sábado, 21 de maio de 2011

"Vício Inerente" - Thomas Pynchon

Em plena Los Angeles dos anos 70 um detetive particular leva sua vida na manha, sem se estressar com muita coisa e tendo como maior preocupação acender alguns cigarros de substâncias exóticas durante o dia, enquanto se envolve em casos pitorescos. Isso muda quando uma ex-namorada bate a sua porta e pede que ele se envolva em um intricado caso que reúne um dos maiores figurões da Califórnia.

É a partir desse ponto que o escritor Thomas Pynchon desenvolve seu mais recente romance. Lançado lá fora no ano de 2009, ganhou edição nacional pela Companhia das Letras no ano passado, com 464 páginas e tradução de Caetano W. Galindo. O autor famoso por obras como “O Arco-Íris da Gravidade” de 1973, mostra em “Vício Inerente” que não perdeu nada da forma exibida em outrora.

Em uma época não muito fácil nos Estados Unidos, o detetive Doc Sportello insere-se em uma trama perigosa que na verdade, na verdade, não entende muito bem. Veja bem, o cara é um ex-hippie que consome uma quantidade razoável de maconha diariamente e não consegue discernir direito nem as louras que se exibem de biquíni por Gordita Beach, o que dirá então desvendar um caso repleto de complicações.

As ações de Charles Manson eram bem vivas e assombravam as mentes mais “abertas” e Richard Nixon cometia suas loucuras na presidência, assim como Ronald Reagan no governo do estado da Califórnia. A cidade de Los Angeles vivia um momento mais tresloucado que nunca, onde o cinema se confundia com a vida de todos os habitantes e o movimento hippie já exalava odores não muito agradáveis.

Como de costume em seus livros, Thomas Pynchon ministra ao leitor fartas doses de confusão, dúvidas e neuroses diversas. A sua escrita é ácida, irônica e divertida, sendo utilizada para tratar dos mais variados temas, tais como corrupção, política e comportamento social, de uma maneira que tudo seja convertido na lógica peculiar e errônea da trama. É fácil se perder no meio de tanta paranóia e alucinação.

Em “Vício Inerente”, Thomas Pynchon espalha seu olhar para a cultura dos anos 70 enquanto usa de uma trama policial para disfarçadamente atestar o fim de uma geração (ou de uma época) em si. O livro traz referências mil em todos os seus poros e é uma literatura que anda na mesma estrada de contemporâneos seus como Joseph Heller e Hunter S. Thompson. Um livro para se fazer a cabeça. Experimente. 

Um trailer de apresentação sobre o livro, aqui.  

quinta-feira, 19 de maio de 2011

"Padre" - 2011


Quando se escuta a palavra padre não tem muito como fugir da simbologia cristã que ela atrai tanto para o bem quanto para o mal. No entanto, se for analisada sem o cunho religioso totalmente envolvido, essa palavra também transmite na sua origem correlações com segurança e força. O personagem de Paul Bettany (“O Código da Vinci”) em “Padre” que estreia nos cinemas nacionais, remete diretamente para esses significados mais subjetivos.

O longa é dirigido por Scott Stewart, que não conseguiu convencer na sua primeira obra, o fraquíssimo “Legião”. No novo trabalho ele se baseia nos quadrinhos (chamados “manhwas”) do sul-coreano Hyung Min-Woo, mas não deixa de usar parte da temática utilizada anteriormente. Para quem conhece a obra original lançada aqui pela Editora Lumus anos atrás, não encontrará muita coisa em comum, a não ser o clima de velho oeste implantado.

Não honrar os quadrinhos em quase nada, no entanto, não chega a ser um problema do filme. Raramente acontece de uma adaptação ser melhor que o original, mas nesse caso aparece uma pequena exceção à regra. Utilizando muita ação e baseando o roteiro em obras como “Laranja Mecânica” de Anthony Burgess e “1984” de George Orwell”, o diretor consegue dar um aspecto interessante a trama, considerando é claro, as liberdades desse tipo de filme.

Paul Bettany vive um padre em um mundo onde a igreja controla plenamente as cidades e que converte o medo do povo em fé para continuar no poder. Tal medo é oriundo de uma época em que guerras sangrentas foram travadas com vampiros e somente com o surgimento de uma série de guerreiros amplamente treinados é que o jogo finalmente se decidiu em favor dos humanos. Mas com o final da guerra nem tudo parece bem na vida desses guerreiros.

Renegados a viver na margem da sociedade, os padres que travaram a luta tempos atrás estão escondidos e sem função. Quando um fato peculiar acontece e anuncia o retorno dos vampiros, esses guerreiros ganham novamente uma razão de existir. Com cenas de ação extremamente bem feitas, assim como a caracterização visual e o bom uso do 3-D, o diretor Scott Stewart acerta a mão e elabora um competente trabalho na seara dos filmes de aventura/ficção.

terça-feira, 17 de maio de 2011

"Dynamite Steps" - The Twilight Singers - 2011


Angústia. Tensão. Desespero. Dor. Essas palavras sempre se mostraram presentes na música do norte americano Greg Dulli, seja na frente da sua ex-banda Afghan Whigs, no projeto chamado The Gutter Twins ou no atual trabalho, o Twilight Singers. O que começou como uma espécie de fuga da primeira banda nos anos 90, chega agora em 2011 para mais um disco que tem a missão de suceder o ótimo “Powder Burns” de 2006.

“Dynamite Steps” é lançado pela Sub Pop Records e mostra um Greg Dulli em excelente forma. Gravado em diversas localidades traz novamente os amigos Scott Ford (baixo) e David Rosser (guitarra) na escolta, além de contar com algumas participações especiais como a da multi instrumentista Petra Haden, como também do velho parceiro Mark Lanegan em “Be Invited” e da cantora Ani DiFranco em “Blackbird and The Fox”.

A sonoridade demonstra as influências do rock alternativo americano em conjunto com a paixão pelo blues e soul, costumeiramente usado nos trabalhos anteriores. É uma massa compacta de sons, vocais, distorções e climas que na sua desordem converge em uma forte harmonia. Já na faixa de abertura “Last Night In Town” aparecem teclados, anos 80, backing vocais incoerentes e passagens etéreas para adotar um ritmo caótico e dançante.

Junte-se a essa sonoridade as letras de Greg Dulli, que frequentemente são necessárias para um entendimento maior do trabalho. Em “Dynamite Steps” isso não é diferente. Na já citada “Be Invited” corações são quebrados, enquanto “Waves” traz um jogo perdido e sem fim. Em “Blackbird and The Fox” temos o aviso que a cidade está queimando, um cenário que se completa com a sombria “She Was Stolen” e o baixo astral de “Get Lucky”.

O tom poucas vezes demonstra algum resquício de redenção futura e mesmo quando isso aparece é fraco e inodoro como em “The Beginning Of The End”. Inserido neste clima apresentado sobreviver parece uma árdua tarefa, ainda mais quando a faixa título que encerra o disco bota tudo realmente a prova com versos como “em um céu negro/onde os sonhos colidem/empurre a sua fé de lado/e perceba que você não pode mentir”.

“Dynamite Steps” exibe em seu corpo ainda duas sérias candidatas a melhor música do ano. A dobradinha “On The Corner” e “Gunshots” é uma mostra poderosa do que Greg Dulli é capaz de proporcionar, da união entre estranho e belo que consegue fazer como poucos. Ele pode até afirmar que nunca viu nenhum diabo na vida (como diz em uma das canções do álbum), mas não há dúvida que são seus demônios pessoais que o impulsionam.

domingo, 15 de maio de 2011

"Velozes e Furiosos 5 - Operação Rio" - 2011


Um grupo de amigos inclinados para o lado mais criminoso da sociedade precisa se unir novamente para um último golpe, com o intuito de conquistar a tão sonhada liberdade e assim escapar de uma vida onde o sossego é um objeto raro. Quantas e quantas vezes isso já não foi visto na grande tela? Várias (e algumas com bons resultados). E muito provavelmente será visto mais um monte de vezes, então não dá para esculhambar o novo filme da série “Velozes e Furiosos” por conta disso.

“Velozes e Furiosos 5 – Operação Rio” traz em mais de duas horas vários outros motivos para ser criticado (e com razão). Dessa vez, Brian O’ Conner (Paul Walker), Dom Toretto (Vin Diesel) e Mia Toretto (a belíssima Jordana Brewster) estão em plena cidade maravilhosa tramando um golpe. Quando esse dá errado entram na mira de um (muito) bem vestido chefão do tráfico carioca, envoltos em uma trama mirabolante que envolve polícia, tecnologia, agentes especiais e claro, muita correria e ação.

O roteiro do filme é muito fraco e confuso, mas isso não chega a incomodar tanto, já que em filmes de ação o conteúdo não é uma das maiores preocupações e sim as cenas mais frenéticas. E isso o longa traz de sobra. Perseguições, fugas, batidas. Todo o arsenal que o diretor Justin Lin poderia colocar a prova está lá. O que incomoda então não é a fraqueza do roteiro, mas sim a maneira como ele é conduzido. São falhas absurdas que permeiam todos os aspectos importantes do longa.

Uma torre de babel se aloja na película e temos conversas em inglês, português e espanhol convivendo de uma maneira inóspita, para dizer o mínimo. Como a maioria das cenas não foi gravada por aqui existe uma confusão geográfica danada (até um belo trem surge fazendo rota no Rio) e na maioria das vezes são hispânicos que fazem as vezes dos “nativos” brasileiros. Chega a ser indevidamente engraçado algumas conversas apresentadas, lembrando dublagens horríveis exibidas na tevê.

Outro ponto a ser considerado é a mudança no rumo da trama (que foi bem nos dois primeiros da franquia), que passa a ostentar ser um filme nos moldes de “Onze Homens e um Segredo” quando O’Conner e Toretto convidam um time de amigos para ajudar, o que até diverte e propõe outro caminho para o sexto filme. Porém, mesmo com cenas de ação agitadas (e não bem pensadas) e momentos divertidos, o quinto filme da série precisa de um extremo exercício de boa vontade para agradar.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"Belong" - The Pains Of Being Pure At Heart - 2011


Em 2009 quatro jovens do Condado do Brooklyn em Nova York apareceram com um belo registro de estreia onde resgatavam a sonoridade de bandas como The Jesus And Mary Chain e My Blood Valentine, entre outras. The Pains Of Being Pure At Heart era o nome da banda dos quatro jovens e com o álbum homônimo conquistaram alguns milhares de fãs ao redor do globo.

Em 2011 o grupo de Kip Berman (vocal e guitarra), Alex Naidus (baixo), Peggy Wang (teclados e vocal) e Kurt Feldman (bateria) novamente coloca nas lojas um trabalho para ser apreciado. Durante os anos entre os discos eles não ficaram quietos e lançaram singles e Ep´s (como o ótimo “Higher Than The Stars” de 2010) onde demonstravam que a veia noise pop não havia se perdido.

“Belong” traz o mesmo número de faixas do debute (10 ao total) e exala novamente as influências do grupo de maneira indefectível. Com produção a cargo de Flood (Depeche Mode, Smashing Pumpkis), as canções se afastam muito pouco do que se acostumou a ouvir anteriormente. Apresenta uma carga menor de distorção e urgência, mas compensa com novas bonitas melodias.

O teor do trabalho traz as letras cravadas fortemente em paixões, desilusões e amores peculiares e imperfeitos, no entanto vez ou outra a temática muda e até uma ponta de esperança e otimismo surgem, como na excelente “Heavens Gonna Happen Now” ou no pop distorcido de “Strange”. Em outras como “Body” é a necessidade física que se apresenta antes de tudo.

Para dar um exemplo desse teor, em “Heart In Heartbreak” os versos dizem “ela foi a lágrima em uma tempestade/ela foi a promessa de que você teria jurado/e não importa o que você diz/isso nunca vai voltar”. Sobre esse clima melancólico e perdido, as guitarras e teclados do grupo cabem perfeitamente, como se você fosse teletransportado para algum ponto perdido dos anos 80.

“Belong” não traz no seu corpo uma canção mais destacada como “Young Adult Friction” ou “Everything With You” do primeiro álbum, mas é na sua totalidade um registro melhor e mais completo, dando vazão até para algumas outras influências como o The Cure que aparece em “My Terrible Friend”. É o tipo de disco para colocar no som e deixar tocar sem pressa por horas e horas.

Sobre o álbum de estreia, passe aqui.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

“The Art of The LP - Classic Album Covers 1955 - 1995” - Johnny Morgan e Ben Wardle

Houve um tempo em que a música já começava a se vender pela capa do disco. Muitos álbuns já causavam impacto logo quando se avistava exposto em uma loja qualquer. Os tempos mudaram (é, eles sempre mudam) e isso ficou para trás. Era uma época onde as publicações elegiam não somente a melhor música ou artista do ano que passou, mas também a melhor capa. Daí dá para entender a importância que isso alcançava.

Quando se está lendo “The Art of the LP” de Johnny Morgan e Ben Wardle lançado ano passado na gringa pela Sterling Publishing Co., é impossível não tecer algum comentário saudosista ou nostálgico. Ainda sem edição nacional, tem 400 páginas e mais de 350 discos demonstrados entre o período de 1955 a 1995. Além de expor a capa, os autores traçam pequenas informações sobre ano, gravadora, fotografia e design.

“The Art of The LP - Classic Album Covers 1955 - 1995” é dividido em 10 tópicos. São eles: Rock & Roll, Sex, Art, Identity, Drugs, Ego, Real World, Escape, Politics e Death. Essa organização própria feita pelos autores pode até não ser entendida em sua totalidade, mas tem seus próprios méritos. Logo no início é apresentada a famosa capa de “Elvis Presley” de 1956, extraída por William “Red” Robertson em um show na Flórida.

Lá estão obras clássicas como a que Robert Frank fez de “Exile On Main Street” (1972) do Rolling Stones ou a do “Nevermind” (1991) do Nirvana elaborada em cima de foto de Kirk Weddle. Mas também estão diversas outras de artistas menos conhecidos e até mesmo obscuros que foram desencavadas durante o projeto. Existem também algumas coisas horríveis como a de um álbum do Poison, mas é só passar rapidamente a página.

Nos parágrafos escritos sobre cada item temos curiosidades e detalhes diversos como, por exemplo, quanto as modelos cobraram para pousar em “Eletric Ladyland (1968) do Jimi Hendriz Experience ou a descrição dos objetos de “Surfer Rosa” (1985) do Pixies ou ainda como Tony Wilson da Factory se empenhou para a capa do “Power, Corruption And Lies” (1983) do New Order, ser em cima do trabalho do francês Henri Fantin.

Existem capas para todos os gostos e estilos musicais como as “irmãs” Stick Fingers (1971) do Rolling Stones e “Too Fast For Love” (1982) do Motlëy Crüe, além de coisas lindas como “Nancy” (1969) da Nancy Sinatra, “Gently” da Liza Minelli (1995) e “Mingus Ah Um” /1959) do Charles Mingus e outras bem sacadas como a de “Radio” (1985) do LL Cool J ou “Turn Back” (1980) do Toto (sim, isso mesmo, o Toto).

“The Art of The LP” não é para ser avaliado como um trabalho definitivo sobre o assunto, até porque vários artistas não se fazem presente, mas sim como um compêndio pessoal de dois autores aficionados por música. É para ver, rever e deixar ali em um lugar privilegiado da estante para ser revisitado a qualquer momento. É peça obrigatória para qualquer um que goste de música e todos os aspectos que a circundam e transformam.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

"Só Garotos" - Patti Smith


A juventude é um momento de dureza, de escolher o futuro enquanto você não sabe muito bem o que quer e aonde pretende chegar. Entre os milhares de sonhos gerados, a esmagadora maioria vai ser descartada pelo caminho, enquanto que com sorte algo que realmente valha a pena será o protetor dos dias que virão. Nessa época ter ao seu lado um amor, um amigo, um cúmplice que lhe ajude a transpor o que se apresenta, é de uma serventia arrebatadora.

Para Patti Smith essa pessoa foi o fotógrafo Robert Mapplethorpe que faleceu em 8 de março de 1989. Nos anos 60 quando saiu da sua cidade natal a caminho de uma nova vida em Nova York, ela encontrou na figura dele um alicerce para se apoiar quando as coisas não fossem do jeito que se queria. Durante os muitos anos de amizade e amor, um salvou o outro inúmeras vezes e se ajudaram tanto na construção das suas personalidades, quanto da arte.

“Só Garotos” lançado no ano passado com 280 páginas pela Companhia das Letras e com tradução de Alexandre Barbosa de Souza é o testemunho de Patti Smith para essa relação. Antes de ser uma biografia de tempos complicados e da configuração de uma pessoa, o livro é um belíssimo concerto para a amizade, para o companheirismo. É fácil se envolver com a história nele contada e se pegar achando graça de momentos surreais e situações embaraçosas.

Na Nova York dos anos 60 e 70, onde milhares de artistas faziam convergir suas ideias em significados distintos e o mundo avançava a passos largos na experimentação musical e descoberta sexual, Patti e Robert se viam no meio daqueles que admiravam e ansiavam andar pelo mesmo mundo. Andy Warhol, Lou Reed, Allen Ginsberg e William Borroughs são alguns dos nomes que se apresentam pelo livro, sendo personagens vivos dessa pequena saga.

Uma das coisas que mais impressiona em “Só Garotos” é observar o mundo em que ele se passa, um mundo que hoje carrega tanta diferença no quesito arte. De todo a gratuidade e efemeridade dos nossos dias, olhar para trás é para pensar pelo menos um pouco diferente em relação a tudo. Em “Só Garotos” Patti Smith conta um pouco da sua história e de Robert Mapplethorpe e presenteia o leitor com um livro emocionante e belamente conduzido.

sábado, 7 de maio de 2011

"O Garoto de Liverpool" - 2010


O grande desafio do filme “O Garoto de Liverpool” (“Nowhere Boy” no original) era saber se funcionaria caso não se levasse em consideração o personagem principal. O longa ostenta contar os primeiros passos de John Lennon na juventude, antes dos Beatles, da viagem para Hamburgo e tudo mais. Baseado no livro da sua meia-irmã Julia Baird foca na família de Lennon, entrecortada com tragédias e dramas fortes que deixariam a marca para o resto da vida.

O trabalho marca a estréia de Sam Taylor-Wood como diretora e apesar dos temas espinhosos que aborda consegue transitar muito bem como se fosse uma comédia tradicional dos anos 50/60. As inconsequências da juventude, suas dúvidas, frustrações, primeiros romances e nascimento de grandes amizades estão espalhados de maneira cativante. Claro que a figura de Lennon causa maior interesse, mas o filme consegue funcionar além disso.

Com passagem rápida pelos cinemas nacionais, o filme chegou recentemente a DVD e se constitui em uma pedida interessante. O Lennon vivido por Aaron Johnson (de “Kick-Ass”) é plenamente factível e participa bem do jogo de rebeldia e ironia que o personagem pede. Na verdade, o trio principal é todo bem constituído, tanto pela tia Mimi de Kristin Scott Thomas (de “O Paciente Inglês) quanto pela mãe Julia de Anne Marie-Duff (de “Em Nome de Deus”).

Os fãs que conhecem a história de John Lennon sabem mais ou menos o rumo básico da trama. Criado pela sua tia Mimi (para qual despejou carinho e reconhecimento até a morte), ele vê o mundo começar a mudar quando algumas tragédias familiares acontecem e sua mãe Julia se insere na sua vida. Junte-se a isso o começo da paixão pela música, a formação do primeiro grupo tocando skiffle (The Quarrymen) e o início da frutífera amizade com Paul McCartney.

A trilha sonora também se configura em uma parte fundamental de um filme como esse e nele tocam clássicos absolutos de Jerry Lee Lewis, Elvis Presley e Gene Vincent, além da ótima “I Put A Spell On You” pelo Screamin’ Jay Hawkins. “O Garoto de Liverpool” é um ótimo filme que faz rir e emociona na mesma proporção, mostrando os primeiros passos de um gênio da música. E quando nos créditos finais toca “Mother”, é impossível ficar indiferente.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

"Cinco Contra Um" - Beto Silva


Tem um ditado na minha terra natal que diz: “quando você pensa que é o dono do circo, corre o risco de ser o palhaço.” E isso é mais ou menos o que acontece com Moacir Stein, que após aplicar um elástico daqueles que só o Rivelino sabia dar e ganhar a pelada da quarta-feira, chega em casa todo feliz e cheio de moral para descobrir que a esposa está indo morar em Brasília, com o intuito de trabalhar no primeiro governo do Presidente Lula.

“Cinco Contra Um” é o novo livro do “casseta” Beto Silva que já havia lançado anteriormente o divertido “Julio Sumiu” em 2005 e o dispensável “Uma Piada Pode Salvar Sua Vida” em 2008. Com 240 páginas e distribuição da Editora Objetiva, o livro versa sobre um carioca meio perdedor e sem muita habilidade social, que aos 40 e poucos anos procura sobreviver no casamento e na sua empresa enquanto joga suas peladinhas semanais.

Beto Silva é um carioca nato e apaixonado torcedor do Fluminense e não deixa de levar isso para o romance. Às vezes até exagera um pouco na caracterização do estilo de vida e nas percepções em volta dos conterrâneos, mas no final acaba funcionando tudo mais ou menos bem na construção da divertida e bem humorada história. Utilizando um personagem com grande apelo para virar (anti) herói, agrada sem precisar fazer muito esforço.

“Cinco Contra Um” não esbanja excelência literária ou propõe um estudo mais elaborado das mazelas políticas do país. Longe disso. Suas armas estão voltadas para situações constrangedoras e cômicas que passam na frente de Moacir Stein, o Moa, que ao lado do impagável amigo Neco precisa salvar sua vida e recuperar família, dinheiro e um pouco do respeito pessoal. Longe da veia anárquica do Casseta e Planeta, Beto aqui faz piada sobre o cotidiano.

Em alguns momentos “Cinco Contra Um” lembra a prosa de “Julio Sumiu”, como também do “De Cada Amor Tu Herdarás Só o Cinismo” do Arthur Dapieve e deixa o leitor sempre com um sorriso. Mesmo que temas como traição, política e assassinato sejam tratados, o tom é sempre para a tragicomédia e assim com esse descompromisso serve bem para ser consumido em uma viagem ou para espantar o mau humor. É para rir sem ser ranzinza.

terça-feira, 3 de maio de 2011

"Take The High Road" - Blind Boys Of Alabama - 2011


Em uma cena da recente animação “Hop - Rebelde Sem Páscoa”, o coelhinho metido a baterista que é o personagem principal entra uma sala onde uns senhores estão gravando. Eles todos são cegos e o coelhinho dá o seu recado na batera em uma passagem bem divertida. Os senhores em questão são os Blind Boys of Alabama, uma instituição da música gospel norte-americana que está na ativa desde os idos de 1939.

O grupo já tocou e gravou com nomes do porte de Peter Gabriel, Lou Reed e Solomon Burke e mantêm uma carreira que mesmo trazendo pontos baixos em várias passagens, nunca deixou de existir, nunca deixou sua música sem ser ouvida. A formação atual conta com o fundador Jimmy Carter e mais uma trupe formada por Ben Moore, Eric “Ricky” McKinnie, Joey Williams, Tracy Pierce, Peter Levin e Bishop “Billy” Bowers.

“Take The High Road” é o mais recente trabalho do grupo e mostra uma vertente mais voltada para o country, antiga paixão do vocalista Jimmy Carter. Lançado esse ano pela Saguaro Road Records (casa de Joan Osborne e por onde J.J Cale já passou), o álbum traz diversas participações especiais como Willie Nelson e Hank Williams Jr.e consegue não deixar para trás as antigas sonoridades do gospel, soul, blues e R & B.

A chamada “música de raiz” americana aparece em fartas e generosas porções em “Take The High Road”. Com o apoio de músicos consagrados de Nashville como Kevin “Swine” Grantt (baixo) e Jim Brown (teclados), a sonoridade dos Blind Boys cresce mais ainda e abre espaço para que todas as vocalizações se encontrem. Um bom exemplo disso escutamos na faixa “The Last Mile of the Way” que encerra belamente o trabalho.

Willie Nelson engrandece a versão da sua “Family Bible”, enquanto Hank Williams Jr. faz o mesmo com a ritmada “I Saw The Light”, canção consagrada do repertório do pai. Vince Gill honra bem a sulista “Can You Give Me A Drink”, enquanto o vocal feminino de Lee Ann Womack se arrepende e pede perdão em “I Was A Burden”. Isso sem falar na participação arrasadora dos Oak Ridge Boys na faixa que dá nome ao disco.

Escutar um disco dos Blind Boys Of Alabama em pleno 2011 é uma tarefa recompensadora. É certo que depois do reconhecimento e dos prêmios recebidos o grupo teve seu som lapidado de certa maneira, mas ainda assim impressiona. Não é fácil fazer versos como “eu sou certo, pois o Senhor me disse assim” (de “I Know a Place”) serem cantados sem soar pomposo ou revestido de religiosidade forçada. Classe absoluta.