terça-feira, 5 de setembro de 2017

Cinema: "Atômica" e "Planeta dos Macacos: A Guerra"


Charlize Theron é daquelas atrizes que não importa o tipo de papel que desenvolva, sempre teremos um trabalho de qualidade onde ela se dedicará com muito afinco a personagem. Isso não foi diferente em “Atômica” (Atomic Blonde, no original) que estreia agora nos nossos cinemas. Filme de ação ambientado no fim dos anos 80 traz a sul-africana lindíssima e sensual como de costume distribuindo socos e pontapés como uma agente secreta britânica na Alemanha embalada por músicas da época de nomes como Depeche Mode, New Order, Queen e David Bowie, The Clash, Eurythimics e George Michael. Aliás, a trilha faz muita diferença na película. Espécie de projeto pessoal da atriz, desenvolvido por meio da sua empresa de produção, o longa é uma adaptação da HQ “The Coldest City” de Anthony Johnston e Sam Hart dirigida com ferocidade e humor pelo ex-dublê e diretor de “John Wick”, David Leitch. Quando um agente britânico é assassinado em Berlim, Lorraine Broughton (Charlize Theron) é designada para descobrir o que houve e recuperar uma lista que contêm o nome de diversos agentes disfarçados e que não pode cair em mãos erradas. Ok, nada muito original, tudo bem, mas estamos em plena guerra fria e o muro que divide a Alemanha está prestes a sucumbir, o que faz com que não se preste muita atenção a isso. Chegando lá ela encontra David Percival (um ótimo James McAvoy), agente há muito residente na cidade e cheio de manias, que em teoria deverá lhe ajudar. Com elenco que conta ainda com Toby Jones, John Goodman e a estonteante Sofia Boutella, “Atômica” brilha junto com sua protagonista, mostrando que Charlize Theron sempre pode muito, mas muito mais, que o digam as vastas e incríveis cenas de ação que ela participa e que lhe renderam contusões e dentes quebrados nas gravações. Que mulher, que mulher.

Nota: 8,0


Quando “Planeta dos Macacos: A Origem” saiu em 2011 não se esperava que uma trilogia de nível tão alto viesse pela frente, verdade seja dita. O primeiro longa dirigido por Rupert Wyatt que contava a origem de César (Andy Serkis), no entanto, era tão bom que deixou as expectativas em cima. Expectativas que se confirmaram em “Planeta dos Macacos: O Confronto” de 2014 já com o diretor Matt Reeves no comando e que agora em 2017 com “Planeta dos Macacos: A Guerra” (War Of The Planet Of Apes) fecha com a chamada chave de ouro. O último capítulo da trajetória dos macacos para o comando da terra e de como os humanos sucumbiram como espécie dominante é aquele onde as analogias e metáforas se fazem mais fortes e tem mais peso devido ao conturbado momento em que vivemos no mundo, onde velhas e estúpidas ideologias ganham novamente voz e os sentimentos mais destrutivos da humanidade se projetam em redes sociais e em ruas de vários países. Na trama derradeira, César (Andy Serkis, novamente) busca um novo local para levar seu povo quando vê a esposa e o filho assassinados pelo Coronel (Woody Harrelson). A vingança invade a mente e com alguns escudeiros ele parte para o troco encontrando no caminho o engraçado macaco Bad Ape (Steve Zahn) e a criança Nova (Amiah Miller) que carrega outra variação do vírus símio. Com a tecnologia de captação de movimentos mais avançada a interação dos macacos é ainda mais crível e os efeitos especiais são um show à parte. Todavia, as cenas de ação de “Planeta dos Macacos: A Guerra” não são o ponto principal da obra, apesar do destaque. Esse ponto reside no trato entre humanos e macacos, relembrando as páginas mais tristes da história, como também no fato de que não há mocinhos, todos, inclusive aqueles com intenções mais nobres, estão dispostos a atos vis para a sobrevivência da espécie, o que faz o filme ir muito além do que propõe inicialmente.

Nota: 9,0

Assista a trailers legendados:



sábado, 2 de setembro de 2017

Cinema: "King: Uma História de Vingança" e "Como Nossos Pais"


Em “King: Uma História de Vingança” (Message From The King, no original) filme de 2016 que recentemente entrou na grade do Netflix por aqui, o Pantera Negra dos filmes da Marvel Chadwick Boseman interpreta Jacob King, um sul-africano que desembarca na cidade de Los Angeles atrás do paradeiro da irmã mais nova (Sibongile Mlambo da série “Black Sails”). Tudo é muito incerto, pois a única pista que tem é uma ligação falha e um endereço antigo, mas com alguma destreza para o motorista de táxi que diz ser na imigração do aeroporto, ele vai superando e montando o quebra-cabeça que se apresenta. Filme do diretor belga Fabrice Du Welz (de “Calvaire” e “Alléluia”), o trabalho conta com um elenco bastante interessante. Estão presentes nomes como Luke Evans, Alfred Molina, Teresa Palmer, Tom Felton, Dale Dickey e Chris Mulkey, alguns deles em papéis bem curtos. O roteiro escrito por Oliver Butcher (“Desconhecido”) e Stephen Cornwell (“O Homem Mais Procurado”), insere o protagonista em uma Los Angeles bem distante do glamour e dos holofotes e tapetes vermelhos, ainda que esses de certa maneira ainda façam parte da trama como pano de fundo. Ao ir atrás da vingança que o título nacional já entrega de antemão, Jacob King explode em ira não poupando quem aparece no caminho, mas não daquela maneira banal de entrar em um canto como um doido e sair atirando em todo mundo de qualquer jeito, mas sim usando medidas inteligentes e alguns ardis. Tentando ser o mais realista possível e conseguindo isso em certa escala, o longa apresenta uma boa exibição de Chadwick Boseman e mesmo sem muitas surpresas é um suspense de ação que cumpre com as prerrogativas básicas desse estilo, contando como bônus o já citado interessante elenco de apoio.

Nota: 6,0


Logo no início de “Como Nossos Pais” que estreou nos cinemas no final de agosto já se vê que a personagem Rosa está com sinais de cansaço no rosto. A partir do almoço na casa da mãe (Clarisse Abujamra, em trabalho inspirado), esses sinais só avançam e se agravam. Aos poucos a vida da protagonista de 38 anos vivida de maneira contundente pela atriz Maria Ribeiro, sai dos eixos e desanda. Ela descobre que o pai não é quem pensava, o casamento com Dado (Paulo Vilhena) está em queda livre, as pressões das filhas em crescimento são motivos de estresse diário, é demitida do trabalho do qual já não gostava muito, e ela, como mulher forte que sempre precisou ser tem que saber lidar com tudo isso, mesmo que não saiba como. Grande vencedor do festival de Gramado desse ano, o filme da diretora Laís Bodanzky (de “Bicho de Sete Cabeças” e “As Melhores Coisas do Mundo”), como é inerente ao seu trabalho, aposta na força dos diálogos e no dia a dia dos personagens que reagem as coisas que lhe acontecem, mas sem imprimir mudanças drásticas na trama. Essa proximidade maior com a vida que estamos acostumados a conhecer impulsiona esse drama com toques tragicômicos no meio em mais uma obra de qualidade dentro da carreira. Com atuações consistentes de Maria Ribeiro (entre a fragilidade, o medo e a dureza), de Clarisse Abujamra e a participação mais que especial de Jorge Mautner como o pai anterior de Rosa, até alguns deslizes são perdoáveis como os que se referem a busca pelo novo pai e ao relacionamento dentro do casamento. “Como Nossos Pais” é um filme alinhado aos nossos tempos de tecnologia e na pressão exercida sobre mulheres que precisam ser profissionais hábeis, mães, esposas, filhas, donas de casa e o que mais vier, sempre no tudo ao mesmo tempo agora, sem alívio aparente.

Nota: 8,0

Assista aos trailers dos filmes:


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Séries: "O Nevoeiro" e "Os Defensores"

 

Tudo corre mais ou menos dentro da normalidade em uma pequena e tradicional cidade do estado do Maine nos EUA. O espectador é apresentado a alguns personagens e a um pouco do cotidiano, quando no dia seguinte conhece o fato que a jovem Alex (Gus Birney), filha do casal Kevin (Morgan Spector) e Eve (Alyssa Sutherland) foi estuprada em uma festa na noite anterior, sendo que seu melhor amigo Adrian Garf (Russell Posner) afirma que o culpado é o capitão do time de futebol da escola e filho do xerife local, Jay Heisel (Luke Cosgrove). Enquanto o fato começa a ser apurado e as tensões se espalham, uma forte e dura névoa cobre a cidade. O que a princípio é visto como uma alteração climática, se altera e ganha transtornos dramáticos e sobrenaturais. Assim temos “O Nevoeiro” (The Mist, no original), série com 10 episódios na primeira temporada, disponibilizada agora em agosto no Netflix. É baseada em um conto de mesmo nome de Stephen King publicado pela primeira vez em 1980 e que já tinha virado filme em 2007 pelas mãos do diretor Frank Darabont. Nesta nova adaptação o criador é Christian Torperf (de “Rita”) que insere modificações ao texto original, mas mantêm a essência da obra. Com o fenômeno alastrado e angariando vítimas em sequência os habitantes passam a ficar em lugares fechados (como um shopping) o que não demora a suscitar conflitos internos. Junto a essa guerra de sobrevivência contra si mesmos e o terror desconhecido que espreita fora das portas fechadas, a série investe em uma trama paralela forte (a do estupro) e adiciona nas entrelinhas discussões sobre racismo, xenofobia e misoginia, que se mostram tão interessantes quanto o medo do fantástico. Se as atuações fossem melhores e não tão comuns o resultado final seria até mais empolgante.

Nota: 7,0


Dia 18 de agosto a Netflix disponibilizou a primeira temporada de “Os Defensores” na plataforma, estancando a ansiedade sobre como seria essa reunião dos heróis já mostrados em séries individuais. Grande aposta da Marvel com o canal de streaming, estão lá inseridos Demolidor (Charlie Cox), Jessica Jones (Krysten Ritter), Luke Cage (Mike Colter) e Danny Rand (Finn Jones), em conjunto com parte do elenco de apoio de cada um. O nome “Os Defensores”, na origem dos quadrinhos, começou nos anos 70 com uma equipe completamente maluca formada por nomes díspares e individualistas (Hulk, Dr. Estranho, Namor e Surfista Prateado, por exemplo). Nessa nova versão do nome que já ganhou transposição para os quadrinhos pelas mãos do craque Brian Michael Bendis, o grupo engloba uma roupagem mais urbana e menos fantástica, porém ainda com essa pegada individual dos integrantes. Concebida pela dupla Douglas Petrie e Marco Ramirez responsável pela controversa (e fraca) segunda temporada de “Demolidor”, o primeiro acerto fica por conta da quantidade de episódios, usando 8 ao invés de 13, o que não deixa as coisas ficarem maçantes. Para unir esses elos em um único objetivo, usa-se Claire Temple (Rosario Dawson) e adiciona-se como antagonista principal a sempre misteriosa associação do Tentáculo, representada pela enigmática Alexandra (Sigourney Weaver) que aos poucos abre os objetivos pretendidos. “Os Defensores” agrada, mas no placar geral fica aquém das empreitadas solo de Jessica Jones e Luke Cage na telinha. Conta com a reabilitação da personagem de Elodie Young como Elektra Natchios em atuação bem superior à que vimos antes, entretanto esbarra nas dezenas de dúvidas que continuam permeando o Demolidor e no desempenho novamente sofrível de Finn Jones como Punho de Ferro, o que só se agrava se levarmos em conta que ele é uma espécie de centro onde a trama gira.

Nota: 7,5

Assista aos trailers legendados:


terça-feira, 29 de agosto de 2017

Séries: "Travelers" e "Designated Survivor"


Com todas as cagadas que a humanidade faz tanto ambientais quanto no próprio trato aos semelhantes é de imaginar que o futuro distante não reserve nada muito bom para quem lá chegar, não é mesmo? Bom, é com essa imagem de futuro que a série “Travelers” trabalha. Produção original da Netflix com o canal canadense Showcase teve a primeira temporada disponibilizada na plataforma em outubro do ano passado com 12 episódios (a segunda está prevista para estrear em outubro de 2017). Criação de Brad Wright (do universo “Stargate”) traz como personagem principal o experiente Erick McCormack (de “Will & Grace”), um agente do FBI chamado Grant MacLaren, mas que não é bem quem diz ser. Unindo policial, suspense e ficção científica, “Travelers” apresenta ao espectador uma trama onde o futuro está condenado e a forma de solução encontrada para ajustar isso é voltar no tempo para corrigir ou evitar os acontecimentos que levaram a esse colapso, de posse do conhecimento acumulado até então. Só que a maneira que esses viajantes retornam aos nossos dias não é fisicamente e sim tendo a memória suplantada em pessoas, segundos antes dessas falecerem. Isso faz com que não somente herdem a vida do hospedeiro e tenham que continuar com ela seja de que maneira for, como também tenham compartilhadas as memórias anteriores o que é prerrogativa suficiente para gerar uma gama de conflitos elevada. A equipe que vem do futuro junto ostenta suas próprias particularidades com mentes entrando em um viciado em heroína e em uma mãe recente com problemas com o esposo policial. Com atuações apenas razoáveis na totalidade e um enredo que toda vez que aparenta que vai engrenar não engrena, “Travelers” é uma série que agrada quem gosta de ficção científica e afins, divertindo sem compromisso nesse sentido, mas para por aí.

Nota: 6,0


O Estado da União é uma data tradicional onde geralmente em formato de discurso o Presidente dos EUA - em linhas gerais - presta contas ao congresso do ano e apresenta relatórios e propostas necessárias para o futuro. Por lei um integrante do governo é excluído do evento e deixado em local distante para que caso haja um atentado ou alguma catástrofe, o governo e o país possam seguir adiante. Bom, na série “Designated Survivor” da ABC esse desastre acontece e todos os integrantes do governo são mortos após um ataque fulminante. Criada por David Guggenheim (roteirista de “Protegendo o Inimigo”) traz Kiefer Sutherland de volta a televisão em um papel de destaque. Ele é Tom Kirkman, secretário de habitação do governo prestes a ser demitido, que foi o sobrevivente designado no dia da tragédia e acaba assumindo o comando da nação sem ter a mínima noção do que está fazendo. Mas, ao contrário de certos indivíduos que na vida real estão nessa situação, Kirkman é um homem justo, de bom coração e ideais nobres, um verdadeiro unicórnio dentro da política. Distribuída internacionalmente pela Netflix gradualmente de acordo com a liberação original, os 21 episódios da temporada inicial que terminou em maio de 2017 (uma segunda está a caminho) passam por uma verdadeira metamorfose. De início fraco, sem ritmo, repleto de clichês mil e com Sutherland mais uma vez emulando gestos e trejeitos de Jack Bauer de "24 Horas" na atuação, a série vai engatando lentamente. Dividida entre a condução da gestão política e o thriller de suspense que visa desmascarar a conspiração que causou o ataque (tinha que ter uma, lógico), se configura no seu terço final em boa pedida de entretenimento, com destaque para as atuações de Virginia Madsen (“Sideways - Entre Umas e Outras”) como uma deputada republicana e Kal Penn (“Madrugada Muito Louca”) como secretário de comunicação do governo.

Nota: 7,0

Assista a trailers legendados das séries:


domingo, 27 de agosto de 2017

Quadrinhos: "Arvorada" e "Aqui"


Dentro das criações de Mauricio de Sousa, Chico Bento é a maior depois do quarteto de ferro do autor formado por Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali (quando não ofusca um ou outro desse time). Criado em 1963 já tinha sido utilizado em uma edição do projeto Graphic MSP em 2013 pelo Gustavo Duarte em “Pavor Espaciar”. O trabalho tinha boa arte, mas era insossa e insípida no contexto geral, deixando bem a desejar. Agora em 2017 chegou a vez do paulista Orlandeli (de “Grump”) dar nova chance ao personagem e dessa vez o resultado atingido é completamente oposto. “Arvorada” tem 100 páginas, lançamento pela Panini Comics e apresenta o que Chico Bento tem de melhor, toda sua caipirice e bom coração ali entre as traquinagens e a inocência, a patetice e a molecagem, englobando tudo em uma história maior sobre coisas que não podemos deixar para depois sobre o risco de passarem e não termos mais, dos arrependimentos que podem surgir oriundos disso no futuro, de aproveitar ao máximo as pessoas quando elas ainda estão ao seu lado. Orlandeli, também nascido no interior, acerta em cheio ao contar essa história que apresenta a Vó Dita como personagem fundamental, além de incluir no texto outros nomes importantes como Zé Lelé e Rosinha. Quem nasceu e cresceu no interior com avós presentes na caminhada é impossível não sentir um leve aperto no coração na parte final. O visual de “Arvorada” está entre o que de melhor o Graphic MSP exibiu até agora ao lado de “Louco - Fuga”. A arte e a maneira encontrada por Orlandeli de relacionar as páginas não pode ser chamada de menos que bela, sendo que ainda assim, isso deve ser pouco. Leia, depois leia para o filho, sobrinho, o que for. E se der, aproveite e compre ou empreste para o filho do vizinho ou do melhor amigo. Eles vão gostar.

Nota: 8,0


O americano Richard Mcguire é daqueles que atuam com distinção em vários segmentos. É renomado designer gráfico, além de autor de livros infantis, músico e roteirista. É também quadrinhista, responsável por “Aqui” (Here, no original), que a Companhia das Letras lança esse ano no país pelo selo Quadrinhos na Cia. com 304 páginas e tradução de Érico Assis. O projeto inicial foi concebido no final dos anos 80 após uma aula com o grande Art Spiegelman (autor de “Maus”), que levou a história de 6 páginas para a revista independente Raw. Em 2014 a obra ganhou a versão estendida que temos o prazer de conhecer agora. Em “Aqui” o autor utiliza o mesmo espaço físico durante um vasto espaço de tempo que vai desde bilhões de anos A.C. até o futuro. Dentro desse espaço representado na maior parte do tempo por uma sala, mas também pelo terreno unicamente, esboços de uma mesma vida se repetem com outros personagens, talvez com laços entre si ou não, mas que praticam atos semelhantes como segurar um bebê, contar uma piada, dançar, brigar, discutir, brincar (de Twister, por exemplo). Como lemos em uma das páginas: a vida é propensa a essas correspondências. “Aqui” pratica poesia em arte ao usar o tempo como protagonista, a variação dos anos, as pessoas que passam pelo mesmo espaço e se vão e o tempo que segue lá, implacável, imparável. E vai muito além, experimenta na forma de contar sua história, aliás; história não, histórias. Sem ser linear em nenhum momento força o leitor a voltar as páginas a cada momento para uma visão melhor. Isso culmina em desenhos que mais parecem pinturas, com cores refletindo cada período apresentado e fazendo com que a maioria das páginas se retiradas, ampliadas e enquadradas sirvam de obra de arte em qualquer parede, porque é isso que “Aqui” é: uma obra de arte.

Nota: 10,0

Leia um trecho gratuitamente no site da editora:

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Quadrinhos: "Unfollow: 140 Tipos" e "A Diferença Invísivel"

 

Larry Ferrell criou uma rede social que se alastrou como uma peste pelo mundo, entrando na vida das pessoas de cabo a rabo do planeta e redefinindo a forma de comunicação estabelecida antes (viu alguma semelhança aqui?). Bilionário, mas sofrendo de uma doença terminal e sem mais muito tempo de vida pela frente desencadeia um último processo social. Cria um aplicativo que escolhe aleatoriamente 140 pessoas de todo o globo para herdarem sua fortuna pessoal estimada em 18 bilhões de dólares. Usa elevados recursos para reunir os escolhidos em uma ilha privada e colocar as regras do acordo que consistem basicamente em: a) só terão a grana depois da sua morte, e b) a cada morte de um dos premiados o valor da parte respectiva será automaticamente rateado entre os sobreviventes e assim sucessivamente. É partindo disso que Rob Williams (roteiro) e Mike Dowling (arte) elaboraram uma nova série para o selo Vertigo da DC Comics que chega agora ao Brasil pela Panini Comics reunindo as edições de 1 a 6 publicadas nos EUA entre janeiro e junho de 2016. “Unfollow: 140 Tipos” tem 148 páginas e conta também com arte de R.M. Guéra e cores de Quinton Winter e Giulia Brusco. Essa nova série da Vertigo recebeu elogios de nomes como Brian Azzarello, mas na verdade as edições iniciais que conhecemos nesta edição, resultam em uma junção de dezenas de ideias já desenvolvidas de maneira mais concisa anteriormente e com bem mais brilho. Ao agrupar vários estranhos de lugares diferentes e com ideais e pensamentos distintos para testar assim os limites da humanidade quando está em jogo a própria sobrevivência e muito dinheiro, o roteiro apenas recicla situações com uma roupagem moderna e sem grande efeito, apesar da arte bem trabalhada. Por enquanto é bem passável. A conferir adiante.

Nota: 5,0


Marguerite sempre se sentiu deslocada de tudo. Do mundo, dos padrões que a sociedade impõe e espera dos seus participantes, até mesmo do círculo composto pelas pessoas mais próximas de si. Aos 27 anos por conta de suas “manias” e jeito de ser sofreu preconceitos das mais variadas estirpes. Não entendia o que acontecia com ela, qual “problema” tinha que impedia de ser como os demais. Depois de muito caminhar e bater cabeça descobre que tem Síndrome de Asperger, um tipo de autismo onde a interação social é dificultosa, rotinas devem ser mantidas a todo custo e é recomendável viver e trabalhar em lugares tranquilos sem muitos barulhos e cheiros por causa da hipersensibilidade a esses tipos de coisas. Quando descobre isso, a vida dá uma pequena reviravolta e tem adicionada uma sensação de paz que nunca provara até então. Esse é o mote de “A Diferença Invisível” (La Différence Invisible, no original), trabalho de 192 páginas lançado na França em 2016 que ganha publicação nacional esse ano pela editora Nemo com tradução de Renata Silveira. A autora Julie Dachez passou por tudo que relata na obra sobre o nome de Marguerite e resolveu mostrar isso a todos com os desenhos simples, contudo funcionais, de Mademoiselle Caroline que retratam bem a relação drama-humor de algumas situações. É um trabalho que deve ser analisado basicamente por dois prismas: primeiramente como material sobre o tema, não tão explorado e conhecido e sem os clichês padrão de autismo já expostos na cultura; e no segundo momento, como extensão para qualquer tipo de preconceito que alguém sofre simplesmente por ser diferente, por não entrar nos padrões que estipulam-se ser os “aceitáveis”, seja por quais forem os motivos que isso ocorra. De qualquer prisma que se olhe, temos uma leitura relevante e que vale o tempo gasto.

Nota: 7,0

Leia um trecho no site da editora: http://grupoautentica.com.br/nemo/amostra/1488 


domingo, 20 de agosto de 2017

I Festival Ambienta - Belém - Hangar - 18.08.2017


A primeira hora do dia 19 agosto começava a acusar no relógio enquanto Lenine e sua banda se esforçavam para engrenar um show que parecia não ir muito além, não por culpa dos músicos ou do (apenas razoável) público presente, diga-se de passagem, mas algo não fluía como devia ser, como se esperava. Isso desde o show da primeira atração do I Festival Ambienta em Belém, a banda local Strobo.

O Festival trouxe como mensagem a sustentabilidade e o cuidado com o meio-ambiente, em uma região onde ações desse tipo são mais que necessárias. A parte musical era apenas mais uma de tantas com palestras, bate-papos, exibição do filme “Amazônia Adentro” e oficinas. Os shows em si aconteceram no espaço do Hangar: Centro de Convenções da Amazônia, um excelente local acostumado a abrigar eventos de todo tipo.

Ambientado com esse clima, das barraquinhas de vendas de souvenir a comida, passando por um projeto digital, a atmosfera inicial era aprazível e gerava boas expectativas sobre as apresentações que surgiriam. O Strobo subiu primeiro e, superados alguns problemas técnicos iniciais, engataram o instrumental vigoroso unindo diversos estilos com o eletrônico sempre pautado pelas guitarras de Léo Chermont e a bateria pulsante de Arthur Kunz.


Mas já na quarta música se percebia que algo não funcionaria direito. Explica-se: a organização do evento fez uma área Vip/Premium (onde eu estava) por quase o dobro do preço normal e essa área ocupava um lugar considerável na frente do palco, algo em torno de uns 30% do espaço. No início o público ainda chegava e isso causava uma sensação de desconforto não só a banda, mas aos presentes. Nem a subida da Sammliz no palco para cantar algumas músicas do seu ótimo disco do ano passado como “Oya” diminuiu isso. 


Na sequência veio Félix Robatto, ídolo local, ex-integrante de uma das bandas mais bacanudas e interessantes já existentes na cidade (o La Pupuña) e idealizador do projeto Lambateria, entre outras coisas. Logo começou a destilar sua mistura de pop, brega, lambada, zouk, cumbia, guitarrada e o que mais aparecer pela frente, com muito bom humor. É sempre um show para cima, no qual o público dança, se entrega e contagia quem não está muito animado.

Mas novamente a barreira entre os setores de público e o espaço vazio entre eles incomodava e fazia a receita não funcionar como devia. Félix até tentou romper isso, descendo e atravessando por eles, mas naquele momento não surtiu tanto efeito. Notava-se ali que o público seria apenas mediano e que o tamanho da área Vip não seria preenchido em sua totalidade, aliás, não chegaria nem perto disso.


Faltou a organização do evento maleabilidade nessa hora. Acabar com área Vip, como alguns falaram, talvez não fosse a melhor solução, pois o risco seria considerável, já que quem pagou a mais poderia se sentir lesado e requerer a diferença do valor ou algo mais ainda. Contudo, dava para diminuir essa área, provavelmente. O material que a cercava podia ser reduzido trazendo mais público para perto do artista, como deve ser. O erro de cálculo foi trágico, pode-se dizer.

Lenine trazia a Belém pela primeira vez o show do ótimo disco “Carbono” de 2015 e começou com canções desse como “Castanho” e “O Impossível Vem Pra Ficar” e depois ainda apareceram outras como “Cupim de Ferro”, “Quede Água?” e “Simples Assim”. A banda é ajustadíssima em palco e Lenine o domina com a experiência que traz consigo ao escolher quando explorar alguns hits como “Hoje Eu Quero Sair Só” e “Paciência”, por exemplo. Um show com execuções de nível, canções fortes, público conhecedor, mas que não conseguiu ser tudo que podia ser por causa da falta de uma interação mais forte.


Após o show do Lenine, várias pessoas (do já mediano público) foram embora e não viram o show da Karol Conká, onde acompanhada de um DJ soltou os versos de músicas como “Bate a Poeira”, “Tombei” e “É o Poder”. No meio de cada frase, de cada rimada, de cada alfinetada e afirmação, uma simpatia tremenda no sorriso. Uma simpatia e força tão contagiantes que merecia ter sido vista por mais gente. Bela apresentação.


Na parte musical o I Festival Ambienta prometeu muito mais que entregou. As causas e objetivos são mais que justas, o espaço escolhido perfeito, a escalação dos artistas interessante, contudo o preço pode ter afugentado uma parte do público (ainda mais em agosto em uma cidade onde todos torram grana em julho) e a estipulação de setores prejudicou completamente o andamento dos shows, a junção única entre palco e espectador que é tão fundamental.

Uma pena.

P.S: Todas as fotos são de Bruno Carachesti e retiradas da página do evento no Facebook: https://pt-br.facebook.com/festivalambienta 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Literatura: "Faca de Água" e "Sombras de Reis Barbudos"


Quando um livro ambientado em cenários futuristas ou distópicos apresenta situações que em determinadas instâncias são plenamente possíveis de acontecer algum dia, isso acrescenta ao trabalho um grau maior de interesse, prendendo mais o leitor e fazendo com que se discuta posteriormente um ou outro fato. Esse é o caso de “Faca de Água” (The Water Knife, no original), publicado nos EUA em 2015 que ganhou lançamento nacional pela editora Intrínseca no ano passado. Com 400 páginas e tradução de Alexandre Raposo é o primeiro trabalho do escritor americano Paolo Bacigalupi em terras tupiniquins. O autor que já ganhou prêmios importantes como o Hugo e o Nebula ganha uma bonita edição para mostrar o inteligente thriller que concebeu. A trama se passa em um futuro não especificado onde os EUA estão quebrados e divididos com os estados soberanos, sendo a União um mero lembrete para casos extremos. A briga é por rios, lagos e fontes, ou seja, por água. A água se tornou o bem mais valioso e tudo que acontece na sociedade se origina dela. Angel Velasquez é um Faca de água, uma mistura de agente, espião e assassino privado, que toma conta dos interesses de Catherine Case, a chefona de Las Vegas. Quando surge em Phoenix uma situação que pode mudar o status geral, ele se manda para a cidade onde cruza caminho com a hábil jornalista Lucy Monroe e a jovem sonhadora Maria Villarosa. “Faca de Água” tem várias qualidades. Além de tratar sobre um cenário verossímil enrosca economia, política e meio ambiente com tudo aquilo que o ser humano é capaz para sobreviver. Seus personagens – mesmo os de maior bondade – também são passíveis de atos nada nobres em prol de interesses próprios, o que deixa o leitor pisando em terreno minado sobre o que esperar nas páginas que virão.

Nota: 7,5

Leia um trecho direto do site da editora, aqui.

Twitter do autor: http://twitter.com/paolobacigalupi  


Anos 70. Uma pequena cidade do interior que pode ser de qualquer estado do Brasil, principalmente longe dos centros mais famosos. Progresso chegando a passos de cágado, quando de repente uma novidade surge e atiça todos os moradores. Uma novidade que promete mudar as coisas daquele ponto em diante. Essa é a diretriz básica de “Sombras de Reis Barbudos”, livro do escritor goiano José J. Veiga publicado originalmente em 1972 quando o digníssimo general Garrastazu Médici comandava o período mais duro da ditadura que assolou nosso país. Em 2015 a Companhia das Letras começou a republicar o autor em caprichadas e detalhadas edições, uma atitude mais que louvável que deu a chance de novos leitores conhecerem um dos grandes escritores nacionais. Com 152 páginas, pode-se dizer que não é o trabalho mais conhecido dele, esse mérito fica com o ótimo “A Hora dos Ruminantes” de 1966 que também ganhou reedição em 2015, contudo, por sua vez, é ainda melhor e mais completo. Quem narra a história é um adolescente que retorna aos 11 anos de idade quando a Companhia Melhoramentos de Taitara chega a cidade através de um tio que logo é deposto do comando. A partir disso a empresa sai distribuindo desmandos e proibições ilógicas pela cidade e logo vira um pesadelo para os habitantes que se veem presos as ordens estapafúrdias e opressivas. Como de costume em suas obras, José J. Veiga insere humor nas frases, expressões e modo de falar dos personagens e no último terço brinca com o realismo fantástico que tanto lhe atribuem. A narração entre a descoberta, a ingenuidade e o inconformismo calado guia todas as alegorias e analogias que são feitas para o regime político do país na época (e tem paralelos diretos até com nossos conturbados dias atuais), resultando em uma obra que não pode ganhar uma alcunha menor do que essencial.

Nota: 9,5

Leia um trecho direto do site da editora, aqui.

- Sobre “A Hora dos Ruminantes” no blog, passe aqui

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Quadrinhos: "Escolhas" e "Valerian - Integral - Volume 1"


Quem quando criança nunca quis ser um super-herói ou pelo menos ter algum tipo de poder como invisibilidade, telepatia ou sair voando pela cidade? João Humberto é uma dessas crianças e fascinado por um personagem de desenho animado chamado Lobo Cinzento sempre nutriu a vontade de ser o primeiro super-herói de verdade do mundo. Acontece que, bom, ele cresceu e continuou tendo isso como objetivo principal de vida. “Escolhas” é o novo trabalho de Gustavo Borges que fez a bonita “Pétalas” em 2015, dessa feita em parceria com Felipe Cagno que assume o roteiro deixando a arte com o Gustavo e usando as cores sempre primorosas da Cris Peter. Financiada coletivamente através de crowdfunding onde superou bem a meta inicial também ganha publicação pelo selo Geektopia da editora Novo Século, com 100 páginas entre história e extras. A inspiração para a revista veio de uma palestra do escritor Scott Snyder (de “Batman”) e daí veio o roteiro que usando de analogias versa sobre perseguir os sonhos por mais impossíveis que sejam e sobre o processo da vida que sempre nos guia pelas opções que fazemos. “Escolhas” é uma história divertida e lírica na maior parte, que homenageia o universo dos super-heróis em geral e conta com uma arte que consegue transpor ao leitor o clima necessário para entrar na viagem. O ponto negativo fica na formatação do casal João Humberto e Nina, onde as crises e apresentação se escoram muito em clichês batidos, incomodando um pouco. Quando foca somente nos obstáculos que o protagonista precisa superar para alcançar aquilo que deseja e nos erros que comete pelo caminho, sem se estender muito em dramas novelescos, é que “Escolhas” rende mais e se torna leitura prazerosa, se consolidando em um trabalho de qualidade que atesta novamente o bom momento da produção de quadrinhos no país.

Nota: 7,0 


O cineasta francês Luc Besson de filmes como “O Profissional”, “O Quinto Elemento” e “Lucy” era apaixonado pelos quadrinhos da dupla Pierre Christin e Jean-Claude Mézières que saia na clássica revista Pilote a partir da segunda metade dos anos 60 quando ele era criança. Esse amor é tão grande que depois de muito imaginar o diretor leva a trama para o cinema, com o filme baseado na obra estreando agora em 2017. Aproveitando a deixa a Sesi-SP Editora começa a publicar integralmente a extensa série por aqui, que antes só havia saído como tira nos anos 80. “Valerian – Integral – Volume 1” tem 160 páginas, formato grande (22x29cm) e extras primorosos como entrevistas e textos informativos. Traz compilado “Os Maus Sonhos” de 1967, “A Cidade das Águas Movediças e Terras em Chamas” de 1970 e “O Império dos Mil Planetas” de 1971, essa última sendo a história que foi adaptada para a telona. Os personagens principais são Valérian e Laureline, dois agentes do espaço-tempo de uma sociedade futurista que se envolvem em diversas aventuras indo contra a tirania e sociedades comandadas por déspotas e criminosos. A série é daquelas primordiais para a ficção científica e inspirou várias e várias obras em diversas mídias, como por exemplo “Star Wars” de George Lucas. Nesse primeiro volume (outros mais virão) o roteiro de Christin, a arte de Mézières e as cores de Évelyne Tranlé vão evoluindo de acordo com o passar do tempo. Se nas duas primeiras tramas tudo flui meio toscamente na última temos tudo em grau elevado com humor, crítica social e ação se unindo de modo avassalador. Tanto por valor histórico, quanto por méritos qualitativos ou pela edição caprichada, “Valerian” é totalmente recomendável para quem gosta de quadrinhos e ficção científica, uma obra de vanguarda e até mesmo visionária que continua fluindo com maestria mesmo depois de tanto tempo.

Nota: 9,5 


sábado, 5 de agosto de 2017

Literatura: "Armada" e "O Menino da Mala"


“Jogador No. 1” foi publicado no Brasil em 2012 pela editora Leya e chamou a atenção. Escrito por Ernest Cline (roteirista do filme “Fanboys”), o livro é dinâmico e insere cultura pop em doses saborosas, o que resulta em ótimo brilho nostálgico. A obra até virou filme a ser lançado esse ano com direção de Steven Spielberg, destacando bem essas qualidades. A expectativa para o segundo trabalho do autor era natural e em 2015 ela terminou com o lançamento de “Armada”. No mesmo ano a Leya colocou a versão nacional no mercado com 430 páginas e tradução de Fábio Fernandes. Nessa nova trama conhecemos Zack Lightman, um jovem que está prestes a terminar os estudos antes da faculdade e que passa a maior parte do tempo jogando videogame no simulador que empresta o nome ao livro e trabalhando em uma loja geek na pequena cidade que mora. Tudo anda na toada entre a insatisfação, o tédio e os sonhos impossíveis enquanto o futuro não se apresenta. Com o fantasma do falecido pai sempre circulando em meio aos pertences e teorias deixadas por ele que lhe transferiu o gosto por games, música e filmes, tudo muda quando Zack vê no pátio da escola uma nave exatamente igual a do jogo que tanto gosta de passar o tempo. Muda mais ainda quando outra nave desce no pátio para lhe buscar para partir em uma missão que tem como objetivo simplesmente salvar a terra de uma invasão alienígena. Com um misto de deslumbramento, medo e espanto, parte para um universo que pensava não existir. Em “Armada”, Ernest Cline homenageia a ficção espacial e usa as mesmas técnicas já apresentadas antes. Contudo, dessa vez diminui a dinâmica, deixa o roteiro cheio de pequenas falhas e exagera nas doses de cultura pop e nostalgia, com referências em excesso que mais prejudicam do que ajudam. Decepcionante.

Nota: 4,0

Site do autor: http://www.ernestcline.com 

- Sobre “Jogador No. 1” no blog, clique aqui.


Nina Borg é enfermeira da Cruz Vermelha na Dinamarca, ajudando imigrantes por fora quando possível. Já prestou serviço em países com situação complicada, sempre com a intenção de ajudar as pessoas. Casada e com dois filhos, tenta seguir adiante em uma vida que vez ou outra abdica em troca da obstinação constante de lutar contra a injustiça. Essa faceta volta à tona quando uma amiga liga e pede para que vá urgentemente retirar uma mala de um armário na estação local. Quando chega ao local e faz o que foi pedido depara com um menino de 3 anos desacordado e nu dentro da mala. Assustada e sem saber o que fazer de imediato vê as coisas piorarem quando um homem furioso chega na estação e vai diretamente ao mesmo local que ela acabou de retirar a criança. “O Menino da Mala” (Drengen I Kufferten, no original) foi publicado em 2008 e ganhou edição nacional em 2013 pela editora Arqueiro, com 256 páginas e tradução de Marcelo Mendes. Escrito em dupla por Lene Kaaberbøl e Agnete Friis fez bastante sucesso e ganhou edição em vários países. Esse sucesso levou a mais dois livros com as aventuras da enfermeira (“Morte Invísivel” já foi publicado aqui) e é mais um retrato da produção de romances de suspense e policiais dos países escandinavos. Nina Borg foi comparada a Lisbeth Salander da trilogia Millenium do sueco Stieg Larsson, porém as semelhanças ficam apenas no perfil físico. A protagonista de “O Menino da Mala” é bem diferente e já traz na essência o altruísmo, o inconformismo, a busca pelo bem, por mais duro que isso seja. Enquanto inserem Nina na luta para descobrir quem é o garoto encontrado e sobreviver a isso, as autoras aproveitam – mesmo com uma escrita rasa – e criticam o tráfico de pessoas e crianças oriundas de países mais pobres, um mercado vil e violento que demonstra que nem tudo que brilha é ouro no próprio país.

Nota: 6,0

Leia um trecho no site da editora, aqui.  

terça-feira, 18 de julho de 2017

Quadrinhos: "O Divino" e "Paciência"


“O Divino” (The Divine, no original) é uma graphic novel com roteiro do escritor e cineasta Boaz Lavie e arte dos irmãos Asaf e Tomer Hanuka (de “Bipolar”, série vencedora do prêmio Eisner). A ideia dos israelenses nasceu de uma famosa foto de Apichart Weerawong tirada dos gêmeos Johnny e Luther Htoo ainda crianças (mais sobre isso, aqui). Com capa dura, 160 páginas e lançamento nacional no final do ano passado pelo selo Geektopia da editora Novo Século, a obra acontece na maior parte em um imaginário e obscuro país asiático chamado Quanlom. Mark, um ex-militar especialista em explosivos decide ir para essa nação em guerra convencido pelo amigo Jason que já foi e presenciou algumas situações bem incomuns. Na verdade, Mark vai exclusivamente pelo dinheiro já que sabe que vai ser pai e está um pouco pressionado em casa por conta de uma promoção que não vingou. Os dois viajam e com ajuda de militares locais fazem o serviço que consiste em preparar uma montanha para explodir. Depois disso é que as coisas saem do controle e crianças envolvidas na guerra - sendo que um deles possui dons e poderes - transformam totalmente o caminho inicial. “O Divino” é um trabalho que fusiona realidade com atos de natureza fantástica e conta como apoio para o roteiro apenas correto uma arte elaborada com extrema dedicação, que produz efeitos sensacionais durante o decorrer da trama. Indo mais além, resultado direto da foto que foi baseada, traz ponderações em segundo plano sobre a utilização de crianças nas guerras espalhadas pelo mundo, crianças que deixam de ser crianças ainda muito cedo e logo são inseridas em um universo cruel e sanguinário do qual nunca mais vão conseguir retornar. Essa nuance, além da arte dos irmãos Hanuka, fazem de “O Divino” uma leitura bem recomendável.

Nota: 7,0 


Quem pelo menos uma vez não pensou em voltar no tempo para ter uma atitude diferente ou impedir algum fato? É difícil que esse desejo não tenha permeado pelo menos uma vez a mente e é esse mote que o quadrinista Daniel Clowes usa em “Paciência” (Patience, no original). O autor é um dos nomes mais respeitados do mercado alternativo dos EUA e com esse trabalho quebra anos de jejum sem lançar nada. Nessa “viagem cósmica através do espaço-tempo rumo ao infinito primordial do amor eterno” (como diz a espécie de subtítulo), somos apresentados a Jack e sua esposa, que empresta o nome a graphic novel. Os dois são apaixonados, duas almas incomuns que acharam um no outro o suporte para tocar a vida. Aqui o autor traz de “Wilson” (publicada aqui pelo selo Quadrinhos na Cia.), a completa falta de vontade de socialização com a humanidade transportada agora para o casal. Enquanto Jack busca emprego e grana, pois a esposa está grávida, ela tenta fazer as pazes com o passado. Tudo muda quando ela é assassinada junto com a bebê que carregava na barriga. Jack é tomado pela obsessão de achar o assassino e isso guia sua vida para frente. Muitos anos passam e ele já se encontra sem esperanças quando acha uma maneira de voltar ao passado, o que dá novo gás a caça e faz com que ele descubra diversos segredos da falecida mulher. “Paciência” foi lançado nos EUA no ano passado e chegou agora no Brasil pela editora Nemo, com 184 páginas. É um trabalho completo onde o texto, a imagem e a formatação dos quadros servem diretamente um ao outro para formar um estupendo conjunto. É uma obra viva, com cores e mais cores se alternando para provocar as sensações do leitor, uma excelente ficção científica que trata com brilho do tema mais antigo de todos: o amor.
Nota: 9,0

Site do autor: http://danielclowes.com 


domingo, 16 de julho de 2017

"Quadrinhos": “Hinterkind – Os Desterrados: O Despertar do Mundo” e "Tabloide"


Durante séculos a humanidade foi a espécie dominante do planeta. Usou e abusou da natureza esgotando os recursos naturais de acordo com interesses próprios. No entanto, todo esse poder foi embora em apenas sete meses. A raça humana foi praticamente dizimada por uma peste sem nome que se alastrou pelo mundo devastando tudo que via na frente. Nesse cenário pós-apocalíptico animais selvagens passaram a ser donos das ruas e cidades e lendas reapareceram para brigar pela posse do planeta. Personagens comuns em livros e histórias antigas como elfos, fadas, centauros e trolls saem do esconderijo que habitaram e reclamam a terra novamente para si. “Hinterkind – Os Desterrados: O Despertar do Mundo” mistura esses dois lados citados: a sobrevivência da espécie humana depois da praga e o enxerto da fantasia que transforma a história em algo mais. Lançada nos EUA dentro do selo Vertigo, ganhou edição nacional esse ano pela Panini Comics em um volume de capa cartonada com 148 páginas que traz as edições originais de 1 a 6 publicadas entre dezembro de 2013 e maio de 2014. A história é criação do britânico Ian Edginton (Planeta dos Macacos) e tem como grande destaque a belíssima arte do italiano Francesco Trifogli com as cores da brasileira Cris Peter. O selo Vertigo é – já faz algum tempo – o único resquício de boas histórias da DC Comics dentro dos quadrinhos e isso não é diferente com “Hinterkind”. Uma trama bem contada, com algumas ornamentações de segundo plano, com arte de encher os olhos, que habita dentro do digamos “universo geral” da fantasia do selo composto por coisas como “O Inescrito” e “Fábulas”. Usando de conceitos já explorados anteriormente e fazendo estes fluir em nova aventura, Ian Edginton foge o máximo que pode do lugar comum desse tipo de enredo e proporciona ao leitor uma atrativa pedida.

Nota: 7,0


O quadrinista paulista L.M. Melite é responsável por um trabalho dos mais intrigantes no cenário nacional dos últimos anos. É obra dele “Desistência Azul” e “Dupin” (ambos lançados pela Zarabatana Books) e “Leviatã” (que saiu na revista Café Espacial 13). Suas histórias sempre apresentam um ponto mais fora da curva, seja no experimentalismo da arte ou no traço em alguns momentos, seja na concepção do roteiro e narrativa em outras, gerando um resultado digno de nota. Esse ano chega nas livrarias mais uma obra sua intitulada “Tabloide” que foi contemplada pelo PROAC (programa de incentivo à cultura de São Paulo) e tem publicação caprichada em capa dura pela editora Veneta. Com 136 páginas e em cores, Melite narra as desventuras de Samantha Castelo, uma jornalista que tem atração por histórias estranhas e sobrenaturais, dona que um pequeno jornal que narra esses fatos enquanto os demais não estão nem aí. Samantha é cínica ao extremo, desbocada, bagunceira, fora do peso, pouco higiênica, cheia de artimanhas para conseguir o que quer e enxerida como uma jornalista criminal deve ser. Quando se depara com um homicídio que tem um cadáver vestido de noiva trancado dentro do porta-malas de um carro afundado, ela não se contenta com o descaso geral da polícia e resolve atropelar para conseguir a matéria. Nesse percurso é auxiliada pelos poucos que lhe cercam como o fotógrafo Horácio e o ex-patrão e atual “conselheiro” Bogus para entrar no submundo de São Paulo se deparando com bizarrices e segredos guardados a sete chaves. Enquanto o thriller policial avança com as descobertas, o autor aproveita para contar um pouco mais sobre a protagonista e os cadáveres pessoais que ela tranca no armário. “Tabloide” é um dos grandes lançamentos nacionais do ano, que ratifica de vez o trabalho do seu criador e deixa o leitor torcendo para que no futuro venham mais histórias de Samantha Castelo.

Nota: 9,0