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quinta-feira, 14 de maio de 2020

Quadrinhos: "Segunda-Feira Eu Paro", "Berserker Unbound", "Mjadra" e "A Gangue da Margem Esquerda"


Ninguém entra e segue na vida adulta sem vícios, essa é verdade. Esses vícios podem ser disfarçados ou evidentes, podem prejudicar ou servir de alívio, podem destruir ou alavancar, mas estão presentes na jornada de cada um. E é sobre vícios que a antologia de quadrinhos “Segunda-Feira Eu Paro” se baseia e engendra as 14 histórias em preto e branco que compõem o volume de 132 páginas publicado de maneira independente no final de 2019. Com organização de Carlos Jenisch temos nomes conhecidos da cena nacional como Aline Zouvi, Luiza Nasser, Dieferson Trindade, Edson Bortolotte e Gabriel Dantas, entre outros autores. Das histórias as que se destacam mais são “Lama” da Diana Salu e “Café e Cigarros” do Bruno Guma, contudo como um todo o trabalho agrada bem, mesmo que falte uma coesão maior em torno do tema explorado que em algumas tramas acaba não sendo utilizado de modo eficaz.

Nota: 6,0



Juntar Jeff Lemire e o brasileiro Mike Deodato Jr. em um projeto é algo positivo de antemão. Foi o que fez a Dark Horse Comics em “Berserker Unbound” unindo novamente a dupla que fez sucesso em série recente do Thanos com mais as cores de Frank Martin. Lançado nos USA em 2019 em quatro meses ganhou edição brazuca caprichada em 2020 pela editora Mino com 136 páginas. A história apresenta um guerreiro que é arremessado do seu reino de magia para uma grande cidade dos nossos dias. Fala de vingança, dor, culpa, perda e amizade, por mais improvável que essa seja. No cerne é uma trama simples e meio óbvia, mas que por conta da maneira que Lemire constrói o texto acaba deslanchando. No entanto, o destaque é a arte do Deodato, que beira o sublime. É por ela que o trabalho consegue amplitude e ofusca o parceiro igualmente famoso.

Nota: 7,0



Thiago Ossostortos tem trabalhos interessantes na carreira como o jovial “Kombi 95” e o lírico “Os Últimos Dias do Xerife”. Em 2019 publicou outro quadrinho de maneira independente chamado “Mjadra”, uma história que retoma bases queridas como a música e a nostalgia. O protagonista é Derick, um ex-VJ da MTV que ninguém lembra mais. Com a derrocada do casamento ele retorna para morar no mesmo lugar de quando jovem, um retorno típico de quem busca uma sobrevida ou algum tipo de redenção, mas que acaba não surtindo efeito. Derick é um cara amargurado, cheio de bagagem ruim nas costas e acaba interferindo na vida de outras pessoas de maneira contundente. Com 144 páginas e magnificamente pintada a guache, “Mjadra” é sobre não saber seguir em frente e sobre não aceitar que a vida não foi como se sonhou, sendo regada a ótimas cores, canções e uma dose satisfatória de psicodelia.

Nota: 7,5



Paris, anos 20. A cidade luz ferve nas esquinas, bares e cafés. Nessa época o norueguês Jason transforma Ezra Pound, James Joyce, F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway em quadrinistas que procuram sobreviver entre um trabalho e outro, uma cobrança familiar e um desespero para pagar as contas, entre um bate papo e uma crise emocional. Desgostosos com os rumos da carreira resolvem fazer um assalto, que nesse entendimento seria a maneira de descolar uma grana e salvar o dia, o mês, o ano. Vencedor do prêmio Eisner de Melhor Título Estrangeiro em 2007, “A Gangue da Margem Esquerda” é provavelmente o trabalho mais conhecido de Jason e agora em 2020 desembarca no país pela editora Minio com 48 páginas. Unindo diversão, o uso de referências inteligentes, resoluções gráficas certeiras, reviravoltas inesperadas e aquele toque diferente que sempre o autor demonstra é um título que não tem como dar errado.

Nota: 9,0



terça-feira, 17 de março de 2020

Quadrinhos: "Heróis Em Crise", "A Nova Califórnia", "Os Olhos de Barthô" e "Apanhadores de Sapos"

 

Tom King é hoje um dos melhores roteiristas das grandes editoras. São vários acertos na carreira: Batman, Senhor Milagre, Visão, O Xerife da Babilônia. Então quando ficou à frente de “Heróis em Crise”, a saga da DC publicada nos EUA entre novembro de 2018 e julho de 2019 que saiu aqui ano passado pela Panini Comics em 5 edições, a expectativa era boa, também por conta do argumento geral que reside em heróis e vilões sendo atendidos por uma “instituição” para tratar de estresse pós-traumático e depressão. No entanto, dessa vez Tom King errou e errou feio. Começa até bem nas duas primeiras revistas, mas o negócio desanda de tal maneira que além de confusa e mal alinhada, a trama força a barra mais do que o normal. A arte de Clay Mann é no máximo correta e não ajuda em nada o resultado que é para lá de decepcionante.

Nota: 2,0


Uma pequena e pacata cidade do interior onde as águas rodeiam e todos habitantes se conhecem tem a suposta tranquilidade e paz reviradas do avesso quando um novo morador chega e fica trancado em casa a sós com experiências que ninguém sabe ao certo o que são. Quando essas incursões científicas pouco a pouco passam ao conhecimento da população, a ganância e a natureza mesquinha das pessoas tomam conta das ações de modo abrupto. “A Nova Califórnia” é uma adaptação em quadrinhos escrita e desenhada pelo Daniel Araujo em cima do clássico conto de 1910 do escritor Lima Barreto. A obra que já ganhou várias releituras recebeu no ano passado uma das melhores nessa versão, tanto no que concerne a arte quanto a condução do roteiro que demonstra com certo humor embutido como as pessoas trazem consigo um egoísmo e maldade que podem emergir em qualquer momento da pior forma.

Nota: 7,0



Barthô é um cara grandão, forte, mas muito ingênuo e sem maldade no coração. Para ele tudo é bonito, todas as pessoas são legais e o mundo é um lugar sempre bacana de estar. Seu melhor amigo é Nicola que ao contrário é cheio de segundas intenções, pensamentos estapafúrdios e com uma visão de mundo mais cruel. Até que por conta disso, ao achar que está fazendo o bem, o protagonista se mete em uma grande roubada e vê a cabeça degringolar quando precisa lidar com o acontecido. É isso que vemos em “Os Olhos de Barthô” do quadrinista Orlandeli publicado de modo independente em 2019 com 97 páginas. Em mais um trabalho encantador e com uma arte exuberante o autor fala sobre bem e mal, sobre os nossos complicados dias atuais e sobre como o mundo pode ser sim um bom lugar. Nem que seja por um breve momento.

Nota: 7,5



E o Jeff Lemire conseguiu de novo. Já está até meio repetitivo elogiar o trabalho do canadense. Em “Apanhadores de Sapos” que a editora Mino publicou no final do ano passado com 112 páginas em capa dura, ele arregimenta uma fábula fascinante a respeito do envelhecimento e das memórias que ficam (ou não) quando as coisas realmente se encaminham para o final. Em conjunto a isso versa de modo singelo e delicado sobre o poder que cada escolha tem no decorrer da nossa jornada no mundo e trata dos arrependimentos que nos perseguem durante isso. É outro grande trabalho de um autor que parece ter um baú inesgotável de grandes histórias para contar (ainda bem) e que aqui se dá o direito de apresentar uma arte um pouco mais experimental. Uma obra para ler, refletir, ler de novo e dar uma olhadinha para o lado, para aqueles que vivem perto.

Nota: 9,0

Site da editora Mino: http://www.editoramino.com







quinta-feira, 21 de março de 2019

Quadrinhos: "Últimos Deuses", "Adagio", "Gideon Falls - Volume 1: O Celeiro Negro” e "Bone 1 - O Vale ou Equinócio Vernal"


Com campanha de financiamento coletivo na viabilização, “Últimos Deuses” foi publicado em 2018 de maneira independente, com roteiro e letras de Eric Peleias (de “Até o Fim”) e Hiro Kawarara (de “O Bestiário Particular de Parzifal”) na arte e cores. Os dois conduzem bem o trabalho, com destaque maior para os planos e soluções visuais desenvolvidos por Hiro. A trama tem como alicerce deuses antigos que já não são o que eram e se encontram sozinhos, enfraquecidos e passando por perrengues que nunca imaginariam. Alguns deles insatisfeitos com isso embarcam em uma missão nada nobre de acordar uma forte divindade que lhes promete devolver o brilho de outrora, desde que lhe deem a chance de se vingar de Odin. Mesmo que a premissa de deuses perdendo divindade não seja tão original assim, a dupla criadora narra uma boa aventura em quadrinhos com ação e alguns questionamentos, indicando uma possível sequência no final.

Nota: 6,0

Instagram dos autores:


Lançado em dezembro de 2018 na CCXP, “Adagio” do Felipe Cagno (de “The Few And Cursed”) tem 112 páginas em papel couché. A obra teve campanha de financiamento coletivo, publicação posterior pela AVEC Editora e foi incentivada pelo ProacSP. Com arte de Sara Prado e Bräo, cores da Natália Marques e letras de Deyvison Manes, o roteiro mergulha de cabeça na ficção científica em uma história que tem relevantes correlações com os caminhos que nossa sociedade vem trilhando. Os fatos são ambientados em 2067 onde uma rede social chamada Adagio toma conta do mundo. Nela, os usuários postam os sonhos e correm desesperadamente atrás de interações sendo esse o entretenimento quase absoluto dessa era. Kaya é uma das pessoas que buscam virar sucesso a qualquer custo, mas quando isso acontece não é bem como ela pensava. Conversando sobre solidão, futilidade social e vazio espiritual temos mais um ótimo trabalho nacional.

Nota: 8,0

Twitter do criador: https://twitter.com/Felipe_Cagno


Jeff Lemire é provavelmente o maior nome dos quadrinhos da atualidade, conseguindo se destacar tanto com heróis conhecidos como em trabalhos autorais. No Brasil, o autor aparece com frequência nos últimos anos (e isso é excelente), sendo que “Gideon Falls - Volume 1: O Celeiro Negro” é mais um exemplo disso. Sucesso nos EUA, o trabalho feito com Andrea Sorrentino na arte - repetindo a parceria que brilhou em “O Velho Logan” -  ainda conta com as cores do grande Dave Stewart. Com 160 páginas, capa dura e publicação em 2018 pela Editora Mino o trio apresenta uma trama de terror onde os fatos são apresentados sem muita pressa, dando ao leitor aquela sensação tensa de suspense sobre o que virá. Entrelaçando os destinos de um jovem com uma estranha mania e um padre que tem a derrota como fiel amiga, apresentam uma história envolvente que só tende a crescer mais.

P.S: O segundo volume será publicado pela Mino mês que vem.

Nota: 8,5



E lá vamos nós de novo e outra vez para mais um capítulo da saga de “Bone” no Brasil (e que ao que tudo indica parece ser o final feliz). A obra-prima do quadrinista Jeff Smith já foi publicada no Brasil pela Via Lettera e HQM Editora, mas nunca de maneira completa. Agora a casa nacional dos primos Fone, Phoney e Smile é a Todavia Livros que em 2018 lançou uma edição com as cores de Steve Hamaker e 448 páginas reunindo os 20 primeiros números da série que saíram nos EUA entre julho de 1991 e outubro de 1995. Vencedora de dezenas de prêmios importantes, “Bone” é o tipo de obra que agrada e emociona até mesmo quem não gosta de quadrinhos. A aventura dos primos no misterioso Vale é repleta de ação, humor variado, fantasia e tragicomédia enquanto apresenta personagens repletos de brilho e criaturas pra lá de exóticas. Obra imprescindível.

P.S: A Todavia lançará o restante da série em mais dois volumes.

Nota: 9,5





quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Quadrinhos: "Bloodshoot Renascido Vol. 1", "Devaneios: A Estrada Até Aqui", “Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro” e "Os Últimos Dias do Xerife"


Bloodshot foi criado nos anos 90 por Kevin VanHook, Don Perlin e Bob Layton. Inserido no universo da Valiant Comics é uma “arma” criada por um projeto privado que ao despejar vários nanites no sangue o tornaram super-humano com diversos poderes como o da regeneração.  “Bloodshoot Renascido Vol. 1 – Colorado” que a editora Jambô publicou no final de 2018 com 144 páginas apresenta as cinco primeiras edições lançadas em 2015 nos EUA com roteiro do Jeff Lemire e arte do Mico Suayan e Raúl Allén, trazendo o personagem escondido em uma cidade pequena onde tenta levar uma vida normal depois que os nanites saíram da corrente sanguínea. Lógico que isso não dura e ele volta a caçada com toda a violência que tem direito. É um reinício mediano comandado por Lemire que serve para quem não conhece e preparar para o filme do ano que vem com Vin Diesel estrelando.

Nota: 6,0


Yorhán Araújo é carioca de Volta Redonda e desde 2015 faz a tirinha “Devaneios com Sigmund e Freud” onde um cachorro, um raposo, uma capivara e um gato muito diferentes entre si conversam em poucos quadros sobre questões cotidianas, de comportamento e existenciais, indo também para outras esferas de vez em quando. Com quase 500 mil seguidores espalhados entre Facebook e Instagram o autor promoveu uma bem-sucedida campanha de financiamento coletivo no ano passado para publicar a primeira coletânea física do trabalho. O resultado foi “Devaneios: A Estrada Até Aqui” com 140 páginas que reúne conversas humoradas sobre as nossas neuroses diárias e pequenos e simples prazeres da vida como comer e dormir. A diferença das personalidades dos personagens é que transforma a dinâmica em algo bacana, contrastando de modo interessante o cachorro meio preguiçoso, o raposo intelectual, o gato mal-humorado e irônico e a simpática e prestativa capivara.


Nota: 6,5


Daniel Clowes publicou na revista Eightball entre os anos de 1989 e 1993 os 10 capítulos de “Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro” que a editora Nemo lançou aqui no ano passado com tradução de Jin Anotsu e 144 páginas. A obra do conceituado autor de “Ghost World”, “Wilson” e “Paciência” já tinha recebido uma edição nacional anteriormente pela Conrad. Na trama, Clay Loudermilk assiste a um filme sado-masoquista no cinema com uma ex-namorada como atriz, o que o deixa intrigado para saber mais sobre a produção. Essa busca envolve o protagonista em situações estranhas e bizarras ao extremo, com figuras excêntricas ao seu redor. Underground e nonsense até a alma com o surrealismo ditando as ações sem qualquer tipo de pudor ou controle, a obra até hoje é citada como influência por diversos autores no meio dos quadrinhos alternativos e só por isso já vale a conferida.


Nota: 7,0


“Os Últimos Dias do Xerife” traz o quadrinista e músico paulista Thiago Ossostortos se debruçando sobre o relacionamento com o pai seja no decorrer da vida ou nos últimos momentos passados com ele antes do seu falecimento. Bem diferente do clima de “Kombi 95” de 2017 que trazia o humor como carro-chefe, o novo trabalho publicado de maneira independente por financiamento coletivo no finalzinho de 2018 tem a contemplação e o lirismo como condutores de uma história pautada por silêncios, pequenas brigas, diferenças de pensamento, mas com o amor sempre por trás. Nas 200 páginas em preto e branco o autor analisa uma relação que exibia poucos pontos em comuns com o pai como o gosto por filmes e questiona a validade de tudo até ali. É uma obra poética que encontrará identificação em vários e vários leitores com o poder de fazer algumas lágrimas caírem no meio da leitura.


Nota: 8,5




quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Melhores Quadrinhos de 2018

Salve, salve, minha gente amiga.

Segue a listinha do que teve de melhor de quadrinhos em 2018 por aqui.  A única regra é ter sido lançado no país em 2018 seja pela primeira vez ou em reedições. Para ficar claro, me baseei no lançamento nacional e não do original em outro país, quando for o caso.

Novamente foi um grande ano e a maioria das obras citadas tem resenha aqui no blog:

MELHORES HQ’S DE 2018 - NACIONAL

1 – Teocrasília – Denis Mello (Editora Caligari)
2 – O Outro Lado da Bola – Alvaro Campos, Alê Braga e Jean Diaz (Editora Record)
3 – Ar Condicionado – Gustavo Piqueira (Editora Veneta)
4 – Jeremias: Pele – Rafael Calça e Jefferson Costa (Panini)
5 – Cadafalso – Alcimar Frazão (Editora Mino)
6 – Até Aqui Tudo Bem – Rafael Corrêa (Independente)
7 – Garotos do Reservatório – Celio Cecare e Fábio Cobiaco (Editora Mino)
8 – Silas – Raphael Pinheiro (AVEC Editora)
9 – Bipolar – Renan Rivero, Diogo Torres e Ramon Saroldi (Independente)
10 – Todos Os Santos – Marcelo Quintanilha (Editora Veneta)

Menção honrosa:  “Hell No - 2” do Leo Finocchi. Publicação da Balão Editorial.

MELHORES HQ’S DE 2018 – INTERNACIONAL

1 – A Marcha: Livro 1 – John Lewis, Andrew Yadin e Nate Powell (Editora Nemo)
2 –  Nada a Perder – Jeff Lemire (Editora Nemo)
3 –  Sem Volta – Charles Burns (Companhia das Letras)
4 – Uma Irmã – Bastien VIVÉS (Editora Nemo)
5 – Blacksad, Vol. 4: O Inferno, O Silêncio – Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido (SESI-SP Editora).
6 – Sala Imaculada – Gail Simone e Vários (Panini Comics)
7 – Black Hammer: O Evento – Jeff Lemire, Dean Ormston, David Rubín e Dave Stewart (Intrínseca)
8 – Orks – Nicolas Tackian e Nicolas Guénet (Mythos Books)
9 – Flinch: Horror e Desespero – Vol. 1 e 2 – Vários (Panini)
10 – Ragemoor – Jan Strnad e Richard Corben (Editora Mino)

Menção honrosa:  “Gavião Arqueiro: Rio Bravo”, último encadernado do Matt Fraction e David Aja pela Panini.

MELHORES SÉRIES CONTÍNUAS DE 2018

1 – Batman: Cavaleiro Branco – Sean Murphy e Matt Hollingsworth (Panini)
2 – Demolidor – Charles Soule e Vários (Panini)
3 -  Exterminador – Christopher Priest e Vários (Panini)
4 – Império Secreto – Vários (Panini)
5 – Homem-Aranha e Os Campeões – Mark Waid, Brian Michael Bendis e outros (Panini)

É isso. Paz sempre.

domingo, 21 de outubro de 2018

Quadrinhos: "Trillium", "Batman: Gotham 1889", "Uma Irmã" e "A Vida de Jonas".

A quantidade de trabalhos disponíveis do canadense Jeff Lemire no país só vem aumentado, o que é sempre interessante. Outra obra do autor que chegou aqui esse ano foi “Trillium”, uma ficção científica ancorada em dois polos bem distintos: os anos de 1921 e o de 3797. No primeiro ponto temos o soldado William Pike atordoado com os efeitos da primeira guerra mundial, no segundo conhecemos Nika Temsmith uma cientista em busca da cura para um vírus capaz de acabar de vez com a humanidade. A edição da Panini Comics tem 208 páginas em capa cartonada reunindo a história originalmente lançada entre outubro de 2013 e junho de 2014 nos EUA pelo selo Vertigo da DC Comics. Lemire constrói uma ponte para unir esses lados e no meio fala sobre amor, medo, xenofobia, preconceito e a inesgotável estupidez humana.

Nota: 7,0


Mantendo a toada das republicações de materiais dos anos 80 e 90 da DC, a Panini Books lança “Batman: Gotham 1889” em álbum de luxo com capa dura e 120 páginas. Apresentam-se duas histórias: a primeira que dá nome ao título lançada em 1989 e a sequência chamada “Mestre do Futuro” original de 1991. Ambas já haviam sido publicadas aqui pela editora Abril no início dos anos 90, mas agora estão juntas nessa viagem do roteirista Brian Augustyn dentro da linha Elseworlds que permite essas repaginações meio malucas. O destaque fica por conta da primeira história que conta com os desenhos do grande Mike Mignola e arte final de P. Craig Russell, onde o cavaleiro das trevas se depara com Jack, o Estripador em Gotham. Com uma toada detetivesca e sem muitas invenções temos uma trama contundente e divertida.

Nota: 7,0


No que parece ser umas férias como outra qualquer, o adolescente Antoine embarca com os pais e o irmão mais novo rumo ao litoral. Mas, dessa vez as férias serão inesquecíveis, com direito a aqueles dias que para sempre irão pontuar a memória devido a presença de Hélène, a filha de uma amiga dos pais um pouco mais velha que ele. Esse é o mote de “Uma Irmã”, novo trabalho do francês Bastien VIVÈS de “O Gosto do Cloro” com lançamento nacional no primeiro semestre 2018 pela editora Nemo com 216 páginas. O autor forja um enredo ao mesmo tempo crua e terna, com o despertar do desejo como força motriz e responsável por suplantar problemas pessoais e familiares. VIVÈS usa de grande habilidade para contar a história desses dois jovens em meio a descobertas, inadequação e crescimento. Bem bonito.

Uma amostra: https://grupoautentica.com.br/nemo/amostra/1564 


Nota: 7,5



“A Vida de Jonas” dos irmãos Magno e Marcelo Costa saiu em 2014, contudo ganhou reedição em 2017 pela Zarabatana Books com 64 páginas. O protagonista que dá nome ao título é um ex-alcoólatra (e a duras penas busca ficar assim) que por conta do vício perdeu a mulher e o emprego, está com a vida ainda jogada para cima e tenta se reerguer como pode. Com o apoio de reuniões do AA e de um amigo, a esperança volta ao peito até ser novamente destroçada em um encontro com o atual namorado da ex-mulher. A partir disso temos uma sequência de acontecimentos que vão definir não somente a vida de Jonas como também daqueles a sua volta. Usando fantoches na arte (como Muppets), a dupla alivia e amplifica ao mesmo tempo questões sérias em uma história pesada e muitíssimo bem construída.

Nota: 9,0



domingo, 29 de julho de 2018

Quadrinhos: "Crononautas", "Hell, No!" e "Nada a Perder"


Olha essa escalação: Mark Millar (Kick-Ass) no roteiro e criação, Sean Gordon Murphy (Punk Rock Jesus) na arte e criação e o mestre Matt Hollingsworth responsável pelas cores. Não tem como dar errado, correto? Pois é, é difícil de acreditar mas deu em “Crononautas”. Se deu. Lançado nos EUA em 4 edições entre março e junho de 2015 ganhou edição nacional em 2018 pela Panini Books com capa dura, 120 páginas e tradução de Eric Novello. A história é uma ficção científica que não ambiciona detalhamento ou expandir conceitos, o que passa longe de ser um problema, diga-se aqui, porém a caracterização e condução da trama é rasa demais até para esse tipo de modelo, parecendo ter sido feita com pressa e com certa preguiça. Bancados pelo governo os amigos Corbin Quinn e Danny Reilly conseguem desvendar a viagem do tempo e depois do sucesso das primeiras tentativas partem para uma missão tripulada. Seus trajes lhe permitem passear por qualquer momento da história e isso causa um problema danado depois que a dupla simplesmente resolve mandar o governo às favas e viver a própria vida. Para dizer que não tem nada que se salve, a arte de Sean Murphy rende bons momentos. E só.

Nota: 3,0


Lúcio é um garoto no mínimo peculiar. Ele é filho do Diabo com uma humana. Sim, o Diabo mesmo. O próprio. Como ele é - por assim dizer – mestiço, tem que aguentar a convivência nada tranquila com os dois irmãos enquanto frequenta a escola que logicamente fica no inferno. Para complicar mais as coisas, seu melhor amigo é um pequeno demônio que curte Deus e só anda com a bíblia. Esse é o mote de “Hell No!”, criação do quadrinista brasileiro Leo Finocchi (de “Nem Morto”) que já tem duas edições (uma de 2017 e outra de 2018), ambas viabilizadas através de financiamento coletivo em conjunto com a Balão Editorial. Cada uma tem 30 e poucas páginas e com uma pegada bem jovem, tem no humor a grande força. A história é bem divertida explorando tanto a parte visual quanto piadas do cotidiano e quando os irmãos se colocam no meio de um diabólico (ok, não me controlei, foi mal) plano que visa destituir o Diabo do comando e são enviados a Terra para viver no meio dos humanos a coisa passa a render mais ainda. Publicado também de modo online no site Tapastic, “Hell No!” é uma aventura despretensiosa no melhor sentido e bem bacana.

Nota: 7,0


Nascido em 1976 o canadense Jeff Lemire é provavelmente o quadrinista mais interessante da atualidade. Com grandes trabalhos autorais no currículo como a obra-prima “Condado de Essex”, exibe também passagens relevantes nas editoras maiores como DC, Marvel e Dark Horse. Tudo (ou quase tudo) que carrega o seu nome é digno de nota e não é diferente com “Nada a Perder” (Roughneck, no original), publicação nacional desse ano da editora Nemo com 272 páginas e tradução de Jim Anotsu. Com o habitual traço e dessa vez se utilizando de tons mais azuis aliados ao preto e branco, Lemire conta a história de Derek Ouelette, um ex-jogador profissional de hóquei que tinha um futuro promissor, mas que ferrou com tudo devido ao temperamento. Hoje vive na pequena cidade que nasceu, mora em um buraco e trabalha na cozinha de uma lanchonete. É um cara difícil, amargurado e violento que tem o álcool como melhor amigo. Um babaca brigão, em resumo. Porém, quando alguém que já parecia perdida reaparece, as coisas tomam um inesperado caminho. Explorando recursos já usados anteriormente como frio, neve, dor, arrependimento e culpa, o autor constrói um triste e silencioso balé que tem origens profundas e parece não oferecer nenhum tipo de redenção ou esperança.

Nota: 9,0



quinta-feira, 17 de maio de 2018

Quadrinhos: "O Bestiário Particular de Parzifal", "Thanos Retorna" e "Potestade - Homem-Aranha"


“O Bestiário Particular de Parzifal” de Hiro Kawarara surgiu através de uma campanha de financiamento coletivo, mas depois ganhou o apoio da editora Sesi-SP e foi publicado no final do ano passado com 80 páginas. O autor nascido em Mogi das Cruzes no estado de São Paulo em 1965 é ilustrador, diretor de arte e professor. Nesse trabalho usa o mito de Parsifal - o “cavaleiro tolo” da Távola Redonda do Rei Arthur - para inspirar sua protagonista. Parzifal é uma garota que viveu com a mãe isolada e escondida em uma floresta para fugir de uma profecia. Para suprir a solidão criou vários amigos imaginários e um universo próprio, contudo isso chega ao fim aos 24 anos com a mãe já falecida e a saída dela da floresta para a “vida real”. Sem traquejo social algum para sobreviver no mundo sofre bastante para se estabelecer. Anos depois, com uma filhinha bem doente retorna para a floresta atrás da ajuda mágica dos antigos amigos, o que não caminha muito bem. Passando por três períodos de tempo distintos e com arte fofinha e boas cores, a obra agrada sem maiores pretensões com uma história de fantasia, família, amizade, escolhas e o peso delas quando a vida bate fortemente.

Nota: 6,0

Site do autor: http://www.hiro.art.br


Thanos, Thanos, Thanos. Nunca o vilão criado por Jim Starlin nos anos 70 esteve tão presente na cultura pop como agora devido não somente ao novo filme dos Vingadores onde é o destaque, como também por ser peça atuante dentro dos quadrinhos da equipe nos últimos anos. Em janeiro de 2017 uma nova tríade criativa formada pelo excelente Jeff Lemire no roteiro, o brasileiro Mike Deodato Jr. na arte e Frank Martin nas cores assumiu o título do personagem. O resultado podemos ler agora em “Thanos Retorna”, volume encadernado de 140 páginas que reúne as edições 1 a 6 lançadas nos EUA durante o primeiro semestre do ano passado. Devido a acontecimentos não muito interessantes para si, o seu território está agora sob o comando de Corvus Glaive, um antigo subordinado e membro da Ordem Negra. Ao voltar para retomar o controle do Quadrante Negro, Thanos percebe que mesmo que esse controle volte até facilmente para si, as coisas não serão tão simples no futuro próximo. Um interessante grupo formado por familiares, inimigos e uma antiga paixão se forma para acabar de vez com a história do Titã Louco, que cada vez mais frágil e mortal se vê metido em algo que nunca esteve antes.

Nota: 7,0


Virou moda nos últimos anos coleções de quadrinhos em capa dura que formam mosaicos, etc. e tal. Naquela que ostenta ser a “coleção definitiva” do Homem-Aranha, temos na edição 11 uma grande obra subestimada. Trata-se de “Potestade”, originalmente publicada em 4 edições e que aqui já tivera edição em 2007, antes dessa do início de 2018. É uma das histórias mais fortes que o aracnídeo já teve, ainda com humor, mas pesada e cheia de sombras, com claras referências a “O Cavaleiro das Trevas” do Frank Miller. O roteiro é de Kaare Andrews em arte conjunta com José Villarubia. Em um futuro alternativo Peter Parker mora num minúsculo apartamento 30 anos após a aposentadoria. Mary Jane está morta, assim como todas as pessoas próximas e ele tenta se virar como pode, sendo que sua própria sobrevivência gerou o maior sofrimento. A cidade está livre de vilões graças a um governo fascista que com o apoio da mídia engana a população lhes prometendo segurança enquanto lhes corta a liberdade. Porém, quando um velho “amigo” aparece na porta de Parker as coisas começam a tomar outro rumo. Com 164 páginas, capa dura e arte quase toda horizontal permeando uma visão de cinema temos uma obra obrigatória para os fãs do amigão da vizinhança.

Nota: 9,0