomes como Maya Rundolph e Amanda Peet, todos bem conduzidos pelos diretores e o roteiro simples, porém eficiente.

Em “O Verão da Minha Vida”, Jim Rash e Nat Faxon fogem quase que totalmente da obviedade em um filme singelo e homogêneo, mesclando bem as porções de humor e drama sobre a adolescência, esse tempo de privações e anseios, de sonhos e agonias pessoais. Um tempo de crescimento e consolidação de personalidade que é mais ou menos como frisou Kevin Arnold, personagem principal da clássica série “Anos Incríveis”: “Crescer acontece muito depressa. Um dia você está de fraldas e no outro, já está indo embora”.

P.S: O filme está disponível em DVD e em plataformas online como o Netflix.

Nota: 7,5

Assista ao trailer legendado: 
    

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

"Rush - No Limite da Emoção" - 2013

Houve uma época em que a Fórmula 1 exalava charme, magnetismo e fascínio. Bem diferente dos anos de domínio de Michael Schumacher ou agora de Sebastian Vettel. Até a metade dos anos 90 isso foi quase uma constante, com emoção abundante e duelos sensacionais. Tempos de Jack Brabham x Jim Clark, Nelson Piquet x Nigel Mansell, Ayrton Senna x Alain Prost e James Hunt x Niki Lauda. Esta última rivalidade, entre um britânico e um austríaco, é o tema de “Rush” do diretor Ron Howard.

O filme lançado aqui ano passado ganhou o adendo “No Limite da Emoção” no título e é baseado no antagonismo entre os pilotos desde os tempos de Fórmula 3. Ambos, com histórias de vida e obstinação parecidas, mas imensamente distintos em personalidade. James Hunt (interpretado por Chris Hemsworth, o Thor dos recentes filmes da Marvel) fazia o estilo playboy, talentoso e inconsequente, e Niki Lauda (Daniel Brühl de “Adeus, Lenin!”) era o inverso disso. Caseiro, concentrado e extremamente profissional.

O diretor Ron Howard, vencedor do Oscar com “Uma Mente Brilhante” de 2001, conta com o roteiro de Peter Morgan e reedita a parceira do ótimo “Frost/Nixon” de 2008. Um grande acerto, pois o roteiro e o modo que os personagens são divididos com seus dramas pessoais, fica apenas um pouco abaixo do maior destaque do longa, que são as cenas das corridas. Extremamente bem filmadas repassam ao espectador a carga necessária de adrenalina, sem se estender por longos minutos.

“Rush – No Limite da Emoção” foca nessa hostilidade dos anos 70, mas principalmente nos anos de 1975 e 1976. O campeão em 1974 havia sido o brasileiro Emerson Fittipaldi e no ano seguinte Niki Lauda venceria pela Ferrari o primeiro dos seus três títulos mundiais. No ano seguinte, por conta da saída de Fittipaldi da McLaren para a escuderia brasileira Coopersucar (história que renderia um ótimo filme), James Hunt vai para essa vaga aberta e passa a disputar o campeonato de 1976 em igualdade de condições.

Essa temporada de 1976, não por acaso comentada até hoje pelos amantes da categoria, é pautada por corridas incríveis dos dois pilotos, além de acidentes pesados como o que o próprio Lauda sofreu e carregou as marcas durante toda a vida. É nesse período específico do filme que Ron Howard exibe vários acertos e inclusive consegue conter (mas sem nunca deixar de apresentar) a característica intrínseca de transformar demais seus personagens em heróis, distanciando a película da realidade.

“Rush – No Limite da Emoção” foca no romantismo perdido da Fórmula 1, romantismo que ficou para trás devido a vários quesitos como a maior segurança dos pilotos (o que evidentemente, era necessário), a influência marcante da tecnologia e o aumento da disparidade do poderio financeiro das equipes. E é focando nessa época que se configura em uma estupenda narrativa de superação de limites tracejada por ação, conquistas e dramas e construída por duas personalidades possantes e decididas.

Nota: 9,0

Textos relacionados no blog:
- Cinema: “Frost/Nixon”.

Assista a um trailer legendado:

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

E que venha 2014!


Salve, salve minha gente amiga,

Mais um ano chega ao fim e deixa para trás, como de costume, bons momentos para a cultura em geral. Tivemos trabalhos competentes na música, cinema, literatura, quadrinhos e televisão (no que concerne a séries). Como é o meu desejo habitual, que no ano que bate na porta esperando para entrar, isso aconteça em uma quantidade maior, afinal coisas boas são sempre bem vindas.

E sempre fazem bem.

2013 foi um ano complicado para o Coisapop. Foi um ano em que o trabalho impossibilitou uma dedicação maior (temos que pagar as contas, não tem muito jeito) e também bateu certa vontade de deixar tudo para lá, algo inédito desde que criei o blog lá pelos idos de 2005. Normal. Então, 2014 será um ano de algumas mudanças por aqui, se tudo correr bem. Mudar é preciso. Estou trabalhando nisso. Porém, mesmo escrevendo muito menos do que estou acostumado em 2013, para minha surpresa os números de acesso se mantiveram no mesmo patamar do ano anterior.

Por isso deixo aqui o meu muito obrigado a todos que passaram aqui, concordando ou não com o teor dos textos. Aqueles que dedicaram uma parte do tempo para entrar no blog, agradeço de coração. Um abraço virtual em todos os leitores, amigos e colaboradores que fazem com que isso seja levado em frente dia a dia, apesar dos percalços e obrigações que a vida impõe.

Que neste último dia de 2013, possamos então repensar a vida, as nossas atitudes e o caminho que optamos em trilhar. Que as estradas que vamos pavimentar pela frente estejam repletas de realizações e alegrias e que ao construir essas novas estradas, nunca nos esqueçamos do compromisso único de fazer desse mundo um lugar melhor para as gerações futuras.

Isso é fundamental. E necessário acima de tudo.

Que em 2014 ano possamos honrar nossos sonhos como eles merecem.

E que venha um grande ano por aí.

Paz Sempre.

domingo, 29 de dezembro de 2013

"O Mordomo da Casa Branca" - 2013

Eugene Allen trabalhou na Casa Branca por 34 anos e atravessou oito administrações diferentes.  Natural do estado da Virginia começou a trabalhar na residência oficial e principal escritório do Presidente dos Estados Unidos em 1952 na época do governo de Harry S. Truman e por lá ficou até 1986 durante a gestão de Ronald Reagan. De lá presenciou como espectador privilegiado não só as mudanças na formatação do mundo, como a intensa luta dos negros por direitos civis plenos no país.

Allen era negro e foi na maioria do tempo em que serviu na Casa Branca, um mordomo. Sua história levou o jornalista Wil Haygood a escrever sobre o tema e foi baseado em um artigo dele chamado “A Butler Served by This Election” de 2008, que o diretor Lee Daniels resolveu fazer um filme sobre Allen. Baseado, na verdade, seria um exagero dizer. Como vemos em “O Mordomo da Casa Branca” que estreou nos cinemas do país nesse final de ano, a história serve mais como ponto de partida e leve inspiração.

Lee Daniels tem um grande filme na carreira. “Preciosa - Uma Lição de Esperança” de 2009 trata do racismo de maneira forte e sem coações sentimentalistas. Em “O Mordomo da Casa Branca”, o diretor ambiciona além de tratar do racismo, usar o ponto de vista do seu personagem principal para mostrar ao telespectador a transmutação de ideias e pensamentos durante os anos. No entanto, essa ambição é frustrada pelo fraco roteiro de Danny Strong e nos apelos sentimentalistas que dessa vez não conseguiu deixar de fora.

O Eugene Allen original é convertido para o ficcional Cecil Gaines e interpretado por um Forest Whitaker que na maioria do tempo parece perdido em forjar caras e trejeitos. No longa, ele sai da fazenda de algodão onde mora quando o pai é assassinado depois de questionar o estupro da mãe (Mariah Carey) por um dos donos. Uma senhora branca (Vanessa Redgrave) da fazenda resolve lhe acolher e ensinar como ser um mordomo, um “negro domesticado” como muitos se referem a esse tipo de emprego na época.

Quando chega para trabalhar na Casa Branca, Cecil Gaines já é casado com Gloria (Oprah Winfrey, surpreendentemente bem) e tem dois filhos, sendo que um vai na contramão da sua passividade e entra de cabeça na briga pelos direitos civis e contra os absurdos praticados. O restante do elenco inclui Cuba Gooding Jr. e Lenny Kravitz como amigos e nomes do quilate de Robin Willians, John Cusack, James Mardsen, Liev Schreiber e Alan Rickman interpretando presidentes americanos. Todos, igualmente perdidos como o ator principal.

Com uma ótima premissa inicial, Lee Daniels consegue não ir além disso em um filme piegas, superficial e sem intensidade. Ao transformar Eugene Allen no ficcional Cecil Gaines perde na credibilidade dos fatos e não consegue definir uma temática principal como guia para a trama. Além disso, consegue desperdiçar um elenco poderoso em atuações sem inspiração e desconexas, e enquanto procura prestar um depoimento pela luta dos negros nos USA, executa exatamente o oposto disso.

Nota: 5,5

Textos relacionados no blog:



Assista a um trailer legendado do filme:

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

"Os Livros da Magia" - Neil Gaiman

Em dezembro de 1990 o inglês Neil Gaiman ainda não gozava do prestígio de hoje em dia e nem tinha toda uma gama de superlativos relacionados aos seus trabalhos e obra. É verdade que “Sandman” já havia iniciado a ser publicado e pela sua extrema qualidade começava a chamar a atenção do mundo dos quadrinhos. Foi quando ele aceitou fazer para a DC Comics “Os Livros Da Magia”, uma minissérie dividida em quatro partes que se iniciou em dezembro de 1990 e terminou em março de 1991.

A série que já foi publicada no Brasil em diversos formatos e editoras ganhou sua edição “definitiva” no ano de 2013. A Panini condensou as quatro partes em um encadernado de luxo com 212 páginas, com tratamento rebuscado e extras contendo esboços originais de Neil Gaiman para o obra. O trabalho artístico de John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paulo Johnson, que se dividiram individualmente nos desenhos de cada episódio, aparecem com resplendor e mais impetuosos que em qualquer outra publicação anterior da série aqui.

Em “Os Livros da Magia”, Neil Gaiman usa uma boa parte do universo mágico da DC Comics, entre personagens mais conhecidos como Boston Brand (Desafiador), Zatanna, Dr. Destino e Espectro com coadjuvantes como Jason Blood, Félix Fausto e Senhor da Noite, além de fazer uma incursão pelo seu próprio universo de “Sandman”, entrando no reino do Sonhar e trazendo Caim e Abel, assim como Morpheus, personagem principal da série que mesmo tendo acabado em 1996, ganha cada dia mais fãs (ou devotos?).

O foco da história é o jovem Timothy Hunter que leva seus dias entre andar de skate e não fazer nada. Em um dia como qualquer outro ele é abordado por quatro figuras peculiares. Vingador Fantasma (também chamado de Estranho nessa época), John Constantine, Dr. Oculto e Mister IO, são essas figuras que explicam ao garoto que ele pode vir a se tornar o maior mago de todos os tempos. Mesmo não acreditando muito, ele embarca em uma jornada para conhecer um pouco o ambiente da magia que lhe falam.

A divisão do conhecimento vai por cada um dos guias e ultrapassa tempos, eras, mundos e dimensões, sempre com Gaiman fazendo referência a diversas outras coisas, sem esquecer de deixar na essência uma aventura de busca e conhecimento, uma história de formação. Contando a história usando as mais diversas prerrogativas e maneiras, insere uma sucessão de perigos e confusões, que bem ao seu estilo são decorados com medo e a ânsia de ir atrás de algo novo, uma dualidade tão explorada por ele posteriormente.

Depois de “Os Livros de Magia” era de se esperar que Timothy Hunter deslanchasse no universo da magia da DC, porém as coisas foram lentas ou por outros caminhos. Mesmo tendo chegado a permear alguns títulos alheios e até um próprio recentemente, é um personagem que merecia ser mais bem trabalhado, devido principalmente ao início primoroso concebido por Neil Gaiman.

Um início que mesmo agradando mais a quem já conhece o mundo mágico da DC, é um dos grandes trabalhos do seu autor, uma jornada repleta de nuances e magnificência.

Nota: 9,5

P.S: Existiu (e ainda existe) uma comparação entre Timothy Hunter e Harry Potter, já que as semelhanças visuais e de concepção são muitas e que J. K. Rowling criou seu bruxinho depois de “Os Livros da Magia”. No entanto, o próprio Neil Gaiman já afastou a possibilidade de um possível plágio. Mas...

Textos relacionados no blog:
- Literatura: “O Oceano no Fim doCaminho” – Neil Gaiman

Site oficial do autor: http://www.neilgaiman.com

Twitter do autor: http://twitter.com/neilhimself

domingo, 22 de dezembro de 2013

"Pavor Espaciar" - Gustavo Duarte

Chico Bento é possivelmente um dos personagens mais queridos do universo criado por Mauricio de Sousa, com poder suficiente até mesmo para rivalizar com o quarteto de ferro do artista composto pela Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali. Seu jeitão engraçado, caipira, simples, humilde e ingênuo arrebatou leitores no decorrer dos anos e mesmo nos nossos tempos em que o interior já é, na sua maioria, tão urbano quanto uma cidade de médio porte, ainda exerce certo fascínio.

Isto posto, o álbum estrelado por ele dentro do projeto do selo Graphic MSP, com distribuição pela Panini Comics, era cercado de alguma expectativa. Até porque o escolhido para criar a história que se enquadrasse na proposta de olhar os antigos personagens com outros olhos em uma quantidade maior de páginas era um acerto. Gustavo Duarte (de “Có!” e “Monstros!”) passou a infância, adolescência e boa parte da juventude em Bauru, no interior de São Paulo, conhecendo bem o ambiente em que o personagem é inserido.

Assim nasceu “Pavor Espaciar”, a terceira graphic novel da empreitada citada. Com 84 páginas, a trama é uma homenagem a histórias antigas dos anos 70 e 80. Nela, Chico Bento, seu primo Zé Lelé, o porco Torresmo e a galinha Giselda são deixados em casa vendo televisão, enquanto os pais de Chico dão uma saída para visitar um parente. O que eles não esperavam era que fossem também receber uma inesperada visita, uma visita de seres estranhos oriundos de algum planeta perdido no espaço.

Em quadrinhos grandes, com traço limpo, cores bem colocadas e uma inclinação constante para o exercício da expressão de movimento, Gustavo Duarte inventa uma aventura de rapto, busca, resgate e salvação com humor leve e sem maiores complicações. No entanto, apesar de palatável, “Pavor Espaciar” parece sem cor, sem sabor, sem energia. O autor que gosta pouco de diálogos nas suas obras, aqui até coloca falas para ditar ritmo, mas o resultado final fica bem abaixo do que esperado e chega a ser decepcionante.

A escolha do tema que une o cidadão do interior com o alienígena parece não ter sido a melhor, e mesmo com a inclusão de várias referências escondidas, Gustavo Duarte não faz com que ele consiga funcionar. E também, a sua maneira de trabalho que permite muito mais sensação de movimento do que a expressão por palavras, deixa de lado um dos pontos mais fortes do Chico Bento que são os diálogos que transitam entre a inocência e o despreparo, a simplicidade e a patetice. E essa ausência cobra o preço no final.

Nota: 5,5

Textos relacionados no blog:

- Quadrinhos: “AstronautaMagnetar” de Danilo Beyruth
- Quadrinhos: “Laços” de Vitor Cafaggi e Lu Caffagi

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

"A Roda do Tempo" - Livro 1 - "O Olho do Mundo" - Robert Jordan

O norte-americano de Carolina do Sul James Oliver Rigney Jr. faleceu aos 58 anos em 2007, mas pode-se afirmar com relativa certeza que esses anos não foram em vão. Ele lutou na guerra do Vietnã, formou-se em física no retorno e virou engenheiro nuclear da Marinha. Quando a paixão pela literatura falou mais alto, passou a se dedicar mais a isso criando a série “Fallon” sob o pseudônimo de Reagan O’Neal e sob outro pseudônimo (dessa vez, Robert Jordan) escreveu vários livros de “Conan, O Bárbaro”, assim como os 11 livros da série “A Roda do Tempo”, uma fantasia épica sucesso de público onde já foi publicada.

No Brasil, a série “A Roda Do Tempo”, é mais conhecida por fãs desse nicho de literatura ou por devotos de RPG’s. A Editora Caladwin chegou a publicar os dois primeiros volumes aqui, mas perdeu os direitos e não saiu mais nada. Pelas curvas da internet também se conseguia 4 edições portuguesas que a Bertrand Editora lançou entre 2007 e 2008 por lá. No entanto, em termos mais amplos, os livros são bem desconhecidos em solo nacional. A Editora Intrínseca assumiu então a missão de publicar novamente os livros no país, e o primeiro exemplar é “O Olho do Mundo”, com 800 páginas e tradução de Fábio Fernandes.

Os primeiros capítulos de “O Olho do Mundo” não são muito fáceis de serem transpostos por aqueles já habituados a esse tipo de literatura fantástica, principalmente ao universo criado por J. R. R. Tolkien nos anos 50 em “O Senhor dos Anéis”. As semelhanças são muitas. O livro inicia quando três garotos de uma pacata vila são chamados para cumprir um papel importante na guerra do bem contra o mal. Isso em um momento de festa e alegria, tendo como destaque a chegada ou não de fogos de artifícios. Reconhece? Bom, é muito parecido mesmo se colocarmos Frodo e Rand al’Thor lado a lado inicialmente.

Rand al’Thor é o garoto fazendeiro meio perdido e acanhado que logo se vê com uma espada famosa nas mãos lutando contra Trollocs (uma espécie de Orcs do Senhor dos Anéis) e seguindo adiante com mais alguns integrantes (como uma “Sociedade do Anel”) para salvar o mundo das mãos de um mal imenso que espreita e começa a se alastrar corrompendo pessoas e instaurando o medo. Tudo muito assemelhado ao clássico de Tolkien. E para quem gosta de achar correlações, as 800 páginas são um prato cheio para esse tipo de serviço.

A partir do momento que se compreende “A Roda do Tempo” como se fosse uma extensão criativa de “O Senhor dos Anéis”, as diferenças vão rareando e apresenta-se uma boa aventura para fãs do estilo, com magos, feiticeiras, animais perigosos, batalhas, reinos, e tudo o mais. E outras semelhanças passam a vir à tona, como com “As Crônicas de Gelo e Fogo” de George R. R. Martin, que por já ser bem conhecida aqui no país, pode levar a falsa impressão que Robert Jordan também se apropriou de alguns temas, o que não é bem assim.

Algumas alcunhas (Fatricida = Regicida), nomes (como Aemon), animais (o papel de lobos e corvos) e andamentos políticos podem levar a essa ideia. Entretanto, Robert Jordan começou a escrever a série em 1984, tendo o primeiro livro publicado em 1990, ao tempo que George R. R. Martin passou a elaborar seus textos em 1991 e só os publicou em 1996, assim temos uma inversão de influências. Esse ambiente político foi elevado ao extremo em “As Crônicas de Gelo e Fogo”, mas já aparece atuante em “A Roda do Tempo”, mesmo levando em consideração que no primeiro caso isso funciona muito melhor como personagem coadjuvante e motivador.

Em “O Olho do Mundo” você consegue enxergar até influências em outras séries como “Harry Potter”, “Eragon” e “A Torre Negra”, mas pela amplitude do conhecimento sobre essas obras, isso perde um pouco de valor para o leitor de hoje. Na promessa de publicar os 14 livros da série (11 escritos por Robert Jordan e 3 de maneira póstuma por Brandon Sanderson), a Editora Intrínseca tem a missão de deixar essas semelhanças explicadas ou esquecidas, com o intuito de fazer valer somente a boa aventura que permeia as páginas, e assim repetir o sucesso mundial da obra. Uma interessante tarefa.

Nota: 7,0


A Editora Intrínseca criou um hotsite onde disponibiliza o primeiro capítulo do livro e um pequeno livreto explicando um pouco mais sobre o universo da obra. Veja aqui: http://www.intrinseca.com.br/arodadotempo

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

“O Ancião Que Saiu Pela Janela e Desapareceu” - Jonas Jonasson

Quem só fala a verdade nem vale a pena escutar”, assim o jornalista e escritor sueco Jonas Jonasson introduz o seu livro “O Ancião Que Saiu Pela Janela e Desapareceu”, lançado este ano por aqui pela editora Record. Com 364 páginas e tradução de Bodil Margareta Svensson, o livro originalmente foi publicado em 2009 na Suécia e posteriormente foi traduzido para 35 países alçando o patamar de best-seller com mais de 4 milhões de cópias vendidas no mundo todo.

A história é construída em torno do centenário Allan Karlsson que justamente no dia em que completa 100 anos em 2005 resolve fugir do asilo que mora, porque não estava muito a fim de comemoração, o que causa um desespero geral na diretora do local e no prefeito que estava doido para se promover a custa do fato na pacata cidade em que governa. O fato envolve a polícia local e a imprensa e acaba ganhando proporções bem maiores que somente um sumiço.

Por um daqueles acasos inexplicáveis do destino, o ancião se vê de posse de uma mala contando alguns milhões de coroas suecas e meio sem pretensão, meio sem pensar direito, embarca em um trem que vai lhe levar para a grande aventura da vida. Porém, como descobrimos depois enquanto o autor mescla a atualidade com o passado, a existência de Allan Karlsson foi repleta de outras peripécias e de casos difíceis de serem assimilados como verdadeiros.

Da juventude onde sobreviveu através da empresa de explosivos que criou nas décadas iniciais do século XX, o personagem principal desembarcou justamente dentro do local onde os EUA estavam desenvolvendo a bomba atômica, e isso leva a repensar tudo que sabemos sobre esse acontecimento. Foi novamente meio sem querer, meio sem pensar direito, que Allan Karlsson deu a dica necessária para a construção da arma nuclear. E isso o leva a muitas coisas mais.

Os fatos narrados no passado são muito superiores aos da atualidade, pois o autor cruza momentos históricos e personalidades como Joseph Stalin, Mao Tsé-Tung, Winston Churchill e Richard Nixon (entre outras) com participações implausíveis e inimagináveis do nosso simpático velhinho. E aproveita para desfilar uma boa zombaria sobre os egos das nações e da humanidade em geral que levam a decisões estapafúrdias, ainda mais quando envolvem política e religião.

Nos acontecidos recentes a destreza da narração sucumbe um pouco, mesmo que essa zombaria com a política acabe ainda sendo jorrada em bom volume enquanto o longevo protagonista vai formando uma equipe de amigos e inimigos tão improvável quanto os causos que conta sem muita displicência. O passeio com tons de fábula é comandado por uma espécie de Forrest Gump, se esse não fosse tão bom moço e se permitisse tomar umas vodcas diariamente.

Em seu livro de estreia Jonas Jonasson alcança uma saudável união de aventura com ironia, de crítica política rasteira com bom humor, de sarcasmo com contemplações sobre a vida. Além de Allan Karlsson e o grupo de coadjuvantes que lhe circundam, a verdade (ou a dúvida em relação a ela) é uma das grandes personagens da trama. “O Ancião Que Saiu Pela Janela e Desapareceu” usa isso com sabedoria e agrada bastante, afinal o verdadeiro pode às vezes não ser verosímil e ainda assim render uma boa história.

Nota: 8,0

A editora Record liberou gratuitamente um trecho do livro para leitura no site. Olha aqui: http://www.record.com.br/images/livros/capitulo_rHqglg.pdf

domingo, 17 de novembro de 2013

Resumo - VIII Festival Se Rasgum - Belém (PA) - 2013

Desenvolvimento é um processo dinâmico de melhoria, que implica uma mudança, uma evolução, um crescimento e avanço, assim nos ensina o dicionário. E a palavra resume muito bem a 8ª edição do Festival Se Rasgum em Belém, no Estado do Pará. A cada ano o festival se desenvolve mais e vai mudando a proposta para chegar a um nível que consiga conciliar boas atrações, conforto do público, viabilidade do negócio e inovação musical. E a versão de 2013 teve muito de tudo isso.

A programação ficou mais ampla, se estendendo por cinco dias em três locais distintos, sendo um dos dias de graça. Isso permite ao público escolher melhor as atrações que quer assistir e atrai outra parcela diária que não está acostumada (ou não aguenta) uma maratona de 3 dias. Os shows iniciaram mais tarde, às 21:00hs ao invés das 18:00hs, o que contribui para que quem venha de fora usufrua a cidade de uma maneira melhor, tornando a experiência mais ampla. E nada de apresentação acabando de manhã, facilitando a recuperação e fazendo do show algo a ser apreciado sem tanto cansaço.

Enxergo a 8ª edição como uma evolução, um desenvolvimento, uma insistência profunda da produção em continuar diversificando as atrações e unindo o antigo com o novo, o inusitado. O espaço da maioria dos dias continua um acerto (e a presença de público confirma isso), a limpeza é algo a salientar e os atrasos foram muito poucos nesta edição se comparamos com as passadas que tiveram show varando a manhã do dia seguinte. Isso é extremamente benéfico a todos.

E mesmo faltando ao segundo e ao último dia do Festival Se Rasgum desse ano e perdendo atrações que queria assistir como Coletivo Radio Cipó, Manoel Cordeiro e Os Desumanos e Lucas Santtana, coloco abaixo um Top 10 entre os shows que assisti (em ordem de preferência):

1 – Tom Zé
2 – Tulipa Ruiz
3 – Jards Macalé
4 – Astronauta Pinguim
5 – Los Peyotes
6 – Bárbara Eugênia
7 – Projeto Secreto Macacos
8 – Madame Saatan
9 – Pélico
10 – The Baudelaires

Vida longa ao Festival. Que essa “cuíra” por fazer sempre algo novo não se acabe.


Mais sobre os outros dias, você acompanha nas postagens abaixo.

sábado, 16 de novembro de 2013

VIII Festival Se Rasgum - Hangar - Belém (PA) - 15.11.2013

Uma das marcas da maioria das edições do Festival Se Rasgum é a diversificação. E isso ficou bastante evidente no Hangar durante todo o quarto dia da versão de 2013. Os shows começaram pontualmente às 21:00hs com a apresentação do paraense Arthur Espíndola. Com um trabalho autoral prestes a ganhar disco que mistura samba de raiz, com um pouco de jongo e alguns refrãos bem assimiláveis, tivemos um show aprazível que acabou com “Conto de Areia” do também paraense Toninho Nascimento e que tanto sucesso fez na voz da inigualável Clara Nunes.   

Posteriormente foi a vez do Madame Saatan ascender ao outro palco do evento. A vocalista Sammliz falou sobre os 30 minutos de show e sobre o horário, e mesmo não aparentando estar muito satisfeita com ambas as coisas comandou a banda em uma exibição possante, como de costume. Sendo gentil com público, se movimento no palco de acordo com os riffs cortantes do hábil Ed Guerreiro e, evidentemente, cantando muito, Sammliz provou mais uma vez ser a melhor cantora do rock brazuca em atividade atualmente. E não abre muita margem para discussão nesse quesito.

Se os 30 minutos de palco podem ser considerados poucos para o Madame Saatan, o mesmo não pode ser dito para o gaúcho Astronauta Pinguim. Produtor experiente, ótimo músico que passou por inúmeras bandas como apoio (a de Júpiter Maçã foi uma delas), ele foi responsável por uma das apresentações mais imprevisíveis do festival. E os 30 minutos lhe caíram perfeitamente enquanto passeava por um repertório que unia anos 80, pós-punk, eletrônica e muita experimentação (com direito a Theremin e tudo), que resultaram em dos grandes shows do dia e do festival.


Enquanto as camadas sonoras ainda eram absorvidas pela mente, no outro palco os experientes Los Peyotes da Argentina começavam a imprimir freneticamente sua música a todos. Um show caótico, com guitarra no último volume, gritos, caras e bocas dos integrantes, sujeira de garagem misturada com o pop sessentista, roupas iguais e muita energia. O vocalista gordinho, feio, baixo e com cabelo horrível logo se tornava um cara a ser admirado. Tirando a desnecessária inclusão de Pelé e Maradona em determinado momento, o quinteto causou um rebuliço danado.

Na preparação para um dos shows mais esperados desta roupagem, a paraense Zebrabeat, tocou e convenceu no palco deck, com sua mistura instrumental de música brasileira e latina, o que levou até a cover de Fela Kuti. Bem interessante. E quando o relógio passava um pouquinho da meia noite, foi a vez de Bárbara Eugênia subir ao palco ciceroneada por uma banda eficaz e versada que contava com Davi Bernardo na guitarra, Clayton Martins na bateria, Jesus Sanchez no baixo (esse, um habitué de terras paraenses) e o Astronauta Pinguim nos teclados.

De shortinho curto e coração pintado no rosto, a artista começou com “Coração” e “A Chave” e apesar dos pequenos problemas de som no início, conseguiu engatar o show da maneira que queria. Chamou Pélico para cantar “Roupa Suja”, emendou versões do brega “Porque Brigamos (Diana)” e encerrou com “As Curvas da Estrada de Santos”, hino de Roberto e Erasmo Carlos. Tendo a banda como destaque maior, Bárbara Eugênia fez uma exibição onde a fofurice e a temática hippie vão ficando mais de lado (o que é bom) e apesar da empatia total com o público, ainda escala os degraus para dominar melhor o espaço de palco, como, por exemplo, Tulipa Ruiz mostrou no dia anterior.

Após a bonita, mas contida, apresentação de Bárbara Eugênia, chegava a vez do maior nome da edição de 2013 aparecer. Tom Zé, aquele que entrou na terra por uma caverna chamada nascer, dispensa apresentações e enfeitiçou o público com o seu palavreado, com sua verborragia, suas canções e inúmeras histórias. Em uma carreira tão vasta como a do baiano ícone do tropicalismo, é normal que algumas canções que você queira ouvir fiquem de fora. Porém, todas aquelas que não poderiam faltar estiveram presentes, por assim dizer.

No repertório estiveram “Dois Mil e Um”, “Tô”, “Menina, Amanhã de Manhã”, “Vá Tomar” (em uma versão incrível), “”Hein?”“, “Augusta, Angélica e Consolação” e “Politicar”, entre outras. As canções foram preenchidas com as loucuras inerentes ao artista que ainda consegue surpreender a própria banda com algumas decisões em palco. E com uma exibição impecável, Tom Zé teceu palavras bonitas para Belém e seu povo, mas principalmente mostrou que ser autêntico e original, fazendo canções nada ortodoxas (mesmo que na essência sejam comuns), é suficiente para deslumbrar a noite de quem sai de casa para assistir a um show de música.

Todas as fotos retiradas do Facebook do evento (não consegui achar nenhuma foto bacana do Tom Zé, por isso não tem):http://www.facebook.com/serasgum

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