terça-feira, 18 de julho de 2017

Quadrinhos: "O Divino" e "Paciência"


“O Divino” (The Divine, no original) é uma graphic novel com roteiro do escritor e cineasta Boaz Lavie e arte dos irmãos Asaf e Tomer Hanuka (de “Bipolar”, série vencedora do prêmio Eisner). A ideia dos israelenses nasceu de uma famosa foto de Apichart Weerawong tirada dos gêmeos Johnny e Luther Htoo ainda crianças (mais sobre isso, aqui). Com capa dura, 160 páginas e lançamento nacional no final do ano passado pelo selo Geektopia da editora Novo Século, a obra acontece na maior parte em um imaginário e obscuro país asiático chamado Quanlom. Mark, um ex-militar especialista em explosivos decide ir para essa nação em guerra convencido pelo amigo Jason que já foi e presenciou algumas situações bem incomuns. Na verdade, Mark vai exclusivamente pelo dinheiro já que sabe que vai ser pai e está um pouco pressionado em casa por conta de uma promoção que não vingou. Os dois viajam e com ajuda de militares locais fazem o serviço que consiste em preparar uma montanha para explodir. Depois disso é que as coisas saem do controle e crianças envolvidas na guerra - sendo que um deles possui dons e poderes - transformam totalmente o caminho inicial. “O Divino” é um trabalho que fusiona realidade com atos de natureza fantástica e conta como apoio para o roteiro apenas correto uma arte elaborada com extrema dedicação, que produz efeitos sensacionais durante o decorrer da trama. Indo mais além, resultado direto da foto que foi baseada, traz ponderações em segundo plano sobre a utilização de crianças nas guerras espalhadas pelo mundo, crianças que deixam de ser crianças ainda muito cedo e logo são inseridas em um universo cruel e sanguinário do qual nunca mais vão conseguir retornar. Essa nuance, além da arte dos irmãos Hanuka, fazem de “O Divino” uma leitura bem recomendável.

Nota: 7,0 


Quem pelo menos uma vez não pensou em voltar no tempo para ter uma atitude diferente ou impedir algum fato? É difícil que esse desejo não tenha permeado pelo menos uma vez a mente e é esse mote que o quadrinista Daniel Clowes usa em “Paciência” (Patience, no original). O autor é um dos nomes mais respeitados do mercado alternativo dos EUA e com esse trabalho quebra anos de jejum sem lançar nada. Nessa “viagem cósmica através do espaço-tempo rumo ao infinito primordial do amor eterno” (como diz a espécie de subtítulo), somos apresentados a Jack e sua esposa, que empresta o nome a graphic novel. Os dois são apaixonados, duas almas incomuns que acharam um no outro o suporte para tocar a vida. Aqui o autor traz de “Wilson” (publicada aqui pelo selo Quadrinhos na Cia.), a completa falta de vontade de socialização com a humanidade transportada agora para o casal. Enquanto Jack busca emprego e grana, pois a esposa está grávida, ela tenta fazer as pazes com o passado. Tudo muda quando ela é assassinada junto com a bebê que carregava na barriga. Jack é tomado pela obsessão de achar o assassino e isso guia sua vida para frente. Muitos anos passam e ele já se encontra sem esperanças quando acha uma maneira de voltar ao passado, o que dá novo gás a caça e faz com que ele descubra diversos segredos da falecida mulher. “Paciência” foi lançado nos EUA no ano passado e chegou agora no Brasil pela editora Nemo, com 184 páginas. É um trabalho completo onde o texto, a imagem e a formatação dos quadros servem diretamente um ao outro para formar um estupendo conjunto. É uma obra viva, com cores e mais cores se alternando para provocar as sensações do leitor, uma excelente ficção científica que trata com brilho do tema mais antigo de todos: o amor.
Nota: 9,0

Site do autor: http://danielclowes.com 


domingo, 16 de julho de 2017

"Quadrinhos": “Hinterkind – Os Desterrados: O Despertar do Mundo” e "Tabloide"


Durante séculos a humanidade foi a espécie dominante do planeta. Usou e abusou da natureza esgotando os recursos naturais de acordo com interesses próprios. No entanto, todo esse poder foi embora em apenas sete meses. A raça humana foi praticamente dizimada por uma peste sem nome que se alastrou pelo mundo devastando tudo que via na frente. Nesse cenário pós-apocalíptico animais selvagens passaram a ser donos das ruas e cidades e lendas reapareceram para brigar pela posse do planeta. Personagens comuns em livros e histórias antigas como elfos, fadas, centauros e trolls saem do esconderijo que habitaram e reclamam a terra novamente para si. “Hinterkind – Os Desterrados: O Despertar do Mundo” mistura esses dois lados citados: a sobrevivência da espécie humana depois da praga e o enxerto da fantasia que transforma a história em algo mais. Lançada nos EUA dentro do selo Vertigo, ganhou edição nacional esse ano pela Panini Comics em um volume de capa cartonada com 148 páginas que traz as edições originais de 1 a 6 publicadas entre dezembro de 2013 e maio de 2014. A história é criação do britânico Ian Edginton (Planeta dos Macacos) e tem como grande destaque a belíssima arte do italiano Francesco Trifogli com as cores da brasileira Cris Peter. O selo Vertigo é – já faz algum tempo – o único resquício de boas histórias da DC Comics dentro dos quadrinhos e isso não é diferente com “Hinterkind”. Uma trama bem contada, com algumas ornamentações de segundo plano, com arte de encher os olhos, que habita dentro do digamos “universo geral” da fantasia do selo composto por coisas como “O Inescrito” e “Fábulas”. Usando de conceitos já explorados anteriormente e fazendo estes fluir em nova aventura, Ian Edginton foge o máximo que pode do lugar comum desse tipo de enredo e proporciona ao leitor uma atrativa pedida.

Nota: 7,0


O quadrinista paulista L.M. Melite é responsável por um trabalho dos mais intrigantes no cenário nacional dos últimos anos. É obra dele “Desistência Azul” e “Dupin” (ambos lançados pela Zarabatana Books) e “Leviatã” (que saiu na revista Café Espacial 13). Suas histórias sempre apresentam um ponto mais fora da curva, seja no experimentalismo da arte ou no traço em alguns momentos, seja na concepção do roteiro e narrativa em outras, gerando um resultado digno de nota. Esse ano chega nas livrarias mais uma obra sua intitulada “Tabloide” que foi contemplada pelo PROAC (programa de incentivo à cultura de São Paulo) e tem publicação caprichada em capa dura pela editora Veneta. Com 136 páginas e em cores, Melite narra as desventuras de Samantha Castelo, uma jornalista que tem atração por histórias estranhas e sobrenaturais, dona que um pequeno jornal que narra esses fatos enquanto os demais não estão nem aí. Samantha é cínica ao extremo, desbocada, bagunceira, fora do peso, pouco higiênica, cheia de artimanhas para conseguir o que quer e enxerida como uma jornalista criminal deve ser. Quando se depara com um homicídio que tem um cadáver vestido de noiva trancado dentro do porta-malas de um carro afundado, ela não se contenta com o descaso geral da polícia e resolve atropelar para conseguir a matéria. Nesse percurso é auxiliada pelos poucos que lhe cercam como o fotógrafo Horácio e o ex-patrão e atual “conselheiro” Bogus para entrar no submundo de São Paulo se deparando com bizarrices e segredos guardados a sete chaves. Enquanto o thriller policial avança com as descobertas, o autor aproveita para contar um pouco mais sobre a protagonista e os cadáveres pessoais que ela tranca no armário. “Tabloide” é um dos grandes lançamentos nacionais do ano, que ratifica de vez o trabalho do seu criador e deixa o leitor torcendo para que no futuro venham mais histórias de Samantha Castelo.

Nota: 9,0


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Quadrinhos: “Agentes da S.H.I.E.L.D: Tiro Perfeito” e “O Xerife da Babilônia: Bang. Bang. Bang”


A série de televisão “Agents of S.H.I.E.L.D.” começou como uma boa promessa, porém patinou bastante na primeira temporada sem saber muito bem qual sua função e só se consolidou a partir da metade do segundo ano em ótima pedida para os fãs dos quadrinhos, como também neófitos desse universo conquistados pelo sucesso dos filmes da Marvel. Já com a quarta temporada finalizada (e uma quinta virá), a empresa resolveu transportar para os quadrinhos o clima de aventura e descontração da tevê, assim como vincular ainda mais os personagens com seu mundo. “Agentes da S.H.I.E.L.D: Tiro Perfeito” compila as seis primeiras edições desse projeto publicadas nos EUA de fevereiro a julho de 2015. Com 148 páginas e capa dura, a Panini Comics disponibiliza esse material agora em 2017. Todas têm o roteiro do experiente Mark Waid (Demolidor, Capitão América) e a cada trama um novo artista conceituado assume os desenhos. Estão presentes nesse volume nomes como Carlos Pacheco, Humberto Ramos, Mike Choi, Paul Renaud e os grandes Alan Davis e Chris Sprouse. Cada número é uma aventura fechada, mas que servem ali na surdina para um arco maior que praticamente se completa no próprio encadernado. Nos deparamos novamente (para quem viu a série e funciona melhor para estes) com Phil Coulson e a equipe composta por Melinda May e o casal Fitz-Simmons (nomes como Ward e Skye ficam fora). Para melhorar o elenco de apoio é vigoroso e traz Homem-Aranha, Miss Marvel, Sue Richards, Heimdall, Feiticeira Escarlate, Cavaleiro Negro e Valquíria. Nessas novas aventuras da Superintendência Humana de Intervenções Estratégicas, Logística e Defesa sai o tom soturno e cheio de conspirações da era Nick Fury e aparece o entretenimento puro e simples como guia, com inspiradas cenas de ação mescladas com boas piadas resultando em entretenimento leve e descompromissado.

Nota: 6,0 


Após tirar Saddam Hussein do poder em 2003, os EUA assumiram o controle do Iraque – principalmente Bagdá – e começaram uma espécie de transposição de poder para um novo governo. A guerra forjada pelo presidente George H. Bush e seus aliados foi montada em cima de falsas alegações, mentiras e pretextos escusos, contudo serviu para tirar do poder um ditador tirânico e sanguinário, com muito sangue nas mãos. Nesse cenário pós-derrubada, repleto de caos é que se ambienta “O Xerife da Babilônia: Bang. Bang. Bang” que a Panini Comics publica esse ano aqui em um encadernado de 162 páginas com capa cartonada. Esse primeiro volume reúne as edições originais de 1 a 6 oriundas de fevereiro a julho de 2016, contando com extras como o processo de criação da arte de uma página. O personagem principal é o ex-policial Christopher Henry que para treinar a nova força de segurança iraquiana está no país recebendo valores consideráveis. Quando um de seus recrutas aparece morto na rua, ele tenta solucionar o caso movido não se sabe por qual senso de justiça. Nesse processo entram em cena Sofia, uma integrante do novo governo, e o ex-detetive Nassir, um agente fiel a Saddam anteriormente. É essa busca que movimenta a trama criada por Tom King (Batman) e com arte e cores de Mitch Gerads (Justiceiro). O roteirista conhece bem o que descreve pois trabalhou no país como agente da CIA e isso enxerta nuances mais reais, assim como os cenários feitos de maneira cuidadosa que visam aproximar o máximo possível a ficção da realidade, tendo no uso das cores um grande mérito. “O Xerife da Babilônia” exibe como atrativo, além da autenticidade já comentada, um roteiro que deixa os personagens principais cheios de desejos ocultos, o que adiciona a cada página lida uma boa gama de suspense e expectativa para o que virá na sequência. Vale a pena ir atrás.

Nota: 7,0 


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Quadrinhos: "Hellboy e o B.P.D.P: 1952" e "Suicidas – Volume 1"

 

Mike Mignola costuma convidar para as edições do seu rebento preferido nomes talentosos dos quadrinhos. Em “Hellboy e o B.P.D.P: 1952” não foi diferente. O roteiro foi construído por ele e John Arcudi (B.P.R.D), a arte e capas feitas pelo Alex Maleev (Demolidor) e as cores nas mãos do excepcional Dave Stewart (DC: A Nova Fronteira). Meio difícil sair algo ruim né? Pois é, para agrado dos fãs, não saiu mesmo. Esse conjunto reúne a minissérie lançada nos EUA entre dezembro de 2014 e abril de 2015 pela Dark Horse. No Brasil, recebeu edição encadernada de capa dura ano passado pelo Mythos Books. Com 180 páginas apresenta papel de alta qualidade e extras com entrevistas, esboços e processo de criação, o que quase sempre justifica o alto preço das publicações da editora. Enquanto nas revistas atuais Hellboy morre e desce ao inferno para findar sua saga, Mike Mignola também leva em paralelo o personagem para uma viagem no tempo onde almeja contar por ano as aventuras pregressas antes da estreia em 1993. Sendo assim, esse volume conta a primeira missão do agente, ainda um novato, sem toda a segurança que nos habituamos a ver. Essa missão ocorre no Brasil, quando depois de vários assassinatos insólitos na selva amazônica o Bureau de Pesquisas e Defesa Paranormal é chamado e Hellboy vai junto com o time. O roteiro mistura a aventura da solução do mistério com terror, nazismo e ficção científica sem deslizar e fazendo com que além dos vilões em si, o time ainda se preocupe com um traidor nas próprias fileiras. Se realmente o autor levar adiante o desejo de narrar aventuras anuais até 1993, teremos um extenso material a ser explorado daqui em diante, o que na maioria dos casos é repetição de ideias para fins especificamente comercias, no caso de Mignola e Hellboy as coisas vão por outro caminho, como já ficou provado mais de uma vez. Ainda bem.

Nota: 7,0


Um terremoto de proporções gigantescas atingiu Los Angeles e transformou totalmente a Cidade dos Anjos. Uma nova cidade surgiu do desastre com um muro afastando os pobres e indignos e uma brutal força policial se certificando que ninguém passe (lembra algo?). Os administradores e donos dessa nova cidade utilizam de um truque muito antigo para entreter a população: batalhas entre homens em uma arena. Faça aqui a correlação que quiser, desde os gladiadores do império romano até os octógonos dos dias atuais do UFC. A ideia é a mesma, basicamente. Esses lutadores têm melhorias mecânicas para as lutas e são comandados de acordo com as vontades da corporação que lhes paga muito bem e proporciona uma vida de estrela (enquanto for do seu interesse). Esse é o mote da série criada pelo exímio Lee Bermejo de “A Piada Mortal” e “Coringa”, que conta ainda com as cores de outra fera da nona arte, Matt Hollingsworth de “Tom Strong” e “Preacher”. A Panini Comics lança “Suicidas – Volume 1” no mercado nacional esse ano, um encadernado contendo as edições 1 a 6 da série, originalmente publicados nos EUA entre abril e novembro de 2015 com 164 páginas e papel LWC. O personagem principal é Santo, o maior lutador das arenas e um verdadeiro popstar (lembre, apesar do desastre ainda estamos em Los Angeles), contudo sem vontade própria devido aos segredos que carrega do passado. O maior acerto do roteiro de Lee Bermejo é que ao mesmo tempo que faz o leitor se envolver com os dramas do protagonista, insere coadjuvantes que também tem brilho próprio. E, indo mais além, coloca ao lado da questão das lutas e busca de redenção, considerações sobre poder, mídia, opressão e desmandos das grandes corporações. Das séries que o selo Vertigo publicou no último triênio, sem dúvida essa é uma das mais interessantes.

Nota: 8,0 

terça-feira, 6 de junho de 2017

Quadrinhos: "“Luke Cage e Punho de Ferro – Edição 1 – Eles Voltaram” e "Esquadrão Amazônia"


Mantendo o plano traçado já há algum tempo a Marvel faz novas revistas a partir do ponto em que seus personagens ganham adaptações para o cinema ou televisão. Personagens até então sem muito chance de encabeçar uma publicação, reaparecem por conta disso. A dupla Luke Cage e Punho de Ferro é mais um exemplo da diretriz, por conta das séries do Netflix. A Panini Comics coloca no mercado nacional um volume com 116 páginas contendo as edições de 1 a 5 de “Power Man and Iron First” impresso nos EUA entre abril e maio de 2016. Nesta nova incursão da dupla o roteiro ficou com David F. Walker (Liga da Justiça) e a arte com Sanford Greene (Deadpool). O estilo escolhido pela dupla e pela empresa para essa viagem corrente foi extremamente leve, ambientando na mesma seara dos personagens mais engraçadinhos da editora. Fica óbvio e latente o desejo de agregar um público mais jovem, o que por si só sempre é louvável para revigorar antigas ideias, no entanto é de se esperar que a qualidade venha junto com esse desejo. O roteiro é repleto de piadas e tiradas “engraçadas”, que funcionam verdadeiramente poucas vezes, mas consegue respeitar a história da dupla e os eventos em que estiveram inseridos nos últimos anos, o que é um alento. A arte, por sua vez, opta por ser mais cartunesca, caricata, com destaque para expressões faciais espirituosas, o que convenhamos não funciona bem. Como o título já denuncia, “Luke Cage e Punho de Ferro – Edição 1 – Eles Voltaram”, trata da dupla trabalhando nos tempos dos Heróis de Aluguel, a princípio para ajudar uma ex-secretária que acaba de sair da cadeia. Com envolvimento de nomes conhecidos e muita magia no meio, esse início é fraco e só rende bons momentos no fim com a trapalhada que envolve acidentes e um programa de rádio, nada além disso.

Nota: 4,0


O Esquadrão Amazônia foi criado e utilizado como peça promocional no início dos anos 2000 para uma empresa de telefonia da região norte por Joe Bennett, hoje um experiente artista da Marvel e DC. O quadrinhista já espalhou talento por revistas como Homem-Aranha e Vingadores, entre tantas outras. Bennett é paraense, assim como Alan Yango criador do poderoso Maximus, que vem publicando com a regularidade que é possível. Os dois decidiram reviver a ideia de um grupo de super-heróis oriundos da Amazônia e lançaram o projeto para financiamento coletivo, sendo que o primeiro número dessa jornada inicial foi lançado oficialmente no final de 2016. “Esquadrão Amazônia” tem roteiro dividido pela dupla e arte de Bennett com auxílio de Alan Patrick. O resultado em 46 páginas aponta para uma equipe de indivíduos com relação direta com o norte que levam nomes como Açu, Jurema, Búfalo, Onça, Sucuri, Iara e Aruã. Para forjar os poderes são utilizados mitos, tradições, lendas e folclores, um mundo vasto e poderoso nesse sentido. Com a inserção do Maximus na edição, pensa-se mais além ainda, na ambição de um universo próprio compartilhado por todos. A trama de origem em si, a exemplo de outras equipes famosas nos quadrinhos, é simples e funcional. Para deter uma grande ameaça (alienígena, no caso aqui), vários indivíduos com dons e habilidades se reúnem para evitar o caos e destruição. Se isso não apresenta nada de muito novo, planta, porém, a semente para histórias mais elaboradas no futuro. A arte merece destaque não somente pelo traço habilidoso de Bennett, como também por retratar no cenário e nos coadjuvantes a cidade de Belém e suas peculiaridades, assim como as da região. É inegável o apelo que “Esquadrão Amazônia” estampa nessa ressuscitada, tanto para o quadrinho nacional, quanto pela expansão do mercado e fica a torcida para que como está escrito na contracapa a aventura esteja realmente apenas começando.

Nota: 7,5



domingo, 4 de junho de 2017

Literatura: "O Casal Que Mora ao Lado" e "Ninfeias Negras"


Anne e Marco Conti são um casal normal, moram em uma casa confortável e acabam de ter a primeira filha, chamada Cora, que está nos primeiros meses de vida. Entretanto, essa é a apenas a imagem superficial, pois por dentro o casal vive momentos difíceis, com a mãe em depressão pós-parto e o pai repleto de problemas no trabalho. O convite dos vizinhos para um jantar então se apresenta como boa oportunidade para o casal sair um pouco, desopilar a cabeça, socializar com outras pessoas. Contudo, o jantar não anda da melhor maneira e, além disso, os pais precisam ir de meia em meia hora ver como a filha está já que os anfitriões não queriam crianças no local, apenas adultos. Em uma desses visitas a mãe percebe que a filha sumiu, desapareceu. É a partir desse rapto que a escritora Shari Lapena começa a desenvolver “O Casal Que Mora Ao Lado” (The Couple Next Door, no original), livro publicado em 2016 que a editora Record lança no Brasil esse ano. Com 294 páginas e tradução de Márcio ElJaick, a obra ambiciona ser um suspense policial cheio de reviravoltas que adiciona pontualmente novas informações para mudar a percepção do leitor a cada página. Porém, apenas ambiciona e nada mais. A realidade é que a obra é um imenso agregado de chavões do estilo que são escritos de maneira rasa e sem muito ritmo e cometem o erro fatal para um livro de suspense: antecipam costumeiramente suas revelações, aquilo que em teoria deveria surpreender a quem lê e ditar novas direções. Pode enganar ao leitor não muito acostumado a enredos mais elaborados, prova disso são as milhares de cópias vendidas, mas para quem espera sempre algo de um nível maior, “O Casal Que Mora Ao Lado” é um desastre quase que completo.

Nota: 3,0

Leia um trecho aqui:



O pintor francês Claude Monet (1840-1926) é um dos grandes nomes do Impressionismo e suas telas valem uma pequena fortuna. Nos seus quadros eternizou diversas vezes a pequena cidade de Giverny na França, onde nasceu, viveu e retratou ninfeias das mais variadas estirpes. O escritor francês Michel Bussi de “O Voo da Libélula” usou esta cidade como palco para o romance policial “Ninfeias Negras” (Nympheás Noirs, no original), publicado no país de origem em 2011 e que em 2017 recebe edição nacional pela editora Arqueiro. Com 352 páginas e tradução de Fernanda Abreu, a trama começa para o leitor com o assassinato de um renomado e rico médico habitante do local, cheio de pequenos segredos. No entanto, conforme se percebe no decorrer das páginas, a história tem início em anos muito mais distantes, mais longínquos. Conduzido primordialmente por uma senhora que não se identifica logo, mas que observa todos os fatos, a narração também avança para outras duas mulheres fundamentais da obra, uma mais jovem, ainda criança, e uma professora da única escola da cidade. Dividindo a trama nesses três eixos, o autor vai construindo com cuidado cada personagem e coloca o leitor em desavisada situação de conforto que só se quebra na verdade nas páginas finais. A dupla de detetives encarregada do caso merece destaque, com personalidades, gostos e anseios bem distintos, funciona bem, fugindo no que é possível do lugar comum típico dessas orquestrações. Mascarado sobre um romance policial comum, mesmo que bem edificado, “Ninfeias Negras” esconde nas suas linhas pontos interessantes como a intensidade da relação entre as pessoas e a arte, não obstante cutucando um pouco esse mundo, e entra na cabeça do ser humano com intensidade no que tange a medos, privações, egoísmos e perda de esperança, o que faz o livro ir um pouco além.

Nota: 7,5


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Literatura: "Eu Sou o Peregrino" e “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”


Terry Hayes é britânico, mas saiu jovem para a Austrália. Foi repórter nos EUA e além de jornalista é um experiente roteirista de Hollywood (com filmes como “Mad Max 2” e “Do Inferno”). Em 2012 lançou o primeiro romance chamado “Eu Sou o Peregrino” (I Am Pilgrim, no original) que abocanhou o National Book Awards do Reino Unido em 2014 como melhor thriller policial. O livro teve publicação nacional ano passado pela editora Intrínseca, com 686 páginas e tradução de Alexandre Raposo. Como era de se esperar pelo currículo do autor, essa estreia é cinematográfica, intensa, com pulsação acelerada e repleta de ação. Tudo é montado de maneira que seja possível a transposição para a grande tela. E isso não é ruim, pelo contrário. Se por um lado temos algumas soluções “mágicas” como em blockbusters tradicionais, onde o protagonista sempre conta com algum golpe de sorte, por outro lado os capítulos mantêm uma constância que faz com que o calhamaço flua, sem estancar ou deixar a leitura com passagens sofridas. A quantidade elevada de páginas serve para que o autor possa erigir cuidadosamente os perfis dos envolvidos em uma caçada que se espalha pelo mundo. Claro, que o que está em jogo é algo extremo como a salvação do mundo (ou pelo menos dos EUA). O Peregrino que empresta o nome ao título é o codinome de um agente de nível elevado da inteligência americana que durante os anos se mascarou tanto que a identidade original é apenas memória distante. Até que um detetive de homicídios de Nova York lhe desmascara e ele serve de auxílio para um misterioso e elaborado assassinato na cidade. Esse crime desencadeia junto com outros processos a corrida para pegar um hábil saudita que está prestes a jogar uma praga biológica no país. Em meio a pensamentos e teorias, “Eu Sou o Peregrino” é um thriller funcional que como qualquer bom filme de ação cumpre o seu propósito de divertir.

Nota: 7,0



“A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” (La Verité sur I’Affaire Harry Quebert, no original) vendeu mais um milhão de cópias mundo afora, sendo que é interessante perceber após as 576 páginas como algumas coisas se cruzam entre realidade e ficção. O segundo livro do escritor suíço Joël Dicker recebeu elogios e louvores de publicações respeitosas e o transformou em um prodígio que na época do lançamento na França em 2012 tinha 26 anos. O personagem do livro em questão também é um escritor que vira celebridade aos 28 anos quando a estreia no mundo da literatura estoura e transforma a vida. Lançado pela editora Intrínseca em solo nacional em 2014 com tradução de André Telles, a obra tem ponto de partida quando Marcus Goldman, o protagonista, vê os prazos para entrega do segundo trabalho se esgotarem e ele não escreveu uma linha sequer. Esse bloqueio criativo o faz recorrer para o antigo professor, amigo e mentor dos tempos de faculdade, Harry Quebert, um escritor conceituado, na casa onde reside na pequena Aurora em New Hampshire. Enquanto tenta liberar a mente, Goldman vê tudo virar do avesso quando o corpo de uma garota desaparecida em 1975 aparece enterrado no quintal do amigo. Em busca de provar a inocência dele parte em uma investigação própria que o colocará em uma espiral de acontecimentos que revelará não somente lados obscuros das pessoas como destravará aflições e memórias. Com um estilo simples e sem muitos floreios, o autor junta diversos gêneros como romance, suspense, policial e drama psicológico, sem escorregar. Elabora camadas e mais camadas que em determinado momento apresenta um livro, dentro de um livro que é parte de outro livro. Se Jöel Dicker será um grande escritor, isso só o tempo dirá, mas tirando os hiperbólicos exageros direcionados a obra, temos sim um livro notável.

P.S: O personagem Marcus Goldman tem uma aventura posterior em “O Livro dos Baltimore”, lançado esse ano aqui no Brasil.

Nota: 8,0


sexta-feira, 5 de maio de 2017

Quadrinhos: “Star Wars Darth Vader: Vader” e "Super-Ego"


Em 2015 a Marvel iniciou novas séries utilizando o universo de Star Wars. Para o britânico Keiron Gillen (Homem de Ferro) coube elaborar os roteiros com a missão de entrar na cabeça de um dos mais simbólicos vilões da cultura pop mundial: Darth Vader. Com a arte limpa e repleta de detalhes do espanhol Salvador Larroca (X-Men), a dupla contou parte da história da saga sob o ponto de vista do mais tenebroso dos Lordes Sith. Essa fase inicial já fora lançada aqui no Brasil pela Panini Comics em revistas mensais e para quem perdeu a editora reúne agora em um encadernado de capa cartonada as 6 primeiras edições originalmente lançadas nos EUA entre março e agosto de 2015, dando nova chance para quem não leu. São 152 páginas ambientadas logo após a destruição da Estrela da Morte e da batalha de Yavin retratada no primeiro filme da franquia em 1977. A Aliança Rebelde está animada com a inesperada vitória e Vader sofre pressão do Imperador Palpatine por conta disso e é inclusive remanejado para acatar ordens de terceiros. Nesse cenário e ainda buscando coisas pessoais que o Império não tem conhecimento como saber mais sobre o jovem responsável pelo revés e se inteirar de uma provável armadilha preparada contra si pelo próprio lado, Vader recruta uma arqueóloga criminosa chamada Aphra que traz consigo dois droides malucos e assassinos chamados Triple-0 e BT-1. “Star Wars Darth Vader: Vader” é alinhada diretamente com as demais revistas da mesma safra, mas pode ser lida normalmente sem conhecimento destas o que é sempre bom. O desafio de Gillen e Larroca não era dos mais fáceis, pois tratar de algo desse tamanho é sempre delicado no que concerne ao recebimento dos fãs e ainda tentar ir além e agregar novos leitores. A dupla tira isso de letra e mesmo que já se conheça como as coisas vão terminar faz com que a jornada seja tão representativa quando o destino final.

Nota: 7,5


É raro hoje em dia encontrar algo dentro do metiê dos quadrinhos de heróis que já não tenha sido feito ou abordado outrora. Na verdade, é comum agraciarmos novas leituras de ideias já exploradas antes em grau menor ou maior, desde que bem realizadas e com novas nuances adicionadas. Porém, o quadrinhista piauiense Caio Oliveira conseguiu essa façanha em “Super-Ego” lançado no início desse ano. A obra já havia sido publicada virtualmente no Sequential Link (vale bem conhecer o site: http://www.sequentialink.com) e em versão impressa nos EUA pelo selo Magnetic Press. Para a edição nacional o autor recorreu ao financiamento coletivo e o sucesso da empreitada gerou uma publicação cuidadosa, repleta de extras e bônus como várias artes por nomes diversos dos quadrinhos. Com capa de Glenn Fabry (Preacher) a história do Dr. Eugene Goodman (que chama a si próprio de Dr. Ego) traz também as precisas cores de Lucas Marangon sobre a arte de Caio Oliveira. A abordagem central de “Super-Ego” é a seguinte: mesmo com todos os poderes que possuem e a imagem que transmitem para o público em geral, tanto heróis quanto vilões também sofrem (e muito) de angústia, medo, ansiedade, insegurança. Já vimos a premissa antes, lógico, mas não dentro de um consultório e visto pelo olhar do psicólogo que atende esses indivíduos. Caio Oliveira mostra a mesma pegada satírica e bem-humorada já vista em trabalhos seus como “Alan Moore, Mago Supremo” e “All Hipster Marvel” e destroça conceitos e clichês do mundo dos superseres.  Até quando faz revelações na trama e envereda para o clássico embate do bem contra o mal faz isso de maneira inteligente e arrojada, despejando sem perdão complexos e frustrações pelo meio do caminho. Tanto a história quanto os bônus da edição (como as anotações do Dr. Ego sobre cada paciente) fazem de “Super-Ego” desde já um dos melhores lançamentos do ano em terras nacionais. Que venha uma sequência.

Nota: 9,0

Site do autor: http://www.facebook.com/caioscorner      


segunda-feira, 17 de abril de 2017

Quadrinhos: "Superman: Fim dos Dias" e "Thanos: Revelação Infinita"


Chega a dar certa tristeza o que a DC Comics faz com o Superman nos últimos anos. Dentro dos anos 2000, por exemplo, pouco se salva. Várias mentes e mãos se alternaram nesse período e aliadas com as questionáveis decisões editorais raramente produziram material de qualidade e que faça jus a um dos pilares dos heróis nos quadrinhos. E quando se pensa que as coisas não podem piorar, bom, é melhor não duvidar. Amostra recente disso temos no encadernado “Superman: Fim dos Dias” que a Panini Comics coloca agora nas bancas com capa cartonada e 196 páginas. Estão reunidas as revistas Superman (51-52), Batman/Superman (31-32), Action Comics (51-52) e Superman/Wonder Woman (28-29) lançadas em junho e julho de 2016 nos EUA. Trata-se, como o nome supõe, de um encerramento, mais precisamente da fase do Homem de Aço em “Os Novos 52” e que abre caminho para o novo (outro) projeto da DC chamado “Rebirth” (“Renascimento”, por aqui). Esse encerramento é a morte do Superman que detonado por vários eventos anteriores (que são explicados no volume) está exaurido e fraco, descobrindo que vai falecer e não tem saída ou cura para tanto. Ao mesmo tempo em que isso ocorre uma nova gama de desafios surgem enquanto ele busca avisar aos mais próximos o que acontecerá. O foco é deixar as coisas acertadas quando não estiver mais por aqui, contudo tem que lidar com as ameaças que aparecem na forma de três envolvidos que também dizem ser o Superman. Em uma trama confusa criada por Peter J. Tomasi (de “Batman & Robin”), quase nada se salva, somente uma arte aqui e outra ali, o envolvimento com a Mulher-Maravilha e o teor emocional do final. No entanto, “Superman: Fim dos Dias” consegue uma proeza rara: desagradar tantos fãs antigos quanto mais recentes e afastar neófitos das revistas do personagem no futuro. Parabéns a todos os envolvidos. De pé.

Nota: 2,0


Jim Starlin é um dos maiores ases dos quadrinhos quando se fala em temas cósmicos e espaciais. Foi ele que nos anos 70 criou Thanos, o Titã Louco, e com ele produziu sagas memoráveis como “Desafio Infinito”. Mas o trabalho de Starlin vai além. Criou também Dreadstar e fez trabalhos estupendos a frente do Capitão Marvel e também “Morte em Família” e “Odisseia Cósmica” pela DC. São credenciais e tanto, temos que convir. Em 2014 o autor voltou para aquele que já declarou ser seu personagem favorito e concebeu “Thanos: Revelação Infinita”, onde é responsável pelo roteiro e pelos desenhos que contam com a arte-final de Andy Smith. A obra é inserida dentro de uma linha da Marvel chamada OGN (Original Graphic Novels) que apresenta histórias fechadas fora da cronologia normal, porém de acordo com bases já concebidas anteriormente de modo geral. Essa linha já teve os Vingadores e o Homem-Aranha nas primeiras edições e agora abre caminho para um dos vilões mais poderosos e insanos do universo. Jim Starlin exibe um Thanos meio cansado com tudo que aos poucos nota uma inconformidade pairando no ar, algo que diz que as coisas não andam da maneira correta. Isso passa a lhe incomodar e acrescenta o ânimo que faltava para mandar o cansaço embora e sair singrando pelas estrelas atrás de respostas, sendo uma destas de fundamental importância. Como parceiro da missão está o ressuscitado Adam Warlock, um de seus maiores inimigos e o catálogo de personagens estelares da Marvel bate ponto com nomes como Surfista Prateado, Guardiões da Galáxia, Ronan, o Acusador e o Gladiador dos Shiar. “Thanos: Revelação Infinita” tem tudo que os fãs das aventuras espaciais gostam e se deliciam sob a batuta de um mestre desse cenário. Contudo, é uma obra menor do autor com Thanos se compararmos com o que já fez antes. Nem mesmo os mestres conseguem sempre a excelência. 

Nota: 6,0


sexta-feira, 14 de abril de 2017

Literatura: "Léxico" e "Meninos em Fúria"


Uma organização misteriosa e secreta treina jovens com potencial para agirem na persuasão de pessoas, ocultamento de fatos e divulgação de verdades não tão verídicas assim, tudo em nome de um suposto equilíbrio mundial. Esses agentes quando vão ao trabalho de campo deixam seus nomes verdadeiros para trás e assumem os de famosos poetas como novos, já que as palavras são sua arma letal, principalmente as combinações que promulgam para invadir a mente dos alvos e alterarem o seu comportamento. Esse é o mote de “Léxico”, livro do australiano Max Barry que há alguns anos nos brindou com o ótimo “Homem-máquina”. Essa nova aventura do autor foi lançada aqui no país pela editora Intrínseca em 2015 (é original de 2013) e tem 368 páginas e tradução de Domingos Demasi. Em “Léxico” temos ação e bom humor em quantidades generosas e mesmo sendo um livro agradável incomoda por utilizar algumas das premissas já utilizadas em “Homem-máquina”. O protagonista, por exemplo, é uma mistura do Charles Neumann do referido livro e Arthur Dent de “O Guia do Mochileiro das Galáxias” do Douglas Adams. Esse protagonista é Will Parke, um pacato cidadão que de repente se vê no meio de uma tremenda confusão sem saber os motivos para tanto. Do outro lado da história está Emily Ruff, uma jovem que vive na rua fazendo trambiques até ser recrutada pela organização que vê potencial nela (apesar de um “lado sombrio”). E no meio de tudo está T. S. Elliot, um renomado e experiente agente que busca solucionar as broncas. Juntando esses três lados e alternando entre presente, passado e futuro, Max Barry promove uma divertida e descompromissada jornada em busca da salvação mundial, enquanto joga no meio do caminho algumas situações levemente críticas e ácidas em relação a esse mesmo mundo.

Nota: 6,0

Leia um trecho diretamente do site da editora, aqui.


 “Nós estamos aqui para revolucionar a Música Popular Brasileira, para dizer a verdade sem disfarces (e não tornar bela a imunda realidade): para pintar de negro a asa-branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores de Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer”.

O polêmico e enérgico trecho acima é do final do movimento punk escrito por Clemente Tadeu Nascimento no início dos anos 80. O líder da banda Inocentes, na ativa até hoje, é ícone dessa geração e revê essa época no livro “Meninos em Fúria” em parceria com o escritor Marcelo Rubens Paiva (de “Feliz Ano Velho” e “Blecaute”, entre outros) que também viveu esses momentos e se envolveu neles. Com lançamento pelo selo Alfaguara da Companhia das Letras no ano passado tem 224 páginas e apresenta o subtítulo “E o som que mudou a música para sempre”. Guardadas as dimensões do que essa frase enseja, o livro retrata os primórdios do punk no Brasil e como ele caminhou nesses primeiros anos entre preconceitos, brigas de gangues, acordes rápidos, afirmação e revolta de uma turma que não se sentia representada por nada daquilo que o país exibia de maneira geral. O texto construído na obra esbanja fluidez e se permite transitar não somente pela música que retrata e dá mote ao livro, como também pelas experiências pessoais dos autores, o crescimento e as dúvidas de cada um, além de passar sabiamente pelo começo do processo de abertura política do país, fruto de uma ditadura que deixou corpos e anos tenebrosos no meio do caminho. “Meninos em Fúria” pode ser entendido como um valioso instrumento histórico, retrato parcial de um tempo que hoje já parece distante (mas não é), contudo pode ser entendido também como um romance juvenil e de descoberta envolto em música, namores, sexo, drogas, álcool e muito inconformismo, sendo que por onde quer que se entenda funciona muito bem.

Nota: 8,0

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Literatura: “Infinita Highway: Uma Carona com os Engenheiros do Hawaii” e "Objetos Cortantes"


Dentro do rock nacional nascido nos anos 80 a banda Engenheiros do Hawaii era difícil de compreender. Com a figura controversa de Humberto Gessinger na frente vendeu mais de 100 mil de todos os discos da estreia de 1986 (“Longe Demais das Capitais”) até 1993 (“Filmes de Guerra, Canções de Amor”) e estourou com “O Papa é Pop” de 1990 que a levou para estádios, programas dominicais e tudo mais. Humberto colocou em livro em 2009 (“Pra Ser Sincero”) uma boa parte das aventuras desde o primeiro show, mas isso do ponto de vista dele, o que deixou de fora aquilo menos louvável em uma trajetória. “Infinita Highway: Uma Carona com os Engenheiros do Hawaii” do jornalista gaúcho Alexandre Lucchese chegou ano passado com a missão de dissecar esse fenômeno de modo mais amplo e explicar tamanha adoração pelo grupo e seu dono até hoje, uma vez que ele continua fazendo shows cheios pelo Brasil, mesmo que em intensidade menor. Com extenso trabalho de pesquisa, 328 páginas e publicação da editora Belas Letras, o livro apresenta a banda desde a formação em 1985 que seria para um único show até “Simples de Coração”, disco de 1995 que foi o último do baterista Carlos Maltz. Entre o vislumbre, a inadequação e o profissionalismo nos mostra perfis de artistas talentosos, mas pouco a vontade com o processo do negócio. Narra também as saídas de Carlos Stein (que depois fundaria o Nenhum de Nós), de Marcelo Pitz (baixista da estreia) e principalmente de Augusto Licks, o ótimo e experiente guitarrista que transformou a música do grupo. É um livro indicado para fãs, mas que não consegue avançar além, trazendo observações repetidas sem meter o dedo nas feridas com a intensidade que se esperava, além de ter decisões questionáveis como inserir depoimentos de fãs totalmente desnecessários. Assim como a banda, alterna boas e interessantes passagens com outras tão chatas como as músicas mais enfadonhas do grupo.

Nota: 5,0

Twitter do autor: http://twitter.com/alexandrelucche 



Com “Garota Exemplar” a escritora Gillian Flynn se tornou conhecida em boa parte do mundo, ainda mais depois da ótima adaptação cinematográfica feita pelo diretor David Fincher em 2014. No ano seguinte a editora Intrínseca lançou no Brasil a estreia dela chamada “Objetos Cortantes” (Sharp Objects, no original), que saiu nos EUA em 2006. Com 256 páginas e tradução de Alexandre Martins a obra tem como protagonista Camille Preaker que trabalha em um pequeno jornal de Chigago, longe dos líderes do setor. Por essa razão que o editor resolve enviá-la a pequena e pacata Wind Gap, no estado do Missouri, cidade onde ela cresceu e passou boa parte da vida. O intuito é fazer uma matéria sobre dois assassinatos de crianças que os grandes jornais ainda não prestaram atenção, pois estão voltados para outros assuntos, e assim dar um furo a pequena empresa. Receosa e muito relutante, Camille se manda para a cidade natal para ficar na casa da mãe que nunca se deu nada bem, do padrasto que mal fala e da pequena meia-irmã que não conhece direito. Durante o livro além de mostrar todas as agruras passadas e as marcas que deixaram na personagem principal, a autora leva o interesse pelo caso devagarinho para o caminho da obsessão, enquanto preenche os espaços com coadjuvantes repletos de segredos e disfunções. Em “Objetos Cortantes”, Gillian Flynn faz um suspense sombrio e digno, já expondo as qualidades que usou com grande destreza na obra de maior sucesso, como deixar a ambiguidade sempre presente e fazer um reviravolta na trama quando o leitor menos espera. A autora que já viu dois livros virarem filme (o já citado “Garota Exemplar” e também “Lugares Escuros”) verá “Objetos Cortantes” se transformar em série que por enquanto tem produção da HBO e a estupenda Amy Adams no papel de Camille Preaker. Nada mal.

Nota: 7,0

Site da autora: http://gillian-flynn.com


Leia um trecho do livro, aqui.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

"Quadrinhos": "Doutor Estranho - Shamballa" e "Ruínas"

Você tem nas mãos a oportunidade de conduzir a humanidade para uma nova época resplandecente e brilhante onde todo o potencial será alcançado na totalidade e o mundo será um lugar de paz e harmonia. Porém, tem um problema, um inimaginável problema no meio. Para que isso ocorra boa parte da população precisa ser obliterada, 3/4 para ser bem exato, e é você que ditará o processo. Parece papo de cientista maluco, de alguma seita radical ou de um tirano fanático, mas é essa situação que Stephen Strange precisa lidar em “Doutor Estranho - Shamballa” que a Panini Books relançou no país no final do ano passado com 68 páginas, capa dura e formato um pouco diferente do usual (21 x 28cm). Publicada em setembro de 1986 nos EUA, o álbum já tinha ganhado publicação anterior aqui no final dos anos 80 pela editora Abril, mas nem se compara ao capricho e o papel dessa nova edição. O argumento é elaborado em conjunto por J. M. DeMatteis (Moonshadow) e Dan Green (Wolverine), sendo que este último assume sozinho a belíssima arte pintada. A trama inicia quando no aniversário de morte de seu antigo mestre, o Doutor Estranho resolve voltar ao Himalaia para prestar homenagem ao Ancião, mas descobre que este lhe deixou uma incumbência nada fácil de ser resolvida. A missão é aceita com um pouco de dúvida no início e é levada adiante devido a confiança do Mestre das Artes Místicas no mentor e amigo. Entretanto essa dúvida vai aumentando no decorrer da sua ação levando o personagem principal a uma rota que inclui conhecimento pessoal, briga com o passado e a pressão das escolhas. Na verdade, “Doutor Estranho - Shamballa” é sobre isso, o poder das escolhas e o preço cobrado por elas, sendo envolvida por uma arte encantadora e um roteiro bem elaborado.
Nota: 7,0


Peter Kuper nasceu em 1958 nos Estados Unidos e se destacou no mundo dos quadrinhos por conta da revista “World War 3 Illustraded” e da tirinha “Spy Vs. Spy” que sai pela “MAD Magazine” desde o final dos anos 90, porém têm diversas outras obras no currículo que trazem sempre que possível um afiado olhar crítico tanto político, quanto social.  Uma dessas obras foi lançada aqui na Comic Con Experience do ano passado onde o autor esteve conversando e dando autógrafos. “Ruínas” (Ruins, no original) é de 2015 e chegou ao país pelo selo Jupati Books da Marsupial Editora. São 326 páginas de uma história magistralmente construída pelo autor e com uma arte do grau mais elevado possível. Peter Kuper entrelaça em “Ruínas” a busca de um casal para se encontrar com a viagem de uma borboleta monarca que migra do Canadá para o México e se constitui como observadora afiada. Samantha e George saem de Manhattan para Oaxaca no México para um ano sabático, onde a esposa quando jovem já passou um período e deixou alguns fantasmas. Ela em teoria vai para acabar de escrever um livro e ele, desempregado, para se renovar e projetar novos caminhos. Todavia, mais no fundo está o objetivo maior de deixar o casal mais alinhado e resolver questões pertinentes como a geração ou não de um filho em um mundo tão caótico e destrutivo. Mas o ambiente mexicano oferece outras nuances e quando menos se espera os dois estão envolvidos na briga política que acontece na região, com greves, opressões, corrupções e abuso policial. Enquanto isso a borboleta monarca passa por cidades com violência explodindo, fábricas contaminando o ar e rios completamente poluídos atestando todo o nosso cuidado com o mundo em que vivemos. “Ruínas” ganhou o conceituado prêmio Eisner no ano passado de melhor álbum gráfico, o que é justíssimo, pois de onde se olhe e como se veja é uma obra sensacional em todos os quesitos.

Nota 10,0


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Quadrinhos: "Astronauta - Assimetria" e "Você é um Babaca, Bernardo"


Quando “Astronauta - Magnetar“ foi publicado em 2012 talvez não se imaginasse que a iniciativa de fazer uma linha de graphic novels com os tradicionais personagens de Mauricio de Sousa fosse dar tão certo e chegar a 14 álbuns no total em menos de 5 anos, sem contar ainda os que estão por vir. Era incontestável o apelo de personagens tão cravados na mente do público, no entanto a empreitada avançou mais do que se ambicionava em números e, principalmente, qualidade. Danilo Beyruth (Bando de Dois) que iniciou essa jornada voltou a mais uma história com o viajante espacial em 2014 com “Astronauta – Singularidade” e no final do ano passado novamente com “Astronauta – Assimetria”. Se a segunda incursão não convenceu tanto assim em relação a estreia, dessa vez o resultado é do mesmo nível. Com páginas a mais do que antes (são 98 agora), a edição da Panini Comics que está disponível mais uma vez em dois formatos de capa (cartonada e dura) é uma história que pode ser lida individualmente, mas que sabiamente mantém vínculo e referências com as jornadas anteriores. Beyruth assume o roteiro e a arte (agora digital) e as cores ficam na responsabilidade de Cris Peter, que tira a missão de letra como de costume. Na trama, o Astronauta está na Terra descansando da última missão quando vê sua amada Ritinha na rua com uma criança e entra em parafuso voltando para a sede da BRASA (Brasileiros Astronautas) em busca de uma tarefa que lhe faça esquecer. Parte então para Saturno e vai se deparar com forças maiores do que está acostumado e uma situação inusitada ao final. Com quadros grandes, o autor consegue se aprofundar cada vez mais no personagem que assumiu, dando tons e novas modulações, ampliando o que já estava feito. Além disso, presta uma bonita homenagem a Jack Kirby com a inserção de figuras que remetem a trabalhos clássicos do mestre.

Nota: 8,0


Alexandre S. Lourenço já vinha fazendo bonito nos seus quadrinhos online e em “Robô Esmaga”, reunião de parte desse trabalho publicado em 2015. Em setembro do ano passado apresentou uma obra ainda mais interessante na primeira aventura mais longa que encara, longe das pequenas tiras habituais. “Você é um Babaca, Bernardo” tem 132 páginas e foi lançado pela editora Mino trazendo algumas ideias já exploradas antes pelo autor como cotidiano, rotina e inadequação social, mas embaladas em uma versão apurada e com apresentação sequencial. Mantendo o traço minimalista e quase não utilizando de quadros tradicionais, expondo novamente a experimentação que gosta de fazer, criou uma história arrebatadora sobre temas que em teoria não são interessantes no seu cerne, mas estão presentes em todos os lugares, em cada esquina. A maneira que encontra para narrar o dia a dia do personagem principal é notável e faz o leitor ficar atento a cada pequeno detalhe que insere gradativamente. Bernardo é um cara comum, com uma vidinha ordinária e sem quaisquer surpresas. Acorda, se arruma, vai ao trabalho, volta para casa, assiste televisão e dorme. No outro dia faz tudo de novo. Às vezes vai ao trabalho de ônibus, outras de bicicleta, porém sempre se posicionando no mesmo cubículo até a hora de retornar para casa. Rotina, rotina e mais rotina até que uma garota cruza o caminho e as coisas passam a ser olhadas por outro viés. Em “Você é um Babaca, Bernardo”, Alexandre S. Lourenço explora a relação entre mente e corpo, entre desejo e acomodação, entre inércia e vontade. Uma briga que no cansaço da vida é vencida na maioria das vezes pela opção mais fácil, o que acaba por deixar tudo mecânico e insosso. Explorando sabiamente esses pontos o autor apresenta uma obra que faz o leitor ponderar sobre o estado atual das coisas.

Nota: 9,0