sexta-feira, 16 de maio de 2014

“Crazy Diamond – Syd Barrett e o Surgimento do Pink Floyd” - Mike Watkinson e Pete Anderson

Como afirmar se uma vida realmente valeu a pena? São tantos pesos, tantas medidas e tantas considerações que podem fazer parte desse questionamento inicialmente simples, que no fim, nenhuma resposta parece ser a correta. Ter uma vida pacata, sendo um cidadão de bem e feliz dentro da sua tranquilidade, valida uma vida? Ou é necessário criar grandes obras, ser reconhecido no seu círculo e esbanjar criatividade mesmo que em poucos anos de brilho? É bem difícil afirmar.

O inglês Roger Keith Barrett transitou por essas duas pontas. É o que vemos no livro “Crazy Diamond – Syd Barrett e o Surgimento do Pink Floyd”, que a Sonora Editora lançou aqui no ano passado, com 224 páginas e tradução de Maíra Contrucci Jamel. Escrito a quatro mãos por Mike Watkinson e Pete Anderson, a obra teve a primeira edição lá fora em 1991, ganhando novos adornos depois do falecimento do biografado em 2006, na sua acolhedora e querida Cambridge que utilizou como exílio voluntário na maior parte da vida.

“Crazy Diamond” é um trabalho valoroso para os fãs do Pink Floyd e interessante para amantes da arte pop em geral. Trata da formação da banda, quando Syd Barrett conhece Nick Mason, Roger Waters, Richard Wright e David Gilmour, que posteriormente lhe substituiria no grupo. Do estouro local quando os primeiros singles “Arnold Layne” e “See Emily Play” os levaram a programas como o “Top Of The Pops” até a derrocada e a saída da banda em 1968 encontramos um personagem repleto de singularidades.

Ele era o “dono” da banda nesse início. Compunha, cantava e tocava guitarra. Esse reflexo dinâmico pode ser visto no álbum de estreia do Pink Floyd de 1967, o clássico “The Piper At The Gates Of Dawn”. Já no segundo trabalho de 1968, “A Saucerful Of Secrets”, ele pouco participou (uma boa exceção é “Jugband Blues” que fecha o trabalho), e depois da saída a sua criatividade ainda apareceu (mesmo que de modo camuflado e confuso) nos discos solo “The Madcap Laughs” e “Barret”, ambos de 1970.

Características do artista como a inovação e a inclusão de nuances pouco usuais na época, se por si só não podemos afirmar que criaram a psicodelia, foram fundamentais para que esta acontecesse. No entanto, isso tem um preço, e nos anos 60 esse preço vinha pelo poder do ácido, que foi responsável por fazer que Syd Barrett alternasse de humor e visse sua maestria ir embora pouco a pouco pelo demasiado consumo de substâncias do tipo. Substâncias que afloravam o sentimento de inquietude que sempre lhe acompanhara.

Um dos pontos positivos do livro é apontar que sem a saída de Syd Barret do Pink Floyd, a banda nunca teria acontecido da maneira que aconteceu, assim como, que a ideia vendida de que ele fora escorraçado do grupo e rejeitado pelos integrantes posteriormente é mera bobagem. Ele simplesmente não tinha como continuar, aliás, ele não queria continuar. E o Pink Floyd sempre teve que viver com a sua sombra pairando em entrevistas, artigos e matérias de tevê, enquanto ele escolheu a paz da cidade natal para se recuperar e viver.

O trabalho vivaz e a seguinte queda encontra paralelo em outros artistas como Brian Wilson dos Beach Boys, Peter Green do Fletwood Mac, ou, guardadas as devidas proporções, em Arnaldo Baptista dos Mutantes. O preço de viver loucamente a época cobrou seu preço e a volta se tornou uma difícil missão. Para Syd Barrett, essa volta nunca aconteceu. Nunca mais gravou nada depois desse período e nem quis mais conversa, apesar de receber propostas tentadoras de gravadoras dispostas a usufruir do mito criado.

“Crazy Diamond” demonstra não somente a intensidade do artista, como também sua importância, mas fica no ar a questão de como o rock, e por extensão a música pop, cria controversas auras de magnetismo. Como pode provocar tanto fascínio uma obra tão pequena (em quantidade)? E fica mais fascinante ainda ser oriunda de um cara atípico onde as canções falam de temas não muito básicos e tem formatações e construções diferentes do pop costumeiro, ainda que as melodias apontem para esse lado.

Isso, só a música pode explicar. E é aí que reside boa parte da sua graça.

P.S: Para neófitos, uma coletânea dupla chamada “Wouldn’t You Miss Me” de 2001 é totalmente recomendável (e encontra-se aí pela rede).

Nota: 8,0


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